segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Démodé

    

    Julião tomou o calhamaço em suas mãos. Lígia observou o marido, a ansiedade por ouvir o primeiro leitor antes de enviar o romance para o editor. Escritora de sucesso, ainda guardava o pavor da rejeição.

    — Era uma vez? É isso mesmo, Lígia?

    — Não entendi.

    — Quem não entendeu fui eu. Que coisa mais démodé.

    — Démodé?

    — Fora de moda, ultrapassada.

    — Eu não sou burra, Julião. Eu sei o que é démodé.

    — Bem, eu só queria...

    — Não quero mais, Julião.

    — Não quer mais o quê?

    — Seu palpite infeliz.

    — O quê?

    — Noel Rosa, Julião. Noel Rosa.

domingo, 9 de agosto de 2026

Tapinhas nas costas

 

     Rodrigo, mal havia concluído o curso de Direito, conquistou uma concorrida vaga em um dos mais gabaritados escritórios de advocacia da capital. A despeito de outros candidatos possuírem experiência, sem contar que um ou outro foi por indicação, o Dr. Gouveia, sócio majoritário, insinuou certo encantamento por aquele frangote de vinte e poucos anos e de modos simplórios.

    Os meses que se seguiram foram árduos. Todavia, para um tipo como Rodrigo, cuja história de vida era favela, fazer hora extra e receber ninharia não o assustou. Na verdade, o rapaz até gostava, a sua sala possuía ar-condicionado e o café era de primeira.

    Os advogados mais tarimbados olhavam com desdém para os ternos baratos do novato. Rodrigo parecia não se importar, de tão entretido com os processos que lhe eram entregues  apenas coisas de pequena monta, além de uma causa tida como perdida.  Esta causa, por sinal, era chamada pelos mais antigos advogados de pirita, também conhecida como ouro de tolo, pois a cor dourada e o brilho metálico podem cegar a razão dos desavisados.

        Ganhou. Para surpresa de todos, ganhou. Alguns milhões encheram ainda mais os cofres dos patrões. Quanto ao Rodrigo, junto dos costumeiros tapinhas nas costas e das promessas que oportunamente seriam esquecidas, recebeu alguns milhares de reais, o suficiente para dar entrada em um modesto apartamento, bem como trocar de carro. Um seminovo, mas um seminovo importado.

           Assim que contou a novidade para os pais, eles sorriram. No final do mês, depois da papelada pronta, a família iria trocar o barraco por um lar de alvenaria. Coisa de luxo para os seus. No entanto, a avó, praticamente surda para coisas tolas, absorveu aquilo e torceu os lábios.

             — Vovó, a senhora não está feliz?

             —  Rodrigo, meu filho, feliz e preocupada.

             — Com o quê, vovó?

         — Cuidado com o sucesso, meu filho. Ele pode ser horrível, pode torná-lo prepotente. Não duvide! Um chato. O fracasso é necessário. O fracasso dá a você equilíbrio, um equilíbrio que você não aprende em casa ou na escola. Além do mais, a dor dói, mas é ela que vai te manter vivo.

sábado, 8 de agosto de 2026

Entre quindins e madrugadas

    Eleonora, confeiteira, sonhava em ser atriz, era apaixonada por crianças e convivia com dois gatos. Trinta e poucos anos, idade em que os sonhos ainda insistem em perambular pelo coração dos ingênuos.

    Entre brigadeiros e quindins, Eleonora adocicava a vida dos clientes. Os elogios se sobrepunham aos ganhos, mas a mulher parecia se sentir recompensada. "Afeto alimenta mais do que feijão", costumava dizer.

    As encomendas, cada vez mais apertadas, precisavam ser cumpridas à risca. Do contrário, era capaz de alguém inundar os ouvidos de Eleonora com impropérios. Melhor não arriscar e, dessa forma, a mulher virava as noites para manter a pontualidade. E, à custa de sono atrasado e pestanas pesadas, a confeiteira funcionava igual a um relógio suíço. 

    Certa feita, talvez por falta de corda, o tal relógio dormiu no ponto. Eleonora perdeu o horário. Quando se deu por si, dona Laís, a cliente da vez, bateu à sua porta. Pobre confeiteira, precisou apressar as pernas.

        Enquanto dona Laís aguardava na varanda, Eleonora era só desculpas. Pois bem, ela ofereceu café, ofereceu biscoitos amanteigados; e a senhora mantinha o semblante impassível até que Eleonora apareceu com os quitutes.

            — Dona Laís, aqui estão os seus cajuzinhos e brigadeiros.

            A cliente voltou os olhos para os embrulhos, abriu um e pegou um dos doces. Levou-o à boca, mastigou a iguaria por um instante que, para a confeiteira, pareceu uma eternidade. Sorriu.

            — Que delícia!

            — Obrigada, dona Laís. E me desculpe pela demora. Não sei como perdi o horário hoje.

            — Imagina, Eleonora. Não tenho compromisso com a pressa.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O fantasma de Luana

    

    A vida adulta é implacável. Não há conto de fadas que resista.

    — Eu te amo e nunca mais vou deixar de te amar.

    Álvaro, cigarro entre os dedos, foi tomado pela lembrança da frase dita por Luana, antiga namorada do ginásio. Aquele "nunca mais vou deixar de te amar" não durou um verão. A garota trocou o então adolescente cheio de espinhas por Marcos, um tipo que parecia saído de uma série de TV dos anos 1980. Deu a última tragada e amassou o cigarro no cinzeiro ao lado. A pele havia melhorado com o passar dos anos, mas a mágoa continuava alojada.

    — Oi, amor. Já acordou?

    O sujeito voltou os olhos para a esposa e fingiu o sorriso costumeiro.

    — É. Muita coisa pra fazer hoje. O escritório está me sufocando.

    — Vem cá. Deita aqui que faço uma massagem pra você relaxar.

    Sem maiores desculpas, Álvaro se deitou ao lado da esposa. As mãos de Lúcia começaram pelos ombros.

    — Nossa, amor! Você está tão tenso.

    — É o trabalho, Lúcia. É o trabalho.

    Álvaro não conseguiu afastar Luana dos seus pensamentos. Mandíbula travada, ele continuou remoendo o passado: "Cretina! Aposto que se casou, teve uma penca de filhos, engordou, o marido a largou por uma novinha. Bem feito!"

    — Está gostando, amor?

    — Muito. Você tem mãos maravilhosas.

    — Você acha mesmo?

    — Sim, Lúcia.

    As mãos de Luana, macias, dedos longos, dedos de pianista. Álvaro se lembrava do toque suave da antiga namorada. Ela costumava despentear os cabelos dele.

    — Por que você sempre faz isso?

    — Ah, Álvaro, você é muito certinho. Até parece um filhinho da mamãe.

    Filhinho da mamãe. Era disso que Luana o chamava. E ela o trocou por aquele cara de cabelos de comercial de xampu. E aquele sorriso? Qual o sentido de um adolescente possuir dentes tão perfeitos? Álvaro ainda carregava o fantasma da comparação.

        — Lúcia, os meus dentes são feios?

        — Não.

        — Verdade?

        — Bem, amor, se você parasse de fumar, os seus dentes ficariam menos amarelados.

        Por que a esposa precisou ser tão sincera? Que mentisse! Que dissesse que os dentes do marido eram lindos ou, ao menos, agradáveis. Custava?

        As mãos da mulher começaram a incomodar Álvaro. De repente, ele se levantou.

        — O que foi, amor?

        — Preciso me arrumar. Muito trabalho. Hoje vai ser um dia daqueles. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O homem que não tinha passarinho

        

    Aloísio despertou num domingo chuvoso, afastou a cortina e constatou que a tão prometida praia teria que ser adiada. Entediado, preparou uma garrafa de café, o dia prometia ser longo. Pegou o aparelho celular sobre a mesa da sala, mas logo desistiu de enxergar o mundo através da tela. Olhou em direção à porta e se lembrou do jornal. Aloísio se ergueu e foi pegá-lo sobre o capacho. 

    O homem costumava se informar através de portais de notícias mais práticos, mais dinâmicos, era a modernidade. Entretanto, há poucas semanas, decidiu fazer a assinatura de um jornal de verdade, como gostava de dizer. Desses que deixam marcas de chumbo nos dedos, cujas folhas ficam amarrotadas com o manusear e podem ser reutilizadas para algo menos nobre: forro de gaiola de passarinho ou embrulho de vidraçarias nas mudanças.

        O sujeito não possuía passarinho, também não estava nos seus planos se mudar. O aluguel cabia quase confortavelmente no seu bolso de aposentado, e o apartamento, apesar de modesto, ficava a poucas quadras da praia.

        Entre um gole e outro de café, Aloísio folheava o jornal e, metodicamente, à medida que lia, repousava os cadernos ao lado. Não gostava de certos colunistas, certamente escreviam para agradar o patrão. Lia-os para ter o prazer de desmascará-los mentalmente. Também não acompanhava futebol, mas gostava dos exageros clubísticos. 

        Como se fossem a cereja do bolo, Aloísio se deparou com as tirinhas de costume. As favoritas foram lidas primeiro. Alguns sorrisos aplacaram o cinza das nuvens, que insistiam em garoar o final de semana. Deparou-se com algo desconhecido: Adamastor, o cachorro.

        Leu o quadrinho. Releu-o, como se tentasse absorver o máximo daquela tirinha. O olhar de desdém fez com que o homem voltasse os olhos para o personagem favorito. Pensou: "Muito melhor!"

        Levantou-se, caminhou até a janela, observou a rua. Voltou e encarou a página escancarada sobre a mesa. Aloísio, em um ato de autoconvencimento, disse em voz alta até um tom pouco acima daquele de costume: "Ah, não tem comparação. Muito melhor!"

        Aloísio observou o jornal por mais um instante, pegou-o e, irritado, o atirou de volta à mesa. Hora de forrar o estômago. Algumas torradas esquecidas no fundo do armário receberam generosas camadas de manteiga. 

        Enquanto mastigava, Aloísio observou o derradeiro caderno do periódico. Pensou: "Só quero ver se essas modernidades vão resistir à próxima semana."

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O nó da questão

 

    Etiqueta, definitivamente, não era a praia do Juvêncio. Não que o sujeito fosse mal-educado, era questão de praticidade e conforto.

    — Meu amor, mas o que custa? É só hoje.

    — Não sei dar nem nó de gravata. Pra quê? Nunca gostei. Quero a minha regata.

    — Regata?

    — Não é um churrasco, Maria Rita?

    — Na casa do deputado, Juvêncio. Na casa do deputado!

    — E daí? É um churrasco. 

    — Mas você é mesmo cri-cri, hein?!

    — Eu?

    — E por acaso sou eu que tenho implicância com terno e gravata?

    — Não é implicância, Maria Rita.

    — E o que é, então, Juvêncio?

    — Incompatibilidade. Simples assim.

    — É, Juvêncio, você tem razão. Também estou sentindo.

    — O quê?

    — Certa incompatibilidade entre a gente.

    O homem, para manter a harmonia, tratou de entrar no terno, ajustou a gravata em volta do pescoço e calçou os sapatos impecavelmente engraxados.

    — Que tal, meu amor?

     — Apresentável, Juvêncio. Apresentável. Doeu?

    O casal estacionou em frente ao casarão do deputado Horácio. Um funcionário se postou ao lado do veículo e, gentilmente, abriu a porta para Maria Rita descer. Em seguida, acompanhou os convidados até o anfitrião. Assim que a autoridade avistou Maria Rita e Juvêncio, sorriu com todos os dentes. Com todos os dentes e de regata. Afinal, era churrasco.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O gosto do Marcos Rey

  

    Nunca imaginei que eu teria nem um minuto sequer com o Seu Urias, um tipo que sempre me pareceu a própria expressão de carranca. E era, pelo menos aos olhos de todos ali na rua, especialmente para as crianças e adolescentes.

    — Mamãe, por que ninguém gosta do Seu Urias?

    — Carlinho, isso não é verdade.

    — A senhora gosta dele?

    — Eu?

    — É.

    — De jeito nenhum! Que velho mais desagradável.

    Aconteceu numa manhã, talvez de domingo ou feriado. Sei apenas que não era dia de escola. Seu Urias vinha da quitanda da dona Lúcia, carregava duas sacolas abarrotadas. Quando ele estava a poucos metros, nossos olhares se cruzaram. Eu, por impulso, me ofereci para ajudá-lo. Coisa toda que fazemos quando deixamos o raciocínio de folga.

    — Muita gentileza sua. Carlinho, né?

    — Sim, senhor.

    — Filho da dona Joana, né?

    — Sim.

    — Boa mulher. Você é um menino de sorte.

    Seu Urias, assim que deixei a sacola na cozinha, tirou a carteira do bolso e sacou uma nota de cinco reais. Recusei.

    — Ah, entendi. Hombridade, né?

    Sem entender o que aquilo significava, assenti com a cabeça. Seu Urias me observou por um momento e, em seguida, foi até a sala, de onde retirou um livro da estante.

    — Gosta do Marcos Rey?

    — Quem?

    — Marcos Rey. Ele escreveu este livro maravilhoso. Conhece?

    Seu Urias me entregou aquele exemplar de "O mistério do cinco estrelas". Um tanto gasto, para dizer a verdade.

    — Carlinho, livro bom é livro carcomido.

    Mais uma palavra que eu precisaria descobrir o significado.

    — Sim, senhor.

    — É seu, mas tem uma condição.

    Olhei desconfiado para aquele homem, praticamente um estranho.

    — E qual é a condição, senhor?

    — Que leia e depois me conte se gostou. Combinado?

    — Combinado.

    Apertamos as mãos como dois cavalheiros e corri de volta para a rua, onde os meus amigos continuavam jogando bola. Preferi me sentar debaixo da amendoeira. Abri o livro e, pela primeira vez, me embrenhei no mundo do Marcos Rey.

    Perdi a hora, mamãe me gritou:

    — Carlinhos, o almoço tá pronto!

    Nem estava com fome, mas sempre soube que não era de bom tom desobedecer a dona Joana. Corri em sua direção e entrei esbaforido.

    — Ei, o que é isso aí nas suas mãos?

    — Marcos Rey, mamãe.

    — O quê?

    — Foi o Seu Urias que me deu.

    — E o que aquele velho queria com você?

    — Nada, mamãe. Eu me ofereci para ajudar a carregar as compras. Então, ele me deu o Marcos Rey.

    — Hum!

    Talharim à bolonhesa. Até hoje é o meu prato favorito. Mesmo assim, as páginas do Marcos Rey me pareceram muito mais saborosas.

    Terminei de ler "O mistério do cinco estrelas" na madrugada. Adormeci e, não duvido, devo ter sonhado com a trama. Pena que nunca me lembro dos sonhos, deve ser coisa de família. Minha mãe sempre me disse que sonhos são coisas de grã-fino.

    Quando acordei, já era quase meio-dia. Havia um movimento estranho na rua. Assustado, fui até a minha mãe, que me contou o motivo:

    — Foi pra onde, mamãe?

    — Morreu, Carlinhos. Morreu.

   Seu Urias, soube mais tarde, enfrentava uma doença terrível há anos: câncer nos pulmões. Resistiu o quanto pôde. Não teve velório, não teve enterro nem despedida. A única filha, Lorena, honrou o pedido do pai: viajou para o Rio de Janeiro e jogou as cinzas na praia de Copacabana. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A anatomia do alvo

   

    Duas mulheres paradas diante de um jornal exposto na banca. Letras garrafais: "Bala perdida encontra criança na comunidade". 

    — Aposto que estava fazendo coisa errada.

    — Aqui diz que estava dentro de casa.

    — E desde quando barraco é casa?

    — Uma criança.

    — Criança? Aviãozinho na certa.

    — Quatro anos.

    — É nessa idade que essa gente começa a assaltar.

    — Quatro anos?

    — Não tô te falando? Tá assim de bandido no morro. Se der mole, é você quem morre.

    — Mas a criança tinha apenas quatro anos.

    — E daí? E eu com isso? Vai ficar contando idade de bandido agora?

    — Quatro anos... Isso não está certo.

    — Ah, tá! Certo agora é favelado? 

    — O quê?

    — Amiga, essa gente nem deveria existir. 

    — Mas...

    — Me falaram que é coisa da raça. 

    — O quê?

    — Essa gente... Você sabe... Hoje em dia parece que nem podemos mais falar... Gente escura.

    — O quê?

    — Preta. 

    — Que absurdo!

    — É um absurdo mesmo essa gente. Ainda bem que temos a polícia pra proteger os nossos filhos. Gente de bem, né?

domingo, 2 de agosto de 2026

Conluio com café

    

    Dia desses estava batendo papo com o meu grande amigo Sergio Diniz da Costa, escritor talentosíssimo e editor do Jornal Cultural ROL: "Edu, não há escritor que se salve sem conluio com café." Se ele está ou não certo, não é algo que irá me tirar o sono, até porque parece se encaixar no meu dia a dia quando eu me debruço sobre uma folha de papel em branco e começo a rabiscar. "Edu, que letrinha, hein!" Caí na besteira de mostrar o rascunho para o Sergio.

    Já ouvi o J. Emiliano Cruz (Jota) - autor do recente A Felicidade e os Risíveis Amores de Todos Nós - afirmar que seu principal fantasma é não ter a menor noção de qual será o seu próximo conto. Cadê as ideias? Elas virão? De onde?

   Ainda em relação ao Jota, creio que foi ontem, mas pode ter sido anteontem ou na semana passada. Conversando com o meu camarada, eu lhe disse que, muitas vezes, começo uma história com uma ideia inicial, mas que se transforma em bolinha de gude descendo uma escada íngreme e tortuosa. Sim, isso mesmo que você imaginou (ou não). Não tenho a menor noção de como se dará o desfecho. "Edu, comigo acontece a mesma coisa, que nem tampinha de refrigerante na carroceria de caminhão."

    E a poetisa Hélida Pivante, que não é bissexta por acaso: "Edu, quando sento para fazer poesia, sempre aparece alguém e me diz: 'Ah, já que você não está fazendo nada, bem que poderia me fazer um favorzinho.' Pois é, Edu, como se fazer poesia não desse trabalho. Até parece que escritor não faz nada, que somos um bando de desocupados."

    Por falar em trabalho, o Daniel Marchi, durante nossas conversas diárias, sempre me solta algo do tipo: "Edu, adoro ser professor e advogado, mas encaro essas profissões como trabalho. Literatura precisa me dar prazer e, por isso, deixo a mente livre. A inspiração de vez em quando escapa, porém sempre volta recheada de novidades." Que cara sortudo! 

    Ai de mim se eu fosse confiar apenas na inspiração para escrever. Se eu não fizer o tal conluio com café todos os dias, é provável que não saia nem mesmo uma mísera linha. Café, meu amigo. No meu caso, gourmet. Ah, e sem açúcar, pois de doce já basta a vida.

sábado, 1 de agosto de 2026

O velório do acaso

    

    Maria e Orlando se conheceram num velório. O falecido era Antônio, parente distante da mulher e colega de trabalho do sujeito. Trocaram algumas palavras, o suficiente para que os dois percebessem que o desejo de esticar a conversa havia se instalado. Trocaram telefones.

    Orlando, então saído de um relacionamento conturbado, muito por sua culpa, refugou por alguns dias até que enviou uma mensagem pelo WhatsApp:

"Bom dia!"

    O homem, logo em seguida, foi tomado de arrependimento. Quem manda mensagem a uma praticamente desconhecida àquela hora da manhã? Orlando conferiu o horário: 8h37.

"Bom dia, Orlando! Pensei que você tivesse perdido o meu número. Ou algo pior..."

    Não era tão cedo assim, pensou Orlando. 

    "Pior?"

    Minutos de espera carregados de certa angústia. O que seria pior?

        "É, Orlando. Pensei que você tivesse me esquecido."

    Aquele foi o empurrão necessário para que Orlando arrancasse o resquício de coragem escondida no fundo da gaveta.

"Posso te ligar?"

"Pode sim."

    Combinaram um café no sábado. Muitas expectativas que acabaram em promessas de se encontrarem novamente. Mera formalidade.

    Quase cinco anos depois, Maria e Orlando se reencontraram em um churrasco na casa de Paulo, amigo em comum. Desconhecendo que aqueles dois já possuíam um princípio de história, o anfitrião os apresentou. Como se tivesse sido combinado, eles fingiram ser estranhos.

        — Bem, meus queridos, vou deixá-los a sós. Preciso dar um abraço no Álvaro. Sintam-se à vontade e, qualquer coisa, me chamem.

        Assim que Paulo deu as costas, Maria e Orlando sorriram, como se fossem crianças que acabaram de fazer traquinagens.

        — Quando você se tornou um mentiroso? E você me viu? Orlando, e se o Paulo descobre? 

            — Pois é, Maria, somos dois mentirosos de carteirinha. Tudo bem com você? Já faz tanto tempo, né?

        O bate-papo fluiu. Saíram de mãos dadas e hoje, passados dez anos, entre idas e vindas, decidiram ter uma lua de mel em João Pessoa. E, caso gostem da experiência, é provável que juntem os panos quando retornarem. Talvez comprem até um aquário.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O gosto da madrugada

     

       Raimundo nem lembrava o motivo que o arrancara da cama àquela hora da madrugada. Se era hábito ou falta do que fazer, parecia não importar ao sujeito. Aposentadoria  dizia Ofélia, a esposa — tinha dessas coisas.

    Lavou o rosto, talvez em busca de alguém que há muito não conseguia enxergar. Envelhecera, é verdade, mas algo parecia incomodá-lo além da flagrante decrepitude. Deu as costas ao próprio reflexo.

        Na cozinha, preparou o café. Café de verdade. Coado. Coador de pano. Nada de filtro de papel. Solúvel, então, Raimundo torcia os lábios.

        — Acordado a essa hora?

        Raimundo, xícara na mão, apenas olhou para a companheira. Tomou um gole.

        — Quer? Tem mais na garrafa.

        — Não. Vai me tirar o sono.

        Ofélia deu um beijo no rosto do marido. 

        — Vou voltar pra cama. Quer vir também?

        Ela sorriu, se virou e voltou para o quarto. Raimundo ainda teve tempo de observá-la. As curvas que outrora o haviam fisgado. Desistiu do café e foi deitar com a mulher.