quinta-feira, 30 de julho de 2026

A teoria dos Osvaldos

     

    Salete, língua ferina, não escolhia ouvidos para destilar veneno. Bastava oportunidade e desenrolava a língua, muito bem treinada por anos de prática.

        Churrasco na casa da dona Aurora, festeira das boas.

        — Mulher, tu por acaso sabe quem é aquele bonitão ali sentado?

        — Sei muito bem, Salete. É o novo namorado da Laurentina.

        — Sério?

        — Por quê? Tá interessada, é?

        — Hum! E eu sou lá mulher de dar trela pra qualquer um, Roberta?

        — Sei... Então, por que perguntou?

        — Melhor não falar, amiga. Você bem sabe que não sou de arrumar confusão.

        — Ih, Salete, para com isso. Se começou, tem que ir até o fim.

        As mulheres se entreolharam por um instante. Salete puxou o ar com força para ganhar fôlego e, em seguida, desandou a falar.

        — Pois tu acredita que ele já deu em cima de duas só nesses dez minutos que estamos aqui?

        — Hum! O Osvaldo?

        — E o nome do bofe é Osvaldo?

        — É. Por quê?

        — Já vi tudo!

        — Viu o quê, Salete?

        — Todo Osvaldo é safado. Nenhum presta.

        — Olha aqui, Salete, que história é essa? Meu avô se chama Osvaldo.

        — Hum... E ele nasceu antes ou depois de 1970?

        — Bem antes, né, Salete?

        — Ah, então, está explicado. O seu avô pertence aos Osvaldos antigos, quando ainda eram confiáveis. O problema é com a safra mais nova, esses que vieram depois de 1970. E ainda há os piores.

            — Piores?

            — Sim, Roberta. Os nascidos entre 1980 e 1990. E, olhando pra cara daquele ali... acho que 1985. São os piores dos piores, mulher.

        — Salete, fica quieta. A Laurentina está vindo pra cá.

        Foi o tempo para que as amigas se recompusessem e cumprimentassem a Laurentina.

        — Pensei que vocês não fossem vir.

        — Laurentina, e tu acha mesmo que a Roberta é de perder essa boca-livre da dona Aurora?

        — Eu? Tu que é uma esfomeada, Salete.

    Depois de alguns bons minutos de conversas e risadas entre as colegas, eis que a Laurentina quis porque quis apresentar o novo namorado para a Salete. Esta, por sua vez, encarou a Roberta, mas nada disse. E lá foram as três na direção do Osvaldo. Um tipão. Vesgo, é verdade, mas um tipão mesmo assim.

        Feitas as devidas apresentações, o quarteto de última hora engrenou num bate-papo descontraído até perto do final da confraternização. Laurentina, braços dados com o amado, foi embora, enquanto Salete e Roberta se prolongaram um pouco em despedidas com a anfitriã.

       Quase meia hora depois, as duas também saíram e, já na calçada, a Roberta não perdoou a amiga:

        — Nossa, tu é fofoqueira, hein, Salete!

           — E como sou! Adoro! 

        — Mas, Salete, e tu não tem vergonha de falar mal do Osvaldo?

        — Ah, e como eu ia lá saber que o sujeito tinha os olhos trocados?

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Duplamente enganado

  

    Nunca pensei em ter cachorro. Na verdade, quis ter um na infância, mas minha mãe insistia em dizer que daria trabalho e, no final, sobraria para ela tomar conta do animal. 

    — Todo mundo quer tudo, Luiz, e tudo sempre acaba nas minhas costas. Estou cansada. Se quiser bicho, que fique adulto primeiro pra você ver o que é bom pra tosse.

        Ganhei uma bicicleta, o que me distraiu até a chegada da puberdade, quando a atração por garotas se instalou quase que de repente. Laura foi a minha primeira paixão. Platônica, como tantas outras que se seguiram até que a Marcinha desvirginou meus lábios. Nada além de um selinho, mas que me fez sentir o rei do pedaço. 

        Alguns foras depois me arrancaram a aura de galã, algo que jamais tive. Seja como for, tive dois namoros sérios até entrar na faculdade. Nessa época, temendo ser reprovado em alguma matéria, fui um estudante tão aplicado que voltei aos amores ilusórios. 

        Foi na formatura que conheci Márcia, quer dizer, já a tinha visto duas ou três vezes, mas de relance. Mentira. Para que mentir quando sempre soube que passaria a vida inteira entre números e aquela mulher apaixonada por literatura? Ela, aliás, mesmo que naquele tempo ainda não soubesse, me impulsionou a caprichar no trabalho de conclusão de curso, pois eu não queria correr riscos de não terminar a faculdade de Matemática em 1977. 

        O início do namoro se deu por causa do meu grande amigo Paulo César, que fez as devidas apresentações e, em seguida, me deixou em um canto com a sua prima. O resultado é que tudo pareceu pelo avesso e voltei para casa cabisbaixo, certo de que Márcia havia me achado um completo idiota. 

        Dois meses. Foi esse o período em que precisei conviver com a certeza de que havia perdido a mulher que eu supunha ser aquela com quem eu passaria toda a minha vida. Estava duplamente enganado. E o primeiro erro se desfez no local do meu primeiro emprego: uma escola no meu bairro.

            — Luiz? Você por aqui?

            — Márcia!

            Ela era a nova professora de Literatura, enquanto eu estava fadado a ser o terror dos alunos avessos à Matemática. Tentei escolher as palavras para não colocar uma pá de cal sobre qualquer possibilidade de sair com Márcia, nem que fosse para tomarmos um sorvete na saída do trabalho. Talvez prevendo um quase certo desastre, Márcia se antecipou:

            — Luiz, que tal um cineminha?

            O cineminha aconteceu dois dias depois. A garota do adeus, com Paula McFadden e Richard Dreyfuss. Durante o filme, Márcia pousou a mão sobre a minha e, já nos créditos, me beijou.

            Daquele dia até o altar decorreram quase dez anos. E poderia ter sido mais tempo, caso a Márcia não tivesse feito o pedido formal durante uma tarde no sofá do meu apartamento, logo após declamar Drummond e Pessoa. 

            — E aí, senhor Luiz, que tal um casamentinho?

            Entre os padrinhos, estava o Paulo César. Já na igreja, antes da noiva chegar, o meu amigo e eu tivemos um breve interlúdio, cujas palavras até hoje me são tão caras:

            — Luiz, até que enfim você teve coragem de pedir a mão da Márcia em casamento.

            — Bem, na verdade, foi ela que pediu a minha.

            O Paulo César me fitou por um instante e soltou uma gargalhada, que chamou a atenção de algumas pessoas próximas. Ninguém, ainda bem, se mostrou suficientemente curioso para perguntar o que estávamos conversando.

               A lua de mel aconteceu em Petrópolis. Cinco dias de passeios e paixão verdadeira. Não que houvesse tantos segredos ainda a serem desvendados, porém algo mais poderoso pareceu se instalar de vez. 

                Os filhos, Laura, Rômulo e Helena, começaram a chegar, de dois em dois anos, a partir de 1989. Com a família aumentada e a correria do dia a dia, houve o afastamento natural entre Márcia e mim. Nada tão drástico a ponto de alguém desejar se separar, pelo menos tal pensamento jamais passou pela minha cabeça. 

                Já com os filhos criados, eles foram tomando caminhos diversos. Laura se tornou professora universitária, Rômulo entrou para o Banco do Brasil e Helena, muito melhor em números do que eu, conseguiu uma bolsa para estudar fora. Ficamos apenas a minha mulher e eu em casa. E tudo pareceu ganhar uma nova versão de algo que havíamos vivenciado na nossa juventude.

            — E aí, Luiz, que tal um namorinho?

          E lá estava eu nos braços da linda esposa. Não tive dúvida de que passaria o resto dos meus anos, que esperava serem muitos, ao seu lado. Pela segunda vez, estava enganado.

            — Você tem certeza?

            — Os exames estão aqui.

            — Não é possível, meu amor. Você está tão bem.

            — Acontece, Luiz. A Dra. Viviane me explicou.

        Fiquei sem chão ao ouvir a explicação da oncologista através da voz da minha esposa. Ela estava com câncer no pâncreas que já havia se espalhado. A Márcia nos deixou pouco antes do Natal passado.

        Viúvo aos 71 anos, saía pouco de casa, apenas o necessário. Recebia a visita da família e amigos. Um dos poucos que parecia me entender era o Paulo César. Passávamos tardes praticamente em silêncio, apesar das palavras de conforto do primo da Márcia.

        — Ela era incrível, Luiz.

        — E devo a você por ter me apresentado a ela.

        — É verdade, eu que apresentei vocês dois. E sabe o que eu fiz pra convencer a minha prima de te conhecer?

        — Não. O que foi?

        — Menti, Luiz, mas por uma boa causa.

        — Mentiu?

        — É. Disse que você era apaixonado por poesia.

        Paulo César e eu choramos abraçados e, antes do meu amigo ir embora, eu lhe disse:

        — Obrigado.

        — Fica bem, Luiz.

        Uma semana depois, o Paulo César me apareceu com uma caixa de sapato e, antes que eu pudesse questioná-lo sobre aquilo, algo se mexeu.

        — Luiz, o nome dela é Cecília Meireles, mas acho que vai acabar virando Ceci.

        Ceci, uma vira-lata malhada, passou a ser a minha companheira. A danada dá trabalho, porém me ajuda a sobreviver. Ontem mesmo, enquanto estava preparando uma xícara de café, olhei pela janela e notei que a minha cachorra estava entretida com algo na varanda. 

        — Ei, Ceci, o que você está mexendo aí?

    Ela virou a cabeça na minha direção e, em seguida, começou a pisotear e tentar abocanhar algo no piso. Curioso, peguei meus óculos e fui até a minha filha felpuda. Peguei-a no colo e, então, decifrei o motivo de tanta animação: uma formiga tão minúscula de dar dó. Por sorte, a miudinha conseguiu fugir pela beirada e se embrenhou no mato.  

        Agora sei o que é bom pra tosse. Obrigado, mamãe! 

terça-feira, 28 de julho de 2026

O último biscoito e o taciturno

  

       Humberto, gêmeo idêntico do Henrique, diferentemente do irmão, nasceu com a carranca da seriedade. Não que precisasse fazer esforço para tal, era algo intrínseco ao seu ser.

    Rabugento desde a tenra idade, Humberto não se enturmava. Já o Henrique, invariavelmente, comandava as brincadeiras. Tanto carisma, não havia quem resistisse àquelas bochechas fofas. Humberto, por sua vez, a tudo observava com o desdém que lhe era próprio. 

    — Henrique, meu lindo, os seus amiguinhos estão te chamando pra brincar na rua. 

    — Já tô indo, mamãe.

    — E você, Humberto, por que não vai com o seu irmão?

    O garoto nem se esforçava para dar uma desculpa. Era seco como canela de ema.

    — Não.

    Quando chegou a época dos namoros, todas as garotas cercavam o Henrique, o último biscoito do pacote. E até mesmo o Humberto, por mais cético que fosse, nunca duvidou dessa qualidade do irmão. Que ele namorasse todas, Humberto não se importava. Talvez um dia alguém se apaixonasse pelo macambúzio. 

    Na faculdade, conheceu Alice. Apaixonada por física quântica, a jovem sentiu atração quase instantânea pelo taciturno. Assim, Humberto se viu pela primeira vez na vida envolvido emocionalmente com alguém. E, por mais que pudesse parecer estranho aos olhos dos outros, aqueles dois se combinaram tão bem que, agora ambos formados e bem encaminhados profissionalmente, resolveram anunciar o noivado.

    A mãe do Humberto estranhou o fato e fez questão de demonstrar sua insatisfação:

    — Rubens, você ouviu o que o seu filho disse?

    — Qual deles, Marisa?

    — Ué, o Humberto!

    — Sobre o noivado com a Alice?

    — É!

    — E o que tem isso?

    — Rubens, o seu filho tem só 27 anos!

    — Hum... Meu amor, nós tínhamos 21 quando nos casamos. 

    — Outros tempos, Rubens. Outros tempos!

    Humberto e Alice viajaram e retornaram duas semanas depois. Pequena experiência para o casal ter certeza de que estavam prontos para o matrimônio. Dona Marisa foi buscar os pombinhos no aeroporto, quando constatou algo diferente no filho.

    — Humberto, o que é isso no seu rosto?

    — Ah, mãe, é um bigode. A Alice pediu e estou até gostando.

    — Humberto, pois eu acho que esse seu bigode te deixa muito sério.

    — Mãe, o nome que a senhora me deu me permite usá-lo sem cerimônias.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O detalhe da traição

    Há momentos em que palavras não são necessárias, desde que o indivíduo seja perspicaz. Atitudes, por mais sutis para olhos menos atentos, entregam sentimentos de maneira a não deixar qualquer dúvida de lado. 

    Joana e Guilherme, então noivos há quase dois anos, casamento marcado para o mês seguinte, pareciam nascidos um para o outro. O par perfeito, parentes e amigos afirmavam sem piscar. A mulher, até aquele momento, também não via razão para suspeitas sobre o enlace que a uniria ao amado até que a morte, decisão única e exclusiva de Deus, atingisse a um deles.

      Detalhe, mero detalhe que fez com que Joana tivesse real noção sobre a presença da deslealdade de Guilherme. Quem seria a usurpadora? 

        — Tem certeza, Joana?

        — Mamãe, não tem como eu estar enganada. Não depois do que o Guilherme acabou de me aprontar.

        — Mas, minha filha, ele acabou de sair daqui. E foi tão gentil com você, do mesmo jeito de sempre.

        — Cinismo, minha mãe, puro cinismo. 

        — Não é possível, Joana!

        — É porque a senhora não viu o que ele fez quando foi embora. Aquele ali não me engana mais.

        — E que diacho o Guilherme fez? Ele não te beijou?

        — Beijou, mamãe. E o cretino quase me enganou.

        — Como assim, Joana? Você quer me deixar maluca, é?

        — Mamãe, a senhora acredita que o sujeito soltou a minha mão depressa? Ele nunca fez isso. Ele enrabichou com outra. Ninguém me tira isso da cabeça. 

        Mesmo que Joana se sentisse coberta de razão, a noiva, aos trancos e barrancos, prosseguiu até o altar. Os pombinhos se casaram e, aparentemente, vivem uma vida tranquila. No entanto, isso não quer dizer que a mulher tenha esquecido o ocorrido. Ah, se ela soubesse que o Guilherme, naquele fatídico dia, simplesmente estava com dor de barriga...

domingo, 26 de julho de 2026

O infarto invisível

     

        Honorato, em outros tempos, havia sido admirado e até invejado por sua velocidade incomum no trabalho. Na repartição pública, onde fez carreira, era tratado como indispensável. Resolvia tudo ou quase; deixava as trocas de lâmpadas para quem de direito. 

      Aposentou-se aos 68, mas poderia tê-lo feito uma década antes. Precisavam dele, Honorato dizia. Não seria correto abandonar o barco e deixar os companheiros naufragarem em mar revolto.

        Os primeiros dias de aposentadoria soaram como afronta à dignidade humana. Qual seria o propósito de continuar usurpando o ar dos que continuavam na labuta? Larissa, a esposa, ainda tentou demover Honorato desse sentimento de culpa.

        — Meu bem, você já trabalhou demais a sua vida toda.

        — O que é um homem sem trabalho? Nada, Larissa. Nada!

        Em vez de aproveitar os momentos ao lado da mulher, dos filhos, dos netos, dos amigos, Honorato não permitiu que o sossego se aproximasse. E nada de viagens, algo que Larissa suplicava. O homem tinha o argumento na ponta da língua:

        — Não nasci turista, Larissa.

        Depois de cinco anos de reclamações do sujeito, ele testemunhou a morte da mulher. Infarto, atestou o médico; tristeza, Honorato não teve dúvida.

            Durante o velório, em pé ao lado do caixão, Honorato observou o rosto de Larissa. Como é bela! Teria ela sido feliz? Tentou buscar na memória dias em que os dois deram as mãos, seja no banco da praça, seja no cinema, seja até mesmo quando caminhavam na calçada. Nada! O sujeito, sempre apressado, era só reclamações.

        O homem, naquele exato instante, foi acometido de uma forte dor no peito. Tão intensa, imaginou que era a hora do reencontro com sua amada. Dor física, é verdade; porém, de fundo emocional.

        Honorato não relatou o ocorrido a ninguém. Se fosse morrer, que fosse em casa, livre de olhares penosos. Sentiria falta do mundo? Que mundo?

        A primeira noite sem a esposa pareceu infinita. Honorato, ardendo em febre, se deitou na cama, estendeu o braço sobre o lado vazio e se sentiu entregue ao próprio destino. Adormeceu com a certeza de que não abriria nunca mais os olhos.

        O homem sentiu os primeiros raios solares invadindo as frestas da cortina e repousando sobre a sua face. Abriu os olhos. Suado, lívido, solitário e surpreso por ainda estar vivo. Fitou o teto por um instante, tentando visualizar o rosto de Larissa. 

        Entediado, foi até a cozinha, preparou um café, encheu uma xícara e foi até a varanda. Sentou-se na cadeira de balanço. Um gole ligeiro, outro mais longo. Um joão-de-barro no jardim. Honorato conhecia a espécie, mas jamais havia notado seu canto. Apaixonou-se. 

sábado, 25 de julho de 2026

Encrenca entre amigos

    

    Domingo, dia de esticar o sono até mais tarde. Que nada! Cris cutucou o marido, que não teve escolha.

    — Gilmarildo, acorda! Num vai sair com as crianças? Já tá na hora.

    Sem poder de fala, Gilmarildo tratou de se levantar antes que a bronca e o peteleco certeiro na orelha chegassem sem aviso. Foi ao banheiro jogar água gelada no rosto. Olhou o reflexo do outro lado do espelho e, quase mudo, disse: "Vamos, meu amigo, antes que as crianças fiquem impacientes."

        Gilmarildo foi até a sala, pegou as guias penduradas atrás da porta e chamou a garotada:

        — Tina! Caetano! Leleco! Vamos sair com o papai.

        Já na calçada, o homem, contagiado pelo calor suave e a euforia dos cães, começou a se sentir melhor. Até resolveu esticar a caminhada até a Banca do Guima, amigo de longa data. O percurso era longo, mas ele poderia, assim que chegasse ao destino, comprar água para os meninos e um picolé de uva para ele. Talvez dois. Que a dieta fosse empurrada com a barriga para a próxima semana. Dito e feito.

        — E aí, Guima, como andam as coisas? Tem alguma história nova? Olha que o Edu vive me cobrando. Você sabe como é, meu camarada, vida de escritor não é fácil.

            — Fala, Gilmarildo! Hoje trouxe a garotada toda, né?! Quanto às histórias, deixa estar que daqui a pouco aparece uma.

            — Pois é! A Cris acordou de pá virada e já me expulsou do berço. 

            Gilmarildo pediu três garrafinhas de água mineral para os cães e um picolé para ele. Mais um picolé de uva e, não resistindo, pediu outro. Depois da prosa, a hora de retornar ao lar, doce lar havia chegado. Gilmarildo, então, perguntou quanto devia. No entanto, assim que ouviu o preço, percebeu o aumento de um real e cinquenta centavos.

            — Guima, acho que você errou na conta.

            — Não errei. É que a água agora custa três reais e cinquenta.

            — O quê? E quem foi que te autorizou a aumentar o preço? Vou fazer uma reclamação ao seu patrão.

            — Hum! Gilmarildo, a banca é minha, né!?

            — Mas, Guima, a água na Banca do Robert custa três.

          Guima achou graça da reclamação do amigo e, brincalhão que era, sacou seu aparelho celular, tirou uma fotografia do Gilmarildo, em seguida, a encaminhou ao Robert com o seguinte áudio: "Olha o que você me arrumou, Robert. Estou com esse elemento aqui no meu estabelecimento. E ele está reclamando do preço da água mineral. Então, faça-me o favor de aumentar o preço da sua água para que possamos manter a nossa amizade."

            Gilmarildo, que não gostava de perder uma piada, tratou de fingir insatisfação.

            — Olha aqui, Guima, vou tacar um processo nas suas costas. Você vai acabar tendo que vender essa sua espelunca pra me indenizar. E olha que periga nem conseguir. Não duvido que vai ficar só de cueca.

            Como o movimento na banca era praticamente nenhum àquela hora, eis que o Guima, sorrindo mais do que a boca cheia de dentes, não perdeu a oportunidade de continuar a brincadeira.

            — Tu é um falastrão, meu querido Gilmarildo. Mais provável você virar meu empregado pra pagar as custas do processo.

                Entre risos, gargalhadas e gozações, isso tudo chamou a atenção do Santana, afamado policial por tantas atrapalhadas na delegacia da área. O sujeito coçou a barriga enorme, cofiou o bigodão, passou as mãos na calva e se aproximou para dar um fim naquela algazarra. 

            — Ei, vocês dois aí! Posso saber o que está acontecendo aqui?

            Nisso, o Guima tentou explicar que aquilo tudo não passava de uma brincadeira entre amigos. 

            — Não tá acontecendo nada, não, seu guarda.

            Pra quê? Uma coisa que deixava o agente possesso era ser chamado de guarda. O gorducho não teve dúvida. Deu voz de prisão aos dois homens e, para completar a pantomima, levou até os cachorros para a delegacia. 

              Por sorte do Gilmarildo e do Guima, o delegado de plantão era o Rupereta, amigo de longa data dos dois. Os três costumavam se reunir com o Ricky Ricardo, outro policial, e jogar biriba e tomar algumas cachaças. Desse modo, sobrou para o Santana, que tomou aquela bronca.

                Quando os amigos foram liberados da delegacia, eis que o Guima se virou para o Gilmarildo e mandou essa:

            — Num te falei, Gilmarildo?

            — Falou o quê, Guima?

            — As histórias pro Edu escrever. Uma hora aparece. E essa apareceu rapidinho.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O peso da consciência

       

        Ernesto e Augusto, amigos há tanto tempo, agora no crepúsculo da existência, insistem em manter o hábito dos encontros às terças e quintas-feiras. Os dois precisam enfrentar a artrite para se deslocarem até a padaria do velho Manoel, português radicado no Brasil quando as liberdades eram desprovidas de asas. 

          — Ando sem apetite.

          — Velhice é assim, Augusto.

          — Como assim?

          — Sem apetite. Juventude é que é gulosa.

          — É verdade. Nunca havia pensado por esse ângulo. Queria eu ter o apetite dos meus trinta. Falta-me ânimo para tantas coisas, meu amigo. Até mesmo para devorar uma coxinha, mas nem me atrevo. Capaz do meu estômago me processar.

          — Capaz, Augusto. Capaz. 

          Os dois homens são compelidos a mais um gole no café. Observam o movimento na padaria, praticamente os mesmos clientes de ontem, de sempre.

          — A moral às vezes atrapalha.

          — O que você disse, Ernesto?

          — A moral, meu amigo. A moral. Essa coisa que fica à espreita e não perde a oportunidade de entornar o caldo.

          — Não estou te entendendo. 

          — Olha, Augusto, veja esse caso. Aconteceu há poucos dias, sexta-feira passada. Minha nora, a Gláucia, você a conhece.

          — Sim, sim, conheço a Gláucia, esposa do Rubens.

          — Pois a Gláucia, mulher do meu filho... Descobri que... Situação complicada, tudo por causa dessa maldita moral, que me cobra atitude nesta altura da vida. Minha nora trai o meu filho. E agora? 

          — Complicado, meu amigo. Muito complicado.

          — Melhor seria não ter visto. Pior de tudo é que ela me viu também. E, desde então, vivo num impasse, Augusto. Devo eu contar o que sei pro meu filho ou, então, guardar o segredo da minha nora para salvaguardar os que amo?

          — Nem sei o que eu faria no seu caso, meu amigo. Decisão complicada.

          — Pois é, Augusto, mas tenho relutado em atender aos chamados insistentes dessa tal moralidade. E é isso que tem mantido a paz da minha família.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Passos e descompassos

  

    Lorena e Miguel, a princípio um casal improvável, se esbarraram em uma roda de samba no Bar do Bosco. Ela, um tanto exuberante, parecia mais interessada nos bambas do local. Já o sujeito, cuja barriga proeminente o fazia se encolher em timidez, preferia se ater a olhares sobre aquela gente.

    Coube à bonitona a iniciativa, mesmo que, caso lhe fosse perguntado, era provável que ela não soubesse apontar o motivo. Combinações esdrúxulas que aparentemente não se encaixam.

    — Tu dança ou só fica com o traseiro colado na cadeira?

    Miguel, que se confundia com os próprios pés, sorriu. Nisso, foi puxado pela mão.

     — Vem, que te ensino a requebrar gostoso.

        E lá foi o homem sem jeito para a coisa. Não se saiu tão mal, pelo menos aos olhos interessados da Lorena. Depois de alguns passos e descompassos, além de vários goles de cerveja, os dois terminaram na cama. E foi assim que o romance se iniciou.

        Dois anos de amor regado a pagode, cerveja, suor e beijos ardentes sob lençóis indiscretos. Aquela paixão fogosa, sem amarras, como se o amanhã fosse mera ilusão. Tanta felicidade, que ninguém poderia supor o que estava por vir.

            Aconteceu em uma noite de sexta-feira, perto das dez horas. O samba rolava solto no Bar do Bosco, o casal ainda no lar, doce lar.

        — Ué, Miguel, tu ainda não tá pronto?

        — Ah, meu amor, hoje não tô a fim. Acho que tô com indisposição.

        — Indisposição? Tu tá doente ou o quê?

        — Num sei. Só não tô a fim mesmo.

        Nada no sábado também. Domingo, então, era dia de recolher os atrevimentos para suportar a labuta da semana. Mas o pior mesmo foi a avalanche de críticas que o Miguel começou a derramar sobre a companheira.

        — Lorena, tu precisa mesmo usar essa saia? E pra que tanta tinta na cara? Cerveja também não é legal. E esse samba... Ih, isso é coisa que não presta!

            Lorena, olhos sem aquele sorriso costumeiro, foi trabalhar na segunda-feira. Quem logo percebeu a carranca no rosto da jovem foi a Shirley, prima e colega na empresa. 

            — O que foi, mulher? Que cara de coxinha sem catupiry é essa?

            — Ah, Shirley, nem te conto.

            — Pois conte, que tu sabe que sou da fofoca.

            — É o Miguel. Acho que ele arrumou outra.

             — Outra? Duvido! O problema do seu homem é muito pior, Lorena.

            — Pior?

            — É! Pensei que tu já estava sabendo.

            — Sabendo o quê, mulher?

            — O seu Miguel virou crente.

            Lorena quase caiu dura. 

            — O quê? Não pode ser! O meu Miguel?

            — Sim, amiga. O seu Miguel.

           — Eita! Agora que a coisa complicou de vez. Com mulher até que dá pra competir, mas com Jesus... Ih, assim nem tem competição. 

            E foi assim que o romance terminou. Cada um seguiu seu caminho e, apesar de tudo, dizem que ainda se falam quando se esbarram na calçada.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Dois chopes e uma teoria

    

    Dois escritores, depois de algumas doses extras, pareceram se travestir de filósofos. O mais novo, um tanto quanto despojado, virou-se para o colega e, sorriso nos lábios, disparou:

      — Pois é, meu amigo, crônica é povo.

        — Hum?

        — E mais! Não só crônica, é pedagogia e até cotidiano.

        Para não parecer idiota, o segundo concordou com a cabeça. O outro prosseguiu:

        — Povo é espaço coletivo da práxis ainda não instrumentalizada. Digo mais, meu querido! Sem povo não há crônica nem haveria motivo para a sua existência. Desse modo, você e eu estaríamos sem ofício.

        — É verdade. Você está coberto de razão.

        — Talvez seja exagero da minha parte, meu amigo. 

        Os dois homens se entreolharam por um instante até que o mais jovem ergueu o indicador e, em tom um pouco mais elevado, chamou o garçom:

        — Ei, chefe, desce mais um. Dois! O copo do meu amigo secou.

        O companheiro agradeceu com os olhos, quase ao mesmo tempo em que o outro continuou:

        — Povo, meu amigo, povo cria e não registra direito autoral. Povo sabe das coisas, já socializa na fonte.

        O garçom traz os dois chopes, os amigos brindam, um gole a mais. O mais jovem se sente compelido a continuar:

        — O capitalismo, meu camarada... O capitalismo, em dado momento... O capitalismo registra propriedade e até distribui sustentos filosóficos e narcísicos.

        O mais velho, confuso, buscou expressões inexistentes na face para tentar acompanhar o raciocínio do colega erudito, que não parava de destilar palavras.

        — Pois é, meu amigo... Narcísicos! Mas vida que segue lenta no seu leito e, nem por isso, antirrevolucionária, pois conta com a força da arte, essa tal categoria do imaginário humano da qual você e eu também fazemos parte.

        Mais um brinde, outro gole. Enquanto houver ócio, a filosofia estará por aí. Quanto às crônicas, só enquanto existir povo. Aqueles tipos, mentes inquietas, pediram a conta e, cambaleantes, se embrenharam pelas ruas da cidade, que adormecia.