—
Vovó, pizza brasileira ou italiana?
—
Hum! Italiana, óbvio! Brasileiro pensa que pizza é bagunça.
—
Bagunça, vó?
—
Onde já se viu colocar nhoque, estrogonofe, abacaxi? Blasfêmia!
—
Mas banana pode, né, vó?
—
Hum! Heresia!
Apesar de arrotar tradições, Esther costumava colocar um pouco de caldo da
feijoada de domingo sobre uma generosa fatia de pizza no café da manhã do dia
seguinte. Obviamente, a senhora se precavia para não ser vista por
ninguém.
Além da iguaria italiana com o tempero brasileiro, Esther
era apaixonada por futebol. Era torcedora de certo time famoso alvinegro,
afamado por ser o mais tradicional do país. Mas andava triste, ainda mais por
ter iniciado a Copa do Mundo, e a Itália, pela terceira vez consecutiva, estava
de fora.
A parentada até tinha simpatia pela Azzurra, apesar de os
mais velhos ainda se lembrarem com amargor da Tragédia do Sarriá, quando o
Paolo Rossi, que não havia marcado sequer um golzinho, resolveu meter logo três
na Seleção Brasileira. E talvez tenha sido esse trauma que fez com que os
familiares em peso iniciassem aquela provocação contra a idosa.
— Vó, quem sabe em 2030?
— Ih, vovó, talvez o Brasil jogue de azul pra senhora
fingir que é a Itália.
— Dona Esther, que tal uma pizza de farofa?
E aquilo foi irritando a matriarca, que procurou aparentar
certa classe:
— Menos Copa, minha gente, e mais Botafogo.
Boquiabertos, todos olharam para a dona da casa. E, antes
que alguém pudesse dizer algo, eis que a Esther soltou essa:
— Ah, já ia esquecendo.
— Do quê, vó?
— Vão todos à merda!
- Nota de esclarecimento: O conto "Italiana, mas nem tanto" foi publicado no Notibras no dia 20/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/italiana-mas-nem-tanto/








