— Edu, e desde
quando o Valfredo é normal? E aquele psicopata do Aldo? Ah, para né!
Essa fala é do
Pedro, um dos meus chegados que se enquadram dentro da dita normalidade
aceitável. Valfredo e Aldo são dois dos meus personagens, sendo o primeiro do
conto "Valfredo, o gigolô". Já o Aldo, figura central de "A
carta e a urna", poderia facilmente ocupar um lugar em algum manicômio
judiciário.
— E aí, Edu,
quero ver você sair dessa!
Olha o
Pedro aí de novo. Sempre provocativo.
Volto
a afirmar que os melhores personagens são baseados em pessoas normais. E são! E
aí é que vem a grande sacada, pois o que mais surpreende é a improbabilidade da
insanidade, mesmo que momentânea, dos certinhos. Talvez até esse seja o caso de
você que está me lendo.
Mas quero falar
dos escritores, classe da qual faço parte. E obviamente que possuo amigos dessa
raça, sim, repleta de insanos. E, apesar da proximidade, não pouparei ninguém,
pois não nasci com cadeado nos lábios.
Que
tal começarmos pelo J. Emiliano Cruz, o Jota? Se ele é maluco? Completamente!
No entanto, não a ponto de precisar usar uma camisa-de-força, já que a loucura
dele é praticamente toda voltada à literatura. E quem ganha com isso são os
leitores, que viajam nas tramas mais esdrúxulas e inusitadas do autor. Por
isso, meu amigo, aconselho a não tentar prever o desfecho dos contos do
sujeito, pois a mente do Jota parece funcionar como os dribles do Garrincha:
improvável
E o Saulo Braga? Poeta favorito do Chefe (José Seabra), ele foi meu colega de Banco do Brasil há
muitos anos no Rio de Janeiro. Figura divertidíssima e das mais amalucadas que
conheço. Ultimamente, ele tem arriscado na prosa, pois resolveu contar
histórias vividas e, até então, guardadas em algum ponto obscuro da sua
mente. Duvida? Então, olha essa:
— Edu, vou te contar, estou vindo lá do hospital porque quebrei duas
costelas. Tomei aquele tombo de velhinho. E o engraçado é que tomei o tombo e
me lembrei de mais quatro histórias.
— Duas costelas? Eita! Que loucura, Braga! Se com duas costelas
quebradas você se lembrou de quatro histórias, imagina se tivesse quebrado as
vinte e quatro.
Agora, um pouquinho da poetisa Simone Magalhães. Ah, essa aí é acometida
de picos de insanidade, seja na madrugada, seja quando ninguém espera. E lá vai
a Simone pegar um caderno e uma caneta para despejar emoções. O resultado
encanta, é verdade, e faz o poema martelar a cabeça do leitor durante uma
semana inteira, contando as duras manhãs de segunda-feira, quando a realidade
tenta trazer o sujeito de volta para o planeta Terra.
Outro apaixonado pelas horas impróprias é o Daniel Marchi,
que me manda mensagens despudoradas às duas da madrugada:
— Edu! Tá acordado?
Tento fingir que ainda estou sonhando com a Dona Irene, que
está ao meu lado, talvez sonhando comigo. Bem, espero, se bem que sonhos são
sonhos. Nova mensagem:
— Edu! Preciso te mostrar uma coisa.
Por que ele faz essas coisas comigo? Eu, que não sou curioso, sou
acometido desse mal justamente àquela hora.
— Oi, Dan! Diga lá!
O meu amigo me manda um conto maravilhoso, que me deixa inebriado, não
vou mentir, um bocado enciumado. Gente, como é que o pilantra tem essas ideias
geniais? Que inveja! Mesmo assim, lá vou eu mandar palavras escancaradamente
teatrais:
— Caramba, Dan! Você é o melhor!
— Você acha mesmo, Edu?
Trocamos mais algumas palavras, o Dan adormece com o ego lá nas alturas. E eu, com a insônia, enquanto a Dona Irene parece ainda sonhar aqui ao meu lado. Comigo?
- Nota de esclarecimento: A crônica "Quase normais e outros escritores" foi publicada no Notibras no dia 18/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/quase-normais-e-outros-escritores/








