sábado, 9 de agosto de 2025

Eita, mundo cada vez mais perigoso!

          

            Lauro andava preocupado com a criminalidade na região do Cruzeiro. Não que fosse tão preocupante, ainda mais levando-se em conta outras localidades do Distrito Federal. Mesmo assim, o homem parecia só querer escutar as notícias ruins, tão comuns em telejornais que promovem verdadeiros espetáculos de horrores sobre o mundo da bandidagem. 

        Judite, a esposa, já havia se cansado de dizer para o marido parar de ver tantas desgraças. Entretanto, quanto mais falava, mais o sujeito aumentava o volume. Sem contar que, até nas horas mais impróprias, Lauro fazia questão de comentar sobre as últimas notícias.

          — Você viu?

          — Vi o quê, Lauro?

          — A onda de sequestros que está acontecendo.

          — Lauro, meu amor, a única onda que quero ver é a de uma praia. Mas, enquanto o verão não chega, vamos prestar atenção no que o padre Luiz está falando.

          Não era só na missa, como também na hora de cantar parabéns para Letícia, a única neta do casal. Sandra, a mãe da menina, foi até a mesa dos pais para avisá-los que era chegado o tão aguardado momento antes de partir o bolo.

            — É pra já, minha filha, que você sabe que não resisto a um bolo de chocolate. Vamos, Lauro!

            — Não sei como é que vocês podem pensar em comemorar algo quando a cidade está sendo tomada por ladrões e assassinos.

            — O quê, papai?

            — Não liga, não, Sandra, que seu pai não anda muito bem.

            — Ah, tá! Então, sou eu que não ando bem agora, né, dona Judite?

            — Papai, o que está acontecendo?

          — O que está acontecendo é que a sua mãe não percebe os inúmeros homicídios que estão acontecendo a todo momento. É isso que está acontecendo!

            Igreja, festa de aniversário... Ah, também no supermercado. Se bem que, sejamos honestos, nesse caso, quem deu o mote da discussão foi a própria Judite.

                — Que assalto!

                — Assalto? Onde? Onde?

                — Olha o preço deste iogurte! Um absurdo!

                — Quer me matar, Judite?

           Terça-feira era dia de encontro de Judite com as amigas, todas, que nem ela, aposentadas do Banco do Brasil. Era a oportunidade de relembrar histórias e conhecer outras. E, para aproveitar a ausência da esposa, Lauro assistia a documentários sobre crimes e criminosos famosos. E foi assim que se deu mais uma noite daquelas. 

                 Mal se despediram com um leve toque dos lábios, Lauro correu para a cozinha, pegou uma lata de cerveja, sentou no sofá, pegou o controle da televisão e colocou num programa de assassinos em série. Enquanto isso, Judite também seguiu para seu passeio, que parecia rejuvenescê-la cada vez mais. Afinal, nada como sair da rotina.

                Não se sabe se foi por conta da cerveja ou de alguma cena traumática, Lauro adormeceu e, de repente, deu um sobressalto. Levou as duas mãos na boca como se pressentindo algo ruim. Pegou o celular e ligou para a mulher. Chamou, chamou, chamou e nada da Judite atender. Será que ela havia sido raptada? 

                Lauro pensou, pensou, pensou e, então, telefonou para Arlete, melhor amiga da esposa. Tocou, tocou, tocou e, finalmente, o homem ouviu uma voz conhecida do outro lado da linha.

                — Arlete, que bom que atendeu!

                — O que houve, Lauro?

                — Você pode passar o telefone pra Judite?

                — Até poderia, mas...

                — Mas o quê?

                — Ela disse que estava indisposta e voltou pra casa. Ela ainda não chegou?

                — Não! A que horas foi isso?

                — Ah, já tem pelo menos uma hora.

                — Uma hora?

                — Talvez uma hora e meia. Não sei direito.

                — Uma hora e meia?

                — É. Mas calma, homem, que logo, logo ela chega aí.

             Meia hora depois e mais 43 ligações não atendidas, Lauro não teve dúvida. Precisava comunicar o fato à polícia. E foi para lá que se dirigiu.

               Chegou esbaforido à delegacia praticamente vazia. Foi atendido pelo agente Pedrito, que logo comunicou o acontecido ao chefe do plantão, o tarimbado agente Ricky Ricardo. Este, por sua vez, perguntou ao marido desesperado se, por acaso, ele teria a localização do celular da esposa.

                — Sim! Tenho, sim, seu policial! Foi até a Judite que colocou esse negócio aqui no meu celular para sabermos sempre onde o outro está. 

                — Posso dar uma olhada?

                — Sim, claro, claro. Aqui está.

               Ricky Ricardo pegou o aparelho celular do Lauro e, então, logo visualizou onde estaria a possível vítima de sequestro ou, talvez, algo pior. Falou para Pedrito acordar o agente Santana, que roncava no alojamento. Iriam os três e mais o comunicante até o suposto cativeiro. Na delegacia ficaram apenas o delegado Rupereta e o escrivão Gilmarildo, que jogavam mais uma partida de xadrez.

                   Pedrito, assim que estacionou a viatura em frente a uma casa de muro alto, disse:

                      — Ricky, é aqui. O que faremos?

                    — Hum! Como o local é deserto, você e eu vamos entrar, enquanto o Santana fica aqui fora com o senhor Lauro. 

                      Dito e feito, lá foram os destemidos policiais pular o muro, já que temiam que algo pior pudesse ter acontecido à vítima. Isto é, caso ela ainda estivesse viva.

                     Agindo como gatos, Ricky e Pedrito conseguiram esgueirar-se até uma das janelas, de onde estava vindo um som estranho. Estaria Judite tentando escapar ou, pior, estaria sendo vítima de tortura. Os dois sabiam que havia todo tipo de bandido na região e, armas em punho, abriram de sopetão a janela e apontaram as pistolas. 

                    Um grito! Dois pares de olhos arregalados sobre a cama, dois pares de olhos surpresos do lado de fora. Ricky foi o primeiro a falar.

                    — Senhora Judite? Você é a senhora Judite?

                    — Sim.

                    — Desculpe incomodá-la em momento tão... íntimo. Mas é que o marido da senhora está lá fora.

                    — O Lauro?

                    — Sim. Ele pensou que a senhora havia sido sequestrada. 

                  Ricky conversou por alguns minutos com Judite e o dono da residência e, então, pareceu encontrar a solução do caso. Ele e Pedrito retornariam com Lauro para a delegacia a fim de dar tempo da mulher se vestir e voltar para casa. De lá, ela telefonaria para o marido e perguntaria por ele. E foi assim que aconteceu. 

                     Quase uma hora após, Lauro retornou para o lar, doce lar, onde Judite, toda dengosa, o aguardava. E, antes que o casal fosse para o quarto, tiveram um pequeno interlúdio.

                    — Ah, amor, que susto que você me deu!

                    — E você nem imagina o susto que você também me deu, Lauro.

                    — Ah, tudo culpa desse localizador de celular. 

                    — Pois é, meu anjo. Me dá aqui o seu celular, que vou desinstalar essa porcaria.

                    Em seguida, Judite apagou a luz e adormeceu com a consciência mais tranquila do mundo. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Eita, mundo cada vez mais perigoso!" foi publicado por Notibras no dia 9/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/eita-mundo-cada-vez-mais-perigoso/

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Desavenças no salão de beleza

    

           Marilene gostava de falar que a inveja era abstrata. Não que levasse isso ao pé da letra, mesmo porque, não raro, perdia as estribeiras diante do sucesso alheio, ainda mais se fosse de um desafeto. E o pior deles era Sandro, cabeleireiro de talento inquestionável e língua inexorável.  

          A mulher também era do ofício de Sandro e, pasmem, trabalhava no mesmo salão de beleza. Por conta disso, os dois precisavam manter a linha, apesar das farpas trocadas a todo instante.

          — Amigo, adorei o corte que você fez naquela velhinha.

          — Que velhinha, Marilene? 

          — Ué, aquela que você meteu um chanel.

          — A Luciana nem chegou aos 40 ainda.

          — Não?

          — Não! 

          — Pois é, Sandro, mulher, quando não gosta do corte, envelhece, né?

          — Envelhece mesmo quando resolve pintar o cabelo de verde, né, amiga?

          — Tá falando do quê?

          — Ué, da sua cliente que acabou de sair.

          — Loira! A Flavinha é loira!

          — Jura? Ah, então, sou eu que tô precisando de óculos.

          Nunca chegaram a sair no tapa, mesmo porque sabiam que a ética não poderia ser descartada por completo. Sem contar que a clientela parecia se divertir com aquelas cenas histriônicas. Tanto é que Eulália e Gertrudes, duas das mais tradicionais frequentadoras, fingiam-se inimigas apenas para causar ainda mais intriga, mesmo que fossem vistas conversando animadamente embaixo do prédio que moravam, ali mesmo na Asa Norte. 

          Eulália, que só aceitava ser atendida por Marilene, não desgostava do trabalho do Sandro, mas era adepta do pensamento de que não se mexe em time que está ganhando. Já Gertrudes fazia questão de aparar e tingir as madeixas sempre com Sandro. E as duas faziam questão de marcar exatamente no mesmo horário para, assim, terem a oportunidade de entrar no jogo de disputas dos profissionais.

          — Ih, Gertrudes, você não acha que já tá na hora de deixar de pintar os cabelos de rosa?

          — Que rosa o quê? Sou ruiva natural! Não é mesmo, Sandro?

          — Certamente que é, dona Gertrudes. Não liga, não, que a Eulália é uma despeitada só porque eu não quero atendê-la.

          — Pois, sim, Sandro! Eu não troco a Marilene nem se você viesse pintado de ouro.

          — Obrigada, Eulália. Vamos deixar esses dois pra lá, que, de gente infeliz, o mundo tá cheio.

          E assim eram os dias daqueles dois cabeleireiros, até que, por um desses acasos, eles se encontraram em uma roda de samba na casa de um amigo comum. Trocaram olhares repletos de surpresa e desconfiança, até que se deixaram levar pela voz da Alcione. Desde então, parece que Marilene virou a cabeça do Sandro, enquanto este tirou a colega do sério. 

          Loucos um pelo outro desde então, Marilene e Sandro mantêm o romance em segredo. Afinal, eles sabem que amor, amor, negócios à parte. E a clientela, que adora aqueles imbróglios, não pode ser deixada na mão.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Desavenças no salão de beleza" foi publicado por Notibras no dia 8/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/desavencas-no-salao-de-beleza/

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Não apenas possível, mas provável

    

Jorge não se lembrava da primeira vez que havia entrado no mercadinho da esquina. Sempre lhe parecera algo tão irrelevante, mesmo que fosse o seu apêndice de salvação quando todo o comércio ao redor baixava as portas. Então, era ali que ele se dirigia para comprar algo de última hora. Que fosse uma caixa de fósforo para acender o cigarro que, não raro, o ajudaria a passar mais uma noite de tédio. 

          Nunca se dera ao trabalho de saber nem sequer o nome da proprietária, que, não por acaso, dava nome ao estabelecimento: Dona Célia. Sabia apenas que era uma mulher de meia idade, um pouco acima do peso, cabelos... Castanhos? Talvez loira. Quanto aos olhos, jamais se preocupou em descobri-los cor-de-mel.

          Enquanto aguardava na fila para pagar por um pote de café solúvel, Jorge foi tomado por uma curiosidade incomum. Célia e uma cliente conversavam sobre algo ocorrido ali na quadra, mas que o homem, alheio a quase tudo, nunca ouvira falar.

          — Célia, mas isso é possível?

          — Não apenas possível, mas provável, Solange.

          Jorge demonstrou impaciência, o que não passou despercebido pelas mulheres.

          — O senhor quer passar na frente? 

          — Não, senhora. Não estou com pressa.

          Na verdade, o sujeito não queria perder o desenlace daquela conversa e, por isso, fingiu buscar com os olhos algo na prateleira do caixa. Célia e Solange, sentindo-se à vontade, voltaram à conversa.

          — Mas diga lá, Célia. O que aconteceu.

          — Pois é, amiga, você acredita que era aquilo mesmo que você suspeitava?

          — Não diga!

          — Pois digo e digo mais, mulher!

          Jorge não resistiu e voltou o olhar para as duas, que perceberam e, quase em uníssono, perguntaram.

          — O senhor tem mesmo certeza de que não quer passar na frente?

          — Não, não. Estou bem. 

          As duas mulheres se entreolharam e, em seguida, prosseguiram.

          — Então, era mesmo verdade?

          — Sim! Até parece que você tem bola de cristal, Solange!

          — Se eu tivesse, já teria acertado os números da loteria há tempos.

          — Ué, pensei que você não jogasse.

          — É raro, mas, de vez em quando, faço um joguinho.

          Percebendo que aquela conversa não prosseguia, Jorge arrastou os pés em sinal de protesto. Dessa vez, Solange tomou a frente.

          — O senhor pode passar, se quiser.

          — Não, senhora. Aguardo. Não estou com pressa.

          Solange voltou o rosto para a dona do mercado e, então, voltou a falar.

          — Célia, quanto tá esse bombom?

          — Três reais.

          — Três? Mas não era dois e cinquenta?

          — Era, mas tudo aumentou, minha amiga.

          — E esse doce de leite?

          — Tá dois.

          — Dois?

          — É.

          Jorge, percebendo que não conseguiria saber o final daquela história, tratou de pegar dois maços de cigarro. Pagou a conta e foi embora. Ele sabia que não era somente possível, mas provável que aquela noite seria longa, e não poderia ficar sem fumar, já que a ansiedade estava a mil. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Não apenas possível, mas provável" foi publicado por Notibras no dia 7/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/nao-apenas-possivel-mas-provavel/

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Lesminha, o gângster e Cauby Peixoto

    

          Mal entrou na sala ao fundo do restaurante na Ceilândia, Cristiano, vulgo Lesminha, percebeu que o ambiente era muito diferente do que imaginara. Mobília simples e gasta, uma imagem de Nossa Senhora presa a um suporte na parede encardida. Ao fundo, um homem de aproximadamente 70 anos, cigarro entre os dedos, óculos de grau, cabelos grisalhos, parecia entretido com o jornal.

          O rapaz aguardou em pé, até que o velho dobrou o periódico e o depositou no canto da poltrona. Tragou duas vezes mais e, finalmente, esmagou o cigarro no cinzeiro ao lado. Mirou Lesminha e, com leve movimento do indicador e do dedo médio, mandou que ele se aproximasse.

          — Hum! Então, Cristiano, o senhor pensou mesmo que iria me roubar e que iria sair impune?

          Olhos arregalados, o sujeito não teve dúvida de que não sairia dali com vida. A mente começou a funcionar ligeiramente para escapar. Mas como? Franzino demais para enfrentar aqueles dois guarda-costas, verdadeiros armários. O gatuno também não tinha fama de ser rápido o suficiente para dar o pinote. Não à toa, carregava a sugestiva alcunha de Lesminha. 

          Enquanto matutava, Cristiano foi interrompido pela voz carregada de alcatrão.

          — Você tem algo que aprecio, Cristiano.

          O jovem voltou seus olhos argutos para o idoso. Como é que é? Afinal, o que o larápio teria que aquele gângster apreciava? Não foi necessário perguntar.

          — O seu talento para entrar e sair de locais sem ser percebido é algo incomum. 

          Sentindo-se o dono da cocada preta, Lesminha completou as palavras do dono daquele lugar.

          — Desculpe, seu Otávio, mas o senhor se esqueceu de mencionar o quão bom sou pra abrir cofres.

        — Hum! Qualquer chaveiro meia-boca abre cofres, Cristiano. Mas não conheço nenhum que consiga entrar e sair de um local sem ser notado. Essa é a sua sorte.

          — Sorte? Como assim?

          — Cristiano, Cristiano, se eu conhecesse alguém com esse seu talento, nem estaríamos tendo essa conversa. 

          Lesminha engoliu em seco. Ele bem sabia que isso significaria que aqueles dois brutamontes já teriam dado cabo dele. Deu-se por convencido e, então, não teve dúvida de que, a partir daquele momento, iria trabalhar para o maior chefe de organização criminosa da região. 

          — Cristiano, só não vá cometer o mesmo erro, pois não serei tão benevolente da próxima vez. Neste ramo, devemos ser incrivelmente bons que nem Cauby Peixoto, mas jamais parecer com ele. Discrição é tudo para não sermos notados.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Lesminha, o gângster e Cauby Peixoto" foi publicado por Notibras no dia 6/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/lesminha-o-gangster-e-cauby-peixoto/

Tô chegando!

         

          Bagrinho. Era assim o tratamento dispensado por Leleco, superior imediato, nos tempos áureos da Folha de São Pàulo, sucursal Brasília, em meados da década de 70 do século passado, ao então iniciante jornalista José Seabra. Com o passar dos anos, Seabra foi promovido a Chefe, como dizem os coleguinhas aqui do Notibras. 

        Merecedor de prolongadas férias no litoral sul de Pernambuco, onde é Diretor da Sucursal Regional Nordeste do Notibras, o Chefe está voltando a Brasília para um encontro especial com verdadeiros tubarões da imprensa. Seabra, claro, abandonou o diminutivo e, por isso, se fará presente como Bagre.

        Em conversa particular com outro baluarte do Notibras, o querido Armando Cardoso, Presidente do Conselho Editorial do Notibras, ele não poupou elogios ao colega: 'Se o Seabra fosse uma ponte, diria sem medo de exagerar no tempero, que muita água já rolou por debaixo da sua antiga Remington, cujas teclas, tão acostumadas com aqueles dedos ligeiros, não cansavam de nos brindar com reportagens surpreendentes.' 

        Tal relíquia, que hoje descansa no museu da família Seabra, teria sido objeto de um quase crime. Vale aqui a pena contá-lo, ainda mais porque foi cometido por um sobrinho do Chefe.

        O sobrinho, no afã de seus 15, 16 anos, teria se deixado levar pelos hormônios à flor da pele e, furtivamente, tentou se apoderar da famosa Remington. Não deu outra, foi pego em flagrante pelo tio, que sorriu da molecagem do então adolescente. 

        — Parece que corre nas suas veias o sangue inconfundível dos Seabras.

        — Somos ladrões?

        — Jamais! Somos jornalistas!

        Se essa história aconteceu exatamente assim, não importa. O fato é que o tal sobrinho se enveredou pelo mesmo caminho do tio e, também, se tornou um expoente do jornalismo. Mas não estou aqui para falar desse parente do Seabra, que merece todo reconhecimento alcançado. É que o Chefe, soube por fonte fidedigna, aportará em Brasília na próxima quarta-feira. 

      Armando, que não é besta nem nada, tratou de articular o encontro do Chefe com a galera das antigas, forjada nas redações dos principais veículos jornalísticos do país: Paulo Cotta, Gerson Gonçalves, Graça Amorim, Stenio Ribeiro, Maurício Cardoso e, óbvio, o nosso Armando. E o evento será no tradicional restaurante Dona Otília, na Feira do Guará. 

    Essa turma do cabelo branco, como o Chefe gosta de falar, irá se incorporar oportunamente aos demais quase centenários colegas de Notibras. Que sejam bem-vindos, pois, como o Armando gosta de afirmar: 'Sempre há espaço para quem tem talento e usa Rexona.'

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Tô chegando" foi publicada por Notibras no dia 6/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/confraria-de-tubaroes-do-jornalismo-aceita-um-bagre-como-membro/

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Se tem rato, a solução é um gato

Os moradores daquele condomínio em Santa Maria, que não se conformavam com a invasão de ratos, optaram por uma solução mais em conta. Um gato. Isso mesmo. Um gato. Mas não pense você que a escolha foi tão simples assim.

        Pois bem, dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem, e não duvido. No entanto, o homem é, certamente, o melhor amigo do rato. O quê? Não acredita? Então, pare e pense um pouco. Quem é que joga restos de comida por todos os cantos? Sim, isso mesmo! Você. E os ratos, que não são bestas, entendem isso como um convite e fazem a festa.

          E lá estavam os condôminos se digladiando na reunião mensal, quando, do nada, dona Elvira, do apartamento 304, apareceu com a ideia esdrúxula para todos e genial para ninguém.

          — Um gato, dona Elvira?

          — Sim!

          — Tá maluca? Só pode!

          — E por que estaria? Ou alguém aqui duvida que gatos caçam ratos?

          — Mas não é o caso, né, dona Elvira?

          — Não? E por que não seria?

          — Ué, já pensou se aparece aqui alguma sociedade protetora dos ratos?

          — Ah, Juarez, por favor, me poupe!

          — Do jeito que tem rato aqui, precisaríamos arrumar não um gato, dona Elvira, mas um tigre. 

          Como esperado, houve quase unanimidade em relação à proposta da mulher. Quer dizer, quase simplesmente porque ela foi a única a votar na própria ideia, sendo vencida pelos outros 23 moradores. E o destino do prédio parecia sombrio, pois os roedores se reproduziam rapidamente, como se fossem ratos. Nada mais natural, já que ratos eram. 

          Há um ditado que diz que é justamente nas piores ocasiões que surgem as soluções mais inovadoras. Não foi o caso, é verdade. Entretanto, não se sabe como, apareceu por ali um gato. Sim, isso mesmo! Um gato. Meio magricela, é verdade, mas um gato. 

          Talvez o bichano tenha sido atraído pelo farto banquete em forma de ratos. E foi ficando por ali caçando um ou outro, enquanto os mais espertos resolveram procurar outro local mais seguro. 

          O fato é que o Maurício fez a limpa por ali. Pois é, o felino ganhou até nome. E, hoje em dia, tem o maior prestígio entre os moradores. Tanto é que já está em pauta para a próxima reunião a compra de uma casinha para o novo condômino. Dona Elvira, afinal, estava coberta de razão.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Se tem rato, a solução é um gato" foi publicado por Notibras no dia 4/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/se-tem-rato-a-solucao-e-um-gato/

domingo, 3 de agosto de 2025

Tereza, a mulher que matava cobras

   

Não sei se você já ouviu falar da mulher que matava cobras, que teria vivido no entorno do Distrito Federal, quando tudo por lá ainda era Goiás. Tereza dos Santos. Ou seria da Silva? Que fosse dos Santos da Silva ou mesmo da Silva dos Santos, isso não importa, pois, até onde fui informado, sobrenomes não alteram destinos. Quer dizer, não os da Silva ou dos Santos, tão corriqueiros pelas bandas deste país imenso chamado Brasil, mas que também já foi conhecido por Pindorama.

          Tereza teria nascido no dia 31 de outubro de 1900, último ano do século XIX. O parto, de tão complicado, não poupou sua mãe, que foi enterrada dois dias depois. Sem a mulher para alimentar a recém-nascida, o pai tratou de arranjar uma cabra vermelha. O animal, que era muito apegado à menina, tinha até nome: Bafomé. 

          Aconteceu no aniversário de um ano da pequena Tereza, na presença de Bafomé, que ainda servia de mãe-de-leite. Enquanto a garotinha se divertia com os próprios pés, a cabra sentiu a aproximação de uma jararaca. Para quem visse tal cena, certamente imaginaria que a cabra não estava nem aí para o que pudesse vir a acontecer com a sua filha, ainda mais porque deu dois passos para trás, como se deixasse a serpente passar tranquilamente.

          E lá foi a maldita venenosa. Não tardou, estava a menos de meio palmo de distância da miúda. Esta, assim que percebeu a presença da jararaca, lhe mandou um inocente sorriso quase desprovido de dentes. Não se sabe o que passou pela mente da víbora, pois ela ergueu um terço do corpo e, certeira que nem caçadora experiente, fincou as presas naquelas tenras carnes. 

          Aquilo seria o fim para qualquer bebê, caso não fosse por um porém. Tereza nem pareceu sentir dor, pois, inesperadamente, seu sorriso se transformou em quase gargalhada. Quanto à jararaca, só não levou um tombo porque não tinha pernas. Pois não é que a pobre da cobra, naquele exato instante, partiu para o mundo do além? Difícil de acreditar ou não, foi o que aconteceu. 

          A notícia correu ligeira que nem preá fugindo de gato-do-mato. Como não tinha médico no vilarejo, foi chamado o padre, ainda mais porque os entendidos sabiam que era o mais apropriado. Chegou o vigário, chegou um bando de curiosos. 

        A princípio, perceberam que Tereza não havia sido batizada. O pai da garota foi questionado, mas não havia explicação a dar. Resolveu contar a verdade, que não era nenhuma. Que deixassem a filha em paz e fossem tomar conta das desgraças das próprias vidas. 

          O imbróglio durou quase toda a seca, mas algo não parece ter chamado a atenção de ninguém. É que não houve nem sequer uma vítima de picada de serpente desde o ocorrido. Seja como for, Tereza, o pai e a cabra tiveram que deixar a região até a chegada das chuvas. E foi o que fizeram. 

           Não se sabe se foi coincidência ou coisa do Demônio o que se deu desde então. É que houve uma infestação de jararacas, cascavéis e até surucucu. Toda a pequena população foi picada. Ninguém sobreviveu. 

        Ninguém sabe exatamente o que aconteceu com a pequena Tereza. Alguns afirmam que vive lá pelos lados de Luziânia. Seu pai teria morrido em 1914 ou 1915. Entretanto, por incrível que pareça, Bafomé ainda protege a filha adotiva. Se é verdade ou história inventada, não sou eu que irei desdizer o que me contaram numa roda de fogueira lá pelos lados de Padre Bernardo, pertinho de Brasília. 

sábado, 2 de agosto de 2025

Jaque Venturi, a influencer

    

Jaqueline é, por assim dizer, influenciadora, haja vista os milhares de seguidores que comprovavam facilmente tal condição. Influencer, prefere, como se isso significasse dois ou três degraus acima na concorrida escala das subcelebridades.

          Vez ou outra, a mulher é abordada por algum fã na rua ou na fila do mercado. Ela finge naturalidade, apesar dos olhos arregalados, como se estivesse diante de algo tão inusitado como, por exemplo, se uma árvore fosse atingida duas vezes por raios. 

          — Não acredito! Você é a Jaque Venturini?

          — Sim!

          — Ah, acompanho todos os seus posts. Você é demais!

          — Ah, obrigada!

          — Nossa, você é muito mais linda ao vivo! Posso bater uma foto?

          Após quase 30 fotografias, as agora quase melhores amigas se despedem com aquele abraço apertado e dois beijinhos nas faces. Cada uma vai para um lado. Difícil mesmo é afirmar quem saiu mais emocionada, se foi a fã ou, então, a quase famosa. 

          Mas não pense você que vida de famosinha da internet é fácil. Não mesmo! Pois fique sabendo que a nossa heroína do campo virtual precisa lidar com as coisas terrenas. Mulher, mãe, trabalhadora, esposa... Sem contar que nem sempre a criatividade chega no tempo certo para escrever aquele texto impactante, que vai viralizar. 

          Jaqueline tem lá seus receios, pois não quer publicar abobrinhas. Entretanto, isso não a impede de postar, postar e postar seus pensamentos e sentimentos. É complicado, mas seja o que Deus quiser!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Jaque Venturini, a influencer" foi publicado por Notibras no dia 2/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/e-preciso-ter-coragem-para-expor-pensamentos-e-sentimentos-na-internet/

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Conversa sobre Alcebíades

    

         Aconteceu num ponto de ônibus em Brasília, quando aqueles dois desconhecidos se encontraram. O bate-papo foi inevitável, já que a espera seria longa.

          Alcebíades. Conheceu? Um tipo quase comum que andou por aqui, caso não fosse por uma ou outra surpresa que provocava nos que lidavam com o sujeito. Às vezes tímido, era capaz de certos atrevimentos. Não que fosse indecente, mesmo porque, até onde me consta, era fiel à eterna noiva. Luciana, bela mulher, dona dum sorriso improvável diante de desconhecidos. 

          Um metro e sessenta e cinco, não passava disso. Talvez menos, e não gostava de usar subterfúgios para parecer mais alto. Não que chegasse a ser o dono do pedaço, mas carregava certa confiança imprópria nos de sua estirpe. Mero motorista de táxi, como tantos outros por aí. Aquele bigodinho aparado com esmero, o providencial pente no bolso da camisa, calça tergal, sapatos baratos do dia a dia. Não o culpo, a vida naquele tempo era dura, inflação às alturas, a censura... 

          Você se lembra, né? Não se podia falar nada, que era capaz de te levar pra não sei onde, e nunca mais ninguém saberia de você. E ninguém perguntava, pois perigava sumir também. Mas era um tempo bom, do pra frente, Brasil. E tínhamos Pelé, Gerson e o Furacão, sem falar daquele cracaço que era o Tostão. Eita, mineirinho que sabia fazer gol. Pena que parou de jogar tão cedo. Ou parava ou, então, poderia até ficar cego. Lembra?

          Ih, é mesmo! O papo tá tão bom, que até me esqueci do Alcebíades. Bom sujeito. Sabe, daquele tipo caladão, que falava apenas o necessário ou nem isso. Meu amigo, nem sei por que ele me veio à cabeça agora. Nem éramos amigos. Quer dizer, a gente tinha boa convivência, se conhecia, como quase todo mundo naquela época. Isso aqui era puro barro. Barro vermelho, como você sabe, né?

          Não? O senhor não é daqui da capital? Bem que percebi pelo sotaque. Aposto que é do Rio de Janeiro. Adoro esse modo dos cariocas falarem. Você acredita que ainda não conheço o Rio de Janeiro, meu amigo? Pois é, conheço só das novelas. Quantas praias lindas, né? Olha eu aqui me esquecendo do Alcebíades de novo. 

          Gente finíssima, mas que chegava a causar aquela coisa... Como é que posso dizer? Certo desconforto por algumas coisas que falava. Se bem que, na maior parte do tempo, era calado. Sem contar que, de vez em quando, desaparecia por um tempo. Depois voltava e, dois, três meses depois voltava a desaparecer. 

          Quando retornava, os colegas do ponto de táxi... Havia um ponto de táxi bem ali próximo à W3, mas não existe mais. Pois é, o Alcebíades parava o Fusca dele ali. Naquele tempo era muito comum taxista com Fusca. Hoje virou carro de colecionador. Como tem doido por aí, né, meu amigo? 

          Você gosta de Fusca? Ah, é um automóvel bonito, carrega tradição. É o que digo pra minha patroa sempre: "Adalgiza, um dia ainda vou ter um Fusca!" O quê? Você não tem um Fusca? Mas quer ter, né? Não?  Ah, prefere o carro novo? É melhor, né? Carro velho só dá problema.

          Olha aqui eu desviando a conversa de novo, meu amigo. Pois é, o Alcebíades era um tipo esquisito. Esquisitíssimo, por sinal. Sempre que aparecia lá no ponto de táxi, os colegas iam falar com ele.

          — Mas por que você sumiu, Alcebíades? Até parece que não gosta da gente.

          — Ah, vocês são maravilhosos, mas evitá-los é melhor.

          Pois é, meu amigo. Pra você ver! O Alcebíades era um tipo esquisito pra lá de metro. Né?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Conversa sobre Alcebíades" foi publicado por Notibras no dia 1º/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/quando-aqueles-dois-desconhecidos-se-encontraram-o-bate-papo-foi-inevitavel/