Divorciada duas vezes, preferiu deixar as coisas do
coração para os volumes de Álvares de Azevedo que costumava folhear enquanto
saboreava chá com torradas na sacada do apartamento com vista para o Lago
Paranoá. Nessas ocasiões, binóculo à mão, atrevia-se a se inteirar dos
acontecimentos até onde a visão alcançava. E foi assim que ela notou pela
primeira vez aquele homem, que parecia aborrecido enquanto passeava com o
cachorro miúdo, desses peludos, que há tempos roubaram a preferência por
poodles e pequineses.
Carla levou uma torrada aos lábios e a mordiscou,
enquanto pensamentos levaram esperanças ao coração. Quer dizer, não é
necessário florear sentimentos, estamos entre adultos. A mulher desejou aquele
tipo. Ela o acompanhou por dias, praticamente no mesmo horário, o trajeto quase
idêntico, como se tentando adivinhar os passos do dia anterior.
Despida de acanhamento, Carla, depois de constatar a
perenidade de comportamento do passeador de cachorro, sentou-se
estrategicamente no banco em frente à calçada. Não tardou, lá estava o
pequenino felpudo ao lado do bonitão. Mais alguns passos da dupla, a mulher,
cheia de propósitos, puxou conversa.
— Boa tarde! Qual é a raça?
— Hum... Shih Tzu.
— Lindo cachorro. Parabéns.
— Obrigado. Na verdade, não é meu?
— Não?
— A minha esposa comprou pra minha filha. É da nossa filha.
Quer dizer, hoje nem sei mais se é.
— Não?
— É que ela não passeia mais com a Lilica.
— Lilica?
— É. Foi a minha filha que colocou esse nome.
Carla sorriu seu melhor sorriso, levantou-se e,
olhando dentro dos olhos do gajo, estendeu a mão.
— Carla.
— Ah, eu sou o Rubens.
— Prazer, Rubens. Adorei a sua Lilica. Espero
vê-la outras vezes. Até qualquer hora.
Carla se virou e seguiu em direção ao seu edifício, certa que estava
sendo acompanhada pelo olhar do dono da Lilica.
Três dias depois, tempo suficiente para fazer com que homens
mantenham o foco sem perder o desejo, Carla se fez presente no mesmo banco. A
conversa se desenrolou com mais desenvoltura, o que não impediu Rubens de olhar
por cima dos ombros em direção ao apartamento. Ela sabia que o sujeito temia
ser descoberto pela esposa, o que a deixou ainda mais desejosa.
Trocaram telefones. Enquanto Rubens tinha como certo novos
encontros, Carla já havia traçado mentalmente o que iria acontecer. Três dias
após, tomado de desejo, Rubens enviou uma mensagem pelo celular.
"Oi!"
Carla
percebeu, mas fingiu ignorar. Ele insistiu.
"Oi! É o Rubens
da Lilica. A cachorra."
Carla achou graça da própria maldade, como se fosse
espectadora e diretora daquele roteiro, prestes a se transformar em um filme
tragicômico. A mulher fez questão de não responder. Permaneceu muda, a despeito
das inúmeras mensagens, cada vez mais frequentes.
Mais três dias, Carla se sentou no mesmo banco, pois sabia
que Rubens logo apareceria. Dessa vez, ela levou um exemplar de A verdade
nos seres, de Daniel Marchi. Ela admirava o autor, mas, naquela ocasião,
ela preferiu se ater às entrelinhas do relacionamento que estava a
caminho.
— Oi, Carla! Mandei mensagem pra você,
mas acho que anotei errado o seu número.
— Oi. Sério? Deixe-me ver. Ih, é
verdade! Ando tão ocupada, que você nem imagina. Você acredita que até a minha
mãe anda reclamando?
— Muito
trabalho?
— Ih!
Demais!
— E esse
livro? É sobre o quê?
— Poemas.
Faz o seu tipo?
— Sim.
Gosto muito de poesia, de Drummond, Vinicius, Cecília...
— Também,
mas tenho buscado novas experiências. Você deveria tentar também. Afinal, uma
vida sem poesia é muito monótona. Você não acha, Rubens?
O homem ficou ali parado, não
soube dizer palavras, mas seu coração o entregou. Ele baixou os olhos tentando
esconder os sentimentos. Pobre Rubens, já não tinha como escapar. Fora fisgado.
—
Bem, Rubens, preciso ir. Mas vamos nos falando por mensagens.
Carla se levantou,
estendeu a mão, que Rubens tocou com sofreguidão. Ela se virou e caminhou em
direção à portaria do prédio. Não foi preciso virar o rosto para conferir se o
sujeito a estava acompanhando com os olhos. A mulher não teve sombra de
dúvida.
Naquele
mesmo dia, quando a noite avançava, Carla, já deitada, folheava o poeta Daniel
Marchi, quando percebeu a luz do aparelho celular acender. Mensagem do Rubens.
Ela terminou de ler o poema e, sem pressa, verificou.
"Oi! Tudo
bem?"
Ela percebeu o horário, 23h32. Achou curiosa a posição dos dígitos
e respondeu.
"Oi."
Do outro lado, Rubens foi tomado por um turbilhão de emoções. Olhou
ao lado, confirmou que a esposa ainda dormia, levantou-se como um felino e se
dirigiu à sala.
"Tudo bem?"
"Sim. Cadê sua
mulher?"
"Dormindo."
"Hum."
"Tenho pensado
direto em você."
"Sério?"
"Sim!!!"
"Sua mulher sabe
disso?"
"Tá maluca? Se
ela souber, me mata."
"Não tem medo de
morrer?"
"O risco vale a
pena."
"Você é
maluco."
Se
Rubens era ou não maluco, Carla não se importava. Ela deu corda o suficiente
para que o sujeito estivesse tão emaranhado, que não teria como escapar. E o
primeiro encontro aconteceu no dia seguinte. Breve, é verdade, no apartamento
da Carla, enquanto a peludinha Lilica, confortavelmente acomodada no sofá da
sala, fingia não escutar os gemidos vindos do quarto ao lado.
Passados quase seis meses, os enamorados continuam firmes. Quer dizer, Rubens andou pensando em separação da esposa, mas Carla foi terminantemente contra. Ela não é uma destruidora de lares. Ademais, quando quer um pouco de romantismo, prefere se deitar com velhos conhecidos como Drummond, Vinicius, Cecília, além, é claro, do Marchi, tão provocador. De resto, homens dão trabalho demais!
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre chá, torradas e poesias" foi publicado no Notibras no dia 27/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-cha-torradas-e-poesias/

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