Casada, dois filhos pequenos, sentia-se
enclausurada naquele apartamento de dois quartos, enquanto Carlos, o esposo,
ganhava o mundo ao sair para trabalhar. Júlia e Mauro, as crianças, passavam as
tardes na escola, e Vera, cada vez mais entediada, olhava pela janela, talvez
na busca desesperada por seus sonhos que, por mais tolos que fossem, praticamente
haviam sido deixados para trás.
Foi numa dessas tardes solitárias que
Helena, a vizinha de porta, xícara vazia na mão direita, enquanto na outra
segurava um cigarro pela metade, foi pedir um pouco de pó de café. Elas mal se
conheciam, como, já naqueles idos, era comum nas cidades grandes, como se fosse
espécie de código não escrito. Mesmo assim, a política da boa vizinhança se
fazia necessária e, com ela, o desconforto se transformou em sorrisos
aparentemente francos.
Xícara cheia, Helena agradeceu, momento em
que Vera, olhando por cima do ombro esquerdo da vizinha, percebeu a porta
entreaberta. Confortavelmente sentado ao sofá, estava um homem de cabelos
escuros, bigode e olhos árabes. Ele sorriu, o que trouxe misto de timidez e
inquietação à Vera. As mulheres se despediram com olhares confidentes.
Dois dias depois, a campainha tocou novamente. Vera atendeu sem pensar em
quem seria. Era Helena, xícara na mão direita, agora cheia de pó de café.
`— Não precisava.
— Faço questão.
— Obrigada. Helena, né?
— Isso. E você é a Vera. Acertei?
— Sim.
Elas se olharam por um momento, até que Vera tomou a iniciativa
de convidar a vizinha para tomar café.
— Não quero incomodar.
— Não é incômodo. Vai ser
até bom. Estou precisando conversar com alguém mesmo.
Enquanto a anfitriã colocava água para ferver, Helena
percebeu que a cozinha era impecável, como se Vera estivesse esperando por
visitas.
— Que nada, Helena! Estou tão acostumada a ficar sozinha,
que acabo de limpar tudo, daqui a pouco já estou passando pano nos móveis de
novo.
Sentadas à mesa, as duas mulheres, ainda se conhecendo,
pareciam escolher com cuidado as palavras.
— Está bom?
— O café?
— Sim.
— Ah, está ótimo! Muito melhor do que o meu.
Mais um silêncio, logo quebrado.
— Sou casada.
— Eu vi que é.
— Não. Aquele homem que você viu não é o meu marido.
— Não?
— É meu amante.
Vera sabia que aquele sujeito não era o esposo da vizinha.
Mentiu, é verdade, pois não via motivo para causar constrangimentos
desnecessários. Todavia, foi pega de surpresa com o completo despudor de
Helena. De tão impressionada, Vera levou as mãos aos lábios, que se sentiam
impulsionados a acompanharem o sorriso encantador da adúltera.
— Não tem medo?
— Medo de quê?
— De alguém descobrir?
— Não.
— E o seu marido?
— Seria até bom.
— Você está louca?
— Hum! Pelo menos assim ele perceberia
que estou viva.
Era justamente daquele jeito que Vera se
sentia, deixada de lado por Carlos, a vida se esvaindo como se alheia ao
sofrimento, que havia se instalado no peito solitário da mulher. No máximo, um
apêndice. E, envolta nesse sentimento, ela se envolveu com Pedro, que
conhecera, por acaso, na mercearia do bairro.
Um tipo aparentemente austero até a primeira
palavra dita. Por encanto, era como se Vera estivesse diante de um desgarrado
da conduta ilibada esperada por aqueles de bons costumes. Sem pensar, ela se
aproximou do sujeito e, sorriso nos lábios, se mostrou acessível, para espanto
do homem, que não deixou de notar a chamativa aliança no dedo anelar esquerdo
da mulher.
Aquele primeiro contato não rendeu
frutos de imediato, mas a semente fora lançada e, na semana seguinte, tarde
ensolarada, Vera e Pedro, sentados à mesa da cozinha, mal tocaram no lanche.
Atracaram-se na ânsia de apagar o fogo que os consumia, enquanto o café
esfriava e os biscoitos amanteigados eram deixados de lado.
O romance durou o tempo que deveria ter
durado. Não mais do que alguns meses. Entediada, Vera foi direta, não queria
mais. Não por culpa, a questão era outra. Luís, vendedor de enciclopédias,
cujos lábios carnudos chamaram a atenção da mulher.
Luís ficou enciumado quando descobriu que a amante o estava traindo com Rubens e, sem drama, saiu de cena. Seguiram-se Augusto, Roberto, Laerte e até dois homônimos do esposo. Não se sabe se ela foi descoberta por Carlos, que parecia voltado aos próprios interesses. Há tempos, ele vivia um romance com Judith, uma colega de trabalho, e até pensava em largar a família, mas havia um empecilho. É que a amante era casada. Aliás, muito bem-casada por sinal.
- Nota de esclarecimento: O conto "Vera, um caso isolado entre tantos" foi publicado no Notibras no dia 9/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/vera-um-caso-isolado-entre-tantos/







