quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Três mulheres e um crime

    Aquelas calçadas carregavam histórias, dores, sorrisos, amores, alegrias breves, pesares perenes. E foi ali que Joana foi acometida, talvez pela primeira vez, de remorso. Misto de culpa e desejo por ter sucumbido aos insistentes convites de Rita.

    — Por que não, Joana?

    — E se alguém descobrir?

    — Então, o receio é esse? Tem medo de que alguém descubra?

    — Não é só isso.

    — Não?

    Joana e Rita se entreolharam até que as duas sorriram quase ao mesmo tempo.

    — Tu é louca, Rita!

    — Você acha?

    — E não é?

    — E qual é o problema de ser louca quando a hipocrisia nos faz sala como se fosse a coisa mais normal do mundo?

    — Tá! Mas e se alguém descobrir?

    — Ninguém vai descobrir.

    — E como você pode ter tanta certeza disso?

    — Não tenho.

    Diante da resposta honesta de Rita, Joana gargalhou de nervoso. Ela queria ser convencida pela amiga, apesar do receio de ser descoberta. E daí que fosse? O que o mundo teria a ver com o que ela fizesse? Mas aquilo era certo? Pensou por um instante na reação dos mais próximos, dos amigos, dos vizinhos, da mãe. Certamente, dona Aurora jamais a perdoaria.

    — Mas tem que ser hoje mesmo, Rita?

    — Que seja agora! Tem coisas que precisam ser na hora, quando a vontade bate. Do contrário, periga deixarmos a razão tomar conta da nossa vida.

    — Então, vamos, Rita! Antes que eu me arrependa.

    As mulheres, mãos dadas, caminharam determinadas a colocar o plano em prática. Foram direto para a casa de Laura, que pareceu surpresa com a chegada das amigas.

    — Hum! Pensei que vocês não viriam mais.

    — E perder essa oportunidade? A Joana e eu estamos dentro, amiga! Separou as coisas?

    Laura sorriu e apontou para a mesa. Lá estavam uma corda fina, um saco preto e uma faca de açougueiro. Meticulosamente afiada, por sinal.

    — Então, vamos?

    Joana e Rita se entreolharam, fitaram Laura e, quase em uníssono, responderam:

    — Vamos!

    A anfitriã colocou meticulosamente os objetos em uma sacola. Não tardou, as mulheres foram até a cerca que dividia os terrenos de Laura e do vizinho. Para se certificarem de que não havia ninguém em casa, Laura gritou:

    — Seu Horácio! Seu Horácio!

    Nada. Nem um único som. Laura olhou para as amigas e, em seguida, voltou a chamar pelo morador:

    — Seu Horácio! Seu Horácio!

    Certa de que a casa estava vazia, Laura se virou para Joana e Rita:

    — Vamos!

    As comparsas pularam a cerca e invadiram a propriedade alheia. As mulheres não conseguiram evitar que o frio se instalasse em suas entranhas. Todavia, já era tarde demais para voltarem atrás. O que precisava ser feito teria que ser executado. E que fossem ligeiras, antes que o velho Horácio retornasse e as flagrasse em seu território. Caso isso ocorresse, elas sabiam o que seria necessário fazer. Não tinham a menor dúvida, fariam.

    Cautelosamente, caminharam em direção ao alvo, que de bobo nada tinha. Ele fixou o olhar nas intrusas, eriçou as penas e cantou:

    — Cocoricó!

    Laura destilou ódio puro em direção ao galo:

    — Miserável! 

    Corre daqui, corre para lá, as mulheres cercaram a ave barulhenta em um dos cantos do quintal. Rapidamente, Laura, a mais intrépida do trio, avançou sobre o galo e o segurou por um dos pés. 

    — Te pequei, maldito!

    A ave começou a se debater. Em vão! Logo foi contida, os pés amarrados por Rita e lá foi o bicho direto para o fundo do saco preto, que estava sendo segurado por Joana. Assim como entraram, as mulheres saíram antes que alguém pudesse flagrá-las fazendo algo reprovável.

    Já na casa de Laura, as criminosas estavam esbaforidas. Joana abriu o saco e retirou o galo. Rita firmou o corpo do animal, enquanto Laura sacou a faca. Determinada, ela ergueu a lâmina na certeza de que daria cabo daquela ave cantante. No entanto, antes de concluir a ação, eis que a campainha tocou.

    — Quem será?

    — Só pode ser o Horácio, Rita.

    — Impossível! Hoje é quarta, dia de feira. E ele não volta antes de comer dois pastéis e um caldo de cana. 

    — Vai ver ele está sem fome hoje.

    — Joana, aquele velho sem fome? É mais fácil cair um raio sobre a minha cabeça agora mesmo.

    Mal terminou de falar, eis que um estrondo veio do céu. Trovoadas! Laura olhou para cima, fez o sinal da cruz e, olhos arregalados, soltou essa:

    — Deus me livre e guarde!

    A campainha tocou novamente. Sem alternativa, Laura gritou:

    — Tô indo!

    Joana e Rita ficaram apreensivas. Elas seguraram firme o galo e fecharam o seu bico usando as pontas do polegar e do indicador. E o tempo pareceu não se preocupar com  os que aguardavam. As duas mulheres suavam preocupações quando, finalmente, a dona da casa retornou.

    — Era ele.

    — O Horácio?

    — Sim, Joana.

    — E agora, mulher, o que a gente faz com o galo?

    — O velho pensa que nós o pegamos para preparar um almoço surpresa para ele.

    — O quê?

    — Isso mesmo que você ouviu, Rita. 

    — E agora? O que vamos fazer?

    — Cozinhar o galo, Joana.

    As três mulheres se entreolharam, depois encararam o galo e, pasmem, foram tomadas por um sentimento inesperado. Pois é, Laura, Joana e Rita pareciam compadecidas com o destino do galo. Entretanto, não havia saída, precisavam matar o bicho.

    — E se a gente fizesse uma macarronada?

    — Joana, não adianta. O velho quer porque quer comer o galo.

    Diante da falta de alternativa, Rita e Joana seguraram firme o pobre galináceo. Laura aproximou a faca do pescoço da vítima.

    — Peraí, Laura!

    — O que foi, Joana?

    — Eu tenho uma ideia!

    Laura e Rita escutaram o que a amiga tinha a dizer. Pensaram por meros segundos e, então, decidiram colocar o plano em ação.

    Quando o relógio pendurado na parede acusava pouco mais de uma da tarde, eis que a campainha tocou. Era o vizinho, que parecia faminto. O homem esfregou as mãos no bucho e lambeu os beiços com o cheiro que vinha da cozinha.

    — Pensei que vocês tivessem desistido.

    Joana apareceu com uma enorme panela nas mãos e a colocou sobre a mesa, que já estava enfeitada com tigelas de arroz, salada e farofa. Assim que ela destampou a panela, era possível ver o corpo da ave esquartejado dividindo o espaço com batatas graúdas. 

    Almoçaram sem remorsos a galinha comprada de última hora no mercado da esquina. Quanto ao galo, hoje ele mora com a Joana no bairro ao lado. Continua cantando e já conquistou alguns desafetos na vizinhança. Ah, o sortudo ganhou até nome: Cauby.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Rei da Guitarra e o Dono da Caneta

 

    Não é todo dia, mas os encontros com o meu grande amigo Marcio Petracco, no cachorródromo de Tesourinha, sempre são carregados de histórias inusitadas, enquanto a Bebel e a Clarinha correm de um lado para o outro com o Coco e o Cacau, essas maravilhosas crianças focinhudas. Don Marcito invariavelmente desce do pedestal de guitarrista e fundador da icônica banda de rock TNT e dispara:

    — Sabe, Edu, trabalhar com música nem sempre é fácil, mas é a vida que escolhi viver.

    Observo atentamente o meu amigo e me surgem dúvidas caladas. Imagino que viver da música não deve ser para qualquer um. É verdade que, vez ou outra, imagino que deve ser incrível estar diante de uma plateia que sabe de cor suas músicas. E o que seria a literatura para mim? Um trabalho? A literatura não é o meu primeiro sustento, provavelmente morreria de fome se dependesse exclusivamente dela. Todavia, creio que definharia dolorosamente sem a sua presença.

    — Don Marcito, mas deve ser legal demais tocar para uma multidão.

    — Legal demais, Edu, mas há um peso nisso. 

    — Um peso?

    — Meu irmão, nem todo dia você está bem, mas precisa subir no palco, tocar por uma hora e meia. Sabe, é muito complexo, o convívio com os caras da banda, com o público. O contato com os fãs é maravilhoso, a adrenalina dos shows, às vezes a galera quer conversar com a gente. É legal.  E tu sabe quanto pesa uma Gibson Les Paul Custom?

    — Hum... Dois quilos?

    — Seis!

    — Tudo isso?

    — Seis quilos durante uma hora e meia, Edu. Mas isso é o de menos. Na verdade, nem sinto isso. Fico ligadão na música, no som, no público.

    Nisso, o Cacau passa voando, enquanto a Bebel e a Clarinha tentam alcançá-lo. O Coco, mais ao fundo, parece ter desistido das carreiras tresloucadas. Eu o observo por um instante, é um cachorro branco com algumas manchas cor de areia. Posudo. 

    Há uns quatro anos, o Don Marcito me deu umas dicas sobre chimarrão. Aprendi a apreciar a boa erva durante praticamente um ano até que voltei o meu paladar ao café gourmet. Deve ser coisa de escritor, coisa de quem trabalha longe de uma plateia inebriada por mais um refrão, coisa de quem prefere derramar tinta de caneta sobre o papel a ter que carregar seis quilos no ombro durante seis horas. Parabéns, Don Marcito Petracco, o Rei da Guitarra do rock gaúcho! Se aconteceu exatamente assim, não posso afirmar, mas é como me lembro. Memórias afetivas, alguém pode dizer.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "O Rei da Guitarra e o Dono da Caneta" foi publicada no Jornal Cultural ROL no dia 4/11/2026.
  • https://jornalrol.com.br/?p=85637

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A pena impiedosa de Machado

         

         Lá estava Julião das Dores. Dizia-se escritor, mas a maioria, na surdina, o considerava a maior fraude literária. Um pária que se achava inovador, porém, na verdade, jamais alcançaria a coragem de Lima Barreto ou o reconhecimento de Machado de Assis.

          Desleixado com as palavras, era nítido o descaso que dava à própria aparência. Pente para quê, quando é no texto que o leitor se deve fiar? Se um desconhecido passasse por ele na rua, provável que lhe dispensasse algumas moedas. Indigente sim, senhor!

          Acordou, os olhos enevoados, passou a mão pela face. Remela seca como sua criatividade. Nada. Fixou o olhar no teto tentando encontrar ânimo, mas percebeu que a existência já estava desgastada como refrão tolo de antigo sucesso das rádios. Puro jabá!

          Cansado de escrever as mesmas tolices, Julião preparou a primeira xícara de café do dia. Foi até a sacada, observou a vida correndo nas ruas, teve ímpeto de pular. Primeiro andar, provável quebrar as pernas, alguns pontos na cabeça. Melhor não arriscar. Se ao menos tivesse alugado o apartamento 704...

          Voltou o olhar para o sofá carcomido, a estante de mogno, herança de família. Alguns volumes raros talvez valessem o custo de uma impressão inédita. Todavia, o que escrever, quando tudo parece ter sido escrito há tempos? Sentiu saudade do século XIX, apesar de ter nascido pouco antes de The Beatles se separarem. 

          A ironia bateu fundo no coração de Julião, que não foi capaz de conter o amargor das próprias palavras:

    — É, Julião, o sonho acabou quando a pena impiedosa de Machado desenhou Memórias Póstumas de Brás Cubas.

    Diante da cruel falta de perspectivas, desandou a procrastinar, algo no qual era mestre. Sacou um cigarro no maço sobre a mesa, riscou o fósforo na vã tentativa de iluminar furtivas ideias. Nada! Tragada após tragada, amassou a guimba no frio cinzeiro de vidro. Mais um, os pensamentos fugiram com a fumaça pela janela. E, antes de esmagar mais uma ponta de cigarro na sepultura, desabafou para si próprio:

    — Julião, não é fácil ser escritor!

    Almoçou o resto de macarrão ao molho de tédio do dia anterior. Bebeu o vinho barato, o único que cabia no seu bolso. Adormeceu no tapete que se fingia persa. Sonhou glórias e reconhecimentos. Finalmente, Julião das Dores era um renomado escritor. Aclamado pela crítica especializada, reconhecido no banco da praça pelos milhares de leitores. Milhões!

    Olhos cerrados, a realidade indiscreta teimou em abri-los. A testa franzida, a voz carregada de ressaca soou vazia pela sala:

    — É, Julião, ser escritor não é mesmo fácil!

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Taxa extra

  

    Taxa extra. Reunião de condomínio é ringue sem regras no escuro. Que até a mais elevada das almas perde as estribeiras, ninguém duvida.

    — Ninguém aguenta, Eleonora!

    — É o jeito, José. Você bem sabe que sou a última a querer taxa extra.

    — Última? Eleonora, me poupe!

    — Não precisa apelar pra ironia, Márcia. Fale na cara!

    — Hum! É a verdade!

    — A sua verdade, você quer dizer, né, Márcia?

    Ernesto, ao fundo da sala, tentou controlar a língua para não arrumar imbróglios particulares. Já bastavam os coletivos. Taxa extra. Ele pensou no que poderia cortar nas despesas. De cara, trocaria o café, uma marca popular. E nada de almoçar fora. Levaria marmita para o trabalho.

    — Então, meus amigos, o valor vai ser de duzentos e cinquenta e três reais.

    — Dividido em quantas prestações?

    — São dez parcelas de duzentos e cinquenta e três reais, Jorge.

    — Não vai dar.

    — O que não vai dar, Jorge?

    — Você sabe que vivo da aposentadoria, Eleonora?

    — Sorte a sua.

    — O quê? Tá zombando da minha cara?

    — E eu, Jorge, que nunca vou me aposentar? Como é que fico?

    Não teve conversa. A taxa extra foi imposta. 

    Ernesto foi um dos últimos a deixar o recinto. Muito burburinho para nada. Leite. Sim, o homem cortaria também o leite. Há muito não usava fraldas. Leite pra quê? Não era bebê.

    No elevador, Ernesto ouviu a indignação de Márcia e Lindaura. Vez ou outra, as moradoras encaravam o sujeito, talvez na esperança de incentivo. Nada! Nem mesmo uma mísera vogal.

    A porta do elevador se abriu. As mulheres saíram sem se despedir. E, antes que a caixa de transporte prosseguisse a viagem, Ernesto ouviu parte da conversa, que parecia se desenrolar pelo corredor.

    — A minha vontade era matar a Eleonora.

    — Márcia!

    — E não é?

    — Pois estou nessa contigo, amiga.

    O quê? Aquilo era sério? Ernesto pareceu estupefato. Que Eleonora era uma crápula, ele não carregava dúvidas. Que a síndica estava roubando o condomínio, bem, ele não tinha provas. Se bem que a falta de provas não o incentivava a colocar a mão no fogo por Eleonora. Mas assassinato? Aí, já era algo que extrapolava qualquer bom senso. 

    Abriu a porta do apartamento ainda atordoado pelo diálogo daquelas mulheres. Loucura. Ah, certamente palavras cuspidas da boca para fora. Será? Absurdo! Ou não?

    Ernesto pegou o resto de leite da geladeira. Mal deu para uma xícara. Esquentou e fez o derradeiro pingado até que a furtiva sorte lhe desse as caras novamente.  

    O homem puxou uma das cadeiras da mesa da cozinha e acomodou o fatigado corpo. Duzentos e cinquenta e três reais. Que afronta! De onde iria tirar tamanha quantia do seu já minguado orçamento? Voltar a trabalhar era impossível. Com tantas dores instaladas em cada junta do corpo, acabaria internado. E os remédios? De onde tiraria dinheiro para pagar os remédios? 

    Quando sorveu o primeiro gole, tudo lhe pareceu tão óbvio. E por que não? Sim! Ele se juntaria a Márcia e Lindaura. Um plano. Eles só precisariam de um plano. Pensou, pensou, pensou até que a voz lhe saiu mais alta do que o planejado: 

    — O elevador!

    Ernesto tapou os lábios, arregalou os olhos e sorriu. O maldito elevador vivia dando problemas mesmo. Uma fenda entre o elevador e o piso, algo tão corriqueiro. E lá iria a pobre Eleonora beijar o fundo do poço. Gargalhou.

    Levantou-se, foi até a sala, pegou um livro de poesias na estante, A verdade nos seres, de Daniel Marchi. Esparramou-se no sofá e, entre gargalhadas abafadas, leu páginas espaçadas. Adormeceu.

    No dia seguinte, Ernesto despertou com o burburinho nos corredores. Vozes nervosas persistiam. Ele tentou ignorá-las até que a curiosidade o levou a abrir a porta. Lá estavam José, Ruth e Soraia ruminando palavras. Ernesto colocou metade do corpo para fora.

    — Ei, José, o que aconteceu? Por que estão tagarelando tão cedo?

    — A Eleonora, Ernesto.

    — E o que tem ela? 

    — Não soube?

    — Não soube o quê, José?

    — Ela foi encontrada no fosso do elevador. Pobre mulher, não resistiu.

    Ernesto foi tomado por um misto de culpa e dúvida. Será? Não, ele não teve qualquer coisa com aquilo. Mas e a Márcia e a Lindaura? Teriam aquelas duas roubado o seu pensamento? Não, não, não. Essas coisas não acontecem. Não mesmo! Será?

    Naquele mesmo dia, Ernesto encontrou as duas mulheres. Seus olhares se cruzaram. Nada foi dito, porém, os três sentiram que havia um acordo implícito. E o silêncio foi o caminho escolhido por todos. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A noite de estreia

    Isolada. Isolda se sentia isolada desde que o câncer lhe arrancara um seio. Afastou-se, talvez por culpa, talvez envergonhada, de familiares, amigos, conhecidos. Sobraram-lhe apenas os conflitos internos que travava especialmente durante as insônias.

    Certa feita, de volta do trabalho, Isolda caminhava alheia aos sonhos da rua quando murmurinhos chamaram a sua atenção. Virou o rosto e descobriu um boteco. Pela fachada, constatou que aquele estabelecimento estava por ali há tempos: Bar do Bosco — Aqui o freguês (quase) sempre tem razão desde 1983.

    Um estranho sentimento se fez presente. Quis se enturmar. Aquela gente lhe pareceu flertar com a felicidade. A cerveja? O samba? Tantos sorrisos e até algumas gargalhadas que ecoavam. 

     Abriu a porta do quarto e sala, um mundaréu que conhecia cada canto, cada fresta, cada mofo, cada de tudo, cada de nada. Decidida, tentou convencer qualquer desânimo de que já passara da hora de se enturmar. Que aquela gente no bar era divertida. Que a vida precisava lhe sorrir.

    Amanhã. Sim, amanhã. De amanhã não passava. Iria direito da repartição para o Bar do Bosco. Retocaria a maquiagem antes de se despedir dos colegas no serviço. Que era necessário chegar apresentável.

    Amanheceu. Lavou o rosto. Escovou os dentes, passou os dedos nos cabelos grisalhos, tintas estavam proibidas. Sorriu. Sorriu de novo. A voz saiu como deu:

    — É hoje, Isolda! Quem sabe até um namorado. Nem precisa ser galã, mas que seja cheiroso.

    Tomou café, entrou debaixo do chuveiro, enxugou-se suavemente com a toalha mais felpuda. Arrumou-se para a noite de estreia. Retorno que fosse. Foi trabalhar. 

    Manhã, tarde, quase hora de terminar o expediente. Foi ao banheiro, retocou a maquiagem. Linda! Bela! Apresentável. Era o que tinha. Que se dane!

    Isolda, como de costume, se despediu dos companheiros de labuta. Ninguém pareceu notar nem sequer um risco de diferença. Se tinha, nem mesmo ela acreditava existir. 

    Do outro lado da calçada, observou o movimento no Bar do Bosco. Tudo indicava que o ambiente estava ainda mais animado. Os olhos brilharam por um instante. Voltou para o quarto e sala.

    Amanhã. Sim, amanhã. De amanhã não passava!

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Gosto de hortelã

     

   Cássio levou a xícara aos lábios, quase duas tênues linhas entre o nariz adunco e o queixo praticamente inexistente. Da janela do pequeno apartamento, observou um casal de joão-de-barro que carregava gravetos para dentro do ninho. O homem teve a certeza de que logo, logo outros seres eclodiriam na imensidão do jardim.

    Um gole, uma pausa reflexiva. Outro gole e Cássio foi tomado por uma cena a que assistira em um desses canais de vida selvagem: um búfalo e seis, sete, quinze bocas famintas. Leões.

    O gosto de café lhe pareceu sanguinolento. O ímpeto de cuspi-lo foi momentaneamente contido por um resquício de razão. Leões devoravam o pobre animal ainda vivo. Abriram-lhe o ventre, as tripas esparramadas sobre o chão da savana. Olhos incrédulos, perdidos diante do doloroso destino.

    Impasse perante a própria vida. Cássio se lembrou de Aurora. Inevitável. Sentiu-se apunhalado pela mulher que havia lhe prometido amor eterno. Fidelidade.

    — Por quê, Aurora?

    — Essas coisas acontecem, meu amor.

    — Amor? Você ainda tem coragem de me chamar de amor?

    — Costume.

    A conversa foi breve, antes não tivesse acontecido. Remoeu, remoeu, remoeu. Todos os remorsos. Lembrou-se do gosto do primeiro beijo. Gosto de hortelã.

    — É o chiclete, meu amor.

    — Quero esse gosto pra sempre, Aurora!

    — Pra sempre é muito tempo, meu amor.

    Pra sempre é muito tempo. Sim, pra sempre é uma eternidade. Gosto de sangue. Cuspiu.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Dois humanos, um gato e um cachorro

 

    Roncava aos decibéis. Sem cerimônias. Como se fosse dono dos pobres ouvidos alheios. Que aturassem aquele som tragicômico emitido. Ah, que fossem para as cucuias antes que as olheiras adornassem aquelas criaturas desprovidas de Deus. 

    O gato correu para o quintal em busca de paz. O cachorro fingiu fidelidade. Já a esposa, apesar da ferrenha religiosidade, chegou a sonhar com a viuvez.

    Humberto, ainda de pestanas cerradas, anteviu o próprio despertar. Moído por mais uma noite de pesadelos, como se tivesse sido dragado para o fundo de um lago. Sem ar. Entre a dor e a angústia. Abriu os olhos azuis despidos de ilusões. 

    — Dormiu bem, meu amor?

    Ainda absorto por uma avalanche de remorsos, Humberto vasculhou na memória um sorriso.

    — Sim. E você, Laura?

    — E como se dorme com essa tempestade?

    — Choveu?

    — Relâmpagos e trovoadas. Não ouviu?

    O homem, com movimentos incrédulos de cabeça, disse que não. Ele tentou se inteirar da vida por uma nesga na janela. Apenas alguns fachos de luz que pareciam bailar com o leve movimento da cortina.

    O cachorro olhou o ser que considerava seu mundo até receber um leve afago. Abanou a cauda. Tanto sacrifício lhe pareceu ter valido a pena.

    — Cadê o Arquibaldo?

    — Não aguentou.

    — Não aguentou o quê, Laura?

    — Na certa, foi se aliviar no jardim ou, não duvido, foi caçar. Que apanhe um rato. Não suporto quando ele mata passarinho.

    Humberto lavou o rosto, escovou os dentes. Pensou em se barbear. Entediado, preferiu deixar para outro dia. Talvez semana que vem, final do mês...

    Juca, bolinha na boca, se postou diante do homem. Olharam-se, o cachorro inclinou o focinho para frente, soltou a bolinha, que escorregou até os pés do Humberto. O sujeito sorriu, tomou o último gole do café.

    — Ele quer brincar com você, meu bem.

    Humberto assentiu com a cabeça. Beijou a mulher.

    — Vamos, garoto! Ando tão enferrujado. Se eu não quebrar, termino o dia.

    E lá foram aqueles dois brincar no jardim antes que alguém despejasse um temporal sobre eles. Ao fundo, Arquibaldo parecia se refestelar com um canário entre os dentes.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Retratos de tia Gertrudes

  

    Tia Gertrudes pouco conheci. Quer dizer, ainda guardo lembranças enevoadas daquela figura o quão taciturna pode ser alguém cuja magreza ultrapassasse as parcas carnes. Rabugenta que fosse, continuava da família. 

    Solteirona, vovó costumava dizer sobre a primogênita. Entretanto, a minha tia se recusava a carregar rótulos impostos pela sociedade, especialmente aqueles reverberados pelos lábios da própria mãe.

    — Livre, mamãe. Livre!

    — Você nasceu mulher, Gertrudes. Mulheres não são livres, jamais serão. É sina. Melhor que se aprume antes que seja tarde demais.

    Minha avó tinha lá suas ideias, a maior parte reproduções do que aprendera, seja nos parcos anos nos bancos escolares, seja nas cacetadas que levou na lida com os homens. Não a culpo nem a eximo, coisas que não vivi por completo.

    Talvez o hábito mais marcante de tia Gertrudes fosse a relutância em se deixar fotografar ao lado de quem quer que fosse, inclusive de parentes mais próximos e, em especial, de namorados de ocasião. Certa feita, fui eu o preterido.

     — Mas, titia, sou eu, seu sobrinho favorito.

    — A gente nunca sabe o dia de amanhã, Marquinhos.

    É engraçado quando alguém me visita e eu, quando a prosa é boa, resolvo lhe mostrar alguns álbuns de família. Vez ou outra, um observador mais atento fica intrigado com aquela figura isolada em inúmeros retratos.

    — É a tia Gertrudes, irmã de papai.

    — E por que ela sempre aparece sozinha?

    De vez em quando, sinto que algum espírito brincalhão me baixa e cisma em brincar com as verdades. 

    — Ah, é que a tia Gertrudes não gostava de ofuscar ninguém com a sua beleza estonteante.

    Até hoje, ninguém ousou contrariar a minha resposta, que segue como veredito de um tempo que passou mais rápido do que eu esperava. Dizer que tia Gertrudes pudesse ofuscar alguém com a sua aparência pode parecer um absurdo, e não travo imbróglios desnecessários contestando tal hipótese. O que importa, o que importa de verdade é que ela, apesar de não estar há anos entre nós, continua sendo da família.

domingo, 27 de setembro de 2026

Lar, doce e estranho lar

 

    Minha vida era um paraíso. Sim, isso mesmo. Guilherme e eu fazíamos uma dupla inseparável até que ele resolveu colocar os olhos sobre outra, uma tal Suzana. Fiquei em choque.

    Acredite, para não perder aquele que até então considerava o meu mundo, fui obrigada a dividir as atenções do Guilherme com outra. Mas eis que nunca fui de batalhas e, desse modo, resolvi quase de bom grado me aliar àquela mulher. Confesso que certo sentimento de culpa tentou se apoderar de mim, porém deixei isso de lado. Que culpa tinha eu, quando foi o sujeito que resolveu trazer para dentro do nosso lar, doce lar uma estranha doce estranha?

    Um trio. Sim, foi justamente isso que Suzana, Guilherme e eu formávamos. Sem culpas, sem remorsos, mesmo que olhares estranhos fossem lançados sobre o que vivíamos livres, leves e soltos. Pura inveja, hoje eu sei. 

    Passeávamos juntos, viajávamos juntos, ficávamos hospedados em hotéis e pousadas por toda a imensidão deste Brasil. Sempre no mesmo quarto. Modernidades, alguém pode dizer. Que diga, que fale, que fofoque. Não ligo.

    Tudo ia tão bem até que algo inesperado aconteceu. Bem que nunca gostei do hábito da Suzana de engolir sementes de melancia. O que custava cuspi-las? Que nada! Pelo tamanho da barriga, a melancia que crescia cada vez mais era das grandes.

    Maria Luiza nasceu pouco antes da primavera. Fico até emocionada quando me recordo daquela fofura. Linda, linda, linda! E como cresceu rápido! Quando vi, aquele bebê já corria por toda a nossa casa.

    Hoje somos quatro. A família cresceu, é verdade. E já não sou tão novinha para tanta disposição da novata. Depois de um turno de folias, só quero me deitar e tirar uma pestana pelo resto do dia. Mas não tenho do que reclamar, amo a minha vida de buldogue. 

Nota de esclarecimento: O conto "Lar, doce e estranho lar" foi publicado na editoria Brasília no dia 27/9/2026.

https://www.notibras.com/portal/brasilia/lar-doce-e-estranho-lar/