quinta-feira, 9 de abril de 2026

Entre migalhas e Ferraris

      

    Não julgue que faço apologia dos desvios que tive ao longo da vida. Não só não faço, como também não serei eu a condená-los. Entenda que não tive escolha ou, ao menos, as propostas que me foram apresentadas não me interessavam. Afinal, quem se contenta com migalhas quando se pode ter toda a fornada?   

    Nunca fui de fazer dramas por conta de situação financeira, mesmo porque não me enquadro nas classes menos abastadas, que sofrem as agruras da precariedade de recursos. Também não nasci entre os que detêm recursos suficientes para ditar os rumos da sociedade. Esse equilíbrio talvez tenha sido o motor que me qualificou para ir em busca algo que, aos meus olhos, era por meu por direito.         

     Antes dos 25 anos, ajudava meu pai a gerenciar o comércio da família, uma padaria e uma loja de ferragens. Ele, antes de se aposentar, já havia iniciado essas atividades, pois temia morrer assim que parasse de trabalhar em certa repartição pública em Brasília. Mamãe, a princípio, não gostou muito da ideia, pois seu objetivo era retornar para sua Sete Lagoas-MG ou, então, ir para o litoral. 

      O trabalho, apesar de não ser estafante que nem os dos nossos funcionários, não me satisfazia especialmente por eu ambicionar coisas muito além da vida mais ou menos que eu levava. É até engraçado, pois os empregados me imaginavam rico. Hum! Nada mais sem sentido como a visão distorcida de quem está no piso da sociedade afirmar que alguém, dois ou três degraus acima, está no topo do mundo. 

        Aconteceu numa sexta-feira, final de mês, na panificadora. Depois de conferir o faturamento, pedi um refrigerante e um pedaço de bolo recheado para Carlos, um dos balconistas. Enquanto isso, percebi um sujeito, pouco mais velho do que eu, estacionar uma Ferrari em frente. Ele desceu e, para minha surpresa, entrou e, do nada, me perguntou se o bolo era gostoso.

            — É, mas talvez não seja do agrado para alguém que tem um carrão desse.

            O cara me fitou e, com sorriso nos lábios, disse que qualquer um, com um pouco de coragem, poderia ter dois ou três iguais ao dele.

            — Bem, amigo, não me considero um covarde, mas não faço a menor ideia de como ter uma máquina dessa, muito menos duas ou três.

             — Qual é o seu nome?

             — Renato.

            — Hum! Quem sabe não seja este o momento de você renascer?

         Ele estendeu a mão e disse que se chamava Carlos. No entanto, de um tipo muito diferente do empregado do meu pai. Depois de comer a fatia de bolo e beber um café, ele se levantou e, antes de sair, me deu seu cartão.

            — Se estiver disposto, me ligue.

            É óbvio que estava disposto a tudo para pilotar uma Ferrari que nem aquela. Melhor, queria ter uma igualzinha ou, como Carlos havia mencionado, duas ou três. Nada mais daquela preocupação de contar migalhas na última sexta-feira do mês.

         Durante aquele final de semana, minha mente vislumbrou várias possibilidades. Carlos estaria metido em que tipo de negócio? E, por mais que tentasse vislumbrar algo honesto, meus pensamentos eram empurrados para o mundo dos ilícitos. No mínimo, negócios que não pudessem ser chamados de ortodoxos.

           Segunda-feira, logo após as 10h, telefonei para o Carlos. Ele não atendeu, o que me deixou desanimado. Talvez nem se lembrasse de mim. Que burrice a minha não ter passado meu número para ele. E lá estava eu lamentando minha falta de experiência, quando o meu celular tocou. Era o dono da Ferrari, que pareceu animado em saber que eu havia demonstrado interesse. 

          Por volta das 16h, Carlos passou na padaria e, ainda dentro de um Porsche conversível de cor preta, me acenou. Fui em sua direção e, logo em seguida, estávamos a caminho de não sei onde. 

            — Renato, tem certeza de que está a fim?

            Mesmo não tendo a menor ideia do que aquilo significava, tentei ser o mais convicto possível.

            — Sim!          

            Carlos se virou, sorriu, mas não consegui decifrar seu pensamento através daqueles olhos de um castanho tão profundo, que meu causaram misto de desconforto e atração. Entretanto, logo percebi que a minha história não caminhava para um final feliz, pelo menos não nos moldes a que nos é apresentada em filmes de Hollywood. E quem disse que isso me fez recuar? 

            Passamos a noite juntos. Não era minha preferência, mesmo não sendo novidade. Acabei por me embriagar por tanto luxo na mansão do Carlos, localizada no Lago Sul. 

            Na manhã seguinte, me vi sozinho na cama. Olhei para os lados, mas nem sinal do Carlos. Assim que me levantei, percebi um bilhete ao lado: 

Renato,

Sinta-se em casa. Volto mais tarde. Qualquer coisa, peça para Matilda. 

Carlos    

        Matilda? Quem era Matilda? Não demorou, descobri, pois a tal deu dois leves toques na porta e perguntou se podia entrar. 

           — Oi! Pode sim.

           — Está vestido?

            Se eu estava vestido? Precisava mesmo daquela pergunta? 

            — Sim.

           Assim que a mulher entrou, imaginei que fosse a governanta ou algo do tipo. Mas eis que ela me olhou com aqueles olhos conhecidos, o que me deixou ainda mais constrangido por aquela situação.

          — Bom dia! Sou a Matilda. Você deve ser o Renato.

       Como é que é? Por acaso havia mais alguém nos outros quartos? Tentei sorrir, mas minha cara me denunciou.

        — Você quer tomar seu café aqui no quarto, na sala ou na varanda em frente à piscina?

        — A senhora é...

        — Matilda. Então?

        — Vou tomar um banho primeiro.

        — Ok. Estarei lá embaixo. 

        Debaixo do chuveiro, meus pensamentos me deixaram ainda mais confuso. O cheiro do Carlos ainda estava em mim. Cheiro de gente de classe. O que eu estava fazendo ali? O que era aquilo tudo? Queria ligar para Gláucia, minha namorada, talvez como forma de afirmar a minha masculinidade. Por outro lado, desejei prolongar ao máximo estar ali.

        Tomei café na varanda. Matilda me fez a gentileza de não me deixar só. Conversamos sobre vários assuntos, e ela se mostrou muito discreta. Não me fez perguntas, apenas me ouviu contar histórias, algumas que a fizeram sorrir. 

        — Os seus olhos... Você é...

        — Matilda. 

        — Sim, eu sei. 

        — Você é um ótimo observador, Renato. E fico feliz por isso.

     Nesse instante, a Ferrari vermelha passou pelo portão e estacionou próximo de onde estávamos. Carlos desceu e, assim que nos viu, veio em nossa direção. Ele beijou Matilda na testa e, em seguida, desarrumou meus cabelos com os dedos.

      — Você fica mais bonito assim. Já basta aquele monte de engomadinhos que preciso lidar todos os dias. 

        Senti um pouco de vergonha, mas confesso que gostei daquela descontração. 

        — Que tal, Matilda? Gostou do meu namorado?

      Namorado? Não que eu não gostasse daquilo, mas nunca havia sido namorado de um homem. E, antes que eu pudesse dizer algo, Matilda repousou a mão sobre a minha e disse:

        — Adorei, meu filho!

       Carlos e eu nos entregamos de modo quase honesto. Ele sempre se mostrou apaixonado, confessou que já havia me visto algumas vezes antes de tomar coragem e estacionar a Ferrari em frente à padaria. Tamanha sinceridade me deixou propenso a tomar como natural o nosso envolvimento, mesmo que o conflito ainda me faça sala.

      Quando passávamos as noites juntos, quase sempre eu acordava sozinho. Em vez de sentir solidão, tratava de tomar aquela ducha e me arrumar para tomar café na companhia da Matilda. Que mulher incrível! Cheia de histórias e cuidados. Tornou-se minha confidente de assuntos que a maioria não está preparada nem disposta para escutar. 

       Nos dias seguintes, minha maior preocupação era manter a discrição, e creio que não me saiu tão mal. Mantive o relacionamento com Gláucia, que durou por mais quase dois anos, até que fomos nos afastando. Nesse tempo, a pedi em casamento, mas ela, talvez percebendo que algo havia mudado, declinou da ideia. Não descarto a possibilidade de minha namorada ter percebido outro perfume em mim.

        Mamãe, após anos de lamúrias, finalmente convenceu meu pai a irem embora de Brasília. Não antes de eu prometer ao meu velho que tomaria conta dos negócios da família. Isso, aliás, é o que ainda me mantém com os pés no chão. O dois se mudaram para João Pessoa, cidade pela qual se apaixonaram. Talvez eu vá visitá-los no Natal.

    Quanto ao Carlos e eu, estamos bem. Não me meto nos seus negócios, e ele não desaprova o meu trabalho. Diz que é importante ocupar a mente com algo. É um homem simples, apesar de rodeado de tanta riqueza. 

        Após idas e vindas, o nosso relacionamento se transformou em amálgama. Já não sei onde eu termino, onde ele começa. Eu me mudei para o Lago Sul há dois meses. Gosto da sua companhia, de estar ao seu lado e, especialmente, não consigo mentir, amo a vida luxuosa que ele me proporciona. Sem contar que a Matilda e eu adoramos tricotar trivialidades todas as manhãs na varanda, bem em frente à piscina. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre migalhas e Ferraris" foi publicado no Notibras no dia 9/4/2026.
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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Medo e desejo

            

               Saída da multidão ou do nada, ela se dirigiu a mim. E sem o menor pudor tocou a minha mão. Logo estávamos entrelaçados, completamente envolvidos pelas nossas línguas tão ávidas de desejos.

            Procuramos um canto mais escuro, onde quase não poderíamos ser vistos. Ela desceu a minha calça e continuou a exploração pelo meu corpo. Retribuí e senti o gosto inebriante acima de suas coxas.

            Não me lembro do seu nome, nem faço ideia de como era o seu rosto, mas ainda guardo na língua o sabor de sua intimidade.

           Foi numa noite fria que imaginei tê-la reconhecido. Os cabelos, então mais curtos, destacavam as maçãs proeminentes, que ladeavam o nariz levemente arrebitado e os lábios... Ah, os lábios! Generosamente atrevidos. Ela olhou de relance para mim e, de súbito, apressou o passo. Teria sido por medo ou, pior, por decepção? Covarde que sou, desejei que estivesse enganado, que fosse outra.

           Não importa quantas vezes retorno àquela rua, a dúvida ainda me acompanha. Vez ou outra, sinto como se tudo aquilo me pertencesse. Não sei se por ousadia ou soberba. Provável que seja tolice, tão própria dos acometidos por derrotas após fagulha de sorte. Como minha avó dizia: "Alberto, até um relógio quebrado estará certo duas vezes por dia."

            Tenho saído com a Cleide, que conheci por intermédio de um conhecido... Bem, para que mentir, se nem te conheço direito, meu amigo? Foi através de um aplicativo de namoro. Não era o que eu esperava, e creio que ela também teve o mesmo pensamento em relação a mim, graças aos ângulos das fotografias que me tornaram mais atraente, esbelto e, por conta de alguns truques aprendidos, de olhos esverdeados.

            Apesar dos estranhamentos iniciais, a solidão nos empurrou para um romance, por menores que fossem as expectativas. E nossos encontros se tornaram hábito, mesmo que não tenhamos sucumbido ao "Eu te amo!", o que poderia nos ter levado a uma amizade, digamos, colorida. Talvez seja algo do tipo.

         Ainda penso na mulher misteriosa. Todavia, cada vez mais, tenho receio de encontrá-la. Não por falta de desejo, mas por descobrir que tudo aquilo não tenha passado de um sonho. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Medo e desejo" foi publicado no Notibras no dia 8/4/2026.
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terça-feira, 7 de abril de 2026

Bolor e liturgia

        Um imbecil. Foi assim que me senti, no café da universidade, ao redor daquele grupo, como se o passaporte da juventude lhes tirasse o medo da vida. Pior foi que todos me tratavam com aquela reverência costumeira por conta da minha condição de professor e, não descarto, por causa dos meus 73 anos. E isso, em vez de me encher de regozijo, trouxe-me aquela sensação de resto de comida deixada na geladeira, azeda e repleta de bolor.

Há tempos preciso calcular cada passo. Erros, na minha posição, costumam causar espanto. Ninguém liga para os seus dramas, essa parte maior de todos nós não preenche páginas de livros. Qualquer deslize, é disso que irão se lembrar. E a idade, que deveria desatar todas as barreiras, acaba por se aliar ao horror da censura. Tornamo-nos, meu amigo, meras criaturas temerosas de sair do cercadinho, seguro que estamos acostumados.

Álvaro José de Medeiros e Silva, doutor em Ciências Humanas e Sociais, ministro aulas há quase 50 anos. Inicialmente para graduandos, depois para mestrandos e, na sequência, apenas para doutorandos na UnB. E ultimamente algo me tem perturbado. Não em relação ao conteúdo, mas ao discernimento dos estudantes. Não raro, durante uma fala ou outro, meu pensamento me transporta para o campo da dúvida: "Estou me fazendo entender ou, então, a didática suplantou o conteúdo?

De repente, Laura, uma das mais participativas, levanta-se e sai. A cadeira levemente virada para fora, a xícara de café quase intacta. Teria eu dito algo que a desagradou? Enquanto tento manter meu raciocínio, talvez meu sorriso amarelo tenha me denunciado. Márcio certamente percebeu meu constrangimento, pois me questionou sobre uma possível terceira guerra mundial. Logo ele, que sempre me pareceu mais interessado nos contornos das colegas. Não que fosse esse seu único intuito, mas, aos meus olhos de certa inveja, era o que eu desejava enxergar.

Tento responder ao meu aluno metido a Don Juan, enquanto mantenho questionamento paralelo sobre o porquê de Laura ter ido embora. Teria eu decepcionado uma das estudantes mais brilhantes que tive o prazer de conhecer? Teria eu finalmente sucumbido à soberba após anos de bajulações? Logo eu, que sempre tentei fugir da liturgia do cargo, estava ali tentando decifrar o suposto desdém de Laura. 

Se me apaixonei por minha aluna favorita? Confesso que, homem que sou, procurei ficar imune às paixões, que muitas vezes me fizeram sala. Mantenho casamento sólido, apesar de momentânea intempérie por assuntos de foro íntimo. Todavia, não sou tolo para colocar urgências do coração à frente da docência.

Creio que consegui aplacar a dúvida do Márcio, que me teceu elogios além do merecido, o que me deixou ligeiramente acanhado. Ele sabe. A dúvida que eu ainda pudesse ter foi dissipada assim que Laura retornou e, sorridentemente, voltou a se sentar ao meu lado. Ela, mão sobre meu ombro, me perguntou:

— Perdi alguma coisa importante, mestre?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Bolor e liturgia" foi publicado no Notibras no dia 7/4/2026.
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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Aristarco, o ateu praticante

             

           Aristarco era o nome do sujeito. Um tipo escorregadio, que, apesar da firmeza dos pais, conseguiu se livrar dos ensinamentos bíblicos. Um perdido, diziam os pastores, cujas ovelhas eram adestradas a não deixar o ensaboado em paz.

               Às seis da manhã, lá estavam os enviados diante do portão da casa do Aristarco. Sempre em dupla, pois contra o infiel era necessário ter argumento. Ih, perda de tempo. Melhor que fosse um batalhão. 

               — Bom dia, Aristarco! Jesus te ama e tem um plano maravilhoso para sua vida.

               — Não é possível! A essa hora, até Jesus deve estar dormindo, minha senhora.

               — Aristarco, Jesus mudou a minha vida. Ele vai mudar a sua também.

               — Ah, só me faltava essa!

               Sem paciência, Aristarco batia a porta na cara dos inconvenientes. O sono, já perdido, era trocado por uma xícara de café. Pegava o controle remoto, ligava a televisão. Programa religioso, trocava, outro, trocava, mais um. Diabos! Cadê os leões devorando um descuidado antílope? Desistia, último gole. Hora do banho. 

               Já na calçada, passos tranquilos a caminho do trabalho, alguém lhe entregava um pequeno pedaço de papel. Instintivamente, Aristarco tentava se esquivar, mas a pessoa insistia.

               — Abra o seu coração para Jesus.

               Bem que Aristarco poderia ficar calado e seguir seu caminho, mas algo dentro do seu ser desejava desabafar:

               — Ah, tá! Agora Jesus virou cardiologista?

               — Não zombe da palavra de Deus! Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo.

               — Hum!

               Caixa do Banco do Brasil, mal entrava, o desejo de ir embora se instalava desconfortavelmente ao seu lado. Muitas contas para pagar, não dava para largar o emprego. Talvez fingir-se de louco. Não. Ninguém acreditaria. 

               Entre tantos clientes atendidos naquele mês, não faltaram alguns com mensagens já conhecidas: "Jesus mudou a minha vida, ele pode mudar a sua também",  "Você não precisa de religião, precisa de experiência com Jesus", "O senhor é o meu pastor, nada me faltará", "Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos", "Deus tem uma vida nova para você". "O vazio do seu peito só Deus pode preencher", "Não deixe a sua salvação para amanhã", "Deus quer transformar a sua história"... No entanto, a que mais irritava Aristarco era "Eu era assim e Deus me transformou".

                — Transformou? Como assim? Você pode ser mais específico?

                — Tudo. Ele me transformou completamente.

                — Completamente? Hum... Completamente...

                — Sim, irmão.

                — Irmão?

                — Somos todos irmãos perante Deus.

                — Hum... Mas transformou como? 

                — Bem... Em tudo.

                — Tudo... Hum...

                — E essa sua transformação... Bem, você se transformou em quê?    

                — Num servo do Senhor.

                — Hum... Servo?

                — Sim. Deus é onipotente, onisciente e onipresente.

                — Hum... Onisciente?

                — Sim. Ele sabe todas as coisas.

                — Todas?

                — Todas.

                — Hum... Então, a culpa de tudo é de Deus?

                — Não! Temos o livre-arbítrio.

                — Temos?

                — Temos.

                — Hum... Mas Deus não é onisciente? 

                — Sim. 

                — Então, não temos livre-arbítrio, já que Deus sabe o que vai acontecer.

                — Bem... Mas quando você comete um erro, você vai culpar a sua mãe ou o seu pai?

                — Meu amigo, meus pais não são oniscientes. 

                Aristarco sorriu vitorioso, enquanto o aprendiz de pastor, boquiaberto, o viu dar as costas e ir embora. Daquele mato não saía cachorro.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Aristarco, o ateu praticante" foi publicado no Notibras no dia 6/4/2026.
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domingo, 5 de abril de 2026

O último dos Martínez

          

            Afirmar com certeza, não posso. Mas quem liga para verdades, quando se tem a magnitude da imaginação? Faça-me o favor de me deixar usá-la, prometo que a conduzirei de modo inofensivo, que nem jararaca diante de um pequeno roedor. 

          Lamartine Martínez, bem-criado, criado nunca fui, a seu dispor. Nascido em família nobre, cuja fortuna se esvaiu em múltiplos herdeiros e negócios mal feitos, fui obrigado a me misturar entre tanta gente comum. No entanto, não me interprete de modo equivocado, pois nada tenho contra os seus. Até fiz amizade com dois ou três, cuja aparência poderia, aos de olhos menos atentos, se passar por um dos meus.

          Meu bisavô, natural das Astúrias, na Espanha, era armador. Isso mesmo! Armador! Dono de navios. Para você ver que a coisa era grande. Sejamos justos. Enorme! E digo mais, não como forma de tentar convencê-lo, mesmo porque, aos de minha estirpe, não recai o ônus da prova. Que acredite e nada mais. É o mínimo que espero.

         Nicácio Martínez, homem de posses, cuja fortuna faria inveja a reis, aportou no Brasil antes do mundo conhecer o século XX, que, diga-se de passagem, só existiu graças a invenções do anterior, como a lâmpada elétrica e o motor a combustão. Do contrário, meu caro, ainda hoje estaríamos vivendo à luz de velas e andando de carroças. Isso no seu caso, já que certamente não me faltaria uma boa carruagem ou, ao menos, um cabriolé.

            Não cheguei a conhecer meu antepassado, já que ele desencarnou em 1930, quando mamãe ainda era uma menina sem preocupações além das próprias tranças. Todavia, seus feitos me foram passados, certamente de maneira módica, por quem conheceu o comendador. Sim, isso mesmo. Pois sou bisneto de comendador, o que me diferencia substancialmente do proletariado. E favor não me interpretar erroneamente, como se eu dissesse que essa classe, apesar de desprovida de classe, não mereça ser recompensada de alguma maneira. Mas também não queira me obrigar a aceitar essas benesses que o governo insiste em dar. E pra quê? 

            Pobre, meu rapaz, não sabe lidar com dinheiro. Que tenha lá seu quinhão, desde que nada além do mínimo. Essa turba não entende de economia. Nota graúda é para os que sabem aplicar. Melhor faltar pro feijão a ver a bolsa cair. Não é mesmo?

            Nome, meu jovem, é coisa séria. Vale mais do que Silvas, Sousas ou Santos que, porventura, enriquecem. É preciso valorizar os Albuquerques, os Cardosos, os Alencares e, ainda que carregado da humildade herdada, os Martínez.

            Agora preciso ir, meu pequeno confidente. O dever me chama. E por obséquio, faça-me a gentileza, estou sem miúdo. Assuma a conta de hoje ou mande pendurar. Lamartine Martínez, descendente direto do comendador Nicácio das Astúrias. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O último dos Martínez" foi publicado no Notibras no dia 5/4/2026.
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sábado, 4 de abril de 2026

Fragmentos de Honorata

   

      Todos vimos, perplexos, o desgaste físico de mamãe, cuja combinação de dores crônicas, fruto de problemas de saúde até então ocultos, além da fragmentação psicológica diante de tantas perdas, parecia lhe pesar muito mais do que seus então 42 anos. Ela tentava disfarçar buscando em algum lugar o sorriso perdido, mas as olheiras, de tão flagrantes, sem resquícios de compaixão, denunciava que o fim estava na próxima esquina, como se à espreita de um ser totalmente entregue.

        Honorata Augusta de Louzada Medeiros, à primeira vista, poderia confundi-la com uma mulher de posses. Ledo engano, já que minha mãe nasceu e foi criada nos rincões do município de Luziânia-GO. Somente já adulta, dois filhos na barra da saia e eu na barriga, é que foi ter conhecimento de que a nova capital havia surgido há alguns anos ali perto. O marido, Luciano, passaria o resto da vida convicto de que, para ser homem, bastava manter as calças firmes com embira.

        Dona Honorata sabia que, caso esperasse por atitude de Luciano, perigava todos enfrentarem penúrias ainda maiores. Criava galinhas e ficava de olho para ninguém comer os ovos, pois havia aprendido com o pai que um ovo não alimenta ninguém, mas um frango é garantia de refeição para toda a família. A horta era tratada com esmero, de onde tirava o que dava, ajudada por mãos pequeninas dos miúdos, que iam aprendendo antes que a fome os atingisse sem compaixão.

            Foi em meados de 1963 que o esposo sumiu de vez. Nunca soubemos se por dívida de jogo, desgosto ou aventura amorosa. Talvez tivesse simplesmente pegado carona e ido tentar a sorte em outro lugar. Nessa época, contando com a pequena Maria Lúcia, éramos nove, até que Júlio nos foi tirado por um casal sem filhos, que disse que ele teria vida melhor em São Paulo. Nunca mais tivemos notícias, e minha mãe, cuja ausência de voz lhe impediu de evitar a retirada do filho, fazia preces para que nosso irmão estivesse bem. 

            Não sei se foi por causa da perda de Júlio que nossa mãe fez o que deu para manter a família unida. Falhou, como era previsto, já que não conseguiu impedir que quase todos fossem atrás de perspectivas mais atraentes do que permanecer na roça. José e Francisco foram os primeiros a se mudarem para Brasília. Em seguida, fomos Rosa, Maria Lúcia e eu. Apenas Osvaldo permaneceu em Luziânia, já que estava enganchado em namoro com Márcia. Graças a isso, dona Honorata teve quem ficasse ao seu lado enquanto padecia. Ela nos deixou em meados de 1975, logo após ter sido diagnosticada com tumor de mama. 

            Dos nove filhos, restam apenas três: Osvaldo, Rosa e eu. Talvez ainda sejamos quatro, apesar da falta de notícias. Até hoje, evito comer ovo, e meus netos acham graça. Apenas sorrio e vejo que há memorias que não se apagam.

  • Notas de esclarecimento: O conto "Fragmentos de Honorata" foi publicado no Notibras no dia 4/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/fragmentos-de-honorata/

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Vírgulas nas curvas

            

            Diante dos pais, Emerson sentiu vontade de mentir, mas um resquício de dignidade o impediu. Não por pudor, a questão era a inabilidade de inventar histórias perante a perspicácia de dona Luzia, a mãe. Trilhou o caminho das palavras parcas, ambíguas, não contada com todas as letras, mas, apesar do pouco dito, não foi capaz de evitar o óbvio.

            — Tá mentindo pra sua mãe?

            — Não, mamãe.

            — Hum! Tu acha mesmo que nasci ontem? 

            — Não, mamãe, é que...

            — Olha aqui, Emerson Pereira dos Santos, quando o Tarzan tentou escapar pendurado no cipó, tô aqui com a tanga dele na mão. 

            Sem alternativa, o sujeito resolveu tentar outra abordagem.

            — Vida difícil, mamãe. Complicada demais.

             — Hum! Vida corrida, vida ingrata, vida difícil, tão difícil, que, caso a gente pare, ela atropela quem estiver de bobeira na pista.

              Palavras incompletas, frases cortadas, as artimanhas não funcionavam com dona Luzia, que era catedrática em assuntos do cotidiano. A mulher, olhos atentos, sabia onde colocar as vírgulas necessárias nas curvas da vida.

            Não dava para competir com tamanha sabedoria popular. Que ficasse mudo antes que fosse tarde demais para não ser desossado que nem frango. E, assim, Emerson se fez de desentendido para não ser devorado que nem lagartixa. Fossem quais problemas enfrentasse, que procurasse resolvê-los sozinho e parasse de tentar terceirizá-los com outrem.

            — Bença, mamãe. Tenho que ir. Marquei de encontrar a Ritinha.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Vírgulas nas curvas" foi publicado no Notibras no dia 3/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/virgulas-nas-curvas/

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Nem Clarice virtual

    

       Gerson, cuja timidez goiana o acompanhou quando se mudou da cidade natal, Caldas Novas, para Brasília, passava as manhãs solitárias nas piscinas gélidas da Água Mineral, tão discrepantes das que estava acostumado. 

        As braçadas aceleravam o coração, enquanto a mente divagava sobre possibilidades tão improváveis, às quais Gerson se agarrava como se, sem elas, talvez o dia se tornasse insuportavelmente longo. Pedia um pastel, pedia outro, trocava palavras miseráveis, tentativas desastrosas de fazer amizade. A dona da lanchonete tinha lá suas preocupações. 

        Tomava banho no chuveiro de temperatura quebrada, aprumava-se para ir trabalhar na repartição pública. Cargo disputado, vencido por horas de estudo e sorte, chutes certeiros em questões que não fazia a menor ideia do que era. Deus estava com Gerson. Por que Deus havia soltado a mão dos outros? Que cada um aprenda a conviver com suas falhas. O sujeito já carregava a cruz da invisibilidade. 

            Conheceu Clarice. Não por acaso. Talvez tenha sido mesmo por acaso, já que Gerson, diante da falta de abertura no mundo real, criou perfil no virtual. Simpático e não bonito, confiável e não aventureiro, simplicidade dos olhos castanhos e não azuis, cabelos... Bem, os cabelos quase sempre aparados, como as arestas da própria existência. 

            O primeiro encontro aconteceu num café, mas poderia ter ocorrido em qualquer outro lugar, tamanha a indiferença de olhares. Mais o dela, enquanto os de Gerson pareciam desacreditados diante da figura quase real da mulher. Bela? Muito além do que ele esperava, tamanha modéstia do perfil de Clarice, talvez descrente de encontrar um príncipe encantado. Mas aquilo? Até ela, do alto da humildade de uma entre tantas, se sentiu avessa à possibilidade de um segundo. Que ficassem no virtual. Amizade e nada além. 

        Feriados prolongados, Gerson costumava visitar a família. Queria o litoral, mas a mãe insistia, a avó resistia, talvez não a visse no Natal. 

           — Como estão as coisas na capital?

            — Bem, mamãe, tudo bem. 

            — E a namorada?

            — Vai bem, mamãe.

            — Clarice, né?

            — É, mamãe.

            — Moça de sorte.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Nem Clarice virtual" foi publicado no Notibras no dia 2/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/nem-clarice-virtual/

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Mãe não tira férias

    

Ando estressada, como se carregasse um elefante nos ombros. E pensar que tudo mudou tão rápido, e os sonhos se transformaram numa completa bagunça. É certo que, mal acordo, minha pequena Alice despacha qualquer mau humor com o sorriso mais lindo do mundo. Não resisto e tento me convencer de que, a partir daquele momento, vai ficar tudo bem, mesmo que não seja um mar de rosas.

        Ser mãe era um desejo, que se acentuou quando percebi minhas amigas com aqueles bebês, cada um mais fofo, no colo. E o tempo passando, como se fosse alerta: "É isso mesmo que tu quer, Janete?"

           Após longas conversas com meu marido, decidimos ter um herdeiro. Ele não era contra nem tampouco a favor. Aquela indiferença, no entanto, me serviu como algo bom, já que não houve cobranças por eu engravidar, ainda mais porque a ginecologista havia me alertado por uma possível demora. Que nada! Mal tirei o DIU, constatei que fertilidade é coisa de família. 

           Tive uma gestação tranquila. Tirando os últimos dez dias, quando mal conseguia andar, não tive enjoos ou grandes transtornos. Quer dizer, com o avançar dos meses, a barriga ficou enorme, bem redonda, o que, segundo minha mãe, era sinal de menina. Não que nós já não soubéssemos, pois, antes do quarto mês, já sabíamos e o nome Alice surgiu naturalmente. 

            Os dias após o parto foram repletos de dúvidas, mas, pais de primeira viagem, logo nos adaptamos à rotina e à nova integrante do lar, doce lar. Tão pequenina, aqueles olhos atentos a tudo, aquele monte de cabelos pretos que nem graúna. Linda! 

            Cada vez mais entranhada na nossa vida, Alice é parte da rotina. É cansativo? Demais! Nada além de algumas poucas horas de descanso. Férias? Não! Isso não existe no roteiro de mães. A gente come quando dá, a gente dorme quando o bebê dorme, a gente penteia os cabelos quando acha pente e tempo. Tudo some! 

            Dois anos, período de inquietação, de birra, de manha, de teatro. Tanto é que meu marido apelidou a nossa filha de Fernandinha, referência óbvia à maior atriz deste país, Fernanda Montenegro. E a pediatra tentou nos tranquilizar que tudo isso é normal, que é a tal "adolescência do bebê", período em que a criança busca independência, testa todos os limites possíveis, além de ter que lidar com emoções intensas que ainda não sabe expressar. O resultado é aquela loucura!

            Meu esposo participa demais da criação da Alice. O regime do seu trabalho é de plantão, o que é um alívio quando ele está de folga, pois passa todo o tempo com a nossa menina. O problema é quando está no serviço. Ih, aí, o bicho pega, mesmo que a Alice frequente a creche. 

            Ontem, durante o passeio quase diário que faço com a minha filha no parquinho aqui perto de casa, ouvi duas mães conversando. A mais risonha, ironicamente, parecia a mais estressada.

            — Sabe, amiga, nesse nosso meio, não há espaço pra arrependimento. O que tá feito não tem volta. Não vejo a hora disso tudo acabar, e espero que seja antes que a sanidade nos abandone por completo.

           A outra, de cabelos curtos, só sorria mudo, enquanto mantinha os olhos de coruja na cria, uma menina que, aparentemente, regula em idade com a Alice. Apertei a minha garotinha bem junto ao peito e prometi nunca mais ser impaciente. Ela me abraçou com aqueles bracinhos gordinhos e me deu o costumeiro beijo babado na bochecha. Ah, esse beijo me torna imune a qualquer kriptonita!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Mãe não tira férias" foi publicado no Notibras no dia 1º/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/mae-nao-tira-ferias/

terça-feira, 31 de março de 2026

Dona Cibele e o português

    Há uma máxima entre os policiais antigos que vale demais ser mencionada: "Se quiserem derrubar um crime, é só procurar num bar, na casa da luz vermelha ou no barbeiro, serviço de inteligência sem precedentes."

            Se aconteceu exatamente dessa maneira, não posso afirmar. Todavia, também não serei eu a contestar o que me chegou aos ouvidos por, digamos, uma senhora que passou boa parte da vida trabalhando na horizontal. Dona Cibele, cujo nome de labuta era Bela e, apesar de mais de duas décadas fora do ofício, ainda é possível que algum antigo cliente saudoso e bom de memória a reconheça quando esbarra com essa mulher de cabelos tingidos de loiro passeando com duas cadelinhas da raça chihuahua ali no início da Asa Norte, em Brasília. 

            Quando me falaram dessa resistência dos serviços de alcova, jornalista que sou, tratei de marcar um encontro com ela em um café. Todavia, por telefone, ela rejeitou parcialmente a proposta. Não o encontro, mas o local em si. Disse que preferia um pé-sujo próximo ao seu apartamento. E nem precisei perguntar o motivo, já que dona Cibele não demonstrou qualquer constrangimento.

            — Só frequento lugares onde me sinto à vontade. 

            A precisão de datas ficou encoberta pela fumaça dos inúmeros cigarros da Dona Cibele, hábito que, segundo ela me confidenciou, adquiriu somente depois de se aposentar. Entretanto, a mulher foi capaz de se lembrar de coisas muito mais difíceis de serem guardadas. Entre elas, os nomes de todos os personagens envolvidos no assassinato de um português, que havia se encantado pelos seus serviços.

            — Sabe, Júlio... Posso chamá-lo de Júlio, né?

            — Sim! Claro! Fique à vontade, dona Cibele.

            — Bela. 

            — Bela.

            — Obrigada. Assim a minha memória fica mais confiável.

            Francisco, português quase radicado no Brasil, apesar de manter residência em Porto, onde Leonor, a esposa, ainda residia, era assíduo frequentador da casa, como Cibele, ou melhor, Bela, gostava de chamar seu local de trabalho. O sujeito gostou tanto daqui, que dizia que só voltaria para Portugal para assinar os papéis do divórcio. 

            — Ele estava apaixonado por alguma mulher daqui?

            — Sabe, Júlio... Não sou do tipo que costuma jogar confetes sobre a própria cabeça, mas... Bem, acho que você me entende... Sempre levei meu trabalho muito a sério.

            — Por você?

            — Se você está dizendo...

            — Tá, mas e daí? O que aconteceu, então?

            — Bem, o Francisco sabia que eu não gostava de ser sustentada por homem nenhum. Cafetão também não admito. E não sou de ficar em casa com as unhas sem um bom esmalte. Ou me aceitava daquele jeito, ou que fosse procurar outro rabo de saia. Aqui não é bagunça, não!

            Bela me confidenciou que Leonor, apesar de não saber a história por completo, boba também não era. Desconfiava de que o marido estivesse enganchado numa rapariga, como os portugueses costumam chamar as mulheres jovens. Errada não estava, inclusive se quisesse usar a mesma palavra, mas com o significado brasileiro. 

             — Bem, Júlio, você sabe... Não que eu estivesse totalmente tranquila com a situação, mas havia o Atlântico entre nós. Então, pelo menos foi o que eu imaginava, estava a salvo da rapariga de lá. E olha que não sou portuguesa.

            — Tá, mas como aconteceu?

            — Bem, Júlio, você sabe... Quando se está apaixonada, a gente fica refém das armadilhas do coração. Então, foi um baque quando aconteceu o que aconteceu. Bem entre os olhos. Se encostasse o cano entre as vistas perigava não ser tão certeiro. O meu Francisco nem percebeu que estava morto, simplesmente caiu que nem jaca madura, aos meus pés. Morto, totalmente morto. 

             — E quem foi?

             — Quem foi, todo mundo sabe, mas o que vale mesmo é quem mandou. 

             — E quem mandou?

             — Ninguém sabe ao certo, mas tenho cá as minhas desconfianças.

             — A rapariga?

             — Sim. Mas quem é que prova?

             — Mas ouvi dizer que prenderam quem matou.

             — Não foi bem assim, Júlio. 

             — Não? Mas não foi o...

             — Não! O Alcides entrou de gaiato. Os canas já estavam atrás dele há tempos, mas não tinham como provar nada. Mas o Alcides estava no lugar errado, na hora errada, e foi envolvido no caso. 

             — Tem certeza? É que li no...

            — Leu certo notícia errada, Júlio. O Alcides estava no quarto ao lado com a Lucinha. Quem matou o Francisco foi matador.

              — Matador?

              — É. Tipo que mata. Mata por dinheiro, vingança, de graça e, na falta disso, mata por prazer.

             — E você sabe quem foi?

             — E não sei?

             — E quem foi, dona Cibele.

             — Bela!

             — Bela. E quem foi, Bela?

             — Bem, Júlio, você sabe... Acordar com a boca cheia de formiga nunca foi o meu objetivo de vida. Ainda mais eu, que, naquele tempo, era chamada de Bela Lábios de Mel. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Dona Cibele e o português" foi publicado no Notibras no dia 31/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/dona-cibele-e-o-portugues/

segunda-feira, 30 de março de 2026

Duas mulheres e um palhaço sem máscara

 

  Sempre gostou dos exageros de Van Gogh e, quando teve oportunidade, pediu para um pintor da Torre de TV, em Brasília, transformar uma fotografia antiga em uma pintura ao estilo do famoso pintor holandês. Ele, que driblava a vida sempre que a oportunidade dava as caras, se sentia feliz por poder fazer parte da vida daquelas duas mulheres, cujas qualidades, apesar de aparentemente dissonantes, as tornavam tão próximas, que não era difícil afirmar que algo muito mais forte as ligava, muito além do DNA. 

            Eram irmãs, filhas daquele sujeito, que poderia ser palhaço de circo ou caixa de um banco qualquer. Talvez trabalhasse em alguma repartição pública, enquanto desejava manhãs ensolaradas, mesmo por girassóis. Um tipo qualquer, cuja ausência de coragem era disfarçada com caretas, que faziam as garotas sorrirem. 

           Ana Maria, a mais velha, influenciada pelo avô, embrenhou-se entre as leis. Foi ser advogada, defender os direitos dos desvalidos, especialmente das mulheres, tão subjugadas por essa sociedade patriarcal, que a misoginia é tratada como parte da cultura. Parem de nos matar! Meu corpo, minhas regras! A minha roupa não é um convite! O pessoal é político!

           Mariana, inverso da primogênita, foi ser cientista. O interesse por algas marinhas, não por acaso, era tentativa de salvar o planeta. Vida nos labirintos dos laboratórios, visão além do horizonte, que cega tanta gente, que aceita como verdade absoluta o que é dito em altares.

           Cariocas, tão próximos, tão distantes. Enquanto a advogada vive na ponte aérea por tantos recantos, a pesquisadora segue mestranda na USP. Quando ao palhaço sem maquiagem, ele se traveste de contador de histórias em Porto Alegre. Os três não veem a hora de se encontrarem em Copacabana, num dia ensolarado, mesmo que pela arte de Vincent.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Duas mulheres e um palhaço sem máscara" foi publicado no Notibras no dia 30/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/duas-mulheres-e-um-palhaco-sem-mascara/

domingo, 29 de março de 2026

Nada mais do que Josefina

  

            Josefina, verdadeiro azougue, bem sabia que o tempo é traiçoeiro que nem político que confunde o povo com religião. Por isso, preferia se ater a fatos, enquanto assuntos místicos eram deixados para os que estão no além. 

             Entre tantos afazeres, Josefina não tinha nem tempo de reclamar da vida corrida que não dava para nada. Que parasse um minuto para ver o que iria acontecer. Era capaz de desaprender a respirar, como se até esse ato involuntário precisasse da atenção da mulher. 

             Raimundo, o marido, apesar da vida miserável, mal chegava ao barraco, se transformava em rei. E ai da Josefina tentar usurpar o seu trono. Era tabefe para todos os lados. Que aprendesse de uma vez ou, não duvide, o bicho pegava. 

             Os filhos, todos criados, fingiam não enxergar as agruras da mãe. E ai da Josefina se inventasse de ir à polícia. Era aquele teatro decorado de frases desconexas com a realidade: "Mãe, tu quer mesmo destruir a nossa família", "É tudo culpa da senhora, que não respeita o pai", "Mãe, a senhora precisa entender o pai, ele é um homem bom", "Se a senhora denunciar o pai, não sou mais sua filha", "Mãe, arroz, feijão e ovo de novo? Cadê o bife?".

            Aguentou até a corda arrebentar. Enquanto todos reclamavam que retornasse para o barraco no final do dia, não teve dúvida. Atirou-se debaixo do trem, que, piedoso, deu fim ao martírio da Josefina. Quem?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Nada mais do que Josefina" foi publicado no Notibras no dia 29/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/nada-mais-do-que-josefina/

sábado, 28 de março de 2026

Daniela, minha colega de faculdade

               

        Não sei se foi o tempo que me fez ter outra percepção da minha relação com Daniela, que conheci no primeiro semestre de química na UnB. Eu, então com 18 anos, me senti atraída por seus cabelos escuros e anelados, os olhos de um verde que, às vezes, me faziam acreditar serem azuis, um pequeno diastema lhe conferia um sorriso franco de quem enxerga a vida com perspectiva diferente da maioria. 

          Devo ter feito cara de apaixonada, pois Daniela me fitou com certo interesse. Ela me esticou a mão esquerda e sorriu. Instintivamente, estiquei a direita, quando ouvi pela primeira vez sua voz rouca.

          — Com a esquerda, que é mais perto do coração.

          Isso quebrou o gelo e a cumprimentei com a mão mais próxima ao meu músculo cardíaco, que, naquele instante, parecia querer saltar pela boca. Daí em diante, Daniela e eu nos tornamos, aos olhos atentos, mais do que amigas. E se falassem algo, e não sou ingênua a ponto de imaginar que não o fizessem, estávamos tão envolvidas que, naqueles idos, realmente não ligávamos. 

          Entre provas, trabalhos em grupo e muito estudo, tivemos altos e baixos, a maior parte por conta de ciúmes tolos. E a separação, já perto da formatura, pareceu inevitável, tamanho o desgaste natural do relacionamento, que se sustentava à custa do carinho que ainda nutríamos uma pela outra. Tanto é que, apesar dos laços que ainda nos ligavam, mal nos falamos durante a entrega dos diplomas.

          Nossas vidas tomaram rumos distintos nos anos seguintes. Eu quase me casei, mas consegui não sucumbir às aparências. Segui meu caminho, tive alguns romances ao longo do tempo, mas nenhum que me desse mais prazer do que as aulas de química que ministrava em duas escolas.

          No ano passado, por um desses acasos da vida, reencontrei Daniela na porta da escola.  Os mesmos cabelos escuros e anelados, aqueles olhos que sempre me confundiram, o diastema que ainda tornam seu sorriso tão sincero. Ela me viu e, apressadas, corremos para nos abraçar. 

          Daniela é mãe de uma das minhas alunas. Estava separada do marido, mas, segundo me contou, ainda continuavam amigos dentro do possível. Ela não havia seguido carreira. O diploma, porém, foi útil para se tornar servidora pública. Trocamos telefones e, dois dias depois, fomos a um café. 

          A conversa fluiu de modo que eu não esperava até que a troca de olhares falou mais alto, quase aos gritos. Desde então, reatamos algo que havíamos deixado para trás. Daniela prefere manter nossos encontros longe do escrutínio dos outros. 

        — Júlia, você acha que seremos salvas?

    Atormentada, eu não soube respondê-la. Creio que essa busca espiritual compartilhada criou um vínculo de sofrimento que poucos entenderiam. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Daniela, minha colega de faculdade" foi publicado no Notibras no dia 28/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/daniela-minha-colega-de-faculdade/

sexta-feira, 27 de março de 2026

Rubens, o escritor de coisas

     

           Rubens era da prosa, apesar de ser apaixonado por poesia. Não que entendesse do assunto, mas sentia que aquele mundo era mais colorido e, mesmo que pudesse parecer contraditório aos olhos de outrem, também sombrio. E era essa dicotomia que o atraía, como se fosse o retrato da vida.

     O sujeito, que havia conquistado certo reconhecimento no meio literário, principalmente por suas publicações num jornal de bairro, tratava o próprio sucesso local com desdém. Isso, aliás, vez ou outra, era assunto para suas crônicas mordazes sobre a falta de afagos fora daquele reduto. Que ao menos fosse poeta, cuja loucura, até dos que convivem com o anonimato, é reverenciada como algo grandioso. 

        — Contos muitos escrevem. Crônicas, então, qualquer um, desde que saibam colocar palavras enfileiradas, se passará por mestre da escrita. Mas, meu caro, poesia é outro patamar. Ali não basta ter tutano, tem que ter coração. Um coração de verdade, não um desses que mal repetem as batidas conhecidas até pelo relógio da igreja. Blém-blém funciona na capela. Na vida real, é só barulho.

            E aquela fala não era ou, ao menos, não parecia ser mera encenação. Rubens se fiava nas próprias palavras de modo resoluto. Estava mesmo convencido de que só aos poetas eram destinados ao Olimpo. Que os demais se contentassem com as migalhas, vez em quando, atiradas aos famintos. Queria estar nas prateleiras em vez de ser lido em celulares por proletariados em transportes de massa no trajeto casa-trabalho-casa. 

            Em frente ao espelho, o escritor treinava entrevistas que nunca dera e, provavelmente, não passavam de devaneios. Até chegou a ouvir de um amigo, muito sincero por sinal, que o seu estilo era muito nichado.

            — Nichado?

            — É, Rubens. Você escreve para um público específico. 

            — Sou descartável, você quer dizer.

            — Não é isso.

            — Então, é o quê?

            — Você tem um público cativo, que lê as coisas que você escreve.

           — Coisas? Agora eu escrevo coisas? É isso que sou? Um escritor de coisas?

            — Desculpe, meu irmão, não foi isso que quis dizer. Eu me expressei mal.

        Rubens saiu sem se despedir, sua vida parecia cada vez mais carregada de coisas. Caminhou até o ponto de ônibus. Em pé, não percebeu a chuva começar a cair, que logo se misturou às lágrimas que escorriam pela face. Entrou no coletivo, pagou a passagem e se sentou ao lado de uma senhora, que lhe cumprimentou com um breve aceno de cabeça. Ele tentou responder com um sorriso forçado.

        Durante o caminho, a mulher, celular na mão, pareceu entretida com algo, mas Rubens estava mais interessado no próprio fracasso. Foi aí que ela, forçando intimidade, se virou para o companheiro de banco e disse:

            — Esse Rubens Martins escreve cada coisa boa. O senhor o conhece?

            Rubens, pego de surpresa, balbuciou.

            — Coisa?

            — Rubens Martins. Eu o leio todos os dias. Não perco uma história. 

            — Coisa?

            — O senhor está bem?

             — A senhora disse coisa?

             — Coisa boa! Ele tem estilo. Não é qualquer um que escreve coisas assim, não. 

            — Obrigado.

            Rubens sorriu o primeiro sorriso autêntico do dia, levantou-se, puxou a cordinha e desceu no ponto seguinte, que era o seu. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Rubens, o escritor de coisas" foi publicado no Notibras no dia 27/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/rubens-o-escritor-de-coisas/