O homem costumava se informar através de portais de notícias mais
práticos, mais dinâmicos, era a modernidade. Entretanto, há poucas semanas,
decidiu fazer a assinatura de um jornal de verdade, como gostava de dizer.
Desses que deixam marcas de chumbo nos dedos, cujas folhas ficam amarrotadas
com o manusear e podem ser reutilizadas para algo menos nobre: forro de gaiola
de passarinho ou embrulho de vidraçarias nas mudanças.
O sujeito não possuía passarinho, também não estava nos
seus planos se mudar. O aluguel cabia quase confortavelmente no seu bolso de
aposentado, e o apartamento, apesar de modesto, ficava a poucas quadras da
praia.
Entre um gole e outro de café, Aloísio folheava o jornal e,
metodicamente, à medida que lia, repousava os cadernos ao lado. Não gostava de
certos colunistas, certamente escreviam para agradar o patrão. Lia-os para ter
o prazer de desmascará-los mentalmente. Também não acompanhava futebol, mas
gostava dos exageros clubísticos.
Como se fossem a cereja do bolo, Aloísio se deparou com as
tirinhas de costume. As favoritas foram lidas primeiro. Alguns sorrisos
aplacaram o cinza das nuvens, que insistiam em garoar o final de semana.
Deparou-se com algo desconhecido: Adamastor, o cachorro.
Leu o quadrinho. Releu-o, como se tentasse absorver o
máximo daquela tirinha. O olhar de desdém fez com que o homem voltasse os olhos
para o personagem favorito. Pensou: "Muito melhor!"
Levantou-se, caminhou até a janela, observou a rua. Voltou
e encarou a página escancarada sobre a mesa. Aloísio, em um ato de autoconvencimento, disse em voz alta até um tom pouco acima daquele de costume:
"Ah, não tem comparação. Muito melhor!"
Aloísio observou o jornal por mais um instante, pegou-o e,
irritado, o atirou de volta à mesa. Hora de forrar o estômago. Algumas torradas
esquecidas no fundo do armário receberam generosas camadas de manteiga.
Enquanto mastigava, Aloísio observou o derradeiro caderno
do periódico. Pensou: "Só quero ver se essas modernidades vão resistir à
próxima semana."
- Nota de esclarecimento: O conto "O homem que não tinha passarinho" foi publicado no Café Literário no dia 6/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-homem-que-nao-tinha-passarinho/

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