— Por que não, Joana?
— E se alguém descobrir?
— Então, o receio é esse? Tem medo
de que alguém descubra?
— Não é só isso.
— Não?
Joana e Rita se entreolharam até
que as duas sorriram quase ao mesmo tempo.
— Tu é louca, Rita!
— Você acha?
— E não é?
— E qual é o problema de ser louca
quando a hipocrisia nos faz sala como se fosse a coisa mais normal do mundo?
— Tá! Mas e se alguém descobrir?
— Ninguém vai descobrir.
— E como você pode ter tanta
certeza disso?
— Não tenho.
Diante da resposta honesta de
Rita, Joana gargalhou de nervoso. Ela queria ser convencida pela amiga, apesar
do receio de ser descoberta. E daí que fosse? O que o mundo teria a ver com o
que ela fizesse? Mas aquilo era certo? Pensou por um instante na reação dos
mais próximos, dos amigos, dos vizinhos, da mãe. Certamente, dona Aurora jamais
a perdoaria.
— Mas tem que ser hoje mesmo,
Rita?
— Que seja agora! Tem coisas que
precisam ser na hora, quando a vontade bate. Do contrário, periga deixarmos a
razão tomar conta da nossa vida.
— Então, vamos, Rita! Antes que eu
me arrependa.
As mulheres, mãos dadas,
caminharam determinadas a colocar o plano em prática. Foram direto para a casa
de Laura, que pareceu surpresa com a chegada das amigas.
— Hum! Pensei que vocês não viriam
mais.
— E perder essa oportunidade? A
Joana e eu estamos dentro, amiga! Separou as coisas?
Laura sorriu e apontou para a
mesa. Lá estavam uma corda fina, um saco preto e uma faca de açougueiro.
Meticulosamente afiada, por sinal.
— Então, vamos?
Joana e Rita se entreolharam,
fitaram Laura e, quase em uníssono, responderam:
— Vamos!
A anfitriã colocou meticulosamente
os objetos em uma sacola. Não tardou, as mulheres foram até a cerca que dividia
os terrenos de Laura e do vizinho. Para se certificarem de que não havia ninguém
em casa, Laura gritou:
— Seu Horácio! Seu Horácio!
Nada. Nem um único som. Laura
olhou para as amigas e, em seguida, voltou a chamar pelo morador:
— Seu Horácio! Seu Horácio!
Certa de que a casa estava vazia,
Laura se virou para Joana e Rita:
— Vamos!
As comparsas pularam a cerca e
invadiram a propriedade alheia. As mulheres não conseguiram evitar que o frio
se instalasse em suas entranhas. Todavia, já era tarde demais para voltarem
atrás. O que precisava ser feito teria que ser executado. E que fossem ligeiras,
antes que o velho Horácio retornasse e as flagrasse em seu território. Caso
isso ocorresse, elas sabiam o que seria necessário fazer. Não tinham a menor
dúvida, fariam.
Cautelosamente, caminharam em
direção ao alvo, que de bobo nada tinha. Ele fixou o olhar nas intrusas, eriçou
as penas e cantou:
— Cocoricó!
Laura destilou ódio puro em
direção ao galo:
— Miserável!
Corre daqui, corre para lá, as
mulheres cercaram a ave barulhenta em um dos cantos do quintal. Rapidamente,
Laura, a mais intrépida do trio, avançou sobre o galo e o segurou por um dos
pés.
— Te pequei, maldito!
A ave começou a se debater. Em
vão! Logo foi contida, os pés amarrados por Rita e lá foi o bicho direto para o
fundo do saco preto, que estava sendo segurado por Joana. Assim como entraram,
as mulheres saíram antes que alguém pudesse flagrá-las fazendo algo reprovável.
Já na casa de Laura, as criminosas
estavam esbaforidas. Joana abriu o saco e retirou o galo. Rita firmou o corpo
do animal, enquanto Laura sacou a faca. Determinada, ela ergueu a lâmina na
certeza de que daria cabo daquela ave cantante. No entanto, antes de concluir a
ação, eis que a campainha tocou.
— Quem será?
— Só pode ser o Horácio, Rita.
— Impossível! Hoje é quarta, dia
de feira. E ele não volta antes de comer dois pastéis e um caldo de cana.
— Vai ver ele está sem fome hoje.
— Joana, aquele velho sem fome? É
mais fácil cair um raio sobre a minha cabeça agora mesmo.
Mal terminou de falar, eis que um
estrondo veio do céu. Trovoadas! Laura olhou para cima, fez o sinal da cruz e,
olhos arregalados, soltou essa:
— Deus me livre e guarde!
A campainha tocou novamente. Sem
alternativa, Laura gritou:
— Tô indo!
Joana e Rita ficaram apreensivas.
Elas seguraram firme o galo e fecharam o seu bico usando as pontas do polegar e
do indicador. E o tempo pareceu não se preocupar com os que aguardavam. As
duas mulheres suavam preocupações quando, finalmente, a dona da casa retornou.
— Era ele.
— O Horácio?
— Sim, Joana.
— E agora, mulher, o que a gente
faz com o galo?
— O velho pensa que nós o pegamos
para preparar um almoço surpresa para ele.
— O quê?
— Isso mesmo que você ouviu, Rita.
— E agora? O que vamos fazer?
— Cozinhar o galo, Joana.
As três mulheres se entreolharam,
depois encararam o galo e, pasmem, foram tomadas por um sentimento inesperado.
Pois é, Laura, Joana e Rita pareciam compadecidas com o destino do galo.
Entretanto, não havia saída, precisavam matar o bicho.
— E se a gente fizesse uma
macarronada?
— Joana, não adianta. O velho quer
porque quer comer o galo.
Diante da falta de alternativa,
Rita e Joana seguraram firme o pobre galináceo. Laura aproximou a faca do
pescoço da vítima.
— Peraí, Laura!
— O que foi, Joana?
— Eu tenho uma ideia!
Laura e Rita escutaram o que a
amiga tinha a dizer. Pensaram por meros segundos e, então, decidiram colocar o
plano em ação.
Quando o relógio pendurado na
parede acusava pouco mais de uma da tarde, eis que a campainha tocou. Era o
vizinho, que parecia faminto. O homem esfregou as mãos no bucho e lambeu os
beiços com o cheiro que vinha da cozinha.
— Pensei que vocês tivessem
desistido.
Joana apareceu com
uma enorme panela nas mãos e a colocou sobre a mesa, que já estava enfeitada
com tigelas de arroz, salada e farofa. Assim que ela destampou a panela, era
possível ver o corpo da ave esquartejado dividindo o espaço com batatas
graúdas.
Almoçaram sem remorsos a galinha comprada de última hora no mercado da esquina. Quanto ao galo, hoje ele mora com a Joana no bairro ao lado. Continua cantando e já conquistou alguns desafetos na vizinhança. Ah, o sortudo ganhou até nome: Cauby.
