Há gente que passa a vida inteira ensaiando em frente ao espelho.
Cada frase dita teatralmente. Postura de galo às cinco horas da madrugada.
Cocoricó! Cocoricó! Cocoricó!
Gente valente. Gente
destemida. Gente que enfrenta sem temor o próprio reflexo. Caras e caretas.
Pois venha! Atreva-se e sentirá o peso de tamanha valentia.
Há gente. Há gente como o
Eliosmar. Tipo destemido, acima de qualquer suspeita. Diante de uma barata
intrusa, o homem avançou.
— Oxe, menina! Sai daqui!
O inseto, talvez curioso,
observou a sola ameaçadora sobre o seu frágil corpo. Prestes a ser esmagado, algo o impediu de fugir.
— Duvida, é? Olha que te
esfarelo, sua nojenta.
Impassível, a criatura pareceu
bocejar. Teimosa, firmou as seis patinhas sobre o piso da sala, como se
desafiasse o dono daquele lugar.
Eliosmar, incrédulo,
recolheu o pé. Não era prudente aniquilar ser tão minúsculo. Asqueroso, é
verdade, porém diminuto. E quem iria limpar a sujeira depois?
O sujeito virou-se, pegou o
controle da televisão. Lá estava o lendário Nilton Santos, que relembrava os
áureos tempos do futebol brasileiro: "Nem todo mundo é Garrincha pra achar
que a Tchecoslováquia é o São Cristóvão."
- Nota de esclarecimento: O conto "O galo e a barata" foi publicado no Notibras no dia 21/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-galo-e-a-barata/

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