Lavou o rosto, talvez em busca de alguém que há muito não conseguia
enxergar. Envelhecera, é verdade, mas algo parecia incomodá-lo além da
flagrante decrepitude. Deu as costas ao próprio reflexo.
Na cozinha, preparou o café. Café de verdade. Coado. Coador
de pano. Nada de filtro de papel. Solúvel, então, Raimundo torcia os lábios.
— Acordado a essa hora?
Raimundo, xícara na mão, apenas olhou para a companheira.
Tomou um gole.
— Quer? Tem mais na garrafa.
— Não. Vai me tirar o sono.
Ofélia deu um beijo no rosto do marido.
— Vou voltar pra cama. Quer vir também?
Ela sorriu, se virou e voltou para o quarto. Raimundo ainda teve tempo de observá-la. As curvas que outrora o haviam fisgado. Desistiu do café e foi deitar com a mulher.
- Nota de esclarecimento: O conto "O gosto da madrugada" foi publicado no Notibras no dia 31/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-gosto-da-madrugada/

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