Bege, completamente
bege, caso não fosse por um rosado nas faces, o avelã nos olhos e aquele
vermelho um tanto suspeito nos lábios. Cabelos presos em um coque, rosto
levemente inclinado para cima, sorriso mais discreto que o da Monalisa. Ela me
fisgou, como se fosse a versão em porcelana da jovem que fui.
Enquanto
caminhava com a boneca cuidadosamente embrulhada em jornal velho, comecei a
imaginá-la sobre a estante da sala. Quando recebesse alguém, certamente todos
iriam se encantar com a... Precisava de um nome. Mas qual? Adelaide. Não.
Margarete? Hum... Greta. Sim, Greta.
— Que boneca maravilhosa, Rosana.
— Ah, é verdade. A Greta foi presente de um embaixador russo.
— Greta? O nome dessa boneca é Greta?
— Greta Garbo.
— Nossa! Que chique!
Sucesso total carregado de inveja alheia. E a Shirley?
— Rosana, onde você arrumou essa lindeza?
— Ah, mandei trazer de Paris.
— De Paris? Deve ter custado uma fortuna.
— De Paris
sim, minha amiga. Nem queria comprar, mas insistiram tanto.
— Pois nem me fale o preço, que posso cair pra
trás.
— Uma bagatela. Cinco mil reais.
— Cinco mil?
— Barato, né?
— Mulher, por acaso tu tá assaltando banco?
— Já te contaram?
Ah, como seria bom ver a cara daquela metida que não tem onde cair morta.
Dez mil. Não! Quinze. Dezoito mil, setecentos e sessenta e sete reais, fora as
taxas. Aposto que a Shirley iria devorar as próprias entranhas de ódio.
Abri a porta e, antes de entrar, dei uma
boa olhada na sala. Precisaria empurrar um pouco a estante para que a estátua
ficasse bem visível assim que alguém entrasse. Meio metro ou um tanto mais.
Desembrulhei a Greta, passei uma flanela
para tirar a poeira. Com cuidado, a depositei no vão mais alto da estante.
Senti o sorriso percorrer todo o corpo e logo imaginei a Salete com aqueles
olhos arregalados.
— Mulher, que riqueza de boneca!
— Tu acha?
— Lógico que sim, Rosana.
— É bonitinha.
— Bonitinha é apelido, minha filha! Essa boneca
deveria estar num museu.
— Não vendo.
— O quê?
— Não vendo, não dou, não troco, não faço catira. Foi presente do
desembargador.
— Desembargador?
— É.
— E tu agora deu pra andar com esse da alta?
Peguei a toalha e fui tomar banho. Virei o rosto para o chuveiro, que lavou a
minha alma de tanta inveja daquela gente. Exausta, mal me deitei, o sono me
pegou de jeito.
Na manhã seguinte, xícara na mão, contemplei a Greta por praticamente
meia hora até que a urgência do dia a dia me puxou de volta para a vida. E foi
nessa correria que a boneca foi esquecida debaixo de tantos compromissos.
Sexta-feira
passada, ou melhor, já era sábado quando cheguei de mais uma confraternização
com os colegas do Banco do Brasil. Temos o hábito de, acabado o expediente, dar
aquela esticada no Bar do Bosco. Bebi um tanto mais do que de costume, mas nada
que comprometesse a minha sanidade mental.
Girei a maçaneta e dei de cara com a Greta Garbo, que me
sorriu. Acredite! A boneca de porcelana sorriu aquele sorriso de Coringa,
depois girou a cabeça para o lado e, em seguida, me encarou com aqueles olhos
de caramelo.
Se fiquei assustada? Não
digo que sim nem que não, mas algo me fez dar dois ou três passos graúdos para
frente e taquei a mão naquela desgraçada, que se espatifou no chão. Como não
sou de adiar obrigação, peguei a vassoura e a pá de lixo. Juntei os cacos e
joguei na lata do lixo. Pois sim! Na minha casa não, violão!
E foi assim que tudo aconteceu. Estava bêbada? Não nego. Tenho como provar? Não tenho. Vai duvidar?
- Nota de esclarecimento: O conto "Greta, a boneca de porcelana" foi publicado no Notibras no dia 25/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/greta-a-boneca-de-porcelana/










