quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O homem que não tinha passarinho

        

    Aloísio despertou num domingo chuvoso, afastou a cortina e constatou que a tão prometida praia teria que ser adiada. Entediado, preparou uma garrafa de café, o dia prometia ser longo. Pegou o aparelho celular sobre a mesa da sala, mas logo desistiu de enxergar o mundo através da tela. Olhou em direção à porta e se lembrou do jornal. Aloísio se ergueu e foi pegá-lo sobre o capacho. 

    O homem costumava se informar através de portais de notícias mais práticos, mais dinâmicos, era a modernidade. Entretanto, há poucas semanas, decidiu fazer a assinatura de um jornal de verdade, como gostava de dizer. Desses que deixam marcas de chumbo nos dedos, cujas folhas ficam amarrotadas com o manusear e podem ser reutilizadas para algo menos nobre: forro de gaiola de passarinho ou embrulho de vidraçarias nas mudanças.

        O sujeito não possuía passarinho, também não estava nos seus planos se mudar. O aluguel cabia quase confortavelmente no seu bolso de aposentado, e o apartamento, apesar de modesto, ficava a poucas quadras da praia.

        Entre um gole e outro de café, Aloísio folheava o jornal e, metodicamente, à medida que lia, repousava os cadernos ao lado. Não gostava de certos colunistas, certamente escreviam para agradar o patrão. Lia-os para ter o prazer de desmascará-los mentalmente. Também não acompanhava futebol, mas gostava dos exageros clubísticos. 

        Como se fossem a cereja do bolo, Aloísio se deparou com as tirinhas de costume. As favoritas foram lidas primeiro. Alguns sorrisos aplacaram o cinza das nuvens, que insistiam em garoar o final de semana. Deparou-se com algo desconhecido: Adamastor, o cachorro.

        Leu o quadrinho. Releu-o, como se tentasse absorver o máximo daquela tirinha. O olhar de desdém fez com que o homem voltasse os olhos para o personagem favorito. Pensou: "Muito melhor!"

        Levantou-se, caminhou até a janela, observou a rua. Voltou e encarou a página escancarada sobre a mesa. Aloísio, em um ato de autoconvencimento, disse em voz alta até um tom pouco acima daquele de costume: "Ah, não tem comparação. Muito melhor!"

        Aloísio observou o jornal por mais um instante, pegou-o e, irritado, o atirou de volta à mesa. Hora de forrar o estômago. Algumas torradas esquecidas no fundo do armário receberam generosas camadas de manteiga. 

        Enquanto mastigava, Aloísio observou o derradeiro caderno do periódico. Pensou: "Só quero ver se essas modernidades vão resistir à próxima semana."

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