
Quinca, perto
de completar oitenta anos, tomou um baque. Câncer, disse o médico. E do tipo
agressivo, sem muito ter o que fazer. Diante do prognóstico desfavorável, teve
a conversa mais franca e breve com a esposa.
— Vou morrer.
— Todos vamos um
dia, meu amor.
— Não, Lúcia. Quer
dizer, sim.
— Então?
— Câncer.
— Câncer?
O casal se olhou e
o abraço tentou confortá-lo. Não houve lágrimas ou lamúrias. Todos morrem um
dia, apesar de ninguém parecer suficientemente preparado quando se dá o início
da contagem regressiva.
Não demorou para que Gilberto, o único filho, soubesse da notícia. Foi como se um impiedoso trator
devastasse todas as lembranças da sua infância. Talvez isso tenha impulsionado
o sujeito a fazer uma proposta, mas que ele já estava certo de que a resposta
seria um sonoro não.
— Aceito! Quando
vamos? Hoje? Amanhã? Quando? Quando?
Uma viagem para
Porto Seguro. O local não poderia ser outro, pois fora ali que Cabral teria
desembarcado no que seria o início do Brasil. Não necessariamente uma
verdade, mas era isso que constava nos livros de história. Estória que
seja.
Gilberto,
pego de surpresa, desde menino convivia com o pavor do seu velho de voar:
"Meu filho, se Papai do Céu quisesse que o homem voasse, teria nos dado
asas e não braços."
Foram de avião. Voo
direto de Brasília para Porto Seguro. Dona Lúcia preferiu ficar, já que percebeu
que aquela aventura precisava ser vivida pelo marido e pelo filho.
O trajeto que seria
de pouca coisa além de hora e meia durou quase oito. Culpa da chuva torrencial
que não deixou o avião pousar em Porto Seguro. O bom é que Quinca não parecia
ter pressa de nada, muito menos de morrer. E foi nesse clima que pediu uma
caipirinha, depois mais uma e, para rebater, jogou goela abaixo um
martíni.
Assim que Gilberto
e seu pai pisaram no Hotel Casa Blanca Porto Seguro, se depararam com os amigos
Antônio e Zé Mineiro. Uma surpresa para Quinca, que nada sabia da tramoia do
filho com a dupla. Surpresa agradável.
— Vocês por aqui?
— Pois é, seu
Quinca! O Gilberto não te falou?
— Que nada, Zé! O
meu filho mal grunhe, imagina falar.
Depois de um dia
inteiro de conversas, os quatro homens tomaram a saideira em frente à piscina.
A mente inquieta de Quinca divagava sobre o tempo que ainda lhe restava.
— E, então,
rapazes, o que vamos aprontar amanhã?
Antônio pareceu
entender aquelas palavras como um chamamento para estripulias.
— Bem, seu Quinca,
conheço um lugar, digamos, familiar. O Bar da Bibi Perigosa.
— Familiar?
Antônio, por favor, olha onde você vai levar o meu pai.
— Fica quieto,
Gilberto! Quero ouvir a proposta do Antônio.
— Mas, papai...
— Gilberto, fica
quieto! Já falei! Quem está morrendo aqui sou eu. Prossiga, Antônio, antes que
alguém me enterre.
Sem argumentos que
pudessem demover o pai da ideia de conhecer o suposto inferninho, Gilberto tratou
de arrumar uma maneira de salvar a alma do genitor. Pois rezaria quantas rezas
fossem necessárias, mesmo não sabendo nenhuma de cor. E faria de tudo para que
aquela história jamais fosse apresentada aos ouvidos praticamente santos de sua
mãe.
Já devidamente
instalado no quarto, Gilberto observou o pai. O senhor parecia mais contente do
que de costume. O jovem, encucado, não sabia se aquele torpor era por causa da
bebida ou por conta da perspectiva de o velho estar prestes a conhecer a tal
Bibi.
Quinca pegou uma
toalha e se dirigiu ao banheiro. Assim que Gilberto ouviu o barulho da ducha
ligada, ele tratou de pegar o aparelho celular e fazer uma busca na internet
para saber mais sobre o Bar da Bibi Perigosa. Isso o encheu de angústia,
enquanto o pai, apesar da controversa afinação, se fazia de Cauby e cantava
Conceição debaixo do chuveiro.
Conceição
Eu me lembro muito bem
Vivia no morro a sonhar
Com coisas que o morro não tem
Foi então
Que lá em cima apareceu
Alguém que lhe disse a sorrir
Que, descendo à cidade, ela iria
subir
Se subiu
Ninguém sabe, ninguém viu
Pois hoje o seu nome mudou
E estranhos caminhos pisou
Só eu sei
Que tentando a subida desceu
E agora daria um milhão
Para ser outra vez Conceição
Gilberto, enquanto ouvia a interpretação do pai, já nem sabia o que era certo ou
errado. Antes de chegar a uma conclusão, adormeceu.
Por volta das nove
horas, com o Sol mostrando quem é que manda na Bahia, Quinca, Gilberto, Zé
Mineiro e Antônio, sentados em frente à praia, confabulavam lorotas. Zé
Mineiro, certamente o mais amigo das inverdades, contava causos vividos por
outrem como se fossem seus, além de dois ou cinco inventados. Todos riam, mesmo
que desconfiassem à vera que aquilo tudo não passasse de criações de uma mente
embusteira.
Entre um petisco e
outro, os companheiros nem perceberam a hora passar. Foi então que o Quinca se
lembrou:
— E aí, Antônio, eu
vou ou não vou conhecer essa Bibi Perigosa?
— Ih, seu Quinca,
eu até tinha me esquecido. O senhor quer mesmo ir?
— Hum! É óbvio! E
que seja antes de São Pedro me chamar.
— Do jeito que a
coisa vai, pai, acho que o senhor vai conhecer é o Capeta.
— Cala essa boca,
Gilberto! Ou você quer me matar antes do sol se pôr?
Algumas trocas de
farpas adiante, lá foram os sujeitos para o afamado Bar da Bibi Perigosa,
entranhado na Mata Atlântica. Mal entraram no recinto, foram recebidos por uma
mulher de seus sessenta anos, no limite entre a beleza e o atrevimento, sorriso
maior do que a cara. Impossível não se simpatizar com ela. Quer dizer, o Gilberto, o
ressabiado da patota, ficou com um pé atrás com a dona do lugar. Entretanto,
como era minoria, achou por bem ficar mudo.
Bibi serviu o
melhor peixe frito da região. Tão bom, que até o ranzinza do Gilberto teve que
dar o braço a torcer. E o Quinca, encantado e curioso que estava, não resistiu
e fez uma pergunta que deixou a todos boquiabertos:
— Bibi... Posso
chamá-la assim?
— Sim, Quinca. É
assim que todos me chamam.
— Estou encucado
com uma coisa.
— Pois diga logo,
homem, que a vida é muito curta para ser protelada.
— Por que te chamam
de Bibi Perigosa?
— Bem, meu caro
Quinca, isso é uma longa história. Mas pode ficar tranquilo, há muito tempo
não sou tão perigosa assim.
Todos caíram na
gargalhada, o que não impediu o Gilberto de continuar com a incômoda pulga
atrás da orelha. Entretanto, com o passar dos dias e diante do carisma da Bibi,
até o resmungão foi perdendo a carranca. E, quando chegou a inevitável hora de
se despedir, fez questão de, sorrateiramente, ir até o Bar da Bibi Perigosa.
Mas eis que ele se perdeu e, depois de horas na mata, finalmente encontrou o
local, que já se encontrava fechado.
Gilberto, todo
suado, parado diante do bar, chamou pela dona. Nada. Bateu palmas. Nenhuma
resposta. Já quase desistindo, percebeu uma porta entreaberta na lateral e,
tomado de certa intimidade, entrou. Foi quando ouviu um som vindo de um dos
quartos. Ele caminhou alguns passos e, já na entrada, quase caiu para trás.
— Pai?
Lá estava o Quinca
aos beijos e amassos com a Bibi Perigosa.
— Filho, calma!
Posso explicar.
Como não havia
explicação para dar, ao menos uma que valesse a pena ser inventada na hora,
Bibi tomou a palavra:
— Olha aqui,
Gilberto, não há mais crianças na sala. Então, o lance é o seguinte: aconteceu.
Simples assim. E que isso fique aqui no meu bar. E que jamais chegue a Brasília. Estamos entendidos?
Dois meses se
passaram. O velho Quinca fechou os olhos pela última vez. Gilberto ainda
carrega consigo a dúvida se o seu pai conheceu São Pedro ou foi na outra direção. Dona Lúcia, todavia, dorme com a certeza de que o marido só pode estar no Céu.
Nota de esclarecimento: O conto "A última viagem de Quinca" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 15/9/2026.
https://www.notibras.com/portal/brasilia/a-ultima-viagem-de-quinca/