— O pai de vocês me
trocou por uma rapariga da idade de vocês.
Gilberto, meu
irmão, foi o que mais externou os sentimentos. Disse que papai era um crápula,
um cafajeste, que aquilo não era atitude de homem. Lúcia e eu acolhemos mamãe
com nossos ouvidos.
— Esperava tudo do
Osvaldo, mas jamais imaginei que fosse capaz de nos abandonar. Que ele teve
seus casos, não sou tão boba assim, eu os sabia há tempos. Traições acontecem,
eu sei, sempre soube, minha mãe me alertou antes mesmo de eu pensar em me
casar. Que punhalada o pai de vocês me deu, bem aqui no peito, bem aqui, sem
dó. Ele não pensou, ah, não pensou mesmo em vocês, em mim, em ninguém, só nele,
nos desejos baixos de homens.
Minha
mãe ficou mal, até chegou a falar em dar cabo da própria vida, que nada no
mundo fazia sentido para ela, enquanto a situação foi ganhando cada vez menos
incômodo nos filhos, cada um preocupado com os próprios problemas: faculdade,
trabalho, namoros, coisas do dia a dia. Papai voltou a ter contato conosco,
chamou-nos, um a um, para conversar, o que culminou, tempos depois, em um quase
familiar almoço de domingo, quando nos foi revelado que ganharíamos uma
irmãzinha, que nasceu quatro meses depois: Luana.
Mamãe, quando soube da novidade, começou a jogar na nossa cara que a havíamos
trocado pela outra. Que estava velha, que não servia para mais nada, que só lhe
restava esperar pela morte, que galopava em sua direção sem piedade. De certa
forma, creio que isso nos afetou, como se carregássemos a culpa do abandono,
até que, então, algumas verdades, mesmo que cruéis, precisaram ser ditas.
—
Ah, mãe, chega! Vida que segue! O pai está vivendo a vida dele, viva também a
senhora a sua.
Quem disse isso foi a Lúcia, mas que poderia ter saído da minha boca. Gilberto,
que estava no canto falando com a namorada ao telefone, parece que recebeu
aquilo como algo já aguardado ou, não duvido, desejado. Dona Lourdes sentiu o
baque e se recolheu por dias, enquanto nós três compartilhamos aquele fardo.
Quase duas semanas se passaram, aquele mal-estar permanecia impregnado no sofá
da sala, na mesa da cozinha, na samambaia pendurada na varanda. E isso se deu
até que peguei a Luana no colo. E foi aí que os pudores me abandonaram. Passei
a frequentar a casa do meu pai e da Fernanda, cuja harmonia me fazia lembrar
dos meus tempos de infância. Culpei minha mãe pela separação, papai merecia uma
mulher como a Nanda.
Quando surgiu a primeira oportunidade, saí de casa. Fui morar próximo à
faculdade, onde havia começado o mestrado. Melhor assim, mais tempo para me
dedicar aos estudos, agora meus olhos estavam completamente voltados para a
minha vida. Gilberto e Lúcia também foram em busca dos próprios caminhos e, que
nem eu, raramente visitavam nossa mãe.
Há poucos dias, mais precisamente depois ter sido aprovada no doutorado,
mandei mensagem para minha mãe. Percebei que ela visualizou, mas não me
respondeu. Talvez ainda estivesse magoada por causa do meu afastamento e, por
isso, sem avisar, fui lhe fazer uma visita.
Deixei o elevador de lado, preferi juntar as ideias degrau
a degrau, não queria dizer algo inapropriado. Certamente minha mãe iria me
receber de braços abertos, choraríamos, ela me convidaria para um café com
bolinhos de chuva e tudo ficaria bem novamente. Apertei a campainha e aguardei
ansiosamente até que a porta se abriu.
— Bom dia! Creio que já te conheço. Você é a Paula, né!? A
Lourdes não cansa de me mostrar fotos suas e dos seus irmãos.
Fiquei paralisada ali diante daquele homem de camiseta,
bermuda e chinelo, que, com o sorriso de Tarcísio Meira, se apresentou.
— Ah, desculpe, sou o Álvaro.
Álvaro José de Almeida Farias, viúvo, 68 anos, um tipo
bem-apessoado, que poderia ter saído de alguma novela mexicana. Ele me puxou
pelos braços e disse que minha mãe estava tomando banho. Lógico que me senti
uma estranha naquele ambiente.
Aqueles minutos me pareceram uma eternidade até que vi
minha mãe, enrolada numa toalha rosa, sair do banheiro toda sorridente, como se
fosse uma dessas atrizes de propaganda de xampu. E como estava refrescante, o
que me deixou ainda mais desconfortável.
— Oi, Paula! Pelo visto, já conheceu o Álvaro.
Nem me lembro se respondi com palavras, aceno de cabeça ou
com cara de espanto. Não importa, minha mãe se virou para o namorado, o grande
amor da sua vida, pelo menos naquele momento, e disse:
— Amor, sirva um pouco do nosso sorvete de uva pra minha
filha.
Passei o final de tarde com dona Lourdes e o bonitão, que se beijaram inúmeras vezes, e sem qualquer constrangimento, na minha frente. Voltei para casa com aquele sentimento de culpa, não o mesmo que um dia senti quando meu pai foi embora. É pior, incomoda muito mais saber que me sinto incomodada por mamãe ter um namorado e estar feliz. Sem contar que o sorvete de uva estava delicioso.
- Nota de esclarecimento: O conto "Retratos, pudores e sorvete de uva" foi publicado no Notibras no dia 21/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/retratos-pudores-e-sorvete-de-uva/






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