— A vida é pra
ser vivida, Jaime.
— Com parcimônia,
Luís. E responsabilidade.
— Mas, Jaime,
caixão não tem gaveta.
— O meu medo,
Álvaro, é apressar a minha ida para o cemitério por falta de dinheiro para uma
aspirina. Gasto com o que tenho que gastar, mas sem sobras.
Churrasco dos colegas do Banco do Brasil. Jaime até preferia não participar,
porém avaliou os prós e contras. Precisava de uma promoção, e era de bom tom
ser visto para ser lembrado quando a tal vaga surgisse.
Feitas as contas,
a vaquinha ficou cinquenta reais por cabeça. Jaime procurou disfarçar o
desconforto de arrancar a nota da carteira. Pagou. Com dor, é verdade, mas pagou.
A
confraternização seria no sábado na casa do Rubens, o gerente. Um tipo duro na
hora de cobrar, entretanto tido como um paizão quando a situação permitia. E,
entre os afetos e os desafetos, era querido por todos.
A semana foi
recheada de problemas, a maioria resolvida, outros jogados para a próxima
segunda, um e outro sem solução, pelo menos neste plano.
— Bem, minhas
amigas e meus amigos, é com muita satisfação que informo a cada um de vocês que
a nossa agência superou as metas. E amanhã aguardo todos vocês na minha humilde
casa.
Lago Sul, a área
mais nobre de Brasília. Pois era justamente ali que ficava a simplória
residência do Rubens. Seis suítes, piscina e garagem para oito carros. Todavia,
sejamos sinceros, o anfitrião possuía apenas quatro possantes, sendo duas
relíquias, um conversível importado e o automóvel do dia a dia.
Jaime chegou ao
seu palacete, um quarto e sala na Asa Norte. Tomou banho, preparou chá de
camomila, queria dormir cedo. Nada de telas, pegou um livro na estante:
Território do sonho, de um tal Daniel Marchi. Entre um conto e
outro, adormeceu.
— Seja bem-vindo,
Jaime.
— Quem é tu?
— São Pedro, mas
pode me chamar de Pedro. Sabe, meu amigo, nunca gostei dessas formalidades.
Ainda me considero o simples pescador de outrora.
— Tu tá de
brincadeira, né?
— Não sou de
brincar muito, Jaime. Meus amigos me acham um tanto ranzinza.
— Tu tá querendo
me dizer que morri? É isso mesmo?
— Sabe, Jaime,
nunca gostei muito dessa palavra. Que tal mudar esse 'morri' por 'fez a passagem'?
— Não pode ser.
— Mas é.
— Não pode ser.
— Hum...
— Você tem
certeza? Morri de verdade?
— Bem, meu amigo,
você deixou aquela vida terrena.
— E agora?
— Não se
preocupe, Jaime, você vai acabar se acostumando. Afinal, aqui é o
Paraíso.
— Mas e o
churrasco?
— Bem, o
churrasco na casa do Rubens está acontecendo neste exato momento.
— O quê?
— Quer dar uma
olhadinha?
— E tem como?
— Bem, meu amigo,
não posso tudo, mas isso está ao meu alcance.
Nisso, São Pedro
afastou algumas nuvens e, milagrosamente, lá estavam os colegas do Jaime se
divertindo ao redor da piscina. O rega-bofe estava animado, ao som de Beth
Carvalho, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e Alcione. Muitos sorrisos, algumas
gargalhadas, comida e bebida à vontade, ninguém parecia sentir falta do
Jaime.
São Pedro,
percebendo que o novo morto estava desolado, tentou consolá-lo.
— Sabe, Jaime,
essa sua tristeza é normal. No entanto, meu amigo, você vai acabar se
acostumando com o Paraíso.
— Não estou
triste.
— Não?
— Chateado.
— Chateado?
— É.
— Mas por quê?
— Gastei cinquenta pila à toa.
- Nota de esclarecimento: O conto "O preço do paraíso" foi publicado no Notibras no dia 13/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-preco-do-paraiso/

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