quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O preço do Paraíso

    

    Jaime tinha apreço por dinheiro. Não chegava a ser sovina, mas detestava prejuízo. O sujeito olhava para os amigos esbanjadores e chegava a sentir gastura.

    — A vida é pra ser vivida, Jaime. 

    — Com parcimônia, Luís. E responsabilidade.

    — Mas, Jaime, caixão não tem gaveta.

    — O meu medo, Álvaro, é apressar a minha ida para o cemitério por falta de dinheiro para uma aspirina. Gasto com o que tenho que gastar, mas sem sobras.

      Churrasco dos colegas do Banco do Brasil. Jaime até preferia não participar, porém avaliou os prós e contras. Precisava de uma promoção, e era de bom tom ser visto para ser lembrado quando a tal vaga surgisse. 

    Feitas as contas, a vaquinha ficou cinquenta reais por cabeça. Jaime procurou disfarçar o desconforto de arrancar a nota da carteira. Pagou. Com dor, é verdade, mas pagou.

    A confraternização seria no sábado na casa do Rubens, o gerente. Um tipo duro na hora de cobrar, entretanto tido como um paizão quando a situação permitia. E, entre os afetos e os desafetos, era querido por todos. 

    A semana foi recheada de problemas, a maioria resolvida, outros jogados para a próxima segunda, um e outro sem solução, pelo menos neste plano.

    — Bem, minhas amigas e meus amigos, é com muita satisfação que informo a cada um de vocês que a nossa agência superou as metas. E amanhã aguardo todos vocês na minha humilde casa.

    Lago Sul, a área mais nobre de Brasília. Pois era justamente ali que ficava a simplória residência do Rubens. Seis suítes, piscina e garagem para oito carros. Todavia, sejamos sinceros, o anfitrião possuía apenas quatro possantes, sendo duas relíquias, um conversível importado e o automóvel do dia a dia. 

    Jaime chegou ao seu palacete, um quarto e sala na Asa Norte. Tomou banho, preparou chá de camomila, queria dormir cedo. Nada de telas, pegou um livro na estante: Território do sonho, de um tal Daniel Marchi. Entre um conto e outro, adormeceu.

    — Seja bem-vindo, Jaime.

    — Quem é tu?

    — São Pedro, mas pode me chamar de Pedro. Sabe, meu amigo, nunca gostei dessas formalidades. Ainda me considero o simples pescador de outrora.

    — Tu tá de brincadeira, né?

    — Não sou de brincar muito, Jaime. Meus amigos me acham um tanto ranzinza. 

    — Tu tá querendo me dizer que morri? É isso mesmo?

    — Sabe, Jaime, nunca gostei muito dessa palavra. Que tal mudar esse 'morri' por 'fez a passagem'?

    — Não pode ser.

    — Mas é.

    — Não pode ser.

    — Hum...

    — Você tem certeza? Morri de verdade?

    — Bem, meu amigo, você deixou aquela vida terrena.

    — E agora?

    — Não se preocupe, Jaime, você vai acabar se acostumando. Afinal, aqui é o Paraíso. 

    — Mas e o churrasco?

    — Bem, o churrasco na casa do Rubens está acontecendo neste exato momento.

    — O quê?

    — Quer dar uma olhadinha?

    — E tem como?

    — Bem, meu amigo, não posso tudo, mas isso está ao meu alcance.

    Nisso, São Pedro afastou algumas nuvens e, milagrosamente, lá estavam os colegas do Jaime se divertindo ao redor da piscina. O rega-bofe estava animado, ao som de Beth Carvalho, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e Alcione. Muitos sorrisos, algumas gargalhadas, comida e bebida à vontade, ninguém parecia sentir falta do Jaime. 

    São Pedro, percebendo que o novo morto estava desolado, tentou consolá-lo.

    — Sabe, Jaime, essa sua tristeza é normal. No entanto, meu amigo, você vai acabar se acostumando com o Paraíso. 

    — Não estou triste.

    — Não?

    — Chateado.

    — Chateado?

    — É.

    — Mas por quê?

    — Gastei cinquenta pila à toa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário