Entre uma venda e outra de revistas, jornais, salgadinhos e
refrigerantes, tudo entremeado de muita conversa fiada, um sujeito barbudo,
cabeludo e de boina do Che Guevara se aproximou. Ele pareceu interessado em
alguns volumes de Karl Marx, Friedrich Engels, Theodor Adorno e Michel
Foucault. Isso, aliás, chamou a atenção do Gouveia, alcunhado de Coronel,
apesar de nunca ter passado do posto de sargento. As demais patentes foram
conquistadas, segundo fofoca que corre solta, por conta da chatice acumulada
pelo sujeito.
O Coronel coçou a cabeça, ficou em
dúvida se puxava conversa com aquele tipo, mas a coragem, que era praticamente
nenhuma, pareceu querer dar um passeio lá pela Torre Digital. Todavia, o homem,
certamente um guerrilheiro, tomou uma atitude que deixou o covarde sem opção de
refugo. Pois você acredita que ele começou a folhear um livro do Paulo Freire?
Pior, pois demonstrou um interesse incomum.
— Tu é comunista, é?
— Oi?
— Tu é comunista?
— E qual é o interesse do senhor por
saber o que sou e o que não sou?
— Hum! Comunista e atrevido.
— O quê?
— Além de comunista, tu também é surdo?
— O senhor por acaso é fiscal da vida
alheia?
— Comunista, atrevido e respondão. Era
só o que me faltava. Guima, você deveria selecionar melhor a sua clientela.
— Ih, Coronel, deixa o homem em paz. Ele
está de boa na dele.
— Ah, então, o senhor é milico?
— Melhor do que ser comunista.
— O senhor gosta de ler?
— Leio o suficiente pra não me tornar um
comunista.
— Ah, já imagino.
— O que tu imagina, seu comunista?
O protótipo do Che Guevara preferiu
encerrar aquela história e voltou-se para o Guima.
— Pois, seu Guima... Suponho que o
senhor seja o dono da banca. Vou levar esse do Paulo Freire.
O novo freguês pagou pelo livro e, já de
saída, foi interpelado novamente pelo Coronel.
— Ei, tu é comunista, né?
— Hum... Posso fazer uma proposta pro
senhor?
— Proposta?
— Sim. Eu te respondo se sou ou não
comunista, mas desde que o senhor me permita lhe indicar algo pra ler.
O Coronel ficou intrigado por alguns
instantes, até que respondeu:
— Tá. Mas me responda primeiro.
— Sou.
— Ah! Eu sabia! Conheço um comunista de
longe.
— Agora é a minha vez. Posso?
— Pois diga, seu comunista!
— Que tal ler aquele gibi ali do
Homem-Aranha? Pensando melhor, talvez seja melhor o senhor começar pela Turma
da Mônica. Vá que seja muito pesado?
Quando o Coronel
notou que o apreciador do Paulo Freire já havia dobrado a esquina, percebeu que
o Guima e os outros fregueses estavam gargalhando daquela anedota. Isso não o
impediu de soltar um arremedo de consternação:
— Ah, comunistazinho filho da mãe!
- Nota de esclarecimento: O conto "O fiscal da vida alheia" foi publicado no Notibras no dia 16/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-fiscal-da-vida-alheia/







