Bonito sem ser galã, fazia sucesso com parte das mulheres,
enquanto a outra, certamente mais ajuizada, preferia manter distância do
sujeito. Minha avó parecia compactuar com estas:
— Que Deus me perdoe, mas, mesmo tendo saído de mim, o
melhor era ter nascido capado.
Até onde sei, o primogênito de vovó não deixou herdeiros.
Talvez não seria bom pai, mas como tio era muito divertido. Sem contar que era
invejado por Augusto, o irmão caçula. É que este era casado com a Mariana, mulher
de bofes estragados, como minha mãe costumava dizer.
— Meu irmão deve ter jogado pedra na cruz.
Por incrível que pareça, tio Juca fazia questão de
enaltecer a cunhada. Hoje, no entanto, chego a imaginar que aquilo não passasse
de encenação. Todavia, por pior ator que fosse, o irmão de minha mãe me
convencia aos oito anos.
— Sorte mesmo tem o Augusto. No dia em que eu encontrar
uma Mariana, acho que até caso.
Nessas ocasiões, quando eu estava por
perto, ele despenteava carinhosamente os meus cabelos e, apesar da seriedade no
rosto, sorria com os olhos.
— Tu é falso, Juca!
— Que isso, mamãe!? Ou a senhora vai querer me
dizer que a Mariana não é a nora dos seus sonhos?
— Hum!
Particularmente, nunca tive motivos
para duvidar. Tia Mariana sempre me trouxe balas e pirulitos. Quem não gostava
muito era a minha mãe. Mal a cunhada dava as costas, mamãe reclamava:
— Essa aí quer ver o meu menino com os dentes podres. Pois
sim!
E eu ali, mãos abarrotadas de guloseimas, me
sentia alfinetado pela culpa.
— Anda, Joaquim, me dá umas balas
dessas. E ai de você se falar isso pra alguém! Vai ter, hein!?
Tio Augusto não teve filhos também. Vez
ou outra, alguém comentava pelos cantos que a culpa era da Mariana, cujo útero
era um verdadeiro deserto. Ninguém ousava mencionar que aquilo poderia ser por
conta da caxumba que o marido tivera na adolescência. Pois é, desceu.
A morte do tio Juca nos pegou a todos
de surpresa. Infarto fulminante pouco antes de completar 40 anos. Muita gente
apareceu no velório, todos choramos muito. Aquele foi o meu primeiro luto de
verdade.
Lembro também que aquela foi a única
vez que vi minha mãe e vovó abraçadas à Mariana. Minha tia me pareceu
sinceramente abalada. Foi naquele dia em que percebi que a dor pode ser tão
forte a ponto de tornar tudo ao redor pequeno.
- Nota de esclarecimento: O conto "Sorte tinha o Augusto" foi publicado no Notibras no dia 6/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/sorte-tinha-o-augusto/









