Barbeou-se com o esmero
de outrora. Debaixo do chuveiro, sentiu a água lhe tocar a pele como se fossem
os dedos de Fátima, a vizinha do 304. Por que ela teria puxado conversa na
tarde anterior no elevador? Até onde sabia, a mulher era casada. Estaria em
crise com o marido? E qual foi o real significado daquele sorriso?
Enxugou-se, penteou os
cabelos ainda com a toalha enrolada na cintura. Notou que havia perdido peso. O
apetite já não era o mesmo desde que Eulália sucumbira. Enfarte. Aos 58 anos. Logo
ela, que sempre cuidara da saúde.
— Amor, vamos comigo à
academia hoje?
— Não gosto. Você sabe
disso.
— Ah, Ernesto, até quando
você vai resistir? Olha o coração! Não quero ficar viúva, hein!?
Abriu o armário, pegou
uma camisa azul, uma bermuda cinza, meias. Calçou o tênis. Pensativo por alguns
instantes, tomou coragem e, já no corredor, confabulou um possível encontro com
a vizinha.
— Que
surpresa boa!
— Bom
dia, dona Fátima.
— Por
favor, só Fátima. Ou você vai fazer questão de tanta formalidade entre nós dois,
Ernesto?
Chegou. O elevador chegou. Ernesto abriu a porta e nada além do próprio reflexo
no espelho ao fundo.
— Tu é
mesmo um mané, Ernesto! — disse o reflexo.
— O
quê?
—
Mané! Tu não passa de um mané. Tu acha mesmo que aquela gata vai dar trela pra
você? Hum! Numa hora dessa, a Eulália deve estar se virando no túmulo de tanto
rir.
—
Será?
—
Claro que não, né, Ernesto! Ou tu já esqueceu que ela foi cremada?
Parou.
O elevador parou. Ernesto tocou a porta, que se abriu devido ao puxão do
Roberto, justamente o marido da Fátima.
— Bom
dia, seu Roberto.
— Bom
dia por quê? Por acaso você ganhou na loteria?
Impossível.
Ernesto nunca apostava. Não por ser contra o jogo, era consciência do próprio
azar.
Na
calçada, a mente inquieta não deu folga ao sujeito. Será que o Roberto sabia?
Não, a Fátima não seria tão sincera a ponto de confessar que estava apaixonada
por outro. E por que não diria? Será? Já não duvidava de nada. Foi quando ela
surgiu do nada. Não exatamente do nada. Fátima acabara de atravessar a rua,
vinha da padaria em frente.
— Oi,
seu Ernesto.
Seu
Ernesto? Cadê o simplesmente Ernesto?
— Oi,
dona Fátima.
Não
seria ele a torcer o braço. Era dona Fátima e pronto!
— O
senhor viu o Roberto?
—
Roberto?
Fingiu
desconhecer o nome do rival.
— É! O Roberto, o meu marido.
— Ah,
sim! Ele já subiu.
—
Tadinho do meu amor.
Tadinho? Amor? E onde o Ernesto se encaixava naquilo tudo?
—
Aconteceu alguma coisa?
— Foi
a empadinha. Eu avisei, mas o meu fofo é teimoso que o senhor não imagina.
Meu
fofo? Aquele bruto?
—
Empadinha?
— É,
seu Ernesto. Aquela azeitona não estava com a cara boa. Acho que o meu bichinho
está agora mesmo sentado no vaso.
Ernesto sentiu a impiedosa realidade bater forte no peito. Nada além de piriri.
- Nota de esclarecimento: O conto "Anatomia de um domingo" foi publicado no Notibras no dia 14/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/anatomia-de-um-domingo/










