—
Esse seu otimismo me soa como um alento, Edu.
As palavras aí de cima são do José Seabra, o Chefe, que costuma me
dizer que eu acredito demais na força da literatura, como se ela pudesse vencer
todos os problemas do mundo. Não sei se creio exatamente nisso, mas estou certo
de que ela proporciona algum conforto nas horas em que o desespero parece
querer tomar conta de tudo.
Também desconheço as
dores que o Machado de Assis, o Lima Barreto e a Clarice Lispector tiveram,
mesmo porque não as vivi. Todavia, quando leio algo que essas figuras
escreveram, imagino que parte daquilo que vivenciaram está ali, quem sabe até
isso seja o mais próximo do que costumamos chamar de eternidade.
Por falar em dor, a minha amiga Maria Lúcia, que também foi infectada por esse
tal vírus da escrita, costuma me jogar algumas verdades na fuça:
— Edu, queria
ser corajosa que nem a Dona Irene. Mas não, meu amigo eterno, sou igual a você.
— Hum...
Sabida?
—
Frouxa.
— O
quê?
— Edu,
não temos pra onde correr. É o que somos. Tu e eu, meu amigo.
Por
falar em escritores que conheço, eis que imagino que nenhum chegue perto do que
a psicologia entende como normal. Obviamente que alguns de nós podem parecer,
digamos, algo dentro da previsibilidade como é o caso notório do Daniel Marchi.
Duvido quem possa apontar para esse baluarte da literatura contemporânea e
afirmar: "Ah, esse aí não pode ser louco!"
Não sei se rio ou se gargalho, meu amigo, pois esse é dos piores entre os
nossos. Bom ator, é verdade. Poderia até contracenar com a Fernanda Torres ou a
Fernandona sem parecer canastrão. Gente boa demais, que nem o J. Emiliano Cruz,
o rei dos folhetins.
Por falar no Jota, algum desavisado poderia se enganar com aquele tipo melhor
aluno da classe, que só tira A. Há, há, há! Que seja o mais estudioso, não
importa, a insanidade ronda sem cerimônia por ali. E por falar em loucura, eis
que me veio à mente o Cadu.
Cadu Matos. Conhece? Recomendo, mas vou logo precavendo o amigo. Os contos do
Cadu deveriam vir com o seguinte aviso: "Atenção! Proibido para os
pudicos."
Se quer ilustrador dos bons, que vá de Cacá Soares. Poeta dos bambas? Agamenon
Troyan, Nicolas Behr, Luzia Couto, Simone Magalhães e Gilberto Motta, que
também é excelente na prosa. Malucos, cada um a seu modo. Mas se quer loucura
de verdade, aí o papo é mais embaixo.
Fabiana Saka. Saca? Pense numa contista (ou será cronista
ou tudo misturado?) que dá um nó tático na sua cabecinha animal? Carioca,
torcedora do Fluminense e psicóloga. Junte tudo isso e seja o que Deus quiser.
Gosto mesmo é da Simone Magalhães, cujos poemas me provocam
algo que nem sei explicar. Sensação gostosa, que nem sorvete de morango
escorrendo entre os dedos em frente à praia de Copacabana, ao Guaíba ou até
mesmo do Paranoá. Ah! Dá até para emendar com uma poesia da Luzia Couto e outra
da Sarah Munck. Demais!
Loucura mesmo é arriscar ler Daniel D'Avila. Não respondo
por seus atos e muito menos pelos meus. Literatura é isso, aquilo ou algo mais
à frente, talvez acolá. Não importa.
— Edu. Edu! Edu!! Edu!!!
— Oi, meu amor!
— O Chefe quer falar com você.
— Diga que não estou.
- Nota de esclarecimento: A crônica "O vírus da escrita" foi publicada no Notibras no dia 17/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-virus-da-escrita/

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