terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ânsia e tédio

    

    Papai era complacente, mamãe nunca foi de florear opiniões.

    — Antônio, a tua filha é cheia de vontades.

    — Desejos, Eleonora, desejos. A nossa Roberta apenas possui desejos. E quem de nós não os tem aos montes?

    Não sei se meu pai era ingênuo ou, então, apenas buscava desculpas para justificar o que preferia não enxergar na única filha. De certo modo, eu me aproveitava dessa situação. Fingir bondades onde só existia egoísmo.

    — Papai, que cachorro é aquele?

    — O pretinho ou o malhadinho?

    — O pretinho.

    — Ah, aquele é um poodle.

    — Que fofinho, né, papai?

    — Muito.

    — A gente não pode ter um, né, papai?

    — E por que não? Vou conversar com a sua mamãe.

    Depois de dias de embates, papai conseguiu dobrar a minha mãe. 

    — Antônio, eu é que não vou cuidar de bicho.

    — Pode deixar, Eleonora. A Roberta e eu cuidamos.

    Não que isso não fosse verdade, mas não durou uma semana. E nem culpo a Fifi, a nossa poodle pretinha. Que tomar conta de cachorro! Passear, dar ração, dar banho... Meu pai abraçou a causa com o costumeiro sorriso estampado no rosto.

    Fifi, um trenzinho elétrico, uma infinidade de bonecas, aquela ânsia de ter e o tédio de possuir. E isso não ficou na infância. Quando os hormônios afloraram, minha mãe foi enfática:

    — Antônio, a sua filha vai dar trabalho.

    — É apenas uma fase, Eleonora. Logo, logo a nossa menina se apruma.

    Márcia, apaixonada por Fernando, foi a minha primeira vítima. Inocente, a garota me contou detalhes sobre o rapaz. Aquela língua descontrolada despertou em mim o desejo de lhe roubar o namorado. Que cada uma fique com a parcela de culpa que lhe convém. 

    Não discuto que Márcia era, já aos quatorze anos, mais bela e atraente do que eu. Entretanto, as suas curvas eram carentes de malícia, algo que sempre me acompanhou.

    Depois de vários beijos, incluindo alguns avanços que prometiam eternidade, dispensei o Fernando. Em prantos, o garoto implorou que reatássemos. Sem muita escolha, tomei o caminho mais digno: menti.

    — Meu querido, eu até queria, mas minha mãe proibiu. Ela disse que sou muito nova para namorar. 

    Mamãe jamais se meteu na minha vida amorosa, ciente de que não havia rédea capaz de me nortear. Barco desordenado, era assim que me chamava. 

    Fernando, Álvaro, Luís Paulo, Francisco, Hélio, Sebastião, Matias, Tenório... O que salva um pouco a minha reputação é a parca memória dos que me rodeiam. Joaquim, Júlio César, Pedro, Gustavo, José Carlos... Amores fugazes. Aos montes. 

    Por ironia do acaso, durante uma viagem a Salvador, entrei em uma sorveteria onde se encontrava a Márcia. Nem sei se ela me reconheceu ou aprendeu a arte da dissimulação. Melhor assim, pois sou péssima com amizades repetidas.

    Márcia parecia feliz com as generosas colheradas de sorvete que levava à boca. Sentada a duas mesas à esquerda, discretamente perguntei à garçonete qual era aquele sabor.

    — Pistache, senhora.

    — Pistache? 

    — Sim.

    — Hum... Pois quero um igual.

    Não esperei mais do que alguns minutos até a jovem retornar com uma taça com o tal sorvete. Agradeci. Esperei que ela saísse de perto e, então, encarei aquela iguaria até que, atrevida como sempre fui, dei uma colherada e a levei aos lábios. Saboreei até que fiz um sinal para a garçonete, que logo retornou.

    — Algum problema, senhora?

    — Traga-me um de uva.

    — Não gostou do sorvete de pistache?

    — Enjoei.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A beleza que nunca tive

    A beleza, dizem, está nos olhos de quem vê. Meu cachorro me ama! Ele costuma esfregar o focinho nas minhas mãos, como se quisesse extrair o máximo do meu ser. O problema que vejo nisso é um tanto constrangedor. É que o Pancho parece ter fetiche por carniça, haja vista as incontáveis vezes em que o flagrei se esfregando em algum animal morto. Pior, quanto mais fedida, mais o meu companheiro se enche de entusiasmo.

    Minha mãe, talvez por não ter o olfato apurado do Pancho, vez ou outra, se desculpa pelos genes que herdei.

    — Edson, você entende, né? Milhões e milhões de possibilidades, a combinação não deu muito certo no seu caso. Mas eu te amo, viu? 

    Não duvido do amor da minha mãe. Digo até que, no caso dela, seja algo tão entranhado, muito mais do que mero vislumbre pelo belo. Diante da incongruência com a beleza, mamãe afaga a feiura que produziu. Carregada de remorso, porém, ela está ali, firme, não arreda o pé.

    Simpatia. Esse foi o caminho que decidi trilhar quando cheguei aos vinte anos. Livre das espinhas, apesar de ainda carregar as marcas que elas imprimiram no meu rosto, fiz de tudo para extirpar qualquer sentimento mesquinho que, porventura, cismasse em rondar a minha mente. Tornei-me, creio, um tipo entre apaziguador e conselheiro. E foi assim que, logo após Ludmila se embebedar por uma desilusão amorosa, me ofereceu seus lábios pela primeira vez. 

    — Te amo, Edson.

    Tal frase não carecia de honestidade. Há momentos na vida em que nos empolgamos, seja por falta de algo ou desilusão. E Ludmila estava carente de tudo. 

    O romance, se é que posso chamar assim aquilo que tivemos, não durou mais do que duas ou três ressacas. Todavia, foi o suficiente para que um certo orgulho se fizesse presente no meu coração. Por pouco, quase deixei tudo a perder até que voltei a fingir a simpatia calculada.

    Arlete, colega de trabalho, desiludida com o casamento, encontrou em mim o ouvido perfeito. Pacientemente, escutei todas as lamúrias daquela que se tornou a mulher da minha vida durante o verão de 1982. E ela me pareceu perfeita, tantos carinhos, beijos atrevidos que jamais imaginei possíveis. 

    Tudo perfeito, até que Arlete, do nada, logo após uma tórrida noite de amor, despertou, me fitou com aqueles lindos olhos castanhos e foi acometida por uma sinceridade desnecessária:

    — Edson, meu amor, mas tu é bem feinho, hein!?

    Acabou ali. 

    Elaine, Rosana, Marcela, Rita, Ana Flávia, Zenaide... Ah, Zenaide! Que saudade dos seus afagos. Roberta, tão impetuosa. Vânia, Letícia, Ruth, Gertrudes, Maria de Fátima... Recordações que me consolam nas noites solitárias. 

    A velhice chegou e não me levou a beleza que nunca usufruí. Digo até que eu me acostumei com o reflexo que cisma em aparecer no fundo do espelho quando resolvo me barbear. Pra quê?

domingo, 6 de setembro de 2026

O quarto da bagunça

  

    Clara adiou o quanto pôde, muito além do que imaginara. No entanto, quase seis meses depois de se aposentar, decidiu que já estava mais do que na hora de arrumar a tralha acumulada durante anos no quarto da bagunça. Mal abriu a porta, foi como se tivesse entrado no túnel do tempo.

    A mulher deu uns tapas no velho álbum de fotografia. A camada de poeira ganhou o mundo. Quais segredos aqueles retratos guardariam?

    Uma viagem ao Rio de Janeiro em 1973. Ainda solteira, Clara ficou deslumbrada com as belas praias e a ousadia de algumas cariocas. Desejou imitá-las, mas era carente de coragem para expor o próprio corpo. Um maiô discreto e nada mais.

    Depositou o álbum ao lado de uma pilha de livros. Lá estava um exemplar de Clarissa, de Érico Veríssimo. Ela o acolheu entre os seios, talvez como recordação de um amor adolescente.

    Luciano. Alto, esguio, cabelos desalinhados, olhos tão escuros e cheios de segredos. O sorriso com aparelho, algo caro para a época. Clara, aos treze anos, se sentiu, de alguma forma, atraída pelo rapaz. Amor platônico como outros tantos que teve. Por onde andaria o Luciano? Teria, ao contrário dela, se casado? Provavelmente já era avô e ganhara alguns quilos. Certamente, os dentes estavam livres do aparelho há muitos anos. 

    Um vinil da trilha sonora da novela Estúpido Cupido. Clara havia ganhado aquele disco de sua avó Mariana. Ouviu Meu mundo caiu até furar o disco. Não furou, mas quase. 

    A coleira da Princesa, a vira-lata ranzinza, porém grande companheira nas madrugadas de fossa. Clara, deitada no sofá da sala, a cabeça da cachorra sobre o seu ventre, ao som de Maysa. 

    Clara nunca casou, apesar do quase desespero da mãe. E Luciano teria se casado? Como adolescente, a mulher deixou-se invadir pelos sonhos. Sorriu.

    Fechou a porta do quarto e foi preparar café. Uma xícara apenas. Pegou um pouco de conhaque e despejou duas doses. Amanhã retornaria àquela montanha de lembranças. Melhor, iria ao clube. Longe da perfeição inquieta da adolescência, queria se expor. De biquíni de bolinhas amarelinhas. 

sábado, 5 de setembro de 2026

Presente de grego

     

    Gosto de vir ao cachorródromo. É bom para distrair a mente, e a Bolinha se diverte. Ela chegou como um presente de grego de um ex-namorado. O romance não vingou, mas aquela bolinha de pelos ficou. 

        Tem gente nova no pedaço. Aquelas duas parecem confabular ali deitadas na grama, como se alheias ao mundo ao redor. Se pudesse haver diálogo, eis como o imagino:

    — Cadê os seus pais?

    — Estão ali conversando com aquela dona esquisita.

    — A de vestido florido?

    — Sim. Não é cafona?

    — Ah, é a minha mãe.

    — Sério?

    — Não, sua boba. Só queria ver a sua cara.

    Elas iriam gargalhar. Isso ajuda a fazer amizade nessa fase da vida. Três anos?

    — A minha mãe é aquela ali de blusa lilás.

    — Ah, que linda!

    Meu devaneio foi interrompido pela Lúcia, frequentadora assídua do cachorródromo. Ela veio me apresentar o Apolo, um galgo resgatado das corridas clandestinas. Um lindo cachorro, por sinal. Já pensei em ter um, mas creio que não seria uma boa ideia.

    — Por que não pega um pra você, Regina? Seria muito bom. Assim, a Bolinha teria companhia.

    — Não sei, Lúcia. Já estou cansada de cachorro, e a Bolinha já está velhinha. E quero viajar, preciso viajar. Se eu morasse em casa talvez pegaria. Apartamento é complicado pra mim.

    Parece que decepcionei a Lúcia. Ela fez uma cara, meu Deus. Depois sorriu meio de lado.

    — Regina, vou ali conversar um pouco com a Paula. 

    Não sei exatamente quando comecei a frequentar o cachorródromo, a Bolinha estava com dois ou três anos. Talvez menos, talvez mais. Realmente não sei. Hoje, a minha companheira beira os quinze anos. 

    Tanta gente já passou por aqui. Cachorros, então, nem arrisco a dizer quantos. Uns trezentos? Talvez mais. Ih, muito mais!

    Alguns desafetos. Nunca fui do confronto, prefiro observar, quase neutra. Porém, nunca fui com a cara da Fernanda. A velha riponga e seu vira-lata de pelo arrepiado. Será que ela desconfia? Não estou nem aí! Será?

    Volto os olhos para a menina e a buldogue, mas elas não estão mais ali deitadas, provavelmente confabulando. Eram reais ou apenas fruto da imaginação de uma velha? E pensar que a Lúcia ainda quer que eu pegue outro cachorro para criar. Na minha idade? Hum!

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Olhos amendoados de domingo

    

    Ronaldo foi acordado com a agoniante sensação de ter a pele da face arranhada por uma lixa.

    — Felícia, quer me matar do coração?

    Nenhuma resposta, apenas aquele rosto conhecido que lhe pareceu sorrir. Um sorriso irônico que deixou Ronaldo desconcertado.

    O homem se levantou, lavou a cara com a água gelada da pia. Olhou-se no espelho, não conseguiu disfarçar a insatisfação com a própria imagem. Melhor era começar o dia antes que o domingo se esvaísse.

    — Que tal uma sardinha, Felícia? 

    Ronaldo pegou a sacola e foi à feira. Comprou o de sempre: algumas frutas, um tanto de legumes e verduras. Parou diante da banca de peixe.

    — Meio quilo de sardinha, Joaquim.

    — É pra já, Ronaldo. Como está a Felícia?

    — Manhosa como sempre. 

    De volta ao lar, doce lar, Ronaldo foi recebido por uma impaciente Felícia. Apressou-se e, poucos minutos depois, lá estava a dengosa se deliciando com a iguaria. 

    O sujeito aproveitou o breve momento de folga, foi até a estante, pegou um livro de poemas, A verdade nos seres, de Daniel Marchi, e foi se sentar no sofá. Duas ou três páginas adiante, Ronaldo sentiu um roçar nas pernas. Ele fitou os olhos amendoados da Felícia, que o surpreendeu com um salto no colo. Que a leitura ficasse para outra hora, talvez o próximo domingo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Conselho de amiga

     

    Quase meia-noite. Larissa, no derradeiro parágrafo do capítulo, teve a atenção distraída pela luz do aparelho celular. Uma mensagem de Ana Lúcia.

"Oi! Acordada?"

    Voltou ao parágrafo, a concentração dissipada, a leitura foi deixada de lado.

"Larissa, acho que o Orlando está me traindo."

    Larissa não queria responder. Não àquela hora. Que ficasse para o dia seguinte.

    "Oi, Ana Lúcia."

"Eu te acordei?"

"Levantei pra fazer xixi."

"O Orlando está aprontando de novo. Sei que está."

"Tem certeza?"

"Absoluta!"

    Larissa, entediada, bocejou e balançou a cabeça como penitência. Por que foi responder? Ela já havia ouvido aquela ladainha outras vezes. Ressabiada, dava os conselhos que Ana Lúcia insinuava.

"O que você acha que eu devo fazer?"

"É um caso difícil, amiga."

"Separar não posso."

"É verdade."

"As crianças. Como é que os meus filhos vão viver sem a presença do pai?"

"Sim. Você tem razão."

"Você acha que deve perdoar o Orlando mais uma vez?"

"Creio que é o melhor caminho para manter a família unida."

"Ah, Larissa, muito obrigada. Nem sei o que seria de mim sem o seu apoio. Muito obrigada! De verdade, amiga!"

"Qualquer coisa, estou por aqui."

"Ah, muito obrigada, amiga! E me perdoe por mandar mensagem a essa hora. Mas você entende, né?"

"Vai ficar tudo bem, Ana Lúcia. Até amanhã."

"Até amanhã, amiga!"

    Larissa respirou profundamente, o que acabou despertando o homem que dormia ao lado. 

    — O que foi, amor?

    — A tua mulher. Você é mesmo um vacilão, Orlando.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Jeep, dinamite e tainha no verão de 1968/1969

     

    Dizem que essa história aconteceu no verão de 1968/1969. Teria sido protagonizada por dois cariocas suburbanos metidos a pescadores. Os dois, em uma noite praticamente sem estrelas, se aventuraram para o lado do Recreio. Pois é, dois homens, um Jeep, aquela tralha de pescaria e... dinamite.

    — Zé Alfredo, você tem certeza?

    — Tenho.

    — Tem mesmo?

    — Bem, o sujeito que me vendeu disse que funciona.

    — Hum! E isso não tem perigo de explodir?

    — Ele disse que é só não sacudir muito. 

    E lá foram os parceiros no Jeep pela estrada de terra esburacada. Se algo desse errado, era provável que o clarão iluminasse toda a mata em volta, que terminava na enseada. 

    — Pisa leve, Zé Alfredo! Desse jeito, a gente vai pelos ares no próximo tremelique.

    — Confia, Celso!

    — Confiar? Em você?

    — Por acaso já te meti em alguma fria?

    — Desde primário.

    Encobertos pelo breu, os dois homens chegaram sãos e salvos à praia deserta. Nem se deram ao trabalho de retirar caniços e molinetes. Estavam dispostos a testar outro método de pescaria.

    Retiraram com extremo cuidado a caixa de madeira contendo as três bananas de dinamite. Escolheram um ponto da orla que considereram mais provável da existência de um cardume. 

    — Será que isso funciona mesmo, Zé Alfredo? Está me parecendo uma loucura.

    — Calma, meu amigo. Já vamos descobrir.

    Zé Alfredo pegou uma dinamite, acendeu o pavio com o isqueiro e jogou a banana dentro d'água. Os amigos se olharam, algo pareceu dar errado até que um estrondo os pegou de surpresa.

    Lanternas em mãos, Zé Alfredo e Celso iluminaram a água. Um, dois, três, sete, quinze peixes boiavam. Rapidamente, eles entraram no mar, a água gelada, e pegaram as tainhas e os pampos. Colocaram tudo dentro da caixa de isopor com gelo.

    Escolheram outro ponto e repetiram o método. Oito peixes graúdos. O isopor quase lotado, Celso disse que queria tentar. Acendeu o pavio e fez a alavanca com o braço, mas a dinamite escapuliu e foi parar logo atrás na restinga. Assustados, os amigos correram em direção ao mar.

    A explosão levantou areia para todo lado. Depois do susto, os companheiros resolveram ir embora. Ademais, teria peixes para o mês inteiro. Juntaram tudo e, já saindo da estrada de chão, foram parados em uma blitz.

    Celso tremeu na base, enquanto Zé Alfredo, melhor ator que era, se fez de inocente.

    — De onde vocês estão vindo?

    — A gente estava pescando, seu guarda.

    — Pescando?

    — É.

    — E conseguiram pescar alguma coisa?

    — Algumas tainhas.

    — Hum... A minha esposa adora tainha.

    Zé Alfredo olhou para o Celso e, em seguida, meteu a mão dentro da caixa de isopor, que estava no assoalho entre os bancos da frente e de trás.

    — Pois aqui está, seu guarda. Aposto que a sua digníssima senhora vai adorar.

    — Família grande. Você sabe como é, né?

    Zé Alfredo fingiu novo sorriso, pegou mais três tainhas e as entregou para o militar, que agradeceu. E, antes de liberar os homens do Jeep, a autoridade lhes lançou um aviso:

    — Cuidado com os terroristas. Recebemos notícia de que eles estão agindo nesta noite. Estão jogando bombas por aí.

    Apesar do susto e graças ao suborno, Zé Alfredo e Celso conseguiram chegar bem aos respectivos lares. E os dois concordaram que era melhor retornarem ao velho método de pescaria. 

    Alguns anos se passaram e, então, Zé Alfredo disse que iria se mudar para Brasília. As pescarias ficaram para trás, mas a amizade permaneceu.

    — Mas por que Brasília, Zé Alfredo?

    — Vantagens econômicas.

    — Só isso?

    — Bem, o meu pai disse que terei maiores chances na carreira. Sem contar que ficarei livre de encrencas.

    — Encrencas? Como assim?

    — E ainda pergunta? Puxa, Celso, você só me mete em fria.

    — Eu?

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Duas rodelas de tomate e o santo

    Sabe, ela veio chegando de mansinho, quase me enganou. Quer dizer, não foi fácil percebê-la. A princípio, deixei de lado refrigerantes, o cigarro já havia abandonado quando os olhares de reprovação tomaram conta até dos botecos. Para você ver. Até dos botecos!

    Pizza, churrasco, bebedeiras sem fim. Tudo acabou. E coxinha? Ih, era a minha perdição. Nem me importava se já estivesse na vitrine espreitando algum desavisado há dias. Lá estava eu disposta a abocanhá-la, ainda mais quando era promoção. O óleo vencido escorria pelos cantos da boca. Que saudade!

    Hoje, quando muito, uma fatia de queijo magro e duas fatias de pão integral. Duas rodelas de tomate. Tomate orgânico, que não quero dar mole para agrotóxico.

    Pois é, eu soube. O Ernesto se foi. Pensei em dar uma passadinha no cemitério. Dizem que o velório encheu. Aneurisma, coisa de velho, mas andei pesquisando, pega os jovens também. 

    Não. Não é possível. Você tem certeza? Eu jurava que o Ernesto era mais velho do que nós duas. Ah, ele só era mais jovem do que eu? Sei... Mas a gente nunca sabe quando será a nossa vez, né, amiga? Vá que você já tenha encontro marcado com Santo Antônio antes de mim, não é mesmo?

    De vez em quando dá vontade de chutar o balde. Quanta crueldade ter que resistir a um brigadeiro. Será que dois ou cinco fariam mal? 

    Certo mesmo seria a gente ser avisada com pelo menos um dia de antecedência. Dois! Já pensou? Eunice, vai ser depois de amanhã às 18h43. Ih, eu não iria perder tempo! Faria um banquete só de coisas proibidas. E fumaria um cigarro atrás do outro. Se bobear, charuto. E encheria tanto a cara, que era possível até perder o rumo do Céu. 

    Creio que Santo Antônio entenderia se eu chegasse meia hora atrasada. Talvez um dia ou dois.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A culpa é de quem quiser

    Elvira era do tipo que sabia camuflar a culpa como poucas. Falava o necessário, quase tudo verdade. Evitava repetir, que a culpa ficasse com os outros.

    — Elvira, amiga, como você conseguiu suportar toda essa pressão?

    — É... Você pode me passar a manteiga?

    Quando se atrasava, não fazia alarde.

    — Meia hora, Elvira. Da próxima vez, vou ter que descontar do seu salário.

    — Bom dia, Osvaldo!

    — Ah, desculpe! Bom dia, Elvira. Tu vai ao churrasco?

    — Se me convidarem...

    — E não foi?

    — Acho que vai chover hoje. 

    Joaquim, o namorado, quis dar um perdido. No domingo. Acredita?

    — Cinema? Não vai dar, meu amor. Tenho que preparar uma reunião pra amanhã. O chefe pediu. Você sabe como é, né?

    — Ah, que bom, Joaquim.

    — Bom? Como assim?

    — É que finalmente poderei aceitar o convite do Leandro. Você acredita que ele adora cinema? E eu também. Você sabe, né?

    — Leandro? Que Leandro?

    — Ah, um amigo. Mas pode ficar tranquilo. Acho que ele é gay. Acho...

    Reunião adiada. Coisas mais urgentes em pauta. O filme foi bom; a pipoca, uma delícia, apesar do preço. Salgado!

domingo, 30 de agosto de 2026

A álgebra do vacilo

     

    Era tímido. Tão tímido que voltou os olhos para uma das raras coisas que lhe faziam sentido. Matemática. E como era bom com os números!

    Aos doze, foi convidado para uma gincana de matemática. Titubeou, mas foi convencido por sua professora.

    — Vamos, Rubens! Vai ser bom pra você e pra escola.

    O jovem conseguiu camuflar a falta de carisma com respostas certeiras. Além de abocanhar o prêmio individual do torneio, levou a sua equipe ao ponto mais alto do pódio.     

    Rubens ganhou fama local, chegou a ser recebido como herói. E esse foi o primeiro passo para a transmutação de acanhado para popular. Todos queriam se tornar próximos da quase celebridade da escola. 

    Logo após vencer a terceira gincana consecutiva, Rubens, agora com quinze anos, conheceu a melhor aluna de Língua Portuguesa e Literatura do colégio. Gláucia. Pois esse era o nome da moça que, ainda por cima, era engajada com pautas progressistas. Foi amor à primeira vista.

    O casal, para alguns improvável, viveu o apogeu durante um, dois, seis meses. Tudo parecia perfeito até que o Rubens pisou na bola. Sucumbiu aos encantos da Márcia, bela aluna da sala ao lado. 

    Os encontros furtivos acabaram sendo descobertos por alguém. A fofoca correu o pátio da escola com a velocidade da luz e acabou caindo nos ouvidos da Gláucia. Rubens, ao perceber a mancada, ainda tentou se desculpar.

    — Foi mal, minha flor.

    — Mal?

    — Você me perdoa?

    — O quê?

    — Você sabe como é, né?

    Gláucia, que de otária nada tinha, deu as costas para o aprendiz de Don Juan. Não teve conversa, Rubens ficou mal. Mal de verdade. E todos lhe deram as costas, inclusive a provocante Márcia. 

    Sem ter mais a quem pedir socorro, o rapazola foi chorar as mágoas no ombro da sua derradeira esperança: sua mãe. Ela, a despeito das probabilidades, ficou do lado da Gláucia.

    — Que vacilão você é, hein, Rubens?

    Rubens, desolado que estava, só queria colo. Entretanto, a mulher se fez de inquisidora.

    — Por que você foi fazer isso com a Gláucia? Homens... Estava se achando, é? Homens... E logo com a Gláucia, uma menina tão legal. Homens... Por quê? Vamos, Rubens, me responda! Por quê?

    — Por favor, mamãe, não me pergunte nada. Só fica comigo e me abraça. 

    Como um bebê chorão, chorou os bofes. Homens...

sábado, 29 de agosto de 2026

O pote da discórdia

    Joana e Lúcia, como de costume, tomavam chá de camomila com torradas. Terças e quintas, logo após saírem das puxadas aulas na academia do bairro. Ora na sacada da primeira, ora na ampla varanda da outra.

    — Tu viu o Erasmo?

    — Um gato.

    — Tem gosto pra tudo.

    — Tá interessada?

    — Ih! Deus me livre! E tu?

    — Eu?

    — Não, Joana, a minha avó.

    — Ela tem bom gosto.

    —  Tá ou não tá, Joana?

    — Essa geleia está deliciosa. Prove.

    — Hum... É mesmo. Comprou onde?

    — É da Amanda.

    — A mulher do Erasmo?

     É. 

    Lúcia encarou a amiga por um breve instante.

    — Pagou quanto?

    — Nada.

    — Nada?

    — Nada.

    — Ela te deu?

    — Nem falo com ela.

    Lúcia arregalou os olhos. Incrédula, quis saber como a Joana havia conseguido aquele pote.

    — Ah, ganhei.

    — De quem?

    — É uma delícia mesmo, né?

    — De quem, Joana?

    Joana passou uma generosa camada da geleia sobre uma torrada e, languidamente, levou a guloseima à boca. Deu uma mordiscada, passou a língua nos lábios e sorriu.

    — Hum... Que delícia! Isso é uma perdição, amiga. Vou precisar malhar muito pra não engordar.

    — Joana!

    — O que foi?

    — Foi o Erasmo?

    — Que delícia!

    — O Erasmo?

    — A geleia. Se quiser, consigo um pote pra você. Quer?

    — Hum!

    — De graça. Quer?

    — Quero.

    As mulheres se entreolharam. 

    — Tu não presta, Joana.

    — É verdade.

    As duas gargalharam.