segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Filosofia pós-anestesia

  

    Noite dessas, estava conversando com o meu grande amigo e maior parceiro no mundo literário, o Daniel Marchi, a quem tenho a petulância de chamar apenas de Dan. Também, são décadas de convívio. Posso dizer até que quase vi o meu camarada na maternidade, já que os meus padrinhos, a Marilda e o Celso, são os seus pais. 

    Pois noite dessas estava mesmo trocando ideias com o Dan, que passou por uma pequena intervenção cirúrgica. Ele, quase grogue por conta ainda do efeito da anestesia, queria saber como andavam as coisas com o Café Literário, do qual somos editores aqui no Notibras.

    — Dan, esquece isso. Está tudo sob controle. Cuide-se. 

    — Estou bem, Edu. O Celsinho está aqui comigo.

    — Que bom! E ele levou chinelo dessa vez?

    — Nem ele, nem eu. Olvidamos ambos.

    — Não acredito! Como é que vocês esquecem algo fundamental?

    Não sei se acontece com os outros escritores, mas comigo é exatamente assim: a minha criatividade e o meu conforto só ficam ativados quando estou com os meus surrados chinelos de dedo. Ah, detalhe: de meias. 

       — Edu, eu ainda tinha pensado em comprar um chinelo só pra vir pro hospital. É que o meu mais novo arrebentou.

        — E o outro par?

        —  Ih, Edu, o outro está muito gasto. 

        —  E depois o doido sou eu, né? Coitado do Celsinho.

        —  Ele está bem. 

        —  Bem mesmo?

        — Mais ou menos. Ele também está reclamando da falta do chinelo.

        —  Também né? Mande um beijo pra ele.

        —  Mando sim.

        —  Até amanhã.

        —  Até, Edu. 

        Quando eu já ia desligar, eis que o Dan me aparece com uma filosofia de botequim:

        — Ah, Edu, e não se esqueça.

        —  Do quê?

        —  Onde não puderes ir de chinelo, não te demores.

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