Dona Esther, avó carinhosa e sem muita paciência com os filhos,
aglutinava atenções nos finais de semana, quando a família se reunia para
devorar o famoso talharim à bolonhesa. E não havia quem deixasse de repetir o
prato pelo menos uma vez.
— Mãe, a senhora é a melhor mesmo!
— Vovó, já pensou em abrir um restaurante?
Ia ser um sucesso!
— Dona Esther, a Ângela já tentou várias
vezes fazer esse talharim da senhora, mas não fica a mesma coisa.
— Ah, Antônio, é que não tenho as mãos da
minha mãe.
A mulher escutava aquilo tudo com um discreto sorriso no
rosto, fingia estar mais interessada nos passarinhos que desfrutavam as goiabas
maduras no pé no quintal. Estratégia para não cair na soberba ou, talvez, fosse
algo que considerava tão banal, já que havia aprendido com sua mãe, Aida,
falecida de tristeza após alguns meses do falecimento do marido,
Carluccio.
Entre
talharim e lembranças dos pais, Esther parecia afeita a juntar preocupações. E
não adiantava que os filhos tentassem incutir inquietudes na idosa. Ela olhava com
desdém, fazia de conta que puxava um cigarro da carteira imaginária, pegava do
bolso o isqueiro que não existia, tragava percepções e dava grandes baforadas
carregadas de ironias.
Nabuco, um dos filhos, não raro, protestava, como se aquela atitude
pudesse ser coisa da idade. Vá que dona Esther estivesse ficando gagá. Em vez
de declinar do ímpeto de provocar imbróglios, o sujeito, turrão que nem porta
fechada, abria o verbo.
— Mamãe,
já está na hora da senhora começar a se preocupar com os problemas ao seu
redor. O mundo está um caos, ainda mais para alguém com quase 80 anos.
— Ah, Nabuco, meu filho, eu sei que tenho mil problemas, mas o único que me provoca desespero é o Botafogo.
- Nota de esclarecimento: O conto "O talharim e as preocupações da dona Esther" foi publicado no Notibras no dia 2/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-talharim-e-as-preocupacoes-de-esther/

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