— Vai mesmo jogar fora, dona Anísia?
— Comprei uma elétrica. Muito mais prática.
O homem deixou de lado qualquer resquício
de orgulho e tratou de pegar a panela rejeitada. Era nítido que a pobrezinha já
havia se envolvido com muito feijão, canjica, milho e aipim. Gasta além da
conta, não importava, Valdir a acolheu em seus braços e a levou para o seu
pequeno apartamento.
— Aurora. Hum... Não! Genoveva parece
combinar melhor com você. Vou colocar essa borrachinha aqui e você vai poder
cozinhar muito ainda. Vai ser disputada a tapas.
A panela de pressão,
talvez encabulada, não quis responder ao idoso. Seria louco? Mais provável que
aquilo fosse apenas solidão.
— Coitadinha, está
tristinha? Logo, logo você faz amizade com a Flora, a Felícia, a Marta e a
Jurema. Se você tivesse chegado há duas semanas... Mas deixa estar, minha
querida, que aqui é tudo gente boa. Então, sinta-se à vontade.
Nova ausência de fala, a Genoveva talvez
fosse muda de nascença.
Como previsto, bastou um banho de loja para que a Genoveva fosse
mote de disputas ferrenhas. E lá estavam a Mirtes, a Honorata e a Lourdes dando
os lances.
— Trinta reais, seu Valdir.
— Pois eu dou cinquenta agora mesmo. Não
peço fiado, isso é coisa da Lourdes.
— Coisa minha? Eu pago é com Pix, minha
filha!
— Pois quero ver! Tu deve o Zé da feira há
mais de mês que eu tô sabendo.
Enquanto as três mulheres não entravam em
acordo, apareceu a dona Anísia, que há pouco mais de mês havia jogado aquela
panela de pressão no lixo. Ela chegou de mansinho e depositou uma nota de cem
no bolso da camisa do Valdir. O sujeito sorriu e devolveu a Genoveva à senhora.
Não se sabe exatamente o motivo que fez a dona Anísia se arrepender de ter jogado fora a sua antiga panela de pressão. Há boatos, e talvez nenhum seja totalmente verdadeiro. Dizem que a panela elétrica queimou e, também, há a versão de que a comida ficou sem gosto. O certo mesmo é que o Valdir tem sido visto na casa da mulher nos finais de tarde, quando o cheiro inconfundível de milho cozido toma todo o bairro. Milho cozido e amor.
- Nota de esclarecimento: O conto "O preço do arrependimento" foi publicado no Notibras no dia 23/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-preco-do-arrependimento/









