segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A anatomia do alvo

   

    Duas mulheres paradas diante de um jornal exposto na banca. Letras garrafais: "Bala perdida encontra criança na comunidade". 

    — Aposto que estava fazendo coisa errada.

    — Aqui diz que estava dentro de casa.

    — E desde quando barraco é casa?

    — Uma criança.

    — Criança? Aviãozinho na certa.

    — Quatro anos.

    — É nessa idade que essa gente começa a assaltar.

    — Quatro anos?

    — Não tô te falando? Tá assim de bandido no morro. Se der mole, é você quem morre.

    — Mas a criança tinha apenas quatro anos.

    — E daí? E eu com isso? Vai ficar contando idade de bandido agora?

    — Quatro anos... Isso não está certo.

    — Ah, tá! Certo agora é favelado? 

    — O quê?

    — Amiga, essa gente nem deveria existir. 

    — Mas...

    — Me falaram que é coisa da raça. 

    — O quê?

    — Essa gente... Você sabe... Hoje em dia parece que nem podemos mais falar... Gente escura.

    — O quê?

    — Preta. 

    — Que absurdo!

    — É um absurdo mesmo essa gente. Ainda bem que temos a polícia pra proteger os nossos filhos. Gente de bem, né?

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