sábado, 8 de agosto de 2026

Entre quindins e madrugadas

    Eleonora, confeiteira, sonhava em ser atriz, era apaixonada por crianças e convivia com dois gatos. Trinta e poucos anos, idade em que os sonhos ainda insistem em perambular pelo coração dos ingênuos.

    Entre brigadeiros e quindins, Eleonora adocicava a vida dos clientes. Os elogios se sobrepunham aos ganhos, mas a mulher parecia se sentir recompensada. "Afeto alimenta mais do que feijão", costumava dizer.

    As encomendas, cada vez mais apertadas, precisavam ser cumpridas à risca. Do contrário, era capaz de alguém inundar os ouvidos de Eleonora com impropérios. Melhor não arriscar e, dessa forma, a mulher virava as noites para manter a pontualidade. E, à custa de sono atrasado e pestanas pesadas, a confeiteira funcionava igual a um relógio suíço. 

    Certa feita, talvez por falta de corda, o tal relógio dormiu no ponto. Eleonora perdeu o horário. Quando se deu por si, dona Laís, a cliente da vez, bateu à sua porta. Pobre confeiteira, precisou apressar as pernas.

        Enquanto dona Laís aguardava na varanda, Eleonora era só desculpas. Pois bem, ela ofereceu café, ofereceu biscoitos amanteigados; e a senhora mantinha o semblante impassível até que Eleonora apareceu com os quitutes.

            — Dona Laís, aqui estão os seus cajuzinhos e brigadeiros.

            A cliente voltou os olhos para os embrulhos, abriu um e pegou um dos doces. Levou-o à boca, mastigou a iguaria por um instante que, para a confeiteira, pareceu uma eternidade. Sorriu.

            — Que delícia!

            — Obrigada, dona Laís. E me desculpe pela demora. Não sei como perdi o horário hoje.

            — Imagina, Eleonora. Não tenho compromisso com a pressa.

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