Certa feita, que não foi ontem nem anteontem, mas alguns dias antes do carnaval de um ano qualquer, lá estava o Josias sentado à mesa de costume no comércio da dona Leiloca. O gajo bebia o de sempre, uma cerveja acompanhada de meia porção de calabresa acebolada. Mastigava com a paciência de um gato de rua, dava um gole profundo na bebida, cofiava o bigode, retirava um cigarro do bolso da camisa engomada, levava-o ao nariz e aspirava o gosto de nicotina, mas logo guardava o mesmo. Era proibido fumar no ambiente.
— Dona Leiloca, bom mesmo era quando se podia fumar até dentro de centro cirúrgico.
A mulher voltou os olhos para o cliente e sorriu. No entanto, seu Humberto, que estava no caixa, não resistiu e provocou o contador de histórias.
— Deixa de conversa, Josias! E quem fumava ali?
— Ué, o médico!
— O médico?
— Sim. E aconteceu quando nasceu meu primeiro filho.
— Filho? E por acaso tu tem filho, homem?
Dona Leiloca, que estava doida para ouvir aquele causo, interviu:
— Humberto, pelo amor de Deus! Deixa o Josias contar, que fiquei curiosa pra conhecer essa história.
— Obrigado, dona Leiloca. Imagino aqui com meus botões como o mundo seria melhor com mais criaturas elevadas que nem a senhora.
Antes de começar a contar o ocorrido, Josias cofiou o bigode e aprumou a voz.
Bem, era uma noite fria de julho lá em Porto Alegre, quando Dolores, minha amada Dolores... Que Deus a tenha em bom lugar. Pois lá estávamos nós dois debaixo da coberta, quando a bolsa estourou.
Foi uma correria danada até o hospital. Bastou chegarmos, colocaram a Dolores, com aquele barrigão sem tamanho, numa maca e a levaram para a sala de cirurgia. Como não sou dos mais valentes, preferi esperar do lado de fora. E era um cigarro atrás do outro. A sorte é que tenho por hábito levar duas carteiras de reserva e uma em uso. Então, estava abastecido mesmo se o parto durasse até de manhã.
Depois de caminhar quilômetros naquele pequeno corredor e tragar que nem Preto Velho, eis que o cirurgião abriu a porta e me perguntou se eu tinha um cigarro. Lógico que tinha. E foi aí que a coragem me chegou como visita inesperada em hora inapropriada.
— Se tenho? Doutor, mesmo se não tivesse, corria ali e comprava pro senhor.
— Pois me dê um, que deixo você ver o seu guri.
Acordo firmado, entrei na sala de cirurgia e lá estava a minha Dolores toda sorridente com o nosso piá agarrado no seu peito. E como o moleque sugava.
Como trato é trato, peguei um cigarro e o coloquei nos lábios do doutor, que ainda precisava fechar a barriga da Dolores. Era uma tragada, um ponto e uma baforada. E rapidinho não tinha mais tripa de fora. E o médico ainda deu uma queimadinha na beiradinha de um dos pontos que ficou grande além da conta.
Terminada a história, Josias deu o último gole na cerveja, pagou a conta e, antes de se despediu, pegou o cigarro no bolso, o levou aos lábios e disse:
— Bem, meus amigos, preciso ir. Não é minha culpa, mas vocês sabem que o cigarro e eu temos uma amizade de décadas e, mesmo sabendo que uma hora um de nós mata o outro, preciso fumar. Até a próxima!
Mal Josias saiu do recinto, dona Leiloca sorriu e disse para o marido:
— Humberto, o Josias parece até que possui licença poética pra mentir.
— Que nada! Esse aí mente num minuto o que o Diabo não acompanha um mês no pandeiro.- Nota de esclarecimento: O conto "Josias, o afeito a caraminholas" foi publicado no Notibras no dia 6/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/josias-o-afeito-a-caraminholas/

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