quarta-feira, 1 de julho de 2026

Domingo com a pá virada

   

    Salete entrou e, antes que alguém pudesse dizer palavra, anunciou:

    — Galera, vocês não vão acreditar no que acabou de acontecer.

    — O que foi, tia?

    — Nada!

    E gargalhou, o que deixou a Martinha contrariada.

    — Mas tu é doida de pedra mesmo, mulher!

    — Ah, mãe, e daí? É bom demais ser doida. Eu adoro! Não é mesmo, Gabriel?

    — É sim, tia.

    Valdir preferiu não se meter naquele princípio de imbróglio entre a esposa e a filha e, assim, fingiu interesse em um pardal que acabara de pousar na goiabeira, bem perto da janela.

    — Pai, o senhor tá melhor daquela tosse? Pai! O senhor tá surdo, é?

    — Oi?

    — E a tosse?

    — Que tosse?

    — A do senhor.

    — Acho que ela enjoou e foi caçar outro.

    — Tá vendo, mãe? E depois a senhora diz que sou adotada.

    — Seu pai é um poeta, minha filha. Já você... Ih, melhor nem comentar.

    — Hum! Gabriel, vem me ajudar a pegar as coisas. Comprei sorvete de chocolate pra gente. 

    Salete e o sobrinho foram até o carro, pegaram as sacolas de compra e colocaram tudo sobre a mesa da cozinha. 

        — Mãe, e esse povo que não chegou? Tem certeza de que eles vêm?

        — Salete, agora que são dez horas. 

        — Já?

        — Ainda.

        — Hum! 

        — Tia, posso tomar sorvete?

        — Pode.

        — Pode não, Gabriel, senão você não vai almoçar. 

        — Ih, mãe! Deixa o menino se divertir um pouco.

        — Gabriel, vá lá fora se divertir com a sua tia, que vou preparar o almoço.

        — Com sorvete?

        — Não, Gabriel! Com a bola. E cuidado pra não estragar as minhas plantas.

        — Vamos, Gabriel, que a sua avó acordou com a pá virada hoje. 

        Perto das 12h, começaram a chegar as pessoas. Alguns com refrigerantes, sucos, doces, outros de mãos vazias, mas todos com muito apetite. 

        Lasanha. Todos repetiram. E o Gabriel se esbaldou com o sorvete de chocolate.  Domingo que vem será a vez da macarronada.