segunda-feira, 9 de março de 2026

Vera, um caso isolado entre tantos

        Vera navegou, conforme ouvi em uma mesa de boteco, por uma complexa teia de afetos, discrição e vulnerabilidade. Emaranhado de fios tênues que, ao menor abalo, poderiam ser rompidos e, não duvide, a mulher seria atirada à fogueira da hipocrisia da sociedade dos anos 1960. 

            Casada, dois filhos pequenos, sentia-se enclausurada naquele apartamento de dois quartos, enquanto Carlos, o esposo, ganhava o mundo ao sair para trabalhar. Júlia e Mauro, as crianças, passavam as tardes na escola, e Vera, cada vez mais entediada, olhava pela janela, talvez na busca desesperada por seus sonhos que, por mais tolos que fossem, praticamente haviam sido deixados para trás.

            Foi numa dessas tardes solitárias que Helena, a vizinha de porta, xícara vazia na mão direita, enquanto na outra segurava um cigarro pela metade, foi pedir um pouco de pó de café. Elas mal se conheciam, como, já naqueles idos, era comum nas cidades grandes, como se fosse espécie de código não escrito. Mesmo assim, a política da boa vizinhança se fazia necessária e, com ela, o desconforto se transformou em sorrisos aparentemente francos. 

            Xícara cheia, Helena agradeceu, momento em que Vera, olhando por cima do ombro esquerdo da vizinha, percebeu a porta entreaberta. Confortavelmente sentado ao sofá, estava um homem de cabelos escuros, bigode e olhos árabes. Ele sorriu, o que trouxe misto de timidez e inquietação à Vera. As mulheres se despediram com olhares confidentes.

           Dois dias depois, a campainha tocou novamente. Vera atendeu sem pensar em quem seria. Era Helena, xícara na mão direita, agora cheia de pó de café. 

            `— Não precisava.

              — Faço questão.

              — Obrigada. Helena, né?

              — Isso. E você é a Vera. Acertei?

              — Sim. 

              Elas se olharam por um momento, até que Vera tomou a iniciativa de convidar a vizinha para tomar café. 

                — Não quero incomodar.

                — Não é incômodo. Vai ser até bom. Estou precisando conversar com alguém mesmo.

                Enquanto a anfitriã colocava água para ferver, Helena percebeu que a cozinha era impecável, como se Vera estivesse esperando por visitas.

                — Que nada, Helena! Estou tão acostumada a ficar sozinha, que acabo de limpar tudo, daqui a pouco já estou passando pano nos móveis de novo. 

                Sentadas à mesa, as duas mulheres, ainda se conhecendo, pareciam escolher com cuidado as palavras. 

                — Está bom?

                — O café?

                — Sim.

                 — Ah, está ótimo! Muito melhor do que o meu.

                Mais um silêncio, logo quebrado.

                — Sou casada.

                — Eu vi que é.

                — Não. Aquele homem que você viu não é o meu marido.

                — Não?

                — É meu amante.

                Vera sabia que aquele sujeito não era o esposo da vizinha. Mentiu, é verdade, pois não via motivo para causar constrangimentos desnecessários. Todavia, foi pega de surpresa com o completo despudor de Helena. De tão impressionada, Vera levou as mãos aos lábios, que se sentiam impulsionados a acompanharem o sorriso encantador da adúltera.

                — Não tem medo?

                — Medo de quê?

                — De alguém descobrir?

                — Não.

                — E o seu marido?

                — Seria até bom.

                — Você está louca?

                — Hum! Pelo menos assim ele perceberia que estou viva.

                Era justamente daquele jeito que Vera se sentia, deixada de lado por Carlos, a vida se esvaindo como se alheia ao sofrimento, que havia se instalado no peito solitário da mulher. No máximo, um apêndice. E, envolta nesse sentimento, ela se envolveu com Pedro, que conhecera, por acaso, na mercearia do bairro. 

              Um tipo aparentemente austero até a primeira palavra dita. Por encanto, era como se Vera estivesse diante de um desgarrado da conduta ilibada esperada por aqueles de bons costumes. Sem pensar, ela se aproximou do sujeito e, sorriso nos lábios, se mostrou acessível, para espanto do homem, que não deixou de notar a chamativa aliança no dedo anelar esquerdo da mulher. 

                Aquele primeiro contato não rendeu frutos de imediato, mas a semente fora lançada e, na semana seguinte, tarde ensolarada, Vera e Pedro, sentados à mesa da cozinha, mal tocaram no lanche. Atracaram-se na ânsia de apagar o fogo que os consumia, enquanto o café esfriava e os biscoitos amanteigados eram deixados de lado.

                O romance durou o tempo que deveria ter durado. Não mais do que alguns meses. Entediada, Vera foi direta, não queria mais. Não por culpa, a questão era outra. Luís, vendedor de enciclopédias, cujos lábios carnudos chamaram a atenção da mulher. 

              Luís ficou enciumado quando descobriu que a amante o estava traindo com Rubens e, sem drama, saiu de cena. Seguiram-se Augusto, Roberto, Laerte e até dois homônimos do esposo. Não se sabe se ela foi descoberta por Carlos, que parecia voltado aos próprios interesses. Há tempos, ele vivia um romance com Judith, uma colega de trabalho, e até pensava em largar a família, mas havia um empecilho. É que a amante era casada. Aliás, muito bem-casada por sinal.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Vera, um caso isolado entre tantos" foi publicado no Notibras no dia 9/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/vera-um-caso-isolado-entre-tantos/

domingo, 8 de março de 2026

Um casal insuspeito

     

          Ernesto e Adelaide formavam um casal improvável. Não que alguém pudesse levantar suspeitas sobre a afeição dos dois, a questão era outra. O relacionamento deles, apesar das aparências contrárias, não era convencional, e mais, carregado de poderes e segredos. 

      O marido, ávido por intimidade, era aterrorizado pelo próprio reflexo, temia decepcionar a mulher. Não que possuísse deformidades, ao menos aparentes, já que desfrutava de rosto agradável, ornado por um belo bigode, sem contar o corpo em forma, mesmo que já beirasse os 50 anos. E a prole, dois jovens tão parecidos com o pai, que nem mesmo o maior inimigo de Ernesto, que era nenhum, poderia insinuar que não seriam seus filhos, apesar de ambos carregarem os olhos cínicos da mãe. 

          Adelaide, para bom observador, era a líder. Bastava ver suas decisões, jamais contestadas por Ernesto, que caminhava quase imperceptíveis centímetros atrás quando o par caminhava de mãos dadas, seja na praça, seja na igreja, seja em qualquer lugar. E o esposo não demonstrava desconforto, como se aquilo fosse do seu agrado. Discussões, então, caso tivessem ocorrido, não eram do conhecimento público. 

          Ernesto vinha de família tradicional. Ainda rica, apesar da diluição do patrimônio ao longo de décadas entre os herdeiros. Mesmo assim, dinheiro não era algo com que o homem precisaria se preocupar, a não ser que, do nada, ele se tornasse um pródigo. Improvável, já que o sujeito era praticamente um minimalista. Não por ser sovina, mas por desprendimento das coisas materiais. 

          A esposa, por sua vez, mesmo não sendo muquirana, parecia entender como poucos o valor de cada vintém. Viera da classe média e, por conta do matrimônio, subira dois ou três degraus no poder de compra. Mas não pense você que a soberba lhe subiu à cabeça. Continuou praticamente a mesma Adelaide dos tempos de transporte público, só que com a cútis melhor. 

      A improbabilidade do casal se devia ao estranho hábito de Adelaide, que se revelava todas as vezes que os dois estavam sozinhos no sobrado: ordenar que o marido fosse passar a noite no canil. Não que tivessem cachorro, já que Sultão, o velho pastor alemão, havia falecido de causas naturais há quase dois anos. E não pense você que o Ernesto desgostasse da situação. Na verdade, ele sentia que precisava passar por aquilo para se tornar um esposo merecedor do amor da sua rainha, quer dizer, dona. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Um caso insuspeito" foi publicado no Notibras no dia 8/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/um-casal-insuspeito/

sábado, 7 de março de 2026

Tio Orlando, o sociopata da família

        

         Lembro-me do tio Orlando entrando na sala, quando os adultos pareciam consternados por algo que eu soube, por descuido de adultos, após alguns anos. Tio Orlando era, na verdade, meu tio-avô, o caçula entre os irmãos da minha avó-materna, Iolanda.

          Tio Orlando sorriu aquela tranquilidade desconfortante, enquanto minha mãe, com brasas nos olhos, parecia querer esganá-lo. Papai sorriu o sorriso amarelo de sempre, como tentando se desculpar por algo que lhe era alheio, mas que, de certo modo, acabaria por atingi-lo. Imbróglios de família, alguém poderia dizer, como se isso fosse desculpa para que já deveríamos, de antemão, nos acostumarmos pelo pior.

          Pois lá estava o Tio Orlando, que se comportava como se o caos não estivesse anunciado. Pior, completamente instalado, sufocando a todos. Entretanto, até hoje me surpreendo com o regozijo no rosto do irmão de vovó naquela ocasião, tão próprio aos sociopatas. Aquela completa ausência de empatia, o que fazia do sujeito, ao menos aos olhos dos que supunham conhecê-lo, o mais frio dos seres humanos. Humanos?

           Mamãe foi a primeira a confrontar tio Orlando, E a sua voz carregava uma autoridade, que nem mesmo vovó foi capaz de colocar panos quentes na situação.

            — Tio Orlando, o senhor ainda tem a desfaçatez de aparecer aqui depois do que fez?

          — Boa tarde, Laura! Você sabe que sempre foi a minha sobrinha favorita, né?

            Como tio Orlando fazia aquilo, nunca consegui descobrir. Mamãe aceitou de bom grado o abraço e o beijo afetuoso do parente. Pareceu até se envergonhar por se dirigir ao seu tio naquele tom rude. Tanto é que, já no instante seguinte, adocicou a voz.

            — Tio Orlando, desse jeito o senhor coloca a todos nós em situação constrangedora. 

            — Ah, minha querida Laura, deixa aqui com o seu tio, que vou resolver isso até o final desta semana. Pode ser?

            — O senhor promete?

            — Hum! Por acaso agora a minha palavra não vale nada? 

         Mamãe, enlaçada por tio Orlando, pareceu se sentir aconchegada e, sorriu aqueles dentes longos e alvos e, quase emocionada, convidou a todos para desfrutar os bolinhos de chuva recheados com banana, uma das suas especialidades culinárias. 

            Tio Orlando nos deixou dois anos após aquele dia. Pipa voada. Era assim que os parentes e amigos se referiam a ele. Sem direção, vivendo de forma livre, leve e solta, como se não houvesse amanhã. Gastou o que tinha e o que não podia, deu alguns pequenos golpes na praça, inclusive o que fora motivo da discórdia daquela tarde na casa da minha avó. Obviamente que ele não resolveu a pendenga, restando aos parentes se cotizarem para pagar a dívida. E, apesar de tantos e tantos anos após aquele evento, ainda hoje minha mãe se refere ao falecido com um misto de rancor e afeto,

            — Tio Orlando não valia nada, mas era um amor de pessoa. Ah, que saudade!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tio Orlando, o sociopata da família" foi publicado no Notibras no dia7/3/2026,
  • https://www.notibras.com/site/tio-orlando-o-sociopata-da-familia/

sexta-feira, 6 de março de 2026

Coisas do Asdrúbal

   

        Asdrúbal, cuja mais flagrante característica era a quase completa ausência de destemor, também conhecida por covardia, há meses andava ressabiado. Não porque os amigos não tentassem arrancá-lo daquele praticamente estágio de vegetação desde que Laura o apunhalara pelas costas justamente com o Renan, um primo de madeixas aloiradas da moçoila. A coisa era mais complexa.

          — Asdrúbal, meu amigo, você precisa levantar a cabeça e seguir em frente.

          — Não consigo, Gilson. Como é que a Laura foi fazer isso comigo?

          — Bem, meu amigo, é aquela coisa... Afinal, quem é que nunca se envolveu com primos? Aposto que você também já teve uma quedinha por uma prima?

          — Meus pais são filhos únicos. 

          Sem Laura e primas para um improvável affair, Asdrúbal se fechou que nem ostra, e não havia quem conseguisse fazer com que o sujeito vislumbrasse o mundo que não deixava de correr por causa de frustrações amorosas, fossem elas de quem fosse, muito menos as de um reles caixa de banco. Banco particular, por sinal. 

          Num sábado, não muito quente, não muito frio, temperatura ideal para apaziguar intrigas tolas por conta de dois ou três graus centígrados para cima ou para baixo, eis que Asdrúbal não teve como recusar o convite para um churrasco no terraço do edifício onde residia. Até tentou, mas foi praticamente arrastado por seu vizinho de porta, o Osvaldo.

          — Ou tu vem comigo ou tu vai ter que me expulsar da sua sala.

          Como o colega era muito mais forte do que ele, Asdrúbal acabou cedendo, ainda mais porque constatou que qualquer coisa seria mais agradável a ser obrigado a passar horas conversando com aquele tipo. Não que desgostasse do Osvaldo, era até divertido, mas enfrentar aquele bom humor sozinho já era demais. 

            Além dos moradores, praticamente todos já conhecidos, havia uma bela mulher de seus 45 anos, que era aparentada da dona Clotilde, inquilina do 104. Mais para alta do que para baixa, ligeiramente acima do peso, alguém sem gosto poderia dizer, belos cabelos com alguns corajosos fios brancos à mostra, chamativos olhos castanhos ornados com cílios salientes, sorriso cativante de quem sabe o que quer. Patrícia era o seu nome. 

            A certa altura, quando todos pareciam satisfeitos com o rega-bofe, eis que os olhares de Asdrúbal e Patrícia se cruzaram pela primeira vez. Por um instante, os dois se mantiveram firmes até que, talvez por timidez, Asdrúbal desviou os olhos. A mulher, que poderia ter se desinteressado naquele momento, pareceu encantada por tamanho acanhamento e, impetuosa que era, se aproximou.

            — Prazer! Sou a Patrícia. 

            Pego de surpresa, Asdrúbal, boquiaberto, levou alguns míseros segundos para responder.

           — Asdrúbal.

            — Hum! Nome forte. Gostei.

            A conversa se desenrolou de modo incomum. Tanto é que, aos olhos dos presentes, todos tinham como certo o enlace entre aqueles dois. Mas eis que, do nada, a coisa pareceu degringolar.

            — Então, Asdrúbal, você não vai me convidar para o seu apartamento?

            — Sabe, Patrícia, eu até poderia, mas há algo que você precisa saber.

            — E o que é?

            — A minha mulher está em casa tomando conta dos nossos seis filhos. E preciso ir ajudá-la, pois as crianças são terríveis.

              E foi assim que, com um argumento carregado de inverdades, que o Asdrúbal boicotou um possível romance, que até poderia não ir além daquele final de tarde, mas que, certamente, o teria arrancado do marasmo daquela melancolia. E o gajo continua sozinho, não por falta de oportunidade, mas por excesso de memória.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Coisas do Asdrúbal" foi publicado no Notibras no dia 6/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/coisas-do-asdrubal/

quinta-feira, 5 de março de 2026

Benedito e as escolhas erradas

       Benedito era um tipo interessante, um tanto violento, é verdade, mas tais características logo despertaram o interesse por parte de Odorico, espécie de líder do crime quase organizado na região de Planaltina, cidade mais ao Norte no Distrito Federal. No entanto, tudo indicava que, aos olhos do chefão da bandidagem, o jovem havia tomado caminhos estranhos e, apesar desse flagrante desvio, Odorico, ainda assim, acreditava que os erros de Benedito poderiam ser corrigidos com o tempo. Bastaria um pouco de sorte e, dependendo dos rumos, um empurrãozinho.

          — Você tá maluco, moleque? Os teus pais não te deram educação? Só não te dou uma boa surra porque fui amigo da sua avó.

          Diante do bandido, Benedito permaneceu mudo, mas a tremedeira nas pernas e o suor escorrendo pela testa diziam tudo. E a avó do rapaz, Sônia, realmente tinha sido muito amiga do Odorico, a ponto de haver suspeitas de que seu único filho, Álvaro, fosse fruto de tardes tórridas de amor com Odorico. Todavia, esse era assunto que raros comentavam, apesar da flagrante semelhança física entre o chefão e o pai de Benedito, que, por acaso ou não, possuía as feições parecidíssimas com o genitor. 

          — Benedito, por acaso o gato comeu a sua língua?

          — Não, senhor.

          — Então, o que te deu na telha de passar pro lado do inimigo?

          — Seu Odorico, é que preciso de um emprego. 

          — Hum! E você foi me arrumar logo ser polícia? E sabe o que vai acontecer com você? 

          — Não, senhor.

          — Hum! Com esse seu gênio explosivo, logo vai se tornar o mais odiado polícia. E você sabe o que acontece com esses tipos, né?

          — Sei sim, senhor.

          — E ninguém vai te dar guarida. Ou você acha mesmo que os seus coleguinhas de farda vão te proteger? 

          A conversa poderia tomar uma direção mais apaziguadora, com Benedito entendendo os conselhos do Odorico. Que nada! Apenas agradeceu a preocupação e, virando as costas para a razão, foi viver a vida de homem da lei. Entretanto, o tempo é o senhor de todas as coisas e, quase cinco após, Benedito estava desempregado. O motivo? Ah, aqui vale um breve parêntese. 

          Benedito, valendo-se da autoridade que lhe havia sido imbuída pelo Estado, imaginou que poderia extravasar toda a sua índole violenta. A princípio, foi até incentivado por seus colegas de profissão, que perceberam que aquela qualidade ou defeito, dependendo das perspectivas, seria extremamente útil para combater a criminalidade. O problema é que o gajo se tornou réu por tortura e, após ser condenado, recorreu. Perdeu em todas as instâncias e foi expulso da corporação. 

          Odorico, que acompanhara a trajetória do neto de Sônia, mandou chamá-lo. E, assim que o ex-policial chegou, ofereceu-lhe café e pão de queijo. 

         — Obrigado, seu Odorico, mas acabei de almoçar.

         — Pois tome ao menos o café.

          — Obrigado.

          O chefão observou o alquebrado por um instante e, em seguida, falou sem rodeios.

          — Benedito, conheço sua índole e, por isso mesmo, o venho observando desde que você ainda era um molecote. Seu pai, infelizmente, é um frouxo e, por isso mesmo, preferi mantê-lo afastado dos negócios. Mas você é diferente. Você é muito útil. E fique certo de uma coisa: desde que seja leal, aqui ninguém solta a mão de ninguém. 

          E foi assim que o Benedito se tornou braço direito do Odorico. Agora, quanto ao boato de que ele seria neto do chefe do crime quase organizado de Planaltina, talvez não passe de fofoca. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Benedito e as escolhas erradas" foi publicado no Notibras no dia 5/3/2026.
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quarta-feira, 4 de março de 2026

Guima e a esposa do cliente misterioso

    

         A Banca do Guima, famoso ponto de encontro em Sobradinho, fica na aprazível região serrana do Distrito Federal. Além de jornais, revistas, salgadinhos, picolés, refrigerantes e aquele cafezinho, o local reúne a clientela mais esdrúxula da cidade. Como diz o próprio Guima, "aqui é uma verdadeira Escolinha do Professor Raimundo, onde todos têm a chance de protagonizar algo inusitado".

          Pois lá estavam alguns dos personagens mais icônicos, todos clientes fidelíssimos do Guima: Zé Boião, Dr. Pocotó e Bin Laden. Como era domingo, o bate-papo se desenrolava sem pressa ou atropelos, digno de confraternização entre amigos, apesar das rusgas que, vez ou outra, surgiam. No entanto, nada que os envolvidos levassem tão a sério a ponto de não se falarem por mais do que alguns dias. 

            Enquanto confabulavam, eis que chegou uma mulher querendo saber qual o jornal que o marido comprava. Guima, que jamais havia visto aquela senhora, ficou na dúvida de quem seria o seu esposo.

            — Qual é o jornal, senhora?

            — Não sei, ele não me falou.

            — E quem é o seu marido?

            — Ele é gordinho.

          Instintivamente, todos olharam para o Zé Boião, cuja silhueta está mais para esfera do que para um espeto. E o sujeito, que se viu no meio do furacão, tratou de encolher a barriga. 

          — Hum... Não é ele, né?

          — Não. O meu marido é baixinho.

         O avaliado da vez foi o Dr. Pocotó, que, apesar de usar palmilhas especiais para parecer mais alto, mal atinge um metro e sessenta. De imediato, o gajo ficou na ponta dos pés para ver se conseguia disfarçar a parca estatura.

           — Hum... Não é ele também, né?

          — Não. Ele é barbudo.

          Dessa vez, os olhares se voltaram para o Bin Laden, que alisou a barba enquanto olhava para os lados. Foi aí que o Guima, já sem paciência, quis saber o nome do marido da mulher.

          — É Mohamed.

         — Ah, tá! Pode pegar qualquer jornal velho que serve, que é pros cachorros dele fazerem pipi.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Guima e a esposa do cliente misterioso" foi publicado no Notibras no dia 4/3/2026.
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terça-feira, 3 de março de 2026

Meu primeiro dia na cadeia

      Assim que cheguei àquele lugar onde a lei não parecia ter chegado, procurei me aproximar dos que, aos meus olhos ingênuos, me pareceram os que ditavam a ordem daquele caos. Esdras e Ronaldo, dois brutamontes que pareciam saídos de um ringue de luta livre, me olharam com misto de surpresa e curiosidade. E foi Esdras, ligeiramente mais alto, que puxou conversa.

          — Tu é novo aqui, é?

          Sem tempo para dizer algo mais elaborado, respondi a primeira coisa que me veio à mente.

          — É.

          Os dois me pareceram desconfiados, como se eu pudesse apresentar alguma ameaça. Logo eu, um pacifista nos moldes de Mahatma Gandhi. Minha natureza, de tão livre de impulsos bélicos, me fazia olhar para o chão com o intuito de não pisar, inadvertidamente, em alguma barata descuidada. E eis que Ronaldo, o mais parrudo, foi mais incisivo.

          — Qual é a tua bronca?

          Eu, mesmo nunca tendo me encontrado naquela situação, entendi. No entanto, na ânsia de me tornar respeitado, menti.

          — Latrocínio.

          Na verdade, estava ali por conta de fraude bancária. Todavia, parece que meu intento funcionou, pois os sujeitos arregalaram os olhos e, em seguida, me puxaram para mais perto. Esdras, quase sussurrando, disse que iria me apresentar ao chefão do pedaço. Foi aí que percebi que nenhum dos dois comandava o presídio ou, ao menos, a parte que eu havia caído. 

          Atravessamos o pátio, fiquei diante de um tipo tão pequeno e desprovido de carnes, que até eu, que estou longe de ser conhecido pela estrutura corporal, imaginei estar em frente a um anão ou algo parecido. Esdras me apresentou ao desprovido de altura.

          — Montanha, esse é o Júlio. 

          Apesar de ser pelo menos 15 centímetros mais baixo do que eu, tive a nítida sensação de que o tal Montanha estava me olhando de cima a baixo, como se fosse um gigante avaliando se esmagaria ou não aquela barata que eu me negava a pisar. 

          — Hum! Qual é mesmo o seu nome?

          — Júlio.

          — Hum! Conheci um Júlio, mas nossos santos não bateram muito bem.

          Tentei controlar os nervos da face, mas devo ter me denunciado por conta dos olhos arregalados. Digo isso porque o Montanha sorriu, ergueu as duas mãos em direção ao meu rosto, o envolveu e, em seguida, desferiu dois amigáveis tapas e decretou:

          — Seja bem-vindo, Júlio. 

          E foi assim que fui aceito no grupo que, até aquele momento, parecia dominar aquela ala da cadeia. Mesmo assim, algo me intrigava e, quando tive oportunidade, questionei o Esdras.

          — O Montanha não tem medo de ser morto por algum preso?

          — Medo?

          — É. 

          — Hum! Júlio, quem janta com o Diabo não teme nem a Deus.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Meu primeiro dia na cadeia" foi publicado no Notibras no dia 3/3/2026.
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segunda-feira, 2 de março de 2026

Vicente, o primo do amigo do Cleidson

    
            Cleidson, o Clei, mineiro de Visconde do Rio Branco, desde menino, havia se mudado para São Paulo, já que os pais, àquela época, tamanha a insegurança financeira, foram buscar melhores condições em 1978. Saídos da roça, onde moravam em um sítio, tiveram que se adaptar ao agito da cidade grande. No entanto, apesar dos percalços, conseguiram sobreviver e até se saíram relativamente bem. 

            Quando chegou o ano de 1992, Clei, então com 19 anos, resolveu tentar a sorte na Inglaterra, mesmo que, àquele tempo, não soubesse mais do que o básico do básico do inglês. Por sorte, o rapazola era amigo do Gilberto, que estava passando uma temporada em Brasília. A sorte, obviamente, não era a mudança do colega para a capital do país, mas sim o fato de Gilberto ter um primo, o Vicente, que residia em Londres, justamente a cidade para onde Clei havia decidido se aventurar.

            O mineiro tratou de comprar várias fichas e foi até o orelhão mais próximo à sua residência e telefonou para o Gilberto. Este, por sua vez, lhe disse para procurar o Vicente, que iria ajudá-lo a arrumar emprego, local para morar, bem como uma boa escola para que Clei estudasse inglês. Tamanho amparo deu o empurrão definitivo ao viajante, que, até aquele instante, sentia um frio na barriga só de pensar em partir para terras estrangeiras.

            Passagem apenas de ida comprada, malas prontas e as providenciais anotações cuidadosamente guardadas no bolso, Clei se despediu dos pais. É verdade que, diante do aperto no coração por conta da despedida, ele tenha pensado em desistir. Entretanto, o desejo por novas experiências, autoconhecimento e mudança de vida falaram mais alto. E lá foi o jovem explorar o desconhecido.

            A viagem foi longa o suficiente para Clei fazer um balanço da sua vida até então. Nascido na roça, aos seis anos mudara para a maior cidade do país e, agora, estava a caminho do país da sua banda favorita, The Beatles. Como aquele amor surgira? Ele jamais conseguiu se lembrar do exato momento, mas foi fisgado, talvez na rádio, por aquele som que conquistou o mundo anos antes de ele nascer. 

            Assim que passou pela imigração e se dirigiu à saída, Clei pensou nos pais, talvez como forma de se proteger do desconhecido que o esperava dali a poucos metros. Todavia, assim que ultrapassou a porta, avistou um homem com um bigode igual ao do Freddie Mercury segurando um cartaz acima da cabeça: "Cleidson, seja bem-vindo a Londres!" Era o Vicente, o primo do seu amigo.

            A calorosa recepção foi um alívio para Clei, que, de cara, sentiu uma conexão com Vicente, que carregava uma inconfundível e agradável cara de deboche. Tanto é que, anos mais tarde, ele falaria com carinho do amigo que fez na capital inglesa. 

        Vicente acolheu Clei em sua residência por tempo suficiente até que conseguiu arrumar emprego e um simples, mas confortável apartamento, para o mineiro. Também indicou um ótimo curso de inglês para Clei, que, finalmente, se tornou fluente.

            Clei foi trabalhar na mesma empresa de limpeza onde Vicente comandava uma equipe noturna. Por conta desse cargo de chefia, o primo do Gilberto ganhava muito bem: 400 libras esterlinas por semana. E Vicente havia conseguido essa bocada logo depois de chegar a Londres, dois anos antes.

                Intrigado como é que o Vicente tirara a sorte grande, Clei soube com detalhes tamanha conquista.

            — Clei, fui ao Job Centre e comecei a olhar as vagas. E essa vaga era para pessoa que falasse muitos idiomas. Então, me candidatei a essa vaga.

            — Mas por que precisavam de um poliglota pra esse posto?

          — Bem, é que os contratados pra fazer o serviço de limpeza são geralmente imigrantes de vários países. 

            — Ah, entendi.

            — Mas espere, que você não sabe o melhor.

            — E o que é?

            — O cara que me entrevistou me perguntou quantas línguas eu falava. Disse, na maior cara de pau, que falava inglês, como ele poderia perceber, já que estávamos conversando em inglês. Disse que também falava a minha língua nativa, que é português, bem como espanhol, italiano e alemão. 

             — E você fala tudo isso mesmo?

            — Calma, que chego lá. Então, ele me pediu para falar um pouco de português. Disse algumas frases, e essa foi, de longe, a parte mais fácil, obviamente. Depois quis que eu falasse alguma coisa em espanhol, e lá fui eu enrolar a língua e emendei um portunhol muito fajuto. Aí, o cara me pediu pra falar algumas frases em italiano. Nunca pensei que fosse tão fácil enrolar o entrevistador. Misturei português, espanhol e algumas palavras em italiano enquanto gesticulava com as duas mãos erguidas. Mas o melhor mesmo foi quando ele me disse pra eu falar alemão.

                        — E como você fez?

            Vicente sorriu o sorriso mais cínico, cofiou o bigode de vocalista do Queen e respondeu:

        — Clei, acredite ou não, busquei nos recônditos da memória aquele sotaque germânico e mandei: Aftas ardem, hemorroidas idem.

        Clei caiu na gargalhada, enquanto Vicente, que possuía talento para o teatro, pareceu satisfeito com a reação da plateia composta por um único espectador. Mas eis que a história ainda não havia terminado.

        — Aí, Clei, o cara me perguntou como é que eu, um jovem brasileiro, havia aprendido tantos idiomas. Com a cara mais lavada do mundo, respondi: I like languages.

            — Mas, Vicente, você não teve medo do homem descobrir que isso era sua farsa?

          Vicente, nesse momento, empertigou-se ao máximo e disparou:

          — Clei, você vai aprender rapidinho uma coisa a respeito dos ingleses. Apesar de terem dominado o mundo inteiro, os ingleses só sabem coisas sobre eles mesmos.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Vicente, o primo do amigo do Cleidson" foi publicado no Notibras no dia 2/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/vicente-o-primo-do-amigo-do-cleidson/