domingo, 16 de agosto de 2026

O conforto do caos

     

    Elias. Professor Elias. Literatura. Adorava dar aulas, discutir sobre escolas literárias, os autores clássicos, conhecer os novos. Vez ou outra, encantava-se com um. Ilma Pereira, mineira, jeito mineiro de contar histórias. Causos ao redor de uma fogueira que aquece a mente.

        O sujeito morava só. Momentos solitários. Precisava daquela companhia única, sem interferências. Solidão. Alguns parecem temê-la, como se ninguém mais se importasse. Que seja. Elias, confortável, se deixava abraçar pelos próprios pensamentos.

        O professor amava nadar. Melhor, amava o som dos respingos d'água, braçada a braçada. E mergulhava, imerso no mundaréu da piscina do condomínio, solitária naquela hora da madrugada. 

    — Professor, qual escritor você está lendo?

    — Gilberto Motta.

    — E o que você pode falar sobre ele?

    — Estou lendo.

    — Ainda não deu pra perceber alguma coisa sobre ele?

    — Cada leitor sente de alguma maneira. O Gilberto Motta me intriga.

    — Como assim?

    — Não consigo descrevê-lo. Talvez nunca consiga.

    Pegou a raquete no fundo do armário, foi em direção à quadra de tênis. Torceu para que não houvesse ninguém. Preferia brincar no paredão. Sozinho, recheado de pensamentos, todos seus. Não queria ser Björn Borg, não queria ser Martina Navratilova. Apenas brincar de sonhar. 

    — Professor, Machado ou Lima?

    — Apolo e Dionísio, Pelé e Garrincha. O ideal e a realidade de todos nós.

    Elias caminhou. Breves galopes, talvez fugas, quem sabe reminiscências. Passos e descompassos apressados, na pontinha dos dedos, sobre os calcanhares, de lado, para fora, para dentro de si. Não é fácil, vontade de fugir do próprio corpo, às vezes com sucesso; outras, a maioria, pura resiliência.

    — Professor, quero ser escritora, mas me falta paz.

    — Pobre do escritor que não convive com o caos. 

    Foi pescar. Não levou isca, não levou anzol. Acompanhado apenas de ilusões.

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