Apaixonado por Lindalva
desde que lhe pousou os olhos, Josenildo tinha como certo o enlace assim que a
moçoila resolvesse a pendenga com o ex-marido. Por sorte, o divórcio caminhava,
dentro do possível, para desenlace amigável. Isso apesar das traições de ambos
os lados, conforme havia sido amplamente divulgado pela rádio comunitária, a
implacável rede de fofocas.
Após cortejar
Lindalva por praticamente todo o inverso, eis que, assim que a primavera
apontou no horizonte, a mulher foi se enamorar por Rosinaldo, cuja
profissão era de confeiteiro, mas que era afamado por tocar sanfona que nem
Januário. E as sortudas que conheciam o gajo na intimidade faziam questão de
alardear que o que ele fazia com um acordeon nem de longe se comparava aos
atributos pessoais.
Josenildo,
em vez de guardar a frustração para si, quis dar um fim no seu adversário, com
quem era incapaz de disputar na arte do amor. Tratou de armar uma arapuca para
Rosinaldo, que vivia entre bolos, a sanfona e, naqueles idos, as coxas roliças
de Lindalva. Sem desconfiar do destino que lhe aguardava, o músico foi salvo
pela perspicácia da amada, que sentiu algo estranho no ar.
— Não vá agora, meu
amor. Fique mais um pouco, que lhe prometo o que você me pede há dias.
— Jura?
— Não juro porque jurar é
pecado.
— E como vou acreditar?
— E eu sou lá mulher
de mentir por coisa tão séria?
— Pois eu acredito, minha flor!
— Mas aguarde aqui um instante, que vou
me preparar. Troquei o lençol hoje e não quero correr risco.
Enquanto o namorado espeerava a amada, ela
fingiu que entrou no banheiro, saiu pela porta dos fundos, pegou um porrete,
rodeou a casa e acertou a cabeça do Josenildo, que, faca na mão, estava de
tocaia à espera do Rosinaldo. E a pancada foi tão certeira, que o arapuqueiro
nem ouviu os gemidos que vieram do quarto enquanto a promessa era
cumprida.
Já na manhã seguinte, assim que
despertou, Lindalva foi conferir se Josenildo estava morto ou desmaiado. Mal
abriu a porta quando se deparou com uma poça de sangue seca no cimento grosso
da entrada. No entanto, nem sinal do homem ou, então, do que havia sobrado
dele. Só dois dias depois que a dona da casa encontrou o tratante, uma
montoeira de pontos no cocuruto, sentado no banco da praça. Foi só o gajo olhar
para ela e já se encolheu igual minhoca.
Os dias se acumularam e viraram semanas,
que foram se ajuntando até somarem uma carrada de meses e, não tardou, Lindalva
e Rosinaldo completaram um ano de enlace. E partiu da mulher a ideia de fazerem
uma viagem para comemorar aquele feito, que nem eles acreditavam que
alcançariam.
— E pra onde, minha linda?
— Num sei ainda, mas quero ir pra um
lugar bonito.
— E a nossa Luziânia não é o lugar mais
lindo do planeta Goiás?
— Deixa de ser abestado, Rosinaldo. E
desde quando Goiás é planeta?
— E eu não sei? Tô brincando.
— Então?
— Então o quê, minha flor?
— Vamos?
— Se tu vai, vou eu junto.
O casal, após quase dois dias de
propostas inviáveis, entre as quais Paris, Roma e Manaus, optaram pela Chapada
dos Veadeiros, onde alugaram um bangalô. E, na semana seguinte, os pombinhos
colocaram o mínimo possível dentro do Fusca e pegaram a estrada.
Chegaram para o almoço e, após darem um passeio
pelo povoado, retornaram para o aconchego, pois, segundo Lindalva gostava de
falar, Rosinaldo precisava fazer uma apresentação de gala, com direito a bis,
sob os lençóis.
Acordaram esfomeados e, após um breve
repeteco para aumentar ainda mais o apetite, tomaram banho e foram tomar o
delicioso café da manhã. Como pretendiam passar o dia em uma das belas
cachoeiras do parque, capricharam na quantidade, mas sem se
empanturrarem.
Mochilas nas costas, lá foram Lindalva e Rosinaldo,
mãos dadas, descobrirem as maravilhas do local. E o tempo parecia estar a favor
dos dois, pois não estava nem quente nem frio, e, ainda por cima, soprava uma
agradável brisa que parecia acariciar aqueles rostos felizes. Mal sabiam eles
que dois olhos traiçoeiros os espreitavam atrás dos arbustos e troncos
retorcidos pelo caminho.
Josenildo, o próprio, cujo rancor
ainda o consumia, havia seguido os enamorados. E se a aquilo teria iniciado por
amor, já há algum tempo só restava o desejo pelo caos. E foi esse irresistível
sentimento que impulsionou o gajo a ir atrás de vingança.
Os apaixonados, de vez em
quando, paravam para se hidratar e, como no local só havia beleza e nem sinal
de gente, aproveitavam para beijos ardentes. E foi justamente num desses
momentos em que Josenildo, escondido atrás de uma enorme pedra, sentiu uma dor
intensa em sua mão. Assustado, viu um escorpião ao seu lado, provável culpado.
Quis gritar, mas mordeu o local da picada para aplacar a dor e conter o som que
queria sair pela garganta.
Picadas de escorpião são realmente
dolorosas e, apesar de perigosas, geralmente não são fatais, a não ser em
crianças, animais pequenos e adultos que sejam alérgicos. Bem, parece que este
era o caso do Josenildo, que, não tardou, caiu duro e, por dias, ficou ali
servindo de alimento para a rica fauna do Cerrado: urubus, carcarás, larvas de
moscas, besouros e até mesmo um simpático tatu.
Com
os dias, Josenildo virou só esqueleto, cujos ossos foram espalhados por toda a
região. E hoje, já se passados mais de 15 anos do ocorrido, não raro, algum
trilheiro encontra uma costela ou fragmento, mas logo descarta, imaginando se
tratar parte de restos de queixada ou caititu.
Bem, e é assim
que as coisas aconteceram ou não, ao menos, é de como me lembro de ter ouvido
em uma conversa ao redor de uma fogueira em São Jorge. Quanto à Lindalva e ao
Rosinaldo, dizem que ainda vivem em Luziânia e, ao que tudo indica, muito
apaixonados.
- Nota de esclarecimento: O conto "O triste fim do preterido de Lindalva" foi publicado no Notibras no dia 22/2/2026,
- https://www.notibras.com/site/o-triste-fim-do-preterido-de-lindalva/








