quinta-feira, 2 de julho de 2026

O baleiro de vidro

         

            Rodrigo entrou no boteco com o intuito de tomar refrigerante e saborear um salgado qualquer. Se tivesse coxinha, não muito gordurosa, arriscaria. O fígado não andava muito bem desde que pisara na casa dos 50.

          Um sujeito grande, bigode respeitável, cabelos penteados para trás, sorriu aquele sorriso amigável dos donos de botequim.

          — Tem coxinha, amigo?

          — Tem, mas eu não arriscaria. O quibe acabou de sair.

          O cliente apreciou a sinceridade do comerciante, porém correu os olhos pela vitrine. Lá estava uma solitária coxinha, generosa camada de óleo lhe lustrava a pele. 

          — É, chefe, você me convenceu. 

          Enquanto degustava o quibe e o refrigerante, Rodrigo percebeu dois garotos, talvez sete, oito anos, entrarem. As crianças se dirigiram à ponta do balcão, onde se encontrava um vistoso baleiro giratório. De vidro, igual a tantos outros que haviam encantado o menino que Rodrigo fora um dia.

          — Olá, Maurício! Olá, Joaquim! O que vão querer hoje?

          — Seu Lúcio, quero duas balinhas dessas daí de cima.

          — Esta?

          — Não, a outra.

          — Sabia que são as minhas favoritas, Joaquim?

          — Sério?

          — Sério. E tu vai querer qual, Maurício?

          — Hum... Tô na dúvida, seu Lúcio. 

          Pois dúvida era o que Rodrigo sentia em frente aos baleiros da sua infância. Também, como decidir quando se tem o mundo diante dos olhos?

          — Bom dia, Rodrigo. Como está a sua avó?

          — Bom dia, seu Pedro. Vovó tá bem.

          — E o que você vai levar hoje?

          — Num sei.

          — Que tal esse pirulito do Zorro? Você gosta do Zorro?

          — Gosto.

          — Então, vai querer quantos?

          — Num sei. Acho que vou querer esse aqui.

          — Um suspiro? É o meu favorito. Pode ser esse amarelo?

          — Hum... Gosto mais do rosa.

          — Eu também.

          Rodrigo, distraído em devaneios, não percebeu quando os meninos saíram. O que o Maurício teria levado? Alegria, na certa.

          — Chefe, quanto te devo?

          — Doze reais.

          — Você tem suspiro?

          — Tem, mas acabou.

          Rodrigo abriu a carteira, retirou uma nota graúda e a entregou ao dono do bar. Recebeu o troco e se despediu. Voltaria outro dia quando, quem sabe, finalmente poderia relembrar o sabor dos seus tempos de menino.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Domingo com a pá virada

   

    Salete entrou e, antes que alguém pudesse dizer palavra, anunciou:

    — Galera, vocês não vão acreditar no que acabou de acontecer.

    — O que foi, tia?

    — Nada!

    E gargalhou, o que deixou a Martinha contrariada.

    — Mas tu é doida de pedra mesmo, mulher!

    — Ah, mãe, e daí? É bom demais ser doida. Eu adoro! Não é mesmo, Gabriel?

    — É sim, tia.

    Valdir preferiu não se meter naquele princípio de imbróglio entre a esposa e a filha e, assim, fingiu interesse em um pardal que acabara de pousar na goiabeira, bem perto da janela.

    — Pai, o senhor tá melhor daquela tosse? Pai! O senhor tá surdo, é?

    — Oi?

    — E a tosse?

    — Que tosse?

    — A do senhor.

    — Acho que ela enjoou e foi caçar outro.

    — Tá vendo, mãe? E depois a senhora diz que sou adotada.

    — Seu pai é um poeta, minha filha. Já você... Ih, melhor nem comentar.

    — Hum! Gabriel, vem me ajudar a pegar as coisas. Comprei sorvete de chocolate pra gente. 

    Salete e o sobrinho foram até o carro, pegaram as sacolas de compra e colocaram tudo sobre a mesa da cozinha. 

        — Mãe, e esse povo que não chegou? Tem certeza de que eles vêm?

        — Salete, agora que são dez horas. 

        — Já?

        — Ainda.

        — Hum! 

        — Tia, posso tomar sorvete?

        — Pode.

        — Pode não, Gabriel, senão você não vai almoçar. 

        — Ih, mãe! Deixa o menino se divertir um pouco.

        — Gabriel, vá lá fora se divertir com a sua tia, que vou preparar o almoço.

        — Com sorvete?

        — Não, Gabriel! Com a bola. E cuidado pra não estragar as minhas plantas.

        — Vamos, Gabriel, que a sua avó acordou com a pá virada hoje. 

        Perto das 12h, começaram a chegar as pessoas. Alguns com refrigerantes, sucos, doces, outros de mãos vazias, mas todos com muito apetite. 

        Lasanha. Todos repetiram. E o Gabriel se esbaldou com o sorvete de chocolate.  Domingo que vem será a vez da macarronada.

terça-feira, 30 de junho de 2026

O imbróglio da meioca

   

    A mãe tentava dissuadir a criança, que se mostrava irredutível.

    — Meia.

    — Meioca!

    — Malu, é meia.

    — Meioca!

    A avó, sentada no sofá, observava aquele embate com certa curiosidade. 

    — Deixa a menina, Rose, isso é coisa da idade.

    — Dona Lúcia, isso é coisa do filho da senhora, só pode ser. Eu tentando ensinar as palavras certas pra nossa filha, e vem o Gustavo e fica inventando essas coisas. 

    A senhora, para evitar imbróglios desnecessários com a nora, preferiu o caminho da paz.

    — Coisas de homens, Rose, coisas de homens. Não tem por que se irritar, eles possuem lá alguma serventia. 

    As duas mulheres se entreolharam e, por um instante, pareceram concordar em algo. Em seguida, Rose se voltou para a filha.

    — Vamos, Malu, que mamãe já está atrasada. Vamos colocar a meia?

    — Meioca!

    — Hum! Tá bom, Malu. Meioca. Mas me dá o pé aqui.

    — Chulé!

    Rose voltou o rosto para a sogra, respirou fundo e, buscando o resquício de paciência debaixo do tapete, calçou a meioca no chulé da Malu.  

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Realidade refletida

    

    Larissa, vaidosa até a ponta da unha do mindinho, possuía uma autoestima para lá da realidade. Não que a mulher fosse feia, era bonita acima da média, o que a tornava alvo de inveja alheia. E não pense você que isso a deixava chateada.

        — Que culpa tenho eu, amiga, se todos os homens me querem? Não tem o Carlos?

        — O Carlos da Rosana?

        — O próprio. Tu acredita que ele me chamou pra sair?

        — Sério? E a Rosana tá sabendo?

        — Hum! Isso não é problema meu. Ela que aprenda a tomar conta do que é dela. E não serei eu que irei ensiná-la.

        — Não acredito que tu aceitou.

        — Amanda, fala sério! Só se eu estivesse matando cachorro a grito.  

        — Tu acha ele feio?

        — Hum! 

      Tamanha altivez, que havia iniciado bem antes de Larissa entrar na faculdade, prosseguiu até meados do curso de Biologia, quando já se imaginava influenciadora da vida selvagem. Larissa, a gata, em mais um dia no Cerrado ou, então, A pantera Larissa no meio das onças do Pantanal. Ih, logo seria destaque no National Geographic.

        — Larissa, tu vai à festa na casa do Cláudio?

        — Não tô sabendo.

        — Ih, vai todo mundo.

        — Se vai todo mundo, então eu vou, Júlia. Quando vai ser?

        — Sexta à noite.

        — O meu irmão vai ficar com o carro. Você me dá carona?

        — Sem problema. 

        Sexta-feira, lá foi a Júlia até a casa da amiga. 

        — Já?

        — Cheguei cedo, né?!

        — Nem me arrumei ainda. Entra aí.

        As duas mulheres foram até o quarto. Júlia se sentou na cama enquanto Larissa retocava a maquiagem.

        — Ué, Larissa, tu não usa espelho pra se maquiar?

        — Tenho horror!

        — Por quê?

        — Ah, amiga, espelhos são honestos demais!

domingo, 28 de junho de 2026

Obrigada, dona Márcia

  

          É cada uma que me aparece, difícil manter a classe, algo que, confesso, raramente me fez companhia. Se é de família, talvez coisa herdada de vovó ou, não descarto, tenha sido influência de uma vizinha que nos atazanava com tiradas que deixavam a todos boquiabertos. Ah, que saudade da dona Márcia!

          — Que tal uma xícara de café, dona Márcia?

          — Que tal uma boa xícara de cuide da sua vida?

          Pois é, aquela senhora não deixava barato, ainda mais quando tentavam intimidades desnecessárias. Em vez de me causar constrangimentos, as falas da mulher me enchiam de ousadia para enfrentar possíveis agruras que todas nós carregamos nos ombros. 

          — Jéssica, tu vai sair mesmo com essa saia?

          — Não sabia que o meu ex-namorado fosse o Yves Saint Laurent.

          — Quem?

          Ainda tenho dúvida se o que me fez largar o Zé Carlos na pista tenha sido o fato do cara querer se meter no meu guarda-roupa ou, então, foi a ignorância que pesou. De qualquer forma, obrigada, dona Márcia.

          Sempre trabalhei, pois não tive o raro privilégio de nascer princesa. Será que eu me adaptaria a uma vida cheia de luxo, a criadagem aos meus pés? Não sei, nem gosto de pensar nessas impossibilidades. O certo é que ralei que nem queijo parmesão. 

          Sou bancária desde 1992, quando passei no concurso do Banco do Brasil. Uma alegria e alívio por não ser mais explorada por ninharia. Antes fui de tudo um pouco, desde atendente de lanchonete, passando por cobradora de ônibus e, pouco antes de tomar posse, trazia muamba do Paraguai para vender. Uma loucura, pois nem sempre era fácil me livrar dos honestíssimos policiais na rodovia. 

          — Rapazes, esta aqui é a Jéssica, a nova colega.

          — Até que enfim, Soares, alguém que cheira bem.

          O dono dessa fala ridícula foi o Geraldo, um tipo detestável, imaginei. Não que estivesse errada por completo; o sujeito, como soube algum tempo depois, estava em processo de divórcio. A esposa o havia trocado por outro. Se ela tivesse conhecido a dona Márcia, nem teria se casado com o traste.

          Voltando àquele momento de apresentações, sorri. Pois é, simplesmente sorri até a próxima observação, agora do Augusto.

          — Agora sim, Soares, o BB vai ficar mais bonito.

          — Que o pessoal daqui é feio, reparei quando entrei, mas um banho de vez em quando é de bom-tom, né!

          Obrigada, dona Márcia. Nem sei o que seria de mim sem a senhora.

sábado, 27 de junho de 2026

Lauro, Pingo e outras solidões

          

        Lauro imaginou que não passava de sonho, um beijo de Sônia, a vizinha por quem tinha uma queda. Sorriu e, de repente, arregalou os olhos.

            — Sai pra lá, Pingo!

            O vira-lata se fez de desentendido e pulou sobre o homem.

            — Para! Para! Sai! Cachorro maluco.

            Lavou o rosto, olhou-se no espelho. Confidenciou ao próprio reflexo:

            — Será que ela beija bem?

            Sorriu. Sim, certamente beijava melhor do que o Pingo. 

            — Duvida?

            Assustado, o sujeito voltou os olhos para o espelho e, para sua surpresa, o seu reflexo havia se transformado na vizinha.

            — O quê?

            — Duvida?

            — Não. Claro que não!

            Jogou água na cara. Voltou a abrir os olhos.

            — Que loucura é essa, meu Deus?

            Abriu a porta e lá foi o Pingo se aliviar no quintal. Lauro pensou que talvez também precisasse marcar território. Estava cansado de noites divididas com o cachorro, que um dia foi deixado em uma caixa de papelão em frente ao portão. Por que mesmo o teria acolhido? Piedade, nada mais do que pena daqueles grandes olhos amendoados de um castanho profundo, que provocavam dó apenas de fitá-los. E o danado, de tão feio, tinha lá o seu charme.

        Xícara sobre a mesa da cozinha, Lauro tentou entender a fumaça, algo dança do ventre. Bastou um sopro, tomou um gole. Nada mal para um café solúvel. A preguiça o afastava do coador. Aquilo que era bom, gosto de casa de vó. Um dia criaria coragem para convidar a bonitona da casa em frente para degustar um gourmet nessas cafeterias chiques. Quando saísse o décimo terceiro.

        Avistou seu Onofre vindo da esquina. O senhor, como de costume, passeava com o Zeus, o mestiço de pastor que vivia às turras com o Pingo. Certamente por conta de uma pretendente. Se ele soubesse que o vira-lata era castrado.

        — Pingo! Pingo! Entra! Vamos! Entra!

        Tomou banho, se arrumou para o trabalho. Antes de sair, observou o calendário preso na parede da cozinha. Respirou profundamente. Não via a hora de trocar a juventude pela aposentadoria. 

        — Pingo, papai precisa trabalhar. Não vá fazer bagunça. Até mais tarde, bonitão!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Teatro de sobrevivência

  

Queria ser atriz. Não a donzela que no final da cena era beijada pelo mocinho. Atriz de verdade, que arranca sentimentos enrustidos na plateia. 

          Benedita Oliveira de Sousa, sem tempo para subir ao palco, deslocou o talento para a realidade. Foi de tudo e fez quase tudo para sobreviver. 

          Ainda menina, teve um interlúdio com a avó diante da fogueira mais generosa do que o conteúdo na panela sobre as chamas:

           — Benedita, minha garotinha inocente, prefira sempre a dissimulação.

           — O que é isso, vovó?

           — Finja, minha filha. Finja até quando o mundo disser chega.

          Lavou, passou, cozinhou, varreu, tomou conta de crianças da sua idade e até maiores. Foi recompensada com esmolas e tapinhas nas costas. Que fosse! Era muito para alguém vindo de onde ela veio. Que levantasse as mãos para o Céu e buscasse alento em Deus; o Inferno, ela há muito conhecia.

          Casou-se contra a vontade, que lhe fora ceifada ao nascer, engravidou sem saber, quis dar de mamar aos seus enquanto seus seios eram sugados pelos filhos de outrem. Sem tempo de pensar, agiu para sobreviver às pancadas. Filhos, netos e até dois bisnetos. Se a comida rareava, taca-lhe água e um punhado de farinha.

          Monique, nove anos, quer ser atriz. Vai atuar de verdade. Peça na escola, papel pequeno, não importa.

          — Bisa, quero que a senhora vá.

          — Aonde, minha filha?

          — Vou ser beija-flor.

          — Beija-flor?

          — É. Quer ver? 

          O pátio do colégio se fez de teatro. O público se acomodou do jeito que deu. Princesa, príncipe, sapo, beija-flor, jabuti, macaco, coelho, bruxa. Cadê a bruxa? Ficou doente, faltou. 

          — Dona Benedita, a Monique me disse que a senhora é atriz.

          — Eu?

          — Não é?

          — Isso é coisa da cabeça dela.

          — Não quer ser a bruxa?

          — Outra vez?

          Pegou o papel. Ganhou a plateia. Olhos tristes, Benedita percebeu que o que machuca de verdade é a risada. 

          — Dona Benedita, a senhora arrasou! Que atriz!

          — Finjo bem, professora. Finjo muito bem.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Greta, a boneca de porcelana

     

      Não faz muito tempo... Hum... Três, quatro meses? Bem, não sei ao certo, mas não importa. Comprei por impulso uma boneca em um antiquário. Não que eu tenha desejos por bonecas, não os tive quando menina, não seria a essa altura do campeonato que eles iriam atormentar a minha existência. 

      Bege, completamente bege, caso não fosse por um rosado nas faces, o avelã nos olhos e aquele vermelho um tanto suspeito nos lábios. Cabelos presos em um coque, rosto levemente inclinado para cima, sorriso mais discreto que o da Monalisa. Ela me fisgou, como se fosse a versão em porcelana da jovem que fui. 

      Enquanto caminhava com a boneca cuidadosamente embrulhada em jornal velho, comecei a imaginá-la sobre a estante da sala. Quando recebesse alguém, certamente todos iriam se encantar com a... Precisava de um nome. Mas qual? Adelaide. Não. Margarete? Hum... Greta. Sim, Greta. 

            — Que boneca maravilhosa, Rosana.

            — Ah, é verdade. A Greta foi presente de um embaixador russo.

            — Greta? O nome dessa boneca é Greta?

            — Greta Garbo. 

            — Nossa! Que chique!

            Sucesso total carregado de inveja alheia. E a Shirley? 

             — Rosana, onde você arrumou essa lindeza?

             — Ah, mandei trazer de Paris.

             — De Paris? Deve ter custado uma fortuna.

        — De Paris sim, minha amiga. Nem queria comprar, mas insistiram tanto. 

              — Pois nem me fale o preço, que posso cair pra trás.

             — Uma bagatela. Cinco mil reais.

             — Cinco mil?

             — Barato, né?

             — Mulher, por acaso tu tá assaltando banco?

            — Já te contaram?

            Ah, como seria bom ver a cara daquela metida que não tem onde cair morta. Dez mil. Não! Quinze. Dezoito mil, setecentos e sessenta e sete reais, fora as taxas. Aposto que a Shirley iria devorar as próprias entranhas de ódio.

               Abri a porta e, antes de entrar, dei uma boa olhada na sala. Precisaria empurrar um pouco a estante para que a estátua ficasse bem visível assim que alguém entrasse. Meio metro ou um tanto mais.

                Desembrulhei a Greta, passei uma flanela para tirar a poeira. Com cuidado, a depositei no vão mais alto da estante. Senti o sorriso percorrer todo o corpo e logo imaginei a Salete com aqueles olhos arregalados.

            — Mulher, que riqueza de boneca!

            — Tu acha?

             — Lógico que sim, Rosana.

            — É bonitinha.

             — Bonitinha é apelido, minha filha! Essa boneca deveria estar num museu.

            — Não vendo.

            — O quê?

            — Não vendo, não dou, não troco, não faço catira. Foi presente do desembargador.

            — Desembargador?

            — É.

            — E tu agora deu pra andar com esse da alta?

          Peguei a toalha e fui tomar banho. Virei o rosto para o chuveiro, que lavou a minha alma de tanta inveja daquela gente. Exausta, mal me deitei, o sono me pegou de jeito.

            Na manhã seguinte, xícara na mão, contemplei a Greta por praticamente meia hora até que a urgência do dia a dia me puxou de volta para a vida. E foi nessa correria que a boneca foi esquecida debaixo de tantos compromissos. 

       Sexta-feira passada, ou melhor, já era sábado quando cheguei de mais uma confraternização com os colegas do Banco do Brasil. Temos o hábito de, acabado o expediente, dar aquela esticada no Bar do Bosco. Bebi um tanto mais do que de costume, mas nada que comprometesse a minha sanidade mental.

                Girei a maçaneta e dei de cara com a Greta Garbo, que me sorriu. Acredite! A boneca de porcelana sorriu aquele sorriso de Coringa, depois girou a cabeça para o lado e, em seguida, me encarou com aqueles olhos de caramelo.

                  Se fiquei assustada? Não digo que sim nem que não, mas algo me fez dar dois ou três passos graúdos para frente e taquei a mão naquela desgraçada, que se espatifou no chão. Como não sou de adiar obrigação, peguei a vassoura e a pá de lixo. Juntei os cacos e joguei na lata do lixo. Pois sim! Na minha casa não, violão!

                    E foi assim que tudo aconteceu. Estava bêbada? Não nego. Tenho como provar? Não tenho. Vai duvidar?

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Vizinhos, maridos e outros detalhes

     

Não vou mais fazer isso. Quer dizer, foi o que decidi ontem à noite. E essa ideia me acompanhou até a hora do café, que tenho o hábito de tomar sem a ilusão de torrões de açúcar. No máximo duas gotas de adoçante para manter a linha e a compostura diante dos percalços da vida.

        Vida de amante. Se a minha mãe descobre, talvez fique constrangida por causa dos genes que me passou. Papai sempre me pareceu alheio às inúmeras pistas atiradas pelo caminho. Não descarto que aprecie sua situação ou, então, seja do tipo que tem como lema viva e deixe viver. 

        — Você é louca!

        Quem disse isso foi Lúcia, a minha irmã.

        — Aconteceu tão assim... Quando me dei conta, já estávamos na cama.

        — Hum! Louca! Mas me conta, Morgana, o Júlio é bom de serviço?

        Eu, a louca, precisava passar a ficha completa do marido da minha vizinha. Mas eis que palavras foram substituídas por uma gargalhada reveladora.

        — Sabia! 

        — Sabia o quê, Lúcia?

         — Ah, do jeito que a Rosana anda com aquele sorriso no rosto...

          Rosana é a minha vizinha, mulher do Júlio.

            — Mas você não tem medo?

            — Ah, até tenho, mas na hora dá aquela amnésia.

            Amnésia? De onde tirei isso? Seja como for, a Lúcia trocou o sorriso por um olhar interessado demais para o meu gosto. Ter um caso com o marido da vizinha basta, não vou querer transformar isso em feijoada de domingo. Que a minha irmã vá brincar em outro parquinho.

        — Olá, meninas! Quais são as novidades?

        Álvaro, meu marido, apareceu fingindo curiosidade. Ah, se ele soubesse que o Júlio tem uma filial. Pior, que sou eu. Preciso largar essa história de ser amante. Como isso dá trabalho! Amanhã. Sim, talvez amanhã ou mês que vem. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

O preço do arrependimento

        Valdir complementava a aposentadoria com o que raramente pintava. Desencapava fios e mais fios atrás do cobre, que era vendido aos quilos; capinava um lote ou outro; trabalhava de garçom em festas de crianças, casamentos e confraternizações. A despeito dessas atividades, o senhor tinha apreço por panelas de pressão.

             — Vai mesmo jogar fora, dona Anísia?

             — Comprei uma elétrica. Muito mais prática.

            O homem deixou de lado qualquer resquício de orgulho e tratou de pegar a panela rejeitada. Era nítido que a pobrezinha já havia se envolvido com muito feijão, canjica, milho e aipim. Gasta além da conta, não importava, Valdir a acolheu em seus braços e a levou para o seu pequeno apartamento. 

             — Aurora. Hum... Não! Genoveva parece combinar melhor com você. Vou colocar essa borrachinha aqui e você vai poder cozinhar muito ainda. Vai ser disputada a tapas.

            A panela de pressão, talvez encabulada, não quis responder ao idoso. Seria louco? Mais provável que aquilo fosse apenas solidão. 

             — Coitadinha, está tristinha? Logo, logo você faz amizade com a Flora, a Felícia, a Marta e a Jurema. Se você tivesse chegado há duas semanas... Mas deixa estar, minha querida, que aqui é tudo gente boa. Então, sinta-se à vontade.

             Nova ausência de fala, a Genoveva talvez fosse muda de nascença.

             Como previsto, bastou um banho de loja para que a Genoveva fosse mote de disputas ferrenhas. E lá estavam a Mirtes, a Honorata e a Lourdes dando os lances.

             — Trinta reais, seu Valdir.

             — Pois eu dou cinquenta agora mesmo. Não peço fiado, isso é coisa da Lourdes.

             — Coisa minha? Eu pago é com Pix, minha filha!

             — Pois quero ver! Tu deve o Zé da feira há mais de mês que eu tô sabendo.

             Enquanto as três mulheres não entravam em acordo, apareceu a dona Anísia, que há pouco mais de mês havia jogado aquela panela de pressão no lixo. Ela chegou de mansinho e depositou uma nota de cem no bolso da camisa do Valdir. O sujeito sorriu e devolveu a Genoveva à senhora. 

             Não se sabe exatamente o motivo que fez a dona Anísia se arrepender de ter jogado fora a sua antiga panela de pressão. Há boatos, e talvez nenhum seja totalmente verdadeiro. Dizem que a panela elétrica queimou e, também, há a versão de que a comida ficou sem gosto. O certo mesmo é que o Valdir tem sido visto na casa da mulher nos finais de tarde, quando o cheiro inconfundível de milho cozido toma todo o bairro. Milho cozido e amor.