—
Sai pra lá, Pingo!
O
vira-lata se fez de desentendido e pulou sobre o homem.
—
Para! Para! Sai! Cachorro maluco.
Lavou
o rosto, olhou-se no espelho. Confidenciou ao próprio reflexo:
—
Será que ela beija bem?
Sorriu.
Sim, certamente beijava melhor do que o Pingo.
—
Duvida?
Assustado,
o sujeito voltou os olhos para o espelho e, para sua surpresa, o seu reflexo
havia se transformado na vizinha.
— O quê?
— Duvida?
— Não. Claro que não!
Jogou água na cara. Voltou a abrir os olhos.
— Que loucura é essa, meu Deus?
Abriu a porta e lá foi o Pingo se aliviar no quintal. Lauro
pensou que talvez também precisasse marcar território. Estava cansado de noites
divididas com o cachorro, que um dia foi deixado em uma caixa de papelão em
frente ao portão. Por que mesmo o teria acolhido? Piedade, nada mais do que
pena daqueles grandes olhos amendoados de um castanho profundo, que provocavam dó apenas de fitá-los. E o danado, de tão feio, tinha lá o seu
charme.
Xícara sobre a mesa da
cozinha, Lauro tentou entender a fumaça, algo dança do ventre. Bastou um sopro,
tomou um gole. Nada mal para um café solúvel. A preguiça o afastava do coador. Aquilo que era bom, gosto de casa de vó. Um dia criaria coragem para convidar a
bonitona da casa em frente para degustar um gourmet nessas cafeterias chiques.
Quando saísse o décimo terceiro.
Avistou seu Onofre vindo
da esquina. O senhor, como de costume, passeava com o Zeus, o mestiço de pastor
que vivia às turras com o Pingo. Certamente por conta de uma pretendente. Se
ele soubesse que o vira-lata era castrado.
— Pingo! Pingo! Entra!
Vamos! Entra!
Tomou banho, se arrumou
para o trabalho. Antes de sair, observou o calendário preso na parede da
cozinha. Respirou profundamente. Não via a hora de trocar a juventude pela
aposentadoria.
— Pingo, papai precisa trabalhar. Não vá fazer bagunça. Até mais tarde, bonitão!
- Nota de esclarecimento: O conto "Lauro, Pingo e outras solidões" foi publicado no Notibras no dia 27/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/lauro-pingo-e-outras-solidoes/









