Por que as derrotas costumam ser escondidas, é algo que nunca entendi. Seria medo do crivo da sociedade? Mas por que isso acontece, ainda mais em existências fadadas ao fracasso? Pois não sou diferente desses tantos mortais, esquecíveis que somos. Perdi a maioria das lutas, mas venci. Quer dizer, em uma ou outra ocasião, o que me coloca nesse enorme balaio dos maus vencedores, que se vangloriam por ninharias, talvez para camuflar o oceano de derrotas.
Minha mãe, que estudo nunca teve, só assinava com a impressão do polegar, não se deixava enganar por devaneios, tão comuns nesses breves instantes de êxito. Triunfo, você poderia dizer, mas descarto tal verbete. Triunfo é próprio dos que não são da nossa estirpe. Então, deixemos para essa casta o privilégio de dizê-lo. Triunfantes são eles.
Saiba que há 20 anos, completados há dois dias, tomei posse como escriturário no Banco do Brasil. Pois é, naquele longínquo ano de 2006, lá estava eu, cabelos devidamente alinhados, barba feita, calça tergal e camisa impecável, sem contar o par de sapatos dois números acima do meu, emprestado de um amigo, diante do gerente. Ele me olhou como se estivesse avaliando quem era aquele rapazola magro, quase desnutrido, que, a partir daquele instante, seria seu mais novo subordinado. Venci, meu amigo! Era o que eu imaginava, apesar da tremedeira que tomou conta das minhas pernas, tão finas que lembrariam as de um sabiá.
Ganhei um crachá que, propositalmente, me esquecia de tirar quando saía para o almoço ou, então, pegava o ônibus de volta para casa. Quando percebia algum curioso me fitando com aquele passaporte para o Olimpo, estufava o peito e fingia olhar para o horizonte. Todavia, meu coração parecia um menino saltitando diante do presente de Natal. Papai Noel existe! Era no que voltei a acreditar naqueles idos.
Galguei alguns degraus na estratosférica escalada rumo ao sucesso. Sucesso de verdade. Após anos de labuta, conquistei o posto de caixa e, mais quase uma década, me tornei gerente de conta. Nada mal para aquele magricela que não tinha dinheiro nem para comprar sapatos, especialmente um de qualidade. Entretanto, vovó, do alto da sua sabedoria praticamente profética, sempre esteve com a razão.
Papai Noel não existe, meu amigo. Não para os que vieram de onde viemos.
- Nota de esclarecimento: O conto "Só falamos das vitórias" foi publicado no Notibras no dia 14/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/so-falamos-das-vitorias/










