quinta-feira, 16 de abril de 2026

Atrás do horizonte impossível

           

            Nasceu em julho de 1954 e, apesar da natureza, não foi notada. Gostava de correr livre pelo sítio da família e, não raro, perdia a hora para tudo.

            — Sebastião! Sebastião! Sebastião Jorge!

            Não que fosse surda ou desligada, era questão de se voltar para um mundo que lhe era tão próprio. Ninguém a entendia, gente do interior, você pode dizer, não entende das coisas direito. Como se gente não fosse gente em qualquer lugar.

            — Onde foi que você se meteu, menino?

            — Tava ali, mamãe.

            — Ali onde?

            A criança apontava, a mãe mal olhava, atarefada demais para coisas de crianças. Que obedecesse logo, recreio não tinha vez por ali. 

            — Cadê o Raimundo?

            — Num sei, mamãe.

            — Hum! Pois vá atrás do seu irmão.

            — Num posso, mamãe.

            — Num pode? Por quê?

            — Ele disse pra eu não falar pra senhora.

            — Falar o quê?

            — Ele tá com a Fabiana.

            — Hum! E onde eles estão?

            A criança apontou para o descampado, cujo horizonte parecia impossível. A mãe torceu os lábios, olhou para a criança.

            — Você é igual ao seu irmão.

            Queria dizer que não, o silêncio se instalou. 

            Quando os primeiros sinais da puberdade apareceram, desejos, agora evidentes, foram reprimidos. E a frase da mãe reverberava por todos os cantos sem tocar no íntimo da criança.

            — Você é igual ao seu irmão!

            Aos 26, após diversos subempregos, a criança conquistou uma vaga no Banco do Brasil. Tímida, sentia-se constrangida por conta do nome no crachá: Sebastião Jorge. Não reclamava, abaixava os olhos. 

            Não tardou, vários colegas se afastaram, precisavam manter ao menos as aparências. Poucos, raríssimos, talvez sensibilizados, se fizeram amigos. E se mantiveram firmes ao seu lado, ainda quando as mudanças se tornaram evidentes.

            A criança ganhou um apelido carinhoso ou, não duvido, que mascarava o seu ser. A criança, quase muda, aceitou-o e, creia-me, sentiu certo alívio por não ter que precisar mais ouvir as pessoas a chamarem de Sebastião Jorge. Agora era Neném no trabalho. Fora, adotara outro nome.

            Em silêncio, aposentou-se. E, com o tempo, vários problemas de saúde lhe fizeram sala: diabete, pressão alta, má circulação... Coisas da idade, coisas herdadas, coisas de hábitos... 

           Com a morte rondando, a criança, assim que completou 65 anos, decidiu. Nada mais de Sebastião Jorge. Nada mais de apelidos carinhosos. Cansada de viver incompleta, decidiu por ser operada.

            — Você tem várias comorbidades.

            — Sei disso, doutor.

            — Mas você pode não voltar da anestesia.

            — Não tenho medo disso, doutor. Só peço uma coisa.

            — O quê?

            — Se eu morrer durante o procedimento, por favor, complete a cirurgia. 

            — Mas...

            — Por favor, doutor, não desista de mim. Se eu não consegui viver plenamente como sou, pelo menos quero morrer como uma mulher completa. Sonia Clair.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Atrás do horizonte impossível" foi publicado no Notibras no dia 16/4/2026.
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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Carmen: samba, quentura e raízes

            

            Carmen Toja Navarro, espanhola radicada no Brasil desde que os pais resolveram se mudar para o Brasil. Aos 20 anos, tutelada por sua mãe, foi com o noivo, francês, apaixonado pelos verões cariocas, conhecer Copacabana. Ironicamente, o rapazola, duas semanas após chegarem, retornou para Europa, enquanto a mulher se encontrou no carnaval e dançou os sambas que conseguiu sambar, sempre sob as vista da genitora. 

            Do Rio, Carmen, sempre acompanhada dos pais, rumou para Salvador, onde se encantou com a quentura do acarajé. E se esbaldou até que seguiu para Recife, onde o frevo fervilhava. E foi ficando, ficando, ficando, até que se embrenhou pelo Cerrado e foi dar de cara com Brasília, onde criou raízes que nem araticunzeiro. 

             Casou-se por impulso com Silas, mas amava de verdade Eliosmar, com quem sonhava todas as noites enquanto se deixava abraçar pelo marido. Os motivos, bem, não vale a pena serem discutidos. Entretanto, cabe aqui a transcrição quase fiel do que foi dito em uma sessão de Carmen com Maria Lúcia, sua psicóloga.

             — Quero entender uma coisa, Carmen. Como você ainda mantém um casamento com um homem que não consegue suprir as necessidades da esposa.

             — Mas o Silas sempre supria.

             — Todas?

             — Sim. Inclusive aquelas que inflamam a sua curiosidade.

             — Não são curiosidades, Carmen. Preciso te entender.

             — Sei disso. Bem, como estava te falando, o Silas supriu todas as minhas necessidades, inclusive as mais íntimas. Excelente marido, soube me mostrar esse mundo que, até então, era desconhecido por mim. Quer dizer, eu sabia de onde os bebês vinham, mas mamãe foi econômica quanto ao resto. 

             — O mundo era outro.

             — Sim. Muito diferente. Não culpo minha mãe, que nunca soube como lidar com essa parte que, hoje em dia, parece tão mais natural nas conversas familiares. Não tanto quanto deveria, porém muito mais esclarecedora. E foi assim, crua da cabeça aos pés, que acabei no altar e, horas após, estava deitada ao lado de um homem que não amava e, pior, quase tão ilibado quanto eu. 

            — Ele era inexperiente?

          — Totalmente... Quer dizer, Silas carregava na bagagem certo conhecimento teórico, se bem que distorcido. Seja como for, aquele foi o nosso, digamos, pontapé para a vida de alcova. 

            — Deve ter sido horrível pra você.

            — Na verdade, foi libertador. Quer dizer, eu não tinha que dar satisfação de nada pra minha mãe, que parecia um pastor alemão. Agora éramos só nós dois... Não. Havia o Eliosmar também. Ele sempre esteve comigo, desde a primeira relação que tive com meu marido.

            — Não estou entendendo. Como assim? Quer dizer, então, que você e o Eliosmar...

            — Não. Ele só me tocou depois que eu estava casada há quase 40 anos. O que quero dizer é que, enquanto o meu corpo estava deitado sob o do Silas, o meu pensamento era todo voltado para o Eliosmar. 

            — E ele nunca desconfiou?

            — Quem? O Silas?

            — Sim.

            — Olha, não vou dizer que sim ou que não, pois o meu marido sempre foi um homem muito discreto. Fogoso no quarto, mas era um pavio sem resquício de fumaça quando íamos para sala. Nossos assuntos não saíam da cama. Até mesmo antes do nosso primeiro filho nascer, nossos encontros eram restritos à nossa cama. 

             — E quando acabou, ele não ficou desapontado?

             — Não. Pelo menos nunca notei. Pra mim, o Silas sentiu até certo alívio quando o cardiologista recomendou menos atividades. E foi aí que tive uma conversa séria com o meu marido, disse pra ele que eu era muito jovem ainda pra virar viúva. Ele me abraçou e, a partir daquele dia, seus beijos passaram a ser direcionados à minha testa. 

            — E o Eliosmar? Foi aí que ele reapareceu?

            — Não. Quer dizer, ele e o Silas já se conheciam desde muito jovens, também sou amiga... Não amiga, mas colega... Conheço a Glória. Isso. Não somos amigas, mas nos conhecemos desde quase sempre. E não digo isso por ciúme da mulher do Eliosmar. Ela não tem culpa, o Eliosmar também não tem... Bem, talvez ele tenha um pouco, talvez mais do que um pouco, talvez até mais do que eu... Bem, isso não importa, são águas passadas, que deram a volta no mundo. E aqui chegamos.

            — Então, você está feliz?

            — Feliz? Não sei se o que sinto é exatamente felicidade, Maria Lúcia, mas gosto da ideia de ter me casado com o Silas. Afinal, foi com quem dividi e continuo dividindo a maior parte da minha vida. 

            — E o Eliosmar? 

            — O que tem ele?

            — Bem, vocês...

            — Sim, é verdade. Temos nossos momentos de recreio, e eu adoro cada minuto. No entanto, quando o fôlego se esvai, só penso em me deitar ao lado do meu marido, com uma bacia enorme de pipoca, e assistir a um bom filme. Você já viu A bela da tarde, com a Catherine Deneuve?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Carmen: samba, quentura e raízes" foi publicado no Notibras no dia 15/4/2026.
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terça-feira, 14 de abril de 2026

Elias e o teatro da vida

    

        Sujeito rabugento, Elias era chegado a intrigas, por mais tolas que fossem.  Também apreciava promover convescotes, tomando o cuidado de convidar amigos, colegas, conhecidos e alguns praticamente desconhecidos, cujos pensamentos, de certo modo, lhe eram convenientes. Veja bem, meu amigo, tais pensamentos não eram necessariamente congruentes com os do Elias, mas eram apropriados para que ele assistisse, de camarote, a embates entre os convidados. 

            Por conta da fama de birrento do Elias, praticamente ninguém dirigia queixumes em sua direção. Desse modo, os embates calorosos eram disputados entre os convidados, enquanto o anfitrião gargalhava por detrás da máscara carrancuda. Ninguém percebia tamanha desfaçatez ou, então, levavam no bolso o silêncio da apaziguação. 

            Para quem acompanhava a trajetória de intrigas do homem, certamente se lembrava do dia em que Alberto e Mauro, dois notórios rivais da política da cidade, foram estrategicamente colocados em uma mesa ao centro. Elias, cínico que nem ele só, fez questão de cumprimentar os dois com calorosos abraços e breve, mas não tão sutil assim, comentários ao pé do ouvido. Estava lançada a semente da discórdia, que começou a germinar assim que o dono da residência deu as costas para ir conversar com os demais convidados.

             Entre insinuações e trocas abertas de farpas, Alberto e Mauro precisaram ser contidos por aquela providencial turma do deixa-disso. Elias, artista dos bons, fazia cara de consternação, como se tivesse sido pego de surpresa. 

             — Meus amigos, por favor, estamos aqui para confraternizar. Vamos, vamos, deixem as divergências políticas de lado. Vamos, vamos, por favor, apertem as mãos. 

             Contrariados, os dois sujeitos fizeram uma trégua, mesmo que temporária. E o sorriso, agora quase franco, estampava o rosto de Elias, que caminhava triunfantemente entre os demais presentes. 

             Houve também o imbróglio entre os gêmeos Magalhães, cuja fraternidade parece que era desconhecida desde os tempos da maternidade. Que nem gato e rato, as cicatrizes dos irmãos eram visíveis até para o cego que esmolava na esquina. E não havia modéstia na hora das contendas, já que qualquer assunto era motivo para discórdia. 

            Elias, ah, o Elias, esse provocador da paciência alheia, desprovido de pudores tão comuns a todos nós, não só convidou o Fabiano, como também o arqui-inimigo, o Fabrício, para os festejos do seu septuagésimo aniversário. Como os gêmeos deviam certa reverência ao coroa, não tiveram como refugar do convite. O que não contavam é que seriam colocados estrategicamente um de frente para o outro na mesa que oferecia o melhor ângulo de visão para o anfitrião, que saboreava um licor de maracujá. 

            Fabrício e Fabiano, Fabiano e Fabrício, frente a frente, olhos congestos, grunhidos tortos, todos direcionados às cópias quase perfeitas, como se fossem reflexos. Se a coisa não desandou por completo, foi porque Jurema, que incendiava corações e, por isso mesmo, era o terror das mulheres casadas, foi orientada a se sentar à mesma mesa. Mal se acomodou na cadeira, os irmãos, desejosos por atenção, começaram a paparicar a bonitona. 

            — Tu quer um refrigerante?

            — E eu sou lá mulher de refrigerante, Fabiano?

            — Sou o Fabrício.

            — Pra mim tanto faz se tu é o Fabrício ou o Fabiano. É tudo igual mesmo.

            Apaziguada a situação, Jurema se levantou e foi em direção ao anfitrião, que puxou uma cadeira para que a mulher se sentasse. Fabiano e Fabrício a acompanharam com olhares desejosos e desesperançosos. Não tardou, surgiu um brevíssimo interlúdio entre os desafetos.

            — Tu é mesmo um bobalhão, Fabiano.

            — Eu? Hum! Bobalhão é tu.

            — Ou nós dois.

            — Nós dois?

            — É. Num ouviu a Jurema falar que nós é tudo igual?

            Naquele dia, o circo não pegou fogo, já que os dois palhaços, inebriados pela certeza da rejeição, em vez de prolongarem o silêncio, preferiram fazer uma trégua, mesmo que temporária, e curtir o rega-bofe. Elias, que nem criança, observou Jurema por alguns instantes, segurou a mão da mulher, que se sentiu parte daquele teatro. Não estava errada de todo, mesmo que ela não fosse participar do elenco da próxima peça. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Elias e o teatro da vida" foi publicado no Notibras no dia 14/4/2026.
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segunda-feira, 13 de abril de 2026

A sombra que se fez luz

     

               Sônia, caso algum dia eu tenha escutado, não me lembro do sobrenome. Todos a chamávamos de Soninha, algo carinhoso e, não duvido, também por causa da estatura miúda. No entanto, nunca duvidei de que ela se destacaria entre todos da rua, pois a sombra que aquele corpo pequenino fazia revelava a sua grandeza. 

            Filha da dona Alzira, Soninha não economizava sorrisos e, ainda assim, havia gente que tentava provocar imbróglios por puro despeito. No entanto, a mulher nem dava bola ou, então, fingia não os entender. As suas batalhas eram outras. 

            Entre tantos desafios do dia a dia, Soninha parece ter entendido que era prioridade viver, independentemente das intempéries que porventura surgissem. Que tivesse fôlego para não se deixar abater, pois o tranco, ela sabia, não perdoa o peão que fica parado. Dona Alzira, quem diria, fazia questão de não esconder a desaprovação. 

            — Tu não acha que precisa largar essa vida de querer estudar? Melhor arrumar marido. Vi que o Jonas tá de olho em você. Tem também o Robertinho, filho do seu Roberto. Mas, por favor, fique longe do Adilson. Aquilo não vale um palito de fósforo queimado.

            Em vez de entrar em atrito, Soninha apenas sorria, como se relembrando mentalmente a última aula do curso de biologia na UnB. Se tudo desse certo, ela se formaria no final do ano e, assim, poderia tentar engatar um mestrado voltado para a área de biologia microbiana.

            — Mico o quê?

            — Microbiana, mamãe.

            — E o que é isso? 

            — Vou estudar microrganismos, mamãe. Fungos, bactérias, vírus.

           — Vai acabar doente mexendo com essas coisas. Devia é casar! Moça bonita, com um monte de rapaz atrás, tá perdendo é tempo com essa coisa de querer mexer com vírus. Só fique longe daquele Adilson. Hum! Aquilo ali não vale uma Cibalena. Deus me livre e guarde daquele sem-futuro.

            Soninha, focada nos estudos, após a formatura, conseguiu a tão almejada vaga no mestrado. Melhor, ganhou bolsa, o que permitiu que ela largasse o emprego de caixa de supermercado para se dedicar com mais afinco à pesquisa. Tamanho esforço valeu a pena e, após dois anos, foi convidada para fazer doutorado em Paris. E lá foi a mulher, mas não antes de uma despedida emocionada.

               Dona Alzira, toda orgulhosa pelo feito da Soninha, era misto de alegria e tristeza por ver a filha ir em busca dos seus sonhos. Mesmo assim, fez questão de aconselhar a cria sobre os perigos da vida. E eu, que as havia levado até o aeroporto, estava ali ao lado, quando a senhora disse:

                — Minha filha, fique longe do Adilson. Aquele é um atraso de vida.

                Soninha sorriu, abraçou a mãe, se despediu e caminhou em direção ao embarque. Dona Alzira e eu, ali em pé, esperamos que a bióloga desaparecesse, mas não antes de levar a mão nos lábios, jogar um beijo e acenar.

             Dona Alzira e eu ficamos ainda por alguns minutos ali parados, até que fomos embora. No caminho, curioso que sou, perguntei:

            — Dona Alzira, quem é esse Adilson? Não me lembro. Ele mora lá na rua? 

           — Pedro, Adilson é o pai da Soninha. Tu acredita que o cretino nem quis registrar a filha? Sumiu no mundo. Aquele ali não vale um tostão furado.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A sombra que se fez luz" foi publicado no Notibras no dia 13/4/2026.
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domingo, 12 de abril de 2026

Tio Pedro, meu herói

    

       Grandes segredos são descobertos tomando café, ouvi dizer em algum lugar. Provavelmente tenha visto isso em algum filme ou lido em um desses livros descartáveis. Seja como for, gosto de imaginar que tenha sido algo que aprendi com meu tio Pedro, cuja simplicidade sonora do nome contrastava com a vida misteriosa que, acredito, tenha levado. 

            Cresci com a ideia de que o irmão da minha mãe fosse espécie de agente secreto, que levasse o caos para os malvados do mundo inteiro ou, ao menos, da minha rua.  E como não acreditar, quando tio Pedro, todo de preto, montado em seu cavalo tão veloz quanto uma motocicleta... Bem, na verdade, era mesmo uma moto, não tão potente como eu imaginava, mas que me fazia criar histórias mirabolantes sobre as aventuras do meu herói. 

            Quando escurecia, meu tio, já devidamente paramentado, se despedia de todos e saía, enquanto minha avó dizia coisas que me davam certeza de que ele iria mesmo enfrentar o mundo.

            — Bom trabalho, Pedro. E tenha cuidado! Você sabe muito bem que acho isso muito perigoso.

          Perigoso! Muito Perigoso! Seja como for, no dia seguinte, antes de amanhecer, lá estava o defensor dos fracos e oprimidos dormindo tranquilamente o sono dos justiceiros das revistas em quadrinhos que me faziam companhia nas horas de folga. E eu ali, parado diante da porta do quarto, orgulhoso, queria ser igual a ele quando crescesse. 

          Os anos passaram, os sonhos e devaneios se tornaram realidade. Tio Pedro, após 35 anos combatendo a criminalidade do mundo, se aposentou e, alguns anos depois, nos deixou. Por coincidência ou influência, hoje trabalho na mesma profissão que o meu paladino da justiça favorito. E todos os dias, assim que a noite cai sobre a cidade, lá vou eu, já devidamente trajado, para o Banco do Brasil, onde trabalho na compensação.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tio Pedro, meu herói" foi publicado no Notibras no dia 12/4/2026.
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sábado, 11 de abril de 2026

A sobremesa da discórdia

     Mantenha a versão, por mais esdrúxula que seja, pois você estará amparado nos absurdos amoitados logo ali na esquina. Parece loucura, mas foi algo assim que, escondido atrás da porta, escutei minha avó falar para mamãe. Estava eu com exatos nove anos, pois era meu aniversário, quando recebi o presente dos meus sonhos, a camisa do Mendonça, do Glorioso. Impossível esquecer!

    Não estou aqui para falar do Botafogo, apesar da minha paixão descontrolada e insana. O mote da conversa é outro. Dona Carolina, mãe da minha mãe, possuía um tipo raro de personalidade dominadora, o que era nítido em relação ao primogênito, tio Rubens, um bobalhão como tantos outros homens. E não pense você que me excluo dessa lista, diria até que poderia, sem resquício de modéstia, encabeçá-la.

      Certa feita, quando tio Rubens não passava de um molecote dos seus 12, 13 anos, ele tomou uma surra no pátio da escola. A coisa tomou proporções muito maiores do que deveria, e não pense você que tenha sido por conta do olho roxo e do brio quebrado. Na verdade, tal situação nunca pareceu relevante para o irmão de mamãe. A questão era outra. 

        Armando, o rival do meu tio, era, segundo boato à época, fruto de enlace entre meu avô e a esposa do seu sócio na loja de material de construção. Se era verdade ou não, não importava, já que um detalhe não passou despercebido por dona Carolina: aqueles olhos, ora verdes, ora azuis, do garoto. E o que era dúvida se transformou em fato.

        Devido à proximidade dos sócios, almoços nos finais de semana aconteciam com frequência muito maiores do que vovó desejava. Todavia, para não provocar imbróglios desnecessários, ela fingia engolir o orgulho e, não raro, fazia questão de preparar mosaico de gelatina com creme de leite, uma de suas especialidades. 

       Dona Carolina, o marido, os filhos, Alberto, Lúcia e Armando, todos sentados à mesa, conversavam trivialidades. Quer dizer, os adultos se manifestavam, enquanto as crianças disputavam cada porção da sobremesa colorida. Minha avó, não duvido, desejava não somente envenenar o fruto proibido, mas principalmente pular no pescoço da amante do marido. Será que ninguém percebia tamanha semelhança entre o anfitrião e o algoz de tio Rubens?

        Vovó, quanto mais injuriada se sentia, mais tratava de manter a calma para não ser acusada de louca. Que os devaneios permanecessem incrustados nos outros, já que a racionalidade lhe pertencia. E foi justamente naquele domingo, enquanto o marido fingia interesse na conversa com o sócio, mas trocava olhares suspeitos com a amante, que dona Carolina desvendou o caminho a ser tomado. 

        Em vez de destilar ódio, minha avó passou a tratar Armando como se ele tivesse saído de seu ventre. Melhor, pois jamais havia demonstrado tamanha devoção aos filhos. E todos, com exceção de Alberto, notaram, de alguma forma, aquele carinho desmedido de dona Carolina por Armando. 

            — Meu amor, não acha que está exagerando?

            — Exagerando? Como assim, Rubens?

            — Esse seu paparico com o filho do Alberto e da Lúcia.

            — Ah, que menino maravilhoso! E como deixar de me apaixonar por aqueles olhos?

            Não sei se meu avô percebeu a indireta, até porque ele fazia parte do balaio de homens da família. Já mamãe, talvez mais preocupadas com os rapazes que a cortejavam, não demonstrava interesse quanto aos afagos direcionados ao filho do sócio do pai. Até mesmo tio Rubens parecia ter se esquecido dos tabefes que havia levado e, não tardou, firmou amizade aparentemente sincera com Armando.

            Quem pareceu não engolir aquela história era Lúcia, cujo semblante se mostrava cada vez mais consternado. Aposto que, na intimidade proibida, destilava ódio contra a minha avó.

            — Rubens, você precisa dar um jeito na víbora da sua mulher.

            — Como assim, Lúcia?

            — Ela sabe! Ela sabe!

            — Do que você está falando?

            — Aquela megera sabe, Rubens! Ela sabe!

            — Sabe o quê, meu amor?

            — Tudo! Até as vírgulas, Rubens!

       Para colocar mais fogo na fogueira, dona Carolina encontrou uma mulher, digamos, disposta a entrar no jogo em troca de generosa remuneração. Gláucia, era esse seu nome, foi apresentada como prima distante de minha avó. Uma versão menos glamourosa de Tônia Carrero, mas suficientemente misteriosa para atrair a atenção de Alberto. Bem, esse era o plano inicial, mas o inesperado aconteceu.

       O marido de Lúcia, apesar de não ser cego, só tinha olhos para a esposa. Desse modo, o investimento de dona Carolina parecia perdido até que ela constatou que Rubens havia sido fisgado. Vovó fez breve balanço da situação e, após calcular lucros e prejuízos, apostou as fichas restantes no romance entre o próprio esposo e a bonitona de bolsa giratória. 

            Lúcia, que de boba nada tinha, percebeu que estava dividindo o amante com outra. Pra quê? Além de terminar o relacionamento extraconjugal, obrigou o marido a desfazer a sociedade e, em seguida, a família partiu para outra cidade. E foi assim que vovó se livrou da amante do meu avô e do suposto fruto de adultério. 

            Quanto à Gláucia, após algumas semanas, já devidamente remunerada, foi convencida por minha avó a ir embora, levando consigo o segredo. Isso não impediu que, vez ou outra, meu avô perguntasse sobre a prima da esposa, que sustentou a história até o último suspiro. Afinal, como dona Carolina costumava dizer, melhor cair do cavalo a cair em contradição.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A sobremesa da discórdia" foi publicado no Notibras no dia 11/4/2026.
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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Frestas de felicidade

   

           Ela se deixou casar por mais duas vezes, a despeito do primeiro, grávida, que fora um desastre imposto pelos pais.  Ou era aquilo, ou perigava cair na boca do povo. 

            Não que alguém com um mínimo de discernimento fosse acreditar que aquele bebê rechonchudo tivesse vindo ao mundo de seis meses. Não importa, meu amigo, pois o que vale é o que está no papel. E foi assim que as aparências se fiaram diante do padre.

           Apesar das agressões e humilhações sofridas, a iniciativa da separação não visitou Arlete. Foi de Marcos, que andava desgostoso de voltar para casa e se deparar com aquela realidade sem sabor da vida de casado. Que culpa poderia ter o pobre rapaz, se é da natureza dos homens buscar aconchego na vizinhança? Se ao menos a esposa fosse do tipo compreensiva.

           Com menino no peito e outro a caminho, a divorciada ficou sem chão. Não que antes tivesse vida fácil, mas era algo que estava acostumada. Para não morrer de fome e ter o que dar aos herdeiros de nada, Arlete foi diarista, costureira, cuidadora, quase nunca dos seus, que precisaram aprender a não morrer por coisa pouca. O que não mata engorda, mesmo que não tivessem praticamente o que comer.

           O amor, esse sentimento insano e inesperado, teria sido o empurrão para o segundo enlace matrimonial. A princípio, Arlete considerou a improvável felicidade em alguma fresta. Ledo engano, como se traída pela própria ignorância. Lúcio, sujeito correto, assim que viu plantada sua semente na mulher, alçou voos mais condizentes com seu destino desbravador. Adeus, Arlete! Onde comem três, comem quatro. 

           Gilberto, viúvo com uma carrada de filhos, se mudou para o quarto e sala ao lado do lar, doce lar da Arlete. Coincidência pouca é bobagem e, correria para cá, correria para lá, os dois trombaram na escada. Trocaram olhares e, sem maiores expectativas, no início do mês seguinte, lá estavam os pombinhos trocando afagos, apenas com o resto de groselha e bolinhos de chuva sobre a mesa como testemunhas. 

         Arlete e Gilberto bem que poderiam deixar a coisa daquele jeito. Todavia, pobre não se contenta como está e, assim que surge a oportunidade, faz de tudo para piorar. Juntaram os panos. É verdade que economizaram no aluguel, mas a galera precisou se acostumar a dormir em pé para caber no cubículo.

          Com tanta gente junta, o casal precisava se desdobrar para manter a intimidade. Não deu outra e, como quase tudo na vida de Arlete, o romance não teve um final feliz. E o improvável, esse arteiro, aconteceu. 

           A mulher, mal acordou, percebeu a ausência do marido naquela pilha de gente. Levantou-se, tomou o cuidado de não pisar em ninguém e, assim que chegou perto da porta, viu Letícia, de 8 anos, a caçula de Gilberto.

            — Cadê seu pai?

            — Papai foi embora. 

            — Embora? Pra onde?

            — Num sei, num falou. 

            Arlete, apesar de surpresa, não deixou de notar os olhos marejados da criança.

            — O que foi? Por que está chorando?

            — A senhora não vai ser mais a minha mãe?

            Aquilo tocou o coração tão castigado de Arlete.

            — Oh, Letícia, você sempre será a minha menina filha linda. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Frestas de felicidade" foi publicado no Notibras no dia 10/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/frestas-de-felicidade/

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Entre migalhas e Ferraris

      

    Não julgue que faço apologia dos desvios que tive ao longo da vida. Não só não faço, como também não serei eu a condená-los. Entenda que não tive escolha ou, ao menos, as propostas que me foram apresentadas não me interessavam. Afinal, quem se contenta com migalhas quando se pode ter toda a fornada?   

    Nunca fui de fazer dramas por conta de situação financeira, mesmo porque não me enquadro nas classes menos abastadas, que sofrem as agruras da precariedade de recursos. Também não nasci entre os que detêm recursos suficientes para ditar os rumos da sociedade. Esse equilíbrio talvez tenha sido o motor que me qualificou para ir em busca algo que, aos meus olhos, era por meu por direito.         

     Antes dos 25 anos, ajudava meu pai a gerenciar o comércio da família, uma padaria e uma loja de ferragens. Ele, antes de se aposentar, já havia iniciado essas atividades, pois temia morrer assim que parasse de trabalhar em certa repartição pública em Brasília. Mamãe, a princípio, não gostou muito da ideia, pois seu objetivo era retornar para sua Sete Lagoas-MG ou, então, ir para o litoral. 

      O trabalho, apesar de não ser estafante que nem os dos nossos funcionários, não me satisfazia especialmente por eu ambicionar coisas muito além da vida mais ou menos que eu levava. É até engraçado, pois os empregados me imaginavam rico. Hum! Nada mais sem sentido como a visão distorcida de quem está no piso da sociedade afirmar que alguém, dois ou três degraus acima, está no topo do mundo. 

        Aconteceu numa sexta-feira, final de mês, na panificadora. Depois de conferir o faturamento, pedi um refrigerante e um pedaço de bolo recheado para Carlos, um dos balconistas. Enquanto isso, percebi um sujeito, pouco mais velho do que eu, estacionar uma Ferrari em frente. Ele desceu e, para minha surpresa, entrou e, do nada, me perguntou se o bolo era gostoso.

            — É, mas talvez não seja do agrado para alguém que tem um carrão desse.

            O cara me fitou e, com sorriso nos lábios, disse que qualquer um, com um pouco de coragem, poderia ter dois ou três iguais ao dele.

            — Bem, amigo, não me considero um covarde, mas não faço a menor ideia de como ter uma máquina dessa, muito menos duas ou três.

             — Qual é o seu nome?

             — Renato.

            — Hum! Quem sabe não seja este o momento de você renascer?

         Ele estendeu a mão e disse que se chamava Carlos. No entanto, de um tipo muito diferente do empregado do meu pai. Depois de comer a fatia de bolo e beber um café, ele se levantou e, antes de sair, me deu seu cartão.

            — Se estiver disposto, me ligue.

            É óbvio que estava disposto a tudo para pilotar uma Ferrari que nem aquela. Melhor, queria ter uma igualzinha ou, como Carlos havia mencionado, duas ou três. Nada mais daquela preocupação de contar migalhas na última sexta-feira do mês.

         Durante aquele final de semana, minha mente vislumbrou várias possibilidades. Carlos estaria metido em que tipo de negócio? E, por mais que tentasse vislumbrar algo honesto, meus pensamentos eram empurrados para o mundo dos ilícitos. No mínimo, negócios que não pudessem ser chamados de ortodoxos.

           Segunda-feira, logo após as 10h, telefonei para o Carlos. Ele não atendeu, o que me deixou desanimado. Talvez nem se lembrasse de mim. Que burrice a minha não ter passado meu número para ele. E lá estava eu lamentando minha falta de experiência, quando o meu celular tocou. Era o dono da Ferrari, que pareceu animado em saber que eu havia demonstrado interesse. 

          Por volta das 16h, Carlos passou na padaria e, ainda dentro de um Porsche conversível de cor preta, me acenou. Fui em sua direção e, logo em seguida, estávamos a caminho de não sei onde. 

            — Renato, tem certeza de que está a fim?

            Mesmo não tendo a menor ideia do que aquilo significava, tentei ser o mais convicto possível.

            — Sim!          

            Carlos se virou, sorriu, mas não consegui decifrar seu pensamento através daqueles olhos de um castanho tão profundo, que meu causaram misto de desconforto e atração. Entretanto, logo percebi que a minha história não caminhava para um final feliz, pelo menos não nos moldes a que nos é apresentada em filmes de Hollywood. E quem disse que isso me fez recuar? 

            Passamos a noite juntos. Não era minha preferência, mesmo não sendo novidade. Acabei por me embriagar por tanto luxo na mansão do Carlos, localizada no Lago Sul. 

            Na manhã seguinte, me vi sozinho na cama. Olhei para os lados, mas nem sinal do Carlos. Assim que me levantei, percebi um bilhete ao lado: 

Renato,

Sinta-se em casa. Volto mais tarde. Qualquer coisa, peça para Matilda. 

Carlos    

        Matilda? Quem era Matilda? Não demorou, descobri, pois a tal deu dois leves toques na porta e perguntou se podia entrar. 

           — Oi! Pode sim.

           — Está vestido?

            Se eu estava vestido? Precisava mesmo daquela pergunta? 

            — Sim.

           Assim que a mulher entrou, imaginei que fosse a governanta ou algo do tipo. Mas eis que ela me olhou com aqueles olhos conhecidos, o que me deixou ainda mais constrangido por aquela situação.

          — Bom dia! Sou a Matilda. Você deve ser o Renato.

       Como é que é? Por acaso havia mais alguém nos outros quartos? Tentei sorrir, mas minha cara me denunciou.

        — Você quer tomar seu café aqui no quarto, na sala ou na varanda em frente à piscina?

        — A senhora é...

        — Matilda. Então?

        — Vou tomar um banho primeiro.

        — Ok. Estarei lá embaixo. 

        Debaixo do chuveiro, meus pensamentos me deixaram ainda mais confuso. O cheiro do Carlos ainda estava em mim. Cheiro de gente de classe. O que eu estava fazendo ali? O que era aquilo tudo? Queria ligar para Gláucia, minha namorada, talvez como forma de afirmar a minha masculinidade. Por outro lado, desejei prolongar ao máximo estar ali.

        Tomei café na varanda. Matilda me fez a gentileza de não me deixar só. Conversamos sobre vários assuntos, e ela se mostrou muito discreta. Não me fez perguntas, apenas me ouviu contar histórias, algumas que a fizeram sorrir. 

        — Os seus olhos... Você é...

        — Matilda. 

        — Sim, eu sei. 

        — Você é um ótimo observador, Renato. E fico feliz por isso.

     Nesse instante, a Ferrari vermelha passou pelo portão e estacionou próximo de onde estávamos. Carlos desceu e, assim que nos viu, veio em nossa direção. Ele beijou Matilda na testa e, em seguida, desarrumou meus cabelos com os dedos.

      — Você fica mais bonito assim. Já basta aquele monte de engomadinhos que preciso lidar todos os dias. 

        Senti um pouco de vergonha, mas confesso que gostei daquela descontração. 

        — Que tal, Matilda? Gostou do meu namorado?

      Namorado? Não que eu não gostasse daquilo, mas nunca havia sido namorado de um homem. E, antes que eu pudesse dizer algo, Matilda repousou a mão sobre a minha e disse:

        — Adorei, meu filho!

       Carlos e eu nos entregamos de modo quase honesto. Ele sempre se mostrou apaixonado, confessou que já havia me visto algumas vezes antes de tomar coragem e estacionar a Ferrari em frente à padaria. Tamanha sinceridade me deixou propenso a tomar como natural o nosso envolvimento, mesmo que o conflito ainda me faça sala.

      Quando passávamos as noites juntos, quase sempre eu acordava sozinho. Em vez de sentir solidão, tratava de tomar aquela ducha e me arrumar para tomar café na companhia da Matilda. Que mulher incrível! Cheia de histórias e cuidados. Tornou-se minha confidente de assuntos que a maioria não está preparada nem disposta para escutar. 

       Nos dias seguintes, minha maior preocupação era manter a discrição, e creio que não me saiu tão mal. Mantive o relacionamento com Gláucia, que durou por mais quase dois anos, até que fomos nos afastando. Nesse tempo, a pedi em casamento, mas ela, talvez percebendo que algo havia mudado, declinou da ideia. Não descarto a possibilidade de minha namorada ter percebido outro perfume em mim.

        Mamãe, após anos de lamúrias, finalmente convenceu meu pai a irem embora de Brasília. Não antes de eu prometer ao meu velho que tomaria conta dos negócios da família. Isso, aliás, é o que ainda me mantém com os pés no chão. O dois se mudaram para João Pessoa, cidade pela qual se apaixonaram. Talvez eu vá visitá-los no Natal.

    Quanto ao Carlos e eu, estamos bem. Não me meto nos seus negócios, e ele não desaprova o meu trabalho. Diz que é importante ocupar a mente com algo. É um homem simples, apesar de rodeado de tanta riqueza. 

        Após idas e vindas, o nosso relacionamento se transformou em amálgama. Já não sei onde eu termino, onde ele começa. Eu me mudei para o Lago Sul há dois meses. Gosto da sua companhia, de estar ao seu lado e, especialmente, não consigo mentir, amo a vida luxuosa que ele me proporciona. Sem contar que a Matilda e eu adoramos tricotar trivialidades todas as manhãs na varanda, bem em frente à piscina. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre migalhas e Ferraris" foi publicado no Notibras no dia 9/4/2026.
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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Medo e desejo

            

               Saída da multidão ou do nada, ela se dirigiu a mim. E sem o menor pudor tocou a minha mão. Logo estávamos entrelaçados, completamente envolvidos pelas nossas línguas tão ávidas de desejos.

            Procuramos um canto mais escuro, onde quase não poderíamos ser vistos. Ela desceu a minha calça e continuou a exploração pelo meu corpo. Retribuí e senti o gosto inebriante acima de suas coxas.

            Não me lembro do seu nome, nem faço ideia de como era o seu rosto, mas ainda guardo na língua o sabor de sua intimidade.

           Foi numa noite fria que imaginei tê-la reconhecido. Os cabelos, então mais curtos, destacavam as maçãs proeminentes, que ladeavam o nariz levemente arrebitado e os lábios... Ah, os lábios! Generosamente atrevidos. Ela olhou de relance para mim e, de súbito, apressou o passo. Teria sido por medo ou, pior, por decepção? Covarde que sou, desejei que estivesse enganado, que fosse outra.

           Não importa quantas vezes retorno àquela rua, a dúvida ainda me acompanha. Vez ou outra, sinto como se tudo aquilo me pertencesse. Não sei se por ousadia ou soberba. Provável que seja tolice, tão própria dos acometidos por derrotas após fagulha de sorte. Como minha avó dizia: "Alberto, até um relógio quebrado estará certo duas vezes por dia."

            Tenho saído com a Cleide, que conheci por intermédio de um conhecido... Bem, para que mentir, se nem te conheço direito, meu amigo? Foi através de um aplicativo de namoro. Não era o que eu esperava, e creio que ela também teve o mesmo pensamento em relação a mim, graças aos ângulos das fotografias que me tornaram mais atraente, esbelto e, por conta de alguns truques aprendidos, de olhos esverdeados.

            Apesar dos estranhamentos iniciais, a solidão nos empurrou para um romance, por menores que fossem as expectativas. E nossos encontros se tornaram hábito, mesmo que não tenhamos sucumbido ao "Eu te amo!", o que poderia nos ter levado a uma amizade, digamos, colorida. Talvez seja algo do tipo.

         Ainda penso na mulher misteriosa. Todavia, cada vez mais, tenho receio de encontrá-la. Não por falta de desejo, mas por descobrir que tudo aquilo não tenha passado de um sonho. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Medo e desejo" foi publicado no Notibras no dia 8/4/2026.
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terça-feira, 7 de abril de 2026

Bolor e liturgia

        Um imbecil. Foi assim que me senti, no café da universidade, ao redor daquele grupo, como se o passaporte da juventude lhes tirasse o medo da vida. Pior foi que todos me tratavam com aquela reverência costumeira por conta da minha condição de professor e, não descarto, por causa dos meus 73 anos. E isso, em vez de me encher de regozijo, trouxe-me aquela sensação de resto de comida deixada na geladeira, azeda e repleta de bolor.

Há tempos preciso calcular cada passo. Erros, na minha posição, costumam causar espanto. Ninguém liga para os seus dramas, essa parte maior de todos nós não preenche páginas de livros. Qualquer deslize, é disso que irão se lembrar. E a idade, que deveria desatar todas as barreiras, acaba por se aliar ao horror da censura. Tornamo-nos, meu amigo, meras criaturas temerosas de sair do cercadinho, seguro que estamos acostumados.

Álvaro José de Medeiros e Silva, doutor em Ciências Humanas e Sociais, ministro aulas há quase 50 anos. Inicialmente para graduandos, depois para mestrandos e, na sequência, apenas para doutorandos na UnB. E ultimamente algo me tem perturbado. Não em relação ao conteúdo, mas ao discernimento dos estudantes. Não raro, durante uma fala ou outro, meu pensamento me transporta para o campo da dúvida: "Estou me fazendo entender ou, então, a didática suplantou o conteúdo?

De repente, Laura, uma das mais participativas, levanta-se e sai. A cadeira levemente virada para fora, a xícara de café quase intacta. Teria eu dito algo que a desagradou? Enquanto tento manter meu raciocínio, talvez meu sorriso amarelo tenha me denunciado. Márcio certamente percebeu meu constrangimento, pois me questionou sobre uma possível terceira guerra mundial. Logo ele, que sempre me pareceu mais interessado nos contornos das colegas. Não que fosse esse seu único intuito, mas, aos meus olhos de certa inveja, era o que eu desejava enxergar.

Tento responder ao meu aluno metido a Don Juan, enquanto mantenho questionamento paralelo sobre o porquê de Laura ter ido embora. Teria eu decepcionado uma das estudantes mais brilhantes que tive o prazer de conhecer? Teria eu finalmente sucumbido à soberba após anos de bajulações? Logo eu, que sempre tentei fugir da liturgia do cargo, estava ali tentando decifrar o suposto desdém de Laura. 

Se me apaixonei por minha aluna favorita? Confesso que, homem que sou, procurei ficar imune às paixões, que muitas vezes me fizeram sala. Mantenho casamento sólido, apesar de momentânea intempérie por assuntos de foro íntimo. Todavia, não sou tolo para colocar urgências do coração à frente da docência.

Creio que consegui aplacar a dúvida do Márcio, que me teceu elogios além do merecido, o que me deixou ligeiramente acanhado. Ele sabe. A dúvida que eu ainda pudesse ter foi dissipada assim que Laura retornou e, sorridentemente, voltou a se sentar ao meu lado. Ela, mão sobre meu ombro, me perguntou:

— Perdi alguma coisa importante, mestre?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Bolor e liturgia" foi publicado no Notibras no dia 7/4/2026.
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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Aristarco, o ateu praticante

             

           Aristarco era o nome do sujeito. Um tipo escorregadio, que, apesar da firmeza dos pais, conseguiu se livrar dos ensinamentos bíblicos. Um perdido, diziam os pastores, cujas ovelhas eram adestradas a não deixar o ensaboado em paz.

               Às seis da manhã, lá estavam os enviados diante do portão da casa do Aristarco. Sempre em dupla, pois contra o infiel era necessário ter argumento. Ih, perda de tempo. Melhor que fosse um batalhão. 

               — Bom dia, Aristarco! Jesus te ama e tem um plano maravilhoso para sua vida.

               — Não é possível! A essa hora, até Jesus deve estar dormindo, minha senhora.

               — Aristarco, Jesus mudou a minha vida. Ele vai mudar a sua também.

               — Ah, só me faltava essa!

               Sem paciência, Aristarco batia a porta na cara dos inconvenientes. O sono, já perdido, era trocado por uma xícara de café. Pegava o controle remoto, ligava a televisão. Programa religioso, trocava, outro, trocava, mais um. Diabos! Cadê os leões devorando um descuidado antílope? Desistia, último gole. Hora do banho. 

               Já na calçada, passos tranquilos a caminho do trabalho, alguém lhe entregava um pequeno pedaço de papel. Instintivamente, Aristarco tentava se esquivar, mas a pessoa insistia.

               — Abra o seu coração para Jesus.

               Bem que Aristarco poderia ficar calado e seguir seu caminho, mas algo dentro do seu ser desejava desabafar:

               — Ah, tá! Agora Jesus virou cardiologista?

               — Não zombe da palavra de Deus! Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo.

               — Hum!

               Caixa do Banco do Brasil, mal entrava, o desejo de ir embora se instalava desconfortavelmente ao seu lado. Muitas contas para pagar, não dava para largar o emprego. Talvez fingir-se de louco. Não. Ninguém acreditaria. 

               Entre tantos clientes atendidos naquele mês, não faltaram alguns com mensagens já conhecidas: "Jesus mudou a minha vida, ele pode mudar a sua também",  "Você não precisa de religião, precisa de experiência com Jesus", "O senhor é o meu pastor, nada me faltará", "Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos", "Deus tem uma vida nova para você". "O vazio do seu peito só Deus pode preencher", "Não deixe a sua salvação para amanhã", "Deus quer transformar a sua história"... No entanto, a que mais irritava Aristarco era "Eu era assim e Deus me transformou".

                — Transformou? Como assim? Você pode ser mais específico?

                — Tudo. Ele me transformou completamente.

                — Completamente? Hum... Completamente...

                — Sim, irmão.

                — Irmão?

                — Somos todos irmãos perante Deus.

                — Hum... Mas transformou como? 

                — Bem... Em tudo.

                — Tudo... Hum...

                — E essa sua transformação... Bem, você se transformou em quê?    

                — Num servo do Senhor.

                — Hum... Servo?

                — Sim. Deus é onipotente, onisciente e onipresente.

                — Hum... Onisciente?

                — Sim. Ele sabe todas as coisas.

                — Todas?

                — Todas.

                — Hum... Então, a culpa de tudo é de Deus?

                — Não! Temos o livre-arbítrio.

                — Temos?

                — Temos.

                — Hum... Mas Deus não é onisciente? 

                — Sim. 

                — Então, não temos livre-arbítrio, já que Deus sabe o que vai acontecer.

                — Bem... Mas quando você comete um erro, você vai culpar a sua mãe ou o seu pai?

                — Meu amigo, meus pais não são oniscientes. 

                Aristarco sorriu vitorioso, enquanto o aprendiz de pastor, boquiaberto, o viu dar as costas e ir embora. Daquele mato não saía cachorro.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Aristarco, o ateu praticante" foi publicado no Notibras no dia 6/4/2026.
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