quinta-feira, 23 de julho de 2026

Passos e descompassos

  

    Lorena e Miguel, a princípio um casal improvável, se esbarraram em uma roda de samba no Bar do Bosco. Ela, um tanto exuberante, parecia mais interessada nos bambas do local. Já o sujeito, cuja barriga proeminente o fazia se encolher em timidez, preferia se ater a olhares sobre aquela gente.

    Coube à bonitona a iniciativa, mesmo que, caso lhe fosse perguntado, era provável que ela não soubesse apontar o motivo. Combinações esdrúxulas que aparentemente não se encaixam.

    — Tu dança ou só fica com o traseiro colado na cadeira?

    Miguel, que se confundia com os próprios pés, sorriu. Nisso, foi puxado pela mão.

     — Vem, que te ensino a requebrar gostoso.

        E lá foi o homem sem jeito para a coisa. Não se saiu tão mal, pelo menos aos olhos interessados da Lorena. Depois de alguns passos e descompassos, além de vários goles de cerveja, os dois terminaram na cama. E foi assim que o romance se iniciou.

        Dois anos de amor regado a pagode, cerveja, suor e beijos ardentes sob lençóis indiscretos. Aquela paixão fogosa, sem amarras, como se o amanhã fosse mera ilusão. Tanta felicidade, que ninguém poderia supor o que estava por vir.

            Aconteceu em uma noite de sexta-feira, perto das dez horas. O samba rolava solto no Bar do Bosco, o casal ainda no lar, doce lar.

        — Ué, Miguel, tu ainda não tá pronto?

        — Ah, meu amor, hoje não tô a fim. Acho que tô com indisposição.

        — Indisposição? Tu tá doente ou o quê?

        — Num sei. Só não tô a fim mesmo.

        Nada no sábado também. Domingo, então, era dia de recolher os atrevimentos para suportar a labuta da semana. Mas o pior mesmo foi a avalanche de críticas que o Miguel começou a derramar sobre a companheira.

        — Lorena, tu precisa mesmo usar essa saia? E pra que tanta tinta na cara? Cerveja também não é legal. E esse samba... Ih, isso é coisa que não presta!

            Lorena, olhos sem aquele sorriso costumeiro, foi trabalhar na segunda-feira. Quem logo percebeu a carranca no rosto da jovem foi a Shirley, prima e colega na empresa. 

            — O que foi, mulher? Que cara de coxinha sem catupiry é essa?

            — Ah, Shirley, nem te conto.

            — Pois conte, que tu sabe que sou da fofoca.

            — É o Miguel. Acho que ele arrumou outra.

             — Outra? Duvido! O problema do seu homem é muito pior, Lorena.

            — Pior?

            — É! Pensei que tu já estava sabendo.

            — Sabendo o quê, mulher?

            — O seu Miguel virou crente.

            Lorena quase caiu dura. 

            — O quê? Não pode ser! O meu Miguel?

            — Sim, amiga. O seu Miguel.

           — Eita! Agora que a coisa complicou de vez. Com mulher até que dá pra competir, mas com Jesus... Ih, assim nem tem competição. 

            E foi assim que o romance terminou. Cada um seguiu seu caminho e, apesar de tudo, dizem que ainda se falam quando se esbarram na calçada.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Dois chopes e uma teoria

    

    Dois escritores, depois de algumas doses extras, pareceram se travestir de filósofos. O mais novo, um tanto quanto despojado, virou-se para o colega e, sorriso nos lábios, disparou:

      — Pois é, meu amigo, crônica é povo.

        — Hum?

        — E mais! Não só crônica, é pedagogia e até cotidiano.

        Para não parecer idiota, o segundo concordou com a cabeça. O outro prosseguiu:

        — Povo é espaço coletivo da práxis ainda não instrumentalizada. Digo mais, meu querido! Sem povo não há crônica nem haveria motivo para a sua existência. Desse modo, você e eu estaríamos sem ofício.

        — É verdade. Você está coberto de razão.

        — Talvez seja exagero da minha parte, meu amigo. 

        Os dois homens se entreolharam por um instante até que o mais jovem ergueu o indicador e, em tom um pouco mais elevado, chamou o garçom:

        — Ei, chefe, desce mais um. Dois! O copo do meu amigo secou.

        O companheiro agradeceu com os olhos, quase ao mesmo tempo em que o outro continuou:

        — Povo, meu amigo, povo cria e não registra direito autoral. Povo sabe das coisas, já socializa na fonte.

        O garçom traz os dois chopes, os amigos brindam, um gole a mais. O mais jovem se sente compelido a continuar:

        — O capitalismo, meu camarada... O capitalismo, em dado momento... O capitalismo registra propriedade e até distribui sustentos filosóficos e narcísicos.

        O mais velho, confuso, buscou expressões inexistentes na face para tentar acompanhar o raciocínio do colega erudito, que não parava de destilar palavras.

        — Pois é, meu amigo... Narcísicos! Mas vida que segue lenta no seu leito e, nem por isso, antirrevolucionária, pois conta com a força da arte, essa tal categoria do imaginário humano da qual você e eu também fazemos parte.

        Mais um brinde, outro gole. Enquanto houver ócio, a filosofia estará por aí. Quanto às crônicas, só enquanto existir povo. Aqueles tipos, mentes inquietas, pediram a conta e, cambaleantes, se embrenharam pelas ruas da cidade, que adormecia.

terça-feira, 21 de julho de 2026

A rebeldia do afeto

  

    Alzira, aos 98 anos, enfrentava o crepúsculo dos seus dias na UTI. Desenganada pelos médicos, só lhe restava recordar o tempo de menina, quando corria aos gritos, com os irmãos e primos, no quintal da casa da avó. Quando chegava a hora do lanche da tarde, a criançada se esbaldava com os quitutes dispostos sobre a enorme mesa da varanda.

        — Pudim.

        — O que a senhora disse, vovó?

        — Pudim.

        — Pudim?

        — De leite. Minha avó fazia. Uma delícia. 

        — O médico disse que a senhora não pode com doce. Muito açúcar.

        — Besteira!

        — Vovó, olha a diabete.

        — Paula, vou morrer daqui a pouco mesmo. Que mal morrer com os lábios tocando uma generosa fatia de pudim? Pudim de leite!

        Dois dias depois, a família foi informada sobre a piora do quadro de saúde da paciente. Que as visitas ficassem restritas apenas a familiares e, mesmo assim, com parcimônia. Por conta disso, instalou-se aquele sentimento pré-luto entre os parentes.

            Filhos, netos e bisnetos se revezavam nos cuidados com a matriarca. Era um festival de não pode isso, não pode aquilo, todos querendo prolongar ao máximo a derradeira despedida. No entanto, algo parecia incomodar a Paula.

            Dizem que, quando o tempo é ínfimo, as decisões precisam ser ainda mais ágeis. Às vezes, dá certo, na maioria é um desastre. Seja como for, a culpa por não fazer algo pode corroer o indivíduo por anos, quiçá por toda a sua existência.

        Aconteceu de madrugada. Paula, incomodada por pensamentos, se levantou e foi até a cozinha. Buscou uma antiga receita de família, juntou todos os ingredientes necessários, preparou um pudim. Pudim de leite. Colocou o doce na geladeira para ganhar firmeza e, então, retornou para o quarto. Adormeceu.

        Na manhã seguinte, acordou e, antes de lavar o rosto, foi conferir se o pudim havia saído a contento. Cortou uma fina fatia e a levou à boca.

        — Hum! Vovó tem razão.

        A mulher, decidida que estava, tratou de se arrumar para ir visitar a avó. Colocou o pudim em um pote e foi para o hospital. 

        Na recepção, Paula foi barrada. E não houve argumento que conseguisse convencer os funcionários para deixá-la entrar com o pudim na UTI.

        — Desculpe, mas a senhora não pode entrar com comida na UTI. É proibido. 

        Cabisbaixa, mas nem por isso totalmente entregue, a luz das ideias absurdas acendeu na mente da Paula. Ela notou que as enfermeiras transitavam livremente pelo recinto, inclusive com bolsas e sacolas. Seria possível? Bem, não custava tentar. E foi o que a neta da dona Alzira resolveu colocar em prática.

        Paula observou uma enfermeira sair do hospital. A profissional tirou o aparelho celular do bolso e começou a digitar. E esse foi o momento ideal para que a Paula desse o bote.

        — Oi! Tudo bem?

        — Oi.

        A enfermeira, apesar de estranhar a abordagem, foi receptiva. Ouviu com atenção a proposta da Paula. Que loucura era aquela? Mesmo assim, contrariando qualquer expectativa com um mínimo de sensatez, a enfermeira aceitou.

        Meia hora. Pois foi esse o tempo que se deu para, finalmente, a Paula entrar na UTI. Ela observou a avó, que dormia, talvez sonhando com o paraíso.

        — Vovó. Vovó!

        Dona Alzira abriu os olhos e pareceu não reconhecer a neta. Voltou a dormir.

        — Vovó. Vovó! Sou eu, a Paula.

        A enferma abriu novamente os olhos, observou com estranheza a neta e disse:

        — Paula? Que roupa é essa? Virou enfermeira?

        — Vovó, é uma longa história, mas o importante é que consegui.

        Paula meteu a mão no bolso do jaleco e retirou um copinho plástico, onde havia um pedaço de pudim. Ela pegou uma colherzinha, retirou um naco do doce e o levou aos lábios da avó.

        — Hum!

        — Gostou, vovó?

        — Delícia! Esse é o sabor da minha infância. Obrigada!

       Em uma sala trancada do hospital, a enfermeira, diante de um pote, saboreava o seu suborno.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Drible na segunda-feira

    

      Dizem que pobre aprende a respirar com parcimônia para sobreviver em trem lotado, o que configura praticamente um pleonasmo na hora do rush. Segunda-feira, então, o desânimo estampado na cara do povo é ensurdecedor.

    Segunda-feira, o tempo parece olhar com sarcasmo aqueles corpos amalgamados disputando cada espaço vazio, utopia cruel da ralé. Que se apertem, outro passageiro acabou de entrar.

      Um tipo comum àquela gente. O sujeito retirou o aparelho celular do bolso. Deu um clique. As imagens correm. Futebol. Ledo engano, não é sobre o esporte bretão, é algo maior. Drible para cá, drible para lá. Um sorriso, olhares curiosos que logo se transformaram em gargalhadas. Uma senhora mais ao fundo, curiosa, estica os olhos:

       — O que é?

        Alguém responde:

        — Não sei.

        Gargalhadas se irradiam por todo vagão. A senhora, ainda intrigada, ainda tentando se aproximar, indaga:

        — Gente, o que é?

        Gargalhadas, gargalhadas, gargalhadas. Ela insiste:

        — Ei, alguém pode me dizer o que está acontecendo?

        O dono do celular, num gesto solidário, entrega o aparelho para o homem ao lado, que faz o mesmo para a jovem próxima que, por sua vez, repete o gesto até que chega às mãos pequeninas de uma garotinha, não mais de cinco anos. Ela sorri, vira a tela para a senhora e balbucia:

        — Olha, vovó.

        — Garrincha!

domingo, 19 de julho de 2026

O chão da infância

 

     Dona Rosana, minha mãe, sempre tive certeza, nunca foi com a minha cara. Não me parecia de propósito, mas como se fosse algo espiritual. Se sofri? É óbvio, a infância é o chão que a gente pisa a vida toda. 

      Não digo que mamãe e eu jamais tivemos nossos bons momentos. E foram marcantes, como a vez em que ela me levou ao cinema pela primeira vez. Eu estava com meus oito anos.

    — Sérgio, que tal um cineminha?

    Além do filme, ganhei pipoca, refrigerante e até uma barra de chocolate. Isso tudo recheado de muitas risadas. Dona Rosana, às vezes, era legal.

    Pouco antes de a adolescência me ser apresentada, meus pais resolveram que o melhor caminho era cada um seguir o seu, isso antes de se matarem. Mamãe tentou de tudo para que eu fosse morar com meu pai, que seria melhor para mim. Seu Álvaro, por sua vez, não demonstrou grande entusiasmo por essa ideia.

    — Sérgio, meu filho, é melhor você ficar com a sua mãe. Sabe, ela é a sua mãe. Não é legal você deixá-la sozinha nesse momento. Ela vai precisar de apoio.

    Depois do meu pai me incutir tamanha culpa, não tive dúvida. Precisava ficar ao lado da dona Rosana. 

    — Mamãe, eu quero morar com a senhora.

    — Por quê?

    — Ué, porque sim. Sou seu filho.

    — Hum... Tá bom! Mas dobre as suas meias e lave as suas cuecas. 

    Enquanto meu pai parecia levar uma vida de solteiro, dona Rosana continuava sendo mãe e, muitas vezes, pareceu se esquecer de que continuava mulher. Também tive parcela de culpa, adolescente que era, sentia ciúme de vê-la nos braços de outros homens.

    — Sérgio, toma conta da sua vida. Por acaso já me intrometi na sua?

    Na verdade, dona Rosana colocava defeito em todas as garotas com quem eu começava a me relacionar.

    — Qual é mesmo o nome da sua namoradinha?

    — Laís.

    — Ah, tá! Pensei que fosse Márcia.

    — Márcia? Nunca namorei nenhuma Márcia, mãe.

    — Ah, não? E aquela de cabelos de milho?

    — Roberta, mãe.

    — Ah, tá! Gostava mais dela. Pelo menos não andava pelada.

    — Mãe, e quem andava pelada?

    — Essa sua namorada. Qual é memo o nome? Elza?

    — Laís, mãe. E ela não anda pelada, não.

    — Ah, não? Pois foi o que me pareceu ontem.

    — Mãe, a Laís estava de saia e blusa.

    — Ah, é? Só deu pra ver a calcinha.

    Depois de anos de batalhas infrutíferas, os diálogos se dividiram em monólogos e, por fim, sobraram apenas olhares desviados.

    Passei no vestibular, ia de casa para faculdade, da faculdade para casa, saía de vez em quando com amigos e um caso ou outro com alguma mulher. Nada sério.

    — Mãe, a senhora quer ir à minha formatura?

    — Formatura?

    — É, mãe. Vou me formar.

    — Já?

    — Sim, mãe. O tempo voa, né!?

    — Quando vai ser?

    — Mês que vem, dia três.

    — Hum... Tá bom. Três?

    — Sim.

    — Parabéns.

    — Obrigado, mãe. Matemática.

    — Eu sei. Você sempre gostou de números.

    — É.

    — E agora? O que vai ser? 

    — Acho que consegui uma vaga de professor em uma escola. Professor substituto.

    — Que bom, meu filho.

    Dona Rosana se levantou e me deu um abraço. Uma das poucas vezes depois daquela tarde no cinema. Foi estranho, porém revelador. Existia algum vínculo, ainda que adormecido.

      Foi bom ter a companhia da minha mãe na formatura. Ela sorriu todos os sorrisos guardados desde que meu pai foi embora. Dona Rosana pareceu querer compensar tantas trocas de ofensas. 

        — Aquela é a sua namorada?

        — O quê, mamãe?

        — Aquela moça ali, a de cabelos pretos.

        — Não, mamãe.

        — Por quê?

        — Ué, mãe, porque não.

        — Hum... Pois não perca tempo, Sérgio. A vida passa rápido demais.

        Mamãe estava certa. Naquela mesma noite, Marina e eu começamos a namorar. 

sábado, 18 de julho de 2026

Quase normais e outros escritores

 

    Tenho grandes amigos, gente quase normal. Não raro, faço referência a um ou outro nos meus contos, crônicas e romances. Digo até que é o tipo ideal de pessoa para ser retratada, ainda mais porque são críveis. 

    — Edu, e desde quando o Valfredo é normal? E aquele psicopata do Aldo? Ah, para né!

    Essa fala é do Pedro, um dos meus chegados que se enquadram dentro da dita normalidade aceitável. Valfredo e Aldo são dois dos meus personagens, sendo o primeiro do conto "Valfredo, o gigolô". Já o Aldo, figura central de "A carta e a urna", poderia facilmente ocupar um lugar em algum manicômio judiciário. 

    — E aí, Edu, quero ver você sair dessa!

     Olha o Pedro aí de novo. Sempre provocativo. 

      Volto a afirmar que os melhores personagens são baseados em pessoas normais. E são! E aí é que vem a grande sacada, pois o que mais surpreende é a improbabilidade da insanidade, mesmo que momentânea, dos certinhos. Talvez até esse seja o caso de você que está me lendo.

    Mas quero falar dos escritores, classe da qual faço parte. E obviamente que possuo amigos dessa raça, sim, repleta de insanos. E, apesar da proximidade, não pouparei ninguém, pois não nasci com cadeado nos lábios. 

     Que tal começarmos pelo J. Emiliano Cruz, o Jota? Se ele é maluco? Completamente! No entanto, não a ponto de precisar usar uma camisa-de-força, já que a loucura dele é praticamente toda voltada à literatura. E quem ganha com isso são os leitores, que viajam nas tramas mais esdrúxulas e inusitadas do autor. Por isso, meu amigo, aconselho a não tentar prever o desfecho dos contos do sujeito, pois a mente do Jota parece funcionar como os dribles do Garrincha: improvável

        E o Saulo Braga? Poeta favorito do Chefe (José Seabra),  ele foi meu colega de Banco do Brasil há muitos anos no Rio de Janeiro. Figura divertidíssima e das mais amalucadas que conheço. Ultimamente, ele tem arriscado na prosa, pois resolveu contar histórias vividas e, até então, guardadas em algum ponto obscuro da sua mente. Duvida? Então, olha essa:

        — Edu, vou te contar, estou vindo lá do hospital porque quebrei duas costelas. Tomei aquele tombo de velhinho. E o engraçado é que tomei o tombo e me lembrei de mais quatro histórias. 

        — Duas costelas? Eita! Que loucura, Braga! Se com duas costelas quebradas você se lembrou de quatro histórias, imagina se tivesse quebrado as vinte e quatro.

        Agora, um pouquinho da poetisa Simone Magalhães. Ah, essa aí é acometida de picos de insanidade, seja na madrugada, seja quando ninguém espera. E lá vai a Simone pegar um caderno e uma caneta para despejar emoções. O resultado encanta, é verdade, e faz o poema martelar a cabeça do leitor durante uma semana inteira, contando as duras manhãs de segunda-feira, quando a realidade tenta trazer o sujeito de volta para o planeta Terra. 

            Outro apaixonado pelas horas impróprias é o Daniel Marchi, que me manda mensagens despudoradas às duas da madrugada:

            — Edu! Tá acordado?

            Tento fingir que ainda estou sonhando com a Dona Irene, que está ao meu lado, talvez sonhando comigo. Bem, espero, se bem que sonhos são sonhos. Nova mensagem:

        — Edu! Preciso te mostrar uma coisa.

        Por que ele faz essas coisas comigo? Eu, que não sou curioso, sou acometido desse mal justamente àquela hora.

        — Oi, Dan! Diga lá!

        O meu amigo me manda um conto maravilhoso, que me deixa inebriado, não vou mentir, um bocado enciumado. Gente, como é que o pilantra tem essas ideias geniais? Que inveja! Mesmo assim, lá vou eu mandar palavras escancaradamente teatrais:

        — Caramba, Dan! Você é o melhor!

        — Você acha mesmo, Edu?

        Trocamos mais algumas palavras, o Dan adormece com o ego lá nas alturas. E eu, com a insônia, enquanto a Dona Irene parece ainda sonhar aqui ao meu lado. Comigo?

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A vida não cabe (poema de autoria da Dona Irene)


 Depois da morte,

uma pequena placa sobre a relva:

um nome,

duas datas

e um silêncio entre elas.


Como se uma vida inteira

pudesse caber naquele traço.

Como se o começo e o fim

resumissem tudo

o que aconteceu no meio.


Mas a lápide não conta

os sonhos que foram sonhados,

os que se realizaram

e aqueles que permaneceram acesos

até o último instante.


Não guarda o perfume

que ficou nas roupas,

nem o jeito tão único de sorrir,

a voz chamando nosso nome,

a forma particular de chegar

e mudar a atmosfera da casa.


A pedra não sabe dos medos,

das esperanças,

das noites sem dormir,

dos pequenos gestos de cuidado

que ninguém percebeu,

mas que sustentaram o mundo de alguém.


Não diz das mãos que trabalharam,

dos caminhos percorridos,

dos abraços oferecidos,

das lágrimas escondidas

para não preocupar quem se amava.


Uma vida não cabe

num nome gravado,

nem nas datas separadas

por um breve risco.


Porque aquele risco

é uma infância inteira,

uma juventude,

uma família,

uma história de amor,

uma sucessão de dias comuns

que hoje parecem sagrados.


A placa permanece sobre a relva,

quieta e pequena.


Mas quem partiu

continua imenso

na memória de quem ficou.


Vive no perfume que reaparece,

numa palavra repetida,

num costume herdado,

num sorriso que, de repente,

reconhecemos em outro rosto.


A morte pode encerrar os dias,

mas não consegue resumir uma vida.


Porque uma vida não é a lápide.

É tudo aquilo que ainda pulsa

quando alguém pronuncia seu nome

com amor.

Ruídos de família

    

    Como se fosse para-raios, dona Arlete atraía todo tipo de imbróglios familiares. E lá ficava a senhora, cara de paisagem, diante de uma das partes interessadas. Quem tinha alguma coisa para reclamar, que reclamasse, mas também não quisesse nada além do que ouvidos e um tanto de ironia.

    — Mamãe, você não vai acreditar.

    — Então, nem me conte.

    — Hum! Mamãe, você acredita que o Álvaro me chamou de dramática?

    — Não me diga. Você?

    — Pois é, mamãe! Pra senhora ver o que passo no meu casamento.

    — Coitada de você, minha filha. Tá, mas e eu com isso?

    — Mamãe! A senhora é a minha mãe.

    — Sei lá, Patrícia. Trocam tanto de bebês na maternidade.

    — Mas, mamãe, eu sou a cara da senhora!

    — Vai me culpar por isso também?

    — Mamãe!

    Humberto, sobrinho da dona Arlete, vez ou outra, aparecia na casa da tia. Por coincidência, artimanha ou obra do acaso, sempre no período da tarde, por volta das quatro, quando a mulher costumava tomar chá com torradas crocantes e queijos finos.

    — Titia, que saudade!

    — Oi.

    — Já falei que a senhora é a minha tia favorita?

    — Hum... Com esta, creio que já são três mil oitocentas e trinta e sete vezes. 

    — Só? Que sobrinho sem coração sou eu.

  — Talvez um pouco mais. É que a sua tia está ficando velha e nunca foi boa em matemática. 

    — Preciso me redimir, titia. Mas que cheirinho convidativo é esse? Não vai me dizer que a senhora preparou aquele café especial?

     Já sentados à mesa na varanda, Humberto puxava assunto, enquanto a tia queria mesmo é aplicar um bom pontapé nos glúteos do parente.

    — A senhora está sabendo?

    — Sabendo o quê?

    — Papai me disse que chegou a hora de eu bater asas e sair de casa.

    — Jura? O Ernesto fez isso?

    — Pois é, titia, pra senhora ver como são as coisas. A senhora acredita?

    — Bem, chega uma hora na vida... Tu fez quarenta anos, né!?

    — Completei trinta e nove no mês passado, titia.

    — Ah, tá! Cá estou eu sempre atrapalhada com os números. É a matemática, Humberto. Nunca fui boa nisso. E tu, com apenas 39 anos, ainda é um molecote. 

    O homem encarou a tia, que manteve o olhar firme, apesar da gargalhada silenciosa dentro da mente. Aliás, tamanho talento não é para todos. Dona Arlete não titubeava por coisa boba.

    Bom mesmo era quando juntava a família inteira, às vezes em algum aniversário, quase sempre no Natal. Ih, era aquela concorrência sem qualquer discrição para ter um dedo de prosa com a dona Arlete. Sem chance! A senhora sorria seu melhor sorriso de matriarca e dizia:

    — Hoje é dia de festejar, minha gente!

    No íntimo, dona Arlete não escolhia palavras: "Hum! Só digo uma coisa. Querem mesmo saber, bando de imbecis? Ah, querem mesmo? Pois digo é nada!"

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Fiado de confissões

    

         Dona Ermengarda era sinônimo de respeitabilidade. Parecia sempre disponível para uma conversa, não importasse o teor. A mulher era boa de ouvido. 

        A senhora residia na casa da esquina, bem em frente ao Bar do Bosco. Local frequentado por muitos, mal falado por um tanto, conhecido por todos. Seja como for, Dona Ermengarda parecia apreciar o lugar, tanto é que costumava frequentá-lo de terça a quinta-feira.

        — Sexta, sábado e domingo não são para gente do meu feitio. Não que eu valha algum tostão, mas a idade chega para os que teimam com a finitude da vida. E só não vou mais ao Bar do Bosco por um motivo.

          — E qual é, dona Ermengarda?

            — Não abre às segundas. 

       Enquanto alguns iam até a mulher para pedir conselhos, boa parte queria apenas desabafar. Todavia, não raro, um ou outro buscava a companhia de dona Ermengarda simplesmente para se vangloriar. Ninharias, mas que inflavam o ego do falante.

            — Estou deveras impressionada, Lúcio. Parece que você atingiu um patamar desejado por muitos.

            — A senhora acha mesmo?

            — Se acho? Meu rapaz, tenho certeza!

            Alguns tapinhas nas costas da velha, uma cerveja a mais sobre a mesa e, até acontecia, aquela porção caprichada de fritas. Ermengarda dizia que não precisava, mas o sujeito fazia questão. 

            — Dona Ermengarda, a senhora merece muito mais. Só não dou porque me falta.

     Mês passado, a comunidade acordou com a triste notícia da partida de dona Ermengarda. Como se ninguém soubesse que a mulher já tinha ultrapassado a barreira dos 90 anos. A verdade é que as pessoas não estão preparadas, mesmo que o fim da linha esteja bem ali, bastando dobrar a esquina.

            O velório aconteceu naquela mesma tarde. Dezenas de conhecidos compareceram, não faltou gente para segurar as alças do caixão. Adeus, dona Ermengarda!

            Os dias que se seguiram foram de luto, porém logo se transformaram em rotina. Então, quando tudo já parecia ter voltado ao normal, eis que chegou uma carta para o Bosco, o dono do bar. O sujeito observou com atenção o envelope e constatou que a remetente era a finada. Quase caiu para trás, até que viu a data da postagem: no dia anterior ao óbito da amiga.

            Instigado pela curiosidade, Bosco abriu o envelope com cuidado. Três folhas, frente e verso, a letra caprichada, o português correto, inúmeras palavras que encheram de lágrimas os olhos do comerciante. E, para fechar com chave de ouro, uma afirmação típica de uma mulher que passou anos ouvindo os mais variados tipos: "Sabe, meu amigo Bosco, sempre admirei a coragem e a disposição que esse povo tem de passar vergonha."

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Hora do almoço

     

    Janaína, Márcia e Analice, três colegas de trabalho, mal trocavam palavras durante o expediente. Muita correria para pouco diálogo, conforme dizia Fausto, o chefe da repartição. Quando dava meio-dia, as três mulheres se encontravam no restaurante da esquina. Era a hora de relaxar e colocar para fora as novidades, dar boas risadas e desabafar. 

        Naquela sexta-feira, justamente o dia mais esperado da semana, Márcia e Analice perceberam certa tristeza nos olhos da amiga. Márcia, solidária por natureza, foi a primeira a falar:

        — Que foi, mulher? Que cara de taxista é essa?

        — Ah, amiga, descobri umas coisas aí.

        — Que coisas, mulher? — quis saber Analice.

        — Pois não é que o Osvaldo me traiu, tu acredita nisso?

        — Hum! Aquele ali nunca me enganou. Eu até te falei, não foi, Márcia?

        — Foi sim.

        — Pois diga, amiga, com quem o cretino te traiu? A gente conhece?

        — Ih, Analice, foi com tanta gente, que preciso fazer uma lista.

        — Sério?

        — Sério, Analice. Até sabia que ele poderia não ser tão fiel assim. Aquela coisa, sempre confiei desconfiado, mas nunca imaginei que pudesse ser com tantas.

        — Hum! Ah, se fosse comigo!

        — E o que tu faria, Analice?

        — Mandava amolar todas as facas lá de casa.

        — Eita! Deixa de bobagem, mulher! Você fica aí dando ideia pra nossa amiga.

        — Ah, Márcia, comigo a coisa é desse jeito.

        — Hum! Tá bom! Mas, Janaína, e o que você fez?

        — Ah, Márcia, depois que descobri, a primeira coisa que fiz foi ir ao médico pra saber se o Osvaldo havia me passado alguma doença.

        As duas mulheres olharam com pesar a amiga, até que a Analice falou:

        — É verdade, amiga, fez muito bem. Afinal, você andou descalça onde o urubu anda de bota.

            Por sorte, a saúde da Janaína está em dia. Quer dizer, quase. É que ela topou com o dedo mindinho do pé na quina do arquivo de metal da repartição. Pegou cinco dias de atestado.