Corrida
macabra
Celina, como de costume,
acordou antes do galo cantar. Não que houvesse algum, a não ser aquele de louça
sobre a estante da sala. De meias, caminhou com cuidado para não fazer barulho
e acabar acordando a Clarinha, a vira-lata de dois anos, que continuava
roncando na almofada ao lado.
A mulher preparou uma xícara
de café. Nada de açúcar. Nas últimas semanas, Celina vinha travando uma luta
contra a balança. Não que estivesse muito acima do peso, mas queria perder dois
ou três quilos para o carnaval que se aproximava.
Duas torradas com pouco de
manteiga completaram o dejejum, degustadas em frente à janela do apartamento
ali no Sudoeste. Ela observou uma mangueira carregada e, em seguida, foi tomar
banho.
Assim que saiu do chuveiro,
enrolou-se na toalha. Passou a mão no espelho, que estava embaçado. Abriu a
toalha e tentou admirar o próprio corpo refletido. Quarenta e quatro anos.
Insatisfeita, torceu os lábios. Foi o bastante para tomar coragem e ir dar uma
corrida no Parque da Cidade.
A cachorra ainda estava
dormindo quando a mulher amarrou o último cadarço do par de tênis. Celina cutucou a companheira com a ponta dos dedos.
— Levanta, preguiçosa! Ou
você quer ficar gorda que nem aquele buldogue do 301?
Pouco tempo depois, Celina,
com Clarinha no banco ao lado, dirigiu até o estacionamento do Parque da
Cidade. Durante o trajeto, foram ouvindo "O mundo é maior que teu
quarto", sucesso do TNT, antiga banda gaúcha.
Assim que desceu do veículo,
a mulher começou a se alongar. Tomou fôlego e iniciou a corrida lentamente,
sempre com a cachorra aos seus pés. Estava certa de que aquilo não seria tão
difícil. Todavia, menos de dez minutos após, o corpo pareceu sentir a longa
ausência de exercícios. Exausta, sentou-se na grama ao lado da pista.
Abriu a garrafa de água e
tomou um longo gole. A vira-lata, todavia, parecia mais animada e foi explorar
o local. Não tardou, começou a latir insistentemente em frente a uma
lixeira.
— Clarinha, sua doida! Volta
aqui!
A cachorra não obedeceu, o
que obrigou a mulher a se levantar e ir ver o que tanto a afligia. Caminhou
dolorida até a lixeira. Celina a logo notou que havia um saco plástico preto.
Curiosa, abriu-o com cuidado até que um grito de desespero lhe tomou por
completo. Era um pé! Um pé humano. Decepado na altura do calcanhar.
Um
pé sem corpo
A polícia civil foi acionada e, em seguida, lá
estavam os agentes Mariane, Pedro e Gustavo, responsáveis pelo caso. A perícia
criminal logo chegou ao local, onde foram tiradas fotografias e o pé sem corpo
foi meticulosamente depositado em um saco plástico. Foi preciso colocar um
cordão de isolamento, tamanho o número de curiosos que se aglomerou.
Sentada a menos de 10 metros,
Celina acariciava sua vira-lata, quando, então, os policiais se aproximaram.
Os olhos arregalados da mulher demonstravam que ela ainda não havia digerido
aquela situação tão traumática. Traumática até demais, diga-se de passagem.
— Foi a senhora que
encontrou o pé, não foi? - Mariane perguntou.
— Não. Na verdade,
foi a Clarinha.
— Clarinha? E onde
está essa Clarinha?
— Bem aqui - Celina apontou para a cachorra.
— Ah, tá!
Mariane coletou o
depoimento informal de Celina e, em seguida, lhe entregou uma intimação para
que ela comparecesse à delegacia na semana seguinte. Apesar de não ser uma
testemunha do suposto homicídio, era, até aquele momento, a primeira ponta da
investigação.
Assim que foi
liberada, a mulher e a vira-lata entraram no veículo, estacionado logo ali, e
foram embora. Celina, que acordara pensando em correr para manter o corpo em
forma, constatou que precisava marcar urgentemente nova consulta com sua
psicóloga. A última, de acordo com os seus cálculos, havia sido há quase três
anos, logo depois que se separou do marido.
Enquanto isso,
Mariane, Pedro e Gustavo permaneceram no Parque da Cidade, onde procuraram
alguma câmera que pudesse ter captado imagens do autor do fato. Nenhuma. Eles
precisariam esperar pela perícia. Talvez alguma digital fosse coletada ou,
então, alguém reclamaria por um pé desaparecido. Seja como for, a imprensa
havia chegado ao local, e os agentes resolveram voltar para a delegacia, mesmo
porque o delegado Hudson já estava fazendo os últimos preparativos para a
entrevista que iria conceder.
Abaixo dos maléolos
A perícia constatou que o pé encontrado havia sido
cortado abaixo dos maléolos. Um corte preciso, o que indicava que o autor era,
no mínimo, alguém que entendia de anatomia. Médico? Veterinário? Açougueiro?
Essas foram algumas das possibilidades levantadas pelos policiais Mariane,
Pedro e Gustavo, assim que receberam o laudo.
A despeito da profissão, a
vítima calçava 39 e, tudo indicava, se tratava de um homem. Não pelo tamanho,
haja vista ser a numeração de muitas mulheres. Era por conta da aparência cheia
de cutículas, sem falar na enorme profusão de sujeira debaixo das unhas,
especialmente do dedão.
Quanto às digitais, elas não
bateram com nenhuma dos bancos dos dados. Isso porque as chances eram mínimas, pois
apenas as digitais dos pés só eram coletadas de alguns indivíduos que tivessem
passado pelo sistema prisional. Foi coletado material para um possível futuro
teste de DNA.
Sem muitas pistas, o trio
precisava de algo mais concreto para prosseguirem a investigação. Há quase 10
dias, a testemunha, Celina, havia sido ouvida na delegacia. Entretanto, não
foi possível revelar nada além do que os agentes já soubessem. Por isso, ela
foi dispensada assim que assinou a oitiva. Provavelmente, nunca mais voltaria à
delegacia, a não ser, é claro, que fosse registrar outro ocorrido como, por
exemplo, um extravio de documento ou um acidente de trânsito sem
vítima.
Mariane deu a ideia de fazerem
campana naquela noite no Parque da Cidade. Seus colegas estavam cientes de que
aquilo era quase como procurar uma agulha no palheiro. No entanto, sem melhores
perspectivas pela frente, Pedro e Gustavo concordaram.
Os três entraram na viatura
descaracterizada e, antes que rumassem para o local combinado, passaram na
rodoviária, onde compraram algumas latas de refrigerante e meia dúzia de
pastéis. Quatro de carne para os rapazes, dois de queijo para Mariane. Ela,
há quase seis meses, após assistir a um documentário sobre criação e abate de
animais, passou a evitar carne.
A mulher estava ao volante e,
assim que a viatura entrou no Parque da Cidade, ela resolveu estacionar a pouco
mais de 200 metros da lixeira onde o pé havia sido encontrado. Desligou o
veículo, apagou os faróis. Agora era travar uma batalha contra o tédio e tentar
espantar o sono, que, invariavelmente, era mais um adversário a ser
enfrentado.
Após quase três horas de
campana, os três agentes estavam enfastiados não apenas pelos pastéis e
refrigerantes, mas pela mesmice da situação. Pedro, talvez o mais agoniado,
sugeriu que fossem embora. Gustavo olhou para Mariane, que concordou. Todavia,
antes que ligasse o automóvel, um outro veículo estacionou a aproximadamente
500 metros. Os agentes decidiram aguardar o desenrolar daquela situação.
Quase meia hora de espera.
Ninguém havia saído do veículo observado pelos policiais. Pedro sugeriu que
fosse feita a abordagem. Mariane e Gustavo concordaram.
Os policiais desceram da
viatura e, cautelosamente, rumaram em direção ao automóvel suspeito. O silêncio
era quase ensurdecedor, caso não fosse pela voz da Mariane, que, em sussurros,
orientou a posição dos colegas. Pedro ficou encarregado de se posicionar na
traseira do automóvel, enquanto Gustavo ficaria com a parte direita. Mariane,
que iria fazer a abordagem, foi até a porta do motorista.
Arma em punho, Mariane deu
dois toques no vidro do automóvel e, em seguida, dois passos atrás. Voz firme,
mandou que o motorista saísse do carro. Não tardou, um homem abriu a porta.
— Polícia! Saia do veículo,
senhor!
Um homem de mais de um metro
e oitenta, uns 100 quilos, saiu. Ele tentava fechar o zíper da calça, enquanto
o passageiro, aparentando ainda mais constrangimento, abriu a outra porta e se
deparou com Gustavo.
Feita a abordagem de praxe,
os dois homens foram dispensados pelos policiais. Mariane, Pedro e Gustavo
tiveram certeza de que aqueles sujeitos não seriam responsáveis por qualquer
crime, isto é, pelo menos não pelo crime pelo qual estavam investigando naquele
momento. A campana terminou naquele instante.
Catador
de latinhas
Valdir, aposentado há alguns meses, tentou arrumar
novo emprego. No entanto, sem muita expectativa de encontrar algum por conta da
idade, resolveu faturar vendendo material para reciclagem. Além do dinheiro,
também mantinha a ginástica em dia, já que andava pelas quadras da Asa Sul à
procura de latinhas, cujo alumínio era vendido a peso de dólar.
Com duas enormes
sacolas nas mãos, o homem parecia não estar com muita sorte. Desceu até a
altura da 306, quando percebeu algumas latas de cerveja próximas a um
contêiner. Eufórico, apressou o passo.
Depois de encher
todas as sacolas, ainda deu uma olhada em volta. Nenhuma. Olhou dentro do
contêiner e viu uma solitária lata de refrigerante ao fundo. Ergueu o corpo e perdeu
o equilíbrio. Por pouco não caiu junto ao lixo. Quase indo embora, observou um
saco preto no canto oposto. Sem muita dificuldade, o pegou. O homem desfez
o nós e quase caiu duro. Era um pé humano.
Valdir, que não
estava com seu aparelho celular, correu até um comércio em frente. Pediu para
chamarem a polícia e, menos de uma hora após, lá estavam os agentes Mariane,
Pedro, Gustavo e o delegado Hudson. O local estava isolado para que a perícia pudesse
realizar seu trabalho de maneira sossegada, apesar do enorme número de
curiosos.
Enquanto confabulava
com os agentes, Hudson percebeu a aproximação de três sujeitos. O delegado
abriu um sorriso por rever, após alguns anos, os agentes Ricky Ricardo, Márcio
Pernambuco e Luciano Baiano, com quem havia trabalhado na delegacia de Sobradinho.
Feitas a apresentações, o grupo de policiais tratou de ir atrás de pistas.
Nenhuma câmera no local, o que dificultava ainda mais a investigação daquele
crime.
— Ricky, do alto da
sua experiência, o que pensa sobre esse caso? - Hudson perguntou.
— Doutor, o que me
intriga é que é sempre o pé esquerdo que é descartado.
— É verdade! Será
que tem algo a ver com aquele filme "Meu pé esquerdo"?
— Pode ser, mas
creio que o motivo é outro.
— Qual, Ricky? -
Mariane quis saber.
— Algo relacionado à
superstição.
Todos os policiais
olharam pensativamente para Ricky Ricardo, famoso em toda a Polícia Civil por
ser o investigador com o maior número de homicídios solucionados em todo o
Distrito Federal.
Apesar de trabalharem em delegacia diferente, Ricky
Ricardo, Márcio Pernambuco e Luciano Baiano passaram a compor a equipe de
investigação formada por Mariane, Pedro e Gustavo. Isso foi possível porque
Hudson entrou em contato com o delegado Ruperez, que liberou seus três agentes
para que pudessem ajudar na solução do caso que já causava pânico aos moradores
de Brasília.
Reunidos
na sala do delegado Hudson, os seis agentes confabulavam sobre os crimes.
Ricky, mais experiente, prestava atenção a todos os comentários dos seus
colegas. Será que as vítimas estavam vivas? Era possível, pensou o policial,
mas pensava ser pouco provável. Seria um assassino em série? Era provável,
imaginou.
— Ricky, será que
encontraremos novos pés?
— Mariane, estava
pensando justamente nisso. É quase certo que sim.
— O autor desses
crimes está brincando com a polícia, Ricky?
— Pedro, ele está se
vangloriando dos feitos. E, ao mesmo, tempo, está nos enviando uma mensagem.
— Mensagem? Como assim? – Hudson
perguntou.
— Doutor, ainda não consegui
decifrar essa mensagem, mas estou certo de que o autor está querendo dizer algo
com esses crimes. É questão de tempo descobrirmos o que é. Ele tem um modus
operandi, que parece cumprir, pelo menos até o momento, fielmente.
O delegado chamou a Sissi,
funcionária da empresa terceirizada, e pediu mais café. Não demorou, a mulher
entrou com uma garrafa térmica. Os policiais agradeceram e, em seguida, cada um
se serviu. E, enquanto bebiam, o telefone tocou. O delegado Hudson atendeu. A
conversa durou pouco mais de dois minutos.
— Aconteceu novamente,
Doutor?
— Sim, Ricky. Na 306 Norte.
Todos rumaram para o local,
uma lixeira próxima ao comércio. Um gari, ao fazer seu trabalho diário, sentiu
um cheiro de carne apodrecida em um saco plástico. Imaginou ser um cachorro ou
gato morto. Quase caiu para trás quando descobriu que se tratava de um pé
humano. Um pé esquerdo.
O local foi isolado para que
a perícia pudesse trabalhar. Enquanto isso, os agentes buscavam informações com
Roberto de Sousa Santos, o gari que havia encontrado o pé amputado. Não
conseguiram nada que pudesse levar ao criminoso, bem como não encontraram
câmeras próximas ao local.
Hudson, cada vez mais
pressionado pelo governador, precisava apresentar o autor daqueles crimes. A
população do Distrito Federal, cada vez mais apavorada, começava a perder as
esperanças na polícia civil. O delegado não teve outro jeito a não ser repassar
a cobrança para seus agentes. Enquanto isso, Brasília iria passar mais uma
noite tomada pelo fantasma do assassino do pé esquerdo.
Quadrado
perfeito
Os dias prosseguiram sem maiores informações. Os
policiais, cada vez mais pressionados para solucionarem o caso, resolveram
juntar todas as informações que conseguiram até aquele instante. Todos se
reuniram, mais uma vez, na sala do delegado Hudson.
Luciano Baiano expôs
todos os dados dos crimes. O primeiro pé fora encontrado no Parque da Cidade no
dia três de janeiro. O segundo, na Asa Sul, na quadra 306, no dia 19 de
janeiro. O terceiro e, até aquele momento, o último, na Asa Norte, na quadra
306, no dia quatro de fevereiro.
Enquanto o colega
prosseguia, Ricky se levantou e ficou observando o grande mapa do Distrito
Federal preso à parede da sala. Ele pegou uma caixa de percevejos e marcou os
três pontos no mapa. Pensativo, nem percebeu quando o motoboy entregou o pedido
do lanche que o delegado havia solicitado: pastéis e refrigerantes.
— O meu é o de
queijo, hein, galera! - disse Mariane.
— Ricky, você quer
pastel de quê? - Márcio perguntou.
O experiente
policial se virou e, para seu espanto, tudo se tornou óbvio como nascente de
água.
— Quadrado perfeito!
— O quê, Ricky? -
quis saber Hudson.
— Doutor, se eu
fosse o senhor, não comeria esse pastel.
— Por quê?
— Quadrado perfeito.
— O quê?
Ricky pegou um percevejo
e marcou um quarto ponto no mapa. Depois pegou um pedaço de barbante e cercou
os quatro pontos. Mariane olhou para Ricky e foi a primeira a entender.
— Quadrado perfeito.
Ainda bem que o meu pastel é de queijo.
Ricky Ricardo
explicou a sua tese, que, por mais estranha que pudesse ser, não foi colocada
em dúvida pelos companheiros. Ele disse que todos os pés foram encontrados com
intervalos de 16 dias e com distâncias que, quando unidas, formavam um
quadrado.
— Os pés foram
encontrados nos dias três de janeiro, 19 de janeiro, quatro de fevereiro, ou
seja, a cada 16 dias. Dezesseis é o quadrado de quatro. Olhem a embalagem
desses pastéis. Pastelaria Quadrado Perfeito. Hoje é dia 19 de fevereiro. O
nosso autor vai desovar o quarto pé hoje à noite ou na madrugada, pois amanhã
será dia 20, ou seja, 16 dias após o terceiro pé. E esse será o último crime
desse cara, pois terá completado o quadrado.
Os policiais, após
ouvirem a tese do Ricky, se convenceram de que ele estava certo. Combinaram
fazer campana em quatro viaturas descaracterizadas para não levantarem
suspeitas. As duplas foram escolhidas da seguinte maneira: Ricky e Mariane,
Pedro e Gustavo, Luciano e Márcio, Hudson e o escrivão Gilmar, que foi chamado
de última hora.
Ao chegaram ao
local, Ricky percebeu que manter tantos veículos poderia espantar o autor.
Luciano propôs que ele e Márcio ficariam em cima de uma árvore, pois estariam
encobertos pela vasta folhagem. Pedro e Gustavo concordaram e também se
dispuseram a fazer o mesmo. Enquanto isso, Hudson e Gilmar simulariam que
estavam com o veículo enguiçado no ponto determinado. Ricky e Mariane estariam
em um local mais distante, onde poderiam ter uma visão geral da área.
A campana, iniciada
às 18h do dia 19 de fevereiro, havia consumido toda a noite e já chegava perto
das 4h da madrugada do dia seguinte. Os agentes, que se comunicavam através de
mensagens pelo celular, estavam exaustos, especialmente os quatro que continuavam
escondidos nas árvores.
— Calma, galera, que
estou com pressentimento de que estamos quase lá! - Ricky procurava manter os
ânimos aflorados.
Eis que a Mariane chamou
a atenção do Ricky e apontou para um vulto se aproximando de uma lixeira. O
experiente policial observou a cena, enquanto o suspeito parou por alguns
instantes, observou o relógio e olhou ao redor. Ricky percebeu que o indivíduo
estava próximo ao local onde Luciano e Márcio estavam escondidos. Ele alertou
os companheiros, mas pediu para não agirem ainda.
— O que está esperando,
Ricky? - perguntou Mariane.
— Nosso suspeito vai esperar
dar 4h para depositar o saco na lixeira.
— Hum! Quadrado perfeito!
— Isso, Mariane!
Pontualmente, o suspeito depositou
um saco na lixeira. Nesse momento, Ricky mandou aviso a todos os companheiros,
enquanto falou para Mariane ligar o carro e ir em direção ao suposto autor. Em
segundos, os policiais chegaram ao local, sendo que Luciano e Márcio, que
estavam mais próximos, já haviam abordado e algemado o suspeito. Aliás, a
suspeita, como logo perceberam.
Márcio, que estava com luvas,
pegou o saco que havia sido depositado na lixeira. Ao abri-lo, encontrou um pé.
O quarto e derradeiro pé esquerdo, como Ricky Ricardo havia previsto.
Já na delegacia, Lorena
Cardoso de Almeida, 35 anos, ex-professora de matemática, disse que havia se
desiludido com a profissão. Acabou montando uma pastelaria, a Quadrado
Perfeito. A primeira vítima foi seu ex-namorado, que a teria agredido. Os
outros foram homens que ela atraiu para sua chácara, que ficava na região de
Planaltina. Era lá que a mulher os matava e depois os descarnava. A carne, como
também deduziu Ricky, era utilizada para rechear os pastéis vendidos.
Durante o
interrogatório, o delegado Hudson, ainda intrigado com o fato de Lorena ter
escolhido o pé esquerdo, questionou a assassina.
— Imagine que você
esteja em um ponto. Se você quer ficar voltado para fora da figura a ser
formada, pode começar pelo lado direito ou pelo esquerdo. Escolhi o esquerdo e
segui a linha até fechar o quadrado.
— E por que o pé?
— Não iria usar
carne de pé para rechear os pastéis. Pés são sujos, e os meus clientes merecem
o melhor.
— E o que você fez
com os pés direitos?
— Olha, o Fofinho
precisa comer, né?
— Fofinho? Quem é
Fofinho?
— Ué, o meu
cachorro.
Fim
- Nota de esclarecimento: O conto "O assassino do pé esquerdo" foi publicado no formado de folhetim por Notibras entre os dias 20/4/2024 e 25/4/2024.
- https://www.notibras.com/site/corrida-macabra-assusta-celina-no-parque-da-cidade/
- https://www.notibras.com/site/celina-pensa-em-psicologa-e-delegado-dara-entrevista/
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