terça-feira, 19 de maio de 2026

O conselho de dona Letícia

   

Nunca me achei o último biscoito do pacote, prova disso é que nem nos meus áureos tempos, que não consigo me recordar por simplesmente jamais ter desfrutado de algum, me considerei irresistível. E nem sou, incluindo aí a minha amada genitora, dona Letícia, que sempre foi enfática.

            — Olha, Luís Carlos da Silva Martins, estude muito pra não ficar burro.

            — Pode deixar, mamãe, que não irei decepcioná-la.

            — Não estou preocupada comigo, meu filho. Temo que você vá ter um pouquinho de dificuldade pra arranjar namorada.

            Consegui evitar que essa conversa prosseguisse, ainda mais porque não estava disposto a ouvir da minha própria mãe que eu não era o novo Antônio Fagundes. Insegurança, é verdade, típica de gente que evita espelhos para tentar esquecer essa ingrata combinação de genes. E foi assim que decidi seguir o sábio conselho de mamãe. Estudei. Ah, como estudei!

            Quando chegou o vestibular, já estava decidido a ser advogado. E lá fui fazer Direito e, depois de dois anos de formado, consegui emprego em um grande escritório. Trabalhava demais, diversas causas ganhas, inúmeros tapinhas nas costas, bolsos praticamente vazios. 

            O futuro me parecia incongruente com a qualidade do meu trabalho e, por isso, num momento de lucidez, criei coragem, pedi as contas e montei um escritório com um antigo colega de faculdade, o Fausto: Martins & Oliveira Advogados Associados. O começo foi difícil, o faturamento não era tão diferente do que eu ganhava antes, mas a sensação de tomar conta do próprio negócio nos empurrou para o mundo dos tribunais.

            Hoje, olhando para trás, percebo que minha mãe estava certa. Vivo confortavelmente, uso ternos sob medida, faço viagens periódicas para locais que sempre desejei conhecer. Sem coragem e paciência para tratamentos de beleza, há tempos cultivo uma barba, que acredito me torna um tipo misterioso. Entretanto, nem tudo são flores.

            Sexta-feira passada, Fausto e eu fomos a um bar para relaxar depois de mais uma semana de muito trabalho. O meu amigo é um tipo agradável, de certa forma despojado e deveras confiante. Um paquerador de sucesso, eu diria, ainda mais me tendo como referência. E foi com esse charme que ele conseguiu fazer com que duas belas mulheres aceitassem o convite para se sentarem à nossa mesa. 

        Laura, cabelos escuros, olhos castanhos, cílios proeminentes, toda sorridente. Fez questão de se sentar ao lado do Fausto e, vez ou outra, um bebericava no copo do outro. Samanta, sem escolha, sentou-se na única cadeira vazia. Loira, olhos esverdeados, parecia mais interessada na tábua de frios, queijos e azeitonas. E eu ali, querendo buscar coragem em mais um gole de cerveja, tentei puxar assunto.

        — Você não é de falar muito, né?

        — Não com você!

        Ah, se eu fosse o Fagundes!

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Ranhuras do acaso

    

    Mal entrei, aqueles olhos gastos me chamaram a atenção. Adelaide, ainda não a conhecia, me pareceu pura consternação, como se carregasse bagagem além de suas possibilidades. Tive ímpeto de me aproximar, apesar da timidez que me acompanha desde que Lucimara me abandonou por um antigo namorado, que se tornou caso e, então, despidos de qualquer pudor, reataram publicamente. Não quero remoer minhas dores, mas, talvez, apenas colocá-lo a par sobre minha persona desprovida de camuflagens. 

    Maria Adelaide Rodrigues de Almeida, enquanto recolhia pratos e talheres sobre a enorme mesa rústica, percebi naquele instante, era dona de um sexto sentido próprio de animais. Ela voltou o olhar para mim e, sem esboçar ranhuras em sua face, mãos habilidosas, saiu de cena como se fosse malabarista. Acompanhei com os olhos aquela mulher até que ela cruzou o corredor, que, supus, dava para a cozinha. Aguardei-a na certeza de que logo retornaria para pegar o restante dos objetos deixados sobre a mesa, porém me enganei. Uma outra moça e um rapaz terminaram aquele serviço.

    Uma semana depois, encontrei Adelaide na fila do supermercado. Eu carregava uma garrafa de vinho, que pretendia beber sozinho em mais uma noite solitária enquanto assistia a uma das infindáveis séries na televisão. Ela, um pacote de biscoito recheado e uma garrafa de refrigerante barato. Tentei disfarçar, não queria trocar palavras nem com a moça do caixa, quanto mais com alguém praticamente desconhecida. 

     Baixei a cabeça e tentei fixar meu pensamento nos meus pés, praticamente nus, chinelo de dedo, unhas enormes e descuidadas. Por que não damos importância às unhas dos pés? As dos dedões, de tão imundas, pareciam de gente que vive com os pés no chão. Minha vergonha foi interrompida por um toque no ombro.

    — Tu é amigo do seu Ricardo, né!?

    — Desculpe.

    — Tu é amigo do seu Ricardo, me lembro de você.

    — Ricardo?

    — Sim, Ricardo Gouveia.

    — Sim, conheço o Ricardo. E quem é você?

    Adelaide bem que poderia me jogar na cara algum desaforo, me xingar de cínico ou dissimulado. Não, nada disso, mostrou-se polida.

    — Sou a Adelaide, sou empregada do seu Ricardo.

    — Ah, sim! Desculpe, agora que estou me lembrando. Como você está?

    — Tô indo. E você?

    — Indo também.

    O assunto parecia irremediavelmente condenado ao epílogo, quando algo começou a me incomodar. Culpa, meu amigo. E foi esse sentimento que me empurrou para algo que me causou perplexidade.

    — Adelaide, você gosta de vinho?

    — Vinho?

    — É.

    — Sabe que eu nem sei direito. Acho que nunca provei.

    — Quer experimentar? Este aqui é dos bons.

    Gente, de onde saiu aquele convite? Como é que é? Eu, que relutantemente havia saído da minha toca naquele sábado, estava ali, sorriso nos lábios, convidando uma praticamente desconhecida para tomar vinho? O que mais poderia acontecer? Torci para que ela declinasse.

   — Tu tem certeza?

   Aquela era a dica para que eu pudesse inventar uma desculpa, falar que precisava resolver algumas coisas na rua. Faltou-me o de sempre, coragem. 

   — Claro. 

    — Pois vou aceitar o seu convite.

    Não descarto que a mulher percebeu o meu constrangimento com aquela situação. Mesmo assim, fez questão de prosseguir com a pantomima e, sorrindo com os sisos, me desconcertou de vez.

    — Mas como é que tu se chama mesmo?

    — Vicente.

    E foi assim que, duas ou três taças de vinho depois, Adelaide entrou na minha vida.

domingo, 17 de maio de 2026

Sebastiana e o sócio de vida

    

    Sebastiana, tipo que não pede passagem, parecia possuir entendimento amplo sobre a vida. Dos filhos, talvez o mais destoante seja Aldo, que, vez ou outra, se mete em alguma furada. Diziam as más, boas e demais línguas que isso se dá por pura falta de tutano.

    Júlia, Rejane e o pequeno Augusto completavam a cria da mulher, que chegou à capital carregando duas sacolas nas costas, uma criança de cada lado, Rejane no peito e o caçula no bucho, logo após virar viúva por tolices do marido em um boteco na cidade de Jacareacanga, no Pará. Sebastiana não teve tempo de esperar o defunto esfriar, pois soube que havia sido jurada pelo algoz do Alcides, um tal João Caolho. 

      Quando chegou, sem cacife para barganhar, Sebastiana pegou o que deu, um barraco nos fundos de uma quitanda, onde arrumou o suficiente para ela e os seus não morrerem de fome. Acabou se enturmando com o dono do comércio, Juarez, um português com fama de desinteressado por relacionamentos com mulheres, mas afeito a crianças. 

        Para apaziguar o falatório, Juarez propôs casório com a paraense, que só viu vantagens naquilo. Quando um dos dois não tinha companhia, trocavam confidências, inclusive amorosas. A intimidade era tamanha, que os afagos trocados em público não deixavam dúvida sobre o par. 

        Juarez, pai no papel e na vida dos filhos de Sebastiana, pensava em uníssono com a companheira que Aldo precisava de cuidados especiais para não cair em armadilhas. O rapaz, no entanto, preferia escutar os sons da rua aos conselhos de casa. E foi assim que se deixou levar pela lábia dos malandros do bairro.

        Aldo perdeu dinheiro, inclusive o que não tinha, para os espertalhões. Também foi enganado por mulheres, que viam nele a possibilidade de um perfume, uma bolsa ou até um cinema grátis. E essa situação deixava Juarez mal, a ponto de sentir certa culpa por tamanha falta de traquejo do filho com o raciocínio. Todavia, nem todo esse remorso foi capaz de impedi-lo de soltar uma gargalhada quando Sebastiana definiu o rebento em poucas palavras.

        — Sabe, Juarez, no teatro da vida, parece que o papel de trouxa é do nosso Aldo. Que pelo menos venha o Oscar.

sábado, 16 de maio de 2026

A segunda proposta

               

            Romualdo, professor de literatura, ministrava aulas para turmas do Ensino Fundamental e, vez ou outra, para algumas do Ensino Médio. De tão bom profissional, foi sondado para trabalhar em uma faculdade. No entanto, ele precisaria ter no mínimo uma pós-graduação. Que azar! Tão próximo e, ao mesmo tempo, algo impossível.

               — Calma, meu amor, que pra tudo se dá um jeito.

               — Ah, mas neste caso não tem jeito, Lindaura.

               Lindaura era a mulher que Romualdo acabara de conhecer em um churrasco na casa de amigos. Mal trocaram palavras, não precisou, a atração foi poderosa o suficiente para transportá-los para um local, digamos, mais reservado. 

               — Hum... Quando você precisa se apresentar na faculdade?

               — No começo do próximo ano.

               — Daqui a oito meses?

               — Dez. As aulas só começarão em março.

               — Ah, meu amor, dá tempo.

               — O problema é que não tenho grana pra bancar uma pós agora. 

               — Hum! Essa é a parte mais fácil.

               — Não entendi.

               — Peça um empréstimo.

               — E você acha que é fácil assim?

               — Claro que é! Olha, você vai dizer que é professor universitário e...

               — Mas eu não sou!

               — Calma, Romualdo, me deixe explicar.

               — Ok, desculpe.

               — Pois bem, você vai ao banco, vai dizer que é professor universitário, vai mostrar o convite que recebeu. Então, vai pedir um empréstimo para pagar a pós-graduação. O banco não vai deixar de lhe dar o empréstimo. Vai por mim.

               — Tá, entendi. Mas como é que vou pagar isso?

               — Simples. Preste atenção, meu amor. Você paga o que conseguir e, quando não der mais, deixe de pagar.

               — Você quer que o meu nome fique sujo na praça?

               — Calma, Romualdo Pereira da Silva! Você não vai ficar com o nome sujo assim de cara. O banco vai te ligar e pedir um acordo, mas você não vai aceitar. Entendeu?

               — Ué, mas se eu não aceitar, o meu nome vai ficar sujo.

               — Nananinanão! Aí é que entra a esperteza. Depois de mais um tempo, o banco vai te fazer uma segunda proposta, que é sempre melhor. Então, aí você pode pagar, ainda mais porque já vai estar ganhando bem como professor na faculdade.

               — Você tem certeza?

               — Sim! Não tem erro.

               Na manhã seguinte, lá foi o Romualdo fazer o tal empréstimo. Mal pisou na agência, uma funcionária o atendeu. Ele disse o porquê de estar ali, quando a mulher o informou:

               — Olha, seu Romualdo, a gerente geralmente não vem tão cedo, mas hoje, por acaso, ela chegou antes da agência abrir. Vou levar o senhor até ela.

               Romualdo agradeceu e acompanhou a atendente. Quando ele foi apresentado à gerente, tomou um susto. Era a Lindaura, que lhe sorriu.

               O empréstimo foi feito, o professor fez a pós-graduação, mas não conseguiu pagar por completo o empréstimo. Ficou devendo cinco prestações, que foram quitadas após a segunda proposta de acordo, quando já dava aulas na faculdade há quase um ano. 

               Lindaura e Romualdo, apesar das afinidades carnais, sentiram que faltava algo. Ela, que estava separada do marido, mas ainda não divorciada por questões de plano de saúde, teve uma conversa franca com o namorado. Ele, percebendo que a mulher ainda sentia algo pelo esposo, a aconselhou a tentar uma reaproximação. 

              Os anos seguintes foram de muito trabalho e estudos. Romualdo fez mestrado e doutorado, o que lhe trouxe ainda mais prestígio na profissão. Também descobriu um talento adormecido e publicou um livro de poemas, que se tornou coqueluche entre os estudantes antes mesmo do lançamento oficial.

               Na noite de autógrafos, que aconteceu no salão ao lado da biblioteca da universidade, uma pequena multidão aguardava ansiosa pelo autógrafo da celebridade de última hora. Entre tanta gente, estava um homem de meia-idade, coisa mais alta do que a maioria. Ele carregava um exemplar do livro do Romualdo.

               — É um prazer conhecê-lo, professor Romualdo. Há muito ouço falar do senhor. E hoje quero lhe agradecer, além de pedir que faça uma linda dedicatória para a minha esposa.

               — E onde ela está?

               — Infelizmente, ela não pode vir, pois viajou a trabalho. 

               — E qual é o nome dela?

               — Lindaura.

               Romualdo sentiu um frio na barriga, precisou firmar a caneta para a letra não sair trêmula. Antes de devolver o livro ao sujeito, este lhe pediu um abraço. Sem alternativa, o professor se levantou e abraçou Álvaro, o esposo de sua ex-namorada. Ela havia contado ao marido que fora Romualdo que a teria convencido a reatar o casamento. Todavia, parece que omitiu o fato de que os dois tiveram um tórrido romance.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Daniel Marchi, o meu Otto Lara Resende

    

   Já mencionei diversas vezes a minha admiração pelo grande Daniel Marchi, cujas sementes literárias me provocam invejas diversas. Vez ou outra, lá estou eu, diante do espelho ou, na falta de um, dialogando com a consciência: "Por que não pensei nisso?"

   As personagens criadas por Marchi se revelam tão complexas, que as minhas parecem saídas de algum canto já visitado tantas e tantas vezes. E aquela maneira de juntar as palavras, as mesmas que costumo utilizar, mas com cores originais. Coisas que inebriam e que dão vontade de serem relidas assim que o ponto final chega. Ponto final? Que nada! A trama perambula por minha mente durante dias.

    Há muito li O anjo pornográfico, do Ruy Castro, que retrata a vida do escritor Nelson Rodrigues. Soube que ele cultivava certo ciúme em relação ao Otto Lara Resende, dono de textos que eram, aos olhos do Nelson, impecáveis. Se ele queria ser Otto, creio que não, da mesma forma que não desejo ser Daniel Marchi, pois, assim, seria eu a perder a surpresa de mais um conto nas madrugadas.

    — Edu, olha o que acabei de escrever. Veja se presta.

    Essa aí é a mensagem perene que costumo receber do Daniel Marchi, que, para mim, é simplesmente o Dan. Pois é, sou um dos raros privilegiados que possui intimidade suficiente para chamá-lo assim. 

      Tamanha insegurança do meu amigo, confesso, me irritava. Como é que é? O cara é um gênio e fica com esse medo de não ser aprovado por seus leitores? Por falar nisso, acabo de me lembrar de dois sujeitos talentosíssimos que sofriam do mesmo mal: Elvis e Roberto Dinamite.

     Bem, não sei se você sabe, mas a mãe do Dan, a Marilda, é minha madrinha. Aliás, ela e o Celso me batizaram no longínquo ano de 1967. Pois bem, a Marilda é fã do Elvis. E não uma fã comum, mas a maior fanática pelo rapazola de costeletas mais afamado do universo. E, acredite ou não, o cantor de voz rouca e aveludada sempre sofreu de pânico antes de pisar no palco, pois não sabia se o público iria ou não gostar dele. 

     Roberto Dinamite, o maior ídolo da história do Vasco da Gama, por sua vez, dizia que suas pernas bambeavam antes de subir o túnel do Maracanã. Que ficava assim até os minutos iniciais da partida, quando, então, se sentia confortável. Ah, por falar nisso, a Marilda é vascaína, mesmo time do José Seabra (Chefe), enquanto o Celso é Fluminense.

     Outra curiosidade é que Nelson Rodrigues, para quem desconhece, era torcedor do Fluminense. Já o Otto Lara Resende era um dos mais fanáticos botafoguenses. E o que tem isso a ver? Calma, que aí vem um pouco mais de história.

Bem, o Dan nunca escondeu que é tricolor e, nas suas palavras, é um torcedor gourmet do time das Laranjeiras, diferentemente do Celso e do seu filho, o Francisco Filipino, que não conseguem assistir a uma partida do Fluzão sem aferirem a pressão a cada cinco minutos. No meu caso, nascido em Botafogo, tendo também morado em Botafogo, com a avó mais Botafogo do que qualquer coisa, é lógico que sou Botafogo, que nem o Augusto Frederico Schmidt, poeta favorito do Dan. E depois dizem que futebol e literatura não se misturam. Hum!

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Feijão no fogo e bomba na UTI

              Tia Lúcia, esposa do irmão de meu pai, quando no leito de morte, pediu para falar em particular com minha mãe. As duas viviam em intrigas tolas, quase chegaram às vias de fato duas ou três vezes, o que obrigou os familiares a não as convidar para os mesmos eventos.  Nem sei qual foi o estopim dessas intrigas, até porque prefiro manter minha sanidade mental.

             Mamãe, turrona que nem mula, disse que não ia, a despeito das súplicas do meu pai para deixar as mágoas para trás. Ih, não adiantou, como se essa intervenção do marido fosse que nem gasolina na fogueira.

        — Aurélio, logo tu, que deveria estar ao meu lado, me pede uma coisa dessas? Não vou nem que a vaca tussa!

        Papai viu em mim o resquício de esperança para que minha mãe fosse até tia Lúcia para, enfim, aparar as arestas. Covarde para essas coisas, preferi me esquivar.

        — Ah, pai, se a mãe não quer, devemos respeitar a sua vontade.

       — Mas, Alice, a sua tia está nas últimas. O que custa? Isso é questão humanitária.

        Irredutível, mamãe se trancou no quarto e ordenou que ninguém a perturbasse pelos próximos 38 anos. E foi o que fizemos até o início da noite, quando a campainha tocou. Era o tio Juca, marido de tia Lúcia.

            Depois dos beijos e abraços costumeiros, o meu tio, ainda de pé, disse que iria tentar falar com minha mãe. Papai e eu ainda tentamos dissuadi-lo da ideia, mas foi inútil.

            — Meus queridos, não custa nada tentar. O não já temos.

            Enquanto tio Juca foi em direção ao quarto, meu pai e eu nos entreolhamos. Dois toques leves na porta.

            — Salete, sou eu, o Juca.

         Milagrosamente, a porta se abriu, meu tio entrou. Nada de gritos, nem mesmo palavras exaltadas. Quase meia hora depois, minha mãe e tio Juca saem de mãos dadas. Ele, em tom vitorioso, anunciou:

        — A Salete vai conversar com a Lúcia amanhã.

        Papai e eu ali, boquiabertos, não acreditávamos, até que mamãe me arrancou do transe.

        — Alice, só vou se você for comigo!

        É óbvio que fiz cara de espanto, o que não surtiu efeito, que nem dar um peteleco em uma onça para impedir que ela avance. E lá fui eu arrastada por minha mãe para a UTI onde tia Lúcia agonizava seus derradeiros instantes. 

        — Que bom que você veio, Salete.

        — Hum! Diga logo o que você quer, Lúcia, que deixei o feijão no fogo.

        — Te peço perdão.

         O sorriso indiscreto da minha mãe era tão flagrante, que chegou a me incomodar. E foi aí que eu quis apaziguar a situação. Pra quê?

        — Tia Lúcia, tenho certeza de que as coisas entre a senhora e minha mãe estão resolvidas.

        — Não, Alice, não estão. Preciso confessar que algo terrível. A Maria Clara não é sua prima.

        — Como assim, tia?

        — Ela é filha do Aurélio.

        — Do meu pai?

        — Isso mesmo. A Maria Clara é tua irmã.

        Enquanto eu absorvia aquela pancada no estômago, eis que minha mãe tomou a frente.

        — Lúcia, isso não é novidade pra mim. Já sabia disso há tempos. E você, Alice, pode ficar tranquila, que a Maria Clara não é sua irmã, ela é sua prima.

        Tia Lúcia e eu, cada uma mais surpresa do que a outra, contemplávamos aquela face maligna da minha mãe, enquanto ela parecia absorvida pela soberba. Ela saboreou por um instante aquele momento até que, finalmente, revelou algo que me deixou ainda mais perplexa.

        —  Alice, na verdade, você é filha do Juca.

        Enquanto eu estava ali ouvindo toda aquela loucura, deu para perceber que tia Lúcia e minha mãe nunca fariam as pazes. E foi isso que aconteceu, pois minha tia faleceu naquela noite. 

        Se estou bem? Sabe, eu amo o meu tio-pai. Todavia, tenho medo de reuniões da minha família. Pavor dos segredos que provavelmente ainda estão escondidos. Definitivamente, não quero saber de mais nada!

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O torcedor que encurralou Deus

     

         Valdir imaginou que descia a Serra de Petrópolis, tamanho o nevoeiro que tomava conta da estrada. Todavia, caminhava, como se alheio aos perigos que, porventura, estivesse à espreita. O temor não o acompanhava, apesar de nunca ter sido corajoso. De repente, olhos arregalados, estacou ao ouvir uma voz grave.

            — Alto lá, meu amigo!

            Tentou encontrar o dono daquele som, entre barítono e baixo. Tentou afastar a névoa com as mãos. A mesma voz prosseguiu.

            — Alto lá, Valdir!

            — Quem é? Eu te conheço?

            Antes que pudesse ouvir a resposta, a neblina baixou, quando surgiu um homem parrudo, calvo, barba arredonda.

            — Sou Pedro.

            — Pedro?

            — Sim, já fui chamado de Simão.

            — Tu tá querendo me dizer que tu é São Pedro?

            — Sim, Valdir.

            Foi aí que ele percebeu que aquele homem carregava em uma das mãos uma enorme chave.

            — Se tu é mesmo São Pedro, por favor, vá chamar Deus.

            — Deus?

            — Sim, isso mesmo. Ou será que ele anda ocupado demais para receber um dos seus filhos?

            São Pedro coçou o queixo, mediu aquele sujeito petulante de cima a baixo.

            — Agora não dá.

            — Como é que é, meu brother? Agora não dá?

            — Agora não dá!

            — Eu sabia!

            — Sabia o quê?

            — Essa conversa de onipresente é conversa fiada.

            — Dobre essa língua pra falar de Deus!

            — Hum! Aqui vocês também têm Congresso Nacional, ou melhor, Celestial? E, pelo visto, não deve ser fácil negociar com os deputados e senadores.

            — É óbvio que não!

            — Hum... Quer dizer, então, que Deus é o mandachuva por aqui?

            — Daqui e de todo o universo.

            — Então, por obséquio, quero ter um dedo de prosa com Ele. Pode ser ou tá difícil?

            — Ah, Valdir, entre e se acomode naquela cadeira ali.

            Valdir olhou para trás e, mesmo desconfiado, entrou no Reino dos Céus e se sentou na cadeira indicada por São Pedro. 

            — Ele vai demorar?

            — Ele quem?

            — Ué, Deus!

            Sem alternativa e com ânimo de encher o fanfarrão de sopapos, São Pedro ouviu uma voz ainda mais grave do que a sua: 

            — Calma, Pedro, olha o coração. 

            Era Deus, que se aproximava a passos largos. Em seguida, a Divindade se postou diante do Valdir, que logo o reconheceu.

            — Tu é Deus, né!?

            — Sim, meu filho. O que você deseja saber?

            — Ué, Tu não é onisciente?

            — Me pegou! Pois bem, sou, mas de vez em quando gosto que meus filhos me surpreendam.

            Valdir observou as expressões de Deus, talvez tentando encontrar um vacilo. Nada. Deus parecia sincero.

            — Vejo que você teve uma vida dura lá embaixo. Sei que, de vez em quando, perco a mão e permito que alguns dos meus filhos sofram além da conta. Você nasceu em Caxias, terra de Gonçalves Dias, foi entregue pelas mãos de sua mãe a uma tia, que o levou de navio para o Rio de Janeiro. Cresceu longe dos seus, chorava todas as noites, até que a dor passou a ser a sua melhor companhia. Casou, teve um filho, depois sua mãe ficou doente, o que a consciência o obrigou a fazer a viagem de volta para sua terra natal. Enquanto cuidava de sua mãe, soube que sua esposa o traiu com outro homem. Abandonado, acabou se envolvendo com uma moça, com quem teve um filho, mas que só assumiu depois de mais de 40 anos. Também conheceu outra mulher em Caxias, com quem se casou, teve três filhos, enfrentou a pobreza com dignidade, foi para Brasília tentar a sorte. Teve o azar de ter câncer por duas vezes. Arrancou da própria carne, passou por tratamentos que o enfraqueceram. Resiliente, a dor continuou ao seu lado, até que ontem respirou pela última vez. Longe da família, a dor finalmente o deixou em paz. E agora está aqui comigo, meu filho.

    Valdir escutou o resumo de sua existência na Terra, mas algo o incomodava. Deus percebeu o olhar distante do sujeito e, então, tocou-lhe o ombro.

    — O que foi, meu filho?

    — E o Vasco?

    — O Vasco?

    — É, Deus, e o Vasco?

    — Bem, Valdir, o Vasco continua lá em São Januário.

    — Hum! Mas estamos sem o Roberto há um tempinho.

    — O Dinamite?

    — E tem outro?

    — Não. Você tem razão. Até tentei fazer outro, mas perdi a forma. Deve estar embaixo daquela pilha ali de pernas de pau. Uma hora acho!

    — Tu é Vasco, Deus?

    — Bem, você sabe, né? Não posso falar assim de bate-pronto...

    — Num acredito nisso, Deus!

    — Não acredita no quê, meu filho?

    — Tu vai ficar mesmo no muro? Pois diga logo que é Botafogo, Flamengo, Fluminense, Palmeiras ou Corinthians.

    — Olha, Valdir, até que criei um tal Anjo das Pernas Tortas aí, que era a Alegria do Povo... Bem, confesso que fiquei tentado a ser torcedor do Botafogo, mas não sucumbi.

    — Tu é Vasco?

    — Sim. Bem, quer dizer...

    Valdir, quase se decepcionando com Deus, segurou o choro, quando Ele, com aquele vozeirão emprestado do Cauby Peixoto, protestou.

    — Vasco, não! Vascão!!!

terça-feira, 12 de maio de 2026

As filhas da dona Lourdes

   

      Minha mãe, dona Lourdes, era muito vaidosa. Creio que Fátima, minha irmã mais velha, seja a que herdou essa característica com mais ardor, se bem que Lorena, a caçula, não fica muito atrás. Diria que sou a menos adepta a banhos de loja, passo um batom e olhe lá. Isso, aliás, me rendia várias broncas.

        — Joana, minha filha, por favor, por que você não passa uma maquiagem?

        — Ah, mamãe, não gosto.

        — Hum! Desse jeito, você nunca vai arrumar marido.

        Pois é, mamãe pensava que não, mas namorei bastante na juventude, me casei aos 32, tive até alguns casos, dois ou três um tanto tórridos, quando pensei até em separação. E tudo isso de cara limpa. Imagina, então, se eu inventasse de pintar o rosto. 

        Creio que a minha vida amorosa não chegou aos ouvidos da dona Lourdes ou, caso tenha chegado, ela preferiu manter a compostura. Lorena, por sua vez, uma vez me abordou como se fosse a senhora moralidade.

        — Joana, tu tá saindo com o marido da Shirley?

        — Ih, mulher, me erra!

        — Tá ou não tá?

        — Tu virou minha mãe agora? Quer me dar lição de moral? Vá procurar saber onde o seu marido tá, mulher.

        — Olha como fala do Cláudio!

        Se a Fátima não tivesse intervindo, a minha mão, não tardaria, retiraria metade do blush da cara da minha querida irmã mais nova. Mamãe, que naquele tempo já havia sido desacreditada pelos médicos, encarava de forma honesta o estado terminal de câncer de mama. Lutou por anos, e nós três procuramos ficar ao seu lado até os últimos momentos.

        Dona Lourdes, apesar de ciente do fim que se aproximava, fazia questão de se manter impecável. Minhas irmãs e eu revezávamos nos cuidados, inclusive de beleza, que mamãe fazia questão de não abrir mão. Certa vez, tentamos retirar a sua dentadura para que ela dormisse melhor, mas minha mãe resistiu, fechou a boca. 

          Alguns dias depois, mamãe sucumbiu à doença. Fátima, Lorena e eu escolhemos um vestido florido, o preferido de nossa mãe. Os cabelos, antes volumosos, estavam ralos, o que fez dona Lourdes nos obrigar a comprar uma bela peruca de fios naturais. Também a maquiamos, ela ficou linda. E assim mamãe foi enterrada. Com a dentadura.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Poesia interrompida

    Era um plantão tranquilo, tanto é que a equipe decidiu dividir os policiais em turnos para o atendimento no balcão, que, àquela hora da madrugada, era nenhum. Tentei apaziguar o tédio com a leitura de poesias, mas o telefone tocou. Minha mente dizia que deveria ser alguém incomodado com o barulho provocado por um vizinho barulhento ou, então, querendo saber se um parente estaria preso. Estava errada.

    — 34ª Delegacia de Polícia, agente Agatha Poirot, boa noite.

    — Boa noite. Preciso informar um feminicídio.

    Pois é, nada de vizinhos inconvenientes ou alguém que quisesse saber se o filho, o marido ou um primo estava atrás das grades. A comunicante, que se identificou como Luciana, 16 anos, disse que o autor havia fugido.

    — Mas você presenciou o feminicídio?

    — Não.

    — Alguém viu?

    — Não.

    — E como você sabe que foi um feminicídio?

    — A minha mãe está morta, e foi o meu pai que a esfaqueou.

    Depois de pegar as informações necessárias, acordei a equipe e comuniquei o fato ao delegado Rupereta. Ele determinou que o agente Jean Paul e eu fôssemos até o local, um luxuoso condomínio. Ao chegarmos, fomos recebidos por Luciana, cuja expressão blasé me causou certo desconforto. No canto, um rapaz, sentado no meio-fio, chorava copiosamente. Alguns anos mais velho, soube que era o outro filho da vítima. 

      Luciana nos levou até o andar de cima, onde estava o corpo de Mirian 41 anos. Vestida com uma camisola, caso não fosse por um filete de sangue entre os seios, alguém poderia dizer que estivesse dormindo e, não duvido, sonhando com algum lugar tranquilo, um riacho, uma mata, cantos de passarinhos, talvez até com o Paraíso. 

        Jean Paul puxou o ar de modo que pude sentir que, de alguma forma, ele carregava resquício de culpa. Meu colega é um sujeito decente, não sabe exatamente o que nós mulheres sentimos, porém duvido que seria capaz de algo do tipo. Ele me olhou por alguns instantes, como se querendo dizer algo, depois baixou os olhos. 

            — Jean, o Dr. Rupereta pediu para um de nós levar a Luciana para ser ouvida. Melhor ir você, vou ficar aqui aguardando a perícia.

                Os peritos chegaram após quase uma hora, momento em que desci e me dirigi à entrada da propriedade. Lá estava o filho de Mirian, encolhido, como se não acreditasse naquela situação. Quanto sofrimento.

               Perto do amanhecer, os pais, a irmã e o irmão da vítima chegaram. Enquanto o senhor se mantinha firme, os três choraram abraçados ao rapaz, que continuava sentado no meio-fio ao lado do portão da mansão. O idoso, alto, esguio, bigode aparado, aparentava algo entre 75 e 80 anos. Ele se aproximou de mim.

            — É difícil.

            Com um gesto de cabeça, lábios apertados, concordei. Ele prosseguiu.

        — E eu preciso me manter firme. Alguém precisa segurar o leme. Do contrário, minha família não passará por essa tempestade.

         Luiz, esse era o nome daquele homem, ficou ali, de pé, ao meu lado, sentindo o desespero dos seus, sem poder demonstrar. O silêncio, aprendi naquele momento, pode ser mais doloroso do que qualquer som produzido por nossa garganta. Foi quando a viatura chegou, a porta do passageiro se abriu, Luciana desceu. Ela caminhou em minha direção, quando a tia foi ao seu encontro. A poucos passos, a adolescente desabou nos braços da parenta e urrou como um animal que acabara de perder tudo. Meus olhos se encheram de lágrimas, fui para o lado do muro e chorei. 

            Saí do plantão naquela manhã com parcela de dor daquela gente. Já no meu apartamento, entrei debaixo do chuveiro, como se desejasse que a água levasse embora toda aquela tragédia. Quando já era perto do meio-dia, Jean Paul me ligou.

                — Você tá sabendo?

                — O quê?

                — O marido daquela mulher de hoje se matou.

                — Não.

                Nem tive curiosidade de saber como o cretino havia tirado a própria vida, o que não impediu que meu colega me revelasse.

                — Agatha, você acredita que o cara estava na estrada e jogou o carro na frente de um caminhão? E o desgraçado, além de morrer, acabou matando o motorista do caminhão.

                Por que essas coisas acontecem? Bem, creio que todos sabemos, mesmo que, não raro, prefiramos fingir. Isso ocorreu há tantos anos, mas ainda hoje o rosto daquela quase menina, antes gélido, depois puro vulcão, não me sai da mente. E a dúvida, a dúvida se aquele homem teve a sua hora de chorar.

domingo, 10 de maio de 2026

O peso de uma escolha

     

 Minha mãe tem certas coisas que é melhor nem discutir, como se fosse déspota ciente do próprio esclarecimento sobre tudo. E não pense você que não tentei alguns argumentos, tolos, como ela se refere aos meus e do Rômulo, o caçula.

    — Sexta vocês vão pra fazenda.

    — Mas, mãe, o aniversário do Marcos é no sábado. Já combinei de ir.

    — Pois vá no do próximo ano, que nem sei se seu avô vai estar vivo até lá.

    — Mas, mãe!

    — Maria Lúcia, a conversa acabou aqui. Agora vá arrumar seu quarto, que não sou sua empregada. 

      Assim que virei as costas, ouvi minha mãe perguntando se o Rômulo queria falar alguma coisa. É óbvio que não, ainda mais depois do que ele acabara de presenciar. Tola fui eu de ainda querer bater de frente com a ditadora da nossa casa. Nossa?

        Não teve jeito, acabei inventando uma desculpa para o Marcos, com quem estava muito a fim de dar uns beijos e, dependendo da química, engatar um namoro. Que gato! Aqueles cabelos que não param quietos, sempre obrigando o lindão a tirá-los dos olhos. Ah, e que olhos são aqueles? De tão grandes, os cílios parecem querer me tocar sempre que me aproximo. 

        — Ah, Marcos, não vai dar. Meu avô tá pra morrer, os médicos já o desenganaram, minha mãe disse que precisamos ir visitá-lo antes de... Você sabe, né?

        — Sim, gata! É claro que entendo. Sua mãe está certa. A gente se vê.

        Como não dava para fugir de casa naquele final de semana, lá fomos meu irmão e eu, de ônibus, até Padre Bernardo. Descemos antes a poucos quilômetros antes da cidade, próximo a uma estrada de chão, onde vovô já estava nos esperando em sua velha camionete azul. Rômulo e eu corremos para abraçá-lo e, naquele momento, era como se o Marcos deixasse de ser prioridade. Além do mais, como ele havia me dito, "A gente se vê".

        Depois dos beijos, abraços e palavras típicas de avô quando passa alguns dias sem ver os netos - "Nossa, como vocês cresceram!", "Vocês têm certeza de que são mesmo os filhos da minha filha? Estão tão grandes!”, "Maria Lúcia, não conte pra sua mãe, mas você está mais linda do que ela na sua idade" - lá fomos nós a caminho da fazenda. 

        Mal chegamos, foi aquela sensação de que, de algum modo, eu pertencia àquele lugar. Lembranças da minha infância querendo ir várias vezes até o galinheiro para saber se havia mais algum ovo para recolher. Nesse tempo vovó ainda estava conosco, e era com ela que passava a maior parte do tempo. Contadora de histórias, algumas de assombração, me fazia dormir abraçada ao meu irmão, mesmo ele sendo ainda praticamente um bebê. O que o Rômulo poderia fazer para me proteger de monstros assustadores? Jogar uma fralda suja neles? Ah, vovó, quanta saudade!

        Meu avô ficou desolado. Não deve ser fácil ficar viúvo, mas ele continuou, como se querendo preservar a memória da esposa. Mais de 50 anos de casamento. Cinquenta, algo que terei daqui a... Nunca fui muito boa em fazer contas de cabeça, mas sei que precisaria de mais mãos para contar. 

            No final de semana descobri algo que imaginava ser só minha avó que sabia fazer, que é contar histórias. Vovô, por trás daquele bigode de homem bravo, nos contou várias coisas da sua infância. Antes era difícil me fazer acreditar que gente velha já foi criança um dia, mas hoje é mais fácil, ainda mais quando percebo tantas mudanças que aconteceram comigo nos últimos meses. 

                Uma das coisas que meu avô me contou foi quando ele se embrenhou em uma mata fechada com o Tigre, seu pequeno vira-lata caramelo com branco. Ele disse que estava com mais ou menos oito anos e gostava de se sentar na mata para escutar passarinhos. 

            — Vô, mas o senhor não tinha medo de cobra?

            Esse aí foi o Rômulo, que não consegue ouvir uma história sem encher o contador de perguntas.

            — Tem que manter os olhos bem abertos e não mexer com as cobras, que elas não saem correndo atrás da gente.

            Vovô é um amor, né? Se fosse tio Cláudio, já respondia que era só levar um facão para cortar o bicho ao meio. Porém meu avô é pura gentileza, o que me faz sentir que vovó ainda está por aqui. 

                Naquele dia, meu avô e o Tigre se embrenharam muito fundo no mato, foram parar em um local cheio de pássaros, os cantos inebriantes. Quando os dois perceberam, já era fim de tarde, quase noitinha. E lá foi o Rômulo encher nosso avô de perguntas.

                — Vô, e como vocês voltaram?

                — Voltando.

                — Usaram o GPS, né?!

               — GPS? Não, Rômulo. Naquele tempo não tinha GPS, mas eu tinha o Tigre, que era mais confiável do que qualquer GPS.

                Eu queria ter conhecido o Tigre. Pena que não tem nenhuma fotografia dele, mas consigo imaginar como aquele cachorrinho era, de tanto meu avô me contar. Hoje em dia, tem a Lara, uma mestiça caramelo com branco. Ela não é tão miúda como imagino que tenha sido o Tigre, mas é bem esperta. Será que é parente do Tigre? Vai ver é tataraneta dele.

            Rômulo e eu voltamos para Brasília no domingo. Vovô nos levou até o ponto do ônibus. Que vontade de voltar logo para lá, mas a escola me aguardava. E o Marcos também, era o que eu imaginava.

                Na segunda-feira, tive o que minha mãe me disse ser a primeira desilusão amorosa. Você acredita que o Marcos estava de mãos dada com a Larissa, a minha melhor amiga? Amiga?

sábado, 9 de maio de 2026

A terceira mulher

   

       Entre tantos sapos, percebi que os príncipes nunca tiveram coragem ou disposição para sair das páginas das fábulas, que minha avó insistia em nos contar antes de nos colocar para dormir.  Nem sei se cheguei a sonhar com tais histórias, talvez a realidade fosse meu destino e, assim, casei-me aos 28 com Ângelo, algo do tipo entre comum e medíocre.

        Meu marido colecionava selos e nunca me levantou a voz. Até digo que cumpriu com certa competência o papel que todos esperavam dele. Bom provedor, misto de pai carinhoso e austero, amante divertido quando se deixava trair por uma ou duas taças de vinho aos domingos, momentos em que, por engano, me chamava de Laura e, nos anos seguintes, de Márcia. Não sei se alguma vez ele se deu conta da gafe, e não seria eu a estragar aqueles instantes por coisa pequena.

        Não fui atrás para saber quem eram aquelas mulheres. O que eu ganharia? A pecha de esposa traída, louca, de alguém que desconhecia a natureza dos homens? Não daria esse gostinho para ninguém e, não duvido, minha sogra diria que a culpa era minha, que não sabia segurar o esposo. Isso como se o marido dela fosse o modelo de castidade fora de casa.

            Apesar de não ir atrás, conheci a tal Laura pouco depois do que supus ter sido o término do seu caso com Ângelo. Bonita, regulava em idade comigo. Tive a nítida impressão de Laura me observar com certa inveja, eu era a esposa, a cama para onde Ângelo retornava todas as noites, mesmo que para deitar ao lado e fingir cansaço. Será que sentia ódio da outra, que, mais jovem, havia lhe tirado o pouco que possuía? Nossos caminhos se cruzaram duas ou três vezes mais, não tive interesse ou disposição para saciar qualquer dúvida, 

                Márcia, a outra, conheci há poucos dias. Não chegou aos 30, suponho. Nem nos meus tempos de mocinha tive aquele corpo, aquela pele, aquele sorriso, todo aquele encanto. Não consigo imaginar que esteja com Ângelo por algo além de dinheiro. E não me interprete mal, pois nunca imaginei que fosse encontrar o Cary Grant na próxima esquina. Entretanto, conheço bem meu marido para sabê-lo, digamos, quase por inteiro. Suponho, ou melhor, a certeza me aponta que, não demora, o traído será ele. Não que eu seja cruel, apenas não tenho mais idade para fingir ingenuidades.