Entre tantas confraternizações, a
única que me enche os olhos é o Natal, e não porque eu seja
religiosa. A questão é outra: amo ser espectadora dos
constrangimentos de se unirem parentes e afins, cujos imbróglios são inevitáveis,
já que as alfinetadas costumam acontecer bem antes da ceia, e não tem Jesus que
acuda.
Noite de 24 de dezembro, a
parentada toda se acotovelando na casa da minha avó, dona Lígia. Mulher de
paciência praticamente infinita, porém com rompantes de fazer inveja a Caravaggio. Não chegou a matar algum
desafeto, ao menos nunca nos chegou aos ouvidos, o que não impede de aventar
dúvidas em todos nós, ainda mais quando ela emoldura o rosto com o olhar e o
sorriso catárticos.
— Vovó, só mesmo a senhora pra conseguir juntar a tia
Cleide com a minha mãe. Como a senhora consegue?
— O pernil, a maionese e a farofa, Laura.
— Sério?
— Aquelas duas não perdem um boca-livre.
— Tá, mas e o tio Ernesto com o Carlos?
— Hum! Mesma coisa, ou você acha que o seu irmão vai abrir
mão de se esbaldar depois de passar o ano inteiro comendo macarrão com
salsicha?
Não tiro a razão da minha avó, que sempre soube fisgar os
desafetos pela boca. Sabor de vó tem dessas coisas, e não perco o seu suflê de
aipim por nada deste mundo, ainda mais quando sei que o ingresso é a
oportunidade para assistir ao maior show da Terra. Tratei de encher meu prato e
fui me sentar em local estratégico para não perder nada do espetáculo, cujas
cenas logo começaram a se desenrolar.
— Quando a gente imagina que o Natal é tempo
de paz e celebração, eis que me aparece a serpente no paraíso.
É difícil defender a
própria mãe quando foi dela a provocação acima. Tia Cleide, que costuma não
levar desaforo para casa, tentou manter a classe, algo raríssimo entre os
nossos. Arregalou os olhos como se pega de surpresa, virou-se e caminhou em
minha direção. Devo ter feito cara de espanto, o que provocou quase um grunhido
da minha tia.
— Tu viu o que a tua
fez?
Se eu havia visto
aquilo? É óbvio que sim! Afinal, eu estava ali justamente para ver a jiripoca
piar.
— O quê, tia?
— Tua mãe.
— Mamãe?
— Você não viu
mesmo, Laura?
— Desculpe, tia,
estou cheia de problemas.
— Já sei! Brigou com
o namorado.
— É. A gente brigou.
Menti. Julgue-me,
melhor concordar do que pensar em outra mentira mais elaborada. Fingi
olhos tristonhos, enquanto a noite maravilhosa que tive com o Pedro pululavam na
minha mente. Como beija bem!
— Ah, liga não,
Laura. Logo, logo vocês se acertam.
— É, tia.
A voz rascante do
tio Ernesto interrompeu aquele interlúdio carregado de embustes.
— Tu é um moleque!
Esse elogio foi
direcionado ao meu querido irmão. Um traste sem-noção, cuja única preocupação é
se dar bem à custa do primeiro descuidado. Digo isso sobre o primogênito da
minha mãe quase sem remorso. Não que ele seja tão ruim, às vezes até tem alguma
serventia, como me dar carona para a faculdade.
— Cai dentro se tu é
homem!
Pensando melhor, o
Carlos está praticamente com os dois pés no inferno. Como é que ele teve
coragem de desafiar o tio Ernesto para uma briga? Isso não é coisa que se faça,
ainda mais porque o meu irmão não é, digamos, a mais intimidadora das
criaturas. Se bobear, até eu consigo lhe dar umas boas palmadas.
— Cheeeeega!
Dona Lígia resolveu impedir que a sua sala
se tornasse o Coliseu de Roma.
— Olha aqui! Vocês todos! A partir de
hoje, pra me fazer raiva, vai ter que agendar. Aqui não é bagunça, não! Tem que
ter organização.
Tio Ernesto e meu irmão
ensaiaram um aperto de mão, o que seria demais. Cada um para o seu canto,
problema resolvido. Foi aí que percebi a aproximação da minha mãe, que se
postou bem ao lado da tia Cleide.
— Tu viu aquilo,
Cleide?
— Pois é, Marisa.
Que coisa!
— Parece que a dona Lígia não está bem hoje.
- Nota de esclarecimento: O conto "Sabor de vó" foi publicado no Notibras no dia 7/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/sabor-de-vo/

.jpeg)






