sábado, 28 de março de 2026

Daniela, minha colega de faculdade

               

        Não sei se foi o tempo que me fez ter outra percepção da minha relação com Daniela, que conheci no primeiro semestre de química na UnB. Eu, então com 18 anos, me senti atraída por seus cabelos escuros e anelados, os olhos de um verde que, às vezes, me faziam acreditar serem azuis, um pequeno diastema lhe conferia um sorriso franco de quem enxerga a vida com perspectiva diferente da maioria. 

          Devo ter feito cara de apaixonada, pois Daniela me fitou com certo interesse. Ela me esticou a mão esquerda e sorriu. Instintivamente, estiquei a direita, quando ouvi pela primeira vez sua voz rouca.

          — Com a esquerda, que é mais perto do coração.

          Isso quebrou o gelo e a cumprimentei com a mão mais próxima ao meu músculo cardíaco, que, naquele instante, parecia querer saltar pela boca. Daí em diante, Daniela e eu nos tornamos, aos olhos atentos, mais do que amigas. E se falassem algo, e não sou ingênua a ponto de imaginar que não o fizessem, estávamos tão envolvidas que, naqueles idos, realmente não ligávamos. 

          Entre provas, trabalhos em grupo e muito estudo, tivemos altos e baixos, a maior parte por conta de ciúmes tolos. E a separação, já perto da formatura, pareceu inevitável, tamanho o desgaste natural do relacionamento, que se sustentava à custa do carinho que ainda nutríamos uma pela outra. Tanto é que, apesar dos laços que ainda nos ligavam, mal nos falamos durante a entrega dos diplomas.

          Nossas vidas tomaram rumos distintos nos anos seguintes. Eu quase me casei, mas consegui não sucumbir às aparências. Segui meu caminho, tive alguns romances ao longo do tempo, mas nenhum que me desse mais prazer do que as aulas de química que ministrava em duas escolas.

          No ano passado, por um desses acasos da vida, reencontrei Daniela na porta da escola.  Os mesmos cabelos escuros e anelados, aqueles olhos que sempre me confundiram, o diastema que ainda tornam seu sorriso tão sincero. Ela me viu e, apressadas, corremos para nos abraçar. 

          Daniela é mãe de uma das minhas alunas. Estava separada do marido, mas, segundo me contou, ainda continuavam amigos dentro do possível. Ela não havia seguido carreira. O diploma, porém, foi útil para se tornar servidora pública. Trocamos telefones e, dois dias depois, fomos a um café. 

          A conversa fluiu de modo que eu não esperava até que a troca de olhares falou mais alto, quase aos gritos. Desde então, reatamos algo que havíamos deixado para trás. Daniela prefere manter nossos encontros longe do escrutínio dos outros. 

        — Júlia, você acha que seremos salvas?

    Atormentada, eu não soube respondê-la. Creio que essa busca espiritual compartilhada criou um vínculo de sofrimento que poucos entenderiam. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Daniela, minha colega de faculdade" foi publicado no Notibras no dia 28/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/daniela-minha-colega-de-faculdade/

sexta-feira, 27 de março de 2026

Rubens, o escritor de coisas

     

           Rubens era da prosa, apesar de ser apaixonado por poesia. Não que entendesse do assunto, mas sentia que aquele mundo era mais colorido e, mesmo que pudesse parecer contraditório aos olhos de outrem, também sombrio. E era essa dicotomia que o atraía, como se fosse o retrato da vida.

     O sujeito, que havia conquistado certo reconhecimento no meio literário, principalmente por suas publicações num jornal de bairro, tratava o próprio sucesso local com desdém. Isso, aliás, vez ou outra, era assunto para suas crônicas mordazes sobre a falta de afagos fora daquele reduto. Que ao menos fosse poeta, cuja loucura, até dos que convivem com o anonimato, é reverenciada como algo grandioso. 

        — Contos muitos escrevem. Crônicas, então, qualquer um, desde que saibam colocar palavras enfileiradas, se passará por mestre da escrita. Mas, meu caro, poesia é outro patamar. Ali não basta ter tutano, tem que ter coração. Um coração de verdade, não um desses que mal repetem as batidas conhecidas até pelo relógio da igreja. Blém-blém funciona na capela. Na vida real, é só barulho.

            E aquela fala não era ou, ao menos, não parecia ser mera encenação. Rubens se fiava nas próprias palavras de modo resoluto. Estava mesmo convencido de que só aos poetas eram destinados ao Olimpo. Que os demais se contentassem com as migalhas, vez em quando, atiradas aos famintos. Queria estar nas prateleiras em vez de ser lido em celulares por proletariados em transportes de massa no trajeto casa-trabalho-casa. 

            Em frente ao espelho, o escritor treinava entrevistas que nunca dera e, provavelmente, não passavam de devaneios. Até chegou a ouvir de um amigo, muito sincero por sinal, que o seu estilo era muito nichado.

            — Nichado?

            — É, Rubens. Você escreve para um público específico. 

            — Sou descartável, você quer dizer.

            — Não é isso.

            — Então, é o quê?

            — Você tem um público cativo, que lê as coisas que você escreve.

           — Coisas? Agora eu escrevo coisas? É isso que sou? Um escritor de coisas?

            — Desculpe, meu irmão, não foi isso que quis dizer. Eu me expressei mal.

        Rubens saiu sem se despedir, sua vida parecia cada vez mais carregada de coisas. Caminhou até o ponto de ônibus. Em pé, não percebeu a chuva começar a cair, que logo se misturou às lágrimas que escorriam pela face. Entrou no coletivo, pagou a passagem e se sentou ao lado de uma senhora, que lhe cumprimentou com um breve aceno de cabeça. Ele tentou responder com um sorriso forçado.

        Durante o caminho, a mulher, celular na mão, pareceu entretida com algo, mas Rubens estava mais interessado no próprio fracasso. Foi aí que ela, forçando intimidade, se virou para o companheiro de banco e disse:

            — Esse Rubens Martins escreve cada coisa boa. O senhor o conhece?

            Rubens, pego de surpresa, balbuciou.

            — Coisa?

            — Rubens Martins. Eu o leio todos os dias. Não perco uma história. 

            — Coisa?

            — O senhor está bem?

             — A senhora disse coisa?

             — Coisa boa! Ele tem estilo. Não é qualquer um que escreve coisas assim, não. 

            — Obrigado.

            Rubens sorriu o primeiro sorriso autêntico do dia, levantou-se, puxou a cordinha e desceu no ponto seguinte, que era o seu. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Rubens, o escritor de coisas" foi publicado no Notibras no dia 27/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/rubens-o-escritor-de-coisas/

quinta-feira, 26 de março de 2026

A culpa que me acompanha

    

  A velhice me pegou de jeito antes mesmo de se instalar, sem pedir licença, no meu corpo. Foi aquela pancada no estômago quando percebi papai perdido diante do talharim à bolonhesa, especialidade passada de geração em geração na família da minha mãe. Observei aquilo como não querendo acreditar nas palavras da minha irmã mais nova, a Sarah.

            — Júlia, papai não está bem.

            — Como assim?

            — Você andou muito tempo fora... Olha, não estou te culpando, mesmo porque ninguém poderia supor que isso aconteceria.

           — Aconteceria o quê, Sarah?

           — Alzheimer.

           — Alzheimer? Mas o papai sempre foi tão saudável.

           — É. Mas aconteceu.

           — E a mamãe?

           — Ela foi a primeira a perceber a mudança de comportamento do papai. Reclamou com ele por ele ter feito xixi sem abrir o zíper. Depois se esqueceu de comer ou, então, acabava de almoçar, dava uns dez minutos, perguntava a que horas seria o almoço, pois estava com fome. Coisas desse tipo. 

           Culpa. Sim, senti como se, caso eu não tivesse passado tanto tempo longe dos meus pais, aquilo não teria acontecido. Bobagem, eu sei, mas penitência não escolhe cristão, como já ouvi em algum lugar ou, não descarto, seja algo que me veio à mente. Meu pai, cujas mãos me faziam cafuné, agora estava ali sentado à mesa, alheio a tudo. Havia perdido peso, as maçãs do rosto, antes proeminentes, deram lugar a covas profundas, o olhar vagueando por não sei onde. Mas o pior mesmo foi constatar que ele não me reconhecia.

           Papai me olhou como se eu não estivesse ali. Sua filha, aquela que ele sempre disse ser a mais parecida com ele. Nada. Nem mesmo um sorriso. Eu havia me tornado uma estranha para o meu pai. 

           Mamãe foi a que mais sofreu. Ela me contou que a demência evolui tão rápido, que papai perdeu a independência praticamente de um dia para o outro. Sem contar os xingamentos, que se transformaram em rotina, até que a mente do meu pai se foi.

           — Júlia, seu pai nunca levantou a voz pra mim. Nunca me xingou e, numa tarde, quando estávamos lanchando na varanda, ele soltou um palavrão e gargalhou. Parecia um monstro, mas sua irmã me disse pra não ligar, que era o Alzheimer tomando conta do cérebro do seu pai, e que, dali pra frente, a situação era só pra trás. E ela tinha razão, apesar dos dias em que seu pai parecia igual ao que sempre foi. 

           Papai faleceu na semana passada, depois de quase cinco anos acamado. Quando eu ia visitá-lo, passava horas ao seu lado, pegava algum livro de poesias para ler para ele, que sempre fazia isso quando eu era menina. Não sei se ele ouvia, seus olhos se mantinham inertes, olhando para o nada, como se ninguém, nem ele mesmo, estivesse ali. Na sua lápide, fiz questão de pedir para colocarem uma frase que sempre ouvi do meu pai: "O que vale é a poesia que fica."

  • Nota de esclarecimento: O conto "A culpa que me acompanha" foi publicado no Notibras no dia 26/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/a-culpa-que-me-acompanha/

quarta-feira, 25 de março de 2026

Os riscos da profissão de detetive particular

     

Ultimamente, só abro a geladeira para esfriar a cabeça. Nada mais daquelas cervejas estupidamente geladas, e não foi por causa da minha improvável conversão religiosa, já que sei cuidar sozinho da minha vida. O problema é a falta temporária de clientes, que me obrigou a fazer dois furos no cinto para manter as calças firmes na cintura. 

         Caí do cavalo. Não de um cavalo de verdade, mesmo porque nunca tive a pretensão de ser Durango Kid. Quebrei a cara quando aceitei trabalhar para um figurão, que desconfiava da esposa. Pois é, sou detetive particular, cuja especialidade é infidelidade conjugal. E aquele seria apenas mais um caso, isto é, se o amante da esposa do meu cliente não fosse alguém que conheço de longa data: justamente eu. 

            Quando Afrânio entrou no meu escritório na Asa Norte, imaginei que o sujeito fosse me dar um tiro. Que nada! Logo constatei que ele nem desconfiava que o motivo da sua cisma seria eu. Ele me expôs a situação, e eu estava certo de que não aceitaria aquele trabalho. Todavia, meu amigo, era tanta grana, que a necessidade falou mais alto. 

        Laura. Ah, que par de pernas! Esperta, sagaz, fogosa e lindamente ruiva. Casou-se por dinheiro, o que não era novidade nem mesmo para o esposo. Quase 40 anos mais velho, Afrânio não se permitia ser ingênuo a tal ponto. Ele sabia dos casos fortuitos que a esposa tinha, mas preferia olhar para outra direção enquanto o romance durava. Uma semana, um mês, às vezes somente uma tarde. Coisas da vida. O importante era que o coroa gostava de se vangloriar da bela mulher ao seu lado. E estava tudo bem até que...

        — Seu Rogério, desconfio de que a minha esposa esteja apaixonada.

        — Tendo um caso?

        — Vou ser bem franco com o senhor. Não sou um tipo que se importa com casos. Quem, afinal, não os têm? Os hormônios nunca me preocuparam, desde que também não tomem conta do coração. E o comportamento da Laura mudou nos últimos meses.

          — Mudou? Como assim?

       — Nunca a vi tão sorridente. Não que algum dia tivesse sido amuada, mas aquela alegria contagiante não me engana, se é que o senhor me entende.  

        Confesso que procurei não demonstrar certo orgulho, enquanto o sangue corria desembestado nas minhas veias e artérias. Afrânio estaria mesmo certo? A nossa Laura havia mesmo se apaixonado por mim?

        — Bem, seu Afrânio, estou ocupado no momento.

        — Estou aqui porque me falaram que o senhor é o melhor no ramo.

        — Fico lisonjeado, mas...

        — Pago-lhe bem.

        — A questão não é essa. É que...

        Antes que eu pudesse prosseguir com a minha negativa, eis que Afrânio retirou uma bolada do bolso interno do paletó e a colocou sobre a minha mesa. Aquilo era, por baixo, o que eu conseguia faturar com seis ou sete casos. E o melhor de tudo é que eu não precisaria passar horas e horas, dias e dias, talvez até semanas, dependendo da esperteza dos amantes, já que sabia quem estava, digamos, afagando o coração da Laura. Mesmo assim, ainda possuía brios e estava decidido a recusar, quando Afrânio me entorpeceu:

        — E o senhor irá receber o dobro disso, seu Rogério, assim que me apresentar o relatório completo das suas investigações.

        E, dessa forma, o resquício da minha dignidade me abandonou. Não me culpe, ainda mais porque percebo em seus olhos que você tomaria o mesmo caminho. 

        Debaixo dos lençóis aquecidos pelo corpo da Laura, não percebi problema em rechear os bolsos com a grana do seu marido. E assim levei as "investigações" em banho-maria por praticamente seis meses. Semanalmente, apresentava uma listagem das saídas da mulher do Afrânio, que, a princípio, pareceu acreditar.

        — Pois é, seu Afrânio, a dona Laura é uma mulher acima de qualquer suspeita. 

        — Hum...

      Salão de beleza, dentista, compras em lojas chiques, parada em uma cafeteria para um café gourmet. Obviamente que tudo combinado com a minha linda ruiva. Mas como nem tudo são flores neste mundo tão imenso, eis que constatei que Brasília é um ovo. Algum linguarudo, que ainda não descobri quem é, deu com a língua nos dentes.

        E lá estava eu, descarado que só, diante do Afrânio para lhe mostrar mais uma planilha sobre a rotina de Laura. Não sei se foi excesso de confiança que me tornou descuidado, mas o fato é que nem percebi a diferença no olhar do meu cliente.

        — Seu Rogério, o senhor tem certeza de que esses foram todos os lugares que a minha mulher frequentou?

            — Sim, seu Afrânio. Grudei nela que nem carrapato.

            — Que nem carrapato?

            — Desculpe, seu Afrânio. É modo de falar.

            — Não precisa se retratar, seu Rogério. Gosto da sua sinceridade.

            Óbvio que sorri, na certeza de que havia engabelado novamente o esposo da minha amante. Ledo engano, como se comprovou no instante seguinte, quando ele me mostrou várias fotografias da esposa aos beijos e abraços comigo. E a mais flagrante, sem qualquer sombra de dúvida, foi uma em que Laura e eu sorríamos na saída de um motel. Fiquei mais branco do que leite.

            — Seu Rogério, talvez o senhor não me conheça direito. Não sou um homem de arroubos, como pode perceber. E pode ficar tranquilo, que também sou avesso à violência. Isso, aliás, é o que me distingue de meu finado pai, que resolvia a coisa na bala. Penso que melhor do que quebrar as pernas de alguém é lhe cortar o sustento. Não além do tempo necessário, pois tenho cá um coração bondoso, como meus amigos poderiam testemunhar. Por isso, seu Rogério, vou lhe pedir apenas dois favores e, espero, que o senhor tenha a gentileza de acatá-los. O primeiro é que o senhor doe a quantia exata que lhe dei para uma instituição de caridade, que anotei neste papel. A outra, é que procure outra atividade para exercer. Não mais do que um ano. Depois desse tempo, o senhor poderá retornar ao seu ofício de detetive particular. Estamos entendidos?

            — Sim, senhor Afrânio.

            — Ah, só um detalhe a mais, pois não quero que o senhor seja pego de surpresa. Tenho amigos por todos os cantos, e eles não suportam quando um acordo entre cavalheiros é desfeito. O senhor quer uma água?

             — Não, senhor Afrânio.

            — Bem, então, pode ir. Adeus, seu Rogério.

            E cá estou com a cabeça na geladeira vazia. Ainda me faltam três meses para retornar ao meu ofício. Se bem que, andei pensando, talvez eu me mude para o litoral e monte uma barraca de coco.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Os riscos da profissão de detetive particular" foi publicado no Notibras no dia 25/3/2026.
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terça-feira, 24 de março de 2026

Dona Hilária era uma figura

            

            Minha mãe, afirmo sem resquício de modéstia, deveria ser matéria obrigatória nas universidades. E não porque possuísse muito estudo, mal sabia assinar o nome e só fazia contas miúdas com a ajuda dos dedos. E quem diz que estou variando, digo que mamãe era, que nem Garrincha contra os Russos, o elemento do caos. Quando você imaginava que ela fosse tomar uma direção, lá ia a minha velha, mesmo sem as famosas pernas tortas, assombrar os que a conheciam. 

            Dona Hilária, acredite, era o nome de mamãe. Dona, aliás, ela ganhou ao longo dos anos, como se tudo o que a sua vista alcançasse pertencesse a ela. E quem era besta de contrariá-la? Não que fosse mulher de posses, a questão era outra: autoridade. 

        Não pense você que mamãe era do tipo que dava respostas rápidas diante de questionamentos, ainda mais quando vinham carregados de convicções, geralmente ignoradas por ela. Dona Hilária encarava o interlocutor com aquele olhar que penetrava em aço como se fosse sabão. Fazia um silêncio prolongado, o que quase sempre deixava a pessoa impaciente e, certamente, cheia de dúvidas sobre a própria razão. 

            — Veja, Lúcio... Posso te chamar de Lúcio, né?!

            — Sim, dona Hilária, fique à vontade.

            Já que o sujeito dava brecha, minha mãe tratava de preenchê-la com um discurso que faria os do Fidel Castro parecerem notas de rodapé. Invariavelmente, o sujeito se redimia de tamanha petulância. Não sei se por não entender bulhufas do que minha velha queria dizer com aquela infinidade de palavras ou, então, se sentia convencido de que alguém que falava com tanta propriedade só poderia estar certo. 

            — Sim, dona Hilária, a senhora tem toda razão. Peço-lhe, encarecidamente, que me perdoe por vim importuná-la por bobagens. 

            Quando comecei a entender um pouco sobre a dinâmica do mundo, fui eu a questionar minha mãe. Ela me lançou aquele olhar típico, sorriu aquele sorriso de quem sabe que fez traquinagem, pegou minhas mãos e me puxou para perto do seu rosto.

           — Jonas, meu filho querido, ninguém se interessa por verdades, mas por narrativas.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Dona Hilária era uma figura" foi publicado no Notibras no dia 24/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/dona-hilaria-era-uma-figura/

segunda-feira, 23 de março de 2026

Santana, Pedrito e o peladão

Moraes, 75 anos, ao sair do banho, displicentemente passou a toalha pelo corpo, deteve-se por alguns instantes nas partes íntimas, esfregou os parcos cabelos, sacudiu a cabeça e a água espirrou para todos os lados. Em seguida, toalha nos ombros, se dirigiu aos dois policiais, o Santana e o jovem Pedrito.

— Pois não, no que posso servi-los.

Santana, o mais incomodado com a situação, mandou que o sujeito se vestisse.

— E por quê?

— Porque você está pelado, ué!

— Pois é assim que gosto de ficar na minha casa.

— Mas ali tem uma senhora.

— E eu não sei?

          — Então, vista-se!

— Ela é minha mulher, já está acostumada e posso garantir que até aprecia bastante. 

Roseneide, a esposa, percebeu que era melhor intervir antes que a aquilo saísse do controle.

— Meu amor, coloque uma bermuda pelo menos. Desse jeito até eu fico envergonhada na frente desses senhores.

Moraes, o peladão, apesar de contrariado, acatou a sugestão da companheira, que foi buscar a roupa para o sujeito vestir, enquanto ele, pernas abertas, se esparramou na poltrona da sala. 

— Pois o que vocês querem comigo?

Pedrito, o extremo oposto do Santana, era um poço de paciência.

— Bem, seu Moraes, precisamos que o senhor nos acompanhe até a delegacia.

— E pra quê? Não matei e não roubei.

— O senhor vai na condição de testemunha.

— Testemunha? Do quê?

— O senhor presenciou a briga entre seus vizinhos.

— Hum! Pois tenho cara de fofoqueiro? Não vou! Tenho mais o que fazer.

— Senhor, isso não é um convite, mas uma ordem emitida pelo delegado. O senhor não tem alternativa, precisa mesmo nos acompanhar até a delegacia.

Nisso, Roseneide retornou com uma bermuda e uma camisa e as entregou para o esposo, que, garboso, se ergueu e, com um sorriso nos lábios, se vestiu. Pedrito, então, perguntou educadamente:

— Podemos ir, seu Moraes?

O homem voltou a sorrir, olhou para a esposa, que perguntou se Larissa, uma das filhas, poderia acompanhá-lo.

— Não vejo problema, senhora. Ela está aqui?

— Sim. Vou chamá-la.

Já na viatura a caminho da delegacia, Pedrito ao volante, Santana ao seu lado, Moraes e Larissa no banco de trás, permaneciam calados. Foi então que o Santana quis saber quantos filhos o velho possuía. Todavia, antes que ele pudesse responder, a filha se apressou em dizer.

— Nove!

Moraes, então, retrucou:

— Doze!

Larissa, bastante exaltada, fez cara de brava e, voz firme, mostrou que não gostou:

— Pois eu conto apenas os filhos que o senhor teve com a minha mãe. Esses outros aí não sei e nem quero saber.

Moraes, sorriso de canto de boca, preferiu ficar calado, enquanto o Santana, quase inaudível, disse para o Pedrito:

— Eita, velho danado!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Santana, Pedrito e o peladão" foi publicado no Notibras no dia 23/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/santana-pedrito-e-o-peladao/

domingo, 22 de março de 2026

Entre o direito e a poesia

    

            Osmar era advogado. No entanto, a despeito do ofício nos tribunais, era poeta, sentia-se um, como se amigo próximo de renomados do meio, apesar destes não o saberem. E o que isso importava diante de tamanha intimidade com os versos alheios que lhe eram tão caros, como se ele os houvesse criado? Loucura? Não, meu amigo, logo vejo que o que falta em você é justamente o que no coração daquele homem transbordava: a loucura.

           Absurdo, alguém poderia dizer. Pois digo e afirmo sem receio do equívoco, mesmo que ele espreite em alguma madrigueira e, do nada, me jogue na cara que tudo o que afirmo não passe de devaneio de um apaixonado por poesia. E o sou, não refuto tal sentimento, não obstante a minha completa e notória ausência de traquejo com os versos, sejam rimados ou livres, sem amarras, sem métricas estúpidas que nos aprisionam em modelos austeros, inflexíveis e intransigentes. Que nem a bela e útil matemática discordaria do meu pensamento.

            Osmar! Sim, ele que nos interessa, é o mote que lhe proponho hoje. Aprisionado em ternos de finos cortes, transpirava horrores na advocacia, enquanto era pura inspiração com a pena na mão, que rabiscava sem pudores a folha em branco nas noites solitárias. Queria aquilo, embrenhar-se naquele mundo de Drummond, Vinicius, Daniel Marchi, Fernando Pessoa, Sarah Munck, Simone Magalhães, Luzia Couto, Victor Hugo e de tantos outros. 

           — Dr. Osmar, o senhor viu que o prazo daquele recurso vence amanhã?

           — Dr. Osmar, a dona Laura quer saber se o senhor já tem o parecer daquele caso contra a clínica.

           — Dr. Osmar, quando é que o senhor vai poder atender o seu Juvenal da mercearia?

           Casos, casos, casos... Ninguém para falar sobre o novo poema do Renan Damázio ou do Jorge Lenzi. Quanta falta de sensibilidade! Onde já se viu? Litígios! O mundo da discórdia, como se disputas fossem a razão, ou falta dela, a mola propulsora da sociedade. Nem mesmo uma única estrofe, nem sequer um pio de um joão-de-barro.

           Engravatado, Osmar não passava de mais um oprimido em busca do ganha-pão. Sufocado por tantas peças processuais, vez ou outra, abria a janela na ânsia de sentir a brisa que lambia sua face desejosa de poesia. Era poeta ou, ao menos, se imaginava um. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre o direito e a poesia" foi publicado no Notibras no dia 22/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/entre-o-direito-e-a-poesia/

sábado, 21 de março de 2026

Ernesto, dona Chiquinha, a surucucu e o sorvete de abacaxi

          

                Antes que fizesse algo substancial para mudar a trajetória de sua vida, Ernesto se olhou no espelho e, diante da própria fraqueza, tomou o único caminho que conhecia, que era ficar. Apaziguou a relação. Aquele lance de seguir em busca do desconhecido não era da sua natureza, como se ele já soubesse que o destino lhe reservara a sobrevivência, por mais simplória que pudesse parecer. E era. 

          O homem se lembrou das palavras ditas por sua finada avó materna, dona Chiquinha, cuja língua, vez ou outra, trilhava certa mordacidade. Era Natal, lá pelos idos de 1980. A parenta estava sentada num canto da sala com Lidiane, filha única de um casamento que se arrastou até que a picada de uma surucucu a fez viúva. Dizem que, ainda no velório, a mulher era só sorrisos. Bem, é sabido que há pessoas que riem de nervoso, se bem que, aqueles que a conheceram, essa possiblidade era, no mínimo, remota, para não dizer impossível. 

          — Lidiane, os homens da nossa família são covardes. E não digo isso da boca pra fora, pois não sou leviana. 

          — Mamãe, como é que a senhora diz uma coisa dessas? E o papai?

          — Hum! Aquele tinha voz de trovão, cara de poucos amigos, virava pra cuspir, limpava a boca com o dorso da mão, arrotava grosso, mas não dava um passo sem me consultar. E o pior de tudo era quando eu dizia que estava tudo bem, que ele poderia ir em frente. Uma mula não empacaria com tamanho fervor. O Orlando era um frouxo, isso sim!

          Ernesto repetiu a frase da dona Chiquinha em frente ao espelho, e ela soou mais verdadeira do que nunca. Na família, a coragem parecia mesmo reservada às mulheres. E foi escorado nessa muleta que ele decidiu não mexer uma palha para mudar de situação. Ficaria ali mesmo.

Nem tanto assim! Uma revoada de ímpeto se aproximou. O sujeito pegou a carteira e, já na calçada, foi em direção ao mercado da esquina. Rosto firme, parou diante do freezer. Lá estava o pote de morango de sempre. Ernesto sorriu com desdém, esticou o braço e, destemido que se sentia, pegou o de abacaxi. 

          Entrou no apartamento, colocou o pote de sorvete sobre a bancada da cozinha. Pegou uma pequena tigela e uma colher. Serviu-se. Puxou uma cadeira e se sentou. Observou aquela quantidade generosa de sorvete até que ela se derreteu por completo. Dona Chiquinha sabia mesmo das coisas.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Ernesto, dona Chiquinha, a surucuru e o sorvete de abacaxi" foi publicado no Notibras no dia 21/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/ernesto-dona-chiquinha-a-surucucu-e-o-sorvete-de-abacaxi/

sexta-feira, 20 de março de 2026

Desespero de mãe

 

      O desespero tomou conta de Alzira. Onde estava a filha? Olhou por todos os cômodos da casa, agachou-se para ver se a menina estava debaixo das camas, abriu as portas dos armários. Nada. Até mesmo a Bebel, a cadela, havia sumido. 

          Desesperada com a situação, a mulher pegou o celular, telefonou para o marido, na esperança de que ele tivesse levado as duas para um passeio no parque. Impossível, Alzira sabia, mas precisava se agarrar àquela falsa esperança. Jorge estava no trabalho, ela havia se despedido dele com o beijo de sempre. 

          — Jorge!

          — Oi, amor! O que houve?

          — Você não vai acreditar!

          — Pois diga, que já estou ficando nervoso.

          Antes que pudesse revelar o motivo da sua aflição, Alzira olhou em direção ao portão de ferro. Lá estavam a pequena Lúcia sentada ao lado da Bebel, como se estivessem trocando confidências, apesar do silêncio aparente. A mão da criança sobre a cachorra, as cabeças se tocando.

          — Jorge, meu amor, você estava certo.

          — Certo? Como assim?

          — A Lúcia não é filha única. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Desespero de mãe" foi publicado no Notibras no dia 20/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/desespero-de-mae/

quinta-feira, 19 de março de 2026

Meras marionetes do destino

     

        A Marluce e eu somos amigas há décadas, que não sou capaz de me lembrar do tempo em que ainda não nos conhecíamos. Sintoma de velha? Que seja! Não ligo mais, como quem mente na maior cara dura. 

            Sei que foi lá pelos idos de 1971, pouca coisa antes ou depois. Época sem aparelho celular, mas que, ao menos, sabíamos onde estava o telefone. Tudo bem que a conta era um horror, o que nos obrigava a dar valor aos encontros reais. Sorte a nossa que morávamos no mesmo prédio, lá na 312 Norte, em Brasília. E foi naquela quadra que passamos boa parte da juventude, criamos nossos filhos, que, quando deu a época da revoada, foram viver suas vidas longe do ninho. 

            Mais de meio século depois, já não nos vemos com frequência. Eu me mudei para João Pessoa, enquanto Marluce permanece na capital do país. Não mais na 312, não mais na Asa Norte, foi morar no Lago Sul, área de gente endinheirada. Viúva do primeiro marido, o querido Zé Carlos, casou-se com um cardiologista. E, apesar da distância, nossas conversas diárias são quase sagradas. Geralmente no final da tarde, ela em frente à piscina, eu diante da praia de Cabo Branco. 

            Ontem mesmo, distraída que sou, enquanto procurava meu celular, eis que topei o mindinho no pé do sofá. As lágrimas ameaçaram escorrer, mas consegui retê-las a tempo de salvar a maquiagem. O maldito, acredite, estava escondido debaixo das almofadas. 

            — Solange, você precisa ter cuidado. Poderia ter quebrado o pé.

            — Menina, mas como doeu! Cheguei a ver estrelas, e olha que o dia estava claro ainda. Mas me conta, como é a vida de rica? Você e o Edgar tomam champanhe todos os dias na piscina?

            Obviamente que disse aquilo para escutar a reação da Marluce, cuja gargalhada sempre teve a capacidade de transformar até velório em baile de carnaval. 

            — Seria um sonho, Solange, mas o Edgar passa mais tempo no hospital e na clínica do que em casa. E olha que o Augusto, o filho mais velho dele, que também é médico, fala pro pai se aposentar ou, no mínimo, tirar férias prolongadas. Mas que nada, minha amiga, o Edgar, se parar de trabalhar, enfarta no dia seguinte. 

            Passamos quase duas horas ao telefone. É que o assunto não acaba e, se a gente deixar, a conversa vai até a orelha doer. Digo que, aqui em casa, o Arnaldo não dá um passo sem me consultar. E não pense você que gosto dessa coisa da esposa controlar o marido. É questão de dependência, como se ele nem percebesse que o costume do cachimbo entorta o queixo. Capaz do meu esposo estranhar se eu tentar ajeitar os seus lábios tombados. 

            Arnaldo e eu, de vez em quando, inventamos de fazer planos. Quase sempre é aquela bagaceira, nada sai do jeito que planejamos. Mas está tudo bem, vida de velho tem lá dessas coisas. Tomamos outros rumos, a vida da gente, apesar das mudanças, continua a mesma. E o tempo não espera para escutar lamúrias. 

            Não temos controle sobre nossa vida. Não me esquivo de confessar que, ainda na juventude, acreditava que eu era a dona do próprio destino. Entretanto, há tempos percebi que somos meras marionetes. 

            Tenho consciência de que tem gente com pouca sorte, cujos caminhos são repletos de pedras, espinhos, lama. Se vivi o pão que o Diabo amassou? Não sou hipócrita a esse ponto. A vida me reservou, vez ou outra, algumas boas colheradas de doce de leite. Não à toa, meu apartamento dá de frente para a praia de Cabo Branco.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Meras marionetes do destino" foi publicado no Notibras no dia 19/3/2026.
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quarta-feira, 18 de março de 2026

Verdades que parecem mentiras

         Getúlio andava com a pulga atrás da orelha, desconfiado de Laís, a noiva de feições faceiras e curvas de parar o trânsito. Talvez fosse apenas impressão ou, ao menos, era isso que dona Felícia, a quase sogra, tentava incutir na mente do sujeito. 

            — Mas, dona Felícia, a senhora tem certeza?

            — Getúlio, meu rapaz, você acha que uma filha consegue esconder alguma coisa da mãe?

            — Bem... Ela mentiu pra mim, e não foi só uma vez.

          Dona Felícia se espichou que nem girafa, lançou sobre o jovem aquele olhar de coruja ressabiada, rodeou-o por duas, três vezes, enquanto Getúlio começou a esperar por um ataque pelas costas. Do nada, a mulher saiu da sala, foi até a cozinha. O homem não entendeu tal atitude, talvez ele tivesse dito coisa que não devia.

        Os minutos seguintes duraram uma eternidade, apesar de, na conta do relógio na parede, não tenham chegado à meia hora. De repente, lá estava a anfitriã, café e bolinhos de chuva em uma bandeja de plástico simples, porém honesto. Ela ajeitou o lanche da tarde sobre a mesa e, logo em seguida, ordenou.

          — Venha se sentar.

        Getúlio nem titubeou. Era homem de enfrentar qualquer um, até cachorro bravo se fosse necessário. Todavia, a coragem se acanhava diante daquela mulher.

        — O café tá do seu agrado?

        — Tá sim, senhora.

        — E os bolinhos?

        — Os melhores que já provei.

        Dona Felícia pareceu satisfeita, apesar de não acreditar por completo nas respostas. Seja como for, regozijou-se por dentro sem deixar transparecer os sentimentos para o futuro genro. De súbito, a dona da casa, dedo em riste, ergueu a voz.

      — Pois vou lhe dizer uma coisa muito séria!

      Getúlio, olhos do tamanho de jabuticaba madura, ficou diante da mulher aguardando a grande explicação, que acabou por deixá-lo ainda mais confuso.

        — A Laís não mentiu porque simplesmente nunca aprendeu a mentir. Ela é moça direita, que você precisa confiar. A minha filha só sabe dizer verdades, mesmo aquelas que ainda não chegaram a acontecer.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Verdades que parecem mentiras" foi publicado no Notibras no dia 18/3/2026.
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terça-feira, 17 de março de 2026

Os roteiristas sem futuro

 

        Durvalino e Heládio preferiam a corda bamba à estabilidade de um emprego em alguma repartição pública ou no Banco do Brasil. Por conta disso, os tempos de vacas magras eram quase perenes, caso não fosse por um ganho aqui, outro ali, que, em vez de fazerem os sujeitos firmarem os pés no chão, pior, eram motivos para manter aquelas mentes nas nuvens. 

     Roteiristas de cinema, os dois jamais conseguiram vender suas ideias para um produtor ou um diretor. O teatro era algo mais palpável e, vez ou outra, emplacavam uma peça, a maioria encenada ao ar livre. Não havia ingressos e, por isso, o chapéu corria para colher os parcos níqueis, que mal davam para o café e o pão na chapa. Dessa forma, precisavam dar seus pulos para não morrerem de fome.

          Durvalino, década e meia mais jovem, era o mais ajuizado da dupla. Não que fosse um poço de responsabilidade, mas estava longe de ser doidivanas que nem o companheiro. Da mãe, herdara a candura e o apetite; do pai, nada além das dívidas e sonhos. 

         Heládio, aos que não o conheciam, até poderia passar por alguém com a sanidade intacta. Todavia, bastavam alguns minutos para que constatassem que se tratava de um caso perdido. Sorriso franco até demais, olhos oblíquos que pareciam buscar algo além da vista da maioria. As ideias mais esdrúxulas saíam da sua mente descontrolada e, pasmem, encontravam respaldo no Durvalino, que não se contentava em apenas acenar positivamente com a cabeça.

             — Heládio, tu é um gênio!

             — Tu acha mesmo?

             — E isso importa?

         E assim nasciam os enredos, por mais sem pé nem cabeça que fossem, da dupla. Entre tantos, houve o improvável caso da abóbora apaixonada por um melão. Mas eis que, por mais doida que fosse a história, essa até deu caldo. Foi um relativo sucesso, ainda mais se levarmos em conta os inúmeros fracassos de moedas depositados no chapéu das peças anteriores. Sem mencionar que rolou mesmo um clima entre os atores, Ludmila/abóbora e João Carlos/melão. Não chegaram a se casar, mas o romance foi inspiração para Durvalino e Heládio para outros roteiros.

            — Heládio, tu sabia que o sobrenome do João Carlos é Cordeiro?

            — Não sabia. E o que tem isso?

            — Não teria nada se o sobrenome da Ludmila não fosse Lobo.

            — Tu tá de brincadeira! 

            — Tô não!

            A nova trama envolveria uma loba gamada por um cordeiro. E tudo parecia se encaminhar para mais um sucesso de chapéu repleto do vil metal, mas o projeto não prosperou. Não por causa do roteiro, que não era dos piores. No caso em questão, foi incompatibilidade dos artistas, já que Ludmila havia se envolvido com Lúcio Raposo, enquanto João Carlos andava de asa caída para o lado de uma tal Camila, que era Pinto. 

            — Heládio, creio que desse mato não sai coelho.

            — Pois é, Durvalino... Se bem que quem não tem cachorro caça com gato.

            Dizem que, até hoje, as ideias não param de chegar, por mais absurdas que sejam. Seja como for, Durvalino não descarta a parceria, e nem é por causa da amizade, que vez ou outra fica abalada. A questão é outra, como ele adora dizer: "A gente ganha quase nada, é verdade, mas se diverte pra caramba!"     

  • Nota de esclarecimento: O conto "Os roteiristas sem futuro" foi publicado no Notibras no dia 17/3/2026.
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segunda-feira, 16 de março de 2026

Da sarjeta ao infinito

            

         Adilson, nascido entre tantos desvalidos, precisou brigar por cada migalha do pão que o Diabo amassou. Durante o percurso, foi testemunha de inúmeras vidas invisíveis, como se a sarjeta fosse um manto que as encobrisse da visão da sociedade. Procurou manter os olhos e pensamento longe, como se aquilo não existisse ou, ao menos, ele não pertencesse àquele meio.

            Como barata que tenta desviar das solas impiedosas, enquanto tantos foram esmagados, Adilson conseguiu sobreviver, apesar das cicatrizes profundas. De patinho feio, continuou pato e feio, muito longe de se transformar em um belo cisne. No entanto, passou a olhar com desdém os que caíam ao seu lado, como se aqueles seres não fossem dignos do ar que, disparatadamente, continuavam a respirar.

            Ele era diferente, soava diferente, cheirava melhor, sorria dentes mais bonitos, vestia-se com mais apuro. Definitivamente, Adilson nascera para brilhar. Não tardou, conquistou o improvável posto de encarregado em uma grande loja de departamentos. Não que aquilo fosse algo que o elevasse a uma categoria de destaque, mas foi o suficiente para retirá-lo, ao menos aos seus olhos, daquele submundo.

             Adilson, a partir daquele momento, foi tomado de um sentimento de superioridade. Não só deixou de cumprimentar os conhecidos, como os ignorava. Rude até, chegava a insultá-los. E foi por uma bobagem, alguém poderia dizer, que a transformação definitiva aconteceu. Sua mãe, dona Leopoldina, cuja artrite a castigava há tempos, pediu para que o rapazola lavasse a louça, que estava acumulada há dois dias.

            — Lave a senhora, que tenho coisa mais urgente pra fazer. 

         Quem o visse, sabia que Adilson não era rico. Fingia, mesmo que mal, ser rico. Todavia, tinha o sabor de um.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Da sarjet ao infinito" foi publicado no Notibras no dia 16/3/2026.
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