quarta-feira, 10 de junho de 2026

Miopia familiar

          

        Que eu sou atrapalhada com horários, não posso negar. Que seja! Não vejo grandes problemas com isso, ao contrário da dona Lúcia, minha querida e amada avó, cuja paciência sempre me pareceu se equilibrar na corda bamba. 

          Não sou do tipo que bate de frente com autoridades. Quer dizer, com autoridades verdadeiras e não essas por conta de cargos. Minha vó, meu querido, é figura para se respeitar. E ai de quem ousar atravessar a linha entre o certo e o errado. Não exatamente assim, pois o correto vai depender do humor da coroa.

          Festa de aniversário do meu sobrinho, o Breno, filho do meu irmão e da Sula, uma gaúcha que jura que gente de olhos claros é mais bonita. Uma tremenda bobagem diante da beleza egípcia do Omar Sharif. Aqueles, sim, são olhos que nos arrancam qualquer razão. 

          Se sou impetuosa? Bem, não digo que sim ou que não, gosto do rebolado e costumo desdenhar de aflições que colocam em xeque o que mulheres fazem longe dos olhos masculinos. Nessas horas, em silêncio, saboreio a dúvida. Mulher não deve satisfação ao ciúme.

          — Cíntia, tu acha que a Sula me trai?

          Rômulo arregala aqueles olhos castanhos e suplica por uma luz. Não acredito que esteja certo, não me importo até, que seja, prefiro deixá-lo ressabiado. Sei dos seus podres, que não são poucos. Vida que segue.

          — Tu acha?

          — Adoro o verde dos olhos da tua mulher. 

          — Azul.

          — Lindos! Gente bonita é assim.

          É interessante observar as dúvidas encravadas nas rugas do rosto do primogênito da minha mãe. Meu regozijo é interrompido por dona Lúcia.

          — Venham todos aqui! Vamos! Aqui, que não sou mulher de não ser ouvida.

          Família reunida, finjo atenção enquanto observo cada um. Meu irmão é um tolo, Sula é seu par quase perfeito, um tanto bonita demais para ele. Poderia dizer que meu sobrinho é a coisa mais linda do mundo, tem os olhos da mãe, verdes (ou azuis, não importa), mas não é. Bonitinho como tantas outras crianças. 

          Meus pais parecem orgulhosos por conta do neto. Os sogros do Rômulo, cada um deslocado a seu modo, apesar dos olhos claros. Gente bonita tem olhos assim. Todos atentos à fala da minha avó, que tece elogios impossíveis ao único bisneto, como se o moleque estivesse destinado a ser o novo Napoleão. 

            É, meu amigo, aqui não tem duas conversas, não. O bagulho é doido.

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