— Tu é novo aqui, é?
Sem tempo para dizer algo
mais elaborado, respondi a primeira coisa que me veio à mente.
— É.
Os dois me pareceram
desconfiados, como se eu pudesse apresentar alguma ameaça. Logo eu, um
pacifista nos moldes de Mahatma Gandhi. Minha natureza, de tão livre de
impulsos bélicos, me fazia olhar para o chão com o intuito de não pisar,
inadvertidamente, em alguma barata descuidada. E eis que Ronaldo, o mais
parrudo, foi mais incisivo.
— Qual é a tua
bronca?
Eu, mesmo nunca tendo
me encontrado naquela situação, entendi. No entanto, na ânsia de me tornar
respeitado, menti.
— Latrocínio.
Na verdade, estava
ali por conta de fraude bancária. Todavia, parece que meu intento funcionou,
pois os sujeitos arregalaram os olhos e, em seguida, me puxaram para mais
perto. Esdras, quase sussurrando, disse que iria me apresentar ao chefão do
pedaço. Foi aí que percebi que nenhum dos dois comandava o presídio ou, ao
menos, a parte que eu havia caído.
Atravessamos o pátio, fiquei diante de um tipo
tão pequeno e desprovido de carnes, que até eu, que estou longe de ser
conhecido pela estrutura corporal, imaginei estar em frente a um anão ou algo parecido.
Esdras me apresentou ao desprovido de altura.
— Montanha, esse é o
Júlio.
Apesar de ser pelo
menos 15 centímetros mais baixo do que eu, tive a nítida sensação de que o tal
Montanha estava me olhando de cima a baixo, como se fosse um gigante avaliando
se esmagaria ou não aquela barata que eu me negava a pisar.
— Hum! Qual é mesmo
o seu nome?
— Júlio.
— Hum! Conheci um Júlio,
mas nossos santos não bateram muito bem.
Tentei controlar os
nervos da face, mas devo ter me denunciado por conta dos olhos arregalados.
Digo isso porque o Montanha sorriu, ergueu as duas mãos em direção ao meu rosto,
o envolveu e, em seguida, desferiu dois amigáveis tapas e decretou:
— Seja bem-vindo,
Júlio.
E foi assim que fui
aceito no grupo que, até aquele momento, parecia dominar aquela ala da cadeia.
Mesmo assim, algo me intrigava e, quando tive oportunidade, questionei o
Esdras.
— O Montanha não tem
medo de ser morto por algum preso?
— Medo?
— É.
— Hum! Júlio, quem
janta com o Diabo não teme nem a Deus.
- Nota de esclarecimento: O conto "Meu primeiro dia na cadeia" foi publicado no Notibras no dia 3/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/meu-primeiro-dia-na-cadeia/








