Orlando, então saído de um relacionamento conturbado, muito por sua
culpa, refugou por alguns dias até que enviou uma mensagem pelo WhatsApp:
"Bom dia!"
O homem, logo em seguida, foi tomado de arrependimento. Quem manda
mensagem a uma praticamente desconhecida àquela hora da manhã? Orlando conferiu
o horário: 8h37.
"Bom dia, Orlando! Pensei que você tivesse perdido o meu
número. Ou algo pior..."
Não era tão cedo assim, pensou Orlando.
"Pior?"
Minutos de espera carregados de certa angústia. O que seria pior?
"É, Orlando. Pensei que você
tivesse me esquecido."
Aquele foi o empurrão necessário para que Orlando arrancasse o resquício
de coragem escondida no fundo da gaveta.
"Posso te ligar?"
"Pode sim."
Combinaram um café no sábado. Muitas expectativas que acabaram em
promessas de se encontrarem novamente. Mera formalidade.
Quase cinco anos depois, Maria e Orlando se reencontraram em um
churrasco na casa de Paulo, amigo em comum. Desconhecendo que aqueles dois já
possuíam um princípio de história, o anfitrião os apresentou. Como se tivesse
sido combinado, eles fingiram ser estranhos.
— Bem, meus queridos, vou deixá-los a sós. Preciso dar um
abraço no Álvaro. Sintam-se à vontade e, qualquer coisa, me chamem.
Assim que Paulo deu as costas, Maria e Orlando sorriram,
como se fossem crianças que acabaram de fazer traquinagens.
— Quando você se tornou um mentiroso? E você me viu?
Orlando, e se o Paulo descobre?
— Pois é, Maria, somos dois mentirosos
de carteirinha. Tudo bem com você? Já faz tanto tempo, né?
O bate-papo fluiu. Saíram de mãos dadas e hoje, passados
dez anos, entre idas e vindas, decidiram ter uma lua de mel em João Pessoa. E,
caso gostem da experiência, é provável que juntem os panos quando retornarem.
Talvez comprem até um aquário.
- Nota de esclarecimento: O conto "O velório do acaso" foi publicado no Notibras no dia 1º/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-velorio-do-acaso/

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