domingo, 14 de junho de 2026

Bicudo e a lesma

    

    Bicudo. Sim, isso mesmo. Assim chamavam aquele garoto, um tanto maior do que os de sua idade, pernas longas e secas, sorriso tão franco que alguém poderia supor carregado de ironia. Não o era, por sinal. 

    O seu nome mesmo era pouco falado, até a avó, avessa a apelidos, vez ou outra, se traía:

    — Bicudo! Bicudo! Corre aqui!

     — O que foi vó? Que desespero todo é esse?

     — Quer sorvete?

     — E precisa gritar? 

     — Precisa! Se não derrete.

     O menino, do alto dos seus 13 anos, adorava se fazer de herói. Não que tivesse essa coragem toda, mas também não era dos mais medrosos. Quer dizer, era capaz de enfrentar quem quer que fosse para proteger a sua avó, até mesmo baratas, algo que deixava uma das tias desesperada. No entanto, não podia com lesma. Ih, diante da gosmenta, o moleque entrava em parafuso.

        Pois aconteceu em uma manhã de junho, quando o frio já anunciava o inverno, que oficialmente se daria dali a alguns dias. Bicudo despertou e foi até a cozinha, onde pegou alguns biscoitos recheados e começou a degustá-los como se fossem a sua última refeição. Que delícia, ele pensou. 

        Pegou um pouco de leite e o despejou em um copo. Colocou duas colheradas caprichadas de achocolatado, mexeu com cuidado para não derramar. Sorveu um longo gole, o que fez com que ficasse com bigode. Sorriu. Que delícia!   

          Barriga cheia, Bicudo se levantou, esticou os braços para se espreguiçar quando percebeu, assustado, um ser quase estático na janela. Visguento, repugnante, asqueroso. Que nojo!

        — Uma lesma!!!

        O grito despertou a avó, que se levantou para acudir o neto. Mas, antes mesmo da senhora colocar os pés para fora da cama, ela ouviu o estrondo da porta do quarto do menino bater. Pior, ele tratou de passar a chave.

         — Bicudo, o que foi? Que desespero todo é esse?

        — Uma lesma, vó!

        — Uma lesma? 

        — É! Na janela!

        — E pra que esse desespero todo por causa de uma lesma?

        — Ela vai me pegar, vó!

        — Arre! Desde quando lesma corre atrás da gente, menino?

        — Tira ela de lá, vó!

        A mulher foi até a cozinha e viu o molusco naquela lerdeza própria. Suspirou e esboçou um sorriso, mas tratou de pegar a bichinha e colocá-la com cuidado na goiabeira no quintal. A avó pensou: "Do jeito que essa aí não tem pressa, é capaz de ficar nesse galho até a virada do século."

        — Vó! Vó! Vó!

        — O que é, Bicudo?

        — A lesma já foi embora?

        — Já! Agora abra a porta e venha me ajudar aqui.

        A criança, ainda ressabiada, foi até a porta, girou a chave e... nada. Girou novamente, mas a fechadura pareceu escangalhada. 

        — Vó! Vó! Vó!

        — O que é dessa vez, Bicudo?

        — A porta não quer abrir.

        E lá foi a senhora tentar abrir a porta. Não conseguiu e, então, precisou chamar o chaveiro, que só tinha horário na parte da tarde. Sorte que era domingo, e o menino não tinha que ir para a escola.

        — Olha, Bicudo, você vai ficar aí até que o homem venha abrir a porta. Agora preciso ajeitar as coisas.

            — Tá bom, vó. 

         Enquanto a velha preparava o almoço e arrumava a casa, o guri aproveitou o seu tempo de cativeiro com a leitura de um livro de contos. E, entre uma história e outra, eis que o menino adormeceu. 

              Quando despertou, Bicudo se sentiu cansado e, com dificuldade, caminhou até o espelho. Quase caiu para trás. Onde estava? Quem era aquele? Passou as mãos sobre o rosto, a longa barba branca, os cabelos ralos. Gritou:

            — Vó! Vó! Vó!

         Silêncio. Nenhuma resposta. Foi até a porta, virou a chave, a porta se abriu. Finalmente livre. Deu um passo, o primeiro passo para fora do quarto. Tropeçou na própria barba, tombou, testa na quina da mesa. A vida se foi, ligeira que nem sentiu.

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