sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Josias, o afeito a caraminholas

     

        Josias era afeito a caraminholas, como se a verdade lhe provocasse urticária. Um tipo desprezível e, conforme a conveniência, engraçado e até útil. E, talvez por isso, havia quem o defendia, e não era a mãe, que parecia estar com a paciência exaurida das lorotas do filho. Acredite ou não, dona Leiloca, casada com o seu Humberto, ficava encantada com a presença do gajo no seu comércio, um botequim incrustado no agito de Taguatinga, cidade que pulsa cheiro de povo no Distrito Federal.

   Certa feita, que não foi ontem nem anteontem, mas alguns dias antes do carnaval de um ano qualquer, lá estava o Josias sentado à mesa de costume no comércio da dona Leiloca. O gajo bebia o de sempre, uma cerveja acompanhada de meia porção de calabresa acebolada. Mastigava com a paciência de um gato de rua, dava um gole profundo na bebida, cofiava o bigode, retirava um cigarro do bolso da camisa engomada, levava-o ao nariz e aspirava o gosto de nicotina, mas logo guardava o mesmo. Era proibido fumar no ambiente.

    Dona Leiloca, bom mesmo era quando se podia fumar até dentro de centro cirúrgico.

       A mulher voltou os olhos para o cliente e sorriu. No entanto, seu Humberto, que estava no caixa, não resistiu e provocou o contador de histórias.

          — Deixa de conversa, Josias! E quem fumava ali?

          — Ué, o médico!

       — O médico?

       — Sim. E aconteceu quando nasceu meu primeiro filho.

       — Filho? E por acaso tu tem filho, homem?

      Dona Leiloca, que estava doida para ouvir aquele causo, interviu:

      — Humberto, pelo amor de Deus! Deixa o Josias contar, que fiquei curiosa pra conhecer essa história. 

        Obrigado, dona Leiloca. Imagino aqui com meus botões como o mundo seria melhor com mais criaturas elevadas que nem a senhora. 

      Antes de começar a contar o ocorrido, Josias cofiou o bigode e aprumou a voz.

    Bem, era uma noite fria de julho lá em Porto Alegre, quando Dolores, minha amada Dolores... Que Deus a tenha em bom lugar. Pois lá estávamos nós dois debaixo da coberta, quando a bolsa estourou. 

    Foi uma correria danada até o hospital. Bastou chegarmos, colocaram a Dolores, com aquele barrigão sem tamanho, numa maca e a levaram para a sala de cirurgia. Como não sou dos mais valentes, preferi esperar do lado de fora. E era um cigarro atrás do outro. A sorte é que tenho por hábito levar duas carteiras de reserva e uma em uso. Então, estava abastecido mesmo se o parto durasse até de manhã.

       Depois de caminhar quilômetros naquele pequeno corredor e tragar que nem Preto Velho, eis que o cirurgião abriu a porta e me perguntou se eu tinha um cigarro. Lógico que tinha. E foi aí que a coragem me chegou como visita inesperada em hora inapropriada.

         — Se tenho? Doutor, mesmo se não tivesse, corria ali e comprava pro senhor.

         — Pois me dê um, que deixo você ver o seu guri. 

        Acordo firmado, entrei na sala de cirurgia e lá estava a minha Dolores toda sorridente com o nosso piá agarrado no seu peito. E como o moleque sugava. 

        Como trato é trato, peguei um cigarro e o coloquei nos lábios do doutor, que ainda precisava fechar a barriga da Dolores. Era uma tragada, um ponto e uma baforada. E rapidinho não tinha mais tripa de fora. E o médico ainda deu uma queimadinha na beiradinha de um dos pontos que ficou grande além da conta. 

                Terminada a história, Josias deu o último gole na cerveja, pagou a conta e, antes de se despediu, pegou o cigarro no bolso, o levou aos lábios e disse:

        Bem, meus amigos, preciso ir. Não é minha culpa, mas vocês sabem que o cigarro e eu temos uma amizade de décadas e, mesmo sabendo que uma hora um de nós mata o outro, preciso fumar. Até a próxima!

    Mal Josias saiu do recinto, dona Leiloca sorriu e disse para o marido:

    Humberto, o Josias parece até que possui licença poética pra mentir.

          — Que nada! Esse aí mente num minuto o que o Diabo não acompanha um mês no pandeiro.
  • Nota de esclarecimento: O conto "Josias, o afeito a caraminholas" foi publicado no Notibras no dia 6/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/josias-o-afeito-a-caraminholas/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Lembranças de um dia no pátio da escola

A primeira vez que vi o Rogério fiquei impressionado por sua coragem. É que ele estava prestes a enfrentar o Afrânio, justamente o garoto mais forte da escola, e que tinha o costume de ameaçar quem cruzasse o seu caminho. Um valentão. No entanto, um valentão com músculos de verdade.

          Rogério era pequeno, só podia perder, mas não correu do pau. Que apanhasse! Todo mundo apanha um dia. Mas aquilo me soava um tremendo desatino e, pior, ninguém parecia se importar com a surra que o miúdo iria levar. 

          Eu, que mal havia entrado na escola, sabia da fama do Afrânio e, por isso mesmo, o evitava na hora do recreio. Fiquei imaginando o que teria acontecido para que aquele combate desproporcional pudesse se dar. A diferença de tamanho era tanta, que eu, que era bem menor do que o Afrânio, aparentava ter dois ou três anos a mais do que o Rogério, que, depois, soube ter nascido alguns meses antes de mim. 

          Desprovido de bravura para me meter naquela contenda, meus olhos corriam em busca de um adulto. Cadê a diretora Maria Lúcia, cuja pouca paciência com desordem era notória? Nem sinal dos professores Leandro, Elma, Dolores, Lucimara, Henrique, Victor e de outros que não me recordo dos nomes. E os gritos de euforia, de expectativa, que anteviam o massacre que, não tardaria, iria acontecer diante das vistas que se mantinham arregaladas para não perder nem sequer um átimo. 

          Não sei você, mas não suporto ver brigas. É algo que me dói como se fosse eu o que apanha. Não me parece justo, e creio que não é. 

          — Ah, mas ele mereceu! 

          — Ninguém merece. 

          — E quem mandou provocar? Que ficasse quieto!

          — E isso por acaso dá o direito do outro esmurrar o nariz do infeliz?

          — Isso não é problema meu! 

          — O problema é de todos nós.

          — Meu é que não é! E sai da frente, porque não quero perder nem um tabefe, por menor que seja. 

          Mal voltei os olhos para o círculo formado, Afrânio desferiu um murro na cara do pobre Rogério, que caiu sentado. Os olhos vermelhos de ódio pareciam mandar o franzino se erguer. Não tardou, novo soco, agora na barriga, que o fez curvar. Afrânio completou com um murro bem no queixo do moribundo, que, dessa vez, não teve jeito. Caiu desfalecido. 

            O silêncio, de repente, tomou conta do pátio da escola, como se todos se culpassem por aquela situação. Como é que permitiram tamanha covardia? Até o grandalhão pareceu desconcertado com o que acabara de fazer. Imaginei que ele tivesse pensado, mesmo que por mísero segundo, em acudir quem acabara de nocautear. Não o fez. Fugiu, como é próprio dos covardes. 

            Rogério, naquele instante, se transformou no herói improvável de todos ou, pelo menos, de boa parte dos que presenciaram aquele massacre. Senti vontade de ser seu amigo naquele mesmo dia. No entanto, fraco que sempre fui, a iniciativa partiu dele na semana seguinte, quando eu estava sem grupo para um trabalho de matemática.

            — Ei, tudo bem? Sou o Rogério. Vi que você está sem grupo. Quer entrar no nosso.

            — Oi. Quero sim. 

            — Qual é o seu nome?

            — Carlos. 

          Bem, e foi assim que começou a nossa amizade, que dura até hoje. E lá se vão 42 anos. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Lembranças de um dia no pátio da escola" foi publicado no Notibras no dia 5/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/lembrancas-de-um-dia-no-patio-da-escola/

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dona Matilda, a amiga da minha mãe

          Dona Matilda se aproximou de minha mãe assim que a viuvez, por esses acasos da vida, acometeu as duas praticamente ao mesmo tempo. Papai, por AVC, enquanto seu Antônio foi levado por uma virose até hoje inexplicável. Não importa, já que não é possível trazer os mortos de volta à vida depois de enterrados. Seja como for, uma amizade sincera, apesar de tímida a princípio, fez com que as duas mulheres encontrassem conforto mútuo.

        Para quem observa de fora, talvez não entenda como é que duas pessoas tão dissonantes se dão de modo tão harmonioso. Minha mãe nunca estampou as capas dos álbuns de família. Esse lugar era de gente que queria aparecer, como era o caso do tio Paulo e da minha irmã Márcia. Mamãe era a coadjuvante mais honesta que uma estrela poderia querer ao seu lado. E eu entendo que seja esse o motivo de dona Matilda se sentir tão bem no papel que lhe é de direito. 

            As duas regulam em idade, mas não sei ao certo quantos anos a amiga de mamãe desfruta. Talvez dois ou três anos mais velha, se bem que, vez ou outra, a vejo com a aparência de pelo menos oito anos mais jovem. Não duvido que seja devido aos dentes bem-cuidados ou, então, que seja por conta daqueles produtos para pele que ela usa. Não descarto ser o meu olhar de encanto quando a vejo sorrindo aquele sorriso de quem já passou por tantas agruras, mas que prefere manter a altivez a se abater em lamúrias incapazes de mudar o inevitável. 

            Como tenho hábito de visitar mamãe praticamente todos os dias, quase nunca aviso que estou indo. Não que não acredite que ela seja capaz de se virar. É aquela coisa de filha, que se preocupa e também quer passar o máximo de tempo ao lado, ainda mais depois que ela perdeu o marido, meu pai. E, talvez por essas idas rotineiras, nunca imaginei que acabaria descobrindo coisas, no mínimo, esdrúxulas. 

            Como tenho a chave da casa da minha mãe, assim que abri a porta, vi minha mãe e dona Matilda gargalhando na sala, onde pareciam se divertir com o carteado. Elas nem perceberam que eu havia acabado de entrar.

            — Não acredito, Matilda!

            — Pois é tudo verdade, Gilda.

            E as gargalhadas prosseguiram, até que anunciei a minha chegada.

            — Oooooiiiiiiiii!

            — Oi, minha filha! Nem te vi chegar.

            — Olá, Carla!

           Depois dos costumeiros abraços e beijos, procurei me inteirar sobre o porquê daquela alegria toda.

            — Minha filha, pois você acredita que a Matilda é uma ladra?

            — Mamãe, até parece que a senhora nunca escondeu cartas debaixo da mesa.

            — Não estou falando de cartas, mas de bancos. 

            Levei um tempo para concatenar as ideias, até que dona Matilda confirmou com um movimento de cabeça e aquela gargalhada mais franca do que a Zona de Manaus. 

            — É verdade, Carla. Mas isso foi no meu tempo de mocinha. 

            — Gente! Não acredito! E a senhora nunca foi presa?

            — Bem, fui e não fui.

            — Como assim? 

            Foi aí que minha mãe contou que o policial que prendeu a dona Matilda se apaixonou por ela assim que a viu. E, depois dos dois conversarem por quase duas horas, ele decidiu que não iria levá-la para delegacia. Quase seis meses depois, os dois se reencontraram na fila do mesmo banco que dona Matilda havia roubado. 

            — Oi! Por acaso você não vai assaltar este banco novamente, né?!

            — Olá, bonitão! Se você me convidar pra ir ao cinema, mudo de ramo.

            E foi assim que dona Matilda começou a namorar o seu futuro, do qual ela enviuvou quase na mesma época que minha mãe. 

            — Dona Matilta, mas não entendo uma coisa.

            — O que você não entende, Carla?

            — A senhora não tem medo de ser presa?

            — Não. O crime já prescreveu há anos. 

            — Tá, mas por que contou isso pra minha mãe? 

            — É que somos amigas, Carla. E amigas têm lá seus segredos. E esse é um dos nossos.

            — Um dos segredos? Não vai me dizer que a senhora já matou alguém?

            — Não. Nunca matei ninguém.

            — E qual são esses outros segredos, então? Posso saber?

            — Por minha boca, você nunca saberá nem sequer uma vírgula.

            — E por que não, dona Matilda?

            — Eu sei guardar segredo das minhas amigas.

            Olhei para mamãe e dona Matilda, enquanto as duas sorriram.

            — Quer café, minha filha? E esses biscoitos amanteigados que a Matilda trouxe estão saborosíssimos.

            Sem escolha, aceitei o convite. E mamãe não mentiu. Os biscoitos da dona Matilda estavam uma delícia. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Dona Matilda, a amiga da minha mãe" foi publicado por Notibras no dia 4/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/dona-matilda-a-amiga-da-minha-mae/

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Meu marido e seu bom humor insuportável


        Meu marido é do tipo que faz amizade com qualquer um. Não exatamente assim, apesar de possuir um círculo de amigos muito maior do que o meu, que se resume a duas: Carol e Jaque. E olha que nem somos grudentas, do tipo que vive perguntando como as coisas estão, se está tudo bem, se os filhos tiraram boas notas, se vai chover ou fazer sol. Quando queremos falar algo, mandamos mensagens ou telefonamos e, depois, colocamos nossa amizade no modo hibernação até a próximo interlúdio.

          Talvez por conta dessas discrepâncias, sou uma pessoa mais fechada... Não, não é essa palavra que queria dizer, mas meus dedos, não raro, querem me usurpar os pensamentos e, então, aparece algo do tipo "ranzinza", "chata", "indigesta" ou "fechada". Que seja, não é algo que vá me tirar o sono, ainda mais porque sou precavida e tenho meus contatos para conseguir algum tarja preta.

          Doarcídio. Sim, exatamente isso que acabaste de ler. Pois é como o meu amado e afável esposo foi registrado. Dá para acreditar que alguém teve a descortesia de colocar o nome do filho assim? Minha sogra reclama até hoje com o marido, que finge não ser com ele e, quando não tem jeito, põe a culpa no escrevente do cartório. 

          Meu marido, que nunca encontrou um homônimo, diz categoricamente que jamais teve intenção de mudar de nome. E ainda bem que não me veio com a ideia de passar essa herança maldita para um dos nossos filhos. Ia dar divórcio litigioso na certa. 

        A despeito desse nome horrível, Doarcídio é um homem muito atraente. Ih, olha eu aqui fazendo propaganda do meu companheiro. Mas é que o danado é bonito além da conta. Não muito alto, não muito baixo, não muito gordo nem muito magro. Na medida que dá gosto apertar e ficar aninhada no peito não muito cabeludo, não muito pelado. 

          Meu amor é também é muito bem-humorado. Também, com esse nome, o que de pior poderia acontecer na vida do sujeito? Ele acha graça de tudo e nem liga quando alguém diz que o seu nome parece nome de remédio: "Para diarreia, tome duas colheradas de Doarcídio que até o pensamento trava"; "Prisão de ventre? Ah, meu amigo, você devia tomar xarope Doarcídio, que o intestino solta que é uma beleza".

          Se fosse comigo, já mandava o engraçadinho para aquele lugar, sem contar que mencionaria a mãe do infeliz pelo menos umas dez vezes. Comigo não, violão! Todavia, o meu homem nasceu com a tranquilidade de um bicho-preguiça. 

          Nesses dias, lá estávamos eu e o Doarcídio numa loja de eletrodomésticos, quando o vendedor se apresentou e, de maneira educada e profissional, nos mostrou alguns modelos de geladeira. Depois de escolhermos a que queríamos, fomos preencher o cadastro. Nisso, notamos que um casal fazia o mesmo com outro vendedor ao lado. 

          Não tardou, a mulher, assim que ouviu o nosso vendedor falar o nome do meu marido, virou o rosto e fez aquela cara de pré-gargalhada, com as duas mãos na boca. Pior, ela não tirava os olhos do meu marido, como se ele fosse atração de circo só por causa do nome. E eis que, do nada, as gargalhadas provocativas começaram a ecoar por toda a loja. 

          Nem sei se o meu marido percebeu que era ele o motivo daquelas risadas escandalosas. Certamente não ligaria, já que o meu esposo, como já mencionei, é tão tranquilo e de espírito elevado. Todavia, sou da pá virada. 

          — Ô, minha amiga, tá rindo do quê?

          — Doarcídio? É sério que ele se chama assim?

          Fiquei vermelha de ódio e disse o que disse sem pingo de remorso:

          — Melhor Doarcídio do que ter essa sua cara feita que faz pipoca dando susto no milho.

          Por sorte e intervenção dos nossos maridos e dos vendedores, o bate-boca não tomou maiores proporções. Finalizamos a compra e fomos embora. A geladeira chegou no dia seguinte e meu marido, gaiato que nem ele só, colocou nome na nova integrante da família: Geoselma. O motivo? Ah, ele descobriu que era o nome da mulher da contenda.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Meu marido e o seu bom humor insuportável" foi publicado no Notibras no dia 3/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/meu-marido-e-seu-bom-humor-insuportavel/

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Um voo sem volta

        

           Uma das maiores decepções do professor universitário Agnaldo foi ver Luísa, sua única filha, se casar com Fabiano, nos idos de 1969. No entanto, tentou aparentar uma serenidade que não tinha diante de tamanho desgosto. O rapaz era policial civil na capital do país, e os tempos de perseguição política estavam ainda mais acirrados. 

            Agnaldo, apesar de não entrar para o confronto armado, não escondia sua repulsa à Ditadura Militar. E isso, não tardaria, chegaria aos ouvidos de alguém ligado ao governo, ainda mais porque o sujeito morava em Brasília. É bom atentar que a capital, ainda hoje um ovo, naqueles idos era menor do que o de codorna. Todo mundo se conhecia e, os que não diretamente, acabavam se topando na rua ou em algum evento.

            Fabiano, mesmo que de não compactuasse com o sistema vigente, muito menos com o modus operandi de se livrar daqueles que eram contra as atrocidades cometidas pelos que estavam no poder, sabia que não era corajoso a ponto de expor seus pensamentos, ainda mais no ambiente policial. Ali, as pessoas tendiam, quase que por completo, a apoiar o combate do inimigo imaginário do comunismo. E praticamente todos acreditavam nessa ladainha, e aqueles que eram conscientes, não se permitiam a ser contrários ao mantra de que os ditos subversivos queriam fazer do Brasil um país socialista. 

            No ano seguinte, enquanto a Seleção Brasileira distraía parte da população, muitos cidadãos foram caçados pelos militares. Inúmeros desaparecidos, dezenas de emboscadas armadas pelas forças governamentais viravam manchetes como se fossem confrontos com terroristas. Se acontecia com gente graúda que nem Rubens Paiva no ano de 1971, imagine como era a coisa com os anônimos. E entre os desconhecidos do grande público se encontrava Agnaldo Santos Vieira, o nosso Agnaldo, sogro do policial civil Fabiano Pereira.

            Aconteceu em um domingo, quando Brasília se tornava ainda mais deserta. Dois homens abordaram Agnaldo na saída da padaria. Pego de surpresa, o professor deixou cair o saquinho de leite, que, com o impacto na calçada da quadra 312, na Asa Norte, estourou. 

            — Professor, me dá aqui esses pães, antes que eles virem comida de passarinho.

            Agnaldo entregou o saco de papel com seis pães para um dos sujeitos, enquanto o outro lhe apontava um revólver sob a jaqueta. 

              — Melhor não tentar nenhuma gracinha.

                Não era assalto. Agnaldo nunca imaginou que fosse. Pensou na esposa, na filha e no neto, que acabara de nascer. A coragem não era uma das suas virtudes, mas, naquele instante, decidiu enfrentar o inevitável de modo digno. Não pediria clemência, mesmo porque sabia que de nada adiantaria. Manteria a dignidade até quando os nervos lhe permitissem. 

                Agnaldo foi levado para um local, que não conseguiu identificar, pois estava encapuzado. Ficou isolado em uma pequena sala de não mais de 4 metros quadrados. Apesar da tortura psicológica, não apanhou. Quer dizer, tomou dois ou três tapas na cara, o que ele entendeu se tratar de um tratamento diferenciado, haja vista os gritos de dor e horror no ambiente. Cada vez que entrava alguém no cubículo onde ficou, imaginava que iria levar choque, ter as unhas arrancadas, que enfiariam agulhas nos dedos. Por sorte, nada além do que aqueles dois ou três tabefes. 

           Dois dias depois, dois homens apareceram. Não eram os mesmos que o abordaram. Bem menos corpulentos, mas com faces marcadas pela maldade, eles observaram Agnaldo por breve momento, quando um deles disse:

            — Tem medo de viajar de avião, professor?

            — Nunca viajei de avião, senhor.

            — Pois hoje você vai fazer a sua primeira viagem.

            Agnaldo foi conduzido até uma base aérea, onde foi colocado em uma fila de aproximadamente 20 pessoas. Ele observou aqueles rostos assustados e imaginou que seriam levados para um presídio ou algo do tipo. Talvez expulsos do país. A tensão se fazia presente naqueles seres humanos sem voz. 

            Enquanto o grupo aguardava o comando para entrarem na aeronave, eis que um Fusca estacionou a poucos metros. Um homem de um metro e oitenta, cabelos aloirados e bigode desceu do veículo e, passos firmes, foi em direção ao que parecia o comandante daquela operação. Ele mostrou um papel e, após breve diálogo exaltado, o homem do Fusca foi até a fila, puxou Agnaldo pelo braço e sussurrou:

            — Não fale nada, seu Agnaldo. Agora vire-se, que precisou algemar o senhor.

            Cinco minutos depois, já distante da base aérea, Fabiano, enquanto dirigia, libertou o sogro das algemas.

                — O que significa isso tudo?

                — Seu Agnaldo, vamos tirá-lo do país. 

                — O quê? Vamos? Quem?

               — Tenho um amigo que me ajudou a encontrar o senhor. E agora o senhor precisa sair do país. 

                — E a minha mulher? E a minha filha? E o meu neto?

                — Todos vão ficar bem, eu prometo. Mas o senhor precisa sair por um tempo.

                — Tempo? Quanto tempo?

                — Não sei. Pelo menos até as coisas se acalmarem. 

                Agnaldo entendeu que Fabiano, o homem que não queria que se casasse com sua filha, havia lhe salvado de algo muito pior.

                — Eles iriam me torturar?

                — Não.

                — E para onde iriam me levar? E para onde vão levar aquelas pessoas?

                Um silêncio se instalou dentro do Fusca, até que Agnaldo insistiu:

                — Diga, Fabiano! Pra onde?

                — Aquele era o voo da morte.

                — Voo da morte? O que isso significa, Fabiano?

                — Iriam jogá-lo do avião enquanto sobrevoavam o Pantanal.

                — Aquelas pessoas... Precisamos voltar, Fabiano!

                — Não podemos, seu Agnaldo. Não podemos.

             Agnaldo foi retirado do país a salvo. Carregou aquela dor por anos, que o consumiu. Nunca mais voltou ao Brasil. Teve um enfarto no dia 3 de julho de 1974. Ironicamente, quando a Seleção Brasileira tombava diante do Carrossel Holandês por 2 a 0 na Copa do Mundo.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Um voo sem volta" foi publicado no Notibras no dia 2/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/um-voo-sem-volta/