quinta-feira, 30 de abril de 2026

Um agente russo em Sobradinho

    Leopoldo, mecânico de mão-cheia e lábia mais afiada do que de tocador de pandeiro em roda de samba, é mestre em inventar desculpas para atrasar as entregas dos veículos para seus clientes, que, ainda assim, abarrotam a Magnu, a mais afamada e difamada oficina de Sobradinho, no Distrito Federal. E, para piorar ou tornar as coisas mais divertidas, eis que surgiu por lá um gato, cuja presença foi logo notada por Caneco, o vira-lata come-e-dorme do local. 

    Corre daqui, corre dali, gritos de todos os lados, por sorte, azar ou algo parecido, eis que o bichano se safou. Subiu o mais alto possível, bem lá no topo da derradeira prateleira do esquecimento, já que nem mesmo Leopoldo se lembrava do que havia guardado ali. Cheio de serviços atrasados, o mecânico e seus funcionários, o Boquinha e o Zero-Zero, trataram logo de esquecer do felino antes que a clientela começasse a renovar as reclamações. 

    Mais devagar do que tartaruga com câimbra, os mecânicos até que conseguiram adiantar dois serviços, cujas entregas haviam vencido há quase três meses. Os clientes, cada um a seu modo, pareciam não acreditar que, finalmente, após tamanha espera, poderiam desfrutar dos carangos, um Opala 1980 e um Corcel 1973, que, apesar de não ter pertencido ao Raul Seixas, tinha muita história para contar. 

    Seu Onofre, o dono do tal Corcel, era carinhosamente chamado de Velho por quase todos. E não que fosse tão idoso assim, no máximo um pré-adolescente na categoria terceira idade. Ele, de tão surpreso com a entrega do seu automóvel, disse:

    — Leopoldo, meu amado e odiado, meu querido e desquerido, tu sabia que sou devoto de São Judas Tadeu?

    — Não sabia, Velho.

    — Pois é, mas sou. E tem mais, quando eu fazia preces pra que ele lhe fornecesse força e disposição pra terminar logo o serviço, tinha a impressão que o santo desviava o olhar, balançava a cabeça, como se não acreditando. Pelo visto, vou ter que pagar uma promessa pra São Judas Tadeu hoje. 

    Assim que o cliente partiu, Leopoldo, sorriso nos lábios, disse em alto e bom som para que os companheiros ouvissem:

    — Tão vendo, meus amigos, é assim que se trabalha. Só faltou o Velho me dar um beijo na boca de tão feliz.

    Apesar da cara de nojo do Boquinha e do Zero-Zero, Leopoldo se sentiu como se tivesse escolhido a profissão certa. Tanto é que, ainda com sorriso nos lábios, se despediu dos funcionários, ligou sua camionete e partiu para o merecido descanso.

    Já na metade do caminho, eis que o Leopoldo se lembrou do gato. Deu de ombros, como se no dia seguinte resolveria aquela pendenga. De todo modo, na oficina é que o bicho não poderia ficar, ainda mais porque o Caneco não permitiria dividir seu território, ainda mais com um gato. Ou seria gata? Não importava. Se ao menos fosse uma cadela... Mas aí seria o dono da Magnu que não permitiria, pois a oficina iria acabar virando moradia de vários cachorrinhos. Ih, nem pensar!

        Foi no sinal já perto do seu apartamento que Leopoldo, envolto de pensamentos, sentiu que alguém o observava. Ressabiado que era, tratou de fechar as janelas do veículo, quando, do nada, ouviu um chamado.

        — Miaaaaauuuuu!

        O sujeito deu um pulo, que bateu a cabeça no teto da camionete. O que aquele miserável estava fazendo ali no banco de trás? Gritou!

         — Sai daí, coisa feia!

         Que nada! O máximo que conseguiu foi fazer com que o gato mostrasse as presas, tão afiadas, que pareciam agulhas. Desprovido de coragem, Leopoldo acelerou assim que o semáforo abriu e foi direto para a sua residência. Mal chegou, saiu de fininho e trancou o carro. 

            Assim que o homem entrou em casa, a mulher e a filha repararam na sua cara de assustado.

            — O que foi, Leopoldo? Viu um fantasma?

            — O gato.

            — Gato? Que gato, pai?

            — O gato.

            — Leopoldo, você bebeu?

            — O gato.

            — O gato bebeu, pai? Quem é esse gato?

            — O gato. 

         Leopoldo só conseguia repetir aquela fala e apontar para baixo, onde havia estacionado a camionete. Foi aí que as mulheres decidiram tomar as chaves das mãos do Leopoldo e foram até a garagem. Pra quê? Bastou abrirem a porta do automóvel para se depararem com aquela fofura. O bichano, que de bobo não tinha nada, se mostrou manhoso e, então, pulou de modo suave no colo da jovem.

            — Olha, mãe! Acho que ele gostou de mim.

            Leopoldo, assim que viu a esposa e a filha entrarem com aquela fera no colo, quis protestar. Ih, não adiantou! Teve que engolir orgulho e medo. E o gato ganhou um lar, doce lar.

            Os dias passaram, Leopoldo cada vez mais enrolado com as entregas, a clientela azucrinando os ouvidos do mecânico, eis que o telefone tocou. Era a filha.

            — Pai, o Rudinei fugiu.

            — Rudinei?

            — É, pai! O seu neto?

            — Meu neto? Tu tem filho por acaso?

            — O gato, pai.

            Bem que o Leopoldo teve vontade de xingar o maldito felino, mas se conteve. Disse que logo estaria em casa. No entanto, antes de entrar na camionete, averiguou para ver se não havia outro gato no banco de trás.

        — O que foi, Leopoldo? Tá procurando o quê?

        — Boquinha, meu amigo, aqui quando dá um nó, pode ter certeza de que é cego e ninguém desamarra.

        E lá foi o sujeito para casa tentar encontrar o Rudinei. Enquanto se dirigia ao local, o mecânico tentou adivinhar de onde a filha havia tirado aquele nome. Estaria a garota namorando um russo? 

         Assim que estacionou, Leopoldo notou a filha e a esposa de joelhos, como se estivessem pagando penitência. Ledo engano. As duas haviam encontrado o Rudinei. Ah, que nome era aquele?! De todo modo, o bichano estava dentro de um bueiro, e não tinha quem o tirasse de lá. 

            Diante do impasse, algum transeunte desocupado teve a brilhante ideia de sugerir uma gatoeira.

                — Gatoeira?

                — É, meu senhor. Uma gatoeira. Rapidinho você tira esse gato daí. Não tem erro.

                Leopoldo, apesar de descrente daquela ideia estapafúrdia, foi convencido pela mulher e a filha. E, por coincidência ou não, passou um homem em uma charrete puxada por um pangaré. E não é que ele tinha uma gatoeira para vender?

                Sem alternativa, Leopoldo tratou de desembolsar uma grana para ter a tal armadilha para felinos. E tentou por mais de hora capturar o Rudinei, mas não funcionou. Quando Leopoldo quis reclamar com o vendedor, nem sinal dele, muito menos do sujeito que havia lhe dado a ideia. O jeito foi tentar o caminho lógico.

                    Os bombeiros chegaram e, em poucos minutos, lá estava o felino no colo da filha do Leopoldo. Tudo resolvido, lá foram os quatro para o apartamento, onde fecharam as janelas para evitar novas fugas do danado. 

                        Leopoldo, esparramado no sofá, foi beijado e abraçado pelas mulheres de casa, enquanto Rudinei, na outra ponta, o observava com certo ar de superioridade.

                — Ah, pai, você é meu herói! Obrigada por salvar o meu bebê!

                De certo modo, Leopoldo se sentiu orgulhoso, apesar de não ter sido exatamente ele a solucionar aquele problema. E foi aí que, do nada, ele disse para filha:

                — Só não me apareça aqui em casa com um conterrâneo do Putin. 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Senhas de silêncio

    

    Não dormiam juntos nem trocavam olhares, como se há muito fossem desconhecidos. Desafetos mais por hábito do que por circunstâncias deixadas para trás, meras passagens de um livro esquecido na estante.  

        Gláucia e Osmar, casados antes mesmo dos primeiros passos na vida adulta, pareciam conformados com o destino provocado por imprudências. A cerimônia foi breve para apaziguar suspeitas, tendo o primogênito nascido prematuro, versão conveniente, que ao longo dos anos foi diluída até nas memórias mais resilientes. 

            Aos trancos e barrancos, o que parecia frágil se amalgamou, a despeito de olhares suspeitos que, ora um, ora outro, direcionava a alguém. Desculpas não faltavam, promessas de que seria a última vez, que tinham um filho para criarem. E, entre iras e perdões, prosseguiram.

            Quando o menino já não era tão menino assim, Gláucia e Osmar se orgulharam de vê-lo entrando na faculdade na cidade vizinha. Todavia, os dois, ao verem o herdeiro tomar o próprio rumo, sentiram, de alguma forma, que algo havia mudado. Nada foi dito, mas o distanciamento foi inevitável. Desde então, começaram a se afastar, ao ponto de o sujeito adormecer propositalmente no sofá.

            Durante as visitas do rebento, Osmar e Gláucia se fingiam marido e mulher, como se nada tivesse mudado. Dormiam na mesma cama, mas cada um virado para um lado, constrangidos até de trocarem olhares. No entanto, com o avançar dos meses, até as aparências foram deixadas de lado. O filho fingiu não perceber, não queria ter mais com que se preocupar além do curso de física.

          As palavras foram trocadas por desvios de olhares. Melhor assim, já que os dois preferiam evitar imbróglios desnecessários. As refeições eram feitas em horários diferentes, os ambientes passaram a ser ocupados solitariamente, os sons dos passos se tornaram senhas para que o outro se afastasse.

            A formatura chegou como alívio para o rapaz, que não deseja voltar a morar com os pais. Havia conseguido emprego em uma escola, além de engatar no mestrado. Gláucia e Osmar, olhando para trás, perceberam que não tinham se saído tão mal. Inebriados por conta do orgulho, festejaram ao lado dos pais dos outros formandos. 

           Beberam além do esperado e, sem condições de qualquer um dos dois dirigir, resolveram se hospedar num hotel. Deitados na mesma cama após mais de três anos, Gláucia e Osmar, suficientemente embriagados, tocaram as mãos quase como da primeira vez, quando as espinhas residiam sem cerimônia em seus rostos. 

            No dia seguinte, tomaram café da manhã juntos. Trocaram olhares enquanto os pensamentos corriam. Retornaram, mãos dadas, para casa depois de anos.

  • Nota de esclarcimento: O conto "Senhas de silêncio" foi publicado no Notibras no dia 29/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/senhas-de-silencio/

terça-feira, 28 de abril de 2026

Maldade em tom de domingo

   

    Quem visse aquela senhorinha, cabelos sem tintas, óculos ajustados no nariz típico — que não escondia as origens italianas —, bochechas proeminentes que se destacavam a cada sorriso franco, nem desconfiaria que se tratava de uma assassina, cujo sangue corria gélido por veias que saltavam a cada movimento. 

     Francesca Rossi, algo em torno dos 80 anos, morava sozinha. Era pouco visitada por filhos, netos, amigos e conhecidos, o que lhe permitia colocar em prática toda a maldade longe de olhos curiosos. Quando Júlia, a caçula, a visitava, fingia estar entretida com leitura de algum romance de José de Alencar. O Guarani, ela teria lido ao menos três vezes; Senhora e Iracema, até mais. 

        — Mamãe, por que a senhora não lê outros escritores? Quer que eu lhe traga algum do Jorge Amado?

          — Deus me livre e guarde daquele devasso!

         Tanta castidade, a despeito dos oito filhos enfileirados, escondia um coração carregado de perversidade. E, quando se viu viúva, verteu apenas as lágrimas suficientes para não levantar suspeitas. Ademais, aproveitou a solidão para se dedicar aos seres que repugnava, como se não fossem merecedores de respirar o mesmo ar que lhe mantinha viva.

           Francesca se dedicou ao ofício. E, não tardou, se sentiu quase satisfeita com o patamar atingido. Não era sorte ou acaso, mas estratégica pura. E seus movimentos não eram guiados por impulso, mas técnica refinada por repetição.

            Era domingo, fim de tarde, quando Júlia, o marido e os filhos se despediram de Francesca. Haviam ido para passar o dia com a parenta. A idosa, boa atriz que era, fingiu insatisfação na hora do adeus, o que arrancou palavras de remorso da filha.

                — Ah, mamãe, não fique assim. Prometo que voltaremos na semana que vem.

                — Promete mesmo?

                — É claro que prometo, mamãe!

                Mal deram as costas, Francesca sentiu aquele alívio dos que se percebem sós. A mente em frenesi indicava que ela precisava matar novamente. No entanto, pacientemente, esperou pelo momento mais apropriado para agir. Que suas ações estivessem acobertadas pelo silêncio da madrugada. 

                Francesca pegou a longa arma na despensa, depois caminhou até a sala, apagou todas as luzes e se deitou no sofá. Planejou mentalmente cada passo até que as ideias fossem superadas pelo sono, que logo se instalou. Adormeceu sem culpas ou remorsos. 

                  Duas da madrugada, Francesca abriu de repente os olhos. Ela sentiu que a hora havia chegado. Sorriu com os lábios entreabertos, pegou a arma ao lado, acendeu a luz e agiu tão rápido que não deixou oportunidades de fuga.

                    Coitadas das baratas. Não sobrou uma. //

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Entre chá, torradas e poesias

    

        Era prática, como se calculasse cada passo sem recorrer a sentimentos. Isso, aliás, levantava suspeitas de vizinhos, que, vez ou outra, poderiam especular se tratar de alguém afeito a psicopatias. Carla, quando tais conjecturas chegavam aos seus ouvidos, não as refutava, mas parecia se embriagar com cada palavra.

         Divorciada duas vezes, preferiu deixar as coisas do coração para os volumes de Álvares de Azevedo que costumava folhear enquanto saboreava chá com torradas na sacada do apartamento com vista para o Lago Paranoá. Nessas ocasiões, binóculo à mão, atrevia-se a se inteirar dos acontecimentos até onde a visão alcançava. E foi assim que ela notou pela primeira vez aquele homem, que parecia aborrecido enquanto passeava com o cachorro miúdo, desses peludos, que há tempos roubaram a preferência por poodles e pequineses. 

       Carla levou uma torrada aos lábios e a mordiscou, enquanto pensamentos levaram esperanças ao coração. Quer dizer, não é necessário florear sentimentos, estamos entre adultos. A mulher desejou aquele tipo. Ela o acompanhou por dias, praticamente no mesmo horário, o trajeto quase idêntico, como se tentando adivinhar os passos do dia anterior. 

            Despida de acanhamento, Carla, depois de constatar a perenidade de comportamento do passeador de cachorro, sentou-se estrategicamente no banco em frente à calçada. Não tardou, lá estava o pequenino felpudo ao lado do bonitão. Mais alguns passos da dupla, a mulher, cheia de propósitos, puxou conversa.

            — Boa tarde! Qual é a raça?

            — Hum... Shih Tzu.

            — Lindo cachorro. Parabéns.

            — Obrigado. Na verdade, não é meu?

            — Não?

            — A minha esposa comprou pra minha filha. É da nossa filha. Quer dizer, hoje nem sei mais se é.

            — Não?

            — É que ela não passeia mais com a Lilica.

            — Lilica?

            — É. Foi a minha filha que colocou esse nome.

             Carla sorriu seu melhor sorriso, levantou-se e, olhando dentro dos olhos do gajo, estendeu a mão.

             — Carla.

             — Ah, eu sou o Rubens.

             — Prazer, Rubens. Adorei a sua Lilica. Espero vê-la outras vezes. Até qualquer hora.

       Carla se virou e seguiu em direção ao seu edifício, certa que estava sendo acompanhada pelo olhar do dono da Lilica. 

         Três dias depois, tempo suficiente para fazer com que homens mantenham o foco sem perder o desejo, Carla se fez presente no mesmo banco. A conversa se desenrolou com mais desenvoltura, o que não impediu Rubens de olhar por cima dos ombros em direção ao apartamento. Ela sabia que o sujeito temia ser descoberto pela esposa, o que a deixou ainda mais desejosa. 

            Trocaram telefones. Enquanto Rubens tinha como certo novos encontros, Carla já havia traçado mentalmente o que iria acontecer. Três dias após, tomado de desejo, Rubens enviou uma mensagem pelo celular.

"Oi!"

Carla percebeu, mas fingiu ignorar. Ele insistiu.

"Oi! É o Rubens da Lilica. A cachorra."

           Carla achou graça da própria maldade, como se fosse espectadora e diretora daquele roteiro, prestes a se transformar em um filme tragicômico. A mulher fez questão de não responder. Permaneceu muda, a despeito das inúmeras mensagens, cada vez mais frequentes. 

            Mais três dias, Carla se sentou no mesmo banco, pois sabia que Rubens logo apareceria. Dessa vez, ela levou um exemplar de A verdade nos seres, de Daniel Marchi. Ela admirava o autor, mas, naquela ocasião, ela preferiu se ater às entrelinhas do relacionamento que estava a caminho. 

                — Oi, Carla! Mandei mensagem pra você, mas acho que anotei errado o seu número.

                — Oi. Sério? Deixe-me ver. Ih, é verdade! Ando tão ocupada, que você nem imagina. Você acredita que até a minha mãe anda reclamando?

                      — Muito trabalho?

                      — Ih! Demais!

                      — E esse livro? É sobre o quê?

                      — Poemas. Faz o seu tipo?

                      — Sim. Gosto muito de poesia, de Drummond, Vinicius, Cecília...

                     — Também, mas tenho buscado novas experiências. Você deveria tentar também. Afinal, uma vida sem poesia é muito monótona. Você não acha, Rubens?

                 O homem ficou ali parado, não soube dizer palavras, mas seu coração o entregou. Ele baixou os olhos tentando esconder os sentimentos. Pobre Rubens, já não tinha como escapar. Fora fisgado.

                        — Bem, Rubens, preciso ir. Mas vamos nos falando por mensagens.

                    Carla se levantou, estendeu a mão, que Rubens tocou com sofreguidão. Ela se virou e caminhou em direção à portaria do prédio. Não foi preciso virar o rosto para conferir se o sujeito a estava acompanhando com os olhos. A mulher não teve sombra de dúvida. 

                        Naquele mesmo dia, quando a noite avançava, Carla, já deitada, folheava o poeta Daniel Marchi, quando percebeu a luz do aparelho celular acender. Mensagem do Rubens. Ela terminou de ler o poema e, sem pressa, verificou.

"Oi! Tudo bem?"

                         Ela percebeu o horário, 23h32. Achou curiosa a posição dos dígitos e respondeu.

"Oi."

                         Do outro lado, Rubens foi tomado por um turbilhão de emoções. Olhou ao lado, confirmou que a esposa ainda dormia, levantou-se como um felino e se dirigiu à sala.

"Tudo bem?"

"Sim. Cadê sua mulher?"

"Dormindo."

"Hum."

"Tenho pensado direto em você."

"Sério?"

"Sim!!!"

"Sua mulher sabe disso?"

"Tá maluca? Se ela souber, me mata."

"Não tem medo de morrer?"

"O risco vale a pena."

"Você é maluco."

                       Se Rubens era ou não maluco, Carla não se importava. Ela deu corda o suficiente para que o sujeito estivesse tão emaranhado, que não teria como escapar. E o primeiro encontro aconteceu no dia seguinte. Breve, é verdade, no apartamento da Carla, enquanto a peludinha Lilica, confortavelmente acomodada no sofá da sala, fingia não escutar os gemidos vindos do quarto ao lado. 

                   Passados quase seis meses, os enamorados continuam firmes. Quer dizer, Rubens andou pensando em separação da esposa, mas Carla foi terminantemente contra. Ela não é uma destruidora de lares. Ademais, quando quer um pouco de romantismo, prefere se deitar com velhos conhecidos como Drummond, Vinicius, Cecília, além, é claro, do Marchi, tão provocador. De resto, homens dão trabalho demais!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre chá, torradas e poesias" foi publicado no Notibras no dia 27/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/entre-cha-torradas-e-poesias/

domingo, 26 de abril de 2026

Independência ou (quase) morte

  

        Desde muito cedo, quando a face conhecia nada mais do que penugem, Alex desejava ser dono do seu próprio espaço, sem que precisasse dar explicações sobre o que fazia e a hora que deseja retornar. A rua era seu mundo, tolhido por sua mãe, que não admitia ser contrariada.

          — Alex, vou te falar pela última vez! Minha casa, minhas regras!

          — Mas, mãe...

          — Comigo não, violão! Se quer bagunça, que arrume seu canto, que já estou cansada de limpar bunda de marmanjo.

          Como é que é? Tudo bem que Alex, apesar de trabalhar, não conseguia se sustentar, ainda mais porque seus gastos, obviamente por conta do turbilhão de hormônios, estavam comprometidos com, digamos, algo mais urgente. No entanto, a genitora poderia ser mais complacente, não precisava esfregar tantas verdades na cara do rapazola de, apenas, 34 anos. 

          Aconteceu num agosto, quando dona Janice, a durona que havia parido Alex, recebeu a triste notícia do falecimento de uma parenta querida, tia Altamira. Além dos laços sanguíneos, a mulher possuía forte vínculo espiritual, já que a falecida também era sua madrinha. Não tinha como abandonar tantas lembranças.

      Diante de tamanha proximidade, lá foi dona Janice prestar as últimas homenagens à defunta, cuja morada eterna seria ocupada no dia seguinte lá no Cemitério São Vicente de Paula, em Unaí-MG. Todavia, antes de sair do apartamento na Asa Norte, em Brasília, ela fez questão de jogar um pouco de responsabilidade sobre o colo do filho.

        — Olha aqui, Alex, não sei quando volto, pois minhas primas vão precisar de suporte emocional. Então, trate de manter tudo arrumado, que não sou sua empregada!

        Não que o sujeito não tivesse sentimentos, mas o luto não se instalou em seu íntimo. Ele conhecia tia Altamira e, talvez por isso mesmo, sabia que a velha já estava fazendo hora extra entre os vivos. Que São Pedro a recebesse de bom grado, já que a idosa sempre soube rezar o terço com devoção. Por outo lado, pensou, pelos menos por alguns dias, ele seria o dono daquele ambiente, sempre dominado por mãos de ferro da matriarca!"

         Os três primeiros dias foram de esbórnia total. É verdade que Alex precisava trabalhar, mas, assim que abria a porta de casa, pegava uma lata de cerveja na geladeira e ia se refestelar no sofá, sem se preocupar em tirar os sapatos. Ah, se dona Janice o visse daquele jeito! Era bronca na certa, com risco de lhe sobrar alguns bons tabefes também.

        Quando chegou sexta-feira, Alex já havia se acostumado com o reinado, por mais breve que fosse. Deitado no sofá, controle remoto na mão, mudava de canal na ampla televisão. E, por mais que procurasse, parecia entediado, quando o telefone tocou. Era Rogério, seu amigo de farras.

        — Alex, arrumei duas gatinhas pra gente sair hoje. 

       — Opa, que coisa boa! Vou tomar aquele banho caprichado e passar o perfume importado da minha mãe. 

            Quando chegou a hora, Alex, diante do espelho do banheiro, se olhou pela última vez. Caminhou que nem pavão para a porta e, do nada, recebeu uma mensagem no celular. Era dona Janice, que dizia estar a caminho. Um frio na barriga, o homem se lembrou das palavras intimidadoras da mãe: "Então, trate de manter tudo arrumado, que não sou sua empregada!"

                Desesperado, correu todo o apartamento à procura de qualquer deslize. Além de não ter jogado o lixo fora, tomou aquele susto ao perceber a enorme quantidade de louça suja sobre a pia. Entre o amigo e as tais gatinhas e a fúria da coroa, não teve dúvida.

            — É, Rogério, não vai dar. Fica pra próxima.

            — Ué, por quê?

            — Esqueci de lavar a louça desde que minha mãe foi pra Unaí. 

            — Caramba!

            — Pois é, meu amigo, morar sozinho tem dessas coisas.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Independência ou (quase) morte" foi publicado no Notibras no dia 26/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/independencia-ou-quase-morte/

sábado, 25 de abril de 2026

Até o dicionário desconfia

    Zeca, a despeito da simplicidade fonética do seu nome, fazia questão de ser o mais rebuscado possível na escrita. Seus contos, ainda que não ocupassem mais do que duas ou três laudas, comportavam vocábulos que até o próprio dicionário ficaria em dúvida sobre a sua existência.  

      Fulano não era lento, mas cuntatório. Beltrana, então, era afamada por sua percuciência, enquanto sicrano, que havia se aventurado por um acantil, foi acometido, durante viagem às terras chilenas, de  pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. E a coisa não parava por aí, como se o sujeito tivesse regozijo de imaginar o leitor aborto em pensamentos, fingindo entender o que lhe era deveras alheio. Touché!

    — Não perco meu tempo com esses tipos, cujo caráter seja dúbio ou deletério.

    — E quem entende?

    — Hum! Não tente jogar pra cima de mim a culpa da ignorância do mundo, Aurélio.

    Levava a piteira aos lábios delgados, tragava e, assim que a fumaça se esvaía na busca de outros ares, Zeca cofiava o bigode digno de quem confere a métrica de poesia parnasiana em busca de algum deslize. 

     — Veja bem, meu dileto confrade, não me atrevo a fazer parte dessa barafunda de textos de hoje em dia. Sinto saudade, Aurélio, dos idos de antigamente, quando a pena era coisa sagrada. E não me entenda mal, cá entre nós, que a frugalidade fique apenas no prato de comida, o estômago a tudo aceita. Porém, todavia, contudo, entretanto, para o cérebro, meu amigo, nada menos do que escritos lautos. 

     Aurélio, visto que aquela batalha estava perdida, ergueu o copo e propôs um brinde.

     — A você, Zeca, o escritor das palavras difíceis.

    O companheiro, sorriso nos lábios, aceitou de bom grado a singela homenagem e, após degustar o licor, repousou o copo sobre a mesa de mogno. 

     — Meu nobre Aurélio, você me colocou em estado de júbilo inenarrável. E você está certo, pois não me preocupo em ser fácil, meu amigo. Fácil é anedota contada em botequim, onde até os temulentos a entendem. Não sou pão de ló, que serve aos banguelas de intelecto. Sou denso, meu estimado companheiro, que nem bolo solado. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Até o dicionário desconfia" foi publicado no Notibras no dia 25/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/ate-o-dicionario-desconfia/

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Crime, castigo e escanteio

          

          Dona Chiquitota, torcedora fervorosa do Botafogo, não media gritos e sorrisos quando o time vencia. E não perdia a oportunidade de alfinetar familiares, amigos, conhecidos e até desconhecidos que passassem com a camisa dos adversários. No entanto, bastava uma derrota para que a senhora vestisse a carranca da austeridade, como se futebol fosse algo alheio às suas preocupações, certamente mais urgentes.

          Olhos fixos em algum volume de Machado, Dostoiévski ou Nietzsche, às vezes arriscando escritores recentes, dona Chiquitota, por detrás das grossas lentes dos óculos de armação de acrílico, que algum observador menos atento poderia supor de casco de tartaruga, fingia interesse pela leitura. Não que os autores não merecessem e tivessem o apreço da mulher, mas o coração, ah, esse maldito revelador dos sentimentos mais escamoteados, palpitava em lágrimas. 

          Não pense você que lhe faltassem desafetos à espreita. Ao menor deslize, saltariam que nem abutres sobre a carcaça da velha. Isso caso não lhes faltasse algo: coragem. Sem contar a imutável expressão de paisagem que se instalava na cara da dona Chiquitota sempre que o Glorioso sofria qualquer revés, por menos relevante que fosse. Como chamar para luta criatura que aparentava já ter travado todas as batalhas?

          A mulher, no entanto, nem sempre fora assim, e o motivo da virada de chave aconteceu no fatídico nove de maio de 1976, quando o Botafogo enfrentou o Vasco da Gama no Maracanã. O time da dona Chiquitota abriu o placar, mas o Gigante da Colina virou, dois gols do artilheiro Roberto Dinamite, com direito a deixar os torcedores dos dois times boquiabertos com a maior pintura já protagonizada nos gramados, isso aos 45 minutos da etapa final. Matada no peito, chapéu no zagueiro Osmar Guarnelli e, de voleio, pimba, sem qualquer chance para o excelente arqueiro Wendell.

          A então jovem e apaixonada Chiquitota, que ainda não ostentava o título de dona, quase enfartou de desgosto. Os pais, desenganados, imaginaram que a filha não resistiria e até chamaram o padre Alfredo às pressas. Não se sabe se foram as rezas ou a sapiência que se apoderou da moça, o certo é que ela apresentou melhoras significativas já na manhã seguinte. Tanto é que teve disposição para se casar no final daquele mesmo ano, com direito à lua de mel prolongada por quase duas semanas em Salvador. 

            A botafoguense, em 1980, ganhou os gêmeos Nilton e Manoel, que naturalmente cresceram alvinegros. Pouco mais de 30 anos depois, os dois tiveram seus filhos, sendo Gerson e Waldir do Nilton, enquanto Manoel teve a felicidade de carregar no colo a pequena Sonja. 

            Por coincidência ou algum evento que só acontece ao time da Estrela Solitária, todos os netos de dona Chiquitota seguiram o caminho da avenida Venceslau Brás, 72. E o seguinte interlúdio aconteceu na varanda do apartamento da dona Maricota, localizado ali no início da Asa Norte, em Brasília, com vista privilegiada para o estádio Mané Garrincha.

            — Vovó, a senhora não fica triste quando o Botafogo perde?

            — Sonja, vou te contar um segredo. Então, meninos, cheguem mais perto, que não quero que seus pais ouçam. E vocês não podem dar com a língua nos dentes. Combinado?

            Obviamente que os três concordaram.

            — Olha, aprendi há muito tempo que não posso me emocionar muito. Então, faço assim pra não sofrer. Quando o Botafogo ganha, fico feliz, mas quando perde, ih, esqueço. Mas, na verdade verdadeira, é tudo fingimento.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Crime, castigo e escanteio" foi publicado no Notibras no dia 24/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/crime-castigo-e-escanteio/

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Penas, prosa e prumo

         

        Por favor, não me confunda com uma dessas pessoas insanas, que inventam diálogos entre animais. Sou cética, afeita a fatos e nada mais. E também não estou aqui para tentar convencê-lo do contrário, pois cabe à razão (ou a sua falta) de cada um para discernir o que é real ou divagação. Entretanto, confio no seu discernimento para afirmar que a mente humana é capaz de coisas que até Deus duvida.

          Para não prolongar a conversa, digo-lhe que presenciei algo que, caso alguém de índole duvidosa me afirmasse, não lhe daria ouvidos. Faria cara de paisagem, educada que sou, mas sem tentar argumentar algo implausível. Sim, isso mesmo! Inverossímil. 

        Dois galos, meu amigo. Exatamente isso. Dois belos galos caipiras trocando olhares suspeitos sobre cinco ou oito galinhas. A princípio imaginei que fosse coisa da minha cabeça, mas eis que um deles, o carijó, trocou o cocoricar por vocábulos que pareciam emprestados de um volume do próprio Machado de Assis. Coisa esquisita, tenho que concordar, porém não pude refutar que aquilo se tratava de pura realidade, ainda mais quando o outro galo, de penas avermelhadas, levou a ponta da asa esquerda até o queixo e, então, inclinou a face ligeiramente para encarar as galinhas. Em seguida, voltou a olhar o companheiro e, sorridente, respondeu:

        — É verdade. Elas devem estar aprontando alguma.

        Isso me fez prestar atenção nas senhoras penadas. Uma mais linda do que a outra, por sinal. No entanto, em vez de frases cheias de concordâncias corretas, nada mais do que os costumeiros cacarejos. Será que apenas os galos possuíam o dom da fala?

      Antes que eu pudesse chegar a alguma conclusão, eis que um pato, tentando acompanhar um marreco, tagarelava no que supus ser mandarim. Que fosse coreano ou japonês, não posso afirmar, mas certamente não era francês, espanhol ou italiano. Seja como for, o marreco parecia não dar bola para o pato e, por isso, apressava o passo. 

            Loucura, você pode dizer. Todavia, meu amigo, eis que algo ainda mais inusitado apareceu. Um peru. Sim, um peru, que tentava se fazer garboso, creio querer até se passar por pavão. Usava obséquio quando puxava assunto com as galinhas, que nitidamente não lhe davam bola. Ciscavam, ciscavam, ciscavam como disfarce ou em busca de minhocas. 

            — Laura.

            Jorge, meu marido, apareceu e, de repente, todos aqueles seres falantes voltaram a ser meras aves. 

            — Laura, vamos embora?

            — Já?

            — Sim. Já estão todos no ônibus.

            Não tive escolha e, então, voltei para o ônibus. Já acomodada na poltrona, abri a janela e observei por alguns instantes aqueles animais, quando tive a nítida impressão de que aquelas galinhas, uma mais linda do que a outra, me lançaram sorrisos zombeteiros, ao mesmo tempo em que os galos duelavam seus cantos: "Cocoricó! Cocoricó!"

  • Nota de esclarecimento: O conto "Penas, prosa e prumo" foi pubicado no Notibras no dia 23/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/penas-prosa-e-prumo/

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O milagre da subserviência

     

        Disse sem premeditação, de supetão, causou certo desconforto, porém logo dissipado como fumaça de charuto diante do ventilador. Permaneceu o odor, é verdade, que todos achamos por bem fingir não notar. Suponho que não fui o único da sala a fazer promessas de vingança, todas, obviamente, feitas na surdina de cada mente covarde. 

           Tibúrcio, cujos olhos pareciam conhecer o pavor daqueles ao redor, fazia pausas, não para buscar palavras perdidas, mas como estratégia de imposição de terror. Os poucos vocábulos que não saíam da sua boca não eram afrontas. Bajulações, nada mais. Tolas, que não acrescentavam, apenas buscavam florear o que já havia sido dito. Se eu também quis dizer algo? As ideias me fugiram todas, como baratas quando alguém acende a luz. Talvez tenha sido esse o motivo do chefe me encarar.

          — E tu, Márcio? Por que nunca ouço a sua voz? 

          Isso me forçou a tentar manter os olhos sobre os do Tibúrcio, que prosseguiu.

        — Tu tá com medo de mim?

        O sujeito se ergueu da poltrona, abriu os braços, girou de um lado para outro e, sorridente, aumentou um tom para que todos ouvissem.

        — Vejam só, meus amigos, como são as coisas. Eu, Tibúrcio Naves Tavares, homem que sempre buscou a paz, pareço oferecer algum perigo?

            Ninguém ousou contestá-lo, enquanto eu permanecia na berlinda. Tibúrcio se virou para mim, tocou meus ombros, olhou dentro dos meus olhos, inclinou levemente o rosto para o lado e me questionou.

            — Eu te assusto, Márcio?

            Era nítido a qualquer um que ele me assustava, ainda mais porque não sabia o que deveria responder. Seja como for, deixei que as palavras saíssem sem discernimento.

            — Não, senhor.

            — Não?

            Eu sabia que não poderia vencer aquele jogo, o que me deixava, de certo modo, menos desconfortável. Tratei de me tornar ainda mais subserviente, pois era justamente tal postura esperada por meu algoz. 

            — Não, senhor.

            — E por que não, Márcio?

            — Porque todo líder reconhece entre seus súditos aquele que lhe é mais fiel. 

            Tibúrcio pareceu surpreso e me puxou para perto.

            — Vejam, meus amigos, eis que encontrei, entre todos vocês, aquele que irá ocupar a sala ao lado da minha. 

            E foi assim, sem explosões, que conquistei a vaga de subgerente do departamento de estoque da loja de departamento que trabalho há cinco anos. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O milagre da subserviência" foi publicado no Notibras no dia 23/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/o-milagre-da-subserviencia/

terça-feira, 21 de abril de 2026

O analista de boteco

            

                Nunca foi de beber além da conta. Era do tipo que preferia dar umas bicadas de leve, observar o povo ao redor e, não raro, tecia teses sobre o caráter dos presentes. Tudo em sigilo, tendo apenas como testemunha o próprio reflexo no espelho do banheiro antes de dormir. 

         Entre os que frequentavam a mesma mesa, havia Luciano, bravateiro que nem ele só. Normalmente se sentava em frente ao Márcio, cujo sono era convidado já nos primeiros goles. Isso, aliás, era mote para o contador de vantagens aumentar o tom da voz para lançar desafios na outra ponta da mesa, onde, quase sempre, estava o Ricardo, que não era Erasmo, mas também era gigante de coração de menino. O grandalhão era só sorrisos e, quando muito, gargalhava das piadas mal contadas por Gilmarildo, um sujeito agradável que nem ele só. 

             Por sorte ou recomendação médica, todos residiam nas proximidades do boteco, o que evitava serem parados por uma blitz na esquina. Algumas pernadas, mesmo que cambaleantes, a rapaziada já chegava aos respectivos lares, doces lares. Que os males ficassem por conta do fígado de cada um. 

             Luciano, mero bancário, assim que o álcool iniciava a transformação, dizia que trabalhava porque gostava de ver como era a vida de pobre. Que era herdeiro, que o avô havia sido coronel no sertão, que o pai incentivava os filhos a entender como é que a ralé sobrevivia. Gilmarildo, entre uma anedota e outra, provocava o colega.

            — Tá, Luciano, mas quando é que você vai apresentar o relatório pro seu pai?

            Pego de surpresa, o jactancioso amarrava ainda mais a cara, torcia o pescoço para o lado, depois para cima, finalmente para baixo, fungava duas ou três vezes, tomava um gole longo, pousava o copo sobre a mesa, encarava o Gilmarildo, levava o copo aos lábios novamente, fingia sorver mais um gole e, diante da falta de argumento, catava duas ou três batatinhas à frente e ocupava a boca, quando ninguém mais esperava coisa dita. Ricardo, mais pra cá do que pra lá, tentava ver as horas, quando os ponteiros do relógio já lhe pareciam desalinhados. 

            Márcio, alheio àquela situação, cabeça tombada para frente, queixo quase encostado no peito, era a maior incógnita. Os sonhos já teriam se apoderado do sujeito ou, então, o corpo estava sentindo engulhos por conta da bebida? Quanta infelicidade escamoteada haveria por trás daquela expressão suave? Por um instante, enquanto observava o amigo, desejou que o dorminhoco fosse tomado pelo ímpeto de Luciano. Que nada! O ronco sonoro tomou por completo os ouvidos.

            Por descuido ou vontade contida, o homem tomou um gole. Tomou outro e, quando um terceiro estava a caminho, lembrou-se das palavras de sua finada avó:

            — Preste atenção, Osvaldo, que a coisa é séria! Nenhuma dose de álcool é segura! Mas fico bem feliz. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O analista de boteco" foi publicado no Notibras no dia 21/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/o-analista-de-boteco/

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Entre o Ricardo Darín e os bolinhos de chuva

    

            Jairo, vizinho de frente, é ator. Não desses que vemos na televisão ou no cinema, mas de teatro. Diz que já atuou em novelas, pequenos papéis, nada que o diretor não possa cortar para dar mais tempo aos comerciais. Também jura que apareceu em Central do Brasil, que é possível vê-lo na multidão que passa por detrás da Fernanda Montenegro enquanto ela escreve uma daquelas inúmeras cartas. 

            Gosto do sujeito, um tipo que não perturba. Costumo dizer para meus amigos, apaixonados por cinema argentino, que moro em frente ao Ricardo Darín. Obviamente que ninguém acredita, pois, até onde todo mundo sabe, ele não largaria a sua Buenos Aires nem por Nova Iorque, quanto mais para se esconder em um quarto e sala em Brasília. 

            Reunião de condomínio é algo que evito ao máximo. No entanto, fui pego desprevenido na última e, sem molejo de inventar mentira de última hora, deixei-me ser puxado pelo braço por dona Zuleica, simpática moradora do 304.

            — Vamos, Reinaldo, que hoje vai ter bolinho de chuva.

            Bolinho de chuva? Gente, como se eu, aos 38 anos, ainda tivesse interesse por bolinhos de chuva. Mas como resistir ao sorriso daquela senhora, dona de dois gatos e cabelos com cheiro de fritura que me lembram os da minha finada avó?

            — Sério?

            — Sério! Foi a Letícia que fez. Você acredita que ela separou do marido? 

            — Sério?

            — Sério! A pobrezinha está daquele jeito, asa caída, olhar perdido. E tão jovem ainda. 

            Sem saber o que dizer, arregalei os olhos, o que fez com que dona Zuleica aproveitasse a oportunidade.

            — Pois é, Reinaldo, homem bom tem olhos castanhos, que são sinceros. Os do ex-marido da Letícia eram verdes. Precisa ser muito ingênua pra acreditar num homem assim.

            — Por conta dos olhos verdes?

            — É! Você não sabia?

            — Não.

            — Por isso que o mundo está desse jeito, Reinaldo. Ninguém mais sabe de mais nada. 

            Por sorte, outros moradores chegaram e, assim, as atenções foram distribuídas. Lá estavam, entre outros, Marília, Afrânio, o velho Jofre, também o simpático residente do apartamento 101, cuja excentricidade do nome me faz esquecê-lo. O último a chegar foi justamente o Jairo, que chegou altivo, sorriso largo, como se estivesse pisando no palco. Confesso que senti certa inveja do gajo, mesmo que por infame minuto, até que a Mirtes, a síndica, deu início à assembleia. 

            O principal assunto era a nova cota condominial destinada à pintura do prédio. Todos, com exceção da Mirtes, foram terminantemente contra. Mas não pense você que a coisa foi tão simples assim, já que a síndica não é mulher de entregar os pontos facilmente. Ela apelou para tudo e para todos, até meteu Jesus no meio, como se ele estivesse mais preocupado com a tinta descascada da fachada do edifício a salvar as almas dos fiéis. 

             Enquanto aquela batalha era travada, puxei conversa, à boca pequena, com o meu vizinho.

             — E aí, Jairo, como é a vida de ator?

             Ele me olhou com olhos de mestre, sorriu levemente, tocou meu ombro e disparou:

             — Sabe, meu jovem, nós, que vivemos da arte, estamos amparados por um direito universal.

             Curioso, esperei que Jairo completasse o pensamento, mas ele soube aproveitar aquele momento, o que me obrigou a questioná-lo:

             — E qual é esse direito universal?

             Jairo sorriu, pousou levemente a mão sobre o meu ombro e, com a franqueza própria dos grandes atores, me confidenciou:

             — Passar vergonha, meu amigo, passar vergonha.

             Nem notei quando a síndica deu por encerrada a reunião. Os ânimos, ainda exaltados por causa das desavenças, foram resolvidos diante da bacia cheia de bolinhos de chuva, que, aliás, estavam deliciosos. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre o Ricardo Darín e os bolinhos de chuva" foi publicado no Notibras no dia 20/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/entre-o-ricardo-darin-e-os-bolinhos-de-chuva/