sábado, 22 de agosto de 2026

O gosto da suspeita

     

    Eugênia andava ressabiada com a própria felicidade. Casara antes dos vinte com Rômulo, o namoradinho do ginásio. O casal teve dois filhos: um menino e uma menina. E cada herdeiro brindou a família com outras crianças saudáveis. Entretanto, algo intrigava a mulher, que nem desconfiava do motivo.

    Durante uma quarta-feira, que poderia ser terça ou quinta, Eugênia recebeu a visita de Lúcia, amiga de longa data. Mal se entreolharam, as duas constataram estranhezas no rosto da outra.

    — O que foi, Eugênia? Parece que veio de um velório.

    — E que cara de felicidade é essa? Por acaso encontrou o passarinho verde por aí?

    — Tô procurando, tô procurando.

    Sentaram-se no sofá, a televisão ligada. Nenhuma das duas parecia interessada na programação.

    — Tá assistindo?

    — Não.

    — Então, mulher, por que não desliga isso?

    — Sei lá! Deve ser por conta do hábito.

    — Ih, Eugênia, o que aconteceu?

    — Hum... Sabe que não sei, amiga, mas não me engano.

    — Com o quê?

    — Não faço ideia. 

    — Já sei do que você precisa.

    — De um amante. Mas tem que ser um coroa bonitão e fogoso.

    — Hum! Até parece.

    — Café.

    — Café?

    — É disso que você precisa.

    — Hum...

    — Tem pó?

    — Tem, Lúcia.

    Já na cozinha, enquanto a visita preparava o café, a anfitriã, cara murcha, apenas observava. Muda, preferia divagar sobre a sua cisma.

        — Prove.

        — Tem torrada aí nesse pote amarelo.

        — Nada de torrada, Eugênia. Tome.

        — Só café?

        — Ah, amiga, não se engane. Café nunca é só café.

        Mesmo consternada, Eugênia deu uma leve bicada. Depois outra. Mais uma. Sorriu.

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