quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A viúva não-praticante

    Arlete esbarrou em Danilo por acaso. Por acaso, começou a namorar o sujeito. Não foi paixão arrebatadora e, também por acaso, ela se deixou levar até o altar.

    Por costume, Arlete engravidou e deu à luz. Uma menina. Uma linda menina. Maria Júlia. Quando deu o tempo, quis retornar ao trabalho. No entanto, por costume, foi dissuadida da ideia por Danilo. A princípio, a mulher considerou aquela proposta tentadora.

    — Já pensou, minha flor? Você nunca mais vai precisar se matar de trabalhar por ninharia. 

    Arlete, por intuição, evitou nova gravidez. Que o mundo já era deveras incerto para se ter mais do que um filho. 

    A mulher praticamente não saía do lar, doce lar. Sem ter com quem confidenciar, despejou suas angústias sobre a ainda pequena Maria Júlia. De tanto se abrir com a filha, acabaram íntimas. 

    Aos quinze, os lábios de Maria Júlia se fizeram presentes pela primeira vez.

    — Mãe, por que a senhora não se separa do pai?

    — O quê?

    Divórcio, Arlete não queria. Não depois que o casal conquistou a tão almejada vida de classe média. Sim. Classe média. 

    Certa manhã, enquanto descascava cebolas na cozinha, Arlete imaginou ter ouvido uma voz. Seria Maria Júlia? Ela se virou, foi até o quarto da adolescente. Não, a filha ainda não havia retornado da escola. 

    — Mata ele.

    — Quem é que está falando?

    — Vai, mata ele, sua boba.

    Arlete arregalou os olhos, vasculhou todo o apartamento. Nada. Ninguém.

    — Seu eu fosse tu, matava ele.

    — Quem é você?

    — Sabia que ele te trai com a Elvira?

    — Elvira? A chefe do Danilo?

    — Pois é, Arlete. Tu é corna e fica aí com dó de acabar com o cretino.

    — Não é possível. Depois de tudo o que eu fiz pra ele? E com a Elvira?

    — Mata ele! É fácil. Coloque veneno na marmita do canalha.

    — Veneno?

    — É! Tem veneno de rato na despensa. 

    — Não.

    — Não?

    — Se fosse em outros tempos... Hoje em dia não dá.

    — Por que não, Arlete?

    — Vão investigar. Não dá. Vou acabar na prisão. Veneno está fora de cogitação. 

    — Hum... Que tal mandar mexer no freio do carro?

    — Também não. O Danilo leva a Maria Júlia pra escola antes de ir pro trabalho.

    — Hum... Já sei!

    — Como?

    — Que tal você provocar um enfarto no Danilo?

    — Mas como faço isso?

    — Exageros, Arlete. Exageros.

    — Não entendi.

    — Entupa o porco de comida, de sobremesa, de álcool. Fartura de... Você sabe, né?

    — Ih, esquece! Prefiro dar um tiro na cara do Danilo.

    A conversa foi interrompida por um telefonema. Era do trabalho do Danilo. Distraído, o homem não percebeu que o elevador estava nivelado com o piso. Caiu no fosso. Pobre Arlete. Enviuvou.

Nota de esclarecimento: O conto "A viúva não-praticamente" foi publicado no Notibras no dia 20/8/2026.

https://www.notibras.com/site/a-viuva-nao-praticante/

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