terça-feira, 18 de agosto de 2026

Tigre, Ratinho e Reginaldo

     

        Meu pai tinha dois gatos. Gatos da rua que chegaram pelas mãos de alguém. O Tigre era um amor; já o Ratinho, uma peste. Nunca fui fã de gatos, também não sou da turma dos cachorros. Prefiro a tranquilidade das samambaias enquanto leio meus autores favoritos ao som quase inaudível de Bach.

        Inventava desculpas para não visitar meu pai. Nossa relação de jeito nenhum foi das melhores. Azedou de vez quando ele trocou mamãe pela Lígia. Ela era legal e sempre me tratou com respeito. Até a minha mãe, apesar da condição de traída, preferiu se calar a falar mal da rival. Pelo menos nunca que eu tenha presenciado. 

        Ainda hoje não sei o que a Lígia enxergou no meu pai. Divertida, otimista, inteligente, um ou dois tons acima da beleza usual. Durou seis anos. Ela não aguentou a mesmice do meu pai, pegou as suas coisas e deixou de ser a minha madrasta. Meu pai ficou com o Tigre e o Ratinho. 

        Dia desses esbarrei com a Lígia. Ela poderia ter fingido não ter me visto ou que não me reconheceu. Não descarto que tenha sido meu olhar surpreso que provocou aquele sorriso carregado de dentes.

        — Juninho! Há quanto tempo!

        Lígia me abraçou e beijou as minhas faces daquele jeito carioca. Mais de vinte anos, a mulher me pareceu ótima. Aliás, muito mais jovem do que a minha mãe, apesar das duas regularem em idade. 

        — E o Reginaldo? Como ele está?

        — Meu pai nos deixou no ano passado.

        Busquei regozijo nos olhos de Lígia, encontrei pesar verdadeiro. Provavelmente lembranças de uma época feliz ao lado do homem que, agora, ela descobria não mais existir. Teria ela, em algum momento, imaginado que o meu pai era o seu grande amor? Duvido, também não descarto. Aquele olhar triste talvez fosse apenas compaixão, sentimento que às vezes nos acomete até por desconhecidos. 

       Não sei se foi o reencontro com Lígia ou se foi o Dia dos Pais, que passou despercebido mais uma vez. Algo me provocou certo desconforto. Teria eu direito a guardar tanto rancor por meu pai? Já não era hora de dar um basta?

        Ontem fui ao cemitério. Estava determinado a fazer as pazes com meu pai. Busquei na memória momentos que tivemos, ao menos um que me fizesse sorrir. Nada. Apenas confrontos.

        Diante da sepultura, observei o nome que herdei: Reginaldo Ferreira dos Santos. Quis falar muitas coisas, porém guardei todas. Não vi razão para confrontar alguém que jamais se deu ao trabalho de me ouvir.

        Cansado daquele teatro, tive certeza de que nada que eu dissesse resolveria os traumas que ainda carrego. Decidido a ir embora e nunca mais voltar, quis xingar o que restava do meu pai. Antes, olhei ao redor para ver se não havia alguém por perto, quando notei uma faixa sobre uma lápide logo adiante. 

        Ninguém. O cemitério, além dos mortos, parecia um deserto. Não tive dúvida e, tomado de uma coragem que jamais tive, fui até o túmulo próximo, peguei a tal faixa e a coloquei sobre a lápide de papai: "O melhor pai do mundo." 

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