Minha
prima, quase dois anos mais velha que eu, cinco ou oito centímetros mais alta.
A ponta do dente da frente quebrada. O que para os outros era defeito, para mim
se traduzia na mais pura expressão de charme.
— Tina,
tu tá namorando?
— Mais
ou menos.
— E ele
é bonito?
—
Muito.
— Mais
do que o Cícero?
—
Ninguém é mais lindo do que o meu primo.
— Tu
acha mesmo o Cícero lindo?
Minha irmã — Laura — e Tina costumavam ter longas conversas, assuntos variados, que culminavam nas paixões adolescentes. E eu ali, fingindo distração.
Roberto. Beto. Era como todos chamavam o namorado da Tina. Não me importava se
fosse Roberto, Beto, José ou Zé. Não queria ouvir qualquer nome que se
aproximasse do meu amor.
— Quem
é esse gato, Tina?
—
Carlinhos. Ele não é um fofo, tia Lourdes?
Atravessei a adolescência, devo ter conhecido praticamente todos os namorados
da minha prima. Enfrentei os dissabores da fase, enquanto Maria Cristina era só
sorrisos.
Aos
vinte e sete anos, tomei posse no Banco do Brasil. Por algumas semanas, fui o
centro das atenções, especialmente de mamãe.
— Pois
é, o Cícero está trabalhando no Banco do Brasil.
— Que
notícia boa, Lourdes!
— E não
é? O meu menino venceu na vida. Agora só falta arrumar uma moça direita, casar e
me dar netos. Não me contento com menos que dois.
Eu no
Banco do Brasil, Maria Cristina a caminho do Canadá. Ela havia sido aprovada em
uma seleção de novos diretores da empresa petrolífera em que trabalhava há
praticamente cinco anos. Além da competência, era fluente em inglês, francês e
sabia como ninguém se virar no portunhol.
Não
tive vida fácil nas fileiras do banco, porém consegui atingir um patamar
invejável. Em parte, devido ao meu esforço, alguns tapinhas nas costas e,
principalmente, por conta de providenciais amizades ao longo da carreira.
Aposentei-me após quase quatro décadas. Gerente de uma das principais agências.
Sem esposa, sem filhos e com uma renda confortável para um velho sem maiores
ambições.
Durante
todos aqueles anos, os caminhos da Maria Cristina e o meu nunca mais haviam se
cruzado. Ela quase não vinha ao Brasil, vivia uma vida recheada de mundo.
Contudo, há dois meses, reencontrei a minha prima.
— Obrigado por ter vindo, Tina.
— Tia
Lourdes sempre foi a minha parente mais próxima.
— Mamãe
falava muito de você.
— E
você?
— O que
tem eu?
— Você
está bem?
— É,
Tina, a vida tem dessas coisas inevitáveis.
Receber o abraço do amor da minha vida foi reconfortante, como se tudo tivesse valido a pena. Há coisas que não mudam, que os anos não destroem. E a Maria Cristina soube conservar o mesmo sorriso que sempre me cativou. A pontinha do dente da frente continua ali, quebrada.
- Nota de esclarecimento: O conto "Mudez e mundo" foi publicado no Notibras no dia 19/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/mudez-e-mundo/

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