Não digo que mamãe e eu jamais tivemos nossos bons momentos. E
foram marcantes, como a vez em que ela me levou ao cinema pela primeira vez. Eu
estava com meus oito anos.
— Sérgio, que tal um cineminha?
Além do filme, ganhei pipoca, refrigerante e até uma barra de chocolate.
Isso tudo recheado de muitas risadas. Dona Rosana, às vezes, era legal.
Pouco antes de a adolescência me ser apresentada, meus pais resolveram
que o melhor caminho era cada um seguir o seu, isso antes de se matarem. Mamãe
tentou de tudo para que eu fosse morar com meu pai, que seria melhor para mim.
Seu Álvaro, por sua vez, não demonstrou grande entusiasmo por essa ideia.
— Sérgio, meu filho, é melhor você ficar com a sua mãe. Sabe, ela é a
sua mãe. Não é legal você deixá-la sozinha nesse momento. Ela vai precisar de
apoio.
Depois do meu pai me incutir tamanha culpa, não tive dúvida. Precisava
ficar ao lado da dona Rosana.
— Mamãe, eu quero morar com a senhora.
— Por quê?
— Ué, porque sim. Sou seu filho.
— Hum... Tá bom! Mas dobre as suas meias e lave as suas cuecas.
Enquanto meu pai parecia levar uma vida de solteiro, dona Rosana
continuava sendo mãe e, muitas vezes, pareceu se esquecer de que continuava
mulher. Também tive parcela de culpa, adolescente que era, sentia ciúme de
vê-la nos braços de outros homens.
— Sérgio, toma conta da sua vida. Por acaso já me intrometi na sua?
Na verdade, dona Rosana colocava defeito em todas as garotas com quem eu
começava a me relacionar.
— Qual é mesmo o nome da sua namoradinha?
— Laís.
— Ah, tá! Pensei que fosse Márcia.
— Márcia? Nunca namorei nenhuma Márcia, mãe.
— Ah, não? E aquela de cabelos de milho?
— Roberta, mãe.
— Ah, tá! Gostava mais dela. Pelo menos não andava pelada.
— Mãe, e quem andava pelada?
— Essa sua namorada. Qual é memo o nome? Elza?
— Laís, mãe. E ela não anda pelada, não.
— Ah, não? Pois foi o que me pareceu ontem.
— Mãe, a Laís estava de saia e blusa.
— Ah, é? Só deu pra ver a calcinha.
Depois de anos de batalhas infrutíferas, os diálogos se dividiram em
monólogos e, por fim, sobraram apenas olhares desviados.
Passei no vestibular, ia de casa para faculdade, da faculdade para casa,
saía de vez em quando com amigos e um caso ou outro com alguma mulher. Nada
sério.
— Mãe, a senhora quer ir à minha formatura?
— Formatura?
— É, mãe. Vou me formar.
— Já?
— Sim, mãe. O tempo voa, né!?
— Quando vai ser?
— Mês que vem, dia três.
— Hum... Tá bom. Três?
— Sim.
— Parabéns.
— Obrigado, mãe. Matemática.
— Eu sei. Você sempre gostou de números.
— É.
— E agora? O que vai ser?
— Acho que consegui uma vaga de professor em uma escola. Professor
substituto.
— Que bom, meu filho.
Dona Rosana se levantou e me deu um abraço. Uma das poucas vezes depois
daquela tarde no cinema. Foi estranho, porém revelador. Existia algum vínculo,
ainda que adormecido.
Foi bom ter a companhia da minha mãe na formatura. Ela sorriu
todos os sorrisos guardados desde que meu pai foi embora. Dona Rosana pareceu
querer compensar tantas trocas de ofensas.
— Aquela é a sua namorada?
— O quê, mamãe?
— Aquela moça ali, a de cabelos pretos.
— Não, mamãe.
— Por quê?
— Ué, mãe, porque não.
— Hum... Pois não perca tempo, Sérgio. A vida passa rápido
demais.
Mamãe estava certa. Naquela mesma noite, Marina e eu começamos a namorar.
- Nota de esclarecimento: O conto "O chão da infância" foi publicado no Notibras no dia 19/07/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-chao-da-infancia/








