— Luciana!
Não era sonho, parecia pesadelo. Dona Sebastiana, a vizinha. Luciana pensou em fingir-se de surda. Melhor não; evitar situações ruins pode ser desastroso, ainda mais com alguém que reside ao lado.
— Tô indo, dona Sebastiana.
Passou as mãos no rosto, penteou os cabelos com os dedos, calçou o chinelo.
— Te acordei, minha filha?
— Não. Foi até bom, estou atrasada pro trabalho.
— Mas hoje é domingo.
— Domingo?
— É. Você está bem?
Luciana pensou: "Domingo, justamente o meu único dia de folga, e essa velha me acorda a essa hora."
— Você vai?
— Vou aonde, dona Sebastiana?
— À missa.
— Missa?
— É, minha filha. Hoje é a missa de sétimo dia do seu Honório.
Seu Honório. Luciana já havia se esquecido dele. Um idoso que sempre pareceu andar mais para lá do que para cá. Morreu. Ela não foi ao enterro, não era parente, não tinha direito à folga. Pensou: "Também, o que eu iria fazer no velório? Nem gostava daquele velho."
— Vai ser a que horas?
— Às dez.
— E que horas são agora, dona Sebastiana?
— Quase nove.
— Vai indo a senhora, que vou me arrumar. A gente se vê lá na igreja.
Assim que dona Sebastiana deu as costas, Luciana fechou a porta. Pensou: "Que mané missa o quê!"
Voltou para a cama, onde pretendia passar o resto do dia. Que nada! Consciência é algo esquisito, incomoda. Às dez lá estava Luciana ao lado da dona Sebastiana, fingindo lágrimas.
- Nota de esclarecimento: O conto "O luto das dez horas" foi publicado no Notibras no dia 5/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-luto-das-dez-horas/









