sábado, 29 de agosto de 2026

O pote da discórdia

    Joana e Lúcia, como de costume, tomavam chá de camomila com torradas. Terças e quintas, logo após saírem das puxadas aulas na academia do bairro. Ora na sacada da primeira, ora na ampla varanda da outra.

    — Tu viu o Erasmo?

    — Um gato.

    — Tem gosto pra tudo.

    — Tá interessada?

    — Ih! Deus me livre! E tu?

    — Eu?

    — Não, Joana, a minha avó.

    — Ela tem bom gosto.

    —  Tá ou não tá, Joana?

    — Essa geleia está deliciosa. Prove.

    — Hum... É mesmo. Comprou onde?

    — É da Amanda.

    — A mulher do Erasmo?

     É. 

    Lúcia encarou a amiga por um breve instante.

    — Pagou quanto?

    — Nada.

    — Nada?

    — Nada.

    — Ela te deu?

    — Nem falo com ela.

    Lúcia arregalou os olhos. Incrédula, quis saber como a Joana havia conseguido aquele pote.

    — Ah, ganhei.

    — De quem?

    — É uma delícia mesmo, né?

    — De quem, Joana?

    Joana passou uma generosa camada da geleia sobre uma torrada e, languidamente, levou a guloseima à boca. Deu uma mordiscada, passou a língua nos lábios e sorriu.

    — Hum... Que delícia! Isso é uma perdição, amiga. Vou precisar malhar muito pra não engordar.

    — Joana!

    — O que foi?

    — Foi o Erasmo?

    — Que delícia!

    — O Erasmo?

    — A geleia. Se quiser, consigo um pote pra você. Quer?

    — Hum!

    — De graça. Quer?

    — Quero.

    As mulheres se entreolharam. 

    — Tu não presta, Joana.

    — É verdade.

    As duas gargalharam.

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