Olhos fixos em algum volume de Machado,
Dostoiévski ou Nietzsche, às vezes arriscando escritores recentes, dona
Chiquitota, por detrás das grossas lentes dos óculos de armação de acrílico,
que algum observador menos atento poderia supor de casco de tartaruga, fingia
interesse pela leitura. Não que os autores não merecessem e tivessem o apreço
da mulher, mas o coração, ah, esse maldito revelador dos sentimentos mais
escamoteados, palpitava em lágrimas.
Não pense você que lhe faltassem
desafetos à espreita. Ao menor deslize, saltariam que nem abutres sobre a
carcaça da velha. Isso caso não lhes faltasse algo: coragem. Sem contar a
imutável expressão de paisagem que se instalava na cara da dona Chiquitota
sempre que o Glorioso sofria qualquer revés, por menos relevante que fosse.
Como chamar para luta criatura que aparentava já ter travado todas as batalhas?
A mulher, no
entanto, nem sempre fora assim, e o motivo da virada de chave aconteceu no
fatídico nove de maio de 1976, quando o Botafogo enfrentou o Vasco da Gama no
Maracanã. O time da dona Chiquitota abriu o placar, mas o Gigante da Colina
virou, dois gols do artilheiro Roberto Dinamite, com direito a deixar os
torcedores dos dois times boquiabertos com a maior pintura já protagonizada nos
gramados, isso aos 45 minutos da etapa final. Matada no peito, chapéu no
zagueiro Osmar Guarnelli e, de voleio, pimba, sem qualquer chance para o excelente
arqueiro Wendell.
A então jovem e
apaixonada Chiquitota, que ainda não ostentava o título de dona, quase enfartou
de desgosto. Os pais, desenganados, imaginaram que a filha não resistiria e até
chamaram o padre Alfredo às pressas. Não se sabe se foram as rezas ou a
sapiência que se apoderou da moça, o certo é que ela apresentou melhoras significativas
já na manhã seguinte. Tanto é que teve disposição para se casar no final
daquele mesmo ano, com direito à lua de mel prolongada por quase duas semanas
em Salvador.
A botafoguense, em 1980, ganhou os
gêmeos Nilton e Manoel, que naturalmente cresceram alvinegros. Pouco mais de 30
anos depois, os dois tiveram seus filhos, sendo Gerson e Waldir do Nilton,
enquanto Manoel teve a felicidade de carregar no colo a pequena Sonja.
Por coincidência ou algum evento que só
acontece ao time da Estrela Solitária, todos os netos de dona Chiquitota
seguiram o caminho da avenida Venceslau Brás, 72. E o seguinte interlúdio
aconteceu na varanda do apartamento da dona Maricota, localizado ali no início
da Asa Norte, em Brasília, com vista privilegiada para o estádio Mané
Garrincha.
— Vovó, a senhora não fica triste quando
o Botafogo perde?
— Sonja, vou te contar um segredo.
Então, meninos, cheguem mais perto, que não quero que seus pais ouçam. E vocês
não podem dar com a língua nos dentes. Combinado?
Obviamente que os três concordaram.
— Olha, aprendi há muito tempo que não posso me emocionar muito. Então, faço assim pra não sofrer. Quando o Botafogo ganha, fico feliz, mas quando perde, ih, esqueço. Mas, na verdade verdadeira, é tudo fingimento.
- Nota de esclarecimento: O conto "Crime, castigo e escanteio" foi publicado no Notibras no dia 24/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/crime-castigo-e-escanteio/











