quarta-feira, 24 de junho de 2026

Vizinhos, maridos e outros detalhes

     

Não vou mais fazer isso. Quer dizer, foi o que decidi ontem à noite. E essa ideia me acompanhou até a hora do café, que tenho o hábito de tomar sem a ilusão de torrões de açúcar. No máximo duas gotas de adoçante para manter a linha e a compostura diante dos percalços da vida.

        Vida de amante. Se a minha mãe descobre, talvez fique constrangida por causa dos genes que me passou. Papai sempre me pareceu alheio às inúmeras pistas atiradas pelo caminho. Não descarto que aprecie sua situação ou, então, seja do tipo que tem como lema viva e deixe viver. 

        — Você é louca!

        Quem disse isso foi Lúcia, a minha irmã.

        — Aconteceu tão assim... Quando me dei conta, já estávamos na cama.

        — Hum! Louca! Mas me conta, Morgana, o Júlio é bom de serviço?

        Eu, a louca, precisava passar a ficha completa do marido da minha vizinha. Mas eis que palavras foram substituídas por uma gargalhada reveladora.

        — Sabia! 

        — Sabia o quê, Lúcia?

         — Ah, do jeito que a Rosana anda com aquele sorriso no rosto...

          Rosana é a minha vizinha, mulher do Júlio.

            — Mas você não tem medo?

            — Ah, até tenho, mas na hora dá aquela amnésia.

            Amnésia? De onde tirei isso? Seja como for, a Lúcia trocou o sorriso por um olhar interessado demais para o meu gosto. Ter um caso com o marido da vizinha basta, não vou querer transformar isso em feijoada de domingo. Que a minha irmã vá brincar em outro parquinho.

        — Olá, meninas! Quais são as novidades?

        Álvaro, meu marido, apareceu fingindo curiosidade. Ah, se ele soubesse que o Júlio tem uma filial. Pior, que sou eu. Preciso largar essa história de ser amante. Como isso dá trabalho! Amanhã. Sim, talvez amanhã ou mês que vem. 

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