quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Jeep, dinamite e tainha no verão de 1968/1969

     

    Dizem que essa história aconteceu no verão de 1968/1969. Teria sido protagonizada por dois cariocas suburbanos metidos a pescadores. Os dois, em uma noite praticamente sem estrelas, se aventuraram para o lado do Recreio. Pois é, dois homens, um Jeep, aquela tralha de pescaria e... dinamite.

    — Zé Alfredo, você tem certeza?

    — Tenho.

    — Tem mesmo?

    — Bem, o sujeito que me vendeu disse que funciona.

    — Hum! E isso não tem perigo de explodir?

    — Ele disse que é só não sacudir muito. 

    E lá foram os parceiros no Jeep pela estrada de terra esburacada. Se algo desse errado, era provável que o clarão iluminasse toda a mata em volta, que terminava na enseada. 

    — Pisa leve, Zé Alfredo! Desse jeito, a gente vai pelos ares no próximo tremelique.

    — Confia, Celso!

    — Confiar? Em você?

    — Por acaso já te meti em alguma fria?

    — Desde primário.

    Encobertos pelo breu, os dois homens chegaram sãos e salvos à praia deserta. Nem se deram ao trabalho de retirar caniços e molinetes. Estavam dispostos a testar outro método de pescaria.

    Retiraram com extremo cuidado a caixa de madeira contendo as três bananas de dinamite. Escolheram um ponto da orla que considereram mais provável da existência de um cardume. 

    — Será que isso funciona mesmo, Zé Alfredo? Está me parecendo uma loucura.

    — Calma, meu amigo. Já vamos descobrir.

    Zé Alfredo pegou uma dinamite, acendeu o pavio com o isqueiro e jogou a banana dentro d'água. Os amigos se olharam, algo pareceu dar errado até que um estrondo os pegou de surpresa.

    Lanternas em mãos, Zé Alfredo e Celso iluminaram a água. Um, dois, três, sete, quinze peixes boiavam. Rapidamente, eles entraram no mar, a água gelada, e pegaram as tainhas e os pampos. Colocaram tudo dentro da caixa de isopor com gelo.

    Escolheram outro ponto e repetiram o método. Oito peixes graúdos. O isopor quase lotado, Celso disse que queria tentar. Acendeu o pavio e fez a alavanca com o braço, mas a dinamite escapuliu e foi parar logo atrás na restinga. Assustados, os amigos correram em direção ao mar.

    A explosão levantou areia para todo lado. Depois do susto, os companheiros resolveram ir embora. Ademais, teria peixes para o mês inteiro. Juntaram tudo e, já saindo da estrada de chão, foram parados em uma blitz.

    Celso tremeu na base, enquanto Zé Alfredo, melhor ator que era, se fez de inocente.

    — De onde vocês estão vindo?

    — A gente estava pescando, seu guarda.

    — Pescando?

    — É.

    — E conseguiram pescar alguma coisa?

    — Algumas tainhas.

    — Hum... A minha esposa adora tainha.

    Zé Alfredo olhou para o Celso e, em seguida, meteu a mão dentro da caixa de isopor, que estava no assoalho entre os bancos da frente e de trás.

    — Pois aqui está, seu guarda. Aposto que a sua digníssima senhora vai adorar.

    — Família grande. Você sabe como é, né?

    Zé Alfredo fingiu novo sorriso, pegou mais três tainhas e as entregou para o militar, que agradeceu. E, antes de liberar os homens do Jeep, a autoridade lhes lançou um aviso:

    — Cuidado com os terroristas. Recebemos notícia de que eles estão agindo nesta noite. Estão jogando bombas por aí.

    Apesar do susto e graças ao suborno, Zé Alfredo e Celso conseguiram chegar bem aos respectivos lares. E os dois concordaram que era melhor retornarem ao velho método de pescaria. 

    Alguns anos se passaram e, então, Zé Alfredo disse que iria se mudar para Brasília. As pescarias ficaram para trás, mas a amizade permaneceu.

    — Mas por que Brasília, Zé Alfredo?

    — Vantagens econômicas.

    — Só isso?

    — Bem, o meu pai disse que terei maiores chances na carreira. Sem contar que ficarei livre de encrencas.

    — Encrencas? Como assim?

    — E ainda pergunta? Puxa, Celso, você só me mete em fria.

    — Eu?

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Duas rodelas de tomate e o santo

    Sabe, ela veio chegando de mansinho, quase me enganou. Quer dizer, não foi fácil percebê-la. A princípio, deixei de lado refrigerantes, o cigarro já havia abandonado quando os olhares de reprovação tomaram conta até dos botecos. Para você ver. Até dos botecos!

    Pizza, churrasco, bebedeiras sem fim. Tudo acabou. E coxinha? Ih, era a minha perdição. Nem me importava se já estivesse na vitrine espreitando algum desavisado há dias. Lá estava eu disposta a abocanhá-la, ainda mais quando era promoção. O óleo vencido escorria pelos cantos da boca. Que saudade!

    Hoje, quando muito, uma fatia de queijo magro e duas fatias de pão integral. Duas rodelas de tomate. Tomate orgânico, que não quero dar mole para agrotóxico.

    Pois é, eu soube. O Ernesto se foi. Pensei em dar uma passadinha no cemitério. Dizem que o velório encheu. Aneurisma, coisa de velho, mas andei pesquisando, pega os jovens também. 

    Não. Não é possível. Você tem certeza? Eu jurava que o Ernesto era mais velho do que nós duas. Ah, ele só era mais jovem do que eu? Sei... Mas a gente nunca sabe quando será a nossa vez, né, amiga? Vá que você já tenha encontro marcado com Santo Antônio antes de mim, não é mesmo?

    De vez em quando dá vontade de chutar o balde. Quanta crueldade ter que resistir a um brigadeiro. Será que dois ou cinco fariam mal? 

    Certo mesmo seria a gente ser avisada com pelo menos um dia de antecedência. Dois! Já pensou? Eunice, vai ser depois de amanhã às 18h43. Ih, eu não iria perder tempo! Faria um banquete só de coisas proibidas. E fumaria um cigarro atrás do outro. Se bobear, charuto. E encheria tanto a cara, que era possível até perder o rumo do Céu. 

    Creio que Santo Antônio entenderia se eu chegasse meia hora atrasada. Talvez um dia ou dois.