- Nota de esclarecimento: O conto "Os caminhos percorridos por Carolina" foi publicado no Notibras no dia 24/2/2026.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Os caminhos percorridos por Carolina
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Entre promessas e atrasos
— É óbvio que aceito, seu Honório!
Acordo firmado, Leopoldo precisava convencer o Boquinha, seu
funcionário, que, quase sempre, era da mais elevada confiança.
— De jeito maneira, Leopoldo!
— Mas, Boquinha, é o seu Honório.
— E tu acha mesmo que vou largar a minha Glorinha pra comer poeira na estrada
com você pra ver o seu Honório? Além do mais, tô em lua de mel.
— Lua de mel? Mas tu não tá casado há mais de ano com a Glorinha?
— E daí? Agora tem prazo pra lua de mel
acabar?
— Então, vou ter que ir sozinho. Mas tudo bem, você fica aqui pra entregar os
veículos da dona Benedita, do seu Julião e do Santino. Combinei com eles que
até o final do mês estariam prontos.
— Ei, Leopoldo! Mas tá faltando coisa pra caramba pra fazer.
— Ah, confio em você e no Zero-Zero.
— Olha, só preciso pegar duas mudas de roupa em casa e me despedir da Glorinha.
— Ok. Almoçaremos na estrada pra ganharmos tempo.
Bem antes do meio-dia, os mecânicos avançavam firmes pela rodovia a
caminho da capital do Tocantins. Escutavam sucessos antigos, desde Luiz Gonzaga
até TNT, passando por Cauby, Odair José, Raul Seixas, Zé Geraldo e o que desse
na telha.
Quando já passava pouco da meia-noite, a
camionete vermelha entrou na cidade. Os problemas, que os viajantes não tiveram
na estrada, começaram a dar o ar da graça. É que ninguém havia se lembrado de
fazer reserva. E o único hotel com vaga só tinha um quarto com cama de
casal.
— Olha aqui, Leopoldo, não saí de casa
pra isso. Sou vaqueiro bravo e não durmo com macho.
— Sem problema, meu amigo. Sou mais
velho e também sou o patrão, então, quem dorme na cama sou eu.
Diante da situação, o Boquinha acabou
cedendo pelo cansaço, ainda mais porque no dia seguinte precisaria trabalhar
dobrado para tentar entregar o serviço no prazo combinado. Mesmo assim, para
evitar qualquer desvio de caminho onírico, tratou de fazer uma divisória no
meio do colchão com as duas mochilas e a caixa de ferramentas.
Por milagre ou algo
do tipo, eis que Leopoldo e Boquinha conseguiram entregar o serviço apenas uma
semana além do prazo combinado. Um recorde, por assim dizer, que precisava ser
comemorado. O problema é que o celular do Leopoldo começou a tocar
insistentemente. Era o Zero-Zero.
— Leopoldo, cadê você? Tá todo mundo
aqui na oficina perguntando sobre os carros prometidos.
—
Oi, Zero-Zero, estou bem! E como estão as coisas por aí?
— Você não tá me escutando, Leopoldo?
— Que boa notícia! Mande lembranças pros
clientes.
— Ah, seu filho d'uma égua! Você me paga!
— Sim! Isso! Pode deixar que falo pro
Boquinha. Abraço!
Leopoldo desligou e, com a cara mais
lavada do mundo, se virou para o companheiro e perguntou:
— Boquinha, tu já viu
praia na vida?
— Nunca. Por quê?
— Que tal dar um pulinho na Bahia? Estou precisando tomar um descarrego.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre promessas e atrasos" foi publicado no Notibras no dia 23/2/2026.
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domingo, 22 de fevereiro de 2026
O triste fim do preterido de Lindalva
Apaixonado por Lindalva
desde que lhe pousou os olhos, Josenildo tinha como certo o enlace assim que a
moçoila resolvesse a pendenga com o ex-marido. Por sorte, o divórcio caminhava,
dentro do possível, para desenlace amigável. Isso apesar das traições de ambos
os lados, conforme havia sido amplamente divulgado pela rádio comunitária, a
implacável rede de fofocas.
Após cortejar
Lindalva por praticamente todo o inverso, eis que, assim que a primavera
apontou no horizonte, a mulher foi se enamorar por Rosinaldo, cuja
profissão era de confeiteiro, mas que era afamado por tocar sanfona que nem
Januário. E as sortudas que conheciam o gajo na intimidade faziam questão de
alardear que o que ele fazia com um acordeon nem de longe se comparava aos
atributos pessoais.
Josenildo,
em vez de guardar a frustração para si, quis dar um fim no seu adversário, com
quem era incapaz de disputar na arte do amor. Tratou de armar uma arapuca para
Rosinaldo, que vivia entre bolos, a sanfona e, naqueles idos, as coxas roliças
de Lindalva. Sem desconfiar do destino que lhe aguardava, o músico foi salvo
pela perspicácia da amada, que sentiu algo estranho no ar.
— Não vá agora, meu
amor. Fique mais um pouco, que lhe prometo o que você me pede há dias.
— Jura?
— Não juro porque jurar é
pecado.
— E como vou acreditar?
— E eu sou lá mulher
de mentir por coisa tão séria?
— Pois eu acredito, minha flor!
— Mas aguarde aqui um instante, que vou
me preparar. Troquei o lençol hoje e não quero correr risco.
Enquanto o namorado espeerava a amada, ela
fingiu que entrou no banheiro, saiu pela porta dos fundos, pegou um porrete,
rodeou a casa e acertou a cabeça do Josenildo, que, faca na mão, estava de
tocaia à espera do Rosinaldo. E a pancada foi tão certeira, que o arapuqueiro
nem ouviu os gemidos que vieram do quarto enquanto a promessa era
cumprida.
Já na manhã seguinte, assim que
despertou, Lindalva foi conferir se Josenildo estava morto ou desmaiado. Mal
abriu a porta quando se deparou com uma poça de sangue seca no cimento grosso
da entrada. No entanto, nem sinal do homem ou, então, do que havia sobrado
dele. Só dois dias depois que a dona da casa encontrou o tratante, uma
montoeira de pontos no cocuruto, sentado no banco da praça. Foi só o gajo olhar
para ela e já se encolheu igual minhoca.
Os dias se acumularam e viraram semanas,
que foram se ajuntando até somarem uma carrada de meses e, não tardou, Lindalva
e Rosinaldo completaram um ano de enlace. E partiu da mulher a ideia de fazerem
uma viagem para comemorar aquele feito, que nem eles acreditavam que
alcançariam.
— E pra onde, minha linda?
— Num sei ainda, mas quero ir pra um
lugar bonito.
— E a nossa Luziânia não é o lugar mais
lindo do planeta Goiás?
— Deixa de ser abestado, Rosinaldo. E
desde quando Goiás é planeta?
— E eu não sei? Tô brincando.
— Então?
— Então o quê, minha flor?
— Vamos?
— Se tu vai, vou eu junto.
O casal, após quase dois dias de
propostas inviáveis, entre as quais Paris, Roma e Manaus, optaram pela Chapada
dos Veadeiros, onde alugaram um bangalô. E, na semana seguinte, os pombinhos
colocaram o mínimo possível dentro do Fusca e pegaram a estrada.
Chegaram para o almoço e, após darem um passeio
pelo povoado, retornaram para o aconchego, pois, segundo Lindalva gostava de
falar, Rosinaldo precisava fazer uma apresentação de gala, com direito a bis,
sob os lençóis.
Acordaram esfomeados e, após um breve
repeteco para aumentar ainda mais o apetite, tomaram banho e foram tomar o
delicioso café da manhã. Como pretendiam passar o dia em uma das belas
cachoeiras do parque, capricharam na quantidade, mas sem se
empanturrarem.
Mochilas nas costas, lá foram Lindalva e Rosinaldo,
mãos dadas, descobrirem as maravilhas do local. E o tempo parecia estar a favor
dos dois, pois não estava nem quente nem frio, e, ainda por cima, soprava uma
agradável brisa que parecia acariciar aqueles rostos felizes. Mal sabiam eles
que dois olhos traiçoeiros os espreitavam atrás dos arbustos e troncos
retorcidos pelo caminho.
Josenildo, o próprio, cujo rancor
ainda o consumia, havia seguido os enamorados. E se a aquilo teria iniciado por
amor, já há algum tempo só restava o desejo pelo caos. E foi esse irresistível
sentimento que impulsionou o gajo a ir atrás de vingança.
Os apaixonados, de vez em
quando, paravam para se hidratar e, como no local só havia beleza e nem sinal
de gente, aproveitavam para beijos ardentes. E foi justamente num desses
momentos em que Josenildo, escondido atrás de uma enorme pedra, sentiu uma dor
intensa em sua mão. Assustado, viu um escorpião ao seu lado, provável culpado.
Quis gritar, mas mordeu o local da picada para aplacar a dor e conter o som que
queria sair pela garganta.
Picadas de escorpião são realmente
dolorosas e, apesar de perigosas, geralmente não são fatais, a não ser em
crianças, animais pequenos e adultos que sejam alérgicos. Bem, parece que este
era o caso do Josenildo, que, não tardou, caiu duro e, por dias, ficou ali
servindo de alimento para a rica fauna do Cerrado: urubus, carcarás, larvas de
moscas, besouros e até mesmo um simpático tatu.
Com
os dias, Josenildo virou só esqueleto, cujos ossos foram espalhados por toda a
região. E hoje, já se passados mais de 15 anos do ocorrido, não raro, algum
trilheiro encontra uma costela ou fragmento, mas logo descarta, imaginando se
tratar parte de restos de queixada ou caititu.
Bem, e é assim
que as coisas aconteceram ou não, ao menos, é de como me lembro de ter ouvido
em uma conversa ao redor de uma fogueira em São Jorge. Quanto à Lindalva e ao
Rosinaldo, dizem que ainda vivem em Luziânia e, ao que tudo indica, muito
apaixonados.
- Nota de esclarecimento: O conto "O triste fim do preterido de Lindalva" foi publicado no Notibras no dia 22/2/2026,
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sábado, 21 de fevereiro de 2026
Virgínia e tantas outras
— Anemia.
— Anemia?
— Regras. Implacáveis nessa situação.
— E o apetite não é dos melhores. O doutor
acredita que não come quase nada?
— Carne?
— Nem ovo. Tem pena. Já falamos, insistimos,
mas ela é turrona. Não cede.
— Feijão? Ervilha?
— Hum! Tinhosa do jeito que é, aceita
apenas sopa. Diz que não quer engordar. O doutor já viu algo assim? Parece um
palito, mas se vê da cintura grossa. Grossa tenho eu, que sou mãe de cinco.
Essa aí, do jeito que vai, nem marido arruma.
Prostração, falta de ar, sibilância, alguns
estertores, inchaço ao redor dos olhos, que despertavam rubros. Herança maldita
de nascer mulher, quando o único propósito, além de servir, era parir. E pobre
daquelas desprovidas de ancas largas.
— Qual é o propósito disso tudo, Virgínia?
— Estou doente, mamãe. O médico não disse?
— Por que não come?
— Falta-me apetite.
— Temo que o seu propósito seja outro, minha filha.
— Falta-me propósito.
— Pois deveria ter o que nos pertence. E rezo todos os dias
para que você logo o perceba ou...
— Ou o quê, mamãe?
— Ou morro eu de desgosto.
Silêncio, que logo foi rompido por ordem
da matriarca.
— Agora levante, que Augusto está lá
embaixo preocupado.
— Augusto?
— Sim. Ande, que não é de bom tom fazer
seu noivo esperar.
— Não quero me casar, mamãe.
— Hum!
Não diga bobagem, Virgínia! Augusto é bom moço, de família influente.
— Que case com Larissa.
— Se sua irmã não tivesse apenas 11 anos, teria
eu mesma dito para seu pai prometê-la ao rapaz. Não resta dúvida de que ela
tenha mais juízo do que você.
— Pois eu me mato antes de me casar.
— Que se mate, então! Mas não envergonhe o nome do seu
pai.
— A senhora me quer morta?
— Ande! Vamos! Que não tenho tempo pra tolices!
Sem alternativa, Virgínia aprontou-se e, finalmente,
acompanhou a mãe até a sala no andar de baixo do casarão. Lá estavam o pai, os
futuros sogros e o noivo, jovem de cabelos negros e olhos perdidos. Poucos anos
mais velho do que Virgínia, apesar do rosto assustado de menino.
Ao fim de um ano, aqueles quase imberbes foram empurrados
para o altar. Mal se conheciam, apesar dos encontros semanais, mais para
acertos dos pais do que troca de palavras entre os dois.
— Mamãe, mas eu nem conheço direito o Augusto.
— Não se preocupe com isso, Virgínia. Você vai
ter a vida inteira para conhecer o seu marido.
Não quis casar, casou. Não quis filhos, teve quatro. A cintura engrossou. Foi infeliz, apesar do sorriso de resignação.
- Nota de esclarecimento: O conto "Virgínia e tantas outras" foi publicado no Notibras no dia 21/2/2026.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Cidinha do Cemitério
Maria Aparecida dos
Santos, a Cidinha, foi de tudo no único cemitério da cidade. Começou como
coveira e tanatopraxista, quando ganhou fama por conta dos nervos de aço, bem
como zeladora, chegando ao concorrido posto de administradora. Acabou virando
vereadora com o sugestivo slogan: "Vote na Cidinha para enterrar a velha
política de vez!" E foi reeleita nas eleições seguintes com "Cidinha:
cavando um futuro melhor para a nossa gente", "Para os problemas da
cidade, Cidinha é a solução final", "Chega de sujeira: Cidinha neles,
pra limpara e enterrar o passado", "Cidinha: enterrando a
corrupção" e, talvez o melhor de todos, "Cidinha: a única que sabe
onde os problemas estão enterrados".
A
despeito da profissão que poderia afastar os desprovidos de coragem, Cidinha
parecia ter nervos de aço quando o assunto era ser o elo entre a vida terrena e
o além. Dos mais paupérrimos até os endinheirados, todos passavam por suas
mãos. E isso a fez ser respeitada que nem o prefeito, o padre, o delegado e o
gerente do Banco do Brasil. Era mais fácil alguém arrumar imbróglio com o maior
dos facínoras a querer arrumar confusão com a mulher. Mas eis que surgiu um
desavisado na região, que foi inventar
treta justamente com a toda poderosa.
O nome do sujeito era Firmino Oliveira, um tipo orgulhoso, apesar
de sustentar as calças com embira. Andava com canivete na cintura para picotar
fumo na palma da mão. Os olhos corriam para ver se tinha gente curiosa e, se
sentisse que dava conta, cuspia ofensa.
— Tá olhando o quê?
Quase sempre a pessoa desviava o olhar e tratava de sair de
perto. O problema foi que Firmino foi provocar justamente quem não podia. E
olha que Cidinha até tentou não dar atenção, mas isso fez com que o sujeito
estufasse o peito e lançasse ofensa que não podia passar despercebida.
— O que você tanto olha, jabiraca?
Menos pior que xingasse a Cidinha de fofoqueira ou
intrometida. Mas jabiraca era além da conta. E não deu outra.
— Do que você me xingou?
— Tá surda?
— Pois diga se tu é homem!
— Jabiraca!
Em vez de dar um safanão na fuça do atrevido, Cidinha fez o
improvável, mas foi mais do que suficiente para que o homem tremesse na base e percebesse
que havia cometido um erro fatal. Ela simplesmente lhe sorriu. Nada além do que
um quase angelical sorriso.
Cidinha, em seguida, virou-se e foi embora.
Tal atitude, para quem supunha conhecê-la, foi interpretada como sinal de grandeza
e poderia ser contada como anedota ou, o que era mais provável, ser esquecida,
caso não tivesse acontecido o que todos na cidade ficaram sabendo na manhã
seguinte. E a notícia correu mais ligeira do que preá quando foge de
cachorro-vinagre.
— Morreu?
— Morreu!
— De quê?
— Ninguém sabe. Nem o doutor, nem o delegado, nem o juiz.
Mas tá lá seco que nem espeto.
Pois foi isso mesmo que aconteceu com o tal Firmino
Oliveira. Amanheceu seco que nem espeto. Foi como se tivesse morrido há pelo
menos duas semanas. E seria o que todos acreditariam, caso várias pessoas não o
tivessem visto no dia anterior.
Sem delongas, o caso foi arquivado antes de
ser aberto. Firmino Oliveira foi enterrado e o ocorrido virou lenda urbana. E
talvez permanecesse assim se, 43 anos após, Cidinha não tivesse partido para a
terra dos pés juntos.
— Morreu?
— Morreu!
— De quê?
— Pela idade, deve ser mesmo de velhice.
— E quando vão enterrar?
— Ouvi dizer que amanhã cedinho. Só estão maquiando o corpo
pra ficar com aparência melhorzinha.
Calixto, que era Oliveira por causa do pai,
Firmino, foi o encarregado de fazer a necromaquiagem. E lá foi o sujeito
preparar o corpo da Cidinha, quando a noite já não era mais criança.
Na manhã seguinte, quando abriram a porta do necrotério, eis que viram algo inexplicável. Lá estava o pobre Calixto seco que nem espeto. Quanto ao corpo da Cidinha, havia sumido. Nem sinal. E, apesar de já passados quase 20 anos do ocorrido, o mistério ainda não foi desvendado.
- Nota de esclarecimento: O conto "Cidinha do Cemitério" foi publicado no Notibras no dia 20/2/2026.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Arlete e Amauri, os doutorandos
Enquanto estudava o comportamento
de átomos, elétrons e fótons, a mulher conheceu Amauri, que também era
doutorando, mas em geopolítica. E, a despeito de temas distantes, os dois
acabaram por engatar um namoro com direito a ardentes momentos, ora no cafofo
da moça, ora no aconchego do rapaz. E aquele emaranhado, por mais esdrúxulo que
pudesse ser aos olhos de outrem, funcionava que era uma beleza.
Entre o trajeto
diário para a UnB, o casal gostava de apreciar um bom café. Coado,
naturalmente, já que os jovens eram terminantemente avessos à brevidade de cápsulas
ou até mesmo ao tão requisitado expresso. E nesses momentos faziam questão de
só falar de coisas importantes.
— Sabe
uma coisa que percebi hoje de manhã?
— O quê?
— Seus
olhos combinam com os meus.
— Como
assim, Amauri?
— Os seus
são castanhos escuros, enquanto os meus são verdes.
— Hum...
Isso eu sei, mas não entendi a relação.
— Você é
que nem o caule, a parte que sustenta a nossa relação. É a razão, enquanto sou
o sonho, longe do solo.
— Hum...
Mas, sem o verde das suas folhas, a minha vida não seria doce.
O romance,
apesar da enorme carga horária de estudos, vingou, a despeito dos que diziam
que não resistiria a um semestre. E, por coincidência ou predestinação, a
defesa das teses ocorreram no mesmo dia, uma sexta-feira, sendo a do Amauri
logo nas primeiras horas da manhã, enquanto a da Arlete aconteceu no início da
tarde.
Os dois
foram aprovados com louvor, o que levou a uma comemoração regada a espumantes.
Apagaram bem pra lá de Bagdá e, no dia seguinte, o sujeito foi o primeiro a
despertar. Ele preparou duas xícaras de café bem forte.
Em pé diante da cama, Amauri percebeu as pálpebras da amada
se abrirem. Um sorriso logo se fez nos lábios da Arlete.
— Meu amor, conseguimos!
— Sim, minha linda! Conseguimos! Fiz café pra você.
— Hum... Muito obrigada!
— Quer comer alguma coisa?
— Agora não. Mas se você for à feira mais tarde, por favor,
me traga um quilo de neurônios.
- Nota de esclarecimento: O conto "Arlete e Amauri, os doutorandos" foi publicado no Notibras no dia 19/2/2026.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Edmar, o ausente
Foi no bar de sempre, bem ali na 709 Norte, em
Brasília, que o homem notou os primeiros indícios de mera formalidade daqueles
rostos. Rostos que ele jurava serem conhecidos, ainda mais depois de tantas e
tantas rodadas de cerveja com tira-gostos variados. Mesmo assim, Edmar quis dar
o benefício da dúvida aos amigos. Afinal, não poderia simplesmente abandoná-los
assim do nada.
— Meu cachorro morreu.
Nenhuma mudança nas expressões dos tipos.
— Gente, meu cachorro morreu.
Por um instante, Luciano
pareceu interessado pelo dito. Ele virou-se para Edmar e, aparentando cuidado,
disse:
— Vai mais uma rodada, Edmar?
Mais uma rodada? Como assim?
Ele havia acabado de dizer que o seu cachorro morrera. Não que tivesse um, mas
ninguém ali sabia dessa informação. Ou sabia? Teria Edmar falado alguma vez que
nunca tivera um cachorro? E por que falaria isso, já que tal assunto nem fazia
parte do rol das confabulações costumeiras dos frequentadores de botequins?
— Fui demitido.
Sorrisos, vozes destoantes, tudo, menos ouvidos atentos ao que
continuava saindo dos lábios do Edmar. Não que aquilo fosse verdade, ainda mais
porque ele não era dos piores funcionários da repartição. Para sermos justos,
diante do quadro medíocre, até se destacava.
— Matei meu vizinho. Gente, acredita que
matei meu vizinho antes de vir para cá?
Nada! Nem esboço de surpresa. Obviamente
que era mais uma mentira deslavada. Todavia, aquilo era, no mínimo, indício de
crime. Como é que é? Matou o vizinho? Matou o vizinho e foi beber com os amigos
no bar da esquina?
Incapaz de competir com tamanho descaso, pediu a conta. O
garçom pareceu não o escutar. Levantou-se, dedo médio em riste para todos,
virou-se de costas e foi embora. Nem foi notado.
Meia hora depois, Luís, entre uma tragada e outra, cutucou
Luciano.
— Cara, e o Edmar? O que deu nele hoje? Será
que aconteceu alguma coisa?
— Pois é, cara! Ele nunca foi de faltar. Mas
vai ver o cachorro morreu ou foi mandado embora do emprego.
— Será?
— A gente nunca sabe. Só espero que não
tenha enlouquecido de vez e matado o vizinho.
- Nota de esclarecimento: O conto "Edmar, o ausente" foi publicado no Notibras no dia 18/2/2026.
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