Não estou aqui para
falar do Botafogo, apesar da minha paixão descontrolada e insana. O mote da
conversa é outro. Dona Carolina, mãe da minha mãe, possuía um tipo raro de
personalidade dominadora, o que era nítido em relação ao primogênito, tio
Rubens, um bobalhão como tantos outros homens. E não pense você que me excluo
dessa lista, diria até que poderia, sem resquício de modéstia, encabeçá-la.
Certa
feita, quando tio Rubens não passava de um molecote dos seus 12, 13 anos, ele
tomou uma surra no pátio da escola. A coisa tomou proporções muito maiores do
que deveria, e não pense você que tenha sido por conta do olho roxo e do brio
quebrado. Na verdade, tal situação nunca pareceu relevante para o irmão de
mamãe. A questão era outra.
Armando, o rival do meu tio, era, segundo boato à época, fruto de enlace entre
meu avô e a esposa do seu sócio na loja de material de construção. Se era
verdade ou não, não importava, já que um detalhe não passou despercebido por
dona Carolina: aqueles olhos, ora verdes, ora azuis, do garoto. E o que era
dúvida se transformou em fato.
Devido à proximidade dos sócios, almoços nos finais de semana aconteciam com
frequência muito maiores do que vovó desejava. Todavia, para não provocar
imbróglios desnecessários, ela fingia engolir o orgulho e, não raro, fazia
questão de preparar mosaico de gelatina com creme de leite, uma de suas
especialidades.
Dona Carolina, o marido, os filhos, Alberto, Lúcia e Armando, todos
sentados à mesa, conversavam trivialidades. Quer dizer, os adultos se
manifestavam, enquanto as crianças disputavam cada porção da sobremesa
colorida. Minha avó, não duvido, desejava não somente envenenar o fruto
proibido, mas principalmente pular no pescoço da amante do marido. Será que
ninguém percebia tamanha semelhança entre o anfitrião e o algoz de tio Rubens?
Vovó, quanto mais injuriada se sentia, mais tratava de manter a calma para não
ser acusada de louca. Que os devaneios permanecessem incrustados nos outros, já
que a racionalidade lhe pertencia. E foi justamente naquele domingo, enquanto o
marido fingia interesse na conversa com o sócio, mas trocava olhares suspeitos
com a amante, que dona Carolina desvendou o caminho a ser tomado.
Em vez de destilar ódio, minha avó passou a tratar Armando como se ele
tivesse saído de seu ventre. Melhor, pois jamais havia demonstrado tamanha
devoção aos filhos. E todos, com exceção de Alberto, notaram, de alguma forma,
aquele carinho desmedido de dona Carolina por Armando.
— Meu amor, não acha que está exagerando?
— Exagerando? Como assim, Rubens?
— Esse seu paparico com o filho do Alberto e da Lúcia.
— Ah, que menino maravilhoso! E como deixar de me apaixonar
por aqueles olhos?
Não sei se meu avô percebeu a indireta, até porque ele
fazia parte do balaio de homens da família. Já mamãe, talvez mais preocupadas
com os rapazes que a cortejavam, não demonstrava interesse quanto aos afagos
direcionados ao filho do sócio do pai. Até mesmo tio Rubens parecia ter se
esquecido dos tabefes que havia levado e, não tardou, firmou amizade
aparentemente sincera com Armando.
Quem pareceu não engolir aquela história era Lúcia, cujo
semblante se mostrava cada vez mais consternado. Aposto que, na intimidade
proibida, destilava ódio contra a minha avó.
— Rubens, você precisa dar um jeito na víbora da sua
mulher.
— Como assim, Lúcia?
— Ela sabe! Ela sabe!
— Do que você está falando?
— Aquela megera sabe, Rubens! Ela sabe!
— Sabe o quê, meu amor?
— Tudo! Até as vírgulas, Rubens!
Para colocar mais fogo na fogueira, dona Carolina
encontrou uma mulher, digamos, disposta a entrar no jogo em troca de generosa
remuneração. Gláucia, era esse seu nome, foi apresentada como prima distante de
minha avó. Uma versão menos glamourosa de Tônia Carrero, mas suficientemente
misteriosa para atrair a atenção de Alberto. Bem, esse era o plano inicial, mas
o inesperado aconteceu.
O marido de Lúcia, apesar de não ser cego, só tinha
olhos para a esposa. Desse modo, o investimento de dona Carolina parecia
perdido até que ela constatou que Rubens havia sido fisgado. Vovó fez breve
balanço da situação e, após calcular lucros e prejuízos, apostou as fichas
restantes no romance entre o próprio esposo e a bonitona de bolsa
giratória.
Lúcia, que de boba nada tinha, percebeu que estava
dividindo o amante com outra. Pra quê? Além de terminar o relacionamento
extraconjugal, obrigou o marido a desfazer a sociedade e, em seguida, a família
partiu para outra cidade. E foi assim que vovó se livrou da amante do meu avô e
do suposto fruto de adultério.
Quanto à Gláucia, após algumas semanas, já devidamente
remunerada, foi convencida por minha avó a ir embora, levando consigo o
segredo. Isso não impediu que, vez ou outra, meu avô perguntasse sobre a prima
da esposa, que sustentou a história até o último suspiro. Afinal, como dona
Carolina costumava dizer, melhor cair do cavalo a cair em contradição.
- Nota de esclarecimento: O conto "A sobremesa da discórdia" foi publicado no Notibras no dia 11/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/a-sobremesa-da-discordia/












