— Se tu não for, eu vou.
— Lúcia, tu é casada!
— Ainda.
— Como assim? Alguma coisa errada
entre você e o Mauro?
— Errada sou eu, minha irmã, que
nasci pra rodízio.
— Hum! Pois eu sou à la carte.
— E eu não sei? Você sempre foi a
caretona da família.
Geraldo, 56 anos, divorciado há anos,
rosto agradável, sorriso encantador, mora em Roma, onde é professor
universitário. Fluente em francês, inglês, espanhol, alemão e italiano. Ainda
bem que era brasileiro e se comunicava perfeitamente em português. Do contrário,
aqueles dois teriam problemas na comunicação. E posso lhe garantir que a
conversa foi ótima, muito por conta das duas ou três taças de vinho que
tornaram Marta, digamos, receptiva aos avanços do bonitão.
O primeiro toque de mãos aconteceu
quase por acaso, era o que a mulher imaginava. Quer dizer, agora sentada no
sofá do seu apartamento, já não duvidava que havia sido ela a provocar aquela
primeira carícia. E daí? Marta tentou colocar toda a altivez para fora. Era
livre, adulta, dona do próprio nariz. Problema do Augusto, que preferiu se
aventurar com uma novinha.
— Você tem
certeza?
— Não quer?
— Quero se você
quiser.
— Pois eu
quero, Geraldo.
Chamaram um táxi
e cruzaram a cidade. Apesar do trânsito praticamente livro àquela hora, os
enamorados sentiram que nunca chegariam.
— Obrigado,
chefe! Pode ficar com o troco.
Entraram no edifício, o
primeiro beijo aconteceu ainda no elevador. Tomados de desejos, foram direto
para o quarto, onde a cama macia os abraçou até que, exaustos,
adormeceram.
Xícara na mão, Marta buscava no café
qualquer explicação para os últimos acontecimentos da sua vida. Não chegava a
se arrepender, as poucas lembranças que o vinho não apagara lhe traziam certa
euforia, a ponto de levar seus dedos aos lábios: "Meu Deus, como beija
gostoso!"
Ainda com
sentimentos confusos, Marta sentiu que alguém a observava. Voltou o rosto para
o corredor, mas nada. Geraldo provavelmente ainda estava dormindo. Um leve
toque na janela. Um carcará. A mulher tomou um susto, quase gritou.
O falcão a encarou, aquele olhar penetrante, altivo, implacável. A culpa tomou conta da mulher, que se viu entre a ave de rapina e o homem praticamente desconhecido que dormia no seu quarto.
- Nota de esclarecimento: O conto "Mulher à la carte" foi publicado no Notibras no dia 21/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/mulher-a-la-carte/








