— Nada se cria,
nada se perde, tudo se transforma, José, como já dizia Lavoisier.
— Por isso que
sempre vou preferir Drummond, Lígia.
Minha Lígia
certamente está espalhada por aí, quem sabe até na samambaia pendurada na
varanda de alguém ou no poodle da vizinha. Seria engraçado, pois a minha esposa
sempre foi alérgica a pelo de cachorro. Não que detestasse os bichos, era mais
questão de saúde.
— Já
espirrei pro ano inteiro, José. Até parece que o Padura entrou aqui hoje. Por
acaso você não deixou a porta aberta de novo, né, José?
— Não, meu amor. O Padura não entrou aqui.
Que saudade da minha Lígia, da sua voz, do seu sorriso, ah,
aquele sorriso. Do cheiro, até dos espirros, o primeiro tímido, o segundo um
tanto mais à vontade, os demais desavergonhados.
Minha filha veio aqui na semana passada. Deixou as crianças por
algumas horas. Queria que ficassem mais tempo, mas a Sônia se preocupa demais.
— Pai, melhor assim. A Alessandra e o Pedro dão muito
trabalho.
— Trabalho que nada, Sônia. Já estou calejado. Ou você se
esqueceu de como vocês eram?
Aproveitei o que deu com os meus netos. O Pedro, deve ser
por causa da idade, ficou praticamente a tarde inteira entretido com jogos
eletrônicos. A Alessandra, que acabou de completar três anos, não desgrudou da
barra das minhas calças. Parece interessada em tudo, e tudo parece
desinteressante no minuto seguinte. Quanta vivacidade. E como sorriu aquele
sorriso franco e sem amarras da pequena infância.
Posso parecer um tolo, talvez seja a idade, não sei. A
presença dos meus netos é um conforto e, não descarto, um elixir de coragem.
Não tenho medo da morte nem mesmo resquício da falta dos batimentos cardíacos,
cada vez mais falhos. Medo nenhum dessa finitude tão certa. No entanto, quando
tudo isso acabar, vou sentir falta.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre Lavoisier e Drummond" foi publicado no Notibras no dia 19/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-lavoisier-e-drummond/







