Já que o nome da simpática figura não me vem à mente, sinto-me no direito de recorrer à licença poética e chamá-la de Dóra. Sim, Dóra com acento agudo, pois me soa mais mineiro do que Dôra. E faço questão dessa distinção para que você que está me lendo não tenha dúvida quanto à pronúncia correta.
Devia ter eu não mais do que seis ou sete anos quando a Dóra costuvama chegar à nossa casa com aquele sorriso de quem carrega tanta felicidade, que se sente na obrigação de distribuí-la com as outras pessoas. E parece que funcionava com mamãe, que levava uma vida conflituosa com o meu pai. E como fui complacente com papai por anos, até que não teve mais jeito quando a consciência chegou com a maturidade.
Meu velho era mesmo um chauvinista dos mais arraigados ao patriarcado. Do tipo controlador, que se sentia humilhado porque mamãe, vez ou outra, faturava mais do que ele por conta dos belos vestidos que costurava para as clientes mais abastadas de Brasília, para onde havíamos mudado no final de 1972. Se mamãe teve vontade de se separar? Não duvido, mas ela jamais contou lamúrias para os filhos, como se aquele fardo só lhe pertencesse.
Enquanto meus irmãos e eu fazíamos o dever de casa na sala, mamãe e Dóra trocavam confidências na cozinha. Nessas ocasiões, mamãe fazia bolinhos de chuva para acompanhar o café que só ela sabia preparar.
— Não adianta, Dóra, o Osvaldo não muda.
— Todo o ser humano tem o direito de mudar, Joana.
— Hum! Com o Osvaldo, só se ele resolver se mudar pra bem longe, mas vai continuar o mesmo.
— Minha amiga, muitas vezes as pessoas mudam, mas não sabem como demonstrar. Talvez seja o caso do Osvaldo.
— Hum!
Não sei se esse era o caso do meu pai naquele tempo. No entanto, quando estava beirando os 80 anos, ele reuniu os filhos e netos e, sentado ao lado da nossa mãe, se desculpou por ter sido tão duro e controlador com a esposa. Mamãe pareceu incrédula com aquelas palavras.
Depois de todos falarem algo a respeito, mamãe pegou o celular e foi para a cozinha, talvez desejando um pouco de privacidade. Tive um pressentimento e, discretamente, fui atrás dela. Esgueirei-me ao lado da porta da cozinha, enquanto ouvi a voz da minha mãe:
— Dóra, você estava certa. Aconteceu. O Osvaldo mudou.
- Nota de esclarecimento: O conto "Dóra, a amiga de mamãe" foi publicado no Notibras no dia 12/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/dora-a-amiga-de-mamae/






