terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Um general em apuros

     

        Félix, freguês dos mais antigos da banca do Guima, em Sobradinho, no Distrito Federal, é, segundo consta nos anais da fofoca, general da reserva. É verdade que os maldosos, provavelmente por inveja, costumam dizer que o velhote não passa de tenente. Bem, não importa o posto, mesmo porque o sujeito anda meio cabreiro com algumas coisas. Quem me contou? Isso é segredo que pretendo levar para o túmulo, mas é algo que pode ser negociado dependendo da paga. 

      Pois lá estava o ex-combatende de nada na banca do Guima. Foi acompanhado da digníssima companheira de praticamente toda vida. Nisso, o Guima se aproximou do casal para cumprimentá-los.

        Bom dia, general! Bom dia, dona Luzia!

        A mulher devolveu o cumprimento com um sorriso nos lábios, o que não aconteceu com o esposo.

        Bom dia pra quem, Guima?

         Aconteceu alguma coisa, general?

         Nada neste país está bem. 

         Hum...

         Tudo uma bagunça só.

         É verdade, general. 

         Entra governo, sai governo, nada presta.

         É verdade, general. O senhor tem razão.

        Em determinado momento, a senhora, afeita a novidades, entrou na banca e começou a olhar as revistas. O general, aproveitando que a esposa havia se afastado, baixou o tom da voz e disse:

           Guima, na verdade, na verdade, o país está até bem. O meu problema é a minha esposa que fica o dia todinho me dando tarefas em casa. Eu já não aguento ser subalterno dela. Logo eu, um general! Pode uma coisa dessas?

           É verdade. Se bem que marechal é patente mais graduada que general.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Um general em apuros" foi publicado no Notibras no dia 10/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/um-general-em-apuros/

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Uma história de família

   

    Tia Nice era, nas palavras de mamãe, uma mulher arretada. E, por esse motivo, sempre quis ser igual a ela, ainda mais porque imaginava que arretada era algo do tipo linda. E isso titia era. 

    Quando estava com meus 12, 13 anos, meu pai me perguntou o que eu queria ser quando crescesse.

     Júlia, você quer ser médica, engenheira ou advogada?

     Quero ser que nem a tia Nice.

    Minha mãe, que estava ao lado, ficou exasperada:

     Deixe de bobagem, menina! Pois tu quer ser quenga?

    Quenga. O que era quenga? Pelo tom da voz de mamãe, devia ser algo do tipo ladrona. Ou seria feia? Não! Feia não era. Chata? Talvez minha mãe tivesse birra da irmã. Eu também tinha do Osvaldo, meu irmão caçula. O moleque era dois anos mais novo e queria mandar em mim. Vê se pode uma coisa dessas? Logo eu, que já tinha sido visitada pelas regras, e ele ainda mijava na cama. 

     Outro que parecia ter rixa com tia Nice era vovô, que vivia dizendo que a filha não saíra aos seus. Não saíra aos seus? O que isso significava exatamente. Na dúvida, perguntei para o Salomão, meu irmão mais velho.

         Tem certeza?

        — Sim. Foi o que o vovô falou.

      Bem, isso é simples. O que ele quis dizer é que... Hum... Sabe, Júlia, eu sei, mas não tô alembrando. 

     Pensei em recorrer ao Osvaldo, mas desisti. E desde quando aquele mijão iria saber. O jeito foi perguntar para minha mãe.

         Quenga! Já falei que tua tia é quenga! E não me perturbe mais com essas perguntas, que tenho mais o que fazer. 

     Quenga, então, era a mesma coisa que não saíra aos seus. E isso acabou me causando um certo transtorno na escola, quando a professora de português mandou toda a turma escrever algumas palavras sobre alguém da família. O Vicente perguntou se podia falar do cachorro. 

             Não, Vicente. Fale da sua mãe ou do seu pai. 

            Foi aí que aconteceu aquele silêncio na sala. É que o pai do Vicente estava preso porque tinha matado a mulher. Então, o Vicente nem tinha mais mãe. Quer dizer, minha mãe disse que ainta tinha, só que lá no Céu. 

             Lá junto com as nuvens, mamãe?

             Com Deus, Júlia.

            Bem, então, a mãe da Júlia está com Deus. 

            A professora parou diante do Vicente, que ficou com os olhos de cachoeira. 

             Tá bom, Vicente! Escreva sobre o seu cachorro.

             O cachorro não é meu, professora. 

            — Não? E de quem é?

             Da Júlia.

            Aí, a professora me perguntou se o Vicente poderia escrever uma história sobre o meu cachorro. Fiquei com pena do meu vizinho de rua e deixei. 

            Depois de todos terminarem, a professora passou na carteira pegando folha a folha. Toda orgulhasa, estiquei a mão e entreguei as minhas palavras, certa de que a professora iria adorar e me dar um dez. Todavia, parece que ela não gostou, pois aqui estou na direção da escola, enquanto meus pais estão conversando com diretora. O motivo? Hum, na verdade, até este momento não sei, mas desconfio que foi por causa das palavras que escrevi sobre tia Nice:

            Quando crescer, quero ser que nem a minha tia Nice porque ela é quenga, que é a mesma coisa que não saíra aos seus.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Uma história de família" foi publicado no Notibras no dia 9/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/uma-historia-de-familia/

domingo, 8 de fevereiro de 2026

As noites solitárias do João

     

      Acordou quando a tarde avançava de modo confiante para a noite, que prometia nada além do que o mesmo de sempre. Pensou por alguns instantes diante das opções e, com a face carregada de tédio, decidiu por pedir uma pizza tamanho família, ainda mais porque receber outro não de Laura estava fora de cogitação. João não suportaria ser rejeitado mais uma vez. Estaria a ex-namorada se vingando de anos de descaso?

       Lavou o rosto e encarou o reflexo, que se mostrava cada dia mais intransigente com os rumos que o homem tomara. O que João queria provar? E para quem? Se ele soubesse que Laura tolerara a falta de atenção por tanto tempo não por amor, mas pena, era possível que subisse no parapeito da janeta e saltasse para a morte, mesmo que morasse no térreo. Que ao menos os arranhões o fizessem despertar para a realidade, já que a falta de bom-senso parecia perene. 

        Bastor pegar o celular para que a dúvida pairasse novamente sobre o sujeito. Teria a mulher se arrendido de ter se negado a passar a noite com ele. Sim, certamente estaria aguardando que ele ligasse novamente. Talvez se fizesse de difícil por uma ou duas frases, mas não resistiria quando ele dissesse: "Laura, meu amor, estou com saudade!"

        — Ah, João, vá te catar! E não me ligue mais, pois o Carlos não gosta.

       E Laura desligou sem nem mesmo se despedir. Nem um "Tchau!" ou "Até nunca mais!". Mas quem era Carlos? Ele conhecia ao menos dois, mas um era um primo distante que morava em Portugal há mais de duas décadas, e nunca tivera em Brasília. Já o segundo, era um antigo colega de faculdade, mas que também não chegou a ter contato com Laura. Ou teve e ele não sabia? Não, não e não! Mesmo assim, resolveu tirar a prova dos nove

         João? Há quanto tempo!

         Sim.

         E o que manda?

         Você tem visto a Laura?

         Laura? Que Laura?

         Aquela garota que eu saía.

         Cara, não sei quem é essa. 

          Ah, tá! Pensei que soubesse.

         Não.

         Beleza, Carlos. Pensei que conhecesse. Então, tá! Depois vamos marcar um chope.

         Beleza. É só marcar.

         Valeu.

         Valeu.

        Convencido de que o tal Carlos da Laura não era o seu colega, muito menos o primo que residia na Europa, João sentiu certo alívio. No entanto, antes que pudesse relaxar, eis que a angústia se instalou de vez. Como seria esse Carlos? Essa dúvida o encheu de inseguranças. A incógnita da aparência do rival o fez voltar ao espelho e se indagar. Seria mais alto? Seria mais bonito? Era inteligente? Trabalhava com o quê? Seria bom de cama? Carlos! Carlos! Carlos! Maldito Carlos!

        Pensou em ligar novamente para Laura. Precisava dirimir qualquer dúvida. Que ela o xingasse, João não mais se importava. Que o mandasse para o inferno, ele até iria, mas precisava saber, era questão de honra. E honra de homem ninguém resvala. 

            João pegou o telefone celular e ligou. Ocupado. Ligou novamente. E, mais uma vez, deu ocupado. Cheio de brio, o sujeito seguiu em frente e fez nova ligação. Ah, agora estava chamando. Pois Laura iria ouvir umas poucas e boas. Ah, se ia. Atendeu.

                 Uma pizza de calabreza tamanho família, por favor.

  • Nota de esclarecimento: O conto "As noites solitárias do João" foi publicado no Notibras no dia 8/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/as-noites-solitarias-do-joao/

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Leopoldo e o mendigo

    Leopoldo era do tipo que não levava desaforo para casa, mesmo que aquilo lhe custasse rusgas permanentes com, por exemplo, um vizinho de porta. Que fosse daquele jeito, o sujeito não parecia se importar, apesar das aflições cada vez mais perenes, que chegavam sem qualquer cerimônia e se instalavam no coração.

        O sujeito sabia que aquela situação não era amiga da saúde e, por isso, buscou algumas alternativas para evitar descontroles por bobagens. Que guardasse energia para quando fosse realmente necessário como, por exemplo, salvar o planeta de um improvável ataque alienígena ou, então, enfrentar o ex-boxeador Popó, desde que fosse recompensado com alguns milhões para valer a pena a surra que iria levar. 

        Não podemos dizer que Leopoldo não tenha tentado, até porque Gabriela, namorada com longo histórico de paciência, testemunhou alguns fatos que, outrora, seriam estopins para crises histéricas do amado. Mas o fato que mudou definitivamente o jeito do rapaz de levar a vida aconteceu por acaso e, talvez pelo inusitado, vale aqui mencioná-lo.

            Estava o casal passando pelo Setor Comercial Sul, em Brasília, quando um mendigo, sentado na calçada, esticou a mão e pediu ajuda. Leopoldo, que não era de questionar necessidades alheias, abriu a carteira, mas não encontrou trocado.

            Meu amigo, vou ficar te devendo. Só tenho uma nota de cem.

       O pedinte sorriu e, percebendo que daquele mato não saía cachorro, aguardou o próximo transeunte. Nisso, Leopoldo, assim que deu as costas para seguir seu caminho de mãos dadas com a namorada, arregalou os olhos e exclamou:

                 Não pode ser!

                 O que foi, meu amor?

                 Eu conheço aquele cara!

                Leopoldo retornou e, diante do necessitado, perguntou:

                 Camilo, é você?

                Pego de surpresa, o homem levou alguns segundos encarando Leopoldo.

                 Leolpoldo! Não é possível! É você mesmo?

          Sim, Camilo! Sou eu! Mas o que você está fazendo aqui? Olha, se você estiver mesmo precisando, tá aqui os cem reais.

                 Que nada! Pode ficar com o seu dinheiro. 

                Camilo se levantou e abraçou o amigo.

                 Leopoldo, e quem é a gatinha?

                 Ah, Camilo! Essa é a Gabriela, minha namorada.

                Apresentações feitas, Camilo disse que estava fazendo laboratório para viver um mendigo em um curta que seria filmado no mês seguinte. 

                 Que loucura!

                 Um pouco, Leopoldo. Mas vida de ator é assim mesmo. Aliás, vocês já almoçaram? 

                 Ainda não, mas...

                 Então, estão convidados para almoçarem comigo. Já ensaiei muito por hoje. 

                E lá foram os três para um restaurante ali perto. E o engraçado mesmo foi na hora de pagar a conta. O Camilo nem deixou o colega tirar a carteira do bolso.

                Nananinanão, Leopoldo! Vocês são meus convidados. Além do mais, faturei bem hoje. Estou até pensando em largar a vida de ator pra virar mendigo profissional. 

             Por sorte ou destino, Camilo não trocou de profissão. O curta foi um sucesso, ele foi requisitado para viver o protagonista de um longa, pois um famoso diretor de cinema ficou impressionado com a sua atuação carregada de emoção e veracidade ao dizer o derradeiro texto antes dos letreiros começarem a subir:

            Sei que muitos de nós gostaríamos de enaltecer uma das qualidades mais nobres que uma pessoa pode possuir: o humor. Nunca perca seu humor, pois, apesar das perturbações que a vida nos oferece, com humor encontraremos mais soluções e menos problemas. O mundo é muito rude e, para vencê-lo, devemos mudar a estratégia.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Leopoldo e o mendigo" foi publicado no Notibras no dia 7/2/2026.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Josias, o afeito a caraminholas

     

        Josias era afeito a caraminholas, como se a verdade lhe provocasse urticária. Um tipo desprezível e, conforme a conveniência, engraçado e até útil. E, talvez por isso, havia quem o defendia, e não era a mãe, que parecia estar com a paciência exaurida das lorotas do filho. Acredite ou não, dona Leiloca, casada com o seu Humberto, ficava encantada com a presença do gajo no seu comércio, um botequim incrustado no agito de Taguatinga, cidade que pulsa cheiro de povo no Distrito Federal.

   Certa feita, que não foi ontem nem anteontem, mas alguns dias antes do carnaval de um ano qualquer, lá estava o Josias sentado à mesa de costume no comércio da dona Leiloca. O gajo bebia o de sempre, uma cerveja acompanhada de meia porção de calabresa acebolada. Mastigava com a paciência de um gato de rua, dava um gole profundo na bebida, cofiava o bigode, retirava um cigarro do bolso da camisa engomada, levava-o ao nariz e aspirava o gosto de nicotina, mas logo guardava o mesmo. Era proibido fumar no ambiente.

    Dona Leiloca, bom mesmo era quando se podia fumar até dentro de centro cirúrgico.

       A mulher voltou os olhos para o cliente e sorriu. No entanto, seu Humberto, que estava no caixa, não resistiu e provocou o contador de histórias.

          — Deixa de conversa, Josias! E quem fumava ali?

          — Ué, o médico!

       — O médico?

       — Sim. E aconteceu quando nasceu meu primeiro filho.

       — Filho? E por acaso tu tem filho, homem?

      Dona Leiloca, que estava doida para ouvir aquele causo, interviu:

      — Humberto, pelo amor de Deus! Deixa o Josias contar, que fiquei curiosa pra conhecer essa história. 

        Obrigado, dona Leiloca. Imagino aqui com meus botões como o mundo seria melhor com mais criaturas elevadas que nem a senhora. 

      Antes de começar a contar o ocorrido, Josias cofiou o bigode e aprumou a voz.

    Bem, era uma noite fria de julho lá em Porto Alegre, quando Dolores, minha amada Dolores... Que Deus a tenha em bom lugar. Pois lá estávamos nós dois debaixo da coberta, quando a bolsa estourou. 

    Foi uma correria danada até o hospital. Bastou chegarmos, colocaram a Dolores, com aquele barrigão sem tamanho, numa maca e a levaram para a sala de cirurgia. Como não sou dos mais valentes, preferi esperar do lado de fora. E era um cigarro atrás do outro. A sorte é que tenho por hábito levar duas carteiras de reserva e uma em uso. Então, estava abastecido mesmo se o parto durasse até de manhã.

       Depois de caminhar quilômetros naquele pequeno corredor e tragar que nem Preto Velho, eis que o cirurgião abriu a porta e me perguntou se eu tinha um cigarro. Lógico que tinha. E foi aí que a coragem me chegou como visita inesperada em hora inapropriada.

         — Se tenho? Doutor, mesmo se não tivesse, corria ali e comprava pro senhor.

         — Pois me dê um, que deixo você ver o seu guri. 

        Acordo firmado, entrei na sala de cirurgia e lá estava a minha Dolores toda sorridente com o nosso piá agarrado no seu peito. E como o moleque sugava. 

        Como trato é trato, peguei um cigarro e o coloquei nos lábios do doutor, que ainda precisava fechar a barriga da Dolores. Era uma tragada, um ponto e uma baforada. E rapidinho não tinha mais tripa de fora. E o médico ainda deu uma queimadinha na beiradinha de um dos pontos que ficou grande além da conta. 

                Terminada a história, Josias deu o último gole na cerveja, pagou a conta e, antes de se despediu, pegou o cigarro no bolso, o levou aos lábios e disse:

        Bem, meus amigos, preciso ir. Não é minha culpa, mas vocês sabem que o cigarro e eu temos uma amizade de décadas e, mesmo sabendo que uma hora um de nós mata o outro, preciso fumar. Até a próxima!

    Mal Josias saiu do recinto, dona Leiloca sorriu e disse para o marido:

    Humberto, o Josias parece até que possui licença poética pra mentir.

          — Que nada! Esse aí mente num minuto o que o Diabo não acompanha um mês no pandeiro.
  • Nota de esclarecimento: O conto "Josias, o afeito a caraminholas" foi publicado no Notibras no dia 6/2/2026.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Lembranças de um dia no pátio da escola

A primeira vez que vi o Rogério fiquei impressionado por sua coragem. É que ele estava prestes a enfrentar o Afrânio, justamente o garoto mais forte da escola, e que tinha o costume de ameaçar quem cruzasse o seu caminho. Um valentão. No entanto, um valentão com músculos de verdade.

          Rogério era pequeno, só podia perder, mas não correu do pau. Que apanhasse! Todo mundo apanha um dia. Mas aquilo me soava um tremendo desatino e, pior, ninguém parecia se importar com a surra que o miúdo iria levar. 

          Eu, que mal havia entrado na escola, sabia da fama do Afrânio e, por isso mesmo, o evitava na hora do recreio. Fiquei imaginando o que teria acontecido para que aquele combate desproporcional pudesse se dar. A diferença de tamanho era tanta, que eu, que era bem menor do que o Afrânio, aparentava ter dois ou três anos a mais do que o Rogério, que, depois, soube ter nascido alguns meses antes de mim. 

          Desprovido de bravura para me meter naquela contenda, meus olhos corriam em busca de um adulto. Cadê a diretora Maria Lúcia, cuja pouca paciência com desordem era notória? Nem sinal dos professores Leandro, Elma, Dolores, Lucimara, Henrique, Victor e de outros que não me recordo dos nomes. E os gritos de euforia, de expectativa, que anteviam o massacre que, não tardaria, iria acontecer diante das vistas que se mantinham arregaladas para não perder nem sequer um átimo. 

          Não sei você, mas não suporto ver brigas. É algo que me dói como se fosse eu o que apanha. Não me parece justo, e creio que não é. 

          — Ah, mas ele mereceu! 

          — Ninguém merece. 

          — E quem mandou provocar? Que ficasse quieto!

          — E isso por acaso dá o direito do outro esmurrar o nariz do infeliz?

          — Isso não é problema meu! 

          — O problema é de todos nós.

          — Meu é que não é! E sai da frente, porque não quero perder nem um tabefe, por menor que seja. 

          Mal voltei os olhos para o círculo formado, Afrânio desferiu um murro na cara do pobre Rogério, que caiu sentado. Os olhos vermelhos de ódio pareciam mandar o franzino se erguer. Não tardou, novo soco, agora na barriga, que o fez curvar. Afrânio completou com um murro bem no queixo do moribundo, que, dessa vez, não teve jeito. Caiu desfalecido. 

            O silêncio, de repente, tomou conta do pátio da escola, como se todos se culpassem por aquela situação. Como é que permitiram tamanha covardia? Até o grandalhão pareceu desconcertado com o que acabara de fazer. Imaginei que ele tivesse pensado, mesmo que por mísero segundo, em acudir quem acabara de nocautear. Não o fez. Fugiu, como é próprio dos covardes. 

            Rogério, naquele instante, se transformou no herói improvável de todos ou, pelo menos, de boa parte dos que presenciaram aquele massacre. Senti vontade de ser seu amigo naquele mesmo dia. No entanto, fraco que sempre fui, a iniciativa partiu dele na semana seguinte, quando eu estava sem grupo para um trabalho de matemática.

            — Ei, tudo bem? Sou o Rogério. Vi que você está sem grupo. Quer entrar no nosso.

            — Oi. Quero sim. 

            — Qual é o seu nome?

            — Carlos. 

          Bem, e foi assim que começou a nossa amizade, que dura até hoje. E lá se vão 42 anos. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Lembranças de um dia no pátio da escola" foi publicado no Notibras no dia 5/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/lembrancas-de-um-dia-no-patio-da-escola/

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dona Matilda, a amiga da minha mãe

          Dona Matilda se aproximou de minha mãe assim que a viuvez, por esses acasos da vida, acometeu as duas praticamente ao mesmo tempo. Papai, por AVC, enquanto seu Antônio foi levado por uma virose até hoje inexplicável. Não importa, já que não é possível trazer os mortos de volta à vida depois de enterrados. Seja como for, uma amizade sincera, apesar de tímida a princípio, fez com que as duas mulheres encontrassem conforto mútuo.

        Para quem observa de fora, talvez não entenda como é que duas pessoas tão dissonantes se dão de modo tão harmonioso. Minha mãe nunca estampou as capas dos álbuns de família. Esse lugar era de gente que queria aparecer, como era o caso do tio Paulo e da minha irmã Márcia. Mamãe era a coadjuvante mais honesta que uma estrela poderia querer ao seu lado. E eu entendo que seja esse o motivo de dona Matilda se sentir tão bem no papel que lhe é de direito. 

            As duas regulam em idade, mas não sei ao certo quantos anos a amiga de mamãe desfruta. Talvez dois ou três anos mais velha, se bem que, vez ou outra, a vejo com a aparência de pelo menos oito anos mais jovem. Não duvido que seja devido aos dentes bem-cuidados ou, então, que seja por conta daqueles produtos para pele que ela usa. Não descarto ser o meu olhar de encanto quando a vejo sorrindo aquele sorriso de quem já passou por tantas agruras, mas que prefere manter a altivez a se abater em lamúrias incapazes de mudar o inevitável. 

            Como tenho hábito de visitar mamãe praticamente todos os dias, quase nunca aviso que estou indo. Não que não acredite que ela seja capaz de se virar. É aquela coisa de filha, que se preocupa e também quer passar o máximo de tempo ao lado, ainda mais depois que ela perdeu o marido, meu pai. E, talvez por essas idas rotineiras, nunca imaginei que acabaria descobrindo coisas, no mínimo, esdrúxulas. 

            Como tenho a chave da casa da minha mãe, assim que abri a porta, vi minha mãe e dona Matilda gargalhando na sala, onde pareciam se divertir com o carteado. Elas nem perceberam que eu havia acabado de entrar.

            — Não acredito, Matilda!

            — Pois é tudo verdade, Gilda.

            E as gargalhadas prosseguiram, até que anunciei a minha chegada.

            — Oooooiiiiiiiii!

            — Oi, minha filha! Nem te vi chegar.

            — Olá, Carla!

           Depois dos costumeiros abraços e beijos, procurei me inteirar sobre o porquê daquela alegria toda.

            — Minha filha, pois você acredita que a Matilda é uma ladra?

            — Mamãe, até parece que a senhora nunca escondeu cartas debaixo da mesa.

            — Não estou falando de cartas, mas de bancos. 

            Levei um tempo para concatenar as ideias, até que dona Matilda confirmou com um movimento de cabeça e aquela gargalhada mais franca do que a Zona de Manaus. 

            — É verdade, Carla. Mas isso foi no meu tempo de mocinha. 

            — Gente! Não acredito! E a senhora nunca foi presa?

            — Bem, fui e não fui.

            — Como assim? 

            Foi aí que minha mãe contou que o policial que prendeu a dona Matilda se apaixonou por ela assim que a viu. E, depois dos dois conversarem por quase duas horas, ele decidiu que não iria levá-la para delegacia. Quase seis meses depois, os dois se reencontraram na fila do mesmo banco que dona Matilda havia roubado. 

            — Oi! Por acaso você não vai assaltar este banco novamente, né?!

            — Olá, bonitão! Se você me convidar pra ir ao cinema, mudo de ramo.

            E foi assim que dona Matilda começou a namorar o seu futuro, do qual ela enviuvou quase na mesma época que minha mãe. 

            — Dona Matilta, mas não entendo uma coisa.

            — O que você não entende, Carla?

            — A senhora não tem medo de ser presa?

            — Não. O crime já prescreveu há anos. 

            — Tá, mas por que contou isso pra minha mãe? 

            — É que somos amigas, Carla. E amigas têm lá seus segredos. E esse é um dos nossos.

            — Um dos segredos? Não vai me dizer que a senhora já matou alguém?

            — Não. Nunca matei ninguém.

            — E qual são esses outros segredos, então? Posso saber?

            — Por minha boca, você nunca saberá nem sequer uma vírgula.

            — E por que não, dona Matilda?

            — Eu sei guardar segredo das minhas amigas.

            Olhei para mamãe e dona Matilda, enquanto as duas sorriram.

            — Quer café, minha filha? E esses biscoitos amanteigados que a Matilda trouxe estão saborosíssimos.

            Sem escolha, aceitei o convite. E mamãe não mentiu. Os biscoitos da dona Matilda estavam uma delícia. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Dona Matilda, a amiga da minha mãe" foi publicado por Notibras no dia 4/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/dona-matilda-a-amiga-da-minha-mae/