quinta-feira, 5 de março de 2026

Benedito e as escolhas erradas

       Benedito era um tipo interessante, um tanto violento, é verdade, mas tais características logo despertaram o interesse por parte de Odorico, espécie de líder do crime quase organizado na região de Planaltina, cidade mais ao Norte no Distrito Federal. No entanto, tudo indicava que, aos olhos do chefão da bandidagem, o jovem havia tomado caminhos estranhos e, apesar desse flagrante desvio, Odorico, ainda assim, acreditava que os erros de Benedito poderiam ser corrigidos com o tempo. Bastaria um pouco de sorte e, dependendo dos rumos, um empurrãozinho.

          — Você tá maluco, moleque? Os teus pais não te deram educação? Só não te dou uma boa surra porque fui amigo da sua avó.

          Diante do bandido, Benedito permaneceu mudo, mas a tremedeira nas pernas e o suor escorrendo pela testa diziam tudo. E a avó do rapaz, Sônia, realmente tinha sido muito amiga do Odorico, a ponto de haver suspeitas de que seu único filho, Álvaro, fosse fruto de tardes tórridas de amor com Odorico. Todavia, esse era assunto que raros comentavam, apesar da flagrante semelhança física entre o chefão e o pai de Benedito, que, por acaso ou não, possuía as feições parecidíssimas com o genitor. 

          — Benedito, por acaso o gato comeu a sua língua?

          — Não, senhor.

          — Então, o que te deu na telha de passar pro lado do inimigo?

          — Seu Odorico, é que preciso de um emprego. 

          — Hum! E você foi me arrumar logo ser polícia? E sabe o que vai acontecer com você? 

          — Não, senhor.

          — Hum! Com esse seu gênio explosivo, logo vai se tornar o mais odiado polícia. E você sabe o que acontece com esses tipos, né?

          — Sei sim, senhor.

          — E ninguém vai te dar guarida. Ou você acha mesmo que os seus coleguinhas de farda vão te proteger? 

          A conversa poderia tomar uma direção mais apaziguadora, com Benedito entendendo os conselhos do Odorico. Que nada! Apenas agradeceu a preocupação e, virando as costas para a razão, foi viver a vida de homem da lei. Entretanto, o tempo é o senhor de todas as coisas e, quase cinco após, Benedito estava desempregado. O motivo? Ah, aqui vale um breve parêntese. 

          Benedito, valendo-se da autoridade que lhe havia sido imbuída pelo Estado, imaginou que poderia extravasar toda a sua índole violenta. A princípio, foi até incentivado por seus colegas de profissão, que perceberam que aquela qualidade ou defeito, dependendo das perspectivas, seria extremamente útil para combater a criminalidade. O problema é que o gajo se tornou réu por tortura e, após ser condenado, recorreu. Perdeu em todas as instâncias e foi expulso da corporação. 

          Odorico, que acompanhara a trajetória do neto de Sônia, mandou chamá-lo. E, assim que o ex-policial chegou, ofereceu-lhe café e pão de queijo. 

         — Obrigado, seu Odorico, mas acabei de almoçar.

         — Pois tome ao menos o café.

          — Obrigado.

          O chefão observou o alquebrado por um instante e, em seguida, falou sem rodeios.

          — Benedito, conheço sua índole e, por isso mesmo, o venho observando desde que você ainda era um molecote. Seu pai, infelizmente, é um frouxo e, por isso mesmo, preferi mantê-lo afastado dos negócios. Mas você é diferente. Você é muito útil. E fique certo de uma coisa: desde que seja leal, aqui ninguém solta a mão de ninguém. 

          E foi assim que o Benedito se tornou braço direito do Odorico. Agora, quanto ao boato de que ele seria neto do chefe do crime quase organizado de Planaltina, talvez não passe de fofoca. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Benedito e as escolhas erradas" foi publicado no Notibras no dia 5/3/2026.
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quarta-feira, 4 de março de 2026

Guima e a esposa do cliente misterioso

    

         A Banca do Guima, famoso ponto de encontro em Sobradinho, fica na aprazível região serrana do Distrito Federal. Além de jornais, revistas, salgadinhos, picolés, refrigerantes e aquele cafezinho, o local reúne a clientela mais esdrúxula da cidade. Como diz o próprio Guima, "aqui é uma verdadeira Escolinha do Professor Raimundo, onde todos têm a chance de protagonizar algo inusitado".

          Pois lá estavam alguns dos personagens mais icônicos, todos clientes fidelíssimos do Guima: Zé Boião, Dr. Pocotó e Bin Laden. Como era domingo, o bate-papo se desenrolava sem pressa ou atropelos, digno de confraternização entre amigos, apesar das rusgas que, vez ou outra, surgiam. No entanto, nada que os envolvidos levassem tão a sério a ponto de não se falarem por mais do que alguns dias. 

            Enquanto confabulavam, eis que chegou uma mulher querendo saber qual o jornal que o marido comprava. Guima, que jamais havia visto aquela senhora, ficou na dúvida de quem seria o seu esposo.

            — Qual é o jornal, senhora?

            — Não sei, ele não me falou.

            — E quem é o seu marido?

            — Ele é gordinho.

          Instintivamente, todos olharam para o Zé Boião, cuja silhueta está mais para esfera do que para um espeto. E o sujeito, que se viu no meio do furacão, tratou de encolher a barriga. 

          — Hum... Não é ele, né?

          — Não. O meu marido é baixinho.

         O avaliado da vez foi o Dr. Pocotó, que, apesar de usar palmilhas especiais para parecer mais alto, mal atinge um metro e sessenta. De imediato, o gajo ficou na ponta dos pés para ver se conseguia disfarçar a parca estatura.

           — Hum... Não é ele também, né?

          — Não. Ele é barbudo.

          Dessa vez, os olhares se voltaram para o Bin Laden, que alisou a barba enquanto olhava para os lados. Foi aí que o Guima, já sem paciência, quis saber o nome do marido da mulher.

          — É Mohamed.

         — Ah, tá! Pode pegar qualquer jornal velho que serve, que é pros cachorros dele fazerem pipi.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Guima e a esposa do cliente misterioso" foi publicado no Notibras no dia 4/3/2026.
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terça-feira, 3 de março de 2026

Meu primeiro dia na cadeia

      Assim que cheguei àquele lugar onde a lei não parecia ter chegado, procurei me aproximar dos que, aos meus olhos ingênuos, me pareceram os que ditavam a ordem daquele caos. Esdras e Ronaldo, dois brutamontes que pareciam saídos de um ringue de luta livre, me olharam com misto de surpresa e curiosidade. E foi Esdras, ligeiramente mais alto, que puxou conversa.

          — Tu é novo aqui, é?

          Sem tempo para dizer algo mais elaborado, respondi a primeira coisa que me veio à mente.

          — É.

          Os dois me pareceram desconfiados, como se eu pudesse apresentar alguma ameaça. Logo eu, um pacifista nos moldes de Mahatma Gandhi. Minha natureza, de tão livre de impulsos bélicos, me fazia olhar para o chão com o intuito de não pisar, inadvertidamente, em alguma barata descuidada. E eis que Ronaldo, o mais parrudo, foi mais incisivo.

          — Qual é a tua bronca?

          Eu, mesmo nunca tendo me encontrado naquela situação, entendi. No entanto, na ânsia de me tornar respeitado, menti.

          — Latrocínio.

          Na verdade, estava ali por conta de fraude bancária. Todavia, parece que meu intento funcionou, pois os sujeitos arregalaram os olhos e, em seguida, me puxaram para mais perto. Esdras, quase sussurrando, disse que iria me apresentar ao chefão do pedaço. Foi aí que percebi que nenhum dos dois comandava o presídio ou, ao menos, a parte que eu havia caído. 

          Atravessamos o pátio, fiquei diante de um tipo tão pequeno e desprovido de carnes, que até eu, que estou longe de ser conhecido pela estrutura corporal, imaginei estar em frente a um anão ou algo parecido. Esdras me apresentou ao desprovido de altura.

          — Montanha, esse é o Júlio. 

          Apesar de ser pelo menos 15 centímetros mais baixo do que eu, tive a nítida sensação de que o tal Montanha estava me olhando de cima a baixo, como se fosse um gigante avaliando se esmagaria ou não aquela barata que eu me negava a pisar. 

          — Hum! Qual é mesmo o seu nome?

          — Júlio.

          — Hum! Conheci um Júlio, mas nossos santos não bateram muito bem.

          Tentei controlar os nervos da face, mas devo ter me denunciado por conta dos olhos arregalados. Digo isso porque o Montanha sorriu, ergueu as duas mãos em direção ao meu rosto, o envolveu e, em seguida, desferiu dois amigáveis tapas e decretou:

          — Seja bem-vindo, Júlio. 

          E foi assim que fui aceito no grupo que, até aquele momento, parecia dominar aquela ala da cadeia. Mesmo assim, algo me intrigava e, quando tive oportunidade, questionei o Esdras.

          — O Montanha não tem medo de ser morto por algum preso?

          — Medo?

          — É. 

          — Hum! Júlio, quem janta com o Diabo não teme nem a Deus.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Meu primeiro dia na cadeia" foi publicado no Notibras no dia 3/3/2026.
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segunda-feira, 2 de março de 2026

Vicente, o primo do amigo do Cleidson

    
            Cleidson, o Clei, mineiro de Visconde do Rio Branco, desde menino, havia se mudado para São Paulo, já que os pais, àquela época, tamanha a insegurança financeira, foram buscar melhores condições em 1978. Saídos da roça, onde moravam em um sítio, tiveram que se adaptar ao agito da cidade grande. No entanto, apesar dos percalços, conseguiram sobreviver e até se saíram relativamente bem. 

            Quando chegou o ano de 1992, Clei, então com 19 anos, resolveu tentar a sorte na Inglaterra, mesmo que, àquele tempo, não soubesse mais do que o básico do básico do inglês. Por sorte, o rapazola era amigo do Gilberto, que estava passando uma temporada em Brasília. A sorte, obviamente, não era a mudança do colega para a capital do país, mas sim o fato de Gilberto ter um primo, o Vicente, que residia em Londres, justamente a cidade para onde Clei havia decidido se aventurar.

            O mineiro tratou de comprar várias fichas e foi até o orelhão mais próximo à sua residência e telefonou para o Gilberto. Este, por sua vez, lhe disse para procurar o Vicente, que iria ajudá-lo a arrumar emprego, local para morar, bem como uma boa escola para que Clei estudasse inglês. Tamanho amparo deu o empurrão definitivo ao viajante, que, até aquele instante, sentia um frio na barriga só de pensar em partir para terras estrangeiras.

            Passagem apenas de ida comprada, malas prontas e as providenciais anotações cuidadosamente guardadas no bolso, Clei se despediu dos pais. É verdade que, diante do aperto no coração por conta da despedida, ele tenha pensado em desistir. Entretanto, o desejo por novas experiências, autoconhecimento e mudança de vida falaram mais alto. E lá foi o jovem explorar o desconhecido.

            A viagem foi longa o suficiente para Clei fazer um balanço da sua vida até então. Nascido na roça, aos seis anos mudara para a maior cidade do país e, agora, estava a caminho do país da sua banda favorita, The Beatles. Como aquele amor surgira? Ele jamais conseguiu se lembrar do exato momento, mas foi fisgado, talvez na rádio, por aquele som que conquistou o mundo anos antes de ele nascer. 

            Assim que passou pela imigração e se dirigiu à saída, Clei pensou nos pais, talvez como forma de se proteger do desconhecido que o esperava dali a poucos metros. Todavia, assim que ultrapassou a porta, avistou um homem com um bigode igual ao do Freddie Mercury segurando um cartaz acima da cabeça: "Cleidson, seja bem-vindo a Londres!" Era o Vicente, o primo do seu amigo.

            A calorosa recepção foi um alívio para Clei, que, de cara, sentiu uma conexão com Vicente, que carregava uma inconfundível e agradável cara de deboche. Tanto é que, anos mais tarde, ele falaria com carinho do amigo que fez na capital inglesa. 

        Vicente acolheu Clei em sua residência por tempo suficiente até que conseguiu arrumar emprego e um simples, mas confortável apartamento, para o mineiro. Também indicou um ótimo curso de inglês para Clei, que, finalmente, se tornou fluente.

            Clei foi trabalhar na mesma empresa de limpeza onde Vicente comandava uma equipe noturna. Por conta desse cargo de chefia, o primo do Gilberto ganhava muito bem: 400 libras esterlinas por semana. E Vicente havia conseguido essa bocada logo depois de chegar a Londres, dois anos antes.

                Intrigado como é que o Vicente tirara a sorte grande, Clei soube com detalhes tamanha conquista.

            — Clei, fui ao Job Centre e comecei a olhar as vagas. E essa vaga era para pessoa que falasse muitos idiomas. Então, me candidatei a essa vaga.

            — Mas por que precisavam de um poliglota pra esse posto?

          — Bem, é que os contratados pra fazer o serviço de limpeza são geralmente imigrantes de vários países. 

            — Ah, entendi.

            — Mas espere, que você não sabe o melhor.

            — E o que é?

            — O cara que me entrevistou me perguntou quantas línguas eu falava. Disse, na maior cara de pau, que falava inglês, como ele poderia perceber, já que estávamos conversando em inglês. Disse que também falava a minha língua nativa, que é português, bem como espanhol, italiano e alemão. 

             — E você fala tudo isso mesmo?

            — Calma, que chego lá. Então, ele me pediu para falar um pouco de português. Disse algumas frases, e essa foi, de longe, a parte mais fácil, obviamente. Depois quis que eu falasse alguma coisa em espanhol, e lá fui eu enrolar a língua e emendei um portunhol muito fajuto. Aí, o cara me pediu pra falar algumas frases em italiano. Nunca pensei que fosse tão fácil enrolar o entrevistador. Misturei português, espanhol e algumas palavras em italiano enquanto gesticulava com as duas mãos erguidas. Mas o melhor mesmo foi quando ele me disse pra eu falar alemão.

                        — E como você fez?

            Vicente sorriu o sorriso mais cínico, cofiou o bigode de vocalista do Queen e respondeu:

        — Clei, acredite ou não, busquei nos recônditos da memória aquele sotaque germânico e mandei: Aftas ardem, hemorroidas idem.

        Clei caiu na gargalhada, enquanto Vicente, que possuía talento para o teatro, pareceu satisfeito com a reação da plateia composta por um único espectador. Mas eis que a história ainda não havia terminado.

        — Aí, Clei, o cara me perguntou como é que eu, um jovem brasileiro, havia aprendido tantos idiomas. Com a cara mais lavada do mundo, respondi: I like languages.

            — Mas, Vicente, você não teve medo do homem descobrir que isso era sua farsa?

          Vicente, nesse momento, empertigou-se ao máximo e disparou:

          — Clei, você vai aprender rapidinho uma coisa a respeito dos ingleses. Apesar de terem dominado o mundo inteiro, os ingleses só sabem coisas sobre eles mesmos.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Vicente, o primo do amigo do Cleidson" foi publicado no Notibras no dia 2/3/2026.
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domingo, 1 de março de 2026

Pedro Cesarini, o (quase) notável

    

    Pedro Cesarini era um nome respeitável no meio literário. Sua capacidade de produzir contos e crônicas, publicados diariamente em certo veículo jornalístico de boa circulação, além de livros premiados, faziam-no aclamado não só pelo público, cada vez maior, como também pela crítica especializada. O sujeito estava no topo e havia quem afirmasse que, caso ele erguesse as mãos, certamente ralaria os dedos nas sandálias de São Pedro. 

     Exageros à parte, o escritor era a vedete da vez. Entretanto, algo começou a incomodá-lo: a falta de tempo para escrever algo realmente impactante, já que a exigência de apresentar um texto novo todos os dias não deixava espaço para se dedicar à produção de algo relevante. Passaria o resto dos seus dias destinado à mediocridade ou, o que era improvável, abandonaria aquela alegoria para, finalmente, escrever o romance que acreditava ser o divisor de águas na sua trajetória nas letras?

   A trama estava praticamente desenhada na mente. Todavia, faltavam-lhe as horas necessárias para se debruçar sobre a máquina de escrever, cujo som das teclas fazia parte do processo de criação, e deixar que os dedos ágeis fizessem o que fosse preciso para abrolhar a obra da sua vida.  E, quando decidiu que iniciaria o projeto naquele dia, eis que, já nas primeiras horas da manhã, percebeu inúmeras mensagens elogiosas sobre o novo conto publicado.

      "Pedro, você se superou!"

      "Que maravilha! Como você consegue ser tão genial assim?"

      "Quando eu crescer, quero escrever que nem você."

      O ego, logicamente, o inebriava e, assim, bloqueava qualquer ímpeto de colocar o plano de se dedicar à produção de um livro de impacto, e não meras lisonjas, que logo eram esquecidas. E foi aí que Pedro, diante do espelho, tentou encontrar aquele escritor que, há muito, acreditou existir. Ou parava tudo para se concentrar numa escrita destacada ou, então, passaria o resto dos seus dias levando tapinhas nas costas, que salvariam seus dias, é verdade, mas que também o levariam para o abismo dos descartáveis das gerações futuras. 

      Tomado de coragem que não imaginava sua, Pedro teve uma conversa com o editor do jornal. Aproveitou que a porta estava entreaberta, esticou o pescoço e, com a voz mais afinada do que de costume, se fez notar.

       — Oi, Pedro! Entre, por favor.

       — Obrigado, Wenceslau.

       — Diga!

       Pedro, pego de surpresa por aquela abertura inesperada, travou. 

       — O gato comeu a sua língua?

       — Não. É que...

       — Hum?

       As frases, antes ensaiadas mentalmente, evadiram-se.

    — Bem, Wenceslau, eu só queria agradecer pela oportunidade que você me deu no jornal.

    — Pedro, se os leitores te amam, nós do jornal também te amamos. Continue o seu trabalho, que está satisfatório. 

      — Obrigado.

      — Algo mais?

      — Ah, não. Era só isso mesmo. Obrigado.

      — Ok. Feche a porta quando sair, por favor.

     Satisfatório. Wenceslau definiu exatamente o que eram os contos e crônicas de Pedro. Até mesmo os textos que lhe pareciam de nível mais elevado eram encurtados pela brevidade das horas de entregá-los a tempo de serem publicados no dia seguinte. A roda precisava continuar girando.

    Na calçada, Pedro observou o trânsito. Inúmeros automóveis, motocicletas, alguns ônibus. Por um instante, imaginou o impacto da lataria sobre suas carnes. Morreria na hora? Sentiria dor? Calculou a distância exata para ser atropelado por um ônibus, que vinha com velocidade mais do que suficiente para arremessá-lo a vários metros. Ossos quebrados, sangue escorrendo, miolos espalhados naquele asfalto sem vida. A multidão ao redor.

        "Coitado!"

        "Ele foi atravessar e não percebeu o ônibus."

        "Também, quem é que manda atravessar longe do sinal?"

        "Esse trânsito não perdoa quem vacila,"

        "Mais um que vai virar estatística,"

        Uma mulher se aproximou e tocou-lhe o ombro.

        — Pedro Cesarini? É você mesmo?

        —  Oi. Sim, sou eu.

        — Nossa! Não acredito! Leio você todos os dias. Posso tirar uma foto com você?

        — Sim, claro.

        Após a fã se despedir, Pedro caminhou até o seu apartamento. Definitivamente, ele era desprovido de algo próprio dos grandes escritores: a coragem.

Nota de esclarecimento: O conto "Pedro Cesarini, o (quase) notável" foi publicado no Notibras no dia 1º/3/2026.

https://www.notibras.com/site/pedro-cesarini-o-quase-notavel/

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Gustavo, a avó e Deus

     Senti amor por minha avó-materna, um amor que jamais experimentei ao longo dos meus 76 anos, completados há três dias. No entanto, a decepção por ela me tomou no dia em que mamãe me contou que sua mãe nunca mais voltaria, pois teria ido morar com Deus.

    — Mas, mamãe, a vovó não me ama mais?

    — Ama, Gustavo, mas Papai do Céu a chamou pra morar com ele.

    — A vovó? Por que não chamou outra vovó. O Jorginho tem duas, agora não tenho nenhuma. 

        Tinha eu lá meus 10 anos, num tempo em que meninos dessa idade ainda acreditavam em tolices ditas por adultos na tentativa de apaziguar os corações infantis. Não os culpo, pois já me peguei fazendo coisas do tipo, como se as metáforas fizessem parte do ser humano. 

        Não sei se foi rancor que se abateu sobre mim. Talvez o sentimento tenha sido mágoa. Não de Deus, que sempre me pareceu um ser abstrato, que não fizesse parte do meu dia a dia, ainda que fosse algo que conhecia de nome: "Vá com Deus, meu filho!", "Graças a Deus que deu tudo certo!", "Não fique assim, Gustavo, Deus não quis por um bom motivo,"

        — Mas, mamãe, que motivo?

        — Não pergunte, meu filho. Deus sabe o que faz.

        Pois é, segundo a minha mãe e tantas outras, Deus sabe o que faz. Mas que diabos ele tinha que levar justamente a minha avó para morar com ele? Ele não tem coração? Afinal, eu era apenas um garotinho que queria a vovó de volta. E por que ela teria aceitado ir morar com Deus? Bem verdade que quando a casa estava cheia, era pouco banheiro para aquele monte de gente da família.

        Lembro-me especialmente de um domingo de macarronada na casa da minha avó. Tio Gerson, o queridinho de todos, passou horas confabulando no banheiro por conta de algum exagero ou, hoje não descarto, alguma virose. Desse modo, o outro banheiro, na verdade um lavabo, foi o único recurso para as 14 pessoas da família. 

         Minha avó, sempre muito resiliente, ainda mais com o filho que penava sentado no vaso, pediu para os homens, caso fossem apenas fazer xixi, que se dirigissem para o quintal, onde havia um pequeno bosque com mangueiras, goiabeiras e um pé de abacate. Ninguém contestou a sua autoridade, ainda mais depois de fazer uma revelação que, até hoje, guardo como aprendizado:

            — Além de não gastar água da descarga, o xixi ainda é adubo gratuito. 

            Foi com meus 12 ou 13 anos que descobri esse perturbador fenômeno que a todos, sem distinção, alcança. Dona Veridiana, uma das avós do Jorginho, também recebeu um convite para ir morar com Deus. Bem, ninguém que me recordo disse dessa forma. Sem metáforas, como se a crueza da morte fosse mais fácil de ser suportada quando acontece com entes queridos de outrem. 

            Nessa época fiz as pazes com vovó, que soube ter o coração fraco. Coisas dos meus parentes e de tanta gente. Sinto a sua falta e, ao me olhar no espelho, constato que estou cada vez mais parecido com ela. Criança nenhuma deveria perder a avó. Papai do Céu não é tão bom como dizem./

  • Nota de esclareciment/o: O conto "Gustavo, a avó e Deus" foi publicado no Notibras no dia 28/2/2026.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Como os homens são imaturos

         

          Imaturidade para alguns seria a incapacidade de não agir de acordo com a idade. Seria o caso, por exemplo, de um sujeito de 40 anos continuar com o pensamento de quando era pouca coisa mais do que um adolescente ou, então, não se envergonhar por agir como um tolo diante de situações que já deveria ter superado. Exemplo? Ah, o encontro de uma ex-namorada acompanhada de outro, ainda mais quando se trata de, digamos, um homem mais atraente do que ele. 

            Não estou aqui para desqualificar tais ideias de imaturidade. Talvez também sejam exemplos fiéis para grande parte dos habitantes do planeta. No entanto, permita-me discordar e, chego ao ponto de me desculpar por certa arrogância, mas considero tudo isso uma tremenda bobagem. 

            Quer saber mesmo o que é maturidade? Então, lá vai! Vou lhe contar um breve, mas bastante esclarecedor, episódio ocorrido com Guilherme, colega dos meus tempos de Banco do Brasil. Sim, fui bancária por praticamente toda a minha vida adulta, tendo me aposentado há pouco mais de ano. E afirmo que não sinto falta da rigidez que horários nos impõem, motivo pelo qual estou muito bem adaptada à situação atual de livre da necessidade de exercer atividades laborais. 

             Guilherme de Aquino Loureiro, então casado há praticamente oito anos com Maria Clara, uma filha de cinco anos... Creio que era isso, caso a memória não esteja me pregando uma peça. Não que eu esteja tão velha assim, apesar de há tempos a maior parte das pessoas ter passado a cultivar o hábito de incluir um "senhora" ou, o que é muito pior, um "dona" antes do meu nome. 

            Confesso que, a princípio, abominei aquela sonoridade, como se fosse algo que não pertencesse à minha pessoa. Mas quer saber de uma coisa? Hoje nem ligo ou, caso o sinta, já nem percebo, como se estivesse com o dentista cutucando meus dentes com aquele motorzinho. O som continua lá, pois não fiquei surda, mas a região está anestesiada. 

            Pois lá fui à cantina pegar um pouco de café, minha necessidade especialmente às segundas-feiras... E nem adianta me lançar esse olhar enviesado. Sou humana e tenho cá os meus defeitos, que certamente são mais honestos do que os da maioria e, arrisco a dizer, dos seus. Mas não criemos imbróglios desnecessários, ainda mais quando o nosso alvo é o Guilherme. 

          Antes de pegar o café, eis que notei o olhar de lamúrias do Guilherme direcionado para o Juca, uma das criaturas mais abomináveis que já tive o desprazer de esbarrar. Quer dizer, não foi tão ruim assim, pois consigo aprender até mesmo com os piores vermes. Sem contar que o danado não era de se jogar fora. Todavia, isso é assunto para outra hora.

            — Fiz tudo pra ela, Juca. Tudo!

            — Força, meu amigo. Tem uma hora que até o maior dos amores dá aquela esfriada. Imagina, então, esse lance de vocês dois.

            — Mas e o afeto? Pensava que ao menos afeto ela tinha por mim.

            Como não costumo me intrometer em conversas alheias, ainda mais as carregadas de lamúrias, tratei de tomar o meu café em outro lugar e já havia me virado para voltar à minha mesa, quando o Guilherme quase me intimidou a dar minha opinião.

            — E por que você imagina que a minha opinião sirva de alguma coisa?

            — Bem, você é mulher, deve saber mais dessas coisas.

            — Hum! 

            — Então?

            — Quer mesmo saber?

            — Quero!

            — Depois não vai reclamar, hein!

            — Ok.

            — Promete?

            — Prometo, Elisa!

            — Guilherme, acredito que a sua mulher possui afeto por você. No entanto, não se iluda. 

            — Como assim?

            — Afeto não impede traição.

            — Elisa, do que você está falando? Por que você meteu a minha esposa nisso?

            — Eu?

            — Sim! Você!

            — Peraí! Do que vocês estavam falando?

            — Da Áurea.

            — Da Áurea?

     — É! Não reparou como ela veio trabalhar hoje? Uma grosseria com todos, especialmente comigo. Você acha justo, ainda mais depois de tudo que fiz para que ela não perdesse a gerência da nossa equipe?

         — Desculpe, Guilherme, mas preciso voltar a trabalhar. Tenho um monte de relatórios pra fazer e não quero levar uma bronca da Áurea.

     Antes mesmo de me sentar, senti uma vontade de gargalhar por conta da minha atrapalhada. Se alguém percebeu ou não, desconfio que até pode ser. Mas quem é que repara nessas coisas justamente numa segunda-feira? Que dia amaldiçoado!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Como os homens são imaturos" foi publicado no Notibras no dia 27/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/como-os-homens-sao-imaturos/

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Gêmeos matreiros

   

     Ter um irmão gêmeo pode ser vantajoso em determinadas situações. Imagine você, ótimo em língua portuguesa, mas um desastre em matemática, tendo um ser, excelente com a lida de números, tomando o seu lugar numa prova de álgebra ou geometria. E as benesses não parariam por aí, já que ele poderia facilmente se passar por você, digamos, no trabalho, enquanto você leva a namorada para assistir a um filme romântico no cinema. 

          Bem, não sei se você teve a sorte de Carlos e Jorge, gêmeos univitelinos. De tão parecidos, até dona Lúcia, a mãe, se confundia de vez em quando, apesar dos filhos já terem passado dos 30 anos. E os dois, mesmo adultos e longe das traquinagens dos tempos de menino e adolescência, ainda assim gostavam de se aproveitar da incrível semelhança física. 

          Antes que continuemos, é preciso relatar que Carlos e Jorge eram o que costumamos chamar de sujeitos que nasceram com o rei na barriga. Poderíamos afirmar que, caso não fossem Cardoso dos Santos, poderiam assinar Presunçoso dos Imodestos. Sem contar que faziam questão de andar com o pescoço inclinado para trás, como se tal artifício fosse empinar aqueles narizes aquilinos. 

          Os que conheciam os irmãos preferiam não os enfrentar abertamente e, desse modo, faziam vistas grossas. Mas eis que, por motivo de trabalho, Carlos foi obrigado a se mudar para Goiânia, enquanto Jorge permanecia em Brasília. Mal se viam pessoalmente, mas se telefonavam uma ou duas vezes por semana, como se fossem dependentes um do outro.

            Os gêmeos trataram de marcar as férias na mesma época e, quando elas chegaram, Carlos declinou da ideia de viajar para João Pessoa com o parente.

            — Quero pegar um pouco de frio.

            — Frio? Quem gosta de frio é pinguim e picolé, Carlos. O que deu em você? A gente sempre vai pra praia.

            — Ah, sei lá! Talvez seja por isso mesmo. Já estou um pouco enjoado do mar.

            E assim aconteceu. Mês de julho, lá foi o Jorge curtir as belas praias da capital da Paraíba. Época agradável, cujo inverno só tem nome de inverno por conta das outras estações muito mais quentes. A princípio, sentiu falta do irmão, mas logo encontrou companhia agradável, vinda de São Paulo, com quem tirou inúmeras fotografias enquanto o romance pegava fogo.

        Quanto ao Carlos, chegou a se arrepender de ter declinado de João Pessoa e abraçado a ideia de passar as férias na cidade gaúcha de São José dos Ausentes. Eita lugarzinho para fazer frio! A sorte é que, já nos primeiros dias no local, conheceu uma linda argentina, com quem teve tempo suficiente para treinar seu portunhol, além, é óbvio, de se esquentarem em frente a uma providencial lareira tomando vinho e degustando, além do tradicional churrasco, carreteiro de charque, queijo serrano, paçoca de pinhão e alguns doces artesanais. 

            Como todos sabemos, um minuto no ringue com o Popó de Freitas é uma eternidade, mas um mês na companhia da Sônia Braga é um piscar de olhos. Quando se percebe, já se foi e só sobram lembranças e saudade. E foi com tamanho sentimento que Jorge se despediu da linda paulista lá em João Pessoa, enquanto Carlos, no Sul do país, fazia promessas de que iria encontrar a sua nova namorada em Buenos Aires. 

             Dois dias após, lá estavam os gêmeos de volta ao trabalho: Carlos, em Goiânia; Jorge, na capital do país. E, já na primeira ligação, trocaram confidências sobre as respectivas viagens. Um tentando convencer o outro de que as suas férias tinham sido muito melhores do que as do outro. 

                — Ei, Carlos! Tive uma ideia!

                — Ideia? Que ideia meu irmão?

                — Amanhã mesmo vou falar no trabalho que passei metade das férias na praia e a outra metade na Serra Gaúcha. 

                — Hum! Boa ideia! Pois vou fazer o mesmo.

                O pior é que as coisas não pararam por aí. Além de mentirem para os colegas do serviço que possuíam duas namoradas, os gêmeos também resolveram fazer viagens para São Paulo e Buenos Aires. O problema é que Carlos foi para a capital paulista, enquanto Jorge foi conhecer a principal cidade da Argentina. 

                Não sei se as mulheres perceberam a troca ou, caso tenham percebido, talvez levaram aquilo na brincadeira. Como sei dessa história? Bem, conheci o Carlos, já perto dos 90 anos. Ele havia retornado para Brasília quando se aposentou, logo após a virada do milênio. Ele me contou isso pouco antes de falecer e ser sepultado ao lado do irmão no Cemitério Campo da Esperança. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Gêmeos matreiros" foi publicado no Notibras no dia 26/2/2026.
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