sábado, 25 de julho de 2026

Encrenca entre amigos

    

    Domingo, dia de esticar o sono até mais tarde. Que nada! Cris cutucou o marido, que não teve escolha.

    — Gilmarildo, acorda! Num vai sair com as crianças? Já tá na hora.

    Sem poder de fala, Gilmarildo tratou de se levantar antes que a bronca e o peteleco certeiro na orelha chegassem sem aviso. Foi ao banheiro jogar água gelada no rosto. Olhou o reflexo do outro lado do espelho e, quase mudo, disse: "Vamos, meu amigo, antes que as crianças fiquem impacientes."

        Gilmarildo foi até a sala, pegou as guias penduradas atrás da porta e chamou a garotada:

        — Tina! Caetano! Leleco! Vamos sair com o papai.

        Já na calçada, o homem, contagiado pelo calor suave e a euforia dos cães, começou a se sentir melhor. Até resolveu esticar a caminhada até a Banca do Guima, amigo de longa data. O percurso era longo, mas ele poderia, assim que chegasse ao destino, comprar água para os meninos e um picolé de uva para ele. Talvez dois. Que a dieta fosse empurrada com a barriga para a próxima semana. Dito e feito.

        — E aí, Guima, como andam as coisas? Tem alguma história nova? Olha que o Edu vive me cobrando. Você sabe como é, meu camarada, vida de escritor não é fácil.

            — Fala, Gilmarildo! Hoje trouxe a garotada toda, né?! Quanto às histórias, deixa estar que daqui a pouco aparece uma.

            — Pois é! A Cris acordou de pá virada e já me expulsou do berço. 

            Gilmarildo pediu três garrafinhas de água mineral para os cães e um picolé para ele. Mais um picolé de uva e, não resistindo, pediu outro. Depois da prosa, a hora de retornar ao lar, doce lar havia chegado. Gilmarildo, então, perguntou quanto devia. No entanto, assim que ouviu o preço, percebeu o aumento de um real e cinquenta centavos.

            — Guima, acho que você errou na conta.

            — Não errei. É que a água agora custa três reais e cinquenta.

            — O quê? E quem foi que te autorizou a aumentar o preço? Vou fazer uma reclamação ao seu patrão.

            — Hum! Gilmarildo, a banca é minha, né!?

            — Mas, Guima, a água na Banca do Robert custa três.

          Guima achou graça da reclamação do amigo e, brincalhão que era, sacou seu aparelho celular, tirou uma fotografia do Gilmarildo, em seguida, a encaminhou ao Robert com o seguinte áudio: "Olha o que você me arrumou, Robert. Estou com esse elemento aqui no meu estabelecimento. E ele está reclamando do preço da água mineral. Então, faça-me o favor de aumentar o preço da sua água para que possamos manter a nossa amizade."

            Gilmarildo, que não gostava de perder uma piada, tratou de fingir insatisfação.

            — Olha aqui, Guima, vou tacar um processo nas suas costas. Você vai acabar tendo que vender essa sua espelunca pra me indenizar. E olha que periga nem conseguir. Não duvido que vai ficar só de cueca.

            Como o movimento na banca era praticamente nenhum àquela hora, eis que o Guima, sorrindo mais do que a boca cheia de dentes, não perdeu a oportunidade de continuar a brincadeira.

            — Tu é um falastrão, meu querido Gilmarildo. Mais provável você virar meu empregado pra pagar as custas do processo.

                Entre risos, gargalhadas e gozações, isso tudo chamou a atenção do Santana, afamado policial por tantas atrapalhadas na delegacia da área. O sujeito coçou a barriga enorme, cofiou o bigodão, passou as mãos na calva e se aproximou para dar um fim naquela algazarra. 

            — Ei, vocês dois aí! Posso saber o que está acontecendo aqui?

            Nisso, o Guima tentou explicar que aquilo tudo não passava de uma brincadeira entre amigos. 

            — Não tá acontecendo nada, não, seu guarda.

            Pra quê? Uma coisa que deixava o agente possesso era ser chamado de guarda. O gorducho não teve dúvida. Deu voz de prisão aos dois homens e, para completar a pantomima, levou até os cachorros para a delegacia. 

              Por sorte do Gilmarildo e do Guima, o delegado de plantão era o Rupereta, amigo de longa data dos dois. Os três costumavam se reunir com o Ricky Ricardo, outro policial, e jogar biriba e tomar algumas cachaças. Desse modo, sobrou para o Santana, que tomou aquela bronca.

                Quando os amigos foram liberados da delegacia, eis que o Guima se virou para o Gilmarildo e mandou essa:

            — Num te falei, Gilmarildo?

            — Falou o quê, Guima?

            — As histórias pro Edu escrever. Uma hora aparece. E essa apareceu rapidinho.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O peso da consciência

       

        Ernesto e Augusto, amigos há tanto tempo, agora no crepúsculo da existência, insistem em manter o hábito dos encontros às terças e quintas-feiras. Os dois precisam enfrentar a artrite para se deslocarem até a padaria do velho Manoel, português radicado no Brasil quando as liberdades eram desprovidas de asas. 

          — Ando sem apetite.

          — Velhice é assim, Augusto.

          — Como assim?

          — Sem apetite. Juventude é que é gulosa.

          — É verdade. Nunca havia pensado por esse ângulo. Queria eu ter o apetite dos meus trinta. Falta-me ânimo para tantas coisas, meu amigo. Até mesmo para devorar uma coxinha, mas nem me atrevo. Capaz do meu estômago me processar.

          — Capaz, Augusto. Capaz. 

          Os dois homens são compelidos a mais um gole no café. Observam o movimento na padaria, praticamente os mesmos clientes de ontem, de sempre.

          — A moral às vezes atrapalha.

          — O que você disse, Ernesto?

          — A moral, meu amigo. A moral. Essa coisa que fica à espreita e não perde a oportunidade de entornar o caldo.

          — Não estou te entendendo. 

          — Olha, Augusto, veja esse caso. Aconteceu há poucos dias, sexta-feira passada. Minha nora, a Gláucia, você a conhece.

          — Sim, sim, conheço a Gláucia, esposa do Rubens.

          — Pois a Gláucia, mulher do meu filho... Descobri que... Situação complicada, tudo por causa dessa maldita moral, que me cobra atitude nesta altura da vida. Minha nora trai o meu filho. E agora? 

          — Complicado, meu amigo. Muito complicado.

          — Melhor seria não ter visto. Pior de tudo é que ela me viu também. E, desde então, vivo num impasse, Augusto. Devo eu contar o que sei pro meu filho ou, então, guardar o segredo da minha nora para salvaguardar os que amo?

          — Nem sei o que eu faria no seu caso, meu amigo. Decisão complicada.

          — Pois é, Augusto, mas tenho relutado em atender aos chamados insistentes dessa tal moralidade. E é isso que tem mantido a paz da minha família.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Passos e descompassos

  

    Lorena e Miguel, a princípio um casal improvável, se esbarraram em uma roda de samba no Bar do Bosco. Ela, um tanto exuberante, parecia mais interessada nos bambas do local. Já o sujeito, cuja barriga proeminente o fazia se encolher em timidez, preferia se ater a olhares sobre aquela gente.

    Coube à bonitona a iniciativa, mesmo que, caso lhe fosse perguntado, era provável que ela não soubesse apontar o motivo. Combinações esdrúxulas que aparentemente não se encaixam.

    — Tu dança ou só fica com o traseiro colado na cadeira?

    Miguel, que se confundia com os próprios pés, sorriu. Nisso, foi puxado pela mão.

     — Vem, que te ensino a requebrar gostoso.

        E lá foi o homem sem jeito para a coisa. Não se saiu tão mal, pelo menos aos olhos interessados da Lorena. Depois de alguns passos e descompassos, além de vários goles de cerveja, os dois terminaram na cama. E foi assim que o romance se iniciou.

        Dois anos de amor regado a pagode, cerveja, suor e beijos ardentes sob lençóis indiscretos. Aquela paixão fogosa, sem amarras, como se o amanhã fosse mera ilusão. Tanta felicidade, que ninguém poderia supor o que estava por vir.

            Aconteceu em uma noite de sexta-feira, perto das dez horas. O samba rolava solto no Bar do Bosco, o casal ainda no lar, doce lar.

        — Ué, Miguel, tu ainda não tá pronto?

        — Ah, meu amor, hoje não tô a fim. Acho que tô com indisposição.

        — Indisposição? Tu tá doente ou o quê?

        — Num sei. Só não tô a fim mesmo.

        Nada no sábado também. Domingo, então, era dia de recolher os atrevimentos para suportar a labuta da semana. Mas o pior mesmo foi a avalanche de críticas que o Miguel começou a derramar sobre a companheira.

        — Lorena, tu precisa mesmo usar essa saia? E pra que tanta tinta na cara? Cerveja também não é legal. E esse samba... Ih, isso é coisa que não presta!

            Lorena, olhos sem aquele sorriso costumeiro, foi trabalhar na segunda-feira. Quem logo percebeu a carranca no rosto da jovem foi a Shirley, prima e colega na empresa. 

            — O que foi, mulher? Que cara de coxinha sem catupiry é essa?

            — Ah, Shirley, nem te conto.

            — Pois conte, que tu sabe que sou da fofoca.

            — É o Miguel. Acho que ele arrumou outra.

             — Outra? Duvido! O problema do seu homem é muito pior, Lorena.

            — Pior?

            — É! Pensei que tu já estava sabendo.

            — Sabendo o quê, mulher?

            — O seu Miguel virou crente.

            Lorena quase caiu dura. 

            — O quê? Não pode ser! O meu Miguel?

            — Sim, amiga. O seu Miguel.

           — Eita! Agora que a coisa complicou de vez. Com mulher até que dá pra competir, mas com Jesus... Ih, assim nem tem competição. 

            E foi assim que o romance terminou. Cada um seguiu seu caminho e, apesar de tudo, dizem que ainda se falam quando se esbarram na calçada.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Dois chopes e uma teoria

    

    Dois escritores, depois de algumas doses extras, pareceram se travestir de filósofos. O mais novo, um tanto quanto despojado, virou-se para o colega e, sorriso nos lábios, disparou:

      — Pois é, meu amigo, crônica é povo.

        — Hum?

        — E mais! Não só crônica, é pedagogia e até cotidiano.

        Para não parecer idiota, o segundo concordou com a cabeça. O outro prosseguiu:

        — Povo é espaço coletivo da práxis ainda não instrumentalizada. Digo mais, meu querido! Sem povo não há crônica nem haveria motivo para a sua existência. Desse modo, você e eu estaríamos sem ofício.

        — É verdade. Você está coberto de razão.

        — Talvez seja exagero da minha parte, meu amigo. 

        Os dois homens se entreolharam por um instante até que o mais jovem ergueu o indicador e, em tom um pouco mais elevado, chamou o garçom:

        — Ei, chefe, desce mais um. Dois! O copo do meu amigo secou.

        O companheiro agradeceu com os olhos, quase ao mesmo tempo em que o outro continuou:

        — Povo, meu amigo, povo cria e não registra direito autoral. Povo sabe das coisas, já socializa na fonte.

        O garçom traz os dois chopes, os amigos brindam, um gole a mais. O mais jovem se sente compelido a continuar:

        — O capitalismo, meu camarada... O capitalismo, em dado momento... O capitalismo registra propriedade e até distribui sustentos filosóficos e narcísicos.

        O mais velho, confuso, buscou expressões inexistentes na face para tentar acompanhar o raciocínio do colega erudito, que não parava de destilar palavras.

        — Pois é, meu amigo... Narcísicos! Mas vida que segue lenta no seu leito e, nem por isso, antirrevolucionária, pois conta com a força da arte, essa tal categoria do imaginário humano da qual você e eu também fazemos parte.

        Mais um brinde, outro gole. Enquanto houver ócio, a filosofia estará por aí. Quanto às crônicas, só enquanto existir povo. Aqueles tipos, mentes inquietas, pediram a conta e, cambaleantes, se embrenharam pelas ruas da cidade, que adormecia.

terça-feira, 21 de julho de 2026

A rebeldia do afeto

  

    Alzira, aos 98 anos, enfrentava o crepúsculo dos seus dias na UTI. Desenganada pelos médicos, só lhe restava recordar o tempo de menina, quando corria aos gritos, com os irmãos e primos, no quintal da casa da avó. Quando chegava a hora do lanche da tarde, a criançada se esbaldava com os quitutes dispostos sobre a enorme mesa da varanda.

        — Pudim.

        — O que a senhora disse, vovó?

        — Pudim.

        — Pudim?

        — De leite. Minha avó fazia. Uma delícia. 

        — O médico disse que a senhora não pode com doce. Muito açúcar.

        — Besteira!

        — Vovó, olha a diabete.

        — Paula, vou morrer daqui a pouco mesmo. Que mal morrer com os lábios tocando uma generosa fatia de pudim? Pudim de leite!

        Dois dias depois, a família foi informada sobre a piora do quadro de saúde da paciente. Que as visitas ficassem restritas apenas a familiares e, mesmo assim, com parcimônia. Por conta disso, instalou-se aquele sentimento pré-luto entre os parentes.

            Filhos, netos e bisnetos se revezavam nos cuidados com a matriarca. Era um festival de não pode isso, não pode aquilo, todos querendo prolongar ao máximo a derradeira despedida. No entanto, algo parecia incomodar a Paula.

            Dizem que, quando o tempo é ínfimo, as decisões precisam ser ainda mais ágeis. Às vezes, dá certo, na maioria é um desastre. Seja como for, a culpa por não fazer algo pode corroer o indivíduo por anos, quiçá por toda a sua existência.

        Aconteceu de madrugada. Paula, incomodada por pensamentos, se levantou e foi até a cozinha. Buscou uma antiga receita de família, juntou todos os ingredientes necessários, preparou um pudim. Pudim de leite. Colocou o doce na geladeira para ganhar firmeza e, então, retornou para o quarto. Adormeceu.

        Na manhã seguinte, acordou e, antes de lavar o rosto, foi conferir se o pudim havia saído a contento. Cortou uma fina fatia e a levou à boca.

        — Hum! Vovó tem razão.

        A mulher, decidida que estava, tratou de se arrumar para ir visitar a avó. Colocou o pudim em um pote e foi para o hospital. 

        Na recepção, Paula foi barrada. E não houve argumento que conseguisse convencer os funcionários para deixá-la entrar com o pudim na UTI.

        — Desculpe, mas a senhora não pode entrar com comida na UTI. É proibido. 

        Cabisbaixa, mas nem por isso totalmente entregue, a luz das ideias absurdas acendeu na mente da Paula. Ela notou que as enfermeiras transitavam livremente pelo recinto, inclusive com bolsas e sacolas. Seria possível? Bem, não custava tentar. E foi o que a neta da dona Alzira resolveu colocar em prática.

        Paula observou uma enfermeira sair do hospital. A profissional tirou o aparelho celular do bolso e começou a digitar. E esse foi o momento ideal para que a Paula desse o bote.

        — Oi! Tudo bem?

        — Oi.

        A enfermeira, apesar de estranhar a abordagem, foi receptiva. Ouviu com atenção a proposta da Paula. Que loucura era aquela? Mesmo assim, contrariando qualquer expectativa com um mínimo de sensatez, a enfermeira aceitou.

        Meia hora. Pois foi esse o tempo que se deu para, finalmente, a Paula entrar na UTI. Ela observou a avó, que dormia, talvez sonhando com o paraíso.

        — Vovó. Vovó!

        Dona Alzira abriu os olhos e pareceu não reconhecer a neta. Voltou a dormir.

        — Vovó. Vovó! Sou eu, a Paula.

        A enferma abriu novamente os olhos, observou com estranheza a neta e disse:

        — Paula? Que roupa é essa? Virou enfermeira?

        — Vovó, é uma longa história, mas o importante é que consegui.

        Paula meteu a mão no bolso do jaleco e retirou um copinho plástico, onde havia um pedaço de pudim. Ela pegou uma colherzinha, retirou um naco do doce e o levou aos lábios da avó.

        — Hum!

        — Gostou, vovó?

        — Delícia! Esse é o sabor da minha infância. Obrigada!

       Em uma sala trancada do hospital, a enfermeira, diante de um pote, saboreava o seu suborno.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Drible na segunda-feira

    

      Dizem que pobre aprende a respirar com parcimônia para sobreviver em trem lotado, o que configura praticamente um pleonasmo na hora do rush. Segunda-feira, então, o desânimo estampado na cara do povo é ensurdecedor.

    Segunda-feira, o tempo parece olhar com sarcasmo aqueles corpos amalgamados disputando cada espaço vazio, utopia cruel da ralé. Que se apertem, outro passageiro acabou de entrar.

      Um tipo comum àquela gente. O sujeito retirou o aparelho celular do bolso. Deu um clique. As imagens correm. Futebol. Ledo engano, não é sobre o esporte bretão, é algo maior. Drible para cá, drible para lá. Um sorriso, olhares curiosos que logo se transformaram em gargalhadas. Uma senhora mais ao fundo, curiosa, estica os olhos:

       — O que é?

        Alguém responde:

        — Não sei.

        Gargalhadas se irradiam por todo vagão. A senhora, ainda intrigada, ainda tentando se aproximar, indaga:

        — Gente, o que é?

        Gargalhadas, gargalhadas, gargalhadas. Ela insiste:

        — Ei, alguém pode me dizer o que está acontecendo?

        O dono do celular, num gesto solidário, entrega o aparelho para o homem ao lado, que faz o mesmo para a jovem próxima que, por sua vez, repete o gesto até que chega às mãos pequeninas de uma garotinha, não mais de cinco anos. Ela sorri, vira a tela para a senhora e balbucia:

        — Olha, vovó.

        — Garrincha!

domingo, 19 de julho de 2026

O chão da infância

 

     Dona Rosana, minha mãe, sempre tive certeza, nunca foi com a minha cara. Não me parecia de propósito, mas como se fosse algo espiritual. Se sofri? É óbvio, a infância é o chão que a gente pisa a vida toda. 

      Não digo que mamãe e eu jamais tivemos nossos bons momentos. E foram marcantes, como a vez em que ela me levou ao cinema pela primeira vez. Eu estava com meus oito anos.

    — Sérgio, que tal um cineminha?

    Além do filme, ganhei pipoca, refrigerante e até uma barra de chocolate. Isso tudo recheado de muitas risadas. Dona Rosana, às vezes, era legal.

    Pouco antes de a adolescência me ser apresentada, meus pais resolveram que o melhor caminho era cada um seguir o seu, isso antes de se matarem. Mamãe tentou de tudo para que eu fosse morar com meu pai, que seria melhor para mim. Seu Álvaro, por sua vez, não demonstrou grande entusiasmo por essa ideia.

    — Sérgio, meu filho, é melhor você ficar com a sua mãe. Sabe, ela é a sua mãe. Não é legal você deixá-la sozinha nesse momento. Ela vai precisar de apoio.

    Depois do meu pai me incutir tamanha culpa, não tive dúvida. Precisava ficar ao lado da dona Rosana. 

    — Mamãe, eu quero morar com a senhora.

    — Por quê?

    — Ué, porque sim. Sou seu filho.

    — Hum... Tá bom! Mas dobre as suas meias e lave as suas cuecas. 

    Enquanto meu pai parecia levar uma vida de solteiro, dona Rosana continuava sendo mãe e, muitas vezes, pareceu se esquecer de que continuava mulher. Também tive parcela de culpa, adolescente que era, sentia ciúme de vê-la nos braços de outros homens.

    — Sérgio, toma conta da sua vida. Por acaso já me intrometi na sua?

    Na verdade, dona Rosana colocava defeito em todas as garotas com quem eu começava a me relacionar.

    — Qual é mesmo o nome da sua namoradinha?

    — Laís.

    — Ah, tá! Pensei que fosse Márcia.

    — Márcia? Nunca namorei nenhuma Márcia, mãe.

    — Ah, não? E aquela de cabelos de milho?

    — Roberta, mãe.

    — Ah, tá! Gostava mais dela. Pelo menos não andava pelada.

    — Mãe, e quem andava pelada?

    — Essa sua namorada. Qual é memo o nome? Elza?

    — Laís, mãe. E ela não anda pelada, não.

    — Ah, não? Pois foi o que me pareceu ontem.

    — Mãe, a Laís estava de saia e blusa.

    — Ah, é? Só deu pra ver a calcinha.

    Depois de anos de batalhas infrutíferas, os diálogos se dividiram em monólogos e, por fim, sobraram apenas olhares desviados.

    Passei no vestibular, ia de casa para faculdade, da faculdade para casa, saía de vez em quando com amigos e um caso ou outro com alguma mulher. Nada sério.

    — Mãe, a senhora quer ir à minha formatura?

    — Formatura?

    — É, mãe. Vou me formar.

    — Já?

    — Sim, mãe. O tempo voa, né!?

    — Quando vai ser?

    — Mês que vem, dia três.

    — Hum... Tá bom. Três?

    — Sim.

    — Parabéns.

    — Obrigado, mãe. Matemática.

    — Eu sei. Você sempre gostou de números.

    — É.

    — E agora? O que vai ser? 

    — Acho que consegui uma vaga de professor em uma escola. Professor substituto.

    — Que bom, meu filho.

    Dona Rosana se levantou e me deu um abraço. Uma das poucas vezes depois daquela tarde no cinema. Foi estranho, porém revelador. Existia algum vínculo, ainda que adormecido.

      Foi bom ter a companhia da minha mãe na formatura. Ela sorriu todos os sorrisos guardados desde que meu pai foi embora. Dona Rosana pareceu querer compensar tantas trocas de ofensas. 

        — Aquela é a sua namorada?

        — O quê, mamãe?

        — Aquela moça ali, a de cabelos pretos.

        — Não, mamãe.

        — Por quê?

        — Ué, mãe, porque não.

        — Hum... Pois não perca tempo, Sérgio. A vida passa rápido demais.

        Mamãe estava certa. Naquela mesma noite, Marina e eu começamos a namorar. 

sábado, 18 de julho de 2026

Quase normais e outros escritores

 

    Tenho grandes amigos, gente quase normal. Não raro, faço referência a um ou outro nos meus contos, crônicas e romances. Digo até que é o tipo ideal de pessoa para ser retratada, ainda mais porque são críveis. 

    — Edu, e desde quando o Valfredo é normal? E aquele psicopata do Aldo? Ah, para né!

    Essa fala é do Pedro, um dos meus chegados que se enquadram dentro da dita normalidade aceitável. Valfredo e Aldo são dois dos meus personagens, sendo o primeiro do conto "Valfredo, o gigolô". Já o Aldo, figura central de "A carta e a urna", poderia facilmente ocupar um lugar em algum manicômio judiciário. 

    — E aí, Edu, quero ver você sair dessa!

     Olha o Pedro aí de novo. Sempre provocativo. 

      Volto a afirmar que os melhores personagens são baseados em pessoas normais. E são! E aí é que vem a grande sacada, pois o que mais surpreende é a improbabilidade da insanidade, mesmo que momentânea, dos certinhos. Talvez até esse seja o caso de você que está me lendo.

    Mas quero falar dos escritores, classe da qual faço parte. E obviamente que possuo amigos dessa raça, sim, repleta de insanos. E, apesar da proximidade, não pouparei ninguém, pois não nasci com cadeado nos lábios. 

     Que tal começarmos pelo J. Emiliano Cruz, o Jota? Se ele é maluco? Completamente! No entanto, não a ponto de precisar usar uma camisa-de-força, já que a loucura dele é praticamente toda voltada à literatura. E quem ganha com isso são os leitores, que viajam nas tramas mais esdrúxulas e inusitadas do autor. Por isso, meu amigo, aconselho a não tentar prever o desfecho dos contos do sujeito, pois a mente do Jota parece funcionar como os dribles do Garrincha: improvável

        E o Saulo Braga? Poeta favorito do Chefe (José Seabra),  ele foi meu colega de Banco do Brasil há muitos anos no Rio de Janeiro. Figura divertidíssima e das mais amalucadas que conheço. Ultimamente, ele tem arriscado na prosa, pois resolveu contar histórias vividas e, até então, guardadas em algum ponto obscuro da sua mente. Duvida? Então, olha essa:

        — Edu, vou te contar, estou vindo lá do hospital porque quebrei duas costelas. Tomei aquele tombo de velhinho. E o engraçado é que tomei o tombo e me lembrei de mais quatro histórias. 

        — Duas costelas? Eita! Que loucura, Braga! Se com duas costelas quebradas você se lembrou de quatro histórias, imagina se tivesse quebrado as vinte e quatro.

        Agora, um pouquinho da poetisa Simone Magalhães. Ah, essa aí é acometida de picos de insanidade, seja na madrugada, seja quando ninguém espera. E lá vai a Simone pegar um caderno e uma caneta para despejar emoções. O resultado encanta, é verdade, e faz o poema martelar a cabeça do leitor durante uma semana inteira, contando as duras manhãs de segunda-feira, quando a realidade tenta trazer o sujeito de volta para o planeta Terra. 

            Outro apaixonado pelas horas impróprias é o Daniel Marchi, que me manda mensagens despudoradas às duas da madrugada:

            — Edu! Tá acordado?

            Tento fingir que ainda estou sonhando com a Dona Irene, que está ao meu lado, talvez sonhando comigo. Bem, espero, se bem que sonhos são sonhos. Nova mensagem:

        — Edu! Preciso te mostrar uma coisa.

        Por que ele faz essas coisas comigo? Eu, que não sou curioso, sou acometido desse mal justamente àquela hora.

        — Oi, Dan! Diga lá!

        O meu amigo me manda um conto maravilhoso, que me deixa inebriado, não vou mentir, um bocado enciumado. Gente, como é que o pilantra tem essas ideias geniais? Que inveja! Mesmo assim, lá vou eu mandar palavras escancaradamente teatrais:

        — Caramba, Dan! Você é o melhor!

        — Você acha mesmo, Edu?

        Trocamos mais algumas palavras, o Dan adormece com o ego lá nas alturas. E eu, com a insônia, enquanto a Dona Irene parece ainda sonhar aqui ao meu lado. Comigo?

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A vida não cabe (poema de autoria da Dona Irene)


 Depois da morte,

uma pequena placa sobre a relva:

um nome,

duas datas

e um silêncio entre elas.


Como se uma vida inteira

pudesse caber naquele traço.

Como se o começo e o fim

resumissem tudo

o que aconteceu no meio.


Mas a lápide não conta

os sonhos que foram sonhados,

os que se realizaram

e aqueles que permaneceram acesos

até o último instante.


Não guarda o perfume

que ficou nas roupas,

nem o jeito tão único de sorrir,

a voz chamando nosso nome,

a forma particular de chegar

e mudar a atmosfera da casa.


A pedra não sabe dos medos,

das esperanças,

das noites sem dormir,

dos pequenos gestos de cuidado

que ninguém percebeu,

mas que sustentaram o mundo de alguém.


Não diz das mãos que trabalharam,

dos caminhos percorridos,

dos abraços oferecidos,

das lágrimas escondidas

para não preocupar quem se amava.


Uma vida não cabe

num nome gravado,

nem nas datas separadas

por um breve risco.


Porque aquele risco

é uma infância inteira,

uma juventude,

uma família,

uma história de amor,

uma sucessão de dias comuns

que hoje parecem sagrados.


A placa permanece sobre a relva,

quieta e pequena.


Mas quem partiu

continua imenso

na memória de quem ficou.


Vive no perfume que reaparece,

numa palavra repetida,

num costume herdado,

num sorriso que, de repente,

reconhecemos em outro rosto.


A morte pode encerrar os dias,

mas não consegue resumir uma vida.


Porque uma vida não é a lápide.

É tudo aquilo que ainda pulsa

quando alguém pronuncia seu nome

com amor.

Ruídos de família

    

    Como se fosse para-raios, dona Arlete atraía todo tipo de imbróglios familiares. E lá ficava a senhora, cara de paisagem, diante de uma das partes interessadas. Quem tinha alguma coisa para reclamar, que reclamasse, mas também não quisesse nada além do que ouvidos e um tanto de ironia.

    — Mamãe, você não vai acreditar.

    — Então, nem me conte.

    — Hum! Mamãe, você acredita que o Álvaro me chamou de dramática?

    — Não me diga. Você?

    — Pois é, mamãe! Pra senhora ver o que passo no meu casamento.

    — Coitada de você, minha filha. Tá, mas e eu com isso?

    — Mamãe! A senhora é a minha mãe.

    — Sei lá, Patrícia. Trocam tanto de bebês na maternidade.

    — Mas, mamãe, eu sou a cara da senhora!

    — Vai me culpar por isso também?

    — Mamãe!

    Humberto, sobrinho da dona Arlete, vez ou outra, aparecia na casa da tia. Por coincidência, artimanha ou obra do acaso, sempre no período da tarde, por volta das quatro, quando a mulher costumava tomar chá com torradas crocantes e queijos finos.

    — Titia, que saudade!

    — Oi.

    — Já falei que a senhora é a minha tia favorita?

    — Hum... Com esta, creio que já são três mil oitocentas e trinta e sete vezes. 

    — Só? Que sobrinho sem coração sou eu.

  — Talvez um pouco mais. É que a sua tia está ficando velha e nunca foi boa em matemática. 

    — Preciso me redimir, titia. Mas que cheirinho convidativo é esse? Não vai me dizer que a senhora preparou aquele café especial?

     Já sentados à mesa na varanda, Humberto puxava assunto, enquanto a tia queria mesmo é aplicar um bom pontapé nos glúteos do parente.

    — A senhora está sabendo?

    — Sabendo o quê?

    — Papai me disse que chegou a hora de eu bater asas e sair de casa.

    — Jura? O Ernesto fez isso?

    — Pois é, titia, pra senhora ver como são as coisas. A senhora acredita?

    — Bem, chega uma hora na vida... Tu fez quarenta anos, né!?

    — Completei trinta e nove no mês passado, titia.

    — Ah, tá! Cá estou eu sempre atrapalhada com os números. É a matemática, Humberto. Nunca fui boa nisso. E tu, com apenas 39 anos, ainda é um molecote. 

    O homem encarou a tia, que manteve o olhar firme, apesar da gargalhada silenciosa dentro da mente. Aliás, tamanho talento não é para todos. Dona Arlete não titubeava por coisa boba.

    Bom mesmo era quando juntava a família inteira, às vezes em algum aniversário, quase sempre no Natal. Ih, era aquela concorrência sem qualquer discrição para ter um dedo de prosa com a dona Arlete. Sem chance! A senhora sorria seu melhor sorriso de matriarca e dizia:

    — Hoje é dia de festejar, minha gente!

    No íntimo, dona Arlete não escolhia palavras: "Hum! Só digo uma coisa. Querem mesmo saber, bando de imbecis? Ah, querem mesmo? Pois digo é nada!"