quinta-feira, 2 de maio de 2024

O assassino do pé esquerdo

    

Corrida macabra

          Celina, como de costume, acordou antes do galo cantar. Não que houvesse algum, a não ser aquele de louça sobre a estante da sala. De meias, caminhou com cuidado para não fazer barulho e acabar acordando a Clarinha, a vira-lata de dois anos, que continuava roncando na almofada ao lado. 

          A mulher preparou uma xícara de café. Nada de açúcar. Nas últimas semanas, Celina vinha travando uma luta contra a balança. Não que estivesse muito acima do peso, mas queria perder dois ou três quilos para o carnaval que se aproximava. 

          Duas torradas com pouco de manteiga completaram o dejejum, degustadas em frente à janela do apartamento ali no Sudoeste. Ela observou uma mangueira carregada e, em seguida, foi tomar banho. 

          Assim que saiu do chuveiro, enrolou-se na toalha. Passou a mão no espelho, que estava embaçado. Abriu a toalha e tentou admirar o próprio corpo refletido. Quarenta e quatro anos. Insatisfeita, torceu os lábios. Foi o bastante para tomar coragem e ir dar uma corrida no Parque da Cidade. 

          A cachorra ainda estava dormindo quando a mulher amarrou o último cadarço do par de tênis. Celina cutucou a companheira com a ponta dos dedos.

          — Levanta, preguiçosa! Ou você quer ficar gorda que nem aquele buldogue do 301?

          Pouco tempo depois, Celina, com Clarinha no banco ao lado, dirigiu até o estacionamento do Parque da Cidade. Durante o trajeto, foram ouvindo "O mundo é maior que teu quarto", sucesso do TNT, antiga banda gaúcha. 

          Assim que desceu do veículo, a mulher começou a se alongar. Tomou fôlego e iniciou a corrida lentamente, sempre com a cachorra aos seus pés. Estava certa de que aquilo não seria tão difícil. Todavia, menos de dez minutos após, o corpo pareceu sentir a longa ausência de exercícios. Exausta, sentou-se na grama ao lado da pista. 

          Abriu a garrafa de água e tomou um longo gole. A vira-lata, todavia, parecia mais animada e foi explorar o local. Não tardou, começou a latir insistentemente em frente a uma lixeira. 

          — Clarinha, sua doida! Volta aqui!

          A cachorra não obedeceu, o que obrigou a mulher a se levantar e ir ver o que tanto a afligia. Caminhou dolorida até a lixeira. Celina a logo notou que havia um saco plástico preto. Curiosa, abriu-o com cuidado até que um grito de desespero lhe tomou por completo. Era um pé! Um pé humano. Decepado na altura do calcanhar. 

Um pé sem corpo

          A polícia civil foi acionada e, em seguida, lá estavam os agentes Mariane, Pedro e Gustavo, responsáveis pelo caso. A perícia criminal logo chegou ao local, onde foram tiradas fotografias e o pé sem corpo foi meticulosamente depositado em um saco plástico. Foi preciso colocar um cordão de isolamento, tamanho o número de curiosos que se aglomerou. 

          Sentada a menos de 10 metros, Celina acariciava sua vira-lata, quando, então, os policiais se aproximaram. Os olhos arregalados da mulher demonstravam que ela ainda não havia digerido aquela situação tão traumática. Traumática até demais, diga-se de passagem.

          — Foi a senhora que encontrou o pé, não foi? - Mariane perguntou.

          — Não. Na verdade, foi a Clarinha.

          — Clarinha? E onde está essa Clarinha?

          — Bem aqui - Celina apontou para a cachorra.

          — Ah, tá!

          Mariane coletou o depoimento informal de Celina e, em seguida, lhe entregou uma intimação para que ela comparecesse à delegacia na semana seguinte. Apesar de não ser uma testemunha do suposto homicídio, era, até aquele momento, a primeira ponta da investigação. 

          Assim que foi liberada, a mulher e a vira-lata entraram no veículo, estacionado logo ali, e foram embora. Celina, que acordara pensando em correr para manter o corpo em forma, constatou que precisava marcar urgentemente nova consulta com sua psicóloga. A última, de acordo com os seus cálculos, havia sido há quase três anos, logo depois que se separou do marido.

          Enquanto isso, Mariane, Pedro e Gustavo permaneceram no Parque da Cidade, onde procuraram alguma câmera que pudesse ter captado imagens do autor do fato. Nenhuma. Eles precisariam esperar pela perícia. Talvez alguma digital fosse coletada ou, então, alguém reclamaria por um pé desaparecido. Seja como for, a imprensa havia chegado ao local, e os agentes resolveram voltar para a delegacia, mesmo porque o delegado Hudson já estava fazendo os últimos preparativos para a entrevista que iria conceder. 

    Abaixo dos maléolos

          A perícia constatou que o pé encontrado havia sido cortado abaixo dos maléolos. Um corte preciso, o que indicava que o autor era, no mínimo, alguém que entendia de anatomia. Médico? Veterinário? Açougueiro? Essas foram algumas das possibilidades levantadas pelos policiais Mariane, Pedro e Gustavo, assim que receberam o laudo. 

          A despeito da profissão, a vítima calçava 39 e, tudo indicava, se tratava de um homem. Não pelo tamanho, haja vista ser a numeração de muitas mulheres. Era por conta da aparência cheia de cutículas, sem falar na enorme profusão de sujeira debaixo das unhas, especialmente do dedão. 

          Quanto às digitais, elas não bateram com nenhuma dos bancos dos dados. Isso porque as chances eram mínimas, pois apenas as digitais dos pés só eram coletadas de alguns indivíduos que tivessem passado pelo sistema prisional. Foi coletado material para um possível futuro teste de DNA.

          Sem muitas pistas, o trio precisava de algo mais concreto para prosseguirem a investigação. Há quase 10 dias, a testemunha, Celina, havia sido ouvida na delegacia. Entretanto, não foi possível revelar nada além do que os agentes já soubessem. Por isso, ela foi dispensada assim que assinou a oitiva. Provavelmente, nunca mais voltaria à delegacia, a não ser, é claro, que fosse registrar outro ocorrido como, por exemplo, um extravio de documento ou um acidente de trânsito sem vítima.  

          Mariane deu a ideia de fazerem campana naquela noite no Parque da Cidade. Seus colegas estavam cientes de que aquilo era quase como procurar uma agulha no palheiro. No entanto, sem melhores perspectivas pela frente, Pedro e Gustavo concordaram.

          Os três entraram na viatura descaracterizada e, antes que rumassem para o local combinado, passaram na rodoviária, onde compraram algumas latas de refrigerante e meia dúzia de pastéis.  Quatro de carne para os rapazes, dois de queijo para Mariane. Ela, há quase seis meses, após assistir a um documentário sobre criação e abate de animais, passou a evitar carne.

          A mulher estava ao volante e, assim que a viatura entrou no Parque da Cidade, ela resolveu estacionar a pouco mais de 200 metros da lixeira onde o pé havia sido encontrado. Desligou o veículo, apagou os faróis. Agora era travar uma batalha contra o tédio e tentar espantar o sono, que, invariavelmente, era mais um adversário a ser enfrentado. 

          Após quase três horas de campana, os três agentes estavam enfastiados não apenas pelos pastéis e refrigerantes, mas pela mesmice da situação. Pedro, talvez o mais agoniado, sugeriu que fossem embora. Gustavo olhou para Mariane, que concordou. Todavia, antes que ligasse o automóvel, um outro veículo estacionou a aproximadamente 500 metros. Os agentes decidiram aguardar o desenrolar daquela situação.

          Quase meia hora de espera. Ninguém havia saído do veículo observado pelos policiais. Pedro sugeriu que fosse feita a abordagem. Mariane e Gustavo concordaram. 

          Os policiais desceram da viatura e, cautelosamente, rumaram em direção ao automóvel suspeito. O silêncio era quase ensurdecedor, caso não fosse pela voz da Mariane, que, em sussurros, orientou a posição dos colegas. Pedro ficou encarregado de se posicionar na traseira do automóvel, enquanto Gustavo ficaria com a parte direita. Mariane, que iria fazer a abordagem, foi até a porta do motorista.

          Arma em punho, Mariane deu dois toques no vidro do automóvel e, em seguida, dois passos atrás. Voz firme, mandou que o motorista saísse do carro. Não tardou, um homem abriu a porta.

          — Polícia! Saia do veículo, senhor!

          Um homem de mais de um metro e oitenta, uns 100 quilos, saiu. Ele tentava fechar o zíper da calça, enquanto o passageiro, aparentando ainda mais constrangimento, abriu a outra porta e se deparou com Gustavo.

          Feita a abordagem de praxe, os dois homens foram dispensados pelos policiais. Mariane, Pedro e Gustavo tiveram certeza de que aqueles sujeitos não seriam responsáveis por qualquer crime, isto é, pelo menos não pelo crime pelo qual estavam investigando naquele momento. A campana terminou naquele instante.

Catador de latinhas

          Valdir, aposentado há alguns meses, tentou arrumar novo emprego. No entanto, sem muita expectativa de encontrar algum por conta da idade, resolveu faturar vendendo material para reciclagem. Além do dinheiro, também mantinha a ginástica em dia, já que andava pelas quadras da Asa Sul à procura de latinhas, cujo alumínio era vendido a peso de dólar. 

          Com duas enormes sacolas nas mãos, o homem parecia não estar com muita sorte. Desceu até a altura da 306, quando percebeu algumas latas de cerveja próximas a um contêiner. Eufórico, apressou o passo.

          Depois de encher todas as sacolas, ainda deu uma olhada em volta. Nenhuma. Olhou dentro do contêiner e viu uma solitária lata de refrigerante ao fundo. Ergueu o corpo e perdeu o equilíbrio. Por pouco não caiu junto ao lixo. Quase indo embora, observou um saco preto no canto oposto. Sem muita dificuldade, o pegou. O homem desfez o nós e quase caiu duro. Era um pé humano.

          Valdir, que não estava com seu aparelho celular, correu até um comércio em frente. Pediu para chamarem a polícia e, menos de uma hora após, lá estavam os agentes Mariane, Pedro, Gustavo e o delegado Hudson. O local estava isolado para que a perícia pudesse realizar seu trabalho de maneira sossegada, apesar do enorme número de curiosos. 

          Enquanto confabulava com os agentes, Hudson percebeu a aproximação de três sujeitos. O delegado abriu um sorriso por rever, após alguns anos, os agentes Ricky Ricardo, Márcio Pernambuco e Luciano Baiano, com quem havia trabalhado na delegacia de Sobradinho. Feitas a apresentações, o grupo de policiais tratou de ir atrás de pistas. Nenhuma câmera no local, o que dificultava ainda mais a investigação daquele crime.

          — Ricky, do alto da sua experiência, o que pensa sobre esse caso? - Hudson perguntou.

          — Doutor, o que me intriga é que é sempre o pé esquerdo que é descartado.

          — É verdade! Será que tem algo a ver com aquele filme "Meu pé esquerdo"?

          — Pode ser, mas creio que o motivo é outro.

          — Qual, Ricky? - Mariane quis saber.

          — Algo relacionado à superstição.

          Todos os policiais olharam pensativamente para Ricky Ricardo, famoso em toda a Polícia Civil por ser o investigador com o maior número de homicídios solucionados em todo o Distrito Federal.  

      Modus operandi

          Apesar de trabalharem em delegacia diferente, Ricky Ricardo, Márcio Pernambuco e Luciano Baiano passaram a compor a equipe de investigação formada por Mariane, Pedro e Gustavo. Isso foi possível porque Hudson entrou em contato com o delegado Ruperez, que liberou seus três agentes para que pudessem ajudar na solução do caso que já causava pânico aos moradores de Brasília.

          Reunidos na sala do delegado Hudson, os seis agentes confabulavam sobre os crimes. Ricky, mais experiente, prestava atenção a todos os comentários dos seus colegas. Será que as vítimas estavam vivas? Era possível, pensou o policial, mas pensava ser pouco provável. Seria um assassino em série? Era provável, imaginou. 

          — Ricky, será que encontraremos novos pés?

          — Mariane, estava pensando justamente nisso. É quase certo que sim.

          — O autor desses crimes está brincando com a polícia, Ricky?

          — Pedro, ele está se vangloriando dos feitos. E, ao mesmo, tempo, está nos enviando uma mensagem.

          — Mensagem? Como assim? – Hudson perguntou.

          — Doutor, ainda não consegui decifrar essa mensagem, mas estou certo de que o autor está querendo dizer algo com esses crimes. É questão de tempo descobrirmos o que é. Ele tem um modus operandi, que parece cumprir, pelo menos até o momento, fielmente.

          O delegado chamou a Sissi, funcionária da empresa terceirizada, e pediu mais café. Não demorou, a mulher entrou com uma garrafa térmica. Os policiais agradeceram e, em seguida, cada um se serviu. E, enquanto bebiam, o telefone tocou. O delegado Hudson atendeu. A conversa durou pouco mais de dois minutos. 

          — Aconteceu novamente, Doutor?

          — Sim, Ricky. Na 306 Norte.

          Todos rumaram para o local, uma lixeira próxima ao comércio. Um gari, ao fazer seu trabalho diário, sentiu um cheiro de carne apodrecida em um saco plástico. Imaginou ser um cachorro ou gato morto. Quase caiu para trás quando descobriu que se tratava de um pé humano. Um pé esquerdo.

          O local foi isolado para que a perícia pudesse trabalhar. Enquanto isso, os agentes buscavam informações com Roberto de Sousa Santos, o gari que havia encontrado o pé amputado. Não conseguiram nada que pudesse levar ao criminoso, bem como não encontraram câmeras próximas ao local. 

          Hudson, cada vez mais pressionado pelo governador, precisava apresentar o autor daqueles crimes. A população do Distrito Federal, cada vez mais apavorada, começava a perder as esperanças na polícia civil. O delegado não teve outro jeito a não ser repassar a cobrança para seus agentes. Enquanto isso, Brasília iria passar mais uma noite tomada pelo fantasma do assassino do pé esquerdo. 

Quadrado perfeito

          Os dias prosseguiram sem maiores informações. Os policiais, cada vez mais pressionados para solucionarem o caso, resolveram juntar todas as informações que conseguiram até aquele instante. Todos se reuniram, mais uma vez, na sala do delegado Hudson.

          Luciano Baiano expôs todos os dados dos crimes. O primeiro pé fora encontrado no Parque da Cidade no dia três de janeiro. O segundo, na Asa Sul, na quadra 306, no dia 19 de janeiro. O terceiro e, até aquele momento, o último, na Asa Norte, na quadra 306, no dia quatro de fevereiro. 

          Enquanto o colega prosseguia, Ricky se levantou e ficou observando o grande mapa do Distrito Federal preso à parede da sala. Ele pegou uma caixa de percevejos e marcou os três pontos no mapa. Pensativo, nem percebeu quando o motoboy entregou o pedido do lanche que o delegado havia solicitado: pastéis e refrigerantes. 

          — O meu é o de queijo, hein, galera! - disse Mariane.

          — Ricky, você quer pastel de quê? - Márcio perguntou.

          O experiente policial se virou e, para seu espanto, tudo se tornou óbvio como nascente de água.

          — Quadrado perfeito!

          — O quê, Ricky? - quis saber Hudson.

          — Doutor, se eu fosse o senhor, não comeria esse pastel.

          — Por quê?

          — Quadrado perfeito.

          — O quê?

          Ricky pegou um percevejo e marcou um quarto ponto no mapa. Depois pegou um pedaço de barbante e cercou os quatro pontos. Mariane olhou para Ricky e foi a primeira a entender.

          — Quadrado perfeito. Ainda bem que o meu pastel é de queijo. 

          Ricky Ricardo explicou a sua tese, que, por mais estranha que pudesse ser, não foi colocada em dúvida pelos companheiros. Ele disse que todos os pés foram encontrados com intervalos de 16 dias e com distâncias que, quando unidas, formavam um quadrado. 

          — Os pés foram encontrados nos dias três de janeiro, 19 de janeiro, quatro de fevereiro, ou seja, a cada 16 dias. Dezesseis é o quadrado de quatro. Olhem a embalagem desses pastéis. Pastelaria Quadrado Perfeito. Hoje é dia 19 de fevereiro. O nosso autor vai desovar o quarto pé hoje à noite ou na madrugada, pois amanhã será dia 20, ou seja, 16 dias após o terceiro pé. E esse será o último crime desse cara, pois terá completado o quadrado.

          Os policiais, após ouvirem a tese do Ricky, se convenceram de que ele estava certo. Combinaram fazer campana em quatro viaturas descaracterizadas para não levantarem suspeitas. As duplas foram escolhidas da seguinte maneira: Ricky e Mariane, Pedro e Gustavo, Luciano e Márcio, Hudson e o escrivão Gilmar, que foi chamado de última hora. 

          Ao chegaram ao local, Ricky percebeu que manter tantos veículos poderia espantar o autor. Luciano propôs que ele e Márcio ficariam em cima de uma árvore, pois estariam encobertos pela vasta folhagem. Pedro e Gustavo concordaram e também se dispuseram a fazer o mesmo. Enquanto isso, Hudson e Gilmar simulariam que estavam com o veículo enguiçado no ponto determinado. Ricky e Mariane estariam em um local mais distante, onde poderiam ter uma visão geral da área. 

          A campana, iniciada às 18h do dia 19 de fevereiro, havia consumido toda a noite e já chegava perto das 4h da madrugada do dia seguinte. Os agentes, que se comunicavam através de mensagens pelo celular, estavam exaustos, especialmente os quatro que continuavam escondidos nas árvores. 

          — Calma, galera, que estou com pressentimento de que estamos quase lá! - Ricky procurava manter os ânimos aflorados.

          Eis que a Mariane chamou a atenção do Ricky e apontou para um vulto se aproximando de uma lixeira. O experiente policial observou a cena, enquanto o suspeito parou por alguns instantes, observou o relógio e olhou ao redor. Ricky percebeu que o indivíduo estava próximo ao local onde Luciano e Márcio estavam escondidos. Ele alertou os companheiros, mas pediu para não agirem ainda. 

          — O que está esperando, Ricky? - perguntou Mariane.

          — Nosso suspeito vai esperar dar 4h para depositar o saco na lixeira.

          — Hum! Quadrado perfeito!

          — Isso, Mariane!

          Pontualmente, o suspeito depositou um saco na lixeira. Nesse momento, Ricky mandou aviso a todos os companheiros, enquanto falou para Mariane ligar o carro e ir em direção ao suposto autor. Em segundos, os policiais chegaram ao local, sendo que Luciano e Márcio, que estavam mais próximos, já haviam abordado e algemado o suspeito. Aliás, a suspeita, como logo perceberam.

          Márcio, que estava com luvas, pegou o saco que havia sido depositado na lixeira. Ao abri-lo, encontrou um pé. O quarto e derradeiro pé esquerdo, como Ricky Ricardo havia previsto.

          Já na delegacia, Lorena Cardoso de Almeida, 35 anos, ex-professora de matemática, disse que havia se desiludido com a profissão. Acabou montando uma pastelaria, a Quadrado Perfeito. A primeira vítima foi seu ex-namorado, que a teria agredido. Os outros foram homens que ela atraiu para sua chácara, que ficava na região de Planaltina. Era lá que a mulher os matava e depois os descarnava. A carne, como também deduziu Ricky, era utilizada para rechear os pastéis vendidos.

          Durante o interrogatório, o delegado Hudson, ainda intrigado com o fato de Lorena ter escolhido o pé esquerdo, questionou a assassina.

          — Imagine que você esteja em um ponto. Se você quer ficar voltado para fora da figura a ser formada, pode começar pelo lado direito ou pelo esquerdo. Escolhi o esquerdo e segui a linha até fechar o quadrado.

          — E por que o pé?

          — Não iria usar carne de pé para rechear os pastéis. Pés são sujos, e os meus clientes merecem o melhor.

          — E o que você fez com os pés direitos?

          — Olha, o Fofinho precisa comer, né?

          — Fofinho? Quem é Fofinho?

          — Ué, o meu cachorro. 

Fim

  • Nota de esclarecimento: O conto "O assassino do pé esquerdo" foi publicado no formado de folhetim por Notibras entre os dias 20/4/2024 e 25/4/2024.
  • https://www.notibras.com/site/corrida-macabra-assusta-celina-no-parque-da-cidade/
  • https://www.notibras.com/site/celina-pensa-em-psicologa-e-delegado-dara-entrevista/
  • https://www.notibras.com/site/suspeito-de-crime-no-parque-corta-abaixo-dos-maleolos/
  • https://www.notibras.com/site/novos-policiais-entram-na-investigacao-agora-na-306-sul/
  • https://www.notibras.com/site/governador-pressiona-para-elucidar-crimes-misteriosos/
  • https://www.notibras.com/site/agente-ricky-ricardo-desvenda-crimes-de-lorena/

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