Durante
uma quarta-feira, que poderia ser terça ou quinta, Eugênia recebeu a visita
de Lúcia, amiga de longa data. Mal se entreolharam, as duas constataram
estranhezas no rosto da outra.
— O que
foi, Eugênia? Parece que veio de um velório.
— E que
cara de felicidade é essa? Por acaso encontrou o passarinho verde por aí?
— Tô
procurando, tô procurando.
Sentaram-se no sofá, a televisão ligada. Nenhuma das duas parecia interessada
na programação.
— Tá
assistindo?
— Não.
—
Então, mulher, por que não desliga isso?
— Sei
lá! Deve ser por conta do hábito.
— Ih,
Eugênia, o que aconteceu?
—
Hum... Sabe que não sei, amiga, mas não me engano.
— Com o
quê?
— Não
faço ideia.
— Já
sei do que você precisa.
— De um
amante. Mas tem que ser um coroa bonitão e fogoso.
— Hum!
Até parece.
— Café.
— Café?
— É
disso que você precisa.
—
Hum...
— Tem
pó?
— Tem,
Lúcia.
Já na
cozinha, enquanto a visita preparava o café, a anfitriã, cara murcha, apenas
observava. Muda, preferia divagar sobre a sua cisma.
— Prove.
— Tem torrada aí nesse pote amarelo.
— Nada de torrada, Eugênia. Tome.
— Só café?
— Ah, amiga, não se engane. Café nunca é só café.
Mesmo consternada, Eugênia deu uma leve bicada. Depois outra. Mais uma. Sorriu.
- Nota de esclarecimento: O conto "O gosto da suspeita" foi publicado no Notibras no dia 22/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-gosto-da-suspeita/
.jpeg)







