A senhora residia na casa da esquina, bem em frente ao Bar
do Bosco. Local frequentado por muitos, mal falado por um tanto, conhecido por
todos. Seja como for, Dona Ermengarda parecia apreciar o lugar, tanto é
que costumava frequentá-lo de terça a quinta-feira.
— Sexta, sábado e domingo não são para gente do meu feitio.
Não que eu valha algum tostão, mas a idade chega para os que teimam com a
finitude da vida. E só não vou mais ao Bar do Bosco por um motivo.
— E qual é, dona Ermengarda?
— Não abre às segundas.
Enquanto alguns iam até a mulher para pedir conselhos,
boa parte queria apenas desabafar. Todavia, não raro, um ou outro buscava a
companhia de dona Ermengarda simplesmente para se vangloriar. Ninharias,
mas que inflavam o ego do falante.
— Estou deveras impressionada, Lúcio.
Parece que você atingiu um patamar desejado por muitos.
— A senhora acha mesmo?
— Se acho? Meu rapaz, tenho certeza!
Alguns tapinhas nas costas da velha, uma
cerveja a mais sobre a mesa e, até acontecia, aquela porção caprichada de
fritas. Ermengarda dizia que não precisava, mas o sujeito fazia
questão.
— Dona Ermengarda, a senhora merece
muito mais. Só não dou porque me falta.
Mês passado, a comunidade acordou com a triste notícia da partida
de dona Ermengarda. Como se ninguém soubesse que a mulher já tinha ultrapassado a barreira dos 90 anos. A verdade é que as pessoas não estão
preparadas, mesmo que o fim da linha esteja bem ali, bastando dobrar a esquina.
O velório aconteceu
naquela mesma tarde. Dezenas de conhecidos compareceram, não faltou gente para
segurar as alças do caixão. Adeus, dona Ermengarda!
Os dias que se seguiram foram de luto, porém logo se
transformaram em rotina. Então, quando tudo já parecia ter voltado ao normal,
eis que chegou uma carta para o Bosco, o dono do bar. O sujeito observou
com atenção o envelope e constatou que a remetente era a finada. Quase caiu
para trás, até que viu a data da postagem: no dia anterior ao óbito da amiga.
Instigado pela curiosidade, Bosco abriu o envelope com cuidado. Três folhas, frente e verso, a letra caprichada, o português correto, inúmeras palavras que encheram de lágrimas os olhos do comerciante. E, para fechar com chave de ouro, uma afirmação típica de uma mulher que passou anos ouvindo os mais variados tipos: "Sabe, meu amigo Bosco, sempre admirei a coragem e a disposição que esse povo tem de passar vergonha."
- Nota de esclarecimento: O conto "Fiado de confissões" foi publicado no Notibras no dia 16/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/fiado-de-confissoes/










