Coube à bonitona
a iniciativa, mesmo que, caso lhe fosse perguntado, era provável que ela não
soubesse apontar o motivo. Combinações esdrúxulas que aparentemente não se
encaixam.
— Tu dança ou só
fica com o traseiro colado na cadeira?
Miguel, que se
confundia com os próprios pés, sorriu. Nisso, foi puxado pela mão.
— Vem,
que te ensino a requebrar gostoso.
E lá foi o homem sem jeito para a coisa. Não se saiu tão mal, pelo menos
aos olhos interessados da Lorena. Depois de alguns passos e descompassos, além
de vários goles de cerveja, os dois terminaram na cama. E foi assim que o
romance se iniciou.
Dois anos de amor regado a pagode, cerveja, suor e beijos ardentes sob
lençóis indiscretos. Aquela paixão fogosa, sem amarras, como se o amanhã fosse
mera ilusão. Tanta felicidade, que ninguém poderia supor o que estava por vir.
Aconteceu em uma noite de sexta-feira, perto das dez horas.
O samba rolava solto no Bar do Bosco, o casal ainda no lar, doce lar.
— Ué, Miguel, tu ainda não tá pronto?
— Ah, meu amor, hoje não tô a fim. Acho que tô com indisposição.
— Indisposição? Tu tá doente ou o quê?
— Num sei. Só não tô a fim mesmo.
Nada no sábado também. Domingo, então, era dia de recolher os
atrevimentos para suportar a labuta da semana. Mas o pior mesmo foi a avalanche
de críticas que o Miguel começou a derramar sobre a companheira.
— Lorena, tu precisa mesmo usar essa saia? E pra que tanta tinta na
cara? Cerveja também não é legal. E esse samba... Ih, isso é coisa que não
presta!
Lorena, olhos sem aquele sorriso costumeiro, foi trabalhar
na segunda-feira. Quem logo percebeu a carranca no rosto da jovem foi a
Shirley, prima e colega na empresa.
— O que foi, mulher? Que cara de coxinha sem catupiry é
essa?
— Ah, Shirley, nem te conto.
— Pois conte, que tu sabe que sou da fofoca.
— É o Miguel. Acho que ele arrumou outra.
— Outra? Duvido! O problema do seu homem é muito
pior, Lorena.
— Pior?
— É! Pensei que tu já estava sabendo.
— Sabendo o quê, mulher?
— O seu Miguel virou crente.
Lorena quase caiu dura.
— O quê? Não pode ser! O meu Miguel?
— Sim, amiga. O seu Miguel.
— Eita! Agora que a coisa complicou de vez. Com mulher até
que dá pra competir, mas com Jesus... Ih, assim nem tem competição.
E foi assim que o romance terminou. Cada um seguiu seu caminho e, apesar de tudo, dizem que ainda se falam quando se esbarram na calçada.
- Nota de esclarcimento: O conto "Passos e descompassos" foi publicado no Notibras no dia 23/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/passos-e-descompassos/









