sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O galo e a barata

  

Há gente que passa a vida inteira ensaiando em frente ao espelho. Cada frase dita teatralmente. Postura de galo às cinco horas da madrugada. Cocoricó! Cocoricó! Cocoricó!

    Gente valente. Gente destemida. Gente que enfrenta sem temor o próprio reflexo. Caras e caretas. Pois venha! Atreva-se e sentirá o peso de tamanha valentia.

    Há gente. Há gente como o Eliosmar. Tipo destemido, acima de qualquer suspeita. Diante de uma barata intrusa, o homem avançou.

    — Oxe, menina! Sai daqui!

    O inseto, talvez curioso, observou a sola ameaçadora sobre o seu frágil corpo. Prestes a ser esmagado, algo o impediu de fugir.

    — Duvida, é? Olha que te esfarelo, sua nojenta.

    Impassível, a criatura pareceu bocejar. Teimosa, firmou as seis patinhas sobre o piso da sala, como se desafiasse o dono daquele lugar.

    Eliosmar, incrédulo, recolheu o pé. Não era prudente aniquilar ser tão minúsculo. Asqueroso, é verdade, porém diminuto. E quem iria limpar a sujeira depois?

    O sujeito virou-se, pegou o controle da televisão. Lá estava o lendário Nilton Santos, que relembrava os áureos tempos do futebol brasileiro: "Nem todo mundo é Garrincha pra achar que a Tchecoslováquia é o São Cristóvão."

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