sábado, 20 de junho de 2026

Italiana, mas nem tanto

     

   Esther Stella, italiana radicada no Brasil há tanto tempo, poderia facilmente ser confundida com uma nativa.  Não se engane, meu amigo, a senhora amava o nosso país, mas não titubeava quando alguém a confrontava.

    — Vovó, pizza brasileira ou italiana?

    — Hum! Italiana, óbvio! Brasileiro pensa que pizza é bagunça.

    — Bagunça, vó?

    — Onde já se viu colocar nhoque, estrogonofe, abacaxi? Blasfêmia!

    — Mas banana pode, né, vó?

    — Hum! Heresia!

    Apesar de arrotar tradições, Esther costumava colocar um pouco de caldo da feijoada de domingo sobre uma generosa fatia de pizza no café da manhã do dia seguinte. Obviamente, a senhora se precavia para não ser vista por ninguém. 

       Além da iguaria italiana com o tempero brasileiro, Esther era apaixonada por futebol. Era torcedora de certo time famoso alvinegro, afamado por ser o mais tradicional do país. Mas andava triste, ainda mais por ter iniciado a Copa do Mundo, e a Itália, pela terceira vez consecutiva, estava de fora. 

        A parentada até tinha simpatia pela Azzurra, apesar de os mais velhos ainda se lembrarem com amargor da Tragédia do Sarriá, quando o Paolo Rossi, que não havia marcado sequer um golzinho, resolveu meter logo três na Seleção Brasileira. E talvez tenha sido esse trauma que fez com que os familiares em peso iniciassem aquela provocação contra a idosa.

        — Vó, quem sabe em 2030?

        — Ih, vovó, talvez o Brasil jogue de azul pra senhora fingir que é a Itália.

        — Dona Esther, que tal uma pizza de farofa?

        E aquilo foi irritando a matriarca, que procurou aparentar certa classe:

        — Menos Copa, minha gente, e mais Botafogo.

        Boquiabertos, todos olharam para a dona da casa. E, antes que alguém pudesse dizer algo, eis que a Esther soltou essa:

        — Ah, já ia esquecendo.

        — Do quê, vó?

        — Vão todos à merda!

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