— Sai da frente, Jonas!
Esse aí que acabou de
gritar é o Almeida, um dos meus colegas aqui no supermercado. Ele é repositor,
vive transitando entre os corredores, tem paciência de boi de rodeio. Não chega
às vias de fato, pelo menos nunca o vi envolvido em contendas físicas, parece
que esse modo de ser é consequência da brutalidade da pobreza.
Tirando o dono do
estabelecimento, que vi uma ou duas vezes nesses quase cinco anos de casa,
todos por aqui não nascemos em berço de ouro. Isso não parece impedimento para
um ou outro se sentir superior ou, então, não se misturar. Não os culpo,
tampouco lhes concedo perdão, seja pela falta de poder, seja por compaixão.
Luana, cuja miséria foi
incapaz de arrancar-lhe toda a beleza, é uma das mais simpáticas. Simpática com
todos, na verdade, o que me deixa, de certo modo, enciumado. Se estou agindo
como um tolo, talvez, prefiro imaginar que sou estrategista da própria sobrevivência,
ou melhor, da sanidade que me resta.
Já pensei em chamar
a Luana para um sorvete. Creio que ela iria rir da situação, pois é responsável
por esse produto aqui no mercado. Não, sorvete não. Melhor seria um cinema, mas
o preço da pipoca é um horror. Qualquer hora a convido para ver um filme lá em
casa, e deixa que a pipoca eu faço. Pelo menos não precisarei fazer um vale com
o gerente.
Gosto do Marco Antônio.
Não a ponto de dialogar mais do que os breves momentos de descontração durante
as pausas para o almoço. Percebo que ele sempre mastiga mais do que todos, os
olhos perdidos ou em busca de algo. Será que ele sempre foi um dos nossos ou,
não duvido, o pai ou o avô foi um herdeiro incauto? Talvez seja o seu jeito
mesmo e se apegue ao devaneio para escapar, ao menos por um instante, desse
labirinto que nascemos.
Dia desses, o Marco
Antônio puxou assunto comigo. Deve ser porque nossos olhos se cruzaram. Tentei
disfarçar, fiz cara de atento a algo qualquer. Não colou.
— Jonas, tu gosta de
Sartre?
Sartre? Não fazia
ideia do que seria. Por sorte, Carlos, o gerente, me arrancou daquela sinuca.
— Jonas, estamos com
problema com os frios. Vá lá agora.
Sartre. Jean-Paul
Charles Aymard Sartre ou, como Marco Antônio disse, simplesmente Sartre. Ele
foi... Precisei decorar algumas coisas sobre esse sujeito, que foi filósofo
existencialista, enquanto eu só estou tentando sobreviver neste mundo. Ele teve
um caso com uma tal Simone de Beauvoir. Na verdade, a Luana é mais bonita,
pelo menos é o que eu acho. Se bem que o Sartre parece ter tido mais sorte do
que eu. Será que a Luana aceitaria ser a minha Simone?
No dia seguinte,
enquanto mexia em presuntos e mortadelas, vi o Marco Antônio se aproximar.
Sorri e puxei conversa.
— Ah, acabei não te
respondendo.
— O quê?
— Sobre o Sartre.
— Ah, tá.
— Filósofo
existencialista... Ele é dos meus favoritos.
— É, mas prefiro
Nietzsche.
— É... Você tem razão.
Meu também.
Nietzsche? Não fazia a
menor ideia do que o meu colega havia dito. E lá fui eu pesquisar novamente.
Filósofo alemão, crítico voraz da religião, da cultura contemporânea, da moral.
Não tive dúvida e, assim, comecei a evitar o Marco Antônio. Não por causa das
ideias do Nietzche, que considero válidas, a questão era outra.
Luana, ah, Luana, o que o Gustavo tem que eu não tenho? A minha musa, há quase uma semana, anda de conversinha pelos cantos com o vigilante mais parrudo. Já me chegou que os dois engataram um relacionamento firme. Ah, Nietzsche, você é que está certo. Aquilo que não me mata me faz mais forte.
- Nota de esclarecimento: O conto "A existência precede a mortadela" foi publicado no Notibras no dia 2/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/a-existencia-precede-a-mortadela/






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