terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Os caminhos percorridos por Carolina

    

        Carolina carregava uma dúvida sobre Cristiano, o noivo, cujos atributos não passavam de mera ficção por conta dos devaneios de dona Lia, que enaltecia o filho como mães costumam fazer. No entanto, no caso em questão, os exageros, de tão constrangedores, chegavam carregados de patologia. Mesmo ciente da situação, a jovem não queria desfazer o enlace por razões que eram até plausíveis, ainda que alguém pudesse contestar o primeiro, mas certamente entenderia o segundo.
   
        Bem, o primeiro motivo era a proximidade do casamento, que aconteceria na semana seguinte. Se ela poderia declinar após quase dois anos de noivado, não resta dúvida. Iria se criar mal-estar momentâneo, que poderia se prolongar por, digamos, semanas e até meses, mas logo ninguém mais se lembraria do ocorrido. Todavia, aceitemos tal premissa como verdadeira, apesar de não podermos descartar que, talvez, Carolina fosse do tipo acanhada e, por conseguinte, preferisse passar o resto da vida casada com uma fraude a enfrentar, por mais curto que fosse o período, as críticas que, obviamente, recairiam sobre ela. 
       
        Mas eis que chegamos ao segundo e crucial motivo. Sim, aquele que consegue abalar qualquer decisão, como se fosse a própria razão. E com tal detalhe, sejamos honestos, são raríssimos os de nós que conseguem ignorá-lo. O dinheiro. Sim, o dinheiro. Você até poderia levantar questão sobre esse assunto. Mas o dinheiro? Pois lhe digo sem me abster por completo do caráter ou, ao menos, de parte significativa dele, que o dinheiro nos corrompe a todos. Não a todos, pois não sou ingênuo de descartar que há um ou outro tolo que, talvez receoso de possível repreensão divina, há de se afastar antes que a tentação o corrompa. 
         
      De beleza muito acima dos meros mortais, Carolina, diferente das propagadas qualidades inexistentes do noivo, fazia questão de esconder os defeitos que lhe eram próprios. E não eram poucos, o que poderia, a princípio, causar estranheza aos que achavam que conheciam a moçoila. Um deles, que tentava a todo custo escamotear, era fazer das unhas fio dental. Quando percebia, lá estava cutucando entre os dentes e, para disfarçar, fingia que havia machucado a ponta do dedo com algo. Quase ninguém acreditava, mas fingia solidariedade por mera etiqueta. 
         
        Quando chegou o dia, casou-se de véu e grinalda, mas sem se esquecer de antes assinar a papelada no cartório, o que lhe garantiria, de fato, usar o sobrenome de uma das mais tradicionais famílias de Brasília: Costa. Mesmo assim, quando o juiz de paz informou aos noivos que, a partir daquele momento, eles estavam casados, Carolina sorriu, mas fez questão de frisar que não era bem assim.
            
        — Desculpe, senhor juiz, mas só me considerarei realmente casada após o padre disser que estou. E tudo aos olhos de Deus. 
       
     Até dona Lia, que tinha lá suas ressalvas em relação à nora, ficou positivamente admirada e, num gesto espontâneo, apertou a mão de Carolina como sinal de aprovação.
         
        — Seja bem-vinda à família Costa, minha filha.
       
        A lua de mel aconteceu em Bariloche, sugestão de dona Lia. Carolina, que só conhecia Caldas Novas, aprovou mesmo desconhecendo onde ficava. Entretanto, por conta da sonoridade, imaginou que fosse Europa ou Estados Unidos. Por precaução, guardou a dúvida para si, o que evitou que perdesse preciosos pontos com a família do esposo. 
     
        Depois de alguns meses, Carolina se descobriu grávida. Fez questão ir até a sogra para lhe informar antes de contar para o Cristiano. Sábia decisão, pois, dessa forma, conseguiu aproximar ainda mais dona Lia para si. Não que gostasse ou tivesse aversão à mãe de seu marido, era questão de estratégia de sobrevivência. 
         
      Carolina desejou que fosse menina, mas quis o destino que estivesse grávida de um varão. Não daria para homenagear a sogra com uma neta com o seu nome. Que fosse, ela daria um jeito e, não tardou, encontrou uma solução que, diga-se de passagem, saiu muito melhor do que o esperado.
     
       Lá estavam dona Lia, o marido, o filho e a nora confortavelmente instalados na varanda da mansão no Lago Sul, quando Cristiano revelou a intenção de batizar o filho, que estava a caminho, de Cristiano Rodrigues Costa Filho. Carolina, que estava sentada ao lado da sogra, protestou.
     
        — De jeito nenhum, meu bem!
       
        — E por que não, Carolina? Por acaso não gosta do nome do meu filho?
           
        — Dona Lia, a senhora bem sabe que acho Cristiano um nome lindo. 
           
        — Então, amor, por que não colocamos o meu nome no nosso filho?
       
        — Faremos isso no segundo, mas não no primogênito. 
           
        — E qual será o nome, Carolina?
           
        — Dona Lia, se a senhora me permite, quero que seja Sandoval. Além de muito bonito, é nome de presença. 
           
      Dona Lia ficou emocionada, abraçou a nora e, em seguida, pousou a mão sobre o ventre que carregava seu neto. A partir daquele dia, Carolina ganhou definitivamente o coração da sogra. É que Sandoval era o nome do pai, já falecido, de dona Lia. 
  • Nota de esclarecimento: O conto "Os caminhos percorridos por Carolina" foi publicado no Notibras no dia 24/2/2026.
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Entre promessas e atrasos

      Leopoldo, proprietário da Magnu, a mais afamada e difamada oficina mecânica de Sobradinho, aprazível cidade serrana no Distrito Federal, recebeu uma proposta de trabalho bastante vantajosa financeiramente para se deslocar até Palmas, capital de Tocantins. Como se tratava de um cliente endinheirado, o mecânico nem teve tempo para pensar, a resposta teria que ser dada de bate-pronto, como se fosse o próprio Vavá diante do goleiro após um cruzamento certeiro do endiabrado Garrincha.  

          — É óbvio que aceito, seu Honório!

          Acordo firmado, Leopoldo precisava convencer o Boquinha, seu funcionário, que, quase sempre, era da mais elevada confiança.

           — De jeito maneira, Leopoldo!

           — Mas, Boquinha, é o seu Honório.

           — E tu acha mesmo que vou largar a minha Glorinha pra comer poeira na estrada com você pra ver o seu Honório? Além do mais, tô em lua de mel.

           — Lua de mel? Mas tu não tá casado há mais de ano com a Glorinha?

           — E daí? Agora tem prazo pra lua de mel acabar?

          — Então, vou ter que ir sozinho. Mas tudo bem, você fica aqui pra entregar os veículos da dona Benedita, do seu Julião e do Santino. Combinei com eles que até o final do mês estariam prontos.

            — Ei, Leopoldo! Mas tá faltando coisa pra caramba pra fazer.

            — Ah, confio em você e no Zero-Zero.

           — Olha, só preciso pegar duas mudas de roupa em casa e me despedir da Glorinha.

            — Ok. Almoçaremos na estrada pra ganharmos tempo. 

            Bem antes do meio-dia, os mecânicos avançavam firmes pela rodovia a caminho da capital do Tocantins. Escutavam sucessos antigos, desde Luiz Gonzaga até TNT, passando por Cauby, Odair José, Raul Seixas, Zé Geraldo e o que desse na telha. 

             Quando já passava pouco da meia-noite, a camionete vermelha entrou na cidade. Os problemas, que os viajantes não tiveram na estrada, começaram a dar o ar da graça. É que ninguém havia se lembrado de fazer reserva. E o único hotel com vaga só tinha um quarto com cama de casal. 

                — Olha aqui, Leopoldo, não saí de casa pra isso. Sou vaqueiro bravo e não durmo com macho.

                — Sem problema, meu amigo. Sou mais velho e também sou o patrão, então, quem dorme na cama sou eu. 

                Diante da situação, o Boquinha acabou cedendo pelo cansaço, ainda mais porque no dia seguinte precisaria trabalhar dobrado para tentar entregar o serviço no prazo combinado. Mesmo assim, para evitar qualquer desvio de caminho onírico, tratou de fazer uma divisória no meio do colchão com as duas mochilas e a caixa de ferramentas. 

              Por milagre ou algo do tipo, eis que Leopoldo e Boquinha conseguiram entregar o serviço apenas uma semana além do prazo combinado. Um recorde, por assim dizer, que precisava ser comemorado. O problema é que o celular do Leopoldo começou a tocar insistentemente. Era o Zero-Zero.

            — Leopoldo, cadê você? Tá todo mundo aqui na oficina perguntando sobre os carros prometidos.

                — Oi, Zero-Zero, estou bem! E como estão as coisas por aí?

               — Você não tá me escutando, Leopoldo?

               — Que boa notícia! Mande lembranças pros clientes.

               — Ah, seu filho d'uma égua! Você me paga!

               — Sim! Isso! Pode deixar que falo pro Boquinha. Abraço!

               Leopoldo desligou e, com a cara mais lavada do mundo, se virou para o companheiro e perguntou:

                    — Boquinha, tu já viu praia na vida?

                    — Nunca. Por quê?

                    — Que tal dar um pulinho na Bahia? Estou precisando tomar um descarrego.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre promessas e atrasos" foi publicado no Notibras no dia 23/2/2026.
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domingo, 22 de fevereiro de 2026

O triste fim do preterido de Lindalva

     

        Tem gente que prefere a paz, o que é até esperado e, provavelmente, seja o seu pensamento, que está neste momento me lendo. No entanto, há uma classe de gente que discorda e, entre esses se encontrava Josenildo. Que Deus o tenha ou, o que é mais provável, que o Diabo faça bom proveito do que lhe restou. 

          Apaixonado por Lindalva desde que lhe pousou os olhos, Josenildo tinha como certo o enlace assim que a moçoila resolvesse a pendenga com o ex-marido. Por sorte, o divórcio caminhava, dentro do possível, para desenlace amigável. Isso apesar das traições de ambos os lados, conforme havia sido amplamente divulgado pela rádio comunitária, a implacável rede de fofocas. 

          Após cortejar Lindalva por praticamente todo o inverso, eis que, assim que a primavera apontou no horizonte, a mulher foi se enamorar por Rosinaldo, cuja profissão era de confeiteiro, mas que era afamado por tocar sanfona que nem Januário. E as sortudas que conheciam o gajo na intimidade faziam questão de alardear que o que ele fazia com um acordeon nem de longe se comparava aos atributos pessoais. 

          Josenildo, em vez de guardar a frustração para si, quis dar um fim no seu adversário, com quem era incapaz de disputar na arte do amor. Tratou de armar uma arapuca para Rosinaldo, que vivia entre bolos, a sanfona e, naqueles idos, as coxas roliças de Lindalva. Sem desconfiar do destino que lhe aguardava, o músico foi salvo pela perspicácia da amada, que sentiu algo estranho no ar.

          — Não vá agora, meu amor. Fique mais um pouco, que lhe prometo o que você me pede há dias.

          — Jura?

          — Não juro porque jurar é pecado.

          — E como vou acreditar?

          — E eu sou lá mulher de mentir por coisa tão séria?

           — Pois eu acredito, minha flor!

           — Mas aguarde aqui um instante, que vou me preparar. Troquei o lençol hoje e não quero correr risco.

          Enquanto o namorado espeerava a amada, ela fingiu que entrou no banheiro, saiu pela porta dos fundos, pegou um porrete, rodeou a casa e acertou a cabeça do Josenildo, que, faca na mão, estava de tocaia à espera do Rosinaldo. E a pancada foi tão certeira, que o arapuqueiro nem ouviu os gemidos que vieram do quarto enquanto a promessa era cumprida. 

           Já na manhã seguinte, assim que despertou, Lindalva foi conferir se Josenildo estava morto ou desmaiado. Mal abriu a porta quando se deparou com uma poça de sangue seca no cimento grosso da entrada. No entanto, nem sinal do homem ou, então, do que havia sobrado dele. Só dois dias depois que a dona da casa encontrou o tratante, uma montoeira de pontos no cocuruto, sentado no banco da praça. Foi só o gajo olhar para ela e já se encolheu igual minhoca. 

           Os dias se acumularam e viraram semanas, que foram se ajuntando até somarem uma carrada de meses e, não tardou, Lindalva e Rosinaldo completaram um ano de enlace. E partiu da mulher a ideia de fazerem uma viagem para comemorar aquele feito, que nem eles acreditavam que alcançariam. 

           — E pra onde, minha linda?

           — Num sei ainda, mas quero ir pra um lugar bonito.

           — E a nossa Luziânia não é o lugar mais lindo do planeta Goiás?

           — Deixa de ser abestado, Rosinaldo. E desde quando Goiás é planeta?

           — E eu não sei? Tô brincando. 

           — Então?

           — Então o quê, minha flor?

           — Vamos?

           — Se tu vai, vou eu junto. 

           O casal, após quase dois dias de propostas inviáveis, entre as quais Paris, Roma e Manaus, optaram pela Chapada dos Veadeiros, onde alugaram um bangalô. E, na semana seguinte, os pombinhos colocaram o mínimo possível dentro do Fusca e pegaram a estrada.

         Chegaram para o almoço e, após darem um passeio pelo povoado, retornaram para o aconchego, pois, segundo Lindalva gostava de falar, Rosinaldo precisava fazer uma apresentação de gala, com direito a bis, sob os lençóis. 

           Acordaram esfomeados e, após um breve repeteco para aumentar ainda mais o apetite, tomaram banho e foram tomar o delicioso café da manhã. Como pretendiam passar o dia em uma das belas cachoeiras do parque, capricharam na quantidade, mas sem se empanturrarem. 

         Mochilas nas costas, lá foram Lindalva e Rosinaldo, mãos dadas, descobrirem as maravilhas do local. E o tempo parecia estar a favor dos dois, pois não estava nem quente nem frio, e, ainda por cima, soprava uma agradável brisa que parecia acariciar aqueles rostos felizes. Mal sabiam eles que dois olhos traiçoeiros os espreitavam atrás dos arbustos e troncos retorcidos pelo caminho.

            Josenildo, o próprio, cujo rancor ainda o consumia, havia seguido os enamorados. E se a aquilo teria iniciado por amor, já há algum tempo só restava o desejo pelo caos. E foi esse irresistível sentimento que impulsionou o gajo a ir atrás de vingança. 

             Os apaixonados, de vez em quando, paravam para se hidratar e, como no local só havia beleza e nem sinal de gente, aproveitavam para beijos ardentes. E foi justamente num desses momentos em que Josenildo, escondido atrás de uma enorme pedra, sentiu uma dor intensa em sua mão. Assustado, viu um escorpião ao seu lado, provável culpado. Quis gritar, mas mordeu o local da picada para aplacar a dor e conter o som que queria sair pela garganta.

            Picadas de escorpião são realmente dolorosas e, apesar de perigosas, geralmente não são fatais, a não ser em crianças, animais pequenos e adultos que sejam alérgicos. Bem, parece que este era o caso do Josenildo, que, não tardou, caiu duro e, por dias, ficou ali servindo de alimento para a rica fauna do Cerrado: urubus, carcarás, larvas de moscas, besouros e até mesmo um simpático tatu. 

             Com os dias, Josenildo virou só esqueleto, cujos ossos foram espalhados por toda a região. E hoje, já se passados mais de 15 anos do ocorrido, não raro, algum trilheiro encontra uma costela ou fragmento, mas logo descarta, imaginando se tratar parte de restos de queixada ou caititu. 

          Bem, e é assim que as coisas aconteceram ou não, ao menos, é de como me lembro de ter ouvido em uma conversa ao redor de uma fogueira em São Jorge. Quanto à Lindalva e ao Rosinaldo, dizem que ainda vivem em Luziânia e, ao que tudo indica, muito apaixonados. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O triste fim do preterido de Lindalva" foi publicado no Notibras no dia 22/2/2026,
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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Virgínia e tantas outras

            

        Virgínia, rosto delicado, olhos nervosos, bela até, porém de maneira solitária e assombrada, como se carregasse fardo pesado, ainda mais para alguém que aparentava tamanha fragilidade. Isso, por outro ângulo, lhe conferia certa altivez, já que o azul das veias servia como aparato de nobreza. 

            — Anemia.

            — Anemia?

            — Regras. Implacáveis nessa situação. 

            — E o apetite não é dos melhores. O doutor acredita que não come quase nada?

            — Carne?

            — Nem ovo. Tem pena. Já falamos, insistimos, mas ela é turrona. Não cede.

            — Feijão? Ervilha?

            — Hum! Tinhosa do jeito que é, aceita apenas sopa. Diz que não quer engordar. O doutor já viu algo assim? Parece um palito, mas se vê da cintura grossa. Grossa tenho eu, que sou mãe de cinco. Essa aí, do jeito que vai, nem marido arruma. 

            Prostração, falta de ar, sibilância, alguns estertores, inchaço ao redor dos olhos, que despertavam rubros. Herança maldita de nascer mulher, quando o único propósito, além de servir, era parir. E pobre daquelas desprovidas de ancas largas. 

            — Qual é o propósito disso tudo, Virgínia?

            — Estou doente, mamãe. O médico não disse?

            — Por que não come? 

            — Falta-me apetite.

            — Temo que o seu propósito seja outro, minha filha.

            — Falta-me propósito.

            — Pois deveria ter o que nos pertence. E rezo todos os dias para que você logo o perceba ou...

                — Ou o quê, mamãe?

                — Ou morro eu de desgosto. 

                Silêncio, que logo foi rompido por ordem da matriarca.

                — Agora levante, que Augusto está lá embaixo preocupado.

                — Augusto?

                — Sim. Ande, que não é de bom tom fazer seu noivo esperar.

                — Não quero me casar, mamãe.

               — Hum! Não diga bobagem, Virgínia! Augusto é bom moço, de família influente.

                — Que case com Larissa.

             — Se sua irmã não tivesse apenas 11 anos, teria eu mesma dito para seu pai prometê-la ao rapaz. Não resta dúvida de que ela tenha mais juízo do que você. 

            — Pois eu me mato antes de me casar.

            — Que se mate, então! Mas não envergonhe o nome do seu pai. 

            — A senhora me quer morta?

            — Ande! Vamos! Que não tenho tempo pra tolices! 

            Sem alternativa, Virgínia aprontou-se e, finalmente, acompanhou a mãe até a sala no andar de baixo do casarão. Lá estavam o pai, os futuros sogros e o noivo, jovem de cabelos negros e olhos perdidos. Poucos anos mais velho do que Virgínia, apesar do rosto assustado de menino.

            Ao fim de um ano, aqueles quase imberbes foram empurrados para o altar. Mal se conheciam, apesar dos encontros semanais, mais para acertos dos pais do que troca de palavras entre os dois. 

              — Mamãe, mas eu nem conheço direito o Augusto.

             — Não se preocupe com isso, Virgínia. Você vai ter a vida inteira para conhecer o seu marido.

             Não quis casar, casou. Não quis filhos, teve quatro. A cintura engrossou. Foi infeliz, apesar do sorriso de resignação.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Virgínia e tantas outras" foi publicado no Notibras no dia 21/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/virginia-e-tantas-outras/

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Cidinha do Cemitério

   

          Maria Aparecida dos Santos, a Cidinha, foi de tudo no único cemitério da cidade. Começou como coveira e tanatopraxista, quando ganhou fama por conta dos nervos de aço, bem como zeladora, chegando ao concorrido posto de administradora. Acabou virando vereadora com o sugestivo slogan: "Vote na Cidinha para enterrar a velha política de vez!" E foi reeleita nas eleições seguintes com "Cidinha: cavando um futuro melhor para a nossa gente", "Para os problemas da cidade, Cidinha é a solução final", "Chega de sujeira: Cidinha neles, pra limpara e enterrar o passado", "Cidinha: enterrando a corrupção" e, talvez o melhor de todos, "Cidinha: a única que sabe onde os problemas estão enterrados". 

        A despeito da profissão que poderia afastar os desprovidos de coragem, Cidinha parecia ter nervos de aço quando o assunto era ser o elo entre a vida terrena e o além. Dos mais paupérrimos até os endinheirados, todos passavam por suas mãos. E isso a fez ser respeitada que nem o prefeito, o padre, o delegado e o gerente do Banco do Brasil. Era mais fácil alguém arrumar imbróglio com o maior dos facínoras a querer arrumar confusão com a mulher. Mas eis que surgiu um desavisado na região, que foi  inventar treta justamente com a toda poderosa. 

          O nome do sujeito era Firmino Oliveira, um tipo orgulhoso, apesar de sustentar as calças com embira. Andava com canivete na cintura para picotar fumo na palma da mão. Os olhos corriam para ver se tinha gente curiosa e, se sentisse que dava conta, cuspia ofensa.

            — Tá olhando o quê? 

            Quase sempre a pessoa desviava o olhar e tratava de sair de perto. O problema foi que Firmino foi provocar justamente quem não podia. E olha que Cidinha até tentou não dar atenção, mas isso fez com que o sujeito estufasse o peito e lançasse ofensa que não podia passar despercebida.

            — O que você tanto olha, jabiraca?

            Menos pior que xingasse a Cidinha de fofoqueira ou intrometida. Mas jabiraca era além da conta. E não deu outra. 

           — Do que você me xingou?

            — Tá surda? 

            — Pois diga se tu é homem!

            — Jabiraca!

            Em vez de dar um safanão na fuça do atrevido, Cidinha fez o improvável, mas foi mais do que suficiente para que o homem tremesse na base e percebesse que havia cometido um erro fatal. Ela simplesmente lhe sorriu. Nada além do que um quase angelical sorriso. 

         Cidinha, em seguida, virou-se e foi embora. Tal atitude, para quem supunha conhecê-la, foi interpretada como sinal de grandeza e poderia ser contada como anedota ou, o que era mais provável, ser esquecida, caso não tivesse acontecido o que todos na cidade ficaram sabendo na manhã seguinte. E a notícia correu mais ligeira do que preá quando foge de cachorro-vinagre. 

            — Morreu?

            — Morreu!

            — De quê?

            — Ninguém sabe. Nem o doutor, nem o delegado, nem o juiz. Mas tá lá seco que nem espeto.

           Pois foi isso mesmo que aconteceu com o tal Firmino Oliveira. Amanheceu seco que nem espeto. Foi como se tivesse morrido há pelo menos duas semanas. E seria o que todos acreditariam, caso várias pessoas não o tivessem visto no dia anterior. 

         Sem delongas, o caso foi arquivado antes de ser aberto. Firmino Oliveira foi enterrado e o ocorrido virou lenda urbana. E talvez permanecesse assim se, 43 anos após, Cidinha não tivesse partido para a terra dos pés juntos.

          — Morreu?

          — Morreu!

           — De quê?

           — Pela idade, deve ser mesmo de velhice. 

           — E quando vão enterrar?

      — Ouvi dizer que amanhã cedinho. Só estão maquiando o corpo pra ficar com aparência melhorzinha. 

        Calixto, que era Oliveira por causa do pai, Firmino, foi o encarregado de fazer a necromaquiagem. E lá foi o sujeito preparar o corpo da Cidinha, quando a noite já não era mais criança. 

       Na manhã seguinte, quando abriram a porta do necrotério, eis que viram algo inexplicável. Lá estava o pobre Calixto seco que nem espeto. Quanto ao corpo da Cidinha, havia sumido. Nem sinal. E, apesar de já passados quase 20 anos do ocorrido, o mistério ainda não foi desvendado. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Cidinha do Cemitério" foi publicado no Notibras no dia 20/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/cidinha-do-cemiterio/

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Arlete e Amauri, os doutorandos

    

        Arlete, que tinha afinidade por exatas, formou-se em física aos 20 anos. Emendou com o mestrado e, em seguida, entrou no doutorado em física quântica. Entretanto, por mais estranho que pudesse parecer aos olhos dos colegas de curso, era apaixonada por poesia. E não pense você que aquilo era da boca para fora, já que a mulher tinha por hábito declamar diariamente Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, passando por Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes, Drummond, chegando aos contemporâneos Daniel Marchi, Sarah Munck, Luzia Couto e a inquieta Simone Magalhães. 

      Enquanto estudava o comportamento de átomos, elétrons e fótons, a mulher conheceu Amauri, que também era doutorando, mas em geopolítica. E, a despeito de temas distantes, os dois acabaram por engatar um namoro com direito a ardentes momentos, ora no cafofo da moça, ora no aconchego do rapaz. E aquele emaranhado, por mais esdrúxulo que pudesse ser aos olhos de outrem, funcionava que era uma beleza. 

         Entre o trajeto diário para a UnB, o casal gostava de apreciar um bom café. Coado, naturalmente, já que os jovens eram terminantemente avessos à brevidade de cápsulas ou até mesmo ao tão requisitado expresso. E nesses momentos faziam questão de só falar de coisas importantes.

            — Sabe uma coisa que percebi hoje de manhã?

            — O quê?

            — Seus olhos combinam com os meus.

            — Como assim, Amauri?

            — Os seus são castanhos escuros, enquanto os meus são verdes.

            — Hum... Isso eu sei, mas não entendi a relação.

            — Você é que nem o caule, a parte que sustenta a nossa relação. É a razão, enquanto sou o sonho, longe do solo.

            — Hum... Mas, sem o verde das suas folhas, a minha vida não seria doce. 

           O romance, apesar da enorme carga horária de estudos, vingou, a despeito dos que diziam que não resistiria a um semestre. E, por coincidência ou predestinação, a defesa das teses ocorreram no mesmo dia, uma sexta-feira, sendo a do Amauri logo nas primeiras horas da manhã, enquanto a da Arlete aconteceu no início da tarde. 

            Os dois foram aprovados com louvor, o que levou a uma comemoração regada a espumantes. Apagaram bem pra lá de Bagdá e, no dia seguinte, o sujeito foi o primeiro a despertar. Ele preparou duas xícaras de café bem forte.

                Em pé diante da cama, Amauri percebeu as pálpebras da amada se abrirem. Um sorriso logo se fez nos lábios da Arlete.

                — Meu amor, conseguimos! 

                — Sim, minha linda! Conseguimos! Fiz café pra você.

                — Hum... Muito obrigada! 

                — Quer comer alguma coisa?

                — Agora não. Mas se você for à feira mais tarde, por favor, me traga um quilo de neurônios. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Arlete e Amauri, os doutorandos" foi publicado no Notibras no dia 19/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/arlete-e-amauri-os-doutorandos/

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Edmar, o ausente

     

             Tinha amigos, era popular, pelo menos é o que Edmar pensava, até que se percebeu socialmente mudo. Sim, inaudível, como se todos ao redor fossem incapazes de ouvir o que ele dizia. Riam, é verdade. Até pareciam absortos pelas palavras supostamente inteligentes que eram expelidas pelos lábios do sujeito. 

          Foi no bar de sempre, bem ali na 709 Norte, em Brasília, que o homem notou os primeiros indícios de mera formalidade daqueles rostos. Rostos que ele jurava serem conhecidos, ainda mais depois de tantas e tantas rodadas de cerveja com tira-gostos variados. Mesmo assim, Edmar quis dar o benefício da dúvida aos amigos. Afinal, não poderia simplesmente abandoná-los assim do nada.

          — Meu cachorro morreu.

           Nenhuma mudança nas expressões dos tipos.

           — Gente, meu cachorro morreu.

           Por um instante, Luciano pareceu interessado pelo dito. Ele virou-se para Edmar e, aparentando cuidado, disse:

           — Vai mais uma rodada, Edmar?

          Mais uma rodada? Como assim? Ele havia acabado de dizer que o seu cachorro morrera. Não que tivesse um, mas ninguém ali sabia dessa informação. Ou sabia? Teria Edmar falado alguma vez que nunca tivera um cachorro? E por que falaria isso, já que tal assunto nem fazia parte do rol das confabulações costumeiras dos frequentadores de botequins?

          — Fui demitido.

          Sorrisos, vozes destoantes, tudo, menos ouvidos atentos ao que continuava saindo dos lábios do Edmar. Não que aquilo fosse verdade, ainda mais porque ele não era dos piores funcionários da repartição. Para sermos justos, diante do quadro medíocre, até se destacava.

          — Matei meu vizinho. Gente, acredita que matei meu vizinho antes de vir para cá?

          Nada! Nem esboço de surpresa. Obviamente que era mais uma mentira deslavada. Todavia, aquilo era, no mínimo, indício de crime. Como é que é? Matou o vizinho? Matou o vizinho e foi beber com os amigos no bar da esquina? 

           Incapaz de competir com tamanho descaso, pediu a conta. O garçom pareceu não o escutar. Levantou-se, dedo médio em riste para todos, virou-se de costas e foi embora. Nem foi notado.

           Meia hora depois, Luís, entre uma tragada e outra, cutucou Luciano.

          — Cara, e o Edmar? O que deu nele hoje? Será que aconteceu alguma coisa?

          — Pois é, cara! Ele nunca foi de faltar. Mas vai ver o cachorro morreu ou foi mandado embora do emprego.

          — Será?

          — A gente nunca sabe. Só espero que não tenha enlouquecido de vez e matado o vizinho.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Edmar, o ausente" foi publicado no Notibras no dia 18/2/2026.
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