Juarez,
aposentado do Banco do Brasil, era ex-integrante de um conjunto de pagode. Há
tempos não sapecava no pandeiro, o que não impedia o sujeito de sempre carregar
o instrumento aposentado. Vá que surgisse um parceiro com cavaquinho ou
reco-reco? Qualquer caixinha de fósforo já seria providencial.
Dona
Sônia para a maioria, ali na mesa bastava Soninha, havia trabalhado como
professora universitária por mais de três décadas. Uma curiosidade sobre a
mulher é que jurava ter desfrutado dos carinhos de três do quarteto fantástico
da MPB.
— Chico, Caetano e Gil. Ah, meu Deus, o Gil... Só me faltou
o Milton. Mas rolou um selinho.
— E no samba?
— Ah, Juarez, prefiro nem comentar. O Martinho é casado.
Arnaldo, mestre do dominó, de vez em quando fingia-se distraído para
provocar euforia nos companheiros. "Ganhar sempre provoca engulhos",
confessava o gajo para o reflexo do espelho do banheiro quase limpo do boteco.
Silva, o mais vivido da trupe, praticamente só ouvidos,
guardava a autoridade entre um gole e outro. É verdade que, não raro, perdia a
linha e precisava ser amparado até o seu apartamento. Por sorte, morava a
poucos passos dali.
Bosco, o dono do local, fazia questão de atender o grupo da
melhor forma. Não porque consumisse tanto, mas por causa da assiduidade e,
principalmente, porque ali estava a nata da vizinhança. Cada um com sua
autoridade.
De vez em quando, o botequim lotava, os
garçons precisavam correr para atender tantos pedidos. E foi justamente numa
dessas ocasiões que aconteceu algo que poderia passar despercebido, caso não
fosse ainda lembrado com certa dose de humor.
Lucas, neto do Silva, começou a frequentar aquele ambiente
carregado de boa música. Todavia, seus ouvidos não estavam acostumados àquele
som e, por isso, se sentia um alienígena. E foi tomado de coragem que estacionou o
seu Celta em frente ao bar e ligou o som em volume pouco acima do bom senso.
Pior, era sertanejo.
Os companheiros do Silva, apesar do
flagrante constrangimento, preferiram evitar imbróglios. Todavia, foi o
veterano quem resolveu colocar o fim naquela situação.
— Ei, Lucas, já deu! Nós podemos ouvir outra coisa antes de morrer?
- Nota de esclarecimento: O conto "Os donos da linha" foi publicado no Notibras no dia 11/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/os-donos-da-linha/





.jpeg)