domingo, 9 de agosto de 2026

Tapinhas nas costas

 

     Rodrigo, mal havia concluído o curso de Direito, conquistou uma concorrida vaga em um dos mais gabaritados escritórios de advocacia da capital. A despeito de outros candidatos possuírem experiência, sem contar que um ou outro foi por indicação, o Dr. Gouveia, sócio majoritário, insinuou certo encantamento por aquele frangote de vinte e poucos anos e de modos simplórios.

    Os meses que se seguiram foram árduos. Todavia, para um tipo como Rodrigo, cuja história de vida era favela, fazer hora extra e receber ninharia não o assustou. Na verdade, o rapaz até gostava, a sua sala possuía ar-condicionado e o café era de primeira.

    Os advogados mais tarimbados olhavam com desdém para os ternos baratos do novato. Rodrigo parecia não se importar, de tão entretido com os processos que lhe eram entregues  apenas coisas de pequena monta, além de uma causa tida como perdida.  Esta causa, por sinal, era chamada pelos mais antigos advogados de pirita, também conhecida como ouro de tolo, pois a cor dourada e o brilho metálico podem cegar a razão dos desavisados.

        Ganhou. Para surpresa de todos, ganhou. Alguns milhões encheram ainda mais os cofres dos patrões. Quanto ao Rodrigo, junto dos costumeiros tapinhas nas costas e das promessas que oportunamente seriam esquecidas, recebeu alguns milhares de reais, o suficiente para dar entrada em um modesto apartamento, bem como trocar de carro. Um seminovo, mas um seminovo importado.

           Assim que contou a novidade para os pais, eles sorriram. No final do mês, depois da papelada pronta, a família iria trocar o barraco por um lar de alvenaria. Coisa de luxo para os seus. No entanto, a avó, praticamente surda para coisas tolas, absorveu aquilo e torceu os lábios.

             — Vovó, a senhora não está feliz?

             —  Rodrigo, meu filho, feliz e preocupada.

             — Com o quê, vovó?

         — Cuidado com o sucesso, meu filho. Ele pode ser horrível, pode torná-lo prepotente. Não duvide! Um chato. O fracasso é necessário. O fracasso dá a você equilíbrio, um equilíbrio que você não aprende em casa ou na escola. Além do mais, a dor dói, mas é ela que vai te manter vivo.

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