Aposentou-se aos 68, mas poderia tê-lo feito uma década antes. Precisavam dele,
Honorato dizia. Não seria correto abandonar o barco e deixar os companheiros
naufragarem em mar revolto.
Os primeiros dias de aposentadoria soaram como afronta à dignidade humana. Qual
seria o propósito de continuar usurpando o ar dos que continuavam na labuta?
Larissa, a esposa, ainda tentou demover Honorato desse sentimento de culpa.
—
Meu bem, você já trabalhou demais a sua vida toda.
—
O que é um homem sem trabalho? Nada, Larissa. Nada!
Em vez de aproveitar os momentos ao lado da mulher, dos filhos, dos netos, dos
amigos, Honorato não permitiu que o sossego se aproximasse. E nada de viagens,
algo que Larissa suplicava. O homem tinha o argumento na ponta da língua:
—
Não nasci turista, Larissa.
Depois de cinco anos de reclamações do sujeito, ele testemunhou a morte da
mulher. Infarto, atestou o médico; tristeza, Honorato não teve dúvida.
Durante o velório, em pé ao lado do caixão, Honorato
observou o rosto de Larissa. Como é bela! Teria ela sido feliz? Tentou buscar
na memória dias em que os dois deram as mãos, seja no banco da praça, seja no
cinema, seja até mesmo quando caminhavam na calçada. Nada! O sujeito, sempre
apressado, era só reclamações.
O homem, naquele exato instante, foi acometido de uma forte dor no peito. Tão
intensa, imaginou que era a hora do reencontro com sua amada. Dor física, é
verdade; porém, de fundo emocional.
Honorato não relatou o ocorrido a ninguém. Se fosse morrer, que fosse em casa,
livre de olhares penosos. Sentiria falta do mundo? Que mundo?
A primeira noite sem a esposa pareceu infinita. Honorato, ardendo em febre, se
deitou na cama, estendeu o braço sobre o lado vazio e se sentiu entregue ao
próprio destino. Adormeceu com a certeza de que não abriria nunca mais os
olhos.
O homem sentiu os primeiros raios solares invadindo as frestas da cortina
e repousando sobre a sua face. Abriu os olhos. Suado, lívido, solitário e
surpreso por ainda estar vivo. Fitou o teto por um instante, tentando
visualizar o rosto de Larissa.
- Nota de esclarecimento: O conto "O infarto invisível" foi publicado no Notibras no dia 26/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-infarto-invisivel/
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