quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O ensaio das aparências

   

    Ernesto possuía reputação ilibada. Até mesmo os desafetos reconheciam no sujeito a aura da mais pura dignidade. E como ele era humilde!

    — Meus parabéns, Ernesto. Você fez um excelente trabalho. Nem sei o que seria da empresa sem a sua capacidade.

    — Obrigado, Chefe. Mas o mérito deve ser repartido com toda a equipe.

    Outra feita, Ernesto ouviu os gritos da vizinha. E lá foi o paladino acudir quem pedia socorro. Ao chegar ao apartamento, o porteiro e a síndica, atônitos, não souberam o que fazer. Letícia estava em trabalho de parto.

    — Luís, chame o SAMU. Dona Marília, preciso de panos fervidos. Rápido!

    Enquanto o porteiro acionava a emergência, a síndica foi esterilizar algumas toalhas. 

    — Estou com medo, Ernesto!

    — Calma, Letícia, tudo vai ficar bem.

    — E o meu bebê?

    — Ele está bem.

    Menos de meia hora depois, era possível ouvir a sirene da ambulância a caminho. No entanto, assim que a equipe médica entrou no apartamento, o pequeno Daniel já chorava nos braços do parteiro de última hora.

    — Obrigada, Ernesto! Nem sei o que seria da gente se não fosse você.

    — Não há de quê, Letícia. Qualquer um faria o mesmo no meu lugar.

    Ernesto ensinava matemática para um grupo de crianças carentes, lia contos, crônicas e declamava poesias em um asilo de velhinhos, escutava com atenção as desventuras amorosas até de desconhecidos e sempre dava generosas gorjetas aos garçons. Como já dito, até os desafetos o tinham em alta conta. E foi justamente um deles, o Marcolino, colega de trabalho, que fez questão de enaltecer as qualidades incomuns do quase inimigo.

    — Ernesto, tu sabe que nunca fui com a tua cara, né?

    — Nunca desconfiei.

    — Pois é a mais pura verdade. Talvez seja implicância da minha parte. Mas hoje quero lhe dizer que nunca vi um tipo mais altruísta que tu. E, acima de tudo, humilde. Tu é a humildade em pessoa.

    — Muito agradecido, Marcolino. E pode deixar, meu amigo, prometo jamais decepcioná-lo. Sei fingir humildade muito bem. 

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