sábado, 29 de março de 2025

Herança artística

    

Tenho consciência de que não fui a melhor das mães, mas me esforço para que meus netos tenham boas recordações da avó. São cinco, entre os quais está a pequena Alice, de oito anos. 

          — Vovó, preciso da sua ajuda.

          — O que foi, Alice?

          — A professora passou um trabalho, mas eu não sei desenhar.

          Ao ouvir o desespero na voz da minha neta, senti que aquilo fosse por conta da carga genética que passei para meu filho, que, por conseguinte, repassou para a filha. Mesmo assim, era meu dever como avó socorrer a criança, apesar de eu, nos meus longínquos tempos de escola, jamais ter sido conhecida como a nova Tarsila do Amaral.  

        Antes de ir ao apartamento da Alice, passei numa papelaria para comprar uma cartolina. Pensei em comprar logo cinco. Não era possível que minha neta e eu fôssemos falhar mais do que quatro vezes. Na dúvida, comprei dez. Vá que... 

        Assim que cheguei, a menina me deu aquele abraço tão apertado, que não consegui evitar de verter algumas lágrimas.

        — Vovó, por que tá chorando?

        — Nada, Alice, não é nada.

        — Eu apertei você com muita força?

        — Não, Alice.

        — E por que você tá chorando?

        — Deve ser por conta da alergia.

        — Alergia?

        — É.

        — Alergia de quê?

        — Ah, coisa de velha, Alice.

        Minha neta ficou me encarando por um instante, até que viu aquele monte de cartolinas na sacola. Ela abriu aqueles enormes olhos castanhos e sorriu.

          — Vovó, você comprou todas as cartolinas do mundo?

         Bem, não comprei exatamente todas as cartolinas do mundo, mas creio que o suficiente para que minha neta não passasse vergonha ao entregar o trabalho para a professora. Seja como for, tratamos de começar a tarefa, mesmo porque Alice precisaria entregá-la no dia seguinte.

          Enquanto aquela garotinha mostrava todos seus dotes artísticos sobre a cartolina, eu me questionava sobre o tema: desmatamento. Alice, no alto da sabedoria dos seus oito anos, propôs retratar a devastação do Cerrado, cuja vegetação há tempos é substituída por plantação de soja e pasto para o gado. Infelizmente, essa é uma realidade que devasta o meio ambiente, e que nos atinge a todos. 

          Findo o trabalho, constatei que a minha neta, mesmo que não venha a se tornar a nova Tarsila, passou longe dos meus traços disformes. Ela me agradeceu por tê-la ajudado, mas o máximo que fiz foi opinar em relação às cores. Em seguida, foi guardar as outras nove cartolinas, que nem foram utilizadas.

          Na manhã seguinte, lá estava para levar Alice para escola. A menina carregava a cartolina aberta, o que me causou certa aflição.

          — Alice, não é melhor enrolar a cartolina?

           — Não, vovó.

           — Mas aberta desse jeito pode rasgar.

           — Não, vovó. Melhor ficar aberta.

           — Mas por quê?

           — Porque as pessoas precisam saber o que está acontecendo com a natureza.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Herança artística" foi publicado por Notibras no dia 29/3/2025.
  • https://www.notibras.com/site/a-natureza-e-o-cerrado-so-sobreviverao-se-todos-enxergarem-o-obvio/

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