— Alto lá, meu amigo!
Tentou encontrar o dono
daquele som, entre barítono e baixo. Tentou afastar a névoa com as mãos. A
mesma voz prosseguiu.
— Alto lá, Valdir!
— Quem é? Eu te conheço?
Antes que pudesse ouvir a
resposta, a neblina baixou, quando surgiu um homem parrudo, calvo, barba
arredonda.
— Sou Pedro.
— Pedro?
— Sim, já fui chamado de
Simão.
— Tu tá querendo me dizer
que tu é São Pedro?
— Sim, Valdir.
Foi aí que ele percebeu que
aquele homem carregava em uma das mãos uma enorme chave.
— Se tu é mesmo São Pedro,
por favor, vá chamar Deus.
— Deus?
— Sim, isso mesmo. Ou será
que ele anda ocupado demais para receber um dos seus filhos?
São Pedro coçou o queixo,
mediu aquele sujeito petulante de cima a baixo.
— Agora não dá.
— Como é que é, meu
brother? Agora não dá?
— Agora não dá!
— Eu sabia!
— Sabia o quê?
— Essa conversa de
onipresente é conversa fiada.
— Dobre essa língua pra
falar de Deus!
— Hum! Aqui vocês também
têm Congresso Nacional, ou melhor, Celestial? E, pelo visto, não deve ser fácil
negociar com os deputados e senadores.
— É óbvio que não!
— Hum... Quer dizer, então,
que Deus é o mandachuva por aqui?
— Daqui e de todo o
universo.
— Então, por obséquio,
quero ter um dedo de prosa com Ele. Pode ser ou tá difícil?
— Ah, Valdir, entre e se
acomode naquela cadeira ali.
Valdir olhou para trás e,
mesmo desconfiado, entrou no Reino dos Céus e se sentou na cadeira indicada por
São Pedro.
— Ele vai demorar?
— Ele quem?
— Ué, Deus!
Sem alternativa e com ânimo
de encher o fanfarrão de sopapos, São Pedro ouviu uma voz ainda mais grave do
que a sua:
— Calma, Pedro, olha o
coração.
Era Deus, que se aproximava
a passos largos. Em seguida, a Divindade se postou diante do Valdir, que logo o
reconheceu.
— Tu é Deus, né!?
— Sim, meu filho. O que
você deseja saber?
— Ué, Tu não é onisciente?
— Me pegou! Pois bem, sou,
mas de vez em quando gosto que meus filhos me surpreendam.
Valdir observou as
expressões de Deus, talvez tentando encontrar um vacilo. Nada. Deus parecia
sincero.
— Vejo que você teve uma
vida dura lá embaixo. Sei que, de vez em quando, perco a mão e permito que
alguns dos meus filhos sofram além da conta. Você nasceu em Caxias, terra de
Gonçalves Dias, foi entregue pelas mãos de sua mãe a uma tia, que o levou de
navio para o Rio de Janeiro. Cresceu longe dos seus, chorava todas as noites,
até que a dor passou a ser a sua melhor companhia. Casou, teve um filho, depois
sua mãe ficou doente, o que a consciência o obrigou a fazer a viagem de volta
para sua terra natal. Enquanto cuidava de sua mãe, soube que sua esposa o traiu
com outro homem. Abandonado, acabou se envolvendo com uma moça, com quem teve
um filho, mas que só assumiu depois de mais de 40 anos. Também conheceu outra
mulher em Caxias, com quem se casou, teve três filhos, enfrentou a pobreza com
dignidade, foi para Brasília tentar a sorte. Teve o azar de ter câncer por duas
vezes. Arrancou da própria carne, passou por tratamentos que o enfraqueceram.
Resiliente, a dor continuou ao seu lado, até que ontem respirou pela última
vez. Longe da família, a dor finalmente o deixou em paz. E agora está aqui
comigo, meu filho.
Valdir escutou o resumo de sua existência na Terra, mas algo o
incomodava. Deus percebeu o olhar distante do sujeito e, então, tocou-lhe o
ombro.
— O que foi, meu filho?
— E o Vasco?
— O Vasco?
— É, Deus, e o Vasco?
— Bem, Valdir, o Vasco continua lá em São Januário.
— Hum! Mas estamos sem o Roberto há um tempinho.
— O Dinamite?
— E tem outro?
— Não. Você tem razão. Até tentei fazer outro, mas perdi a forma. Deve
estar embaixo daquela pilha ali de pernas de pau. Uma hora acho!
— Tu é Vasco, Deus?
— Bem, você sabe, né? Não posso falar assim de bate-pronto...
— Num acredito nisso, Deus!
— Não acredita no quê, meu filho?
— Tu vai ficar mesmo no muro? Pois diga logo que é Botafogo, Flamengo,
Fluminense, Palmeiras ou Corinthians.
— Olha, Valdir, até que criei um tal Anjo das Pernas Tortas aí, que era
a Alegria do Povo... Bem, confesso que fiquei tentado a ser torcedor do
Botafogo, mas não sucumbi.
— Tu é Vasco?
— Sim. Bem, quer dizer...
Valdir, quase se decepcionando com Deus, segurou o choro, quando Ele,
com aquele vozeirão emprestado do Cauby Peixoto, protestou.
— Vasco, não! Vascão!!!
- Nota de esclarecimento: O conto "O torcedor que encurralou Deus" foi publicado no Notibras no dia 13/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-torcedor-que-encurralou-deus/








