Ultimamente,
só abro a geladeira para esfriar a cabeça. Nada mais daquelas cervejas
estupidamente geladas, e não foi por causa da minha improvável conversão
religiosa, já que sei cuidar sozinho da minha vida. O problema é a falta
temporária de clientes, que me obrigou a fazer dois furos no cinto para manter
as calças firmes na cintura.
Caí do cavalo. Não de um
cavalo de verdade, mesmo porque nunca tive a pretensão de ser Durango Kid.
Quebrei a cara quando aceitei trabalhar para um figurão, que desconfiava da
esposa. Pois é, sou detetive particular, cuja especialidade é infidelidade
conjugal. E aquele seria apenas mais um caso, isto é, se o amante da esposa do
meu cliente não fosse alguém que conheço de longa data: justamente eu.
Quando Afrânio entrou no meu
escritório na Asa Norte, imaginei que o sujeito fosse me dar um tiro. Que nada!
Logo constatei que ele nem desconfiava que o motivo da sua cisma seria eu. Ele
me expôs a situação, e eu estava certo de que não aceitaria aquele trabalho.
Todavia, meu amigo, era tanta grana, que a necessidade falou mais alto.
Laura. Ah, que par de pernas! Esperta, sagaz, fogosa e lindamente ruiva.
Casou-se por dinheiro, o que não era novidade nem mesmo para o esposo. Quase 40
anos mais velho, Afrânio não se permitia ser ingênuo a tal ponto. Ele sabia dos
casos fortuitos que a esposa tinha, mas preferia olhar para outra direção
enquanto o romance durava. Uma semana, um mês, às vezes somente uma tarde.
Coisas da vida. O importante era que o coroa gostava de se vangloriar da bela
mulher ao seu lado. E estava tudo bem até que...
— Seu Rogério, desconfio de que a minha esposa esteja apaixonada.
— Tendo um caso?
— Vou ser bem franco com o senhor. Não sou um tipo que se importa com
casos. Quem, afinal, não os têm? Os hormônios nunca me preocuparam, desde que
também não tomem conta do coração. E o comportamento da Laura mudou nos últimos
meses.
— Mudou? Como assim?
— Nunca a vi tão sorridente. Não que algum dia tivesse sido amuada, mas
aquela alegria contagiante não me engana, se é que o senhor me
entende.
Confesso que procurei não demonstrar certo orgulho, enquanto o sangue
corria desembestado nas minhas veias e artérias. Afrânio estaria mesmo certo? A
nossa Laura havia mesmo se apaixonado por mim?
— Bem, seu Afrânio, estou ocupado no momento.
— Estou aqui porque me falaram que o senhor é o melhor no ramo.
— Fico lisonjeado, mas...
— Pago-lhe bem.
— A questão não é essa. É que...
Antes que eu pudesse prosseguir com a minha negativa, eis que Afrânio
retirou uma bolada do bolso interno do paletó e a colocou sobre a minha mesa.
Aquilo era, por baixo, o que eu conseguia faturar com seis ou sete casos. E o
melhor de tudo é que eu não precisaria passar horas e horas, dias e dias,
talvez até semanas, dependendo da esperteza dos amantes, já que sabia quem
estava, digamos, afagando o coração da Laura. Mesmo assim, ainda possuía brios
e estava decidido a recusar, quando Afrânio me entorpeceu:
— E o senhor irá receber o dobro disso, seu Rogério, assim que me
apresentar o relatório completo das suas investigações.
E, dessa forma, o resquício da minha dignidade me abandonou. Não me
culpe, ainda mais porque percebo em seus olhos que você tomaria o mesmo
caminho.
Debaixo dos lençóis aquecidos pelo corpo da Laura, não percebi problema
em rechear os bolsos com a grana do seu marido. E assim levei as
"investigações" em banho-maria por praticamente seis meses.
Semanalmente, apresentava uma listagem das saídas da mulher do Afrânio, que, a
princípio, pareceu acreditar.
— Pois é, seu Afrânio, a dona Laura é uma mulher acima de qualquer
suspeita.
— Hum...
Salão de beleza, dentista, compras em lojas chiques, parada em uma cafeteria
para um café gourmet. Obviamente que tudo combinado com a minha linda ruiva.
Mas como nem tudo são flores neste mundo tão imenso, eis que constatei que
Brasília é um ovo. Algum linguarudo, que ainda não descobri quem é, deu com a
língua nos dentes.
E lá estava eu, descarado que só, diante do Afrânio para lhe mostrar
mais uma planilha sobre a rotina de Laura. Não sei se foi excesso de confiança
que me tornou descuidado, mas o fato é que nem percebi a diferença no olhar do
meu cliente.
— Seu Rogério, o senhor tem certeza de que esses foram todos os lugares
que a minha mulher frequentou?
— Sim, seu Afrânio. Grudei nela que nem
carrapato.
— Que nem carrapato?
— Desculpe, seu Afrânio. É modo de
falar.
— Não precisa se retratar, seu Rogério.
Gosto da sua sinceridade.
Óbvio que sorri, na certeza de que havia
engabelado novamente o esposo da minha amante. Ledo engano, como se comprovou
no instante seguinte, quando ele me mostrou várias fotografias da esposa aos
beijos e abraços comigo. E a mais flagrante, sem qualquer sombra de dúvida, foi
uma em que Laura e eu sorríamos na saída de um motel. Fiquei mais branco do que
leite.
— Seu Rogério, talvez o senhor não me
conheça direito. Não sou um homem de arroubos, como pode perceber. E pode ficar
tranquilo, que também sou avesso à violência. Isso, aliás, é o que me distingue
de meu finado pai, que resolvia a coisa na bala. Penso que melhor do que
quebrar as pernas de alguém é lhe cortar o sustento. Não além do tempo
necessário, pois tenho cá um coração bondoso, como meus amigos poderiam
testemunhar. Por isso, seu Rogério, vou lhe pedir apenas dois favores e,
espero, que o senhor tenha a gentileza de acatá-los. O primeiro é que o senhor
doe a quantia exata que lhe dei para uma instituição de caridade, que anotei
neste papel. A outra, é que procure outra atividade para exercer. Não mais do
que um ano. Depois desse tempo, o senhor poderá retornar ao seu ofício de
detetive particular. Estamos entendidos?
— Sim, senhor Afrânio.
— Ah, só um detalhe a mais, pois não
quero que o senhor seja pego de surpresa. Tenho amigos por todos os cantos, e
eles não suportam quando um acordo entre cavalheiros é desfeito. O senhor quer
uma água?
— Não, senhor Afrânio.
— Bem, então, pode ir. Adeus, seu
Rogério.
E cá estou com a cabeça na geladeira
vazia. Ainda me faltam três meses para retornar ao meu ofício. Se bem que,
andei pensando, talvez eu me mude para o litoral e monte uma barraca de coco.
- Nota de esclarecimento: O conto "Os riscos da profissão de detetive particular" foi publicado no Notibras no dia 25/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/os-riscos-da-profissao-de-detetive-particular/














