Bem, não sei se você
teve a sorte de Carlos e Jorge, gêmeos univitelinos. De tão parecidos, até dona
Lúcia, a mãe, se confundia de vez em quando, apesar dos filhos já terem passado
dos 30 anos. E os dois, mesmo adultos e longe das traquinagens dos tempos de
menino e adolescência, ainda assim gostavam de se aproveitar da incrível
semelhança física.
Antes que
continuemos, é preciso relatar que Carlos e Jorge eram o que costumamos chamar
de sujeitos que nasceram com o rei na barriga. Poderíamos afirmar que, caso não
fossem Cardoso dos Santos, poderiam assinar Presunçoso dos Imodestos. Sem
contar que faziam questão de andar com o pescoço inclinado para trás, como se
tal artifício fosse empinar aqueles narizes aquilinos.
Os que
conheciam os irmãos preferiam não os enfrentar abertamente e, desse modo,
faziam vistas grossas. Mas eis que, por motivo de trabalho, Carlos foi obrigado
a se mudar para Goiânia, enquanto Jorge permanecia em Brasília. Mal se viam
pessoalmente, mas se telefonavam uma ou duas vezes por semana, como se fossem
dependentes um do outro.
Os gêmeos trataram de marcar as férias
na mesma época e, quando elas chegaram, Carlos declinou da ideia de viajar para
João Pessoa com o parente.
— Quero pegar um pouco de frio.
— Frio? Quem gosta de frio é pinguim e
picolé, Carlos. O que deu em você? A gente sempre vai pra praia.
— Ah, sei lá! Talvez seja por isso
mesmo. Já estou um pouco enjoado do mar.
E assim aconteceu. Mês de julho, lá foi
o Jorge curtir as belas praias da capital da Paraíba. Época agradável, cujo
inverno só tem nome de inverno por conta das outras estações muito mais
quentes. A princípio, sentiu falta do irmão, mas logo encontrou companhia
agradável, vinda de São Paulo, com quem tirou inúmeras fotografias enquanto o
romance pegava fogo.
Quanto ao Carlos, chegou a se arrepender de ter declinado
de João Pessoa e abraçado a ideia de passar as férias na cidade gaúcha de São
José dos Ausentes. Eita lugarzinho para fazer frio! A sorte é que, já nos
primeiros dias no local, conheceu uma linda argentina, com quem teve tempo
suficiente para treinar seu portunhol, além, é óbvio, de se esquentarem em
frente a uma providencial lareira tomando vinho e degustando, além do
tradicional churrasco, carreteiro de charque, queijo serrano, paçoca de pinhão
e alguns doces artesanais.
Como todos sabemos, um minuto no
ringue com o Popó de Freitas é uma eternidade, mas um mês na companhia da
Sônia Braga é um piscar de olhos. Quando se percebe, já se foi e só sobram
lembranças e saudade. E foi com tamanho sentimento que Jorge se despediu da
linda paulista lá em João Pessoa, enquanto Carlos, no Sul do país, fazia promessas
de que iria encontrar a sua nova namorada em Buenos Aires.
Dois dias após, lá estavam os
gêmeos de volta ao trabalho: Carlos, em Goiânia; Jorge, na capital do país. E,
já na primeira ligação, trocaram confidências sobre as respectivas viagens. Um
tentando convencer o outro de que as suas férias tinham sido muito melhores do
que as do outro.
— Ei, Carlos! Tive
uma ideia!
— Ideia? Que ideia
meu irmão?
— Amanhã mesmo vou
falar no trabalho que passei metade das férias na praia e a outra metade na
Serra Gaúcha.
— Hum! Boa ideia!
Pois vou fazer o mesmo.
O pior é que as
coisas não pararam por aí. Além de mentirem para os colegas do serviço que
possuíam duas namoradas, os gêmeos também resolveram fazer viagens para São
Paulo e Buenos Aires. O problema é que Carlos foi para a capital paulista,
enquanto Jorge foi conhecer a principal cidade da Argentina.
Não sei se as
mulheres perceberam a troca ou, caso tenham percebido, talvez levaram aquilo na
brincadeira. Como sei dessa história? Bem, conheci o Carlos, já perto dos 90
anos. Ele havia retornado para Brasília quando se aposentou, logo após a virada
do milênio. Ele me contou isso pouco antes de falecer e ser sepultado ao lado
do irmão no Cemitério Campo da Esperança.
- Nota de esclarecimento: O conto "Gêmeos matreiros" foi publicado no Notibras no dia 26/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/gemeos-matreiros/






