sexta-feira, 17 de julho de 2026

A vida não cabe (poema de autoria da Dona Irene)


 Depois da morte,

uma pequena placa sobre a relva:

um nome,

duas datas

e um silêncio entre elas.


Como se uma vida inteira

pudesse caber naquele traço.

Como se o começo e o fim

resumissem tudo

o que aconteceu no meio.


Mas a lápide não conta

os sonhos que foram sonhados,

os que se realizaram

e aqueles que permaneceram acesos

até o último instante.


Não guarda o perfume

que ficou nas roupas,

nem o jeito tão único de sorrir,

a voz chamando nosso nome,

a forma particular de chegar

e mudar a atmosfera da casa.


A pedra não sabe dos medos,

das esperanças,

das noites sem dormir,

dos pequenos gestos de cuidado

que ninguém percebeu,

mas que sustentaram o mundo de alguém.


Não diz das mãos que trabalharam,

dos caminhos percorridos,

dos abraços oferecidos,

das lágrimas escondidas

para não preocupar quem se amava.


Uma vida não cabe

num nome gravado,

nem nas datas separadas

por um breve risco.


Porque aquele risco

é uma infância inteira,

uma juventude,

uma família,

uma história de amor,

uma sucessão de dias comuns

que hoje parecem sagrados.


A placa permanece sobre a relva,

quieta e pequena.


Mas quem partiu

continua imenso

na memória de quem ficou.


Vive no perfume que reaparece,

numa palavra repetida,

num costume herdado,

num sorriso que, de repente,

reconhecemos em outro rosto.


A morte pode encerrar os dias,

mas não consegue resumir uma vida.


Porque uma vida não é a lápide.

É tudo aquilo que ainda pulsa

quando alguém pronuncia seu nome

com amor.

Ruídos de família

    

    Como se fosse para-raios, dona Arlete atraía todo tipo de imbróglios familiares. E lá ficava a senhora, cara de paisagem, diante de uma das partes interessadas. Quem tinha alguma coisa para reclamar, que reclamasse, mas também não quisesse nada além do que ouvidos e um tanto de ironia.

    — Mamãe, você não vai acreditar.

    — Então, nem me conte.

    — Hum! Mamãe, você acredita que o Álvaro me chamou de dramática?

    — Não me diga. Você?

    — Pois é, mamãe! Pra senhora ver o que passo no meu casamento.

    — Coitada de você, minha filha. Tá, mas e eu com isso?

    — Mamãe! A senhora é a minha mãe.

    — Sei lá, Patrícia. Trocam tanto de bebês na maternidade.

    — Mas, mamãe, eu sou a cara da senhora!

    — Vai me culpar por isso também?

    — Mamãe!

    Humberto, sobrinho da dona Arlete, vez ou outra, aparecia na casa da tia. Por coincidência, artimanha ou obra do acaso, sempre no período da tarde, por volta das quatro, quando a mulher costumava tomar chá com torradas crocantes e queijos finos.

    — Titia, que saudade!

    — Oi.

    — Já falei que a senhora é a minha tia favorita?

    — Hum... Com esta, creio que já são três mil oitocentas e trinta e sete vezes. 

    — Só? Que sobrinho sem coração sou eu.

  — Talvez um pouco mais. É que a sua tia está ficando velha e nunca foi boa em matemática. 

    — Preciso me redimir, titia. Mas que cheirinho convidativo é esse? Não vai me dizer que a senhora preparou aquele café especial?

     Já sentados à mesa na varanda, Humberto puxava assunto, enquanto a tia queria mesmo é aplicar um bom pontapé nos glúteos do parente.

    — A senhora está sabendo?

    — Sabendo o quê?

    — Papai me disse que chegou a hora de eu bater asas e sair de casa.

    — Jura? O Ernesto fez isso?

    — Pois é, titia, pra senhora ver como são as coisas. A senhora acredita?

    — Bem, chega uma hora na vida... Tu fez quarenta anos, né!?

    — Completei trinta e nove no mês passado, titia.

    — Ah, tá! Cá estou eu sempre atrapalhada com os números. É a matemática, Humberto. Nunca fui boa nisso. E tu, com apenas 39 anos, ainda é um molecote. 

    O homem encarou a tia, que manteve o olhar firme, apesar da gargalhada silenciosa dentro da mente. Aliás, tamanho talento não é para todos. Dona Arlete não titubeava por coisa boba.

    Bom mesmo era quando juntava a família inteira, às vezes em algum aniversário, quase sempre no Natal. Ih, era aquela concorrência sem qualquer discrição para ter um dedo de prosa com a dona Arlete. Sem chance! A senhora sorria seu melhor sorriso de matriarca e dizia:

    — Hoje é dia de festejar, minha gente!

    No íntimo, dona Arlete não escolhia palavras: "Hum! Só digo uma coisa. Querem mesmo saber, bando de imbecis? Ah, querem mesmo? Pois digo é nada!"

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Fiado de confissões

    

         Dona Ermengarda era sinônimo de respeitabilidade. Parecia sempre disponível para uma conversa, não importasse o teor. A mulher era boa de ouvido. 

        A senhora residia na casa da esquina, bem em frente ao Bar do Bosco. Local frequentado por muitos, mal falado por um tanto, conhecido por todos. Seja como for, Dona Ermengarda parecia apreciar o lugar, tanto é que costumava frequentá-lo de terça a quinta-feira.

        — Sexta, sábado e domingo não são para gente do meu feitio. Não que eu valha algum tostão, mas a idade chega para os que teimam com a finitude da vida. E só não vou mais ao Bar do Bosco por um motivo.

          — E qual é, dona Ermengarda?

            — Não abre às segundas. 

       Enquanto alguns iam até a mulher para pedir conselhos, boa parte queria apenas desabafar. Todavia, não raro, um ou outro buscava a companhia de dona Ermengarda simplesmente para se vangloriar. Ninharias, mas que inflavam o ego do falante.

            — Estou deveras impressionada, Lúcio. Parece que você atingiu um patamar desejado por muitos.

            — A senhora acha mesmo?

            — Se acho? Meu rapaz, tenho certeza!

            Alguns tapinhas nas costas da velha, uma cerveja a mais sobre a mesa e, até acontecia, aquela porção caprichada de fritas. Ermengarda dizia que não precisava, mas o sujeito fazia questão. 

            — Dona Ermengarda, a senhora merece muito mais. Só não dou porque me falta.

     Mês passado, a comunidade acordou com a triste notícia da partida de dona Ermengarda. Como se ninguém soubesse que a mulher já tinha ultrapassado a barreira dos 90 anos. A verdade é que as pessoas não estão preparadas, mesmo que o fim da linha esteja bem ali, bastando dobrar a esquina.

            O velório aconteceu naquela mesma tarde. Dezenas de conhecidos compareceram, não faltou gente para segurar as alças do caixão. Adeus, dona Ermengarda!

            Os dias que se seguiram foram de luto, porém logo se transformaram em rotina. Então, quando tudo já parecia ter voltado ao normal, eis que chegou uma carta para o Bosco, o dono do bar. O sujeito observou com atenção o envelope e constatou que a remetente era a finada. Quase caiu para trás, até que viu a data da postagem: no dia anterior ao óbito da amiga.

            Instigado pela curiosidade, Bosco abriu o envelope com cuidado. Três folhas, frente e verso, a letra caprichada, o português correto, inúmeras palavras que encheram de lágrimas os olhos do comerciante. E, para fechar com chave de ouro, uma afirmação típica de uma mulher que passou anos ouvindo os mais variados tipos: "Sabe, meu amigo Bosco, sempre admirei a coragem e a disposição que esse povo tem de passar vergonha."

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Hora do almoço

     

    Janaína, Márcia e Analice, três colegas de trabalho, mal trocavam palavras durante o expediente. Muita correria para pouco diálogo, conforme dizia Fausto, o chefe da repartição. Quando dava meio-dia, as três mulheres se encontravam no restaurante da esquina. Era a hora de relaxar e colocar para fora as novidades, dar boas risadas e desabafar. 

        Naquela sexta-feira, justamente o dia mais esperado da semana, Márcia e Analice perceberam certa tristeza nos olhos da amiga. Márcia, solidária por natureza, foi a primeira a falar:

        — Que foi, mulher? Que cara de taxista é essa?

        — Ah, amiga, descobri umas coisas aí.

        — Que coisas, mulher? — quis saber Analice.

        — Pois não é que o Osvaldo me traiu, tu acredita nisso?

        — Hum! Aquele ali nunca me enganou. Eu até te falei, não foi, Márcia?

        — Foi sim.

        — Pois diga, amiga, com quem o cretino te traiu? A gente conhece?

        — Ih, Analice, foi com tanta gente, que preciso fazer uma lista.

        — Sério?

        — Sério, Analice. Até sabia que ele poderia não ser tão fiel assim. Aquela coisa, sempre confiei desconfiado, mas nunca imaginei que pudesse ser com tantas.

        — Hum! Ah, se fosse comigo!

        — E o que tu faria, Analice?

        — Mandava amolar todas as facas lá de casa.

        — Eita! Deixa de bobagem, mulher! Você fica aí dando ideia pra nossa amiga.

        — Ah, Márcia, comigo a coisa é desse jeito.

        — Hum! Tá bom! Mas, Janaína, e o que você fez?

        — Ah, Márcia, depois que descobri, a primeira coisa que fiz foi ir ao médico pra saber se o Osvaldo havia me passado alguma doença.

        As duas mulheres olharam com pesar a amiga, até que a Analice falou:

        — É verdade, amiga, fez muito bem. Afinal, você andou descalça onde o urubu anda de bota.

            Por sorte, a saúde da Janaína está em dia. Quer dizer, quase. É que ela topou com o dedo mindinho do pé na quina do arquivo de metal da repartição. Pegou cinco dias de atestado.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Anatomia de um domingo

     

   Ernesto, viúvo há dois anos, foi acometido de culpa assim que despertou naquele domingo chuvoso. A ausência de Eulália lhe pareceu aceitável diante do sonho que imaginou acompanhá-lo durante a madrugada. 

    Barbeou-se com o esmero de outrora. Debaixo do chuveiro, sentiu a água lhe tocar a pele como se fossem os dedos de Fátima, a vizinha do 304. Por que ela teria puxado conversa na tarde anterior no elevador? Até onde sabia, a mulher era casada. Estaria em crise com o marido? E qual foi o real significado daquele sorriso?

    Enxugou-se, penteou os cabelos ainda com a toalha enrolada na cintura. Notou que havia perdido peso. O apetite já não era o mesmo desde que Eulália sucumbira. Enfarte. Aos 58 anos. Logo ela, que sempre cuidara da saúde.

    — Amor, vamos comigo à academia hoje?

    — Não gosto. Você sabe disso.

    — Ah, Ernesto, até quando você vai resistir? Olha o coração! Não quero ficar viúva, hein!?

    Abriu o armário, pegou uma camisa azul, uma bermuda cinza, meias. Calçou o tênis. Pensativo por alguns instantes, tomou coragem e, já no corredor, confabulou um possível encontro com a vizinha.

        — Que surpresa boa!

        — Bom dia, dona Fátima.

        — Por favor, só Fátima. Ou você vai fazer questão de tanta formalidade entre nós dois, Ernesto?

        Chegou. O elevador chegou. Ernesto abriu a porta e nada além do próprio reflexo no espelho ao fundo.

        — Tu é mesmo um mané, Ernesto! — disse o reflexo.

        — O quê?

        — Mané! Tu não passa de um mané. Tu acha mesmo que aquela gata vai dar trela pra você? Hum! Numa hora dessa, a Eulália deve estar se virando no túmulo de tanto rir.

        — Será?

        — Claro que não, né, Ernesto! Ou tu já esqueceu que ela foi cremada?

        Parou. O elevador parou. Ernesto tocou a porta, que se abriu devido ao puxão do Roberto, justamente o marido da Fátima.

        — Bom dia, seu Roberto.

        — Bom dia por quê? Por acaso você ganhou na loteria?

      Impossível. Ernesto nunca apostava. Não por ser contra o jogo, era consciência do próprio azar. 

        Na calçada, a mente inquieta não deu folga ao sujeito. Será que o Roberto sabia? Não, a Fátima não seria tão sincera a ponto de confessar que estava apaixonada por outro. E por que não diria? Será? Já não duvidava de nada. Foi quando ela surgiu do nada. Não exatamente do nada. Fátima acabara de atravessar a rua, vinha da padaria em frente. 

        — Oi, seu Ernesto. 

        Seu Ernesto? Cadê o simplesmente Ernesto?

        — Oi, dona Fátima.

        Não seria ele a torcer o braço. Era dona Fátima e pronto!

        — O senhor viu o Roberto?

        — Roberto?

        Fingiu desconhecer o nome do rival.

        — É! O Roberto, o meu marido. 

        — Ah, sim! Ele já subiu.

        — Tadinho do meu amor.

        Tadinho? Amor? E onde o Ernesto se encaixava naquilo tudo?

        — Aconteceu alguma coisa?

        — Foi a empadinha. Eu avisei, mas o meu fofo é teimoso que o senhor não imagina.

        Meu fofo? Aquele bruto?

        — Empadinha?

       — É, seu Ernesto. Aquela azeitona não estava com a cara boa. Acho que o meu bichinho está agora mesmo sentado no vaso. 

         Ernesto sentiu a impiedosa realidade bater forte no peito. Nada além de piriri.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O homem sem reflexo

    

    Laerte, tipo de idade incerta, provavelmente ronda os 70, apesar de haver quem jurasse que o homem tinha chegado há pouco aos 60. O problema, diziam, era a carcaça, deveras gasta por atritos desnecessários.

    — Aquele ali pensa que é o dono do prédio.

    — E não é? Ontem mesmo estava mandando e desmandando, como se alguém ligasse. Pois sim!

    — Pois não é que tem gente que ainda dá bola?

    — Não acredito, dona Ludmila.

    — Pois acredite, Pedro. Mas sabe o que é pior?

    — O quê?

    — Parece que o sujeito é metido com coisa errada.

    — Sério?

    — Não estou te falando?

    — É ladrão?

    — Não. Pior.

    — Assassino?

    — Não. Pior.

    — Pior?

    — Ih! Muito pior!

    — E o que é?

    — Chatice, meu jovem. Chatice! O Laerte nasceu com a chatice entranhada na alma. Ninguém aguenta. De tão chato, o metido não tem reflexo.

    — Como é que é?

    — Tá vendo esse espelho?

    — Hum.

    — Pois preste atenção quando ele passar aqui na portaria. É estranho, eu sei, mas é o que é. Não há espelho que resista. O homem não tem reflexo.

    Mal essas últimas palavras escapuliram, eis que surgiu o Laerte vindo da rua. A carranca costumeira, bufando de raiva por ninharia. O Rabugento se dirigiu ao Jorge, o porteiro que estava separando a correspondência dos moradores.

    — Jorge, o que tu tá fazendo? Largue isso e veja lá o que fizeram na calçada.

    O funcionário nem titubeou, tratou de se inteirar do que estaria acontecendo. Cinco minutos depois, retornou.

    — Seu Laerte, é o pessoal da companhia de esgoto. Parece que tem vazamento na rua.

    — Ai, ai, ai, ai, ai! Só me faltava essa pra resolver. Tudo eu! Nem sei por que te contrataram, Jorge. Tu não consegue resolver nada.

    Laerte, em seguida, virou as costas, pegou o elevador e foi repousar para se abastecer de mais mau humor. Assim que se viram livres do ranzinza, dona Ludmila, Pedro e Jorge se entreolharam.

    — Não te falei, Pedro?

    — É, dona Ludmila, o homem é chato pra caramba.

    — Não estou falando disso. Prestou atenção no espelho?

    — Ih, me esqueci.

    — Pois eu vi. Melhor, meu filho, não vi. Não há espelho que resista àquele chatonildo agudo.

    Pedro, incrédulo, arregalou os olhos. Jorge, que parecia saber das coisas, apenas sorriu.

domingo, 12 de julho de 2026

O mofo dos sonhos

   

    Edna se olhou no espelho e buscou o reflexo da jovem cheia de esperança que um dia fora. A imagem de Ronaldo, o amor que ainda resistia, parecia se esvair em desesperança de que, um dia, o casal pudesse viver. 

     — Ronaldo, tem hora que me falta paciência, mas aguento firme. Os meus princípios não me deixam fazer o que eu quero. Talvez seja por covardia, meu amor, que não largo o Sílvio. A essa altura do campeonato, ele com quase 80 anos... É, meu amor, não tenho coragem de abandoná-lo.

    A mulher sabia que Ronaldo a estava esperando para irem embora, talvez para o Mato Grosso. Morariam em um sítio afastado de amigos e familiares. Uma vida tranquila, onde não precisariam fingir. Apenas desconhecidos, que certamente imaginariam que aquele casal, talvez cansado do tumulto da cidade grande, tivesse ido buscar um pouco de paz na velhice. 

    — Não espere por mim, Ronaldo. Vá e arrume uma mulher enquanto tem tempo.

    Um tolo! Ronaldo insistia em esperar por Edna. Sem o grande amor de sua vida, o sujeito não arredaria pé. Ela, realista até a raiz do cabelo, insistia. Até tentava encorajar o homem.

    — Olha, Ronaldo, se um dia eu me vir livre, e você ainda me quiser, prometo que te encontro. Mas vá, por favor, vá!

      Igual cachorro chutado, Ronaldo não aceitava que pudesse existir um mundo longe da Edna. Se fosse destino, ele estava disposto a tragar até o último fumo daquele rolo sem fim. Edna não escondia sua preocupação nem romantizava. 

        — Sei que o Sílvio é mais velho, Ronaldo. Mas quem garante que não será ele que vai ficar livre de mim? Eu posso partir primeiro, meu amor, ninguém sabe. 

            Mesmo não recebendo potes de esperança, Ronaldo, romântico inveterado, guardava no peito a certeza de que ainda viveria muitos anos ao lado da mulher. 

            — Ronaldo, meu amor, você vive no futuro, enquanto o presente me deixa atrelada ao meu marido a cada dia que amanhece.

            Ela sabia o que havia acontecido no passado, quando era jovem e se deitava no mato com Ronaldo. Carregados de esperança, sentimento que hoje só vive nele. Edna sabia o que estava acontecendo naquele exato momento, e a incerteza a tomava quanto aos dez minutos seguintes. Para que fazer planos? Aos 68 anos?

        — Ronaldo, meu amor, à medida que o tempo passa, os sonhos vão perdendo o prazo de validade. Aqui dentro tudo parece mofado. Você entende isso?

        O homem observava a mulher, fazia mil planos, esquecia que cada dia era mais um dia que ficava para trás. 

        — Chega de sofrer, Ronaldo! Cansei de sofrer pelo passado. Cansei disso tudo. O presente já é tão pesado. Velho não tem direito a futuro.

            Ele brigava com Edna, dizia que ela não o levava a sério. 

            — Não tenho coragem de virar as costas pro Sílvio. É essa a verdade, meu amor. A gente não sabe de nada que pode acontecer. Se o Sílvio não fosse a pessoa que é, eu já tinha largado tudo, mesmo ele velho. Mas você sabe, Ronaldo, o meu marido é uma boa pessoa, e eu seria uma ingrata se fizesse isso.

            Ronaldo, apesar de sonhar com o dia em que terá a mulher da sua vida nos braços, nunca disse para que ela largasse tudo. Ele também não acha certo que Edna abandone o esposo. O Sílvio é um bom homem. Tão bom que não condenaria a mulher. Definharia em silêncio. 

sábado, 11 de julho de 2026

O bolo, o café e o amigo-oculto

    

    A vida não necessita de hecatombes quando os percalços da rotina em família nos apontam que o caos pode estar debaixo do tapete, atrás da cortina ou camuflado sob uma inocente almofada do sofá. E nem é preciso se dar ao trabalho de procurá-lo, pois, do nada, lá está ele, todo sorridente, que nos salta aos olhos sem aviso. 

    — Que droga!

    — O que foi, mamãe?

    — Quem foi que comeu o pedaço de bolo que deixei no pote dentro da geladeira?

    — Ué, fui eu.

    — E quem mandou?

    — Dona Helena, a senhora me ofereceu ontem. Já se esqueceu? Comi hoje.

    — Hum! Que comesse ontem. Hoje não valia mais. 

    — O quê?

    — Que lave a louça, então.

    — Já lavei, mamãe.

    — Hum! Pois a louça da semana é tua, Orlando.

    — Sem problema.

    No lar, doce lar ao lado, o marido levou a xícara aos lábios frios, a careta se apresentou sem cerimônia.

    — Laura, o café está sem açúcar.

    — O pote está aí ao lado.

    — Você sabe que não tomo café sem açúcar.

    — Sim, sei disso. O pote está aí ao lado.

    — Por que o café está sem açúcar?

    — É mais fácil assim, meu amor.

    — Mais fácil pra quem, Laura?

    — Cansei de fazer duas garrafas de café, Álvaro. Quem gosta com açúcar, o pote está aí ao lado.

    Na repartição pública...

    — Mas por que tu não vai participar do amigo-oculto, Shirley?

    — Não gosto.

    — Mas todo mundo quer.

    — Todo mundo é muita gente, Carlos. Ah, e tem mais uma coisa.

    — O quê?

    — Não estou nesse todo mundo aí.

    — Você é mesmo uma chata!

    — Ih, meu filho, você precisa me conhecer de verdade. Sou ainda pior.

    E vida que segue! Nada como dar uma espiada no quintal do vizinho para termos certeza de que ninguém está só nesta bagunça chamada sociedade. Civilizada, obviamente.