A idade poderia ser encurtada ou
esticada, dependendo da boa ou má vontade do observador. Também não chegava a
ser um tipo incomum, apesar dos grandes olhos castanhos adornados com cílios
tão grandes, que poderiam causar dúvida se eram originais ou postiços. Nem
bonita nem feia, mas tinha lá seus encantos.
— Stela.
— De quê?
— Colina.
— Colina?
— Sim.
— Nunca vi.
— Na minha família tem um monte.
— É óbvio que tem.
— Conhece?
— Conheço o quê?
— A minha família.
— Não! Por que conheceria?
— É que você disse que era óbvio.
Costumava fazer isso como uma forma de treino, já que carregava
a dúvida sobre o dia de amanhã. Vá que os fascistas cheguem ao poder novamente.
Stela Colina, diante dos alunos no curso de direito, fazia
questão de promover um minuto de silêncio logo após adentrar no recinto. E,
antes da plateia demonstrar inquietação, proferia: "Talvez uma das coisas
mais difíceis de você ser no interrogatório é inocente. Você não sabe nem do
que se trata."
Tortura. Era esse o tema a ser tratado, enquanto opiniões
diversas pululavam assim que a professora promovia o debate.
— Sou contra!
— Sou a favor!
— Depende.
— Depende do quê?
— Ah, de quem for torturado?
Stela, diante de tais opiniões, se dirigiu ao quadro e escreveu
em letra garrafais: "A lei que não protege o meu inimigo não me serve." (Ruy
Barbosa)
— Professora, a senhora escreveu Ruy com
ípsilon.
— Sim. Fiz isso em respeito à grafia que
consta na certidão de nascimento e de todos os demais documentos de um dos
nossos maiores juristas.
Stela, assim que terminou a aula, viu os
estudantes pegarem seus pertences e saírem da sala. Ela imaginou que, entre
aqueles jovens, talvez um ou outro se tornasse proeminente figura pública.
Pensou por algum tempo antes de ir embora e, sem mais se lembrar do caminho
percorrido, logo se encontrava na varanda do apartamento, xícara de café nas
mãos, tentando desvendar o que estava por detrás do horizonte, muitas vezes
sombrio.
— Stela.
— De quê?
— Colina.
— Colina?
— Sim.
— Nunca vi.
— Na minha família tem um monte.
— É óbvio que tem.
— Conhece?
— Conheço o quê?
— A minha família.
— Não! Por que conheceria?
— É que você disse que era óbvio.
Vá que...
- Nota de esclarecimento: O conto "Preparando-se para o pior" foi publicado por Notibras no dia 28/3/2025.
- https://www.notibras.com/site/stela-pragmatica-via-a-tortura-sob-dois-angulos-depende-quem-seja-a-vitima/