— Ando sem apetite.
— Velhice é assim, Augusto.
— Como assim?
— Sem apetite. Juventude é que é gulosa.
— É verdade. Nunca havia pensado por esse
ângulo. Queria eu ter o apetite dos meus trinta. Falta-me ânimo para tantas
coisas, meu amigo. Até mesmo para devorar uma coxinha, mas nem me atrevo. Capaz
do meu estômago me processar.
— Capaz, Augusto. Capaz.
Os dois homens são compelidos a
mais um gole no café. Observam o movimento na padaria, praticamente os mesmos
clientes de ontem, de sempre.
— A moral às vezes atrapalha.
— O que você disse, Ernesto?
— A moral, meu amigo. A moral.
Essa coisa que fica à espreita e não perde a oportunidade de entornar o caldo.
— Não estou te entendendo.
— Olha, Augusto, veja esse caso.
Aconteceu há poucos dias, sexta-feira passada. Minha nora, a Gláucia, você a
conhece.
— Sim, sim, conheço a Gláucia,
esposa do Rubens.
— Pois a Gláucia, mulher do meu
filho... Descobri que... Situação complicada, tudo por causa dessa maldita
moral, que me cobra atitude nesta altura da vida. Minha nora trai o meu filho.
E agora?
— Complicado, meu amigo. Muito
complicado.
— Melhor seria não ter visto.
Pior de tudo é que ela me viu também. E, desde então, vivo num impasse,
Augusto. Devo eu contar o que sei pro meu filho ou, então, guardar o segredo da
minha nora para salvaguardar os que amo?
— Nem sei o que eu faria no seu
caso, meu amigo. Decisão complicada.
— Pois é, Augusto, mas tenho
relutado em atender aos chamados insistentes dessa tal moralidade. E é isso que
tem mantido a paz da minha família.
- Nota de esclarecimnto: O conto "O peso da consciência" foi publicado no Notibras no dia 24/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-peso-da-consciencia/










