Por costume, Arlete engravidou e deu à luz. Uma menina. Uma linda
menina. Maria Júlia. Quando deu o tempo, quis retornar ao trabalho. No entanto,
por costume, foi dissuadida da ideia por Danilo. A princípio, a mulher
considerou aquela proposta tentadora.
— Já pensou, minha flor? Você nunca mais vai precisar se matar de
trabalhar por ninharia.
Arlete, por intuição, evitou nova gravidez. Que o mundo já era deveras
incerto para se ter mais do que um filho.
A mulher praticamente não saía do lar, doce lar. Sem ter com quem
confidenciar, despejou suas angústias sobre a ainda pequena Maria Júlia. De
tanto se abrir com a filha, acabaram íntimas.
Aos quinze, os lábios de Maria Júlia se fizeram presentes pela primeira
vez.
— Mãe, por que a senhora não se separa do pai?
— O quê?
Divórcio, Arlete não queria. Não depois que o casal conquistou a tão
almejada vida de classe média. Sim. Classe média.
Certa manhã, enquanto descascava cebolas na cozinha, Arlete imaginou ter
ouvido uma voz. Seria Maria Júlia? Ela se virou, foi até o quarto da
adolescente. Não, a filha ainda não havia retornado da escola.
— Mata ele.
— Quem é que está falando?
— Vai, mata ele, sua boba.
Arlete arregalou os olhos, vasculhou todo o apartamento. Nada. Ninguém.
— Seu eu fosse tu, matava ele.
— Quem é você?
— Sabia que ele te trai com a Elvira?
— Elvira? A chefe do Danilo?
— Pois é, Arlete. Tu é corna e fica aí com dó de acabar com o cretino.
— Não é possível. Depois de tudo o que eu fiz pra ele? E com a Elvira?
— Mata ele! É fácil. Coloque veneno na marmita do canalha.
— Veneno?
— É! Tem veneno de rato na despensa.
— Não.
— Não?
— Se fosse em outros tempos... Hoje em dia não dá.
— Por que não, Arlete?
— Vão investigar. Não dá. Vou acabar na prisão. Veneno está fora de
cogitação.
— Hum... Que tal mandar mexer no freio do carro?
— Também não. O Danilo leva a Maria Júlia pra escola antes de ir pro
trabalho.
— Hum... Já sei!
— Como?
— Que tal você provocar um enfarto no Danilo?
— Mas como faço isso?
— Exageros, Arlete. Exageros.
— Não entendi.
— Entupa o porco de comida, de sobremesa, de álcool. Fartura de... Você
sabe, né?
— Ih, esquece! Prefiro dar um tiro na cara do Danilo.
A conversa foi interrompida por um telefonema. Era do trabalho do Danilo. Distraído, o homem não percebeu que o elevador estava nivelado com o piso. Caiu no fosso. Pobre Arlete. Enviuvou.
Nota de esclarecimento: O conto "A viúva não-praticamente" foi publicado no Notibras no dia 20/8/2026.

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