— Você trabalha onde?
— Ih, moço, em tantos lugares.
— Faz bico?
— Diarista.
Sem carteira assinada, não conseguiu crediário. Talvez na próxima. Que
juntasse, que abrisse uma poupança. Aposto que gasta com o que não deve.
Um batom barato. Um frasco de esmalte pela metade, ganhou de uma das
patroas. Quer dizer, a dona jogou no lixo, Eunice pegou furtivamente. Um resto
de creme para pele, vencido, que ela recebeu com os poucos dentes arregalados
na boca.
— É caríssimo, Eunice. Coisa boa.
— Obrigado, dona Augusta.
— É obrigada, Eunice. Obrigada! Mulher diz obrigada. Ou você não é
mulher?
Mulher? Eunice não sabia nem se era gente.
— Obrigada, dona Augusta.
— Muito bem. Foi difícil?
— Obrigada, dona Augusta.
— Ih! Agora chega. Você já lustrou os cristais? Hoje à noite vou receber
o embaixador da Turquia.
Eunice, imóvel, observou o sorriso com todos aqueles dentes alvos.
— Você sabe onde fica a Turquia, Eunice?
— Num sei, não, dona Augusta.
— Hum! Vai, vai, que tenho muita coisa pra fazer.
— Sim, dona Augusta.
— Ah! E cuidado com as taças! Eu iria precisar mandar te matar para me
confortar.
Domingo, fim de tarde, Eunice chegou ao seu barraco. Retirou as notas
miúdas de dentro do sutiã. Tinha medo de assalto.
Banho. Precisava de um banho. Debaixo do cano, a água caiu gelada. Choque de realidade.
- Nota de esclarecimento: O conto "O preço do obrigada" foi publicado no Notibras no dia 12/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-preco-do-obrigada/

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