quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O nó da questão

 

    Etiqueta, definitivamente, não era a praia do Juvêncio. Não que o sujeito fosse mal-educado, era questão de praticidade e conforto.

    — Meu amor, mas o que custa? É só hoje.

    — Não sei dar nem nó de gravata. Pra quê? Nunca gostei. Quero a minha regata.

    — Regata?

    — Não é um churrasco, Maria Rita?

    — Na casa do deputado, Juvêncio. Na casa do deputado!

    — E daí? É um churrasco. 

    — Mas você é mesmo cri-cri, hein?!

    — Eu?

    — E por acaso sou eu que tenho implicância com terno e gravata?

    — Não é implicância, Maria Rita.

    — E o que é, então, Juvêncio?

    — Incompatibilidade. Simples assim.

    — É, Juvêncio, você tem razão. Também estou sentindo.

    — O quê?

    — Certa incompatibilidade entre a gente.

    O homem, para manter a harmonia, tratou de entrar no terno, ajustou a gravata em volta do pescoço e calçou os sapatos impecavelmente engraxados.

    — Que tal, meu amor?

     — Apresentável, Juvêncio. Apresentável. Doeu?

    O casal estacionou em frente ao casarão do deputado Horácio. Um funcionário se postou ao lado do veículo e, gentilmente, abriu a porta para Maria Rita descer. Em seguida, acompanhou os convidados até o anfitrião. Assim que a autoridade avistou Maria Rita e Juvêncio, sorriu com todos os dentes. Com todos os dentes e de regata. Afinal, era churrasco.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O gosto do Marcos Rey

  

    Nunca imaginei que eu teria nem um minuto sequer com o Seu Urias, um tipo que sempre me pareceu a própria expressão de carranca. E era, pelo menos aos olhos de todos ali na rua, especialmente para as crianças e adolescentes.

    — Mamãe, por que ninguém gosta do Seu Urias?

    — Carlinho, isso não é verdade.

    — A senhora gosta dele?

    — Eu?

    — É.

    — De jeito nenhum! Que velho mais desagradável.

    Aconteceu numa manhã, talvez de domingo ou feriado. Sei apenas que não era dia de escola. Seu Urias vinha da quitanda da dona Lúcia, carregava duas sacolas abarrotadas. Quando ele estava a poucos metros, nossos olhares se cruzaram. Eu, por impulso, me ofereci para ajudá-lo. Coisa toda que fazemos quando deixamos o raciocínio de folga.

    — Muita gentileza sua. Carlinho, né?

    — Sim, senhor.

    — Filho da dona Joana, né?

    — Sim.

    — Boa mulher. Você é um menino de sorte.

    Seu Urias, assim que deixei a sacola na cozinha, tirou a carteira do bolso e sacou uma nota de cinco reais. Recusei.

    — Ah, entendi. Hombridade, né?

    Sem entender o que aquilo significava, assenti com a cabeça. Seu Urias me observou por um momento e, em seguida, foi até a sala, de onde retirou um livro da estante.

    — Gosta do Marcos Rey?

    — Quem?

    — Marcos Rey. Ele escreveu este livro maravilhoso. Conhece?

    Seu Urias me entregou aquele exemplar de "O mistério do cinco estrelas". Um tanto gasto, para dizer a verdade.

    — Carlinho, livro bom é livro carcomido.

    Mais uma palavra que eu precisaria descobrir o significado.

    — Sim, senhor.

    — É seu, mas tem uma condição.

    Olhei desconfiado para aquele homem, praticamente um estranho.

    — E qual é a condição, senhor?

    — Que leia e depois me conte se gostou. Combinado?

    — Combinado.

    Apertamos as mãos como dois cavalheiros e corri de volta para a rua, onde os meus amigos continuavam jogando bola. Preferi me sentar debaixo da amendoeira. Abri o livro e, pela primeira vez, me embrenhei no mundo do Marcos Rey.

    Perdi a hora, mamãe me gritou:

    — Carlinhos, o almoço tá pronto!

    Nem estava com fome, mas sempre soube que não era de bom tom desobedecer a dona Joana. Corri em sua direção e entrei esbaforido.

    — Ei, o que é isso aí nas suas mãos?

    — Marcos Rey, mamãe.

    — O quê?

    — Foi o Seu Urias que me deu.

    — E o que aquele velho queria com você?

    — Nada, mamãe. Eu me ofereci para ajudar a carregar as compras. Então, ele me deu o Marcos Rey.

    — Hum!

    Talharim à bolonhesa. Até hoje é o meu prato favorito. Mesmo assim, as páginas do Marcos Rey me pareceram muito mais saborosas.

    Terminei de ler "O mistério do cinco estrelas" na madrugada. Adormeci e, não duvido, devo ter sonhado com a trama. Pena que nunca me lembro dos sonhos, deve ser coisa de família. Minha mãe sempre me disse que sonhos são coisas de grã-fino.

    Quando acordei, já era quase meio-dia. Havia um movimento estranho na rua. Assustado, fui até a minha mãe, que me contou o motivo:

    — Foi pra onde, mamãe?

    — Morreu, Carlinhos. Morreu.

   Seu Urias, soube mais tarde, enfrentava uma doença terrível há anos: câncer nos pulmões. Resistiu o quanto pôde. Não teve velório, não teve enterro nem despedida. A única filha, Lorena, honrou o pedido do pai: viajou para o Rio de Janeiro e jogou as cinzas na praia de Copacabana. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A anatomia do alvo

   

    Duas mulheres paradas diante de um jornal exposto na banca. Letras garrafais: "Bala perdida encontra criança na comunidade". 

    — Aposto que estava fazendo coisa errada.

    — Aqui diz que estava dentro de casa.

    — E desde quando barraco é casa?

    — Uma criança.

    — Criança? Aviãozinho na certa.

    — Quatro anos.

    — É nessa idade que essa gente começa a assaltar.

    — Quatro anos?

    — Não tô te falando? Tá assim de bandido no morro. Se der mole, é você quem morre.

    — Mas a criança tinha apenas quatro anos.

    — E daí? E eu com isso? Vai ficar contando idade de bandido agora?

    — Quatro anos... Isso não está certo.

    — Ah, tá! Certo agora é favelado? 

    — O quê?

    — Amiga, essa gente nem deveria existir. 

    — Mas...

    — Me falaram que é coisa da raça. 

    — O quê?

    — Essa gente... Você sabe... Hoje em dia parece que nem podemos mais falar... Gente escura.

    — O quê?

    — Preta. 

    — Que absurdo!

    — É um absurdo mesmo essa gente. Ainda bem que temos a polícia pra proteger os nossos filhos. Gente de bem, né?

domingo, 2 de agosto de 2026

Conluio com café

    

    Dia desses estava batendo papo com o meu grande amigo Sergio Diniz da Costa, escritor talentosíssimo e editor do Jornal Cultural ROL: "Edu, não há escritor que se salve sem conluio com café." Se ele está ou não certo, não é algo que irá me tirar o sono, até porque parece se encaixar no meu dia a dia quando eu me debruço sobre uma folha de papel em branco e começo a rabiscar. "Edu, que letrinha, hein!" Caí na besteira de mostrar o rascunho para o Sergio.

    Já ouvi o J. Emiliano Cruz (Jota) - autor do recente A Felicidade e os Risíveis Amores de Todos Nós - afirmar que seu principal fantasma é não ter a menor noção de qual será o seu próximo conto. Cadê as ideias? Elas virão? De onde?

   Ainda em relação ao Jota, creio que foi ontem, mas pode ter sido anteontem ou na semana passada. Conversando com o meu camarada, eu lhe disse que, muitas vezes, começo uma história com uma ideia inicial, mas que se transforma em bolinha de gude descendo uma escada íngreme e tortuosa. Sim, isso mesmo que você imaginou (ou não). Não tenho a menor noção de como se dará o desfecho. "Edu, comigo acontece a mesma coisa, que nem tampinha de refrigerante na carroceria de caminhão."

    E a poetisa Hélida Pivante, que não é bissexta por acaso: "Edu, quando sento para fazer poesia, sempre aparece alguém e me diz: 'Ah, já que você não está fazendo nada, bem que poderia me fazer um favorzinho.' Pois é, Edu, como se fazer poesia não desse trabalho. Até parece que escritor não faz nada, que somos um bando de desocupados."

    Por falar em trabalho, o Daniel Marchi, durante nossas conversas diárias, sempre me solta algo do tipo: "Edu, adoro ser professor e advogado, mas encaro essas profissões como trabalho. Literatura precisa me dar prazer e, por isso, deixo a mente livre. A inspiração de vez em quando escapa, porém sempre volta recheada de novidades." Que cara sortudo! 

    Ai de mim se eu fosse confiar apenas na inspiração para escrever. Se eu não fizer o tal conluio com café todos os dias, é provável que não saia nem mesmo uma mísera linha. Café, meu amigo. No meu caso, gourmet. Ah, e sem açúcar, pois de doce já basta a vida.

sábado, 1 de agosto de 2026

O velório do acaso

    

    Maria e Orlando se conheceram num velório. O falecido era Antônio, parente distante da mulher e colega de trabalho do sujeito. Trocaram algumas palavras, o suficiente para que os dois percebessem que o desejo de esticar a conversa havia se instalado. Trocaram telefones.

    Orlando, então saído de um relacionamento conturbado, muito por sua culpa, refugou por alguns dias até que enviou uma mensagem pelo WhatsApp:

"Bom dia!"

    O homem, logo em seguida, foi tomado de arrependimento. Quem manda mensagem a uma praticamente desconhecida àquela hora da manhã? Orlando conferiu o horário: 8h37.

"Bom dia, Orlando! Pensei que você tivesse perdido o meu número. Ou algo pior..."

    Não era tão cedo assim, pensou Orlando. 

    "Pior?"

    Minutos de espera carregados de certa angústia. O que seria pior?

        "É, Orlando. Pensei que você tivesse me esquecido."

    Aquele foi o empurrão necessário para que Orlando arrancasse o resquício de coragem escondida no fundo da gaveta.

"Posso te ligar?"

"Pode sim."

    Combinaram um café no sábado. Muitas expectativas que acabaram em promessas de se encontrarem novamente. Mera formalidade.

    Quase cinco anos depois, Maria e Orlando se reencontraram em um churrasco na casa de Paulo, amigo em comum. Desconhecendo que aqueles dois já possuíam um princípio de história, o anfitrião os apresentou. Como se tivesse sido combinado, eles fingiram ser estranhos.

        — Bem, meus queridos, vou deixá-los a sós. Preciso dar um abraço no Álvaro. Sintam-se à vontade e, qualquer coisa, me chamem.

        Assim que Paulo deu as costas, Maria e Orlando sorriram, como se fossem crianças que acabaram de fazer traquinagens.

        — Quando você se tornou um mentiroso? E você me viu? Orlando, e se o Paulo descobre? 

            — Pois é, Maria, somos dois mentirosos de carteirinha. Tudo bem com você? Já faz tanto tempo, né?

        O bate-papo fluiu. Saíram de mãos dadas e hoje, passados dez anos, entre idas e vindas, decidiram ter uma lua de mel em João Pessoa. E, caso gostem da experiência, é provável que juntem os panos quando retornarem. Talvez comprem até um aquário.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O gosto da madrugada

     

       Raimundo nem lembrava o motivo que o arrancara da cama àquela hora da madrugada. Se era hábito ou falta do que fazer, parecia não importar ao sujeito. Aposentadoria  dizia Ofélia, a esposa — tinha dessas coisas.

    Lavou o rosto, talvez em busca de alguém que há muito não conseguia enxergar. Envelhecera, é verdade, mas algo parecia incomodá-lo além da flagrante decrepitude. Deu as costas ao próprio reflexo.

        Na cozinha, preparou o café. Café de verdade. Coado. Coador de pano. Nada de filtro de papel. Solúvel, então, Raimundo torcia os lábios.

        — Acordado a essa hora?

        Raimundo, xícara na mão, apenas olhou para a companheira. Tomou um gole.

        — Quer? Tem mais na garrafa.

        — Não. Vai me tirar o sono.

        Ofélia deu um beijo no rosto do marido. 

        — Vou voltar pra cama. Quer vir também?

        Ela sorriu, se virou e voltou para o quarto. Raimundo ainda teve tempo de observá-la. As curvas que outrora o haviam fisgado. Desistiu do café e foi deitar com a mulher. 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A teoria dos Osvaldos

     

    Salete, língua ferina, não escolhia ouvidos para destilar veneno. Bastava oportunidade e desenrolava a língua, muito bem treinada por anos de prática.

        Churrasco na casa da dona Aurora, festeira das boas.

        — Mulher, tu por acaso sabe quem é aquele bonitão ali sentado?

        — Sei muito bem, Salete. É o novo namorado da Laurentina.

        — Sério?

        — Por quê? Tá interessada, é?

        — Hum! E eu sou lá mulher de dar trela pra qualquer um, Roberta?

        — Sei... Então, por que perguntou?

        — Melhor não falar, amiga. Você bem sabe que não sou de arrumar confusão.

        — Ih, Salete, para com isso. Se começou, tem que ir até o fim.

        As mulheres se entreolharam por um instante. Salete puxou o ar com força para ganhar fôlego e, em seguida, desandou a falar.

        — Pois tu acredita que ele já deu em cima de duas só nesses dez minutos que estamos aqui?

        — Hum! O Osvaldo?

        — E o nome do bofe é Osvaldo?

        — É. Por quê?

        — Já vi tudo!

        — Viu o quê, Salete?

        — Todo Osvaldo é safado. Nenhum presta.

        — Olha aqui, Salete, que história é essa? Meu avô se chama Osvaldo.

        — Hum... E ele nasceu antes ou depois de 1970?

        — Bem antes, né, Salete?

        — Ah, então, está explicado. O seu avô pertence aos Osvaldos antigos, quando ainda eram confiáveis. O problema é com a safra mais nova, esses que vieram depois de 1970. E ainda há os piores.

            — Piores?

            — Sim, Roberta. Os nascidos entre 1980 e 1990. E, olhando pra cara daquele ali... acho que 1985. São os piores dos piores, mulher.

        — Salete, fica quieta. A Laurentina está vindo pra cá.

        Foi o tempo para que as amigas se recompusessem e cumprimentassem a Laurentina.

        — Pensei que vocês não fossem vir.

        — Laurentina, e tu acha mesmo que a Roberta é de perder essa boca-livre da dona Aurora?

        — Eu? Tu que é uma esfomeada, Salete.

    Depois de alguns bons minutos de conversas e risadas entre as colegas, eis que a Laurentina quis porque quis apresentar o novo namorado para a Salete. Esta, por sua vez, encarou a Roberta, mas nada disse. E lá foram as três na direção do Osvaldo. Um tipão. Vesgo, é verdade, mas um tipão mesmo assim.

        Feitas as devidas apresentações, o quarteto de última hora engrenou num bate-papo descontraído até perto do final da confraternização. Laurentina, braços dados com o amado, foi embora, enquanto Salete e Roberta se prolongaram um pouco em despedidas com a anfitriã.

       Quase meia hora depois, as duas também saíram e, já na calçada, a Roberta não perdoou a amiga:

        — Nossa, tu é fofoqueira, hein, Salete!

           — E como sou! Adoro! 

        — Mas, Salete, e tu não tem vergonha de falar mal do Osvaldo?

        — Ah, e como eu ia lá saber que o sujeito tinha os olhos trocados?

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Duplamente enganado

  

    Nunca pensei em ter cachorro. Na verdade, quis ter um na infância, mas minha mãe insistia em dizer que daria trabalho e, no final, sobraria para ela tomar conta do animal. 

    — Todo mundo quer tudo, Luiz, e tudo sempre acaba nas minhas costas. Estou cansada. Se quiser bicho, que fique adulto primeiro pra você ver o que é bom pra tosse.

        Ganhei uma bicicleta, o que me distraiu até a chegada da puberdade, quando a atração por garotas se instalou quase que de repente. Laura foi a minha primeira paixão. Platônica, como tantas outras que se seguiram até que a Marcinha desvirginou meus lábios. Nada além de um selinho, mas que me fez sentir o rei do pedaço. 

        Alguns foras depois me arrancaram a aura de galã, algo que jamais tive. Seja como for, tive dois namoros sérios até entrar na faculdade. Nessa época, temendo ser reprovado em alguma matéria, fui um estudante tão aplicado que voltei aos amores ilusórios. 

        Foi na formatura que conheci Márcia, quer dizer, já a tinha visto duas ou três vezes, mas de relance. Mentira. Para que mentir quando sempre soube que passaria a vida inteira entre números e aquela mulher apaixonada por literatura? Ela, aliás, mesmo que naquele tempo ainda não soubesse, me impulsionou a caprichar no trabalho de conclusão de curso, pois eu não queria correr riscos de não terminar a faculdade de Matemática em 1977. 

        O início do namoro se deu por causa do meu grande amigo Paulo César, que fez as devidas apresentações e, em seguida, me deixou em um canto com a sua prima. O resultado é que tudo pareceu pelo avesso e voltei para casa cabisbaixo, certo de que Márcia havia me achado um completo idiota. 

        Dois meses. Foi esse o período em que precisei conviver com a certeza de que havia perdido a mulher que eu supunha ser aquela com quem eu passaria toda a minha vida. Estava duplamente enganado. E o primeiro erro se desfez no local do meu primeiro emprego: uma escola no meu bairro.

            — Luiz? Você por aqui?

            — Márcia!

            Ela era a nova professora de Literatura, enquanto eu estava fadado a ser o terror dos alunos avessos à Matemática. Tentei escolher as palavras para não colocar uma pá de cal sobre qualquer possibilidade de sair com Márcia, nem que fosse para tomarmos um sorvete na saída do trabalho. Talvez prevendo um quase certo desastre, Márcia se antecipou:

            — Luiz, que tal um cineminha?

            O cineminha aconteceu dois dias depois. A garota do adeus, com Paula McFadden e Richard Dreyfuss. Durante o filme, Márcia pousou a mão sobre a minha e, já nos créditos, me beijou.

            Daquele dia até o altar decorreram quase dez anos. E poderia ter sido mais tempo, caso a Márcia não tivesse feito o pedido formal durante uma tarde no sofá do meu apartamento, logo após declamar Drummond e Pessoa. 

            — E aí, senhor Luiz, que tal um casamentinho?

            Entre os padrinhos, estava o Paulo César. Já na igreja, antes da noiva chegar, o meu amigo e eu tivemos um breve interlúdio, cujas palavras até hoje me são tão caras:

            — Luiz, até que enfim você teve coragem de pedir a mão da Márcia em casamento.

            — Bem, na verdade, foi ela que pediu a minha.

            O Paulo César me fitou por um instante e soltou uma gargalhada, que chamou a atenção de algumas pessoas próximas. Ninguém, ainda bem, se mostrou suficientemente curioso para perguntar o que estávamos conversando.

               A lua de mel aconteceu em Petrópolis. Cinco dias de passeios e paixão verdadeira. Não que houvesse tantos segredos ainda a serem desvendados, porém algo mais poderoso pareceu se instalar de vez. 

                Os filhos, Laura, Rômulo e Helena, começaram a chegar, de dois em dois anos, a partir de 1989. Com a família aumentada e a correria do dia a dia, houve o afastamento natural entre Márcia e mim. Nada tão drástico a ponto de alguém desejar se separar, pelo menos tal pensamento jamais passou pela minha cabeça. 

                Já com os filhos criados, eles foram tomando caminhos diversos. Laura se tornou professora universitária, Rômulo entrou para o Banco do Brasil e Helena, muito melhor em números do que eu, conseguiu uma bolsa para estudar fora. Ficamos apenas a minha mulher e eu em casa. E tudo pareceu ganhar uma nova versão de algo que havíamos vivenciado na nossa juventude.

            — E aí, Luiz, que tal um namorinho?

          E lá estava eu nos braços da linda esposa. Não tive dúvida de que passaria o resto dos meus anos, que esperava serem muitos, ao seu lado. Pela segunda vez, estava enganado.

            — Você tem certeza?

            — Os exames estão aqui.

            — Não é possível, meu amor. Você está tão bem.

            — Acontece, Luiz. A Dra. Viviane me explicou.

        Fiquei sem chão ao ouvir a explicação da oncologista através da voz da minha esposa. Ela estava com câncer no pâncreas que já havia se espalhado. A Márcia nos deixou pouco antes do Natal passado.

        Viúvo aos 71 anos, saía pouco de casa, apenas o necessário. Recebia a visita da família e amigos. Um dos poucos que parecia me entender era o Paulo César. Passávamos tardes praticamente em silêncio, apesar das palavras de conforto do primo da Márcia.

        — Ela era incrível, Luiz.

        — E devo a você por ter me apresentado a ela.

        — É verdade, eu que apresentei vocês dois. E sabe o que eu fiz pra convencer a minha prima de te conhecer?

        — Não. O que foi?

        — Menti, Luiz, mas por uma boa causa.

        — Mentiu?

        — É. Disse que você era apaixonado por poesia.

        Paulo César e eu choramos abraçados e, antes do meu amigo ir embora, eu lhe disse:

        — Obrigado.

        — Fica bem, Luiz.

        Uma semana depois, o Paulo César me apareceu com uma caixa de sapato e, antes que eu pudesse questioná-lo sobre aquilo, algo se mexeu.

        — Luiz, o nome dela é Cecília Meireles, mas acho que vai acabar virando Ceci.

        Ceci, uma vira-lata malhada, passou a ser a minha companheira. A danada dá trabalho, porém me ajuda a sobreviver. Ontem mesmo, enquanto estava preparando uma xícara de café, olhei pela janela e notei que a minha cachorra estava entretida com algo na varanda. 

        — Ei, Ceci, o que você está mexendo aí?

    Ela virou a cabeça na minha direção e, em seguida, começou a pisotear e tentar abocanhar algo no piso. Curioso, peguei meus óculos e fui até a minha filha felpuda. Peguei-a no colo e, então, decifrei o motivo de tanta animação: uma formiga tão minúscula de dar dó. Por sorte, a miudinha conseguiu fugir pela beirada e se embrenhou no mato.  

        Agora sei o que é bom pra tosse. Obrigado, mamãe! 

terça-feira, 28 de julho de 2026

O último biscoito e o taciturno

  

       Humberto, gêmeo idêntico do Henrique, diferentemente do irmão, nasceu com a carranca da seriedade. Não que precisasse fazer esforço para tal, era algo intrínseco ao seu ser.

    Rabugento desde a tenra idade, Humberto não se enturmava. Já o Henrique, invariavelmente, comandava as brincadeiras. Tanto carisma, não havia quem resistisse àquelas bochechas fofas. Humberto, por sua vez, a tudo observava com o desdém que lhe era próprio. 

    — Henrique, meu lindo, os seus amiguinhos estão te chamando pra brincar na rua. 

    — Já tô indo, mamãe.

    — E você, Humberto, por que não vai com o seu irmão?

    O garoto nem se esforçava para dar uma desculpa. Era seco como canela de ema.

    — Não.

    Quando chegou a época dos namoros, todas as garotas cercavam o Henrique, o último biscoito do pacote. E até mesmo o Humberto, por mais cético que fosse, nunca duvidou dessa qualidade do irmão. Que ele namorasse todas, Humberto não se importava. Talvez um dia alguém se apaixonasse pelo macambúzio. 

    Na faculdade, conheceu Alice. Apaixonada por física quântica, a jovem sentiu atração quase instantânea pelo taciturno. Assim, Humberto se viu pela primeira vez na vida envolvido emocionalmente com alguém. E, por mais que pudesse parecer estranho aos olhos dos outros, aqueles dois se combinaram tão bem que, agora ambos formados e bem encaminhados profissionalmente, resolveram anunciar o noivado.

    A mãe do Humberto estranhou o fato e fez questão de demonstrar sua insatisfação:

    — Rubens, você ouviu o que o seu filho disse?

    — Qual deles, Marisa?

    — Ué, o Humberto!

    — Sobre o noivado com a Alice?

    — É!

    — E o que tem isso?

    — Rubens, o seu filho tem só 27 anos!

    — Hum... Meu amor, nós tínhamos 21 quando nos casamos. 

    — Outros tempos, Rubens. Outros tempos!

    Humberto e Alice viajaram e retornaram duas semanas depois. Pequena experiência para o casal ter certeza de que estavam prontos para o matrimônio. Dona Marisa foi buscar os pombinhos no aeroporto, quando constatou algo diferente no filho.

    — Humberto, o que é isso no seu rosto?

    — Ah, mãe, é um bigode. A Alice pediu e estou até gostando.

    — Humberto, pois eu acho que esse seu bigode te deixa muito sério.

    — Mãe, o nome que a senhora me deu me permite usá-lo sem cerimônias.