domingo, 30 de agosto de 2026

A álgebra do vacilo

     

    Era tímido. Tão tímido que voltou os olhos para uma das raras coisas que lhe faziam sentido. Matemática. E como era bom com os números!

    Aos doze, foi convidado para uma gincana de matemática. Titubeou, mas foi convencido por sua professora.

    — Vamos, Rubens! Vai ser bom pra você e pra escola.

    O jovem conseguiu camuflar a falta de carisma com respostas certeiras. Além de abocanhar o prêmio individual do torneio, levou a sua equipe ao ponto mais alto do pódio.     

    Rubens ganhou fama local, chegou a ser recebido como herói. E esse foi o primeiro passo para a transmutação de acanhado para popular. Todos queriam se tornar próximos da quase celebridade da escola. 

    Logo após vencer a terceira gincana consecutiva, Rubens, agora com quinze anos, conheceu a melhor aluna de Língua Portuguesa e Literatura do colégio. Gláucia. Pois esse era o nome da moça que, ainda por cima, era engajada com pautas progressistas. Foi amor à primeira vista.

    O casal, para alguns improvável, viveu o apogeu durante um, dois, seis meses. Tudo parecia perfeito até que o Rubens pisou na bola. Sucumbiu aos encantos da Márcia, bela aluna da sala ao lado. 

    Os encontros furtivos acabaram sendo descobertos por alguém. A fofoca correu o pátio da escola com a velocidade da luz e acabou caindo nos ouvidos da Gláucia. Rubens, ao perceber a mancada, ainda tentou se desculpar.

    — Foi mal, minha flor.

    — Mal?

    — Você me perdoa?

    — O quê?

    — Você sabe como é, né?

    Gláucia, que de otária nada tinha, deu as costas para o aprendiz de Don Juan. Não teve conversa, Rubens ficou mal. Mal de verdade. E todos lhe deram as costas, inclusive a provocante Márcia. 

    Sem ter mais a quem pedir socorro, o rapazola foi chorar as mágoas no ombro da sua derradeira esperança: sua mãe. Ela, a despeito das probabilidades, ficou do lado da Gláucia.

    — Que vacilão você é, hein, Rubens?

    Rubens, desolado que estava, só queria colo. Entretanto, a mulher se fez de inquisidora.

    — Por que você foi fazer isso com a Gláucia? Homens... Estava se achando, é? Homens... E logo com a Gláucia, uma menina tão legal. Homens... Por quê? Vamos, Rubens, me responda! Por quê?

    — Por favor, mamãe, não me pergunte nada. Só fica comigo e me abraça. 

    Como um bebê chorão, chorou os bofes. Homens...

sábado, 29 de agosto de 2026

O pote da discórdia

    Joana e Lúcia, como de costume, tomavam chá de camomila com torradas. Terças e quintas, logo após saírem das puxadas aulas na academia do bairro. Ora na sacada da primeira, ora na ampla varanda da outra.

    — Tu viu o Erasmo?

    — Um gato.

    — Tem gosto pra tudo.

    — Tá interessada?

    — Ih! Deus me livre! E tu?

    — Eu?

    — Não, Joana, a minha avó.

    — Ela tem bom gosto.

    —  Tá ou não tá, Joana?

    — Essa geleia está deliciosa. Prove.

    — Hum... É mesmo. Comprou onde?

    — É da Amanda.

    — A mulher do Erasmo?

     É. 

    Lúcia encarou a amiga por um breve instante.

    — Pagou quanto?

    — Nada.

    — Nada?

    — Nada.

    — Ela te deu?

    — Nem falo com ela.

    Lúcia arregalou os olhos. Incrédula, quis saber como a Joana havia conseguido aquele pote.

    — Ah, ganhei.

    — De quem?

    — É uma delícia mesmo, né?

    — De quem, Joana?

    Joana passou uma generosa camada da geleia sobre uma torrada e, languidamente, levou a guloseima à boca. Deu uma mordiscada, passou a língua nos lábios e sorriu.

    — Hum... Que delícia! Isso é uma perdição, amiga. Vou precisar malhar muito pra não engordar.

    — Joana!

    — O que foi?

    — Foi o Erasmo?

    — Que delícia!

    — O Erasmo?

    — A geleia. Se quiser, consigo um pote pra você. Quer?

    — Hum!

    — De graça. Quer?

    — Quero.

    As mulheres se entreolharam. 

    — Tu não presta, Joana.

    — É verdade.

    As duas gargalharam.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O banjo

    Uma menina tocava banjo na esquina, uma lata faminta sobre a calçada suplicava por vinténs. Vez ou outra, uma alma caridosa ou carregada de culpa despejava alguns trocados, quase ninguém parava para escutar a melodia. Que coisas mais urgentes arrastavam a multidão, que não tinha tempo para a vida.

    — Um banjo.

    — O quê?

    — Aquilo é um banjo, né?

    — Sei lá, Lúcio!

    — Pois aposto que é um banjo.

    Alberto, convencido por seu colega, voltou os olhos para a garotinha, talvez oito ou nove anos, que insistia em dedilhar aquelas maltratadas cordas.

    — Não é um banjo, Alberto?

    — Acho que é. Mas e daí?

    — Você não vê?

    — Vejo o quê, Lúcio?

    — Só pode ser roubado.

    — E eu com isso?

    — Não é melhor chamar a polícia?

    — Pra quê? Você agora virou paladino da moral e dos bons costumes?

    — Mas é um crime, Alberto.

    — Que seja!

    Alberto, de modo provocativo, meteu a mão no bolso interno do paletó, abriu a carteira e retirou uma nota graúda. 

    — Você não vai fazer isso, né, Alberto?

    — E por que não?

    — Ela é uma ladra.

    — Uma menina.

    — Uma bandida, isso sim!

    Alberto se aproximou da garota, observou a sua maneira ágil de dedilhar o instrumento. Inclinou-se em sua direção e colocou com cuidado a cédula, que caiu sobre as parcas moedas. A artista das ruas agradeceu com um aceno de cabeça, Alberto sorriu.

    Depois de um ou dois minutos apreciando a música, Alberto retirou o chapéu, saudou a menina e foi embora. O colega, incrédulo, parecia contrariado.

    — Não acredito, Alberto. O que foi aquilo? É por isso que o mundo está assim. Você não viu que aquela garota tem cara de larápia?

    — Pode ser, meu amigo. Mas ela tem coragem de expor a completa falta de talento. E isso, meu caro, é admirável.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O ensaio das aparências

   

    Ernesto possuía reputação ilibada. Até mesmo os desafetos reconheciam no sujeito a aura da mais pura dignidade. E como ele era humilde!

    — Meus parabéns, Ernesto. Você fez um excelente trabalho. Nem sei o que seria da empresa sem a sua capacidade.

    — Obrigado, Chefe. Mas o mérito deve ser repartido com toda a equipe.

    Outra feita, Ernesto ouviu os gritos da vizinha. E lá foi o paladino acudir quem pedia socorro. Ao chegar ao apartamento, o porteiro e a síndica, atônitos, não souberam o que fazer. Letícia estava em trabalho de parto.

    — Luís, chame o SAMU. Dona Marília, preciso de panos fervidos. Rápido!

    Enquanto o porteiro acionava a emergência, a síndica foi esterilizar algumas toalhas. 

    — Estou com medo, Ernesto!

    — Calma, Letícia, tudo vai ficar bem.

    — E o meu bebê?

    — Ele está bem.

    Menos de meia hora depois, era possível ouvir a sirene da ambulância a caminho. No entanto, assim que a equipe médica entrou no apartamento, o pequeno Daniel já chorava nos braços do parteiro de última hora.

    — Obrigada, Ernesto! Nem sei o que seria da gente se não fosse você.

    — Não há de quê, Letícia. Qualquer um faria o mesmo no meu lugar.

    Ernesto ensinava matemática para um grupo de crianças carentes, lia contos, crônicas e declamava poesias em um asilo de velhinhos, escutava com atenção as desventuras amorosas até de desconhecidos e sempre dava generosas gorjetas aos garçons. Como já dito, até os desafetos o tinham em alta conta. E foi justamente um deles, o Marcolino, colega de trabalho, que fez questão de enaltecer as qualidades incomuns do quase inimigo.

    — Ernesto, tu sabe que nunca fui com a tua cara, né?

    — Nunca desconfiei.

    — Pois é a mais pura verdade. Talvez seja implicância da minha parte. Mas hoje quero lhe dizer que nunca vi um tipo mais altruísta que tu. E, acima de tudo, humilde. Tu é a humildade em pessoa.

    — Muito agradecido, Marcolino. E pode deixar, meu amigo, prometo jamais decepcioná-lo. Sei fingir humildade muito bem. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O tempero do remorso

  

    Salete não era adepta da mudez, mesmo quando a vontade de sumir a consumia. Também não era de escândalos, preferia a fúria contida. Melhor seria que Guilherme, o traste do marido, juntasse as coisas e pegasse o beco.

    — Oi, amor, como foi o seu dia?

    — Bom.

    — Vi que saiu um filme novo daquela atriz... Como é mesmo o nome dela?

    — Sei não.

    — Salete, minha querida, aquela atriz de olhos enormes.

    — Hum...

    — Pois é, meu amor, a gente poderia ir ver. O que você acha?

    — Pode ser.

    Respostas curtas, como de quem não quisesse muita conversa. Guilherme, desconfiado, imaginou que talvez a Salete soubesse do seu caso com a Rosana. Observou de soslaio o rosto da esposa. Nada mais do que o enigmático sorriso de Monalisa.

    — Salete, minha vida, o que tem pro jantar?

    — Sopa.

    — Adoro a sopa que você faz. Já te falei que você é a melhor cozinheira do mundo? Melhor até do que a minha mãe.

    — Vou fazer o seu prato já, já.

    Sabia. Ela sabia. A certeza se instalou sem ressalvas na mente do Guilherme. Mas como? Quem teria contado para Salete? Ou teria ela percebido pelo perfume da Rosana? Bem que o Armando já o havia alertado sobre o perigo. 

    — Cuidado, Guilherme! Esse perfume da Rosana é muito marcante. 

    Guilherme observou a esposa. Ela lhe pareceu impassível. Aí é que mora o perigo.

    — Não precisa, meu amor. Acho que não vou jantar hoje. Daqui a pouco vou ficar barrigudo que nem o Antunes. 

    Salete esboçou um sorriso, o que deixou o marido perplexo. Ela teria colocado veneno na sopa? Não era possível. Não. Salete não faria aquilo. Ou faria? Amanhã mesmo terminaria o romance com a Rosana. Se ela insistisse, ele diria que não podia mais, que era casado, homem de família. 

    Deitado, observou a mulher, que parecia se divertir com a leitura de um livro de um tal J. Emiliano Cruz. Guilherme esticou os olhos e lá estava o título de um conto: Crime e castigo do tio Anacleto (ou a infidelidade na era pré-celular). Além da barriga roncando, o homem passou a noite em claro. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Só se você puder


    Lauro acordou com o telefonema do patrão.

    — Não te acordei, né?

    Com a voz embargada de sono, Lauro disse que não.

    — Ah, que bom! Você sabe que não gosto de incomodar os meus funcionários no dia de folga, né?

    Sem ter para onde correr, Lauro concordou com o chefe.

    — Então, meu amigo, estou precisando de um favorzinho seu. Mas não tem pressa. Quer dizer, só um pouquinho. Mas não quero incomodar. Só se você puder mesmo. 

    Sem alternativa, Lauro fingiu sorriso do outro lado da linha. 

    — Lauro, meu querido, você poderia ir até a loja e pegar o presente que comprei pra minha esposa? É um embrulho com um lacinho vermelho. Está na primeira gaveta da minha mesa. Mas só se você puder mesmo, viu?

    Lauro, que morava do outro lado da cidade, na periferia, se levantou, pegou dois ônibus e foi até a loja. Depois caminhou pouco mais de quinhentos metros e deixou o presente da mulher do patrão na portaria do luxuoso condomínio.

    A caminho do lar, doce lar, Lauro se lembrou de que ainda não havia tomado café da manhã. Olhou o relógio. Quase hora do almoço.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Filosofia pós-anestesia

  

    Noite dessas, estava conversando com o meu grande amigo e maior parceiro no mundo literário, o Daniel Marchi, a quem tenho a petulância de chamar apenas de Dan. Também, são décadas de convívio. Posso dizer até que quase vi o meu camarada na maternidade, já que os meus padrinhos, a Marilda e o Celso, são os seus pais. 

    Pois noite dessas estava mesmo trocando ideias com o Dan, que passou por uma pequena intervenção cirúrgica. Ele, quase grogue por conta ainda do efeito da anestesia, queria saber como andavam as coisas com o Café Literário, do qual somos editores aqui no Notibras.

    — Dan, esquece isso. Está tudo sob controle. Cuide-se. 

    — Estou bem, Edu. O Celsinho está aqui comigo.

    — Que bom! E ele levou chinelo dessa vez?

    — Nem ele, nem eu. Olvidamos ambos.

    — Não acredito! Como é que vocês esquecem algo fundamental?

    Não sei se acontece com os outros escritores, mas comigo é exatamente assim: a minha criatividade e o meu conforto só ficam ativados quando estou com os meus surrados chinelos de dedo. Ah, detalhe: de meias. 

       — Edu, eu ainda tinha pensado em comprar um chinelo só pra vir pro hospital. É que o meu mais novo arrebentou.

        — E o outro par?

        —  Ih, Edu, o outro está muito gasto. 

        —  E depois o doido sou eu, né? Coitado do Celsinho.

        —  Ele está bem. 

        —  Bem mesmo?

        — Mais ou menos. Ele também está reclamando da falta do chinelo.

        —  Também né? Mande um beijo pra ele.

        —  Mando sim.

        —  Até amanhã.

        —  Até, Edu. 

        Quando eu já ia desligar, eis que o Dan me aparece com uma filosofia de botequim:

        — Ah, Edu, e não se esqueça.

        —  Do quê?

        —  Onde não puderes ir de chinelo, não te demores.

domingo, 23 de agosto de 2026

Entre fofocas e massinhas

     Lourdes, rodeada de adultos, fingia sorrisos e atenção. Não estava interessada nem mesmo nas fofocas que lhe chegavam com o frescor do ineditismo. Uma menina, três ou quatro anos, modelava massinhas no chão da sala.

    — Pois é, vocês acreditam que...

    Era como se providenciais chumaços de algodão tampassem as orelhas de Lourdes. Pensamentos, divagações, a mulher foi transportada aos seus sete, oito anos.

    — Lourdinha, olha o que o vovô trouxe pra garotinha mais linda do mundo.

    — Massinha!

    Não havia coisa que fazia a criança sorrir mais felicidade. Sorvete de morango, talvez. Lourdinha modelava sonhos lindos aos seus olhos infantis.

    — Vovô, olha o que eu fiz!

    — Que lindo cachorrinho!

    — É uma girafa, vovô.

    Quase em transe, Lourdes foi despertada por uma voz insistente:

    — Aceita mais café?

    — Ah, sim! Obrigada.

    Quando Lourdes levou a xícara aos lábios, a menina havia desaparecido. Somente algumas figuras espalhadas no piso. Talvez um cachorro ou, quem sabe, uma girafa.

sábado, 22 de agosto de 2026

O gosto da suspeita

     

    Eugênia andava ressabiada com a própria felicidade. Casara antes dos vinte com Rômulo, o namoradinho do ginásio. O casal teve dois filhos: um menino e uma menina. E cada herdeiro brindou a família com outras crianças saudáveis. Entretanto, algo intrigava a mulher, que nem desconfiava do motivo.

    Durante uma quarta-feira, que poderia ser terça ou quinta, Eugênia recebeu a visita de Lúcia, amiga de longa data. Mal se entreolharam, as duas constataram estranhezas no rosto da outra.

    — O que foi, Eugênia? Parece que veio de um velório.

    — E que cara de felicidade é essa? Por acaso encontrou o passarinho verde por aí?

    — Tô procurando, tô procurando.

    Sentaram-se no sofá, a televisão ligada. Nenhuma das duas parecia interessada na programação.

    — Tá assistindo?

    — Não.

    — Então, mulher, por que não desliga isso?

    — Sei lá! Deve ser por conta do hábito.

    — Ih, Eugênia, o que aconteceu?

    — Hum... Sabe que não sei, amiga, mas não me engano.

    — Com o quê?

    — Não faço ideia. 

    — Já sei do que você precisa.

    — De um amante. Mas tem que ser um coroa bonitão e fogoso.

    — Hum! Até parece.

    — Café.

    — Café?

    — É disso que você precisa.

    — Hum...

    — Tem pó?

    — Tem, Lúcia.

    Já na cozinha, enquanto a visita preparava o café, a anfitriã, cara murcha, apenas observava. Muda, preferia divagar sobre a sua cisma.

        — Prove.

        — Tem torrada aí nesse pote amarelo.

        — Nada de torrada, Eugênia. Tome.

        — Só café?

        — Ah, amiga, não se engane. Café nunca é só café.

        Mesmo consternada, Eugênia deu uma leve bicada. Depois outra. Mais uma. Sorriu.