—
Ninguém aguenta, Eleonora!
— É o
jeito, José. Você bem sabe que sou a última a querer taxa extra.
—
Última? Eleonora, me poupe!
— Não
precisa apelar pra ironia, Márcia. Fale na cara!
— Hum! É
a verdade!
— A sua
verdade, você quer dizer, né, Márcia?
Ernesto,
ao fundo da sala, tentou controlar a língua para não arrumar imbróglios
particulares. Já bastavam os coletivos. Taxa extra. Ele pensou no que poderia
cortar nas despesas. De cara, trocaria o café, uma marca popular. E nada de
almoçar fora. Levaria marmita para o trabalho.
— Então,
meus amigos, o valor vai ser de duzentos e cinquenta e três reais.
—
Dividido em quantas prestações?
— São
dez parcelas de duzentos e cinquenta e três reais, Jorge.
— Não
vai dar.
— O que
não vai dar, Jorge?
— Você
sabe que vivo da aposentadoria, Eleonora?
— Sorte
a sua.
— O quê?
Tá zombando da minha cara?
— E eu,
Jorge, que nunca vou me aposentar? Como é que fico?
Não teve
conversa. A taxa extra foi imposta.
Ernesto
foi um dos últimos a deixar o recinto. Muito burburinho para nada. Leite. Sim,
o homem cortaria também o leite. Há muito não usava fraldas. Leite pra quê? Não
era bebê.
No elevador,
Ernesto ouviu a indignação de Márcia e Lindaura. Vez ou outra, as moradoras
encaravam o sujeito, talvez na esperança de incentivo. Nada! Nem mesmo uma
mísera vogal.
A porta
do elevador se abriu. As mulheres saíram sem se despedir. E, antes que a caixa
de transporte prosseguisse a viagem, Ernesto ouviu parte da conversa, que
parecia se desenrolar pelo corredor.
— A
minha vontade era matar a Eleonora.
—
Márcia!
— E não
é?
— Pois
estou nessa contigo, amiga.
O quê?
Aquilo era sério? Ernesto pareceu estupefato. Que Eleonora era uma crápula, ele
não carregava dúvidas. Que a síndica estava roubando o condomínio, bem, ele não
tinha provas. Se bem que a falta de provas não o incentivava a colocar a mão no
fogo por Eleonora. Mas assassinato? Aí, já era algo que extrapolava qualquer
bom senso.
Abriu a
porta do apartamento ainda atordoado pelo diálogo daquelas mulheres. Loucura.
Ah, certamente palavras cuspidas da boca para fora. Será? Absurdo! Ou não?
Ernesto
pegou o resto de leite da geladeira. Mal deu para uma xícara. Esquentou e fez o
derradeiro pingado até que a furtiva sorte lhe desse as caras
novamente.
O homem
puxou uma das cadeiras da mesa da cozinha e acomodou o fatigado corpo. Duzentos
e cinquenta e três reais. Que afronta! De onde iria tirar tamanha quantia do
seu já minguado orçamento? Voltar a trabalhar era impossível. Com tantas dores
instaladas em cada junta do corpo, acabaria internado. E os remédios? De onde
tiraria dinheiro para pagar os remédios?
Quando
sorveu o primeiro gole, tudo lhe pareceu tão óbvio. E por que não? Sim! Ele se
juntaria a Márcia e Lindaura. Um plano. Eles só precisariam de um plano.
Pensou, pensou, pensou até que a voz lhe saiu mais alta do que o planejado:
— O
elevador!
Ernesto
tapou os lábios, arregalou os olhos e sorriu. O maldito elevador vivia dando
problemas mesmo. Uma fenda entre o elevador e o piso, algo tão corriqueiro. E
lá iria a pobre Eleonora beijar o fundo do poço. Gargalhou.
Levantou-se, foi até a sala, pegou um livro de poesias na estante, A verdade
nos seres, de Daniel Marchi. Esparramou-se no sofá e, entre gargalhadas
abafadas, leu páginas espaçadas. Adormeceu.
No dia
seguinte, Ernesto despertou com o burburinho nos corredores. Vozes nervosas
persistiam. Ele tentou ignorá-las até que a curiosidade o levou a abrir a
porta. Lá estavam José, Ruth e Soraia ruminando palavras. Ernesto colocou
metade do corpo para fora.
— Ei,
José, o que aconteceu? Por que estão tagarelando tão cedo?
— A
Eleonora, Ernesto.
— E o
que tem ela?
— Não
soube?
— Não
soube o quê, José?
— Ela
foi encontrada no fosso do elevador. Pobre mulher, não resistiu.
Ernesto
foi tomado por um misto de culpa e dúvida. Será? Não, ele não teve qualquer
coisa com aquilo. Mas e a Márcia e a Lindaura? Teriam aquelas duas roubado o
seu pensamento? Não, não, não. Essas coisas não acontecem. Não mesmo!
Será?
Naquele mesmo dia, Ernesto encontrou as duas mulheres. Seus olhares se cruzaram. Nada foi dito, porém, os três sentiram que havia um acordo implícito. E o silêncio foi o caminho escolhido por todos.









.jpg)

