sábado, 27 de junho de 2026

Lauro, Pingo e outras solidões

          

        Lauro imaginou que não passava de sonho, um beijo de Sônia, a vizinha por quem tinha uma queda. Sorriu e, de repente, arregalou os olhos.

            — Sai pra lá, Pingo!

            O vira-lata se fez de desentendido e pulou sobre o homem.

            — Para! Para! Sai! Cachorro maluco.

            Lavou o rosto, olhou-se no espelho. Confidenciou ao próprio reflexo:

            — Será que ela beija bem?

            Sorriu. Sim, certamente beijava melhor do que o Pingo. 

            — Duvida?

            Assustado, o sujeito voltou os olhos para o espelho e, para sua surpresa, o seu reflexo havia se transformado na vizinha.

            — O quê?

            — Duvida?

            — Não. Claro que não!

            Jogou água na cara. Voltou a abrir os olhos.

            — Que loucura é essa, meu Deus?

            Abriu a porta e lá foi o Pingo se aliviar no quintal. Lauro pensou que talvez também precisasse marcar território. Estava cansado de noites divididas com o cachorro, que um dia foi deixado em uma caixa de papelão em frente ao portão. Por que mesmo o teria acolhido? Piedade, nada mais do que pena daqueles grandes olhos amendoados de um castanho profundo, que provocavam dó apenas de fitá-los. E o danado, de tão feio, tinha lá o seu charme.

        Xícara sobre a mesa da cozinha, Lauro tentou entender a fumaça, algo dança do ventre. Bastou um sopro, tomou um gole. Nada mal para um café solúvel. A preguiça o afastava do coador. Aquilo que era bom, gosto de casa de vó. Um dia criaria coragem para convidar a bonitona da casa em frente para degustar um gourmet nessas cafeterias chiques. Quando saísse o décimo terceiro.

        Avistou seu Onofre vindo da esquina. O senhor, como de costume, passeava com o Zeus, o mestiço de pastor que vivia às turras com o Pingo. Certamente por conta de uma pretendente. Se ele soubesse que o vira-lata era castrado.

        — Pingo! Pingo! Entra! Vamos! Entra!

        Tomou banho, se arrumou para o trabalho. Antes de sair, observou o calendário preso na parede da cozinha. Respirou profundamente. Não via a hora de trocar a juventude pela aposentadoria. 

        — Pingo, papai precisa trabalhar. Não vá fazer bagunça. Até mais tarde, bonitão!

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