Tenho consciência de que não fui a melhor das mães, mas me esforço
para que meus netos tenham boas recordações da avó. São cinco, entre os quais
está a pequena Alice, de oito anos.
— Vovó, preciso da sua ajuda.
— O que foi, Alice?
— A professora passou um trabalho, mas eu não
sei desenhar.
Ao ouvir o desespero na voz da minha neta,
senti que aquilo fosse por conta da carga genética que passei para meu filho,
que, por conseguinte, repassou para a filha. Mesmo assim, era meu dever como
avó socorrer a criança, apesar de eu, nos meus longínquos tempos de escola,
jamais ter sido conhecida como a nova Tarsila do Amaral.
Antes de
ir ao apartamento da Alice, passei numa papelaria para comprar uma cartolina.
Pensei em comprar logo cinco. Não era possível que minha neta e eu fôssemos falhar
mais do que quatro vezes. Na dúvida, comprei dez. Vá que...
Assim que
cheguei, a menina me deu aquele abraço tão apertado, que não consegui evitar de
verter algumas lágrimas.
— Vovó,
por que tá chorando?
— Nada,
Alice, não é nada.
— Eu
apertei você com muita força?
— Não,
Alice.
— E por
que você tá chorando?
— Deve
ser por conta da alergia.
—
Alergia?
— É.
— Alergia
de quê?
— Ah,
coisa de velha, Alice.
Minha
neta ficou me encarando por um instante, até que viu aquele monte de cartolinas
na sacola. Ela abriu aqueles enormes olhos castanhos e sorriu.
— Vovó, você comprou todas as cartolinas do mundo?
Bem,
não comprei exatamente todas as cartolinas do mundo, mas creio que o suficiente
para que minha neta não passasse vergonha ao entregar o trabalho para a
professora. Seja como for, tratamos de começar a tarefa, mesmo porque Alice
precisaria entregá-la no dia seguinte.
Enquanto aquela garotinha mostrava todos seus
dotes artísticos sobre a cartolina, eu me questionava sobre o tema:
desmatamento. Alice, no alto da sabedoria dos seus oito anos, propôs retratar a
devastação do Cerrado, cuja vegetação há tempos é substituída por plantação de
soja e pasto para o gado. Infelizmente, essa é uma realidade que devasta o meio
ambiente, e que nos atinge a todos.
Findo o trabalho, constatei que a minha neta,
mesmo que não venha a se tornar a nova Tarsila, passou longe dos meus traços disformes.
Ela me agradeceu por tê-la ajudado, mas o máximo que fiz foi opinar em relação
às cores. Em seguida, foi guardar as outras nove cartolinas, que nem foram
utilizadas.
Na manhã seguinte, lá estava para levar
Alice para escola. A menina carregava a cartolina aberta, o que me causou certa
aflição.
— Alice, não é melhor enrolar a cartolina?
— Não, vovó.
— Mas aberta desse jeito pode rasgar.
— Não, vovó. Melhor ficar aberta.
— Mas por quê?
—
Porque as pessoas precisam saber o que está acontecendo com a natureza.
- Nota de esclarecimento: O conto "Herança artística" foi publicado por Notibras no dia 29/3/2025.
- https://www.notibras.com/site/a-natureza-e-o-cerrado-so-sobreviverao-se-todos-enxergarem-o-obvio/
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