sábado, 15 de agosto de 2026

Velhos bandidos

    Agnaldo acordou. Olhou para o lado, Lúcia continuava dormindo, rosto sereno, como se todas as preocupações estivessem camufladas debaixo do tapete. Quis se levantar, mas receou interromper os sonhos da mulher, que era sensível ao mínimo barulho.

    Cinquenta e nove anos. Uma longa estrada, o homem pensou. E lembrou-se de que, quando jovem, tinha certeza de que não chegaria aos trinta e seis. 

    Bexiga cheia, Agnaldo buscou uma posição mais confortável. Foi o suficiente para Lúcia abrir os olhos, a voz carregada de uma preguiça de domingo.

    — Feliz aniversário, meu amor.

    — Te amo.

    Beijaram-se brevemente. Finalmente, ele se levantou e foi se aliviar. Lavou o rosto, fez caretas em frente ao espelho, buscou as rugas acumuladas. Como envelhecera! Cinquenta e nove anos. Muito além dos trinta e seis.

    Enquanto tomava café, o casal tentava planos para sair da rotina.

    — Que tal um cineminha?

    — Pode ser.

    — Agnaldo, se você não quiser, não precisa fazer nada forçado. 

    — Não.

    — Não quer?

    — Pode ser.

    — Hum...

    — Qual filme está passando?

    — Vou ver.

    Depois de breve busca na internet, Lúcia respondeu:

    — Velhos bandidos.

    — É sobre o quê?

    — Olha, é com a Fernanda Montenegro e o Ary Fontoura.

    Agnaldo pareceu algo animado. Almoçariam em algum restaurante próximo ao cinema. Comida leve, precisariam guardar espaço para a pipoca.

    Deram boas gargalhadas com o filme. Comédia. Voltaram para o apartamento, tomaram banho juntos. 

    — Pois é, Lúcia, estou quase idoso. Daqui a um ano terei sessenta. Acredita?

    — É verdade, meu amor. E aí?

    — Estou pensando, Lúcia...

    — No quê?

    — Será que dá pra antecipar a minha inscrição?

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