Entre brigadeiros e quindins, Eleonora adocicava a vida dos clientes. Os
elogios se sobrepunham aos ganhos, mas a mulher parecia se sentir recompensada.
"Afeto alimenta mais do que feijão", costumava dizer.
As encomendas, cada vez mais apertadas, precisavam ser cumpridas à
risca. Do contrário, era capaz de alguém inundar os ouvidos de Eleonora com
impropérios. Melhor não arriscar e, dessa forma, a mulher virava as noites para
manter a pontualidade. E, à custa de sono atrasado e pestanas pesadas, a
confeiteira funcionava igual a um relógio suíço.
Certa feita, talvez por falta de corda, o tal relógio dormiu no ponto.
Eleonora perdeu o horário. Quando se deu por si, dona Laís, a cliente da vez,
bateu à sua porta. Pobre confeiteira, precisou apressar as pernas.
Enquanto dona Laís aguardava na varanda, Eleonora era só
desculpas. Pois bem, ela ofereceu café, ofereceu biscoitos amanteigados; e a senhora mantinha o semblante impassível até que Eleonora apareceu
com os quitutes.
— Dona Laís, aqui estão os seus
cajuzinhos e brigadeiros.
A cliente voltou os olhos para os
embrulhos, abriu um e pegou um dos doces. Levou-o à boca, mastigou a iguaria
por um instante que, para a confeiteira, pareceu uma eternidade. Sorriu.
— Que delícia!
— Obrigada, dona Laís. E me desculpe
pela demora. Não sei como perdi o horário hoje.
— Imagina, Eleonora. Não tenho compromisso com a pressa.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre quindins e madrugadas" foi publicado no Notibras no dia 8/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-quindins-e-madrugadas/

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