— 34ª
Delegacia de Polícia, agente Agatha Poirot, boa noite.
— Boa
noite. Preciso informar um feminicídio.
Pois é,
nada de vizinhos inconvenientes ou alguém que quisesse saber se o filho, o
marido ou um primo estava atrás das grades. A comunicante, que se identificou
como Luciana, 16 anos, disse que o autor havia fugido.
— Mas
você presenciou o feminicídio?
— Não.
— Alguém
viu?
— Não.
— E como
você sabe que foi um feminicídio?
— A
minha mãe está morta, e foi o meu pai que a esfaqueou.
Depois
de pegar as informações necessárias, acordei a equipe e comuniquei o fato ao
delegado Rupereta. Ele determinou que o agente Jean Paul e eu fôssemos até o
local, um luxuoso condomínio. Ao chegarmos, fomos recebidos por Luciana, cuja
expressão blasé me causou certo desconforto. No canto, um rapaz, sentado no
meio-fio, chorava copiosamente. Alguns anos mais velho, soube que era o outro
filho da vítima.
Luciana nos levou até o andar de cima, onde estava o corpo de Mirian
41 anos. Vestida com uma camisola, caso não fosse por um filete de sangue entre
os seios, alguém poderia dizer que estivesse dormindo e, não duvido, sonhando
com algum lugar tranquilo, um riacho, uma mata, cantos de passarinhos, talvez
até com o Paraíso.
Jean Paul puxou o ar de modo que pude sentir que, de alguma
forma, ele carregava resquício de culpa. Meu colega é um sujeito decente, não
sabe exatamente o que nós mulheres sentimos, porém duvido que seria capaz de
algo do tipo. Ele me olhou por alguns instantes, como se querendo dizer algo,
depois baixou os olhos.
— Jean, o Dr. Rupereta pediu para um de
nós levar a Luciana para ser ouvida. Melhor ir você, vou ficar aqui aguardando
a perícia.
Os peritos chegaram após
quase uma hora, momento em que desci e me dirigi à entrada da propriedade. Lá
estava o filho de Mirian, encolhido, como se não acreditasse naquela situação.
Quanto sofrimento.
Perto do
amanhecer, os pais, a irmã e o irmão da vítima chegaram. Enquanto o senhor
se mantinha firme, os três choraram abraçados ao rapaz, que continuava sentado
no meio-fio ao lado do portão da mansão. O idoso, alto, esguio, bigode aparado,
aparentava algo entre 75 e 80 anos. Ele se aproximou de mim.
— É difícil.
Com um gesto de cabeça, lábios
apertados, concordei. Ele prosseguiu.
— E eu preciso me manter firme. Alguém precisa segurar
o leme. Do contrário, minha família não passará por essa tempestade.
Luiz, esse era o nome daquele homem, ficou ali,
de pé, ao meu lado, sentindo o desespero dos seus, sem poder demonstrar. O
silêncio, aprendi naquele momento, pode ser mais doloroso do que qualquer som
produzido por nossa garganta. Foi quando a viatura chegou, a porta do
passageiro se abriu, Luciana desceu. Ela caminhou em minha direção, quando a
tia foi ao seu encontro. A poucos passos, a adolescente desabou nos braços da
parenta e urrou como um animal que acabara de perder tudo. Meus olhos se
encheram de lágrimas, fui para o lado do muro e chorei.
Saí do plantão naquela manhã com parcela
de dor daquela gente. Já no meu apartamento, entrei debaixo do chuveiro, como
se desejasse que a água levasse embora toda aquela tragédia. Quando já era perto
do meio-dia, Jean Paul me ligou.
— Você tá sabendo?
— O quê?
— O marido daquela
mulher de hoje se matou.
— Não.
Nem tive curiosidade
de saber como o cretino havia tirado a própria vida, o que não impediu que meu
colega me revelasse.
— Agatha, você
acredita que o cara estava na estrada e jogou o carro na frente de um caminhão?
E o desgraçado, além de morrer, acabou matando o motorista do caminhão.
Por que essas coisas acontecem? Bem, creio que todos sabemos, mesmo que, não raro, prefiramos fingir. Isso ocorreu há tantos anos, mas ainda hoje o rosto daquela quase menina, antes gélido, depois puro vulcão, não me sai da mente. E a dúvida, a dúvida se aquele homem teve a sua hora de chorar.
- Nota de esclarecimento: O conto "Poesia interrompida" foi publicado no Notibras no dia 11/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/poesia-interrompida/










