sábado, 6 de junho de 2026

Elevador ou purgatório

            Dona Salete, a rabugenta do nono andar, vive às turras com todos. Alguns, como o seu José, a Mariana e o Augusto, costumam levar a sério as provocações. Comigo a coisa funciona de maneira distinta, pois há tempos aprendi com o seu Plínio, um dos mais antigos moradores do prédio, que prefere levar os desaforos para casa e transformá-los em crônicas publicadas na internet. 

            — Luís, tem um carro estranho na garagem.

            — Carro estranho, dona Salete?

            — É um que nunca vi.

            — Hum... Deve ser o carro do Fausto.

            — Fausto? Quem é Fausto?

            — O novo inquilino do 304.

            — E por que não fui informada sobre isso?

            —  Sobre o quê, dona Salete?

            — Tudo, Luís! Tu-do!

            — Ué, dona Salete, o apartamento não é da senhora.

            — E daí?

            — Bem, daí que o dono é o seu Geraldo.

            — Por acaso tu tá me afrontando?

            Pobre Luís, porteiro há década e meia do nosso prédio. Quer dizer, da dona Salete, que se considera dona não apenas da unidade 901, mas de tudo por aqui. 

            — De jeito maneira, dona Salete. Por favor, me perdoe.

            — Hum... Tá perdoado, mas vou precisar de um favorzinho seu. Pode ser?

            — Claro, dona Salete! Mas que favorzinho é esse?

            — Tu pode trocar a resistência do chuveiro?

            Para garantir o emprego, lá foi o Luís trocar a tal resistência, o que não o livrou de mais alguns desaforos.

            — Olha aqui, Luís, é bom que tenha ficado bom. Odeio tomar banho frio.

            — Sei sim, dona Salete. Pode confiar.

            — Hum! O último que confiei me trocou por uma novinha.

            — Ué, dona Salete, pensei que a senhora fosse viúva.

            — E sou. Ou você acha que eu deixaria o cretino impune?

            O porteiro preferiu economizar curiosidades antes que se tornasse cúmplice de algum delito. Vá que acabe enrolado com a lei.

            Pois estava eu no elevador quando a porta se abriu. Esforcei meu melhor sorriso, o que pareceu irritar a dona Salete.

            — Tá rindo do quê, Júlio? Por acaso tô cagada?

            A surpresa e o espanto devem ter se apossado do meu rosto. Senti vontade de ganir que nem vira-lata e me enfiar num beco qualquer. Mas eis que o seu Plínio entrou no elevador no andar logo abaixo.

            — Bom dia, dona Salete! Bom dia, Júlio! Que cara é essa, meu rapaz?

            Antes que eu pudesse responder, a nossa vizinha o fez por mim.

            — Bom dia o caramba, Plínio! Você acredita que esse moleque disse que um pombo cagou na minha cara?

            — Isso é sinal de sorte, dona Salete.

            — Só se for na cara da mãe dele. Onde já se viu uma coisa dessas? Logo eu, uma velhinha que dá passagem até para barata.

            — Liga não, dona Salete. O Júlio é um bom rapaz.

            — Um sonso, Plínio! Aliás, cínico que nem você.

            — Que nem eu?

            — Totalmente, seu pilantra!

            — Que isso, dona Salete!

            — Hum! Aliás, meu querido, você vai ou não no carteado hoje na Lídia?

            — Depende.

            — Do quê, seu canalha?

            — Dona Salete, por favor, a senhora precisa decidir. É amor ou ódio?

          Por sorte ou azar, a porta se abriu, cada um foi para o seu lado e a dúvida permaneceu comigo. O que foi aquilo? Por um instante, imaginei que os dois estivessem mancomunados. Será? Não! Talvez o Plínio estivesse apenas buscando inspiração para mais um dos seus contos. Legal. Legal que nada, pois o palhaço da vez sou eu. Que seja! Também, quem mandou eu lançar aquele sorriso amigável para a dona Salete? Vivendo e aprendendo, meu amigo.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Preço de prateleira

   

        Mirna, parada diante do espelho, buscava coragem para tentar entender como é que havia se deixado chegar àquela situação. Logo ela, que sempre se achara dona do próprio destino, longe de influências terceirizadas. Ledo engano, como se a ingenuidade fosse escamoteada por tamanha confiança.

            Viveu na marginalidade, no submundo, conhecia a escória e o esgoto tão de perto que chegava a cegá-la. Mirna se achava imune às surpresas da vida, o que não a impediu por ironia ou sina, a se relacionar de maneira incisiva com Rômulo, um tipo da alta, cuja maldade desavergonhada lhe causou certo espanto e, já no momento seguinte repulsa. E, quando pensou em se desvencilhar, estava tão emaranhada que preferiu guardar forças para se manter viva.

            — Tu é linda demais!

            Não tinha por que duvidar das palavras do sujeito. 

            — Tem namorado?

            —  Ainda tô procurando na prateleira, mas tá difícil.

            — Ué, por quê?

            — Só produto vencido.

            Acostumado com tudo na mão, Rômulo teve que esperar. Não muito, o suficiente para que Mirna sentisse que o havia fisgado. E foi quando ela se achou dona da situação.

            — Você é a melhor!

            — Gostou?

            — Se gostei? Nossa! 

            Luxo. Até o luxo pode ser desconfortável no início, ainda mais para alguém como Mirna. Acostumada às privações, controlava até a quantidade de xampu e fazia questão de não deixar sobras no prato, mesmo que o estômago já não suportasse nem sequer um grão.  

            — Tu é mesmo engraçada, Mirna,

            — Engraçada? Por quê?

            — Se não quer, não coma.

            — Pra você é fácil, Rômulo, nunca passou fome.

            Entre caviar, lagosta e filé mignon, até quem está de dieta faz uma boquinha. E foi assim que Mirna se sentiu parte daquilo e não percebeu as atrocidades cometidas por Rômulo. Quando se deu conta, já era tarde demais.

            — Quem é esse homem?

            — Assunto de trabalho, meu amor. Não precisa se preocupar, está tudo sob controle.

            — Controle? Esse homem tá sangrando!

            — Tudo vai ficar bem, Mirna. Agora, por favor, eu preciso trabalhar. Depois a gente conversa. Te amo.

          Mirna, sem forças para aprofundar aquela discussão, optou por deixar o marido trabalhar. Rômulo a amava, pelo menos havia sido isso que ele disse. 

            Quando a madrugada roubou o tempo da noite, Rômulo entrou no quarto. De pé, aguardou as vistas se acostumarem com a escuridão. Era possível observar a silhueta da esposa. Linda, linda demais. Mirna não desejou confrontar o marido novamente, preferiu fingir sonhos que não vieram.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Batismo da culpa

            

            Ia sem culpa, entremeado na multidão, como se alheio à própria malignidade. Não que tivesse cometido grandes crimes, ainda. Mas a conjectura o visitava desde que Elaine o trocara por outro, cuja sonoridade do nome ele começou a apreciar enquanto caminhava: Aurélio, Aurélio, Aurélio, Au-ré-lio.

            Miguel, a princípio, tentou afastar as imagens que chegavam sem cerimônia em sua mente. Beijos, afagos, corpos enlaçados... Não! Não queria pensar nas coisas que Elaine e Aurélio certamente praticavam com o ânimo de amantes que acabaram de se conhecer. Teria a mulher a mesma volúpia de antes? Não! Precisava esquecer os momentos vividos antes da ruptura, só assim conseguiria deixar de imaginá-los, agora, ressuscitados entre a ex-namorada e aquele tipo.

        Entre delírios e lucidez, Miguel não procurou apaziguar o coração, que cismava em bater freneticamente na busca por desforra. Que a hora daqueles dois chegaria, ele não tinha dúvida. Era questão de tempo, nada mais do que alguns dias, meses ou anos. E pensar que aquilo tudo havia acontecido por mera traição. Quanto exagero!

            — Tu não tem vergonha, não, Miguel?

            — Vergonha do quê, mulher?

            — Disso aí que tu aprontou comigo.

            — Hum! Instintos, Elaine. Instintos! Não tenho culpa se nasci homem. Queria o quê? Que eu dispensasse a Lorena só porque ela é a sua melhor amiga?

            — Canalha! Tu é mesmo um canalha, Miguel!

            Lorena, encolhida na cama, a tudo ouvia e nada escutava. Em transe, queria apenas sair daquele quarto. Como é que havia sido tão tola? Ficaria falada; Miguel, afamado. 

            Por impulso que não imaginava ter, Lorena saltou da cama, vestiu o que dava para vestir e, calcinha na mão, foi embora arrastando o mínimo de orgulho que acreditava ainda ter. Falada, não tinha dúvida, era sina.

            Será que ela e o Aurélio já estavam... Hum! Não! Foi depois, tenho certeza. Ou não? Aquela adúltera nunca me enganou. Ah, não! Será? E depois me veio com aquela encenação, como se a culpa fosse minha. Que a Lorena é uma gostosa, não tenho culpa. Quem mandou a Elaine me apresentar a amiga? Tenho culpa? Sou homem, caramba! Tenho cá meus instintos! Elaine e Aurélio... Será? Pouca vergonha! Ah, isso não vai ficar assim ou eu não me chamo Miguel Soares Gimenes Novaes.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Hilário e a minha capivara

     

            Tenho apreço por gente, especialmente aquelas pessoas já passadas dos 80, cuja falta de freios me dá a certeza de que o mundo, por mais estranho que possa parecer, é divertido. Os miúdos também carregam lá certo charme, mas nada como a impetuosidade de uma língua ferina carregada de experiências as mais inusitadas possíveis. 

            Seu Hilário, como o próprio nome aponta, é extremamente divertido. No entanto, não pense você que seja por opção, mas pela completa falta de noção que costuma se materializar diante dos absurdos ditos. E ai daquele que se atreva a contestar o coroa, é lapada certeira nos cornos. 

            Dia desses, aqui perto de casa, enquanto eu dividia uma cerveja com o Salomão e o Chico no Bar do Bosco, eis que o seu Hilário surgiu. Não que isso tenha caráter de novidade, pois ele é bom de copo, mas não costuma perder a linha. O máximo que acontece é mostrar as qualidades de passista de escola de samba, que, na verdade, não possui nem sequer cacoete.

            — Calixto, tu não sai dessa bodega. Olha que vou passar a sua capivara pra dona Clementina.

             Você deve ter percebido que o seu Hilário se dirigiu à minha pessoa. Ele parece gostar de mim e, não duvido, ainda mais da minha mãe. Chego a desconfiar que o velho já é meu padrasto, mas não tenho coragem de investigar. Vá que eu descubra da pior forma. Será? Prefiro acreditar na discrição da dona Clementina. 

            — Sabe, Calixto, cerveja é uma droga! É como se o cara não tivesse coragem pra encarar a vida.

            — Como é que é?

           — Isso! Homem de verdade vai direto ao ponto. Por isso que prefiro uma branquinha.

            — Seu Hilário, mas tem gente que não vai concordar.

           — E daí?

            — Ué, as pessoas têm opiniões diferentes. Ou o senhor vai querer proibir isso?

           — Olha aqui, meu filho, não proíbo nada, mas que estão todos errados, ah, isso estão.

            Não sei se eu ria ou se ficava preocupado. Como é que é? Meu filho? Será?

terça-feira, 2 de junho de 2026

O talharim e as preocupações da dona Esther

    

Dona Esther, avó carinhosa e sem muita paciência com os filhos, aglutinava atenções nos finais de semana, quando a família se reunia para devorar o famoso talharim à bolonhesa. E não havia quem deixasse de repetir o prato pelo menos uma vez.

          — Mãe, a senhora é a melhor mesmo! 

          — Vovó, já pensou em abrir um restaurante? Ia ser um sucesso!

          — Dona Esther, a Ângela já tentou várias vezes fazer esse talharim da senhora, mas não fica a mesma coisa. 

          — Ah, Antônio, é que não tenho as mãos da minha mãe. 

          A mulher escutava aquilo tudo com um discreto sorriso no rosto, fingia estar mais interessada nos passarinhos que desfrutavam as goiabas maduras no pé no quintal. Estratégia para não cair na soberba ou, talvez, fosse algo que considerava tão banal, já que havia aprendido com sua mãe, Aida, falecida de tristeza após alguns meses do falecimento do marido, Carluccio. 

        Entre talharim e lembranças dos pais, Esther parecia afeita a juntar preocupações. E não adiantava que os filhos tentassem incutir inquietudes na idosa. Ela olhava com desdém, fazia de conta que puxava um cigarro da carteira imaginária, pegava do bolso o isqueiro que não existia, tragava percepções e dava grandes baforadas carregadas de ironias. 

         Nabuco, um dos filhos, não raro, protestava, como se aquela atitude pudesse ser coisa da idade. Vá que dona Esther estivesse ficando gagá. Em vez de declinar do ímpeto de provocar imbróglios, o sujeito, turrão que nem porta fechada, abria o verbo.

        — Mamãe, já está na hora da senhora começar a se preocupar com os problemas ao seu redor. O mundo está um caos, ainda mais para alguém com quase 80 anos.

        — Ah, Nabuco, meu filho, eu sei que tenho mil problemas, mas o único que me provoca desespero é o Botafogo.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cebola em salada de frutas

    

Santana, cuja fama era a de agente mais sem-noção da delegacia, andava mais deslocado do que cebola em salada de frutas. Ninguém o queria por perto, ainda mais durante as confraternizações, mas eis que apareceu uma alma bondosa, o escrivão Gilmarildo, que ficou consternado com o afastamento compulsório do colega. Santa ingenuidade! 

            Ricky Ricardo, Pedrito, Gabryella e Humberto, que de bobos não tinham nada, tentaram alertar o Gilmarildo, que agradeceu, porém declinou dos argumentos apresentados pelos policiais. 

            — Eu entendo, meus amigos, mas todos nós precisamos de apoio. Creio que o Santana, no fundo, é um sujeito legal. Ele só precisa de um ombro amigo.

             — Mas, Gilmar...

             — Por favor, Ricky, eu entendo a sua preocupação, mas já está decidido. Deus está comigo nessa missão, que tenho certeza será vitoriosa.

             Mal o escrivão deu as costas, o delegado Ruperata apareceu acompanhado dos agentes Will e Macélio. Os três, com tirocínio policial aguçado, perceberam as caras de espanto dos companheiros de labuta.

            — O que foi, galera? 

            — Doutor, se eu te contar, é capaz do senhor me chamar de mentiroso.

            — Pois diga lá, Ricky!

            — O Gilmarildo está com pena do Santana e resolveu ser amigo daquele nó-cego. O senhor acredita nisso?

            — Eita! Que tolinho é esse Gilmarildo!

            Dois dias depois, o Gilmarildo resolveu convidar o mais novo amigo para almoçar em sua residência. O Santana, que não perdia uma boca-livre, nem fez questão de fingir educação.

            — Tô dentro!

            Era para o Santana chegar por volta das 13h, mas lá estava o gorducho em frente ao portão da residência do Gilmarildo antes das 11h. O anfitrião, apesar da surpresa, recebeu o convidado de braços abertos e sorriso estampado no rosto. 

            Assim que o Santana pisou na sala, o Gilmarildo lhe disse para se sentir à vontade, que ele iria preparar o almoço. E, antes de completar a frase, lá foi o folgado se esparramar no sofá e perguntar onde estava o controle remoto da televisão.

            — Tá aqui, meu amigo. 

           Quase uma hora se passou, quando Gilmarildo retornou para a sala a fim de chamar o Santana para almoçar. Mas cadê o gajo? O dono da casa arregalou os olhos, coçou a cabeça e, então, foi até o jardim, talvez brincando com a Tina e o Caetano, os cachorros da residência. Não estava. Olhou em volta, o carro do amigo estava ali em frente, estacionado exatamente no mesmo lugar. 

            Gilmarildo imaginou que provavelmente o colega teria ido ao banheiro. Foi até lá, mas nada do sujeito. Desconfiado, o escrivão se dirigiu até o quarto do filho, que só retornaria no final da tarde. Nada. Teve a ideia de telefonar para o Santana, quando lembrou que havia deixado o aparelho celular sobre a cabeceira da cama. Mal entrou no seu quarto, quase caiu para trás. Lá estava o Santana roncando sobre a cama king-size. Além do mais, o folgado havia babado sobre o travesseiro da Cris, a esposa do escrivão.

            — Ei, Santana! O que tu está fazendo na minha cama?

             Ainda sonolento, o convidado olhou desconfiado para o Gilmarildo, fez cara de aborrecido e mandou essa:

            — Ué! Foi tu que disse pra eu ficar à vontade, meu amigo.

domingo, 31 de maio de 2026

Cunhadas em pé de guerra

    

Tia Eglantina, irmã de meu pai, dividia opiniões. Enquanto parte da família tinha quase sincero apreço por ela, a outra preferia evitar encontrá-la, especialmente mamãe, pois o arranca-rabo era certeiro.

            Evair, meu querido e amado pai, tem bom coração e nunca engoliu essa desavença entre sua irmã e a esposa. Por isso, sempre acreditou que o Natal fosse a época ideal para que imbróglios fossem resolvidos. E, como ele precisava de uma cúmplice que mantivesse o bico calado, papai optou por me pegar para Cristo.

             — Luciana, essa bobagem entre sua mãe e sua tia precisa acabar. Então, vamos aproveitar o espírito natalino, quando os corações se tornam amolecidos.

             — Papai, a treta entre as duas não é bobagem. O senhor não está sendo ingênuo?

             — Minha filha, Deus está sempre ao lado dos ingênuos.

             Como é que é? Que história era aquela de que os ingênuos são protegidos por Deus? Entretanto, esse é o meu pai, um tipo que, digamos, beira a inocência. Seja como for, lá fui eu telefonar para a tia Eglantina. Supliquei para que ela não deixasse de comparecer à festa de Natal, que se daria na casa da mãe da minha mãe, Filomena, a dona Filó.

            — Vou só por você, Luciana, que sempre foi a minha sobrinha favorita.

            Nem me dei ao trabalho de lembrar a minha tia que eu era a sua única sobrinha. O que importava de verdade era que eu havia, pelo menos foi o que imaginei naquele momento, conseguido ajudar o meu pai com algo que lhe era tão caro: promover as pazes entre mamãe e tia Eglantina. É engraçado que tal conquista me trouxe certo regozijo, mesmo que eu nem precisasse ir a fundo nos meus sentimentos para ter certeza de que a minha família estava prestes a testemunhar uma das maiores hecatombes de Natal. E foi justamente isso que aconteceu.

                Nem houve palavras trocadas entre as desafetas, mas maionese, arroz, farofa e pedaços de peru voando para todos os lados, sem contar as deliciosas rabanadas da dona Filó. Foi aquele rebu até que as gladiadoras foram contidas pelo ridículo da situação. Mamãe chorou nos braços do meu pai, tia Eglantina retirou-se à francesa. E para completar o pastelão, eis que o tio Cláudio fez questão de fazer a mesma piada sem graça:

            — Galera, e aquele doce na geladeira é pavê ou pra comê?

            Ninguém teve ânimo para esboçar o menor sorriso. A fome provavelmente havia sido transportada para o Réveillon.

            Pouco mais de dois anos depois dessa inesquecível ceia de Natal, tia Eglantina foi diagnosticada com câncer em estágio terminal. Agonizando diante da morte, ela me telefonou e me fez prometer que eu levaria minha mãe ao seu encontro. Como recusar tal tarefa? E lá fui eu, a sobrinha favorita de tia Eglantina, convencer a dona Fernanda a fazer a caridade de ter a última conversa com a cunhada. Apesar de relutante, ela aceitou.

            Mal chegamos ao apartamento da minha tia, mamãe, cara de raríssimos amigos, vacilou por um instante, mas acabou entrando no quarto devidamente preparado para que a acamada tivesse o mínimo de desconforto. Minha mãe quis eu entrasse, mas preferi ficar do lado de fora, de onde não conseguia visualizá-las, mas escutá-las, apesar das vozes sussurradas.

            — Nanda... Posso te chamar assim?

            — Sem problema.

            — Que bom. Apelidos aproximam as pessoas, e é isso que mais desejo neste momento de... de partida. 

            — Se você está dizendo, então deve ser.

           — Sabe, Nanda... É tão bom chamá-la assim. Obrigada por ter vindo, minha cunhada. Posso chamá-la de irmã?

            — Hum! Pode.

            — Nanda, minha querida irmã, preciso te confessar algo. Sabe, não me orgulho do que fiz, e agora sei que agi errado. Mas preciso que você saiba que eu... Bem, eu fiz muita macumba pra você sofrer, pra você... morrer. Por favor, me perdoe! Tudo por inveja. Por favor, Nanda, perdoe esta sua irmã!

            O silêncio tomou conta do ambiente no minuto seguinte e, então, mamãe saiu do quarto e, olhando de soslaio, me disse:

            — A bruxa se foi. Vamos embora.

sábado, 30 de maio de 2026

O badejo de 15 quilos

     

            Dagoberto, logo após se aposentar de uma repartição pública em Brasília, tratou de juntar os trapos e se mandar para a bela praia de Guaiú, município de Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia. Quem amou foi a esposa, dona Solange, que sempre sonhara acordar com os pés na areia. Entretanto, o sujeito sentia falta das amizades deixadas na capital, principalmente dos antigos parceiros de pescaria, o Zé Rosquinha e o Tonho Panqueca, ambos pescadores de rios e lagos, por coisa não sabida, não eram chegados ao mar.

            Depois dos inúmeros convites, todos declinados pelos amigos, Dagoberto teve uma ideia, pelo menos aos seus olhos, infalível. E ele, enquanto degustava café com bolinhos de chuva com a mulher num aprazível final de tarde, lhe contou seu plano.

            — Solange, meu amor, preciso da sua ajuda.

            — Pra quê?

            — Pra convencer o Zé Rosquinha e o Tonho Panqueca a nos fazer uma visita.

            — Hum! Acho difícil, meu bem, você já chamou aqueles dois tantas vezes, mas eles sempre inventam uma desculpa.

            — Pois amanhã cedinho vamos até a casa do Laurindo. 

            — Pra quê?

            — Amanhã você vai saber.

            Mais do que curiosa, Solange fazia questão de não parecer uma e, então, foi espairecer entre as roseiras e as hortênsias no jardim. Difícil mesmo foi quando chegou a noite de dormir. Quem disse que a mulher conseguia pegar no sono? Precisou recorrer a mais de um litro de chá de camomila, o que quase a fez retornar aos tempos de infância. Por sorte, na manhã seguinte, conseguiu chegar a tempo no vaso. O xixi saiu forte.

             Bem antes da hora do almoço, lá estavam o Dagoberto e a amada proseando com o Laurindo, o mais afamado pescador da região. De tão bom, peixe com menos de dois quilos era isca para o sujeito, cuja modéstia nem se atrevia a pairar à sua volta. 

             — Laurindo, meu querido, tu por acaso tem algum peixe graúdo pra me vender?

             — Serve esse badejo?

             — Caramba! Que peixão! 

             — E esse é dos pequenos, não chega aos 15 quilos.

             — E quanto te devo?

             — Pois é um presente pela visita do casal mais gente fina de Guaiú.

             — Tem certeza, Laurindo? 

             — Certíssimo.

             Dagoberto, olho no peixe, não percebeu a troca sorrisos entre Solange e o pescador. Vida que segue, ainda mais porque a história é sobre o que se deu na meia hora seguinte.

            Mal se despediram do anfitrião, Dagoberto e Solange se dirigiram rapidamente para o lar, doce lar. Ele pegou a tralha de pescaria e caminhou apressadamente para a praia. Colocou o badejo no anzol e pediu para a esposa tirar fotografias de todos os ângulos possíveis.

            — Dagoberto, você pode me explicar pra que tudo isso?

            — Vou mandar as fotos desse bitelo pro Rosquinha e pro Panqueca. Agora quero ver se eles não vêm.

            Dito e feito, ainda mais porque o mentiroso afirmar que aquele peixe era o menor do cardume! Foi o bastante para que os antigos parceiros do Dagoberto visualizar as fotografias para juntarem a coragem guardada nas gavetas e pegarem a estrada rumo à praia de Guaiú. Dois dias de viagem, várias discussões pelo caminho, eis que finalmente estacionaram em frente à simples, mas agradabilíssima residência do amigo.

              Dagoberto adiou o máximo possível, até que não teve mais jeito. Zé Rosquinha e Tonho Panqueca insistiram que queriam começar a pescaria naquela manhã ensolarada de janeiro. Nada mais de procrastinação!

             Os três amigos, devidamente acomodados em cadeiras dobráveis em frente à praia, aguardaram pacientemente as varas de pescar darem sinais de que havia peixe no anzol. Nada de pampos ou sargos, quiçá um belo badejo. Nem mesmo um papa-terra ou uma corvina. Tonho Panqueca, o mais exaltado, disparou:

             — Dagoberto, tu não falou que aqui tinha peixe?

              — Deve ser o sol, Panqueca. Ih, esses peixes... Cada um mais ladino que o outro.

            Depois de passarem a manhã inteirinha dando banho nas iscas, a fome bateu forte.  Sem peixes e com o moral rastejando, lá foram os três amigos serem salvos pela moqueca de peixe com camarão feita pela Solange. Ela, já prevendo o desastre da pescaria, havia providenciado os ingredientes na feira, que ficava ao lado da casa do Laurindo. Demorou além da conta, é verdade, voltou com um sorriso maior do que a cara e com ânimo redobrado.

              — Solange, mas que delícia! A melhor moqueca que já comi!

             — Ah, obrigada, Rosquinha.

                — É verdade. Tá boa pra dedéu!

                — Ah, gentileza a sua, Panqueca. 

                Buchos cheios, os quatro foram para a enorme varanda, de onde poderiam apreciar a paisagem paradisíaca. Abriram algumas garrafas de cerveja para relaxar, os brios voltaram, mas a conversa desandou.

                — Dagoberto, você pegou aquele peixe aqui mesmo em frente?

                — Bem, Panqueca, na verdade, acho que foi a alguns quilômetros daqui.

                — Ah, eu sabia! Então, amanhã a gente vai nesse lugar.

           Solange, deitada na rede, não aguentou e soltou aquela gargalhada, o que despertou a curiosidade dos convidados. Rosquinha, o mais contido, sorriu para acompanhar a esposa do Dagoberto. Todavia, Panqueca, cabreiro que era, achou que aquela risada tinha algo de estranho. E nem foi preciso perguntar, pois a mulher deu com a língua nos dentes.

                — Aquele badejo foi presente do Laurindo, um pescador nativo.

                Não houve brigas nem desavenças sérias a partir de então. Tirando o fato de que Dagoberto, a partir daquele dia, passou a ser chamado de Pinóquio. Os três amigos, em vez de pescaria, curtiram a praia até a hora do almoço, sempre preparado com esmero pelas mãos habilidosas da Solange, que fazia questão de ir atrás dos ingredientes todas as manhãs. Se ela demorava além da conta, demorava mesmo e voltava com aquele sorriso que provocava as sensuais covinhas nas bochechas. Ah, mas essa é uma outra história. 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Nem o Botafogo explica o Banco do Brasil

   

        Se existe o ditado que há coisas que só acontecem ao Botafogo, afirmo que outras tantas, por mais esquisitas que sejam, costumam frequentar as dependências do Banco do Brasil. E aqui vai uma dessas incongruências com a sanidade, testemunhada por Gilmarildo, amigo de longa data do ex-funcionário da casa Sérgio.

          Lá pelos idos de 1992, talvez 1993 ou 1994, não importa, o Sérgio estava lotado na saudosa agência Figueiredo Magalhães, em Copacabana, o mais afamado, para o bem e para o mal, bairro carioca. Tempos divertidos, costuma dizer o sujeito, que ainda guarda na lembrança momentos divertidos e, não raro, constrangedores. No entanto, deixemos tais eventos de lado, pois a tinta é curta e periga não ser suficiente para terminar este causo.

          Cecília, nome de poetisa, era a gerente de uma das inúmeras equipes da agência. E, por azar, sorte, calvário ou destino, eis que o Sérgio era um dos seus subordinados. A mulher, acredite, era difícil no trato, do tipo que buscava a discórdia só para ter a chance de apezinhar o alvo da vez. Uma peste, como os colegas a chamavam à boca pequena, pois ai da carrasca se os ouvisse. Era bronca na hora, com direito a meia hora de sermão. 

           — Sérgio, tu só pode estar de brincadeira! Já é a terceira vez que você me aparece aqui com diferença no caixa.

             — Terceira vez no ano, né, Cecília!?

             — E tu acha pouco?

             — Foi mal, chefe! Ah, antes que me esqueça, feliz Natal pra você também.

            Cecília, que nascera desprovida de uns 15 centímetros para atingir um metro e meio, só ia trabalhar de salto alto, sem contar a gastança de laquê para deixar os cabelos armados. Entretanto, por conta do incômodo de se equilibrar nas alturas, ela preferia retirar o calçado antes do final do expediente. E foi justamente essa a oportunidade que o Sérgio e o Gilmarildo estavam esperando, mesmo que, até aquele instante, não soubessem. 

          Soares, o maloteiro, costumava passar na agência já no final do expediente. Ele trazia e levava documentos nos malotes, que eram lacrados e rodavam o país inteiro. E não se sabe exatamente por que, mas Cecília era toda sorriso com o tipo. E, quando o fechamento do expediente estava tranquilo, fazia questão de convidá-lo para um café na cantina, que ficava no corredor à esquerda. 

           — O que você está fazendo, Sérgio?

          Não é que o Sérgio, aproveitando-se da breve ausência da gerente, tinha pego um dos pés do sapato da Cecília sob a mesa e, pasmem, o jogou dentro do malote? Acredite, pois foi o que aconteceu.

         — Fica na tua, Gilmarildo. Vê se não vai dar com a língua nos dentes! Olha lá, hein!?

       Gilmarildo, do alto do seu físico de grilo, não era besta de criar imbróglio com o Sérgio, famoso por bíceps talhados em academia. Melhor era ficar calado, e ficou mudo que nem rato quando tem gato no sótão. 
          
            Sérgio, assim que a Cecília e o Soares retornaram, se despediu e, como era sexta-feira, decidiu caminhar pela orla até seu quarto e sala, que ficava na altura do Posto 2. Inebriado pela maresia e principalmente por conta da arte que acabara de aprontar, o bancário se sentiu vingado e nem se preocupou com os olhares esquisitos quando gargalhou. 

            Na segunda-feira, o Gilmarildo foi colocar o colega a par do desfecho do imbróglio, que certamente se deu por causa do desaparecimento de um dos pés do sapato da gerente.

           — Tu acredita que ela nem desconfiou?

           — Do que você está falando, cara?

           — Do sapato da Cecília.

           — Sapato? Que sapato, Gilmarildo?

           — Ué! Do sapato que tu colocou no malote do Soares.

           — Eu? Tu bebeu?

      Enquanto Sérgio fez questão de não conter o cinismo, Gilmarildo, sem ânimo ou coragem para prosseguir aquela conversa, fingiu uma dor de barriga e foi cuidar da vida. Que aquilo era assunto morto e enterrado. 

        Alguns anos se passaram e, já em meados de 2012, Gilmarildo foi trabalhar em uma agência em Brasília. Sentiu falta do Rio, mas as vantagens do novo cargo eram recompensadoras. E foi assim, infeliz e de bolsos recheados, que ele presenciou algo inusitado.

     Já no início de 2013, durante um curso para o alto escalão do Banco do Brasil, Gilmarildo reencontrou sua antiga gerente, a Cecília, cuja carreira meteórica lhe possibilitava tocar as nuvens, caso desejasse. Para relembrar os velhos tempos, o homem convidou a colega para um passeio no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que fica em uma área pouco afastada. E lá foram os dois sem nem desconfiarem que aquele momento marcaria para sempre suas vidas.

       Estava tendo uma exposição sobre o diretor de cinema Quentin Tarantino no CCBB, e a Cecilia, que tinha fama de adoçar o café com sangue, queria porque queria assisti-la. Gilmarildo, por sua vez, como bom anfitrião, desejou realizar o desejo da mulher. 

      Cecília se esbaldou com os filmes do aclamado diretor, o que fez com que o anfitrião de última hora se sentisse, de certa forma, satisfeito. E, quando a dupla já se preparava para ir embora, eis que a Cecília, curiosa que era, observou que havia um pequeno museu no local e quis entrar. 

    Entre tantas relíquias, algo chamou a sua atenção: uma enorme estante com vários objetos. E, acredite ou não, lá estava o sapato perdido da Cecília. Ao lado, uma placa de metal com a seguinte inscrição: "Há coisas que só acontecem no Banco do Brasil".

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Sem rugas e sem pressa

         

            Aos 40, José Carlos não aparentava ter nem sequer uma única linha de expressão, músculo rígido ou marca de maturidade no rosto. A pele e a face do sujeito pareciam jovens demais, quase como se não tivessem passado por agruras comuns àqueles de sua origem. E não que não houvesse motivo para preocupações, pois nem mesmo o caçula da dona Carmélia era isento de problemas. 

          — Ih, aquele ali dorme que é uma beleza. Se pudesse, passava o dia inteiro confabulando com o travesseiro.

          Essa aí era Shirley, namorada de longa data, quase esposa com direito a descasos do sujeito. É verdade que afagos, por menos costumeiros que fossem, eram provas de que ao menos afeição era algo que perambulava entre aqueles dois. 

          — O José Carlos é um garoto de ouro! Melhor que ele não tem. Que eu queria que ele tivesse outra namorada no lugar da Shirley? Bem, não gosto de me meter nessas coisas, mas certamente que ele merece coisa melhor. É difícil encontrar, eu sei, mas coração de mãe sente quando as coisas não se encaixam. Você me entende, né!?

          Dona Carmélia sendo dona Carmélia. Fazer o quê? Atire a primeira pedra quem nunca.

          — O Zeca é meu parceiro no trampo desde que comecei nesse lance de obra. Ele é o melhor assentador de tijolo que conheço. Gosta de uma branquinha de vez em quando e é liso no futebol. 

          Orlando, colega de trabalho do José Carlos, entrou para o ramo da construção civil graças à indicação do amigo. Não meros amigos, que se dizem assim da boca para fora. Os dois cresceram juntos na mesma rua, onde ainda dividem rodas de samba com torresmos.

          — Hum! Bom de serviço, é verdade, mas só quando resolve trabalhar, o que é quase nunca. O problema é que é gente boa, entende o ambiente, é agregador. Então, nem penso em mandar embora. Mas bem que deveria. Fazer o quê, né!? Tenho o coração mole.

          Júlio César, engenheiro civil, responsável pelas obras.

          — Olá! Tudo bem? Sou o José Carlos dos Santos Pereira, sou mestre de obras desde que me entendo por gente. Não que eu não fosse gente antes, mas essa gente, essa gente que fala, sabe, diz que a gente só é gente quando arruma profissão. Antes eu era invisível, agora tenho carteira assinada. Acho que no final do ano vou pedir a Shirley em casamento. Tenho certeza de que minha mãe vai adorar. Ela sempre foi legal com a Shirley.