Agnaldo
acordou. Olhou para o lado, Lúcia continuava dormindo, rosto sereno, como
se todas as preocupações estivessem camufladas debaixo do tapete. Quis se
levantar, mas receou interromper os sonhos da mulher, que era sensível ao
mínimo barulho.
Cinquenta e nove
anos. Uma longa estrada, o homem pensou. E lembrou-se de que, quando jovem,
tinha certeza de que não chegaria aos trinta e seis.
Bexiga cheia, Agnaldo
buscou uma posição mais confortável. Foi o suficiente para Lúcia abrir os
olhos, a voz carregada de uma preguiça de domingo.
— Feliz
aniversário, meu amor.
— Te amo.
Beijaram-se
brevemente. Finalmente, ele se levantou e foi se aliviar. Lavou o rosto, fez
caretas em frente ao espelho, buscou as rugas acumuladas. Como envelhecera!
Cinquenta e nove anos. Muito além dos trinta e seis.
Enquanto tomava
café, o casal tentava planos para sair da rotina.
— Que tal um
cineminha?
— Pode ser.
— Agnaldo, se
você não quiser, não precisa fazer nada forçado.
— Não.
— Não quer?
— Pode ser.
— Hum...
— Qual filme está
passando?
— Vou ver.
Depois de breve
busca na internet, Lúcia respondeu:
— Velhos
bandidos.
— É sobre o quê?
— Olha, é com a
Fernanda Montenegro e o Ary Fontoura.
Agnaldo pareceu
algo animado. Almoçariam em algum restaurante próximo ao cinema. Comida leve,
precisariam guardar espaço para a pipoca.
Deram boas
gargalhadas com o filme. Comédia. Voltaram para o apartamento, tomaram banho
juntos.
— Pois é, Lúcia,
estou quase idoso. Daqui a um ano terei sessenta. Acredita?
— É verdade, meu
amor. E aí?
— Estou pensando,
Lúcia...
— No quê?
— Será que dá pra antecipar a minha inscrição?
- Nota de esclarecimento: O conto "Velhos bandidos" foi publicado no Notibras no dia 15/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/velhos-bandidos/









