quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Gosto de hortelã

     

   Cássio levou a xícara aos lábios, quase duas tênues linhas entre o nariz adunco e o queixo praticamente inexistente. Da janela do pequeno apartamento, observou um casal de joão-de-barro que carregava gravetos para dentro do ninho. O homem teve a certeza de que logo, logo outros seres eclodiriam na imensidão do jardim.

    Um gole, uma pausa reflexiva. Outro gole e Cássio foi tomado por uma cena a que assistira em um desses canais de vida selvagem: um búfalo e seis, sete, quinze bocas famintas. Leões.

    O gosto de café lhe pareceu sanguinolento. O ímpeto de cuspi-lo foi momentaneamente contido por um resquício de razão. Leões devoravam o pobre animal ainda vivo. Abriram-lhe o ventre, as tripas esparramadas sobre o chão da savana. Olhos incrédulos, perdidos diante do doloroso destino.

    Impasse perante a própria vida. Cássio se lembrou de Aurora. Inevitável. Sentiu-se apunhalado pela mulher que havia lhe prometido amor eterno. Fidelidade.

    — Por quê, Aurora?

    — Essas coisas acontecem, meu amor.

    — Amor? Você ainda tem coragem de me chamar de amor?

    — Costume.

    A conversa foi breve, antes não tivesse acontecido. Remoeu, remoeu, remoeu. Todos os remorsos. Lembrou-se do gosto do primeiro beijo. Gosto de hortelã.

    — É o chiclete, meu amor.

    — Quero esse gosto pra sempre, Aurora!

    — Pra sempre é muito tempo, meu amor.

    Pra sempre é muito tempo. Sim, pra sempre é uma eternidade. Gosto de sangue. Cuspiu.