domingo, 21 de junho de 2026

Mulher à la carte

    

    Recém-separada, Marta não queria ter aceitado aquele convite para um encontro às escuras, ideia de Lúcia, a irmã caçula. 

    — Se tu não for, eu vou.

    — Lúcia, tu é casada!

    — Ainda.

    — Como assim? Alguma coisa errada entre você e o Mauro?

    — Errada sou eu, minha irmã, que nasci pra rodízio. 

    — Hum! Pois eu sou à la carte.

    — E eu não sei? Você sempre foi a caretona da família.

    Geraldo, 56 anos, divorciado há anos, rosto agradável, sorriso encantador, mora em Roma, onde é professor universitário. Fluente em francês, inglês, espanhol, alemão e italiano. Ainda bem que era brasileiro e se comunicava perfeitamente em português. Do contrário, aqueles dois teriam problemas na comunicação. E posso lhe garantir que a conversa foi ótima, muito por conta das duas ou três taças de vinho que tornaram Marta, digamos, receptiva aos avanços do bonitão. 

    O primeiro toque de mãos aconteceu quase por acaso, era o que a mulher imaginava. Quer dizer, agora sentada no sofá do seu apartamento, já não duvidava que havia sido ela a provocar aquela primeira carícia. E daí? Marta tentou colocar toda a altivez para fora. Era livre, adulta, dona do próprio nariz. Problema do Augusto, que preferiu se aventurar com uma novinha. 

        — Você tem certeza?

        — Não quer?

        — Quero se você quiser.

        — Pois eu quero, Geraldo.

        Chamaram um táxi e cruzaram a cidade. Apesar do trânsito praticamente livro àquela hora, os enamorados sentiram que nunca chegariam. 

        — Obrigado, chefe! Pode ficar com o troco.

     Entraram no edifício, o primeiro beijo aconteceu ainda no elevador. Tomados de desejos, foram direto para o quarto, onde a cama macia os abraçou até que, exaustos, adormeceram. 

  Xícara na mão, Marta buscava no café qualquer explicação para os últimos acontecimentos da sua vida. Não chegava a se arrepender, as poucas lembranças que o vinho não apagara lhe traziam certa euforia, a ponto de levar seus dedos aos lábios: "Meu Deus, como beija gostoso!"

        Ainda com sentimentos confusos, Marta sentiu que alguém a observava. Voltou o rosto para o corredor, mas nada. Geraldo provavelmente ainda estava dormindo. Um leve toque na janela. Um carcará. A mulher tomou um susto, quase gritou.

        O falcão a encarou, aquele olhar penetrante, altivo, implacável. A culpa tomou conta da mulher, que se viu entre a ave de rapina e o homem praticamente desconhecido que dormia no seu quarto.

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