terça-feira, 22 de setembro de 2026

O preço do café gourmet

    

    Geraldo não me chamou a atenção na primeira vez que o vi. Digo, talvez com uma nesga de remorso, que o achei feio. Melhor, não feio, mas desagradável. E não foi pelo dito, mas pelo olhar que julguei atravessado quando fomos apresentados no aniversário de um amigo em comum.

    Mal saí da festa, acompanhada por duas amigas próximas, fui enfática quando Lúcia e Rosa, já na calçada, começaram a tecer comentários elogiosos sobre aquele sujeito.

    — Vocês devem estar brincando.

    —  Como assim, Fabíola?

    — Aquele Geraldo é um horror, Lúcia.

    — Ah, me desculpe, mas ele é um tipão. Não é, Rosa?

    — Com certeza. Pena que está comprometido com a Márcia.

    — Com a Márcia?

    — Ué, Fabíola, ficou interessada agora?

    — Curiosidade, Lúcia, mera curiosidade.

    — Sei...

    Márcia Alves de Albuquerque. Uma metida desde os tempos de escola. Ela se achava a rainha da cocada preta. A safada me roubou o Lucas, meu primeiro namorado. Depois de alguns meses remoendo ódio por aqueles dois, tudo se evaporou em uma manhã de quinta ou sábado. Sobrou o rancor e nada mais. 

    Até hoje não sei o que me fez virar a chave em relação ao Geraldo. Quer dizer, sempre soube. Lindo, lindo, ele nunca foi, mas era o meu tipo, ainda mais depois que descobri que era o namorado daquela... Ah, da Márcia.

    Um olhar, talvez curioso, foi o primeiro sinal de que Geraldo estaria interessado em algo fora de qualquer coisa que ele tinha com a Márcia. Homens... Deixei os pudores guardados no fundo da gaveta de calcinhas beges e parti para o ataque. Não como guepardo naquela correria desvairada, mas como onça-pintada à espreita para dar o bote.

    Por um desses acasos tão corriqueiros em Brasília, encontrei o Geraldo no mercado aqui perto. Não necessariamente por acaso, já que ele mora no prédio em frente ao meu. Também notei que ele tem o hábito de fazer compras aos sábados, sempre por volta das três da tarde. E lá fui eu me fazer ser notada pela presa.

    Assim que entrei no mercado, fingi interesse em alguns produtos até que a minha visão lateral detectou o meu alvo. Lá estava o Geraldo na seção de café. Um apreciador da bebida nacional? E eu que o imaginava enchendo a cara para aplacar o desgosto de se relacionar com a Márcia. 

    Aproximei-me como se procurasse uma marca específica. Quando estava a poucos centímetros do Geraldo, dei aquela sacudidela nos cabelos, os meus fios negros lamberam o seu ombro. Será que ele sentiu o frescor da minha pele? Não sei, nunca lhe fiz tal pergunta. 

    Fixei meus olhos em um pacote e o tomei em minhas mãos.

    — Bela escolha.

    Certa de que ele se lembraria de mim, aguardei por míseros segundos. Nada. Nem sequer um olhar de que já havíamos sido apresentados. E não seria eu a entregar a isca de mão beijada.

    — O quê?

    — Adoro esse café.

    — Ah... É o que sempre levo.

    — Sou o Geraldo. E você?

    Ele estendeu a mão e esse foi o nosso segundo cumprimento no espaço de dois meses. Sorri simpatia, o que pareceu aguçar o desejo do homem. Já estava no papo, a questão, a partir daquele momento, era fazer com que aquilo não se tornasse apenas um caso.

    — Fabíola.

    Olhei para ele, inclinei levemente o rosto para o lado e sorri. Como foi bom todo aquele sofrimento usando aparelho nos dentes durante a adolescência. Obrigada, mamãe. Obrigada, Dr. Fabrício. Em seguida, eu me despedi com um breve aceno, fui em direção ao caixa e descobri que café gourmet é caríssimo.

    Passei o resto do dia aprendendo sobre café, quais os tipos, como preparar sem deixar aquele gosto de queimado. Ih, quando fui me deitar, já me sentia a maior especialista no assunto. E o meu paladar se tornou mais exigente, tanto é que, já na semana seguinte, não suportava o café do meu trabalho. 

    — Fabíola, tu é mesmo uma fresca!

    — Desculpe aí, Soraia, não é todo mundo que nasce com bom gosto.

    Soraia, a minha chefe, me olhou de cima abaixo. Por que fui falar aquilo? Ah, por que se lamentar depois que o leite foi derramado? Por sorte, ela sorriu. Na certa, melhor atriz do que eu. Ih, muito melhor!

    Para apaziguar qualquer possível desavença, no dia seguinte, levei um pacote do meu precioso café gourmet para a Soraia. 

    — Não é que você estava mesmo certa, Fabíola?

    — Não disse?

    — Pois é, Fabíola, disse mesmo. Não é à toa que você é a minha cretina favorita.

    Cretina favorita? Foi aquilo mesmo que ela disse? Foi aquilo mesmo que chegou sem qualquer pudor aos meus ouvidos? Sorri e as pazes pareceram seladas. 

    Emprego salvo, voltei a me concentrar no meu objetivo: roubar o Geraldo da Márcia. E o próximo passo se deu no sábado seguinte quando, por acaso provocado, esbarrei novamente com o meu alvo no corredor do café gourmet. Entre sorrisos, trocamos dicas sobre o preparo dessa bebida dos deuses africanos. 

     Durante a semana, tentava ao máximo manter a mente focada no serviço. Como é difícil deixar de pensar em algo que desejamos para não perder o nosso ganha-pão. Seja como for, resisti até o quinto encontro fortuitamente calculado no mesmo mercado ao sabor de café gourmet. 

    — Fabíola, há tempos quero te fazer um convite.

    — Convite?

    — É.

    — Que convite é esse?

    — Quero preparar uma xícara de café.

    — Hum...

    Antes que você imagine que sou do tipo fácil... Bem, a verdade é que o Geraldo me preparou não apenas uma xícara, mas um bule inteiro de café gourmet antes de nos entregarmos aos prazeres da carne durante meses. E aconteceu de uma maneira inesperada, pelo menos para mim. 

    — Fabíola, estou apaixonado.

    — Mas e a sua noiva?

    — Eu quero deixá-la. Eu te amo de verdade.

    — Não. Não faça isso. 

    — Mas...

    Como foi bom colocar a ponta do meu indicador nos lábios do Geraldo. Já vi isso em alguns filmes e sempre quis fazer o mesmo. Provoca um sentimento de poder. E não quero perder isso. Amo roubar o gosto gourmet daquela boca. E haja café para sustentar tanta disposição.

domingo, 20 de setembro de 2026

Floreando o pavão

    

    Ando solteiro desde que resolvi dar um tempo na relação. O que estou fazendo? Por que florear o pavão quando já se tornou notório que foi a Laura que colocou o ponto final no namoro?

    Depois de ser dispensado, escorraçado, quase açoitado como se fosse um cachorro sarnento, acho que a notícia ultrapassou a barreira dos conhecidos. Se digo isso é porque, não raro, quando caminho a passos cautelosos pela cidade, sempre me deparo com sorrisos de Monalisa estampados em rostos estranhos. Como sabem que eu sou eu? Teria a minha fotografia saído nos jornais?

    Churrasco na casa do Luiz. Sujeito bacana. Tem lá seus defeitos. E quem de nós não os carrega? Um chato! Isso é o que ele é. Mas o churrasco é de primeira, a cerveja sempre gelada. Eu fui. A minha situação não me permite desprezar qualquer oportunidade, por mais mísera que seja, para descolar uma gata. Na verdade, nem precisava ser tão linda. Alguém que soubesse fingir estar apaixonada por mim. É pedir muito, meu Deus?

    Cheguei quando a festa já estava embalada. O receio de encontrar a Laura... Pior seria encontrá-la com outro. No entanto, consegui relaxar logo em seguida a um interlúdio com a Amanda, esposa do Luiz.

    — Não, Rubens, a Laura não veio. Acho que não vem. Saudade?

    — Eu? Não, não. Perguntei por perguntar.

    Amanda sorriu como se fosse a famosa pintura do Leonardo. Boba ela não é. Mulheres... 

    Entre um gole e um naco de carne, conheci a Solange. Simpática, sorridente, parecia meio deslocada. Prima de uma amiga de uma convidada. Lúcia? Ana Lúcia? Maria Lúcia? Sei que era Lúcia. Não importa. Algumas doses de tequila deixaram a Solange, digamos, acessível. 

    — Rubens, né?

    — Sim. 

    — Tu é amigo da Amanda ou do Luiz?

    — Dos dois. Quer dizer, conheço o casal por conta da minha ex-namorada.

    — E ela está aqui?

    — Não.

    Quando acabei de dizer isso, eis que a Laura, mais exuberante do que nunca, chegou de mãos dadas com um tipo qualquer. Olha eu aqui fazendo de novo. Um galã. Droga! Para piorar, ela me viu e acenou com aquela cara de vencedora. Como azar pouco é bobagem, eis que a Solange, a simpática Solange, vomitou até os bofes sobre a minha cara. Que derrota!

    Sem ter muito o que fazer, eu me limpei como deu. O Luiz até me ofereceu uma blusa, mas preferi recusar a gentileza. Agradeci e fui embora. Ah, como a solteirice humilha a gente!

sábado, 19 de setembro de 2026

Torrão de açúcar

    Saudade da minha infância. Saudade verdadeira, sem as afetações do Casimiro. Aos vinte e um, estava eu apaixonado pela vida, sem tempo para remoer o então passado entre correrias na rua e no parquinho, soltando pipa, jogando bola e tantas outras brincadeiras.

    Minha adolescência... Passei esse calvário meio que fugindo dos valentões até que resolvi enfrentar os meus medos. Apanhei. Ih, como apanhei! E as pancadas foram me moldando, a revolta tomou conta do meu âmago, como se eu pudesse me transformar em Bruce Lee. Tolices, logo percebi. 

    Cheguei a maquinar planos, pensei em fazer besteiras, mas a providência, talvez divina, me impediu de cometê-las. Ainda bem! Há coisas que não devem ser postas em prática. Sabe, creio que eu não duraria um dia sequer na prisão. Quem sabe, dois ou três. No máximo.

    Casei aos trinta. Hoje, ao olhar para aquele jovem, eu talvez lhe dissesse para esperar alguns anos. Se fosse mesmo sina, creio que não faria muita diferença. Nem sei se eu seria feliz ao lado da Joana. Provavelmente não. Será que conseguiria evitar ser o crápula que fui com aquela mulher? Pobre Joana, suportou tamanhas cretinices do marido.

    E os filhos? Quanto tempo desperdiçado em reuniões infindáveis, confraternizações no trabalho para receber aquele aumento esperado... As crianças logo cresceram sem que eu soubesse o que desejavam ser.

    Os netos chegaram de repente. E eu prometi ser um avô presente. Ranzinza, foi isso que me tornei ou, então, nunca deixei de ser. Não suportava a algazarra dos meninos, que naturalmente se afastaram. E quem não faria o mesmo?

    A vida é um torrão de açúcar na panela. Se nos distrairmos, ela queima e fica amarga.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Maré cheia, pneu furado

    Dia desses ouvi que luto é que nem maré. Tem vez que vem carregada de emoções, tudo incontrolável, mas que, no momento seguinte, esvazia igual a pneu furado.

    Gente da minha idade já deveria estar calejada com perdas. Não é bem assim. Perdi a minha esposa há seis meses. Lúcia. Lúcia Maria de Almeida e Silva. Sessenta e oito anos, cinco a menos do que os que me acompanham hoje. 

    — Aguente firme, Amauri. Daqui a pouco, só as boas lembranças ficarão. Vai por mim, meu amigo, sei como é. 

    — Amauri, meu querido, esse é o destino de todos nós.

    — Deus chamou a Lúcia. Não há o que fazer, Amauri. É aceitar os desígnios de Deus.

    Como odeio essas frases de consolação. Antes ficassem todos calados. Por que ninguém parece entender que há momentos de apenas estar e pronto. Quietos. Bem quietos. Quietinhos e pronto. Mas não! Insistem nessa maré cheia, impiedosamente cheia de palavras vazias, palavras que só aprofundam ainda mais as feridas dolorosamente expostas.

    Vida. Morte. Vida inútil. Não é por estar caminhando para a linha de saída da própria existência que irei florear o vazio que vivi desde sempre. Filho ingrato, irmão egoísta, amigo ausente, marido pífio, profissional medíocre. Não tinha como deixar de me tornar este velho ranzinza e frustrado. Quantos sonhos imaginados, todos deixados de lado. Vida ridícula e facilmente esquecível. 

    A pouca coragem que desfrutei pertencia toda ela à Lúcia. Lúcia Maria de Almeida e Silva. Que se fez de poeta quando o mundo a chamava de dona de casa. Um ou outro, talvez por amizade, a dizia poetisa.

    — Não, Rômulo, poetisa não sou nem nunca fui. Poeta. Poeta sim, antes mesmo de arriscar a primeira estrofe. 

    Lúcia era assim. Despachada. Sem subterfúgios para dizer o que tinha que ser dito. Não cansava de reclamar da minha passividade perante qualquer possibilidade de imbróglios.

    — Amauri, meu amor, por que você insiste em guardar suas falas? Do que você tem medo? Da vida?

    Ela me olhava, sabia que não ouviria resposta. Sorria com aqueles dentes lindos, os lábios torneados, os cílios negros ornando seus olhos escuros. E eu ali parado, sem saber o que fazer. Ela me abraçava, e isso me confortava.

    Do que eu tenho medo? De tudo. Queria eu não ser assim. Covarde é o que sou. Por que foi se casar com um tipo como eu, tão desprovido de audácias, Lúcia? Lúcia Maria de Almeida e Silva.

Nota de esclarecimento: O conto "Maré cheia, pneu furado" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 18/9/2026.

https://www.notibras.com/portal/brasilia/mare-cheia-pneu-furado/

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Quase dilúvio

     

    Chuva. Está chovendo há dias. Três, quatro, trinta? Que até as plantas já não aguentam. Daqui a pouco, todos morreremos afogados.

    — Desde quinta passada, senhor Afrânio. Não se lembra?

    Carlos, o porteiro, me colocou a par da situação. E desde quando me importo se começou quinta, sexta, o escambau? Aposentado! Que todos os dias se transformem em uma eterna segunda-feira. Quero mais é ver a cara do povo nos pontos de ônibus. Tudo lotado, e eu livre, leve e solto. Mas essa chuva...

    — Afrânio, eu adoro esse barulhinho gostoso. Dá aquela vontade de dormir.

    Zélia, a vizinha do 608. Que vá arrumar algo para fazer. Nessa idade, por que não morre? Isso me livraria do barulho dos netos da velha. Aquelas pestes só provocam algazarras.

    Preciso entrar no regime ou comprar roupas novas. Essas já não me cabem. Chuva. Tudo culpa dessa maldita chuva. Ficar em casa atiça a gula. Um pãozinho com manteiga, uma bicada no café com leite. E para quê? Só engordo, engordo e nada mais. Não há dieta que resista a essa chuva. Já deu, São Pedro!

    — Senhor Afrânio, deu no rádio que vai até o final de semana.

  Carlos novamente. Antes fosse cuidar da portaria em vez de ficar ouvindo notícias inapropriadas. 

    — Tem certeza?

    — É a previsão. Talvez avance um pouco durante a semana.

    — Hum! Chega! Já deu!

    Por pouco não mandei o Carlos para as cucuias. Mandei, mas em pensamento. Já deu, São Pedro. Já deu!

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O silêncio de Joana

    Ernesto sentia conforto na solidão. Não era bruto com parentes, amigos, conhecidos, desconhecidos e até visitas de última hora. A todos recebia com um quinhão de condescendência. Todavia, era na solidão que se sentia confortável.

        Confortável para agir do seu jeito, conversar do seu jeito com as plantas e os objetos que, vez ou outra, se tornavam caros. Um colar, um relógio de bolso antigo, uma caneta com o nome do saudoso avô grafado, uma onça-pintada de pano, presente de sua filha Mariana.

        Sentado em uma carcomida cadeira de balanço na sacada do minúsculo apartamento, Ernesto preferia as horas em que a cidade adormecia. Não por completo. Era quando as coisas aconteciam, mesmo que camufladas pela escuridão. 

        Xícara de paciência nas mãos, Ernesto roubava-lhe um pouco do calor. Não muito. O frio lhe dava a certeza de que a vida não é perene. Bebericava de tempos em tempos, tragava o cachimbo teimoso que insistia em apagar. 

    — Era só o que me faltava, Joana.

    Ernesto fingiu rigidez, como se esperasse ao menos um breve aceno das folhas da samambaia. Nada. O vento se recolhera cedo. 

    — Bem que aquela dona da floricultura me disse que orquídeas são falantes. Geniosas, é verdade, mas nunca nos deixam soltar lamúrias sem respostas. Pelo menos me escuta, Joana? Hum! Que as rosas não falam, isso sempre soube. Mas samambaias? Rosas, Joana, ao contrário de você, dão flores.

        O homem esboçou um sorriso discreto. Monalisa? Puro cinismo da autossuficiência.

    — E você, Gerânio? Quando vai estancar tanto gerundismo? Sei, sei... Coisa de família. 

    O cachimbo firmou, a fumaça tomou conta do local, mas logo se esvaiu. Joana pareceu ganhar um tanto de vida. Brisa, leve brisa. Ainda assim, brisa.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A última viagem de Quinca

     

    Quinca, perto de completar oitenta anos, tomou um baque. Câncer, disse o médico. E do tipo agressivo, sem muito ter o que fazer. Diante do prognóstico desfavorável, teve a conversa mais franca e breve com a esposa.

    — Vou morrer.

    — Todos vamos um dia, meu amor.

    — Não, Lúcia. Quer dizer, sim.

    — Então?

    — Câncer.

    — Câncer?

    O casal se olhou e o abraço tentou confortá-lo. Não houve lágrimas ou lamúrias. Todos morrem um dia, apesar de ninguém parecer suficientemente preparado quando se dá o início da contagem regressiva.

    Não demorou para que Gilberto, o único filho, soubesse da notícia. Foi como se um impiedoso trator devastasse todas as lembranças da sua infância. Talvez isso tenha impulsionado o sujeito a fazer uma proposta, mas que ele já estava certo de que a resposta seria um sonoro não.

    — Aceito! Quando vamos? Hoje? Amanhã? Quando? Quando?

    Uma viagem para Porto Seguro. O local não poderia ser outro, pois fora ali que Cabral teria desembarcado no que seria o início do Brasil.  Não necessariamente uma verdade, mas era isso que constava nos livros de história. Estória que seja. 

     Gilberto, pego de surpresa, desde menino convivia com o pavor do seu velho de voar: "Meu filho, se Papai do Céu quisesse que o homem voasse, teria nos dado asas e não braços."

    Foram de avião. Voo direto de Brasília para Porto Seguro. Dona Lúcia preferiu ficar, já que percebeu que aquela aventura precisava ser vivida pelo marido e pelo filho. 

    O trajeto que seria de pouca coisa além de hora e meia durou quase oito. Culpa da chuva torrencial que não deixou o avião pousar em Porto Seguro. O bom é que Quinca não parecia ter pressa de nada, muito menos de morrer. E foi nesse clima que pediu uma caipirinha, depois mais uma e, para rebater, jogou goela abaixo um martíni. 

    Assim que Gilberto e seu pai pisaram no Hotel Casa Blanca Porto Seguro, se depararam com os amigos Antônio e Zé Mineiro. Uma surpresa para Quinca, que nada sabia da tramoia do filho com a dupla. Surpresa agradável.

    — Vocês por aqui?

    — Pois é, seu Quinca! O Gilberto não te falou?

    — Que nada, Zé! O meu filho mal grunhe, imagina falar.

    Depois de um dia inteiro de conversas, os quatro homens tomaram a saideira em frente à piscina. A mente inquieta de Quinca divagava sobre o tempo que ainda lhe restava.

    — E, então, rapazes, o que vamos aprontar amanhã?

    Antônio pareceu entender aquelas palavras como um chamamento para estripulias.

    — Bem, seu Quinca, conheço um lugar, digamos, familiar. O Bar da Bibi Perigosa.

    — Familiar? Antônio, por favor, olha onde você vai levar o meu pai.

    — Fica quieto, Gilberto! Quero ouvir a proposta do Antônio.

    — Mas, papai...

    — Gilberto, fica quieto! Já falei! Quem está morrendo aqui sou eu. Prossiga, Antônio, antes que alguém me enterre. 

    Sem argumentos que pudessem demover o pai da ideia de conhecer o suposto inferninho, Gilberto tratou de arrumar uma maneira de salvar a alma do genitor. Pois rezaria quantas rezas fossem necessárias, mesmo não sabendo nenhuma de cor. E faria de tudo para que aquela história jamais fosse apresentada aos ouvidos praticamente santos de sua mãe.

    Já devidamente instalado no quarto, Gilberto observou o pai. O senhor parecia mais contente do que de costume. O jovem, encucado, não sabia se aquele torpor era por causa da bebida ou por conta da perspectiva de o velho estar prestes a conhecer a tal Bibi. 

    Quinca pegou uma toalha e se dirigiu ao banheiro. Assim que Gilberto ouviu o barulho da ducha ligada, ele tratou de pegar o aparelho celular e fazer uma busca na internet para saber mais sobre o Bar da Bibi Perigosa. Isso o encheu de angústia, enquanto o pai, apesar da controversa afinação, se fazia de Cauby e cantava Conceição debaixo do chuveiro.

Conceição

Eu me lembro muito bem

Vivia no morro a sonhar

Com coisas que o morro não tem

 

Foi então

Que lá em cima apareceu

Alguém que lhe disse a sorrir

Que, descendo à cidade, ela iria subir

 

Se subiu

Ninguém sabe, ninguém viu

Pois hoje o seu nome mudou

E estranhos caminhos pisou

 

Só eu sei

Que tentando a subida desceu

E agora daria um milhão

Para ser outra vez Conceição

        Gilberto, enquanto ouvia a interpretação do pai, já nem sabia o que era certo ou errado. Antes de chegar a uma conclusão, adormeceu.

    Por volta das nove horas, com o Sol mostrando quem é que manda na Bahia, Quinca, Gilberto, Zé Mineiro e Antônio, sentados em frente à praia, confabulavam lorotas. Zé Mineiro, certamente o mais amigo das inverdades, contava causos vividos por outrem como se fossem seus, além de dois ou cinco inventados. Todos riam, mesmo que desconfiassem à vera que aquilo tudo não passasse de criações de uma mente embusteira. 

    Entre um petisco e outro, os companheiros nem perceberam a hora passar. Foi então que o Quinca se lembrou:

    — E aí, Antônio, eu vou ou não vou conhecer essa Bibi Perigosa?

    — Ih, seu Quinca, eu até tinha me esquecido. O senhor quer mesmo ir?

    — Hum! É óbvio! E que seja antes de São Pedro me chamar.

    — Do jeito que a coisa vai, pai, acho que o senhor vai conhecer é o Capeta.

    — Cala essa boca, Gilberto! Ou você quer me matar antes do sol se pôr?

    Algumas trocas de farpas adiante, lá foram os sujeitos para o afamado Bar da Bibi Perigosa, entranhado na Mata Atlântica. Mal entraram no recinto, foram recebidos por uma mulher de seus sessenta anos, no limite entre a beleza e o atrevimento, sorriso maior do que a cara. Impossível não se simpatizar com ela. Quer dizer, o Gilberto, o ressabiado da patota, ficou com um pé atrás com a dona do lugar. Entretanto, como era minoria, achou por bem ficar mudo.

    Bibi serviu o melhor peixe frito da região. Tão bom, que até o ranzinza do Gilberto teve que dar o braço a torcer. E o Quinca, encantado e curioso que estava, não resistiu e fez uma pergunta que deixou a todos boquiabertos:

    — Bibi... Posso chamá-la assim?

    — Sim, Quinca. É assim que todos me chamam.

    — Estou encucado com uma coisa.

    — Pois diga logo, homem, que a vida é muito curta para ser protelada.

    — Por que te chamam de Bibi Perigosa?

    — Bem, meu caro Quinca, isso é uma longa história. Mas pode ficar tranquilo, há muito tempo não sou tão perigosa assim.

    Todos caíram na gargalhada, o que não impediu o Gilberto de continuar com a incômoda pulga atrás da orelha. Entretanto, com o passar dos dias e diante do carisma da Bibi, até o resmungão foi perdendo a carranca. E, quando chegou a inevitável hora de se despedir, fez questão de, sorrateiramente, ir até o Bar da Bibi Perigosa. Mas eis que ele se perdeu e, depois de horas na mata, finalmente encontrou o local, que já se encontrava fechado. 

    Gilberto, todo suado, parado diante do bar, chamou pela dona. Nada. Bateu palmas. Nenhuma resposta. Já quase desistindo, percebeu uma porta entreaberta na lateral e, tomado de certa intimidade, entrou. Foi quando ouviu um som vindo de um dos quartos. Ele caminhou alguns passos e, já na entrada, quase caiu para trás.

    — Pai?

    Lá estava o Quinca aos beijos e amassos com a Bibi Perigosa.

    — Filho, calma! Posso explicar.

    Como não havia explicação para dar, ao menos uma que valesse a pena ser inventada na hora, Bibi tomou a palavra:

    — Olha aqui, Gilberto, não há mais crianças na sala. Então, o lance é o seguinte: aconteceu. Simples assim. E que isso fique aqui no meu bar. E que jamais chegue a Brasília. Estamos entendidos?

    Dois meses se passaram. O velho Quinca fechou os olhos pela última vez. Gilberto ainda carrega consigo a dúvida se o seu pai conheceu São Pedro ou foi na outra direção. Dona Lúcia, todavia, dorme com a certeza de que o marido só pode estar no Céu.

Nota de esclarecimento: O conto "A última viagem de Quinca" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 15/9/2026.

https://www.notibras.com/portal/brasilia/a-ultima-viagem-de-quinca/

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ânsia e tédio

    

    Papai era complacente, mamãe nunca foi de florear opiniões.

    — Antônio, a tua filha é cheia de vontades.

    — Desejos, Eleonora, desejos. A nossa Roberta apenas possui desejos. E quem de nós não os tem aos montes?

    Não sei se meu pai era ingênuo ou, então, apenas buscava desculpas para justificar o que preferia não enxergar na única filha. De certo modo, eu me aproveitava dessa situação. Fingir bondades onde só existia egoísmo.

    — Papai, que cachorro é aquele?

    — O pretinho ou o malhadinho?

    — O pretinho.

    — Ah, aquele é um poodle.

    — Que fofinho, né, papai?

    — Muito.

    — A gente não pode ter um, né, papai?

    — E por que não? Vou conversar com a sua mamãe.

    Depois de dias de embates, papai conseguiu dobrar a minha mãe. 

    — Antônio, eu é que não vou cuidar de bicho.

    — Pode deixar, Eleonora. A Roberta e eu cuidamos.

    Não que isso não fosse verdade, mas não durou uma semana. E nem culpo a Fifi, a nossa poodle pretinha. Que tomar conta de cachorro! Passear, dar ração, dar banho... Meu pai abraçou a causa com o costumeiro sorriso estampado no rosto.

    Fifi, um trenzinho elétrico, uma infinidade de bonecas, aquela ânsia de ter e o tédio de possuir. E isso não ficou na infância. Quando os hormônios afloraram, minha mãe foi enfática:

    — Antônio, a sua filha vai dar trabalho.

    — É apenas uma fase, Eleonora. Logo, logo a nossa menina se apruma.

    Márcia, apaixonada por Fernando, foi a minha primeira vítima. Inocente, a garota me contou detalhes sobre o rapaz. Aquela língua descontrolada despertou em mim o desejo de lhe roubar o namorado. Que cada uma fique com a parcela de culpa que lhe convém. 

    Não discuto que Márcia era, já aos quatorze anos, mais bela e atraente do que eu. Entretanto, as suas curvas eram carentes de malícia, algo que sempre me acompanhou.

    Depois de vários beijos, incluindo alguns avanços que prometiam eternidade, dispensei o Fernando. Em prantos, o garoto implorou que reatássemos. Sem muita escolha, tomei o caminho mais digno: menti.

    — Meu querido, eu até queria, mas minha mãe proibiu. Ela disse que sou muito nova para namorar. 

    Mamãe jamais se meteu na minha vida amorosa, ciente de que não havia rédea capaz de me nortear. Barco desordenado, era assim que me chamava. 

    Fernando, Álvaro, Luís Paulo, Francisco, Hélio, Sebastião, Matias, Tenório... O que salva um pouco a minha reputação é a parca memória dos que me rodeiam. Joaquim, Júlio César, Pedro, Gustavo, José Carlos... Amores fugazes. Aos montes. 

    Por ironia do acaso, durante uma viagem a Salvador, entrei em uma sorveteria onde se encontrava a Márcia. Nem sei se ela me reconheceu ou aprendeu a arte da dissimulação. Melhor assim, pois sou péssima com amizades repetidas.

    Márcia parecia feliz com as generosas colheradas de sorvete que levava à boca. Sentada a duas mesas à esquerda, discretamente perguntei à garçonete qual era aquele sabor.

    — Pistache, senhora.

    — Pistache? 

    — Sim.

    — Hum... Pois quero um igual.

    Não esperei mais do que alguns minutos até a jovem retornar com uma taça com o tal sorvete. Agradeci. Esperei que ela saísse de perto e, então, encarei aquela iguaria até que, atrevida como sempre fui, dei uma colherada e a levei aos lábios. Saboreei até que fiz um sinal para a garçonete, que logo retornou.

    — Algum problema, senhora?

    — Traga-me um de uva.

    — Não gostou do sorvete de pistache?

    — Enjoei.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A beleza que nunca tive

    A beleza, dizem, está nos olhos de quem vê. Meu cachorro me ama! Ele costuma esfregar o focinho nas minhas mãos, como se quisesse extrair o máximo do meu ser. O problema que vejo nisso é um tanto constrangedor. É que o Pancho parece ter fetiche por carniça, haja vista as incontáveis vezes em que o flagrei se esfregando em algum animal morto. Pior, quanto mais fedida, mais o meu companheiro se enche de entusiasmo.

    Minha mãe, talvez por não ter o olfato apurado do Pancho, vez ou outra, se desculpa pelos genes que herdei.

    — Edson, você entende, né? Milhões e milhões de possibilidades, a combinação não deu muito certo no seu caso. Mas eu te amo, viu? 

    Não duvido do amor da minha mãe. Digo até que, no caso dela, seja algo tão entranhado, muito mais do que mero vislumbre pelo belo. Diante da incongruência com a beleza, mamãe afaga a feiura que produziu. Carregada de remorso, porém, ela está ali, firme, não arreda o pé.

    Simpatia. Esse foi o caminho que decidi trilhar quando cheguei aos vinte anos. Livre das espinhas, apesar de ainda carregar as marcas que elas imprimiram no meu rosto, fiz de tudo para extirpar qualquer sentimento mesquinho que, porventura, cismasse em rondar a minha mente. Tornei-me, creio, um tipo entre apaziguador e conselheiro. E foi assim que, logo após Ludmila se embebedar por uma desilusão amorosa, me ofereceu seus lábios pela primeira vez. 

    — Te amo, Edson.

    Tal frase não carecia de honestidade. Há momentos na vida em que nos empolgamos, seja por falta de algo ou desilusão. E Ludmila estava carente de tudo. 

    O romance, se é que posso chamar assim aquilo que tivemos, não durou mais do que duas ou três ressacas. Todavia, foi o suficiente para que um certo orgulho se fizesse presente no meu coração. Por pouco, quase deixei tudo a perder até que voltei a fingir a simpatia calculada.

    Arlete, colega de trabalho, desiludida com o casamento, encontrou em mim o ouvido perfeito. Pacientemente, escutei todas as lamúrias daquela que se tornou a mulher da minha vida durante o verão de 1982. E ela me pareceu perfeita, tantos carinhos, beijos atrevidos que jamais imaginei possíveis. 

    Tudo perfeito, até que Arlete, do nada, logo após uma tórrida noite de amor, despertou, me fitou com aqueles lindos olhos castanhos e foi acometida por uma sinceridade desnecessária:

    — Edson, meu amor, mas tu é bem feinho, hein!?

    Acabou ali. 

    Elaine, Rosana, Marcela, Rita, Ana Flávia, Zenaide... Ah, Zenaide! Que saudade dos seus afagos. Roberta, tão impetuosa. Vânia, Letícia, Ruth, Gertrudes, Maria de Fátima... Recordações que me consolam nas noites solitárias. 

    A velhice chegou e não me levou a beleza que nunca usufruí. Digo até que eu me acostumei com o reflexo que cisma em aparecer no fundo do espelho quando resolvo me barbear. Pra quê?

domingo, 6 de setembro de 2026

O quarto da bagunça

  

    Clara adiou o quanto pôde, muito além do que imaginara. No entanto, quase seis meses depois de se aposentar, decidiu que já estava mais do que na hora de arrumar a tralha acumulada durante anos no quarto da bagunça. Mal abriu a porta, foi como se tivesse entrado no túnel do tempo.

    A mulher deu uns tapas no velho álbum de fotografia. A camada de poeira ganhou o mundo. Quais segredos aqueles retratos guardariam?

    Uma viagem ao Rio de Janeiro em 1973. Ainda solteira, Clara ficou deslumbrada com as belas praias e a ousadia de algumas cariocas. Desejou imitá-las, mas era carente de coragem para expor o próprio corpo. Um maiô discreto e nada mais.

    Depositou o álbum ao lado de uma pilha de livros. Lá estava um exemplar de Clarissa, de Érico Veríssimo. Ela o acolheu entre os seios, talvez como recordação de um amor adolescente.

    Luciano. Alto, esguio, cabelos desalinhados, olhos tão escuros e cheios de segredos. O sorriso com aparelho, algo caro para a época. Clara, aos treze anos, se sentiu, de alguma forma, atraída pelo rapaz. Amor platônico como outros tantos que teve. Por onde andaria o Luciano? Teria, ao contrário dela, se casado? Provavelmente já era avô e ganhara alguns quilos. Certamente, os dentes estavam livres do aparelho há muitos anos. 

    Um vinil da trilha sonora da novela Estúpido Cupido. Clara havia ganhado aquele disco de sua avó Mariana. Ouviu Meu mundo caiu até furar o disco. Não furou, mas quase. 

    A coleira da Princesa, a vira-lata ranzinza, porém grande companheira nas madrugadas de fossa. Clara, deitada no sofá da sala, a cabeça da cachorra sobre o seu ventre, ao som de Maysa. 

    Clara nunca casou, apesar do quase desespero da mãe. E Luciano teria se casado? Como adolescente, a mulher deixou-se invadir pelos sonhos. Sorriu.

    Fechou a porta do quarto e foi preparar café. Uma xícara apenas. Pegou um pouco de conhaque e despejou duas doses. Amanhã retornaria àquela montanha de lembranças. Melhor, iria ao clube. Longe da perfeição inquieta da adolescência, queria se expor. De biquíni de bolinhas amarelinhas.