sábado, 27 de junho de 2026

Lauro, Pingo e outras solidões

          

        Lauro imaginou que não passava de sonho, um beijo de Sônia, a vizinha por quem tinha uma queda. Sorriu e, de repente, arregalou os olhos.

            — Sai pra lá, Pingo!

            O vira-lata se fez de desentendido e pulou sobre o homem.

            — Para! Para! Sai! Cachorro maluco.

            Lavou o rosto, olhou-se no espelho. Confidenciou ao próprio reflexo:

            — Será que ela beija bem?

            Sorriu. Sim, certamente beijava melhor do que o Pingo. 

            — Duvida?

            Assustado, o sujeito voltou os olhos para o espelho e, para sua surpresa, o seu reflexo havia se transformado na vizinha.

            — O quê?

            — Duvida?

            — Não. Claro que não!

            Jogou água na cara. Voltou a abrir os olhos.

            — Que loucura é essa, meu Deus?

            Abriu a porta e lá foi o Pingo se aliviar no quintal. Lauro pensou que talvez também precisasse marcar território. Estava cansado de noites divididas com o cachorro, que um dia foi deixado em uma caixa de papelão em frente ao portão. Por que mesmo o teria acolhido? Piedade, nada mais do que pena daqueles grandes olhos amendoados de um castanho profundo, que provocavam dó apenas de fitá-los. E o danado, de tão feio, tinha lá o seu charme.

        Xícara sobre a mesa da cozinha, Lauro tentou entender a fumaça, algo dança do ventre. Bastou um sopro, tomou um gole. Nada mal para um café solúvel. A preguiça o afastava do coador. Aquilo que era bom, gosto de casa de vó. Um dia criaria coragem para convidar a bonitona da casa em frente para degustar um gourmet nessas cafeterias chiques. Quando saísse o décimo terceiro.

        Avistou seu Onofre vindo da esquina. O senhor, como de costume, passeava com o Zeus, o mestiço de pastor que vivia às turras com o Pingo. Certamente por conta de uma pretendente. Se ele soubesse que o vira-lata era castrado.

        — Pingo! Pingo! Entra! Vamos! Entra!

        Tomou banho, se arrumou para o trabalho. Antes de sair, observou o calendário preso na parede da cozinha. Respirou profundamente. Não via a hora de trocar a juventude pela aposentadoria. 

        — Pingo, papai precisa trabalhar. Não vá fazer bagunça. Até mais tarde, bonitão!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Teatro de sobrevivência

  

Queria ser atriz. Não a donzela que no final da cena era beijada pelo mocinho. Atriz de verdade, que arranca sentimentos enrustidos na plateia. 

          Benedita Oliveira de Sousa, sem tempo para subir ao palco, deslocou o talento para a realidade. Foi de tudo e fez quase tudo para sobreviver. 

          Ainda menina, teve um interlúdio com a avó diante da fogueira mais generosa do que o conteúdo na panela sobre as chamas:

           — Benedita, minha garotinha inocente, prefira sempre a dissimulação.

           — O que é isso, vovó?

           — Finja, minha filha. Finja até quando o mundo disser chega.

          Lavou, passou, cozinhou, varreu, tomou conta de crianças da sua idade e até maiores. Foi recompensada com esmolas e tapinhas nas costas. Que fosse! Era muito para alguém vindo de onde ela veio. Que levantasse as mãos para o Céu e buscasse alento em Deus; o Inferno, ela há muito conhecia.

          Casou-se contra a vontade, que lhe fora ceifada ao nascer, engravidou sem saber, quis dar de mamar aos seus enquanto seus seios eram sugados pelos filhos de outrem. Sem tempo de pensar, agiu para sobreviver às pancadas. Filhos, netos e até dois bisnetos. Se a comida rareava, taca-lhe água e um punhado de farinha.

          Monique, nove anos, quer ser atriz. Vai atuar de verdade. Peça na escola, papel pequeno, não importa.

          — Bisa, quero que a senhora vá.

          — Aonde, minha filha?

          — Vou ser beija-flor.

          — Beija-flor?

          — É. Quer ver? 

          O pátio do colégio se fez de teatro. O público se acomodou do jeito que deu. Princesa, príncipe, sapo, beija-flor, jabuti, macaco, coelho, bruxa. Cadê a bruxa? Ficou doente, faltou. 

          — Dona Benedita, a Monique me disse que a senhora é atriz.

          — Eu?

          — Não é?

          — Isso é coisa da cabeça dela.

          — Não quer ser a bruxa?

          — Outra vez?

          Pegou o papel. Ganhou a plateia. Olhos tristes, Benedita percebeu que o que machuca de verdade é a risada. 

          — Dona Benedita, a senhora arrasou! Que atriz!

          — Finjo bem, professora. Finjo muito bem.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Greta, a boneca de porcelana

     

      Não faz muito tempo... Hum... Três, quatro meses? Bem, não sei ao certo, mas não importa. Comprei por impulso uma boneca em um antiquário. Não que eu tenha desejos por bonecas, não os tive quando menina, não seria a essa altura do campeonato que eles iriam atormentar a minha existência. 

      Bege, completamente bege, caso não fosse por um rosado nas faces, o avelã nos olhos e aquele vermelho um tanto suspeito nos lábios. Cabelos presos em um coque, rosto levemente inclinado para cima, sorriso mais discreto que o da Monalisa. Ela me fisgou, como se fosse a versão em porcelana da jovem que fui. 

      Enquanto caminhava com a boneca cuidadosamente embrulhada em jornal velho, comecei a imaginá-la sobre a estante da sala. Quando recebesse alguém, certamente todos iriam se encantar com a... Precisava de um nome. Mas qual? Adelaide. Não. Margarete? Hum... Greta. Sim, Greta. 

            — Que boneca maravilhosa, Rosana.

            — Ah, é verdade. A Greta foi presente de um embaixador russo.

            — Greta? O nome dessa boneca é Greta?

            — Greta Garbo. 

            — Nossa! Que chique!

            Sucesso total carregado de inveja alheia. E a Shirley? 

             — Rosana, onde você arrumou essa lindeza?

             — Ah, mandei trazer de Paris.

             — De Paris? Deve ter custado uma fortuna.

        — De Paris sim, minha amiga. Nem queria comprar, mas insistiram tanto. 

              — Pois nem me fale o preço, que posso cair pra trás.

             — Uma bagatela. Cinco mil reais.

             — Cinco mil?

             — Barato, né?

             — Mulher, por acaso tu tá assaltando banco?

            — Já te contaram?

            Ah, como seria bom ver a cara daquela metida que não tem onde cair morta. Dez mil. Não! Quinze. Dezoito mil, setecentos e sessenta e sete reais, fora as taxas. Aposto que a Shirley iria devorar as próprias entranhas de ódio.

               Abri a porta e, antes de entrar, dei uma boa olhada na sala. Precisaria empurrar um pouco a estante para que a estátua ficasse bem visível assim que alguém entrasse. Meio metro ou um tanto mais.

                Desembrulhei a Greta, passei uma flanela para tirar a poeira. Com cuidado, a depositei no vão mais alto da estante. Senti o sorriso percorrer todo o corpo e logo imaginei a Salete com aqueles olhos arregalados.

            — Mulher, que riqueza de boneca!

            — Tu acha?

             — Lógico que sim, Rosana.

            — É bonitinha.

             — Bonitinha é apelido, minha filha! Essa boneca deveria estar num museu.

            — Não vendo.

            — O quê?

            — Não vendo, não dou, não troco, não faço catira. Foi presente do desembargador.

            — Desembargador?

            — É.

            — E tu agora deu pra andar com esse da alta?

          Peguei a toalha e fui tomar banho. Virei o rosto para o chuveiro, que lavou a minha alma de tanta inveja daquela gente. Exausta, mal me deitei, o sono me pegou de jeito.

            Na manhã seguinte, xícara na mão, contemplei a Greta por praticamente meia hora até que a urgência do dia a dia me puxou de volta para a vida. E foi nessa correria que a boneca foi esquecida debaixo de tantos compromissos. 

       Sexta-feira passada, ou melhor, já era sábado quando cheguei de mais uma confraternização com os colegas do Banco do Brasil. Temos o hábito de, acabado o expediente, dar aquela esticada no Bar do Bosco. Bebi um tanto mais do que de costume, mas nada que comprometesse a minha sanidade mental.

                Girei a maçaneta e dei de cara com a Greta Garbo, que me sorriu. Acredite! A boneca de porcelana sorriu aquele sorriso de Coringa, depois girou a cabeça para o lado e, em seguida, me encarou com aqueles olhos de caramelo.

                  Se fiquei assustada? Não digo que sim nem que não, mas algo me fez dar dois ou três passos graúdos para frente e taquei a mão naquela desgraçada, que se espatifou no chão. Como não sou de adiar obrigação, peguei a vassoura e a pá de lixo. Juntei os cacos e joguei na lata do lixo. Pois sim! Na minha casa não, violão!

                    E foi assim que tudo aconteceu. Estava bêbada? Não nego. Tenho como provar? Não tenho. Vai duvidar?

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Vizinhos, maridos e outros detalhes

     

Não vou mais fazer isso. Quer dizer, foi o que decidi ontem à noite. E essa ideia me acompanhou até a hora do café, que tenho o hábito de tomar sem a ilusão de torrões de açúcar. No máximo duas gotas de adoçante para manter a linha e a compostura diante dos percalços da vida.

        Vida de amante. Se a minha mãe descobre, talvez fique constrangida por causa dos genes que me passou. Papai sempre me pareceu alheio às inúmeras pistas atiradas pelo caminho. Não descarto que aprecie sua situação ou, então, seja do tipo que tem como lema viva e deixe viver. 

        — Você é louca!

        Quem disse isso foi Lúcia, a minha irmã.

        — Aconteceu tão assim... Quando me dei conta, já estávamos na cama.

        — Hum! Louca! Mas me conta, Morgana, o Júlio é bom de serviço?

        Eu, a louca, precisava passar a ficha completa do marido da minha vizinha. Mas eis que palavras foram substituídas por uma gargalhada reveladora.

        — Sabia! 

        — Sabia o quê, Lúcia?

         — Ah, do jeito que a Rosana anda com aquele sorriso no rosto...

          Rosana é a minha vizinha, mulher do Júlio.

            — Mas você não tem medo?

            — Ah, até tenho, mas na hora dá aquela amnésia.

            Amnésia? De onde tirei isso? Seja como for, a Lúcia trocou o sorriso por um olhar interessado demais para o meu gosto. Ter um caso com o marido da vizinha basta, não vou querer transformar isso em feijoada de domingo. Que a minha irmã vá brincar em outro parquinho.

        — Olá, meninas! Quais são as novidades?

        Álvaro, meu marido, apareceu fingindo curiosidade. Ah, se ele soubesse que o Júlio tem uma filial. Pior, que sou eu. Preciso largar essa história de ser amante. Como isso dá trabalho! Amanhã. Sim, talvez amanhã ou mês que vem. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

O preço do arrependimento

        Valdir complementava a aposentadoria com o que raramente pintava. Desencapava fios e mais fios atrás do cobre, que era vendido aos quilos; capinava um lote ou outro; trabalhava de garçom em festas de crianças, casamentos e confraternizações. A despeito dessas atividades, o senhor tinha apreço por panelas de pressão.

             — Vai mesmo jogar fora, dona Anísia?

             — Comprei uma elétrica. Muito mais prática.

            O homem deixou de lado qualquer resquício de orgulho e tratou de pegar a panela rejeitada. Era nítido que a pobrezinha já havia se envolvido com muito feijão, canjica, milho e aipim. Gasta além da conta, não importava, Valdir a acolheu em seus braços e a levou para o seu pequeno apartamento. 

             — Aurora. Hum... Não! Genoveva parece combinar melhor com você. Vou colocar essa borrachinha aqui e você vai poder cozinhar muito ainda. Vai ser disputada a tapas.

            A panela de pressão, talvez encabulada, não quis responder ao idoso. Seria louco? Mais provável que aquilo fosse apenas solidão. 

             — Coitadinha, está tristinha? Logo, logo você faz amizade com a Flora, a Felícia, a Marta e a Jurema. Se você tivesse chegado há duas semanas... Mas deixa estar, minha querida, que aqui é tudo gente boa. Então, sinta-se à vontade.

             Nova ausência de fala, a Genoveva talvez fosse muda de nascença.

             Como previsto, bastou um banho de loja para que a Genoveva fosse mote de disputas ferrenhas. E lá estavam a Mirtes, a Honorata e a Lourdes dando os lances.

             — Trinta reais, seu Valdir.

             — Pois eu dou cinquenta agora mesmo. Não peço fiado, isso é coisa da Lourdes.

             — Coisa minha? Eu pago é com Pix, minha filha!

             — Pois quero ver! Tu deve o Zé da feira há mais de mês que eu tô sabendo.

             Enquanto as três mulheres não entravam em acordo, apareceu a dona Anísia, que há pouco mais de mês havia jogado aquela panela de pressão no lixo. Ela chegou de mansinho e depositou uma nota de cem no bolso da camisa do Valdir. O sujeito sorriu e devolveu a Genoveva à senhora. 

             Não se sabe exatamente o motivo que fez a dona Anísia se arrepender de ter jogado fora a sua antiga panela de pressão. Há boatos, e talvez nenhum seja totalmente verdadeiro. Dizem que a panela elétrica queimou e, também, há a versão de que a comida ficou sem gosto. O certo mesmo é que o Valdir tem sido visto na casa da mulher nos finais de tarde, quando o cheiro inconfundível de milho cozido toma todo o bairro. Milho cozido e amor.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O ruído dos outros

     

    Não era um tipo resmungão, preferia o silêncio a embates infrutíferos, jamais vencidos, apesar dos mais prolixos imaginarem tal inverdade. Que seja, ao maior dos tolos, as batatas. Para que discutir, deixe-o vangloriar-se por qualquer ilusão, por menor que seja.

        Osmar Augusto Bastos, jornalista há década e meia, defendia com unhas e dentes o apaziguamento. Os adversários e até os amigos costumavam provocá-lo. Talvez, assim, o sujeito tomasse uma atitude, certamente com os brios feridos. Que nada!

        — Tu é mesmo um frouxo, Osmar!

        — Do que você está falando, meu caro Antônio?

        — Quando é que tu vai responder àquela afronta?

        — Afronta?

        — Pois não viu o Mauro afirmar que tu não passa de um zero à esquerda quando o assunto é escrever uma matéria decente pro jornal?

        — Ele disse isso mesmo?

        — Pois não estou te dizendo, homem?

        — O Mauro?

        — Sim! E quem mais?

        — Hum...

         — E o que tu vai fazer? Coisa pequena não há de ser.

        — Nada.

        — Nada?

        — Pessoas têm opiniões, meu caro Antônio.

        — Pois tu é mesmo um cagalhão!

     Osmar poderia levar aquelas palavras para o coração, mas preferiu abster-se de contendas desnecessárias. Melhor seria escrever um poema. Inspiração não lhe faltava, até a simplicidade de vestimenta de um solitário joão-de-barro ganharia cores a cada verso.

        Antônio, há poucos meses na redação, talvez entendesse aquela atitude como de alguém pusilânime, e isso o incomodava, como se fosse preciso encarar a ofensa como algo grave. Pensou em ir tirar satisfação com Mauro, porém, desprovido de sustança corporal, preferiu fazer nova investida no colega.

          — Osmar, você sabe que isso não pode ficar assim, né?

            — Hum... Creio que você tem razão.

            — Ah, até que fim! Tu vai tomar uma atitude. Que bom!

            — Você acha que poesia com rima está fora de moda?

            — O quê?

            — Poesia. Com ou sem rima?

            O homem se aproximou e percebeu que Osmar estava escrevendo umas estrofes. Puxou o ar com força e o expeliu logo em seguida. Sem perspectivas de resolver algo que o incomodava, apesar de não lhe dizer respeito, Antônio foi ter uma conversa com Armando, o editor-chefe.

            — Armando, tu tá sabendo o que anda acontecendo por aqui?

             — Não.

            — O Mauro.

            — O que tem ele?

            — Anda dizendo que o Osmar é um péssimo jornalista.

            — Hum... E daí?

            — E daí? Ah, se fosse comigo!

            — E foi contigo?

            — Não.

            — Então, tá resolvido.

            — Mas...

            — Olha aqui, Antônio, enquanto a língua do Mauro é um escorregador, o Osmar parece que nasceu com uma batata em cada ouvido. 

domingo, 21 de junho de 2026

Mulher à la carte

    

    Recém-separada, Marta não queria ter aceitado aquele convite para um encontro às escuras, ideia de Lúcia, a irmã caçula. 

    — Se tu não for, eu vou.

    — Lúcia, tu é casada!

    — Ainda.

    — Como assim? Alguma coisa errada entre você e o Mauro?

    — Errada sou eu, minha irmã, que nasci pra rodízio. 

    — Hum! Pois eu sou à la carte.

    — E eu não sei? Você sempre foi a caretona da família.

    Geraldo, 56 anos, divorciado há anos, rosto agradável, sorriso encantador, mora em Roma, onde é professor universitário. Fluente em francês, inglês, espanhol, alemão e italiano. Ainda bem que era brasileiro e se comunicava perfeitamente em português. Do contrário, aqueles dois teriam problemas na comunicação. E posso lhe garantir que a conversa foi ótima, muito por conta das duas ou três taças de vinho que tornaram Marta, digamos, receptiva aos avanços do bonitão. 

    O primeiro toque de mãos aconteceu quase por acaso, era o que a mulher imaginava. Quer dizer, agora sentada no sofá do seu apartamento, já não duvidava que havia sido ela a provocar aquela primeira carícia. E daí? Marta tentou colocar toda a altivez para fora. Era livre, adulta, dona do próprio nariz. Problema do Augusto, que preferiu se aventurar com uma novinha. 

        — Você tem certeza?

        — Não quer?

        — Quero se você quiser.

        — Pois eu quero, Geraldo.

        Chamaram um táxi e cruzaram a cidade. Apesar do trânsito praticamente livro àquela hora, os enamorados sentiram que nunca chegariam. 

        — Obrigado, chefe! Pode ficar com o troco.

     Entraram no edifício, o primeiro beijo aconteceu ainda no elevador. Tomados de desejos, foram direto para o quarto, onde a cama macia os abraçou até que, exaustos, adormeceram. 

  Xícara na mão, Marta buscava no café qualquer explicação para os últimos acontecimentos da sua vida. Não chegava a se arrepender, as poucas lembranças que o vinho não apagara lhe traziam certa euforia, a ponto de levar seus dedos aos lábios: "Meu Deus, como beija gostoso!"

        Ainda com sentimentos confusos, Marta sentiu que alguém a observava. Voltou o rosto para o corredor, mas nada. Geraldo provavelmente ainda estava dormindo. Um leve toque na janela. Um carcará. A mulher tomou um susto, quase gritou.

        O falcão a encarou, aquele olhar penetrante, altivo, implacável. A culpa tomou conta da mulher, que se viu entre a ave de rapina e o homem praticamente desconhecido que dormia no seu quarto.

sábado, 20 de junho de 2026

Italiana, mas nem tanto

     

   Esther Stella, italiana radicada no Brasil há tanto tempo, poderia facilmente ser confundida com uma nativa.  Não se engane, meu amigo, a senhora amava o nosso país, mas não titubeava quando alguém a confrontava.

    — Vovó, pizza brasileira ou italiana?

    — Hum! Italiana, óbvio! Brasileiro pensa que pizza é bagunça.

    — Bagunça, vó?

    — Onde já se viu colocar nhoque, estrogonofe, abacaxi? Blasfêmia!

    — Mas banana pode, né, vó?

    — Hum! Heresia!

    Apesar de arrotar tradições, Esther costumava colocar um pouco de caldo da feijoada de domingo sobre uma generosa fatia de pizza no café da manhã do dia seguinte. Obviamente, a senhora se precavia para não ser vista por ninguém. 

       Além da iguaria italiana com o tempero brasileiro, Esther era apaixonada por futebol. Era torcedora de certo time famoso alvinegro, afamado por ser o mais tradicional do país. Mas andava triste, ainda mais por ter iniciado a Copa do Mundo, e a Itália, pela terceira vez consecutiva, estava de fora. 

        A parentada até tinha simpatia pela Azzurra, apesar de os mais velhos ainda se lembrarem com amargor da Tragédia do Sarriá, quando o Paolo Rossi, que não havia marcado sequer um golzinho, resolveu meter logo três na Seleção Brasileira. E talvez tenha sido esse trauma que fez com que os familiares em peso iniciassem aquela provocação contra a idosa.

        — Vó, quem sabe em 2030?

        — Ih, vovó, talvez o Brasil jogue de azul pra senhora fingir que é a Itália.

        — Dona Esther, que tal uma pizza de farofa?

        E aquilo foi irritando a matriarca, que procurou aparentar certa classe:

        — Menos Copa, minha gente, e mais Botafogo.

        Boquiabertos, todos olharam para a dona da casa. E, antes que alguém pudesse dizer algo, eis que a Esther soltou essa:

        — Ah, já ia esquecendo.

        — Do quê, vó?

        — Vão todos à merda!

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Entre Lavoisier e Drummond

    

    Não posso dizer que já fui um ferrenho defensor da finitude da vida ou, como minha falecida esposa gostava de dizer, da reciclagem dos átomos através da história. Bem, não estou necessariamente interessado nas implicações físicas ou químicas, tampouco nas filosóficas e, talvez sim, nas poéticas desse reaproveitamento da matéria. 

     — Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, José, como já dizia Lavoisier.

      — Por isso que sempre vou preferir Drummond, Lígia. 

     Minha Lígia certamente está espalhada por aí, quem sabe até na samambaia pendurada na varanda de alguém ou no poodle da vizinha. Seria engraçado, pois a minha esposa sempre foi alérgica a pelo de cachorro. Não que detestasse os bichos, era mais questão de saúde. 

        — Já espirrei pro ano inteiro, José. Até parece que o Padura entrou aqui hoje. Por acaso você não deixou a porta aberta de novo, né, José?

          — Não, meu amor. O Padura não entrou aqui. 

            Que saudade da minha Lígia, da sua voz, do seu sorriso, ah, aquele sorriso. Do cheiro, até dos espirros, o primeiro tímido, o segundo um tanto mais à vontade, os demais desavergonhados. 

          Minha filha veio aqui na semana passada. Deixou as crianças por algumas horas. Queria que ficassem mais tempo, mas a Sônia se preocupa demais.

            — Pai, melhor assim. A Alessandra e o Pedro dão muito trabalho.

            — Trabalho que nada, Sônia. Já estou calejado. Ou você se esqueceu de como vocês eram? 

            Aproveitei o que deu com os meus netos. O Pedro, deve ser por causa da idade, ficou praticamente a tarde inteira entretido com jogos eletrônicos. A Alessandra, que acabou de completar três anos, não desgrudou da barra das minhas calças. Parece interessada em tudo, e tudo parece desinteressante no minuto seguinte. Quanta vivacidade. E como sorriu aquele sorriso franco e sem amarras da pequena infância.

            Posso parecer um tolo, talvez seja a idade, não sei. A presença dos meus netos é um conforto e, não descarto, um elixir de coragem. Não tenho medo da morte nem mesmo resquício da falta dos batimentos cardíacos, cada vez mais falhos. Medo nenhum dessa finitude tão certa. No entanto, quando tudo isso acabar, vou sentir falta. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Entre o diferencial e o Natal

    

        Segunda-feira. Lá estava o Leopoldo, proprietário da Magnu, a oficina mais afamada e malfalada de Sobradinho, a quase bucólica cidade do Distrito Federal. O sujeito estava debaixo de um Opala ajudando o Boquinha, o mecânico mais talentoso do local. 

        — Tu tem certeza que o problema é no diferencial?

        — Leopoldo, tu tá aqui pra me ajudar ou pra me atazanar?

        — Desculpa, Boquinha! Num sabia que você tava tão sensível assim.

        — Hum! Com a quantidade de serviço que você pega, quem se estrepa sou eu. Os clientes ficam tudo aí me torrando a paciência.

         — Sabe duma coisa, Boquinha?

          — Hum! O quê?

          — Tu tem razão! A partir de hoje, não pego mais serviço até entregar tudo o que tá aqui.

          — Hum! Duvido! E, mesmo se fosse verdade, só acabaríamos de trabalhar dia e noite no Natal.

            — Ah, Boquinha, o Natal até que não está tão longe assim.

            — Natal do ano que vem.

            Enquanto os dois proseavam ironias, eis que entrou no recinto o Gilmarildo, cliente dos mais tradicionais. Por um instante, o homem pensou que não havia ninguém na oficina, até que ouviu vozes.

            — Leopoldo, você está aí?

            — Minuto, Gilmarildo! Já tô indo.

            Boquinha, já prevendo o pior, cochichou:

            — Ô, Leopoldo, vê se não vai arrumar mais trabalho, hein!

            — Calma, Boquinha! Deixa comigo! Ou tu acha que sou homem que não cumpre palavra?

            — Hum!

            Assim que saiu debaixo do veículo, o dono da Magnu cumprimentou o Gilmarildo, que estava com cara de desalento.

             — O que foi, Gilmarildo?

              — Leopoldo, tu não vai acreditar.

              — Num vou acreditar no que, homem?

              — A Carlota. Você conhece a Carlota, né?

               — A tua esposa?

                — Não, Leopoldo! A minha mulher é a Cris. Carlota é a minha Caravan.

                — Ah, tá! Tô brincando com você.

                — Pois é, Leopoldo, ela fundiu o motor. 

                — Eita!

                — Pior!

                — O quê?

                — Prometi pra Cris que iríamos viajar pra Caldas Novas com ela.

                — Cris?

                — A minha mulher, Leopoldo!

                — Eu sei! É que estou aqui pensando em como posso te ajudar.

                — Sexta-feira.

                — O que tem sexta?

                — A Cris e eu faremos 30 anos de casados. Você acredita?

                — Meus parabéns, Gilmarildo.

                — Parabéns como, Leopoldo? Como é que vou cumprir a promessa pra minha mulher?

                — Vai no seu outro carro.

               — Não posso, Leopoldo. É promessa. E promessa é coisa que precisa ser cumprida.

                Enquanto o Leopoldo pensava, o Boquinha colocou a cabeça para fora e lhe lançou raios de esconjuros. Coração mole e desejando que o Gilmarildo e a Cris fizessem a tão esperada viagem, o dono da Magnu prometeu entregar a Caravan na quinta-feira à tarde. 

                — Leopoldo, nem sei como posso agradecê-lo. Muitíssimo obrigado, meu amigo!

                — É um prazer servir os meus clientes, Gilmarildo, ainda mais um tão fiel que nem você. 

                Gilmarildo, olhos lacrimejando, se despediu. E foi aí que a coisa pegou.

                — Hum! Homem de palavra! Tu é mesmo um cretino mentiroso, Leopoldo.

                — Mas, Boquinha, você viu o homem. O que eu poderia fazer?

                — Que dissesse não, que não podia e pronto!

                — Boquinha, meu amigo, você me conhece. Sou homem de coração mole. 

                — Pois esse seu coração mole vai te matar. E o serviço vai ficar aí. Talvez os seus genros assumam os abacaxis que tu arruma pra mim. Melhor seria que ficasse pro pé de pano que vai casar com a viúva que tu vai deixar.

                — Ah, isso não vai acontecer.

                — E por que tu tem tanta certeza disso?

                — É simples, Boquinha: não tenho pretensão de morrer por esses dias.

                Não morreu mesmo. Tanto é que o Gilmarildo e a Cris pegaram a estrada na sexta-feira bem cedinho na Carlota. Os detalhes da nova lua de mel não irei revelar. Seja como for, de vez em quando, acontecem milagres na Magnu.