Não,
definitivamente não! Seria estranho acordar e me deparar com a dona Lígia e o
seu Horácio sob os lençóis amarrotados, o sorriso dos dois trocando beijos e,
não duvido, afagos mais atrevidos. Preciso apagar essas imagens da minha mente,
pois esses não são os meus pais.
Estava
eu com meus cinco anos, exatos cinco anos, pois aquele era o meu aniversário,
quando mamãe veio me contar que meu pai não iria mais morar conosco. Lembro-me
do enorme bolo azul, retangular, encorpado, sobre a mesa da sala, das costas de
papai, a camisa pouco amarrotada, passos tristes, cabelos ondulados. Senti
falta de ver aqueles olhos azuis, o sorriso meio puxado para o lado esquerdo, a
voz me dizendo "Julinho, vai ficar tudo bem", as mãos desfazendo o meu
penteado que mamãe acabara de fazer.
Na
escola, quando me dei conta, senti olhares cortantes: "Esse aí, coitado,
os pais são desquitados". Sem saber, aquelas palavras me afetaram antes
mesmo de entendê-las. Cheguei a sonhar que me gritavam "Júlio César
Oliveira Desquitado da Silva", e eu respondia "Presente".
Mas hoje não! Não suportaria conviver com meus pais juntos. Quer
dizer, me dou muito bem com os dois... Não tão bem assim com papai. Já com
minha mãe, bem, apesar do amor que sinto por ela, na verdade carregado de culpa
que não consigo explicar, a nossa convivência é razoável. É que a dona Lígia
tem a inconveniente mania de se intrometer na minha vida, quer saber de tudo,
com quem ando, quem são as garotas que, porventura, eu me envolva. Se minha mãe
soubesse que muitas delas carregam o sobrenome Desquitado...
Ontem foi a minha formatura. Biólogo. Meus colegas pareciam
mais eufóricos do que eu, aqueles sorrisos carregados de franquezas incômodas.
E dona Lígia de mãos dadas com o seu Horácio. O que foi aquilo? Será? Não pode
ser. Minha mãe, assim que voltamos para casa, me disse que há muito não se
sentia tão feliz. Falou que vai me contar depois, não faço a menor ideia do que
seja, disse que eu ficaria contente. Contente? Que palavra mais tola para
descrever alguém, quer dizer, um adulto. Sim, há alguns anos sou crescido,
ainda mais agora depois de graduado. Biólogo.
Só espero que dona Lígia não me venha com ideias... Que as coisas
permaneçam como estão ou, então... O que posso fazer? Melhor nem pensar nisso,
preciso arrumar emprego. Seria tão bom se todo mundo que se formasse já tivesse
um monte de propostas fresquinhas batendo à sua porta. Já pensou que maravilha?
Nem sei o que vou fazer a partir de agora, talvez tentar um mestrado, dar aula, quem sabe até conseguir uma vaga em uma ONG, me embrenhar na Amazônia. Sempre fui atraído pelo Quênia, África do Sul, rinocerontes, búfalos, hipopótamos, leopardos, leões... Rinocerontes... Girafas também. O Pantanal também não seria ruim. Se eu não me mexer, vou terminar no asfalto.
- Nota de esclarecimento: O conto "Rinocerontes, girafas e meus pais" foi publicado no Notibras no dia 24/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/rinocerontes-girafas-e-meus-pais/









.jpeg)

