Tia Eglantina,
irmã de meu pai, dividia opiniões. Enquanto parte da família tinha quase
sincero apreço por ela, a outra preferia evitar encontrá-la, especialmente
mamãe, pois o arranca-rabo era certeiro.
Evair, meu querido e amado pai, tem bom
coração e nunca engoliu essa desavença entre sua irmã e a esposa. Por isso,
sempre acreditou que o Natal fosse a época ideal para que imbróglios fossem
resolvidos. E, como ele precisava de uma cúmplice que mantivesse o bico calado,
papai optou por me pegar para Cristo.
— Luciana, essa bobagem
entre sua mãe e sua tia precisa acabar. Então, vamos aproveitar o espírito
natalino, quando os corações se tornam amolecidos.
— Papai, a treta entre as duas não é
bobagem. O senhor não está sendo ingênuo?
— Minha filha, Deus está sempre ao lado dos
ingênuos.
Como é que é? Que história era aquela de
que os ingênuos são protegidos por Deus? Entretanto, esse é o meu pai, um tipo
que, digamos, beira a inocência. Seja como for, lá fui eu telefonar para a tia
Eglantina. Supliquei para que ela não deixasse de comparecer à festa de Natal,
que se daria na casa da mãe da minha mãe, Filomena, a dona Filó.
— Vou só por você, Luciana, que sempre foi a minha sobrinha
favorita.
Nem me dei ao trabalho de lembrar a minha tia que eu era a
sua única sobrinha. O que importava de verdade era que eu havia, pelo menos foi
o que imaginei naquele momento, conseguido ajudar o meu pai com algo que lhe
era tão caro: promover as pazes entre mamãe e tia Eglantina. É engraçado que
tal conquista me trouxe certo regozijo, mesmo que eu nem precisasse ir a fundo
nos meus sentimentos para ter certeza de que a minha família estava prestes a
testemunhar uma das maiores hecatombes de Natal. E foi justamente isso que
aconteceu.
Nem houve palavras trocadas entre as
desafetas, mas maionese, arroz, farofa e pedaços de peru voando para todos os
lados, sem contar as deliciosas rabanadas da dona Filó. Foi aquele rebu até que
as gladiadoras foram contidas pelo ridículo da situação. Mamãe chorou nos
braços do meu pai, tia Eglantina retirou-se à francesa. E para completar o
pastelão, eis que o tio Cláudio fez questão de fazer a mesma piada sem graça:
— Galera, e aquele doce na geladeira é pavê ou pra comê?
Ninguém teve ânimo para esboçar o menor sorriso. A fome
provavelmente havia sido transportada para o Réveillon.
Pouco mais de dois anos depois dessa inesquecível ceia de
Natal, tia Eglantina foi diagnosticada com câncer em estágio terminal.
Agonizando diante da morte, ela me telefonou e me fez prometer que eu levaria
minha mãe ao seu encontro. Como recusar tal tarefa? E lá fui eu, a sobrinha
favorita de tia Eglantina, convencer a dona Fernanda a fazer a caridade de ter
a última conversa com a cunhada. Apesar de relutante, ela aceitou.
Mal chegamos ao apartamento da minha tia, mamãe, cara de
raríssimos amigos, vacilou por um instante, mas acabou entrando no quarto
devidamente preparado para que a acamada tivesse o mínimo de desconforto. Minha
mãe quis eu entrasse, mas preferi ficar do lado de fora, de onde não conseguia
visualizá-las, mas escutá-las, apesar das vozes sussurradas.
— Nanda... Posso te chamar assim?
— Sem problema.
— Que bom. Apelidos aproximam as pessoas, e é isso que mais
desejo neste momento de... de partida.
— Se você está dizendo, então deve ser.
— Sabe, Nanda... É tão bom chamá-la assim. Obrigada por ter
vindo, minha cunhada. Posso chamá-la de irmã?
— Hum! Pode.
— Nanda, minha querida irmã, preciso te confessar algo.
Sabe, não me orgulho do que fiz, e agora sei que agi errado. Mas preciso que
você saiba que eu... Bem, eu fiz muita macumba pra você sofrer, pra você...
morrer. Por favor, me perdoe! Tudo por inveja. Por favor, Nanda, perdoe esta
sua irmã!
O silêncio tomou conta do ambiente no minuto seguinte e,
então, mamãe saiu do quarto e, olhando de soslaio, me disse:
— A bruxa se foi. Vamos embora.
- Nota de esclarecimento: O conto "Cunhadas em pé de guerra" foi publicado no Notibras no dia 31/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/cunhadas-em-pe-de-guerra/











