sábado, 21 de fevereiro de 2026

Virgínia e tantas outras

            

        Virgínia, rosto delicado, olhos nervosos, bela até, porém de maneira solitária e assombrada, como se carregasse fardo pesado, ainda mais para alguém que aparentava tamanha fragilidade. Isso, por outro ângulo, lhe conferia certa altivez, já que o azul das veias servia como aparato de nobreza. 

            — Anemia.

            — Anemia?

            — Regras. Implacáveis nessa situação. 

            — E o apetite não é dos melhores. O doutor acredita que não come quase nada?

            — Carne?

            — Nem ovo. Tem pena. Já falamos, insistimos, mas ela é turrona. Não cede.

            — Feijão? Ervilha?

            — Hum! Tinhosa do jeito que é, aceita apenas sopa. Diz que não quer engordar. O doutor já viu algo assim? Parece um palito, mas se vê da cintura grossa. Grossa tenho eu, que sou mãe de cinco. Essa aí, do jeito que vai, nem marido arruma. 

            Prostração, falta de ar, sibilância, alguns estertores, inchaço ao redor dos olhos, que despertavam rubros. Herança maldita de nascer mulher, quando o único propósito, além de servir, era parir. E pobre daquelas desprovidas de ancas largas. 

            — Qual é o propósito disso tudo, Virgínia?

            — Estou doente, mamãe. O médico não disse?

            — Por que não come? 

            — Falta-me apetite.

            — Temo que o seu propósito seja outro, minha filha.

            — Falta-me propósito.

            — Pois deveria ter o que nos pertence. E rezo todos os dias para que você logo o perceba ou...

                — Ou o quê, mamãe?

                — Ou morro eu de desgosto. 

                Silêncio, que logo foi rompido por ordem da matriarca.

                — Agora levante, que Augusto está lá embaixo preocupado.

                — Augusto?

                — Sim. Ande, que não é de bom tom fazer seu noivo esperar.

                — Não quero me casar, mamãe.

               — Hum! Não diga bobagem, Virgínia! Augusto é bom moço, de família influente.

                — Que case com Larissa.

             — Se sua irmã não tivesse apenas 11 anos, teria eu mesma dito para seu pai prometê-la ao rapaz. Não resta dúvida de que ela tenha mais juízo do que você. 

            — Pois eu me mato antes de me casar.

            — Que se mate, então! Mas não envergonhe o nome do seu pai. 

            — A senhora me quer morta?

            — Ande! Vamos! Que não tenho tempo pra tolices! 

            Sem alternativa, Virgínia aprontou-se e, finalmente, acompanhou a mãe até a sala no andar de baixo do casarão. Lá estavam o pai, os futuros sogros e o noivo, jovem de cabelos negros e olhos perdidos. Poucos anos mais velho do que Virgínia, apesar do rosto assustado de menino.

            Ao fim de um ano, aqueles quase imberbes foram empurrados para o altar. Mal se conheciam, apesar dos encontros semanais, mais para acertos dos pais do que troca de palavras entre os dois. 

              — Mamãe, mas eu nem conheço direito o Augusto.

             — Não se preocupe com isso, Virgínia. Você vai ter a vida inteira para conhecer o seu marido.

             Não quis casar, casou. Não quis filhos, teve quatro. A cintura engrossou. Foi infeliz, apesar do sorriso de resignação.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Virgínia e tantas outras" foi publicado no Notibras no dia 21/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/virginia-e-tantas-outras/

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Cidinha do Cemitério

   

          Maria Aparecida dos Santos, a Cidinha, foi de tudo no único cemitério da cidade. Começou como coveira e tanatopraxista, quando ganhou fama por conta dos nervos de aço, bem como zeladora, chegando ao concorrido posto de administradora. Acabou virando vereadora com o sugestivo slogan: "Vote na Cidinha para enterrar a velha política de vez!" E foi reeleita nas eleições seguintes com "Cidinha: cavando um futuro melhor para a nossa gente", "Para os problemas da cidade, Cidinha é a solução final", "Chega de sujeira: Cidinha neles, pra limpara e enterrar o passado", "Cidinha: enterrando a corrupção" e, talvez o melhor de todos, "Cidinha: a única que sabe onde os problemas estão enterrados". 

        A despeito da profissão que poderia afastar os desprovidos de coragem, Cidinha parecia ter nervos de aço quando o assunto era ser o elo entre a vida terrena e o além. Dos mais paupérrimos até os endinheirados, todos passavam por suas mãos. E isso a fez ser respeitada que nem o prefeito, o padre, o delegado e o gerente do Banco do Brasil. Era mais fácil alguém arrumar imbróglio com o maior dos facínoras a querer arrumar confusão com a mulher. Mas eis que surgiu um desavisado na região, que foi  inventar treta justamente com a toda poderosa. 

          O nome do sujeito era Firmino Oliveira, um tipo orgulhoso, apesar de sustentar as calças com embira. Andava com canivete na cintura para picotar fumo na palma da mão. Os olhos corriam para ver se tinha gente curiosa e, se sentisse que dava conta, cuspia ofensa.

            — Tá olhando o quê? 

            Quase sempre a pessoa desviava o olhar e tratava de sair de perto. O problema foi que Firmino foi provocar justamente quem não podia. E olha que Cidinha até tentou não dar atenção, mas isso fez com que o sujeito estufasse o peito e lançasse ofensa que não podia passar despercebida.

            — O que você tanto olha, jabiraca?

            Menos pior que xingasse a Cidinha de fofoqueira ou intrometida. Mas jabiraca era além da conta. E não deu outra. 

           — Do que você me xingou?

            — Tá surda? 

            — Pois diga se tu é homem!

            — Jabiraca!

            Em vez de dar um safanão na fuça do atrevido, Cidinha fez o improvável, mas foi mais do que suficiente para que o homem tremesse na base e percebesse que havia cometido um erro fatal. Ela simplesmente lhe sorriu. Nada além do que um quase angelical sorriso. 

         Cidinha, em seguida, virou-se e foi embora. Tal atitude, para quem supunha conhecê-la, foi interpretada como sinal de grandeza e poderia ser contada como anedota ou, o que era mais provável, ser esquecida, caso não tivesse acontecido o que todos na cidade ficaram sabendo na manhã seguinte. E a notícia correu mais ligeira do que preá quando foge de cachorro-vinagre. 

            — Morreu?

            — Morreu!

            — De quê?

            — Ninguém sabe. Nem o doutor, nem o delegado, nem o juiz. Mas tá lá seco que nem espeto.

           Pois foi isso mesmo que aconteceu com o tal Firmino Oliveira. Amanheceu seco que nem espeto. Foi como se tivesse morrido há pelo menos duas semanas. E seria o que todos acreditariam, caso várias pessoas não o tivessem visto no dia anterior. 

         Sem delongas, o caso foi arquivado antes de ser aberto. Firmino Oliveira foi enterrado e o ocorrido virou lenda urbana. E talvez permanecesse assim se, 43 anos após, Cidinha não tivesse partido para a terra dos pés juntos.

          — Morreu?

          — Morreu!

           — De quê?

           — Pela idade, deve ser mesmo de velhice. 

           — E quando vão enterrar?

      — Ouvi dizer que amanhã cedinho. Só estão maquiando o corpo pra ficar com aparência melhorzinha. 

        Calixto, que era Oliveira por causa do pai, Firmino, foi o encarregado de fazer a necromaquiagem. E lá foi o sujeito preparar o corpo da Cidinha, quando a noite já não era mais criança. 

       Na manhã seguinte, quando abriram a porta do necrotério, eis que viram algo inexplicável. Lá estava o pobre Calixto seco que nem espeto. Quanto ao corpo da Cidinha, havia sumido. Nem sinal. E, apesar de já passados quase 20 anos do ocorrido, o mistério ainda não foi desvendado. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Cidinha do Cemitério" foi publicado no Notibras no dia 20/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/cidinha-do-cemiterio/

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Arlete e Amauri, os doutorandos

    

        Arlete, que tinha afinidade por exatas, formou-se em física aos 20 anos. Emendou com o mestrado e, em seguida, entrou no doutorado em física quântica. Entretanto, por mais estranho que pudesse parecer aos olhos dos colegas de curso, era apaixonada por poesia. E não pense você que aquilo era da boca para fora, já que a mulher tinha por hábito declamar diariamente Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, passando por Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes, Drummond, chegando aos contemporâneos Daniel Marchi, Sarah Munck, Luzia Couto e a inquieta Simone Magalhães. 

      Enquanto estudava o comportamento de átomos, elétrons e fótons, a mulher conheceu Amauri, que também era doutorando, mas em geopolítica. E, a despeito de temas distantes, os dois acabaram por engatar um namoro com direito a ardentes momentos, ora no cafofo da moça, ora no aconchego do rapaz. E aquele emaranhado, por mais esdrúxulo que pudesse ser aos olhos de outrem, funcionava que era uma beleza. 

         Entre o trajeto diário para a UnB, o casal gostava de apreciar um bom café. Coado, naturalmente, já que os jovens eram terminantemente avessos à brevidade de cápsulas ou até mesmo ao tão requisitado expresso. E nesses momentos faziam questão de só falar de coisas importantes.

            — Sabe uma coisa que percebi hoje de manhã?

            — O quê?

            — Seus olhos combinam com os meus.

            — Como assim, Amauri?

            — Os seus são castanhos escuros, enquanto os meus são verdes.

            — Hum... Isso eu sei, mas não entendi a relação.

            — Você é que nem o caule, a parte que sustenta a nossa relação. É a razão, enquanto sou o sonho, longe do solo.

            — Hum... Mas, sem o verde das suas folhas, a minha vida não seria doce. 

           O romance, apesar da enorme carga horária de estudos, vingou, a despeito dos que diziam que não resistiria a um semestre. E, por coincidência ou predestinação, a defesa das teses ocorreram no mesmo dia, uma sexta-feira, sendo a do Amauri logo nas primeiras horas da manhã, enquanto a da Arlete aconteceu no início da tarde. 

            Os dois foram aprovados com louvor, o que levou a uma comemoração regada a espumantes. Apagaram bem pra lá de Bagdá e, no dia seguinte, o sujeito foi o primeiro a despertar. Ele preparou duas xícaras de café bem forte.

                Em pé diante da cama, Amauri percebeu as pálpebras da amada se abrirem. Um sorriso logo se fez nos lábios da Arlete.

                — Meu amor, conseguimos! 

                — Sim, minha linda! Conseguimos! Fiz café pra você.

                — Hum... Muito obrigada! 

                — Quer comer alguma coisa?

                — Agora não. Mas se você for à feira mais tarde, por favor, me traga um quilo de neurônios. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Arlete e Amauri, os doutorandos" foi publicado no Notibras no dia 19/2/2026.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Edmar, o ausente

     

             Tinha amigos, era popular, pelo menos é o que Edmar pensava, até que se percebeu socialmente mudo. Sim, inaudível, como se todos ao redor fossem incapazes de ouvir o que ele dizia. Riam, é verdade. Até pareciam absortos pelas palavras supostamente inteligentes que eram expelidas pelos lábios do sujeito. 

          Foi no bar de sempre, bem ali na 709 Norte, em Brasília, que o homem notou os primeiros indícios de mera formalidade daqueles rostos. Rostos que ele jurava serem conhecidos, ainda mais depois de tantas e tantas rodadas de cerveja com tira-gostos variados. Mesmo assim, Edmar quis dar o benefício da dúvida aos amigos. Afinal, não poderia simplesmente abandoná-los assim do nada.

          — Meu cachorro morreu.

           Nenhuma mudança nas expressões dos tipos.

           — Gente, meu cachorro morreu.

           Por um instante, Luciano pareceu interessado pelo dito. Ele virou-se para Edmar e, aparentando cuidado, disse:

           — Vai mais uma rodada, Edmar?

          Mais uma rodada? Como assim? Ele havia acabado de dizer que o seu cachorro morrera. Não que tivesse um, mas ninguém ali sabia dessa informação. Ou sabia? Teria Edmar falado alguma vez que nunca tivera um cachorro? E por que falaria isso, já que tal assunto nem fazia parte do rol das confabulações costumeiras dos frequentadores de botequins?

          — Fui demitido.

          Sorrisos, vozes destoantes, tudo, menos ouvidos atentos ao que continuava saindo dos lábios do Edmar. Não que aquilo fosse verdade, ainda mais porque ele não era dos piores funcionários da repartição. Para sermos justos, diante do quadro medíocre, até se destacava.

          — Matei meu vizinho. Gente, acredita que matei meu vizinho antes de vir para cá?

          Nada! Nem esboço de surpresa. Obviamente que era mais uma mentira deslavada. Todavia, aquilo era, no mínimo, indício de crime. Como é que é? Matou o vizinho? Matou o vizinho e foi beber com os amigos no bar da esquina? 

           Incapaz de competir com tamanho descaso, pediu a conta. O garçom pareceu não o escutar. Levantou-se, dedo médio em riste para todos, virou-se de costas e foi embora. Nem foi notado.

           Meia hora depois, Luís, entre uma tragada e outra, cutucou Luciano.

          — Cara, e o Edmar? O que deu nele hoje? Será que aconteceu alguma coisa?

          — Pois é, cara! Ele nunca foi de faltar. Mas vai ver o cachorro morreu ou foi mandado embora do emprego.

          — Será?

          — A gente nunca sabe. Só espero que não tenha enlouquecido de vez e matado o vizinho.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Edmar, o ausente" foi publicado no Notibras no dia 18/2/2026.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Milton com os seus botões

              A ilusão, não raro, é mais urgente do que o amor improvável. E era baseado nesse pensamento que Milton buscava redenção da dor que sentia por ter sido abandonado por Denise, cuja liberdade não parecia compatível com os princípios morais do sujeito. E foi com aquele sentimento de perda que o homem preferiu seguir seu caminho a ter seu retrato estampado nas páginas policiais. 

        Enjeitado, Milton foi chorar as mágoas na cama. E como chorou! Foram tantas lágrimas, que o coração ficou seco. E foi nesse instante em que percebeu que talvez a solução seria engatar um novo romance. Mas logo desistiu, pois sabia que a paixão por Denise ainda lhe fazia perder o sono e o resquício de juízo que supunha ainda guardar em algum canto. 

          Agitado por causa do abandono, finalmente criou coragem e foi ter uma conversa séria de homem para homem com o sujeito ao fundo do espelho do banheiro. A princípio, olhos baixos, de quem tentava escapulir daquela situação constrangedora. No entanto, não se sabe de onde, surgiu uma concha de coragem e, do nada, ligou a matraca.

            — Sabe, meu amigo... Posso te chamar assim, né?!

            — ...

            — Obrigado. E você pode me chamar de Milton. Bem, é como me chamo, mas pode me chamar do que quiser também. Ultimamente ninguém parece se importar. E quem é que liga se a gente se chama Milton, José, Alfredo, Pedro... 

            — ...

          — Você gosta de Milton? Então, meu amigo, fica sendo Milton mesmo. Na verdade, fica até mais fácil, pois é como estou acostumado a ser chamado. Minha mãe não queria, mas parece que foi coisa predestinada.

            — ...

            — Sim, isso mesmo! Predestinada. Acredita?

            — ...

            — É uma longa história, mas se você estiver com tempo...

            — ...

            — Ah, tá! Eu entendo. Tempos corridos, né, meu amigo?! Então, vou ser breve. É que um tio morreu antes de eu nascer. Você sabe, né? Aquela comoção na família. 

            — ...

        — Ah, era irmão do meu pai. E se chamava tio Milton. Quer dizer, não tinha tio no nome, mas é como os meus pais se referem a ele até hoje. 

            — ...

            — Ah, se dependesse de mamãe, meu nome seria Alexandre. 

            — ...

            — É verdade. Você tem razão, meu amigo. Já existem muitos Alexandres no mundo. Mas você acha que se eu me chamasse Alexandre teria alguma chance com a Denise?

            — ...

            — É meu amigo, também acho que esse lance de nomes não tem nada a ver. 

            — ...

            — Não! Que isso? Não fiquei chateado. Melhor ouvir a verdade na lata a um monte de mentiras à prestação. 

            — ...

            — Você tem razão, meu amigo. Vida que segue. E que a Denise seja feliz. 

            — ...

            — Obrigado por me escutar, meu amigo. O sono bateu firme. Agora vou dormir. Boa noite.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Milton com os seus botões" foi publicado no Notibras no dia 17/2/2026.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Concentra Mas Não Sai

    

Gilberto era um chatonildo agudo nas palavras da esposa, Lúcia. É que o sujeito era do tipo que fazia questão de ser pontual até mesmo para churrasco na casa dos amigos. Se o evento começava às 13h, lá estava o homem plantado em frente ao portão da casa exatamente nesse horário.

            — Mas, Gilberto, se a gente chegar cedo, ninguém vai estar lá.

            — Lúcia, se não quisessem que chegássemos às 13h, que marcassem para as 14 ou 15h. 

            Até o anfitrião estranhava a pontualidade do Gilberto. Entretanto, para não causar imbróglio desnecessário, oferecia-lhe um café enquanto a cerveja era colocada para gelar. Aproveitando o ensejo, Lúcia ia para o canto conversar com a dona da casa.

            — Ah, desculpe, Jordana, mas é que o Gilberto não perde a mania de abrir a igreja para o padre entrar.

            Acordava às 6h, fazia o dejejum às 6h30. Almoço era ao meio-dia, pois depois disso já ganhava outro nome: refeição dos irresponsáveis, lanche antecipado ou, dependendo do horário, entrada para o jantar. E haja paciência para suportar a falta de molejo do gajo. Até mesmo a Lúcia, que certamente possuía um lugar privilegiado reservado no Céu, já queria entregar os pontos. 

            Longe de possuir o carnaval de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, Brasília possui lá seus blocos de rua, que fazem os bambas não perderem o compasso. E entre os mais animados está o Concentra Mas Não Sai, na Asa Norte.

            — Ah, amor, vamos!

            — Lúcia, eu não gosto de bagunça.

            — Mas é carnaval, meu bem. E eu prometi às minhas colegas que ia.

             — Hum!

            — Olha aqui, Gilberto, se você não for, vou eu sozinha!

            Sem como negociar perante a determinação da esposa, lá foi o homem acompanhá-la. Ela, de odalisca; ele, de marido contrariado. 

            Assim que chegaram, o samba comia solto. Marli, Carla e Neide, embaladas pelo ambiente, sambavam o bom samba.

            — Mulher, achamos que você não vinha mais.

            — E eu sou de perder o Concentra, Neide?

            E samba daqui, bebe dali, sua por todos os poros, a tarde avançou ao som das marchinhas para a noite na capital. E haja disposição! E de tão envolvente que estava toda aquela situação, até o aborrecido Gilberto se deixou levar pelo embalo. Para falar a verdade, dizem que perdeu a linha e precisou ser carregado pela esposa e as amigas para o lar, doce lar.

              No dia seguinte, despertou quando o ponteiro do relógio caminhava sem qualquer cerimônia para as 16h. Ao lado, Lúcia, com aquele sorriso vitorioso nos lábios.

            — Ah, Gilberto, carnaval é bom demais porque bagunça toda a rotina.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Concentra Mas Não Sai" foi publicado no Notibras no dia 16/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/concentra-mas-nao-sai/

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sob a ótica de Gregor Samsa

    — Ernesto, você é um poço de adversidades.

     — Eu?

     — E por acaso tem outro Ernesto aqui?

    Pois foi esse o início da conversa que tive com Janete. Confesso que olhei para os lados para ver se havia alguém na varanda. Até desejei, por uma fração de segundos, que o pardal pousado na grama pudesse ser meu xará. Sem chance! A coisa era comigo mesmo. 

     — Ernesto, vai ficar aí me ignorando?

     — Tô refletindo sobre o que você me disse.

     — Olha, desculpe se te ofendi. Não foi minha intenção. Eu até gosto de você, da sua companhia, mas não dá mais.

     — Por quê?

     — Por quê? Ernesto, você parece ter nascido com azar crônico. Nunca vi alguém tão azarado assim.

     — Nem sempre.

     — Você deve estar de brincadeira, né?

     — Ter te conhecido foi azar?

     — Bem, nesse caso, o azar foi meu.

    Depois dessa, tratei de recolher o resquício de orgulho que ainda me restava, beijei a face do meu então amor para toda a eternidade e, sem maiores dramas, fui embora. Já na calçada, esperei que Janete me chamasse de volta, pulasse no meu pescoço e me desse um daqueles beijos ardentes, cena de filme. Infelizmente, nada mais do que o silêncio ensurdecedor me acompanhou até o meu apartamento, onde passei o resto do dia com a sensação de que ela estava coberta de razão. Pois é, o azar foi dela de me conhecer. 

   Não sei se isso acontece com todo mundo... Todo mundo é gente demais, não deve ser assim. Exageros à parte, creio que sou um tipo que enxerga a vida com certo pessimismo, provavelmente seja algo genético ou, então, culpa de "A metamorfose", de Franz Kafka. Quem, afinal, se envolve com esse tipo de literatura aos doze anos? Antes tivesse me entretido com Marcos Rey nessa fase da vida. 

     — Ernesto, você é vítima das circunstâncias. 

   — Obrigado, doutora. Estava precisando disso. A Janete me diz que sou o culpado por ter a companhia constante do azar.

      — Errada, ela não está.

      — Como assim, doutora? Você acabou de falar que sou vítima das circunstâncias.

      — E é! 

      — Então?

      — Você é vítima das circunstâncias, Ernesto. Mas vítima das circunstâncias criadas por você. 

   Mais um choque de realidade, agora exposto por minha terapeuta Marina. Só porque enxergo o mundo como um lugar hostil? E como viver tranquilamente quando você pode ser atacado por tigres à espreita.

     — Ernesto, tigres vivem na Ásia.

     — Que seja, mamãe! Leões, então!

     — Onças.

     — Tá, mamãe! Mas isso é uma metáfora!

     — Metaforicamente falando, você parece que se vê como uma barata, meu filho.

     — Gregor Samsa, mamãe.

     — Sei...

     — Sabia que faço aniversário no mesmo dia do Kafka?

     — Não.

     — Sou exatamente cem anos mais novo que ele.

    — Pois faço aniversário no mesmo dia da Alcione, mas não arrisco um dó ou um fá fora do banheiro. 

    Tanta praticidade. Essa é a minha mãe, dona Margarete. E não pense você que puxei ao meu pai, cujo humor me perturba. Parece que ele enxerga felicidade até nas maiores tragédias. 

     — Poderia ser muito pior, Ernesto.

     — Mas, pai...

     Se a Janete não me ligar até amanhã, vou mandar uma mensagem. Quem sabe ela não comece a me enxergar por um outro ângulo? Será que existe algum que me favoreça?   

  • Nota de esclarecimento: O conto "Sob a ótica de Gregor Samsa" foi publicado no dia 15/2/2026.
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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Fortunato, mas nem tanto

               

           Degustou os restos mortais da ceia do Ano Novo. Parece algo macabro ou, no mínimo, triste, ainda mais por se tratar de Adilson Fortunato, cuja fortuna era tanta, que poderia entrar facilmente como um dos homens mais abastados do seu tempo nas cercanias da então pouco habitada capital do país nos idos de 1961. Verdadeiro nababo rodeado de miseráveis. 

               Mastigou duas ou três vezes o naco daquela coxa e, carrancudo, o cuspiu.

               — Que porcaria! Quem temperou esse peru parece que desconhece a existência de sal. Maria! Maria!!!

               Não tardou, lá estava a pobre mulher, uma das tantas empregadas do casarão, praticamente aos pés do patrão.

               — Pois não, senhor Fortunato.

               — Você sabe o que é sal?

               — Sal?

               — É! Sal! Não sabe o que é sal?

               — Sei sim, senhor.

               — Então, da próxima vez, vê se usa sal no peru!

               — Eu quis colocar mais sal, patrão, mas a dona Laura disse que não faz bem pro senhor.

               — Arre! Pois deixe estar! Deixe estar, que me entendo com a minha mulher. Agora vá, vá, que não estou com tempo pra perder com bagatelas. 

              Mal a funcionária deu as costas, Fortunato pegou um charuto dentro da caixa na estante, retirou o isqueiro do bolso. Acendeu, tragou, a fumaça tomou conta do ambiente. 

              — Já começou, Adilson?

              — Estou ansioso, Laura.

              — E eu preciso morrer sufocada por causa da sua ansiedade?

              — Vou pedir pra abrirem as janelas.

              — Hum! E eu sou aleijada por acaso, Adilson?

              Dona Laura escancarou cortinas e janelas, pegou seu leque e tentou agilizar a troca da fumaça por ar respirável. Fortunato, que não era capaz contra a esposa, foi fumar no alpendre. Olhou ao redor e ralhou com o jardineiro. Pronto! Masculinidade recuperada, ao menos por enquanto, sentou-se na cadeira de balanço e produziu a fumaça que desejou até ele próprio não suportar o sabor da liberdade longe da companheira de quase três décadas. 

              Encontrou a mulher na cozinha, onde ela dava orientações sobre o almoço. Fortunato a observou por um momento. Pouca coisa mais baixa do que ele, cinco anos mais moça, cintura de quem já havia parido algumas vezes, o que lhe conferia certa altivez. Os cabelos grisalhos por opção eram sinal de gente confiante, como se não necessitasse de aprovação. Era justamente esse destemor que atraiu o então jovem Adilson, que buscava algo do qual era desprovido. 

              — Pode deixar, patroa, que o almoço vai sair ao seu gosto.

              — Obrigada, Maria.

              Laura percebeu o marido na recostado na porta da cozinha.

              — Adilson, você deu pra me espionar agora?

              — Não. É que...

              — Vá lá pra sala antes que eu te ponha pra descascar algumas cebolas.

              O esposo da dona da casa nem titubeou. Virou-se e foi se sentar na poltrona. Pegou o jornal e fingiu folheá-lo com interesse. Nem as fotografias apeteciam seus olhos cansados de tantas inverdades bem escritas. 

              O telefone tocou. Geralda, que espanava a poeira dos móveis, atendeu. Era Luísa, a caçula do velho casal.

              — Oi, filha! Quando você vem nos visitar? Sua mãe não fala de outra coisa.

              — Ah, pai, estou toda enrolada com as provas na faculdade. 

               — Tá bem, filha. Vou passar para a sua mãe, que está aqui ao lado.

              — Oi, Luísa! Como vai a vida aí nesse Rio de Janeiro?

               — Tá tudo bem, mãe. Mas preciso saber se a senhora fala com o pai uma coisa.

               — Hum! Já sei. Mas pode ficar tranquila, que hoje à tarde ele vai ao banco. 

               — Ah, mamãezinha de Deus, muito obrigada!

               O almoço foi servido exatamente ao meio-dia, mas poderia ter sido mais tarde. Não estavam com fome, comeram por hábito. E assim levavam a vida. Mudanças assustam. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Fortunato, mas nem tanto" foi publicado no Notibras no dia 14/2/2025.
  • https://www.notibras.com/site/fortunato-mas-nem-tanto/

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Flávio e a querela com o vinho

          Abriu os olhos, tentou se acostumar com a claridade que entrava pela fresta da cortina entreaberta. O gosto acre na língua o fez ter ânsia, mas conseguiu devolver para o estômago o que já subia pelo esôfago. Vinho. Nunca se deu bem com vinhos. Por que, então, foi beber? 

               Cássia, sua colega de trabalho. Sim, havia sido ela a razão. E como recusar uma taça das mãos da mulher mais atraente do Réveillon na casa do dono da empresa? Daí em diante, foi como se só existissem pedaços de memória. 

            Flávio se lembrava de estarem os dois juntos, mãos dados, sorrisos desinibidos por conta da bebida. Levou a mãos aos lábios, buscou algum vestígio, breve sabor de perfume, o cheio suave daqueles dedos de pianista. Sim, eram longos, delgados. De repente, sentiu algo estranho, como se aquela não fosse sua cama. E não era nem mesmo uma cama.

            O que estava fazendo no sofá da sala do Álvaro? Ele se lembrou de que havia se despedido do seu chefe, apesar de não se recordar de ter chegado ao seu apartamento. Forçou a mente, mas só vislumbrou forte enxaqueca. Maldito vinho! 

            Ouviu vozes. Não as conhecia. Pelo menos nenhuma era do anfitrião. Buscou os sapatos, que estavam virados no tapete. Mau sinal, pensou. Sua mãe sempre dizia que não se brinca com o azar deixando calçados de virados. Tratou de calçá-los e sair o mais rápido possível do local antes que fosse descoberto.

             Levantou-se, caminhou até a porta e, ao abri-la, a claridade o cegou por alguns segundos. Caminhou a passos largos em direção ao portão quando, de repente, sentiu que estava sendo observado. Olhou ao redor e, então, avistou um enorme cachorro vindo em sua direção. Desesperado, teve certeza de que o portão estava tão distante, que seria logo alcançado pela fera. Sem muitas alternativas, imaginou que a piscina era sua salvação e tchibum. 

             O cão rodeou a piscina por duas ou três vezes, até que parou na beira e encarou aquele provável invasor. Começou a latir insistentemente, até que surgiu um dos empregados da mansão.

             — Flavius, quieto! 

             Flavius? Aquele cachorro tinha uma versão italiana do nome do sujeito? Ele imaginou as manchetes dos jornais no dia seguinte: 'Flavius não perdoa e ataca Flávio', 'Quem diria que o pobre Flávio terminou seus dias na bocarra do Flavius', 'Flavius devora Flávio' e, certamente, a pior seria 'Flávio vira café da manhã do Flavius'.

             — Pode sair agora, senhor.

             — Muito obrigado! Nem sei o que o meu xará faria comigo.

             — Flavius.

             — Sim, o Flavius. E eu sou o Flávio.

             O rosto do funcionário se manteve inalterado, como se aquela coincidência não fosse do seu interesse. Flávio, apesar de enxarcado, estava são e salvo. Despediu-se do seu herói e entrou no seu carro, que estava estacionado na esquina. A chave do veículo não havia se danificado.

             Assim que entrou no seu apartamento, notou o aparelho celular sobre a mesa da sala. Como não gostava de levá-lo quando saía para se divertir, ele não havia se molhado e, consequentemente, se danificado. Tomou-o em suas mãos e notou várias ligações e mensagens de Cássia. Telefonou para a colega.

              — Até que enfim, Flávio! O que deu em você ontem?

             — Como assim? 

             — Você está bem?

             — Por quê?

             — Não vai me dizer que não se lembra de nada?

             — Quase nada. A gente se beijou?

             — O quê?

             — Desculpe. É que pensei...

             — Você se esqueceu mesmo?

             — Do quê?

             — Você me pediu em casamento.

             — O quê?

             — Não se lembra nem disso?

             — Não.

             — E que você apagou de tão bêbado?

             — Que eu apaguei, sei que apaguei, pois acordei no sofá do Álvaro.

             — Ele, o José e o Armando que te colocaram lá. Você apagou no jardim.

             — Eita! Que vergonha!

             — Ah, esquece! Todo mundo estava bêbado. O Álvaro mesmo ficou bem pior do que você. Até vomitou. 

             — Sério?

             — Sério.

             — E você?

             — Eu não vomitei, se é isso que quer saber. 

             — Não.

             — E o que é?

             — Você aceitou?

             — Aceitei o quê?

             — O meu pedido de casamento.

             — Ah, claro que não! Desde quando acredito em conversa de bêbado, Álvaro?

             — Hum...

             — Só queria saber como você está. Vê se você se cuida. Até amanhã.

             — Até amanhã.

            Assim que desligou, Flávio foi até o banheiro, lavou o rosto. Estava péssimo. Ainda tinha o resto do domingo para arranjar coragem para encarar todos no trabalho no dia seguinte. Quanto ao vinho, nunca mais.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Flávio e a querela com o vinho" foi publicado no Notibras no dia 13/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/flavio-e-a-querela-com-o-vinho/

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Dóra, a amiga de mamãe

    

    Todo ser humano tem o direito de mudar. Foi isso que ouvi certa vez de uma amiga mineira de mamãe, cujo nome não me recordo. Talvez estivesse tão entretita com a sua voz deliciosamente rouca, como se fosse pastel de fubá da sua charmosa cidade, Machado.

    Já que o nome da simpática figura não me vem à mente, sinto-me no direito de recorrer à licença poética e chamá-la de Dóra. Sim, Dóra com acento agudo, pois me soa mais mineiro do que Dôra. E faço questão dessa distinção para que você que está me lendo não tenha dúvida quanto à pronúncia correta. 

    Devia ter eu não mais do que seis ou sete anos quando a Dóra costuvama chegar à nossa casa com aquele sorriso de quem carrega tanta felicidade, que se sente na obrigação de distribuí-la com as outras pessoas. E parece que funcionava com mamãe, que levava uma vida conflituosa  com o meu pai. E como fui complacente com papai por anos, até que não teve mais jeito quando a consciência chegou com a maturidade. 

    Meu velho era mesmo um chauvinista dos mais arraigados ao patriarcado. Do tipo controlador, que se sentia humilhado porque mamãe, vez ou outra, faturava mais do que ele por conta dos belos vestidos que costurava para as clientes mais abastadas de Brasília, para onde havíamos mudado no final de 1972. Se mamãe teve vontade de se separar? Não duvido, mas ela jamais contou lamúrias para os filhos, como se aquele fardo só lhe pertencesse.

        Enquanto meus irmãos e eu fazíamos o dever de casa na sala, mamãe e Dóra trocavam confidências na cozinha. Nessas ocasiões, mamãe fazia bolinhos de chuva para acompanhar o café que só ela sabia preparar. 

        — Não adianta, Dóra, o Osvaldo não muda.

        — Todo o ser humano tem o direito de mudar, Joana.

     — Hum! Com o Osvaldo, só se ele resolver se mudar pra bem longe, mas vai continuar o mesmo.

    — Minha amiga, muitas vezes as pessoas mudam, mas não sabem como demonstrar. Talvez seja o caso do Osvaldo.

         — Hum!

            Não sei se esse era o caso do meu pai naquele tempo. No entanto, quando estava beirando os 80 anos, ele reuniu os filhos e netos e, sentado ao lado da nossa mãe, se desculpou por ter sido tão duro e controlador com a esposa. Mamãe pareceu incrédula com aquelas palavras. 

            Depois de todos falarem algo a respeito, mamãe pegou o celular e foi para a cozinha, talvez desejando um pouco de privacidade. Tive um pressentimento e, discretamente, fui atrás dela. Esgueirei-me ao lado da porta da cozinha, enquanto ouvi a voz da minha mãe:

            — Dóra, você estava certa. Aconteceu. O Osvaldo mudou.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Dóra, a amiga de mamãe" foi publicado no Notibras no dia 12/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/dora-a-amiga-de-mamae/