terça-feira, 2 de junho de 2026

O talharim e as preocupações da dona Esther

    

Dona Esther, avó carinhosa e sem muita paciência com os filhos, aglutinava atenções nos finais de semana, quando a família se reunia para devorar o famoso talharim à bolonhesa. E não havia quem deixasse de repetir o prato pelo menos uma vez.

          — Mãe, a senhora é a melhor mesmo! 

          — Vovó, já pensou em abrir um restaurante? Ia ser um sucesso!

          — Dona Esther, a Ângela já tentou várias vezes fazer esse talharim da senhora, mas não fica a mesma coisa. 

          — Ah, Antônio, é que não tenho as mãos da minha mãe. 

          A mulher escutava aquilo tudo com um discreto sorriso no rosto, fingia estar mais interessada nos passarinhos que desfrutavam as goiabas maduras no pé no quintal. Estratégia para não cair na soberba ou, talvez, fosse algo que considerava tão banal, já que havia aprendido com sua mãe, Aida, falecida de tristeza após alguns meses do falecimento do marido, Carluccio. 

        Entre talharim e lembranças dos pais, Esther parecia afeita a juntar preocupações. E não adiantava que os filhos tentassem incutir inquietudes na idosa. Ela olhava com desdém, fazia de conta que puxava um cigarro da carteira imaginária, pegava do bolso o isqueiro que não existia, tragava percepções e dava grandes baforadas carregadas de ironias. 

         Nabuco, um dos filhos, não raro, protestava, como se aquela atitude pudesse ser coisa da idade. Vá que dona Esther estivesse ficando gagá. Em vez de declinar do ímpeto de provocar imbróglios, o sujeito, turrão que nem porta fechada, abria o verbo.

        — Mamãe, já está na hora da senhora começar a se preocupar com os problemas ao seu redor. O mundo está um caos, ainda mais para alguém com quase 80 anos.

        — Ah, Nabuco, meu filho, eu sei que tenho mil problemas, mas o único que me provoca desespero é o Botafogo.

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