sexta-feira, 31 de julho de 2026

O gosto da madrugada

     

       Raimundo nem lembrava o motivo que o arrancara da cama àquela hora da madrugada. Se era hábito ou falta do que fazer, parecia não importar ao sujeito. Aposentadoria  dizia Ofélia, a esposa — tinha dessas coisas.

    Lavou o rosto, talvez em busca de alguém que há muito não conseguia enxergar. Envelhecera, é verdade, mas algo parecia incomodá-lo além da flagrante decrepitude. Deu as costas ao próprio reflexo.

        Na cozinha, preparou o café. Café de verdade. Coado. Coador de pano. Nada de filtro de papel. Solúvel, então, Raimundo torcia os lábios.

        — Acordado a essa hora?

        Raimundo, xícara na mão, apenas olhou para a companheira. Tomou um gole.

        — Quer? Tem mais na garrafa.

        — Não. Vai me tirar o sono.

        Ofélia deu um beijo no rosto do marido. 

        — Vou voltar pra cama. Quer vir também?

        Ela sorriu, se virou e voltou para o quarto. Raimundo ainda teve tempo de observá-la. As curvas que outrora o haviam fisgado. Desistiu do café e foi deitar com a mulher. 

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