terça-feira, 23 de junho de 2026

O preço do arrependimento

        Valdir complementava a aposentadoria com o que raramente pintava. Desencapava fios e mais fios atrás do cobre, que era vendido aos quilos; capinava um lote ou outro; trabalhava de garçom em festas de crianças, casamentos e confraternizações. A despeito dessas atividades, o senhor tinha apreço por panelas de pressão.

             — Vai mesmo jogar fora, dona Anísia?

             — Comprei uma elétrica. Muito mais prática.

            O homem deixou de lado qualquer resquício de orgulho e tratou de pegar a panela rejeitada. Era nítido que a pobrezinha já havia se envolvido com muito feijão, canjica, milho e aipim. Gasta além da conta, não importava, Valdir a acolheu em seus braços e a levou para o seu pequeno apartamento. 

             — Aurora. Hum... Não! Genoveva parece combinar melhor com você. Vou colocar essa borrachinha aqui e você vai poder cozinhar muito ainda. Vai ser disputada a tapas.

            A panela de pressão, talvez encabulada, não quis responder ao idoso. Seria louco? Mais provável que aquilo fosse apenas solidão. 

             — Coitadinha, está tristinha? Logo, logo você faz amizade com a Flora, a Felícia, a Marta e a Jurema. Se você tivesse chegado há duas semanas... Mas deixa estar, minha querida, que aqui é tudo gente boa. Então, sinta-se à vontade.

             Nova ausência de fala, a Genoveva talvez fosse muda de nascença.

             Como previsto, bastou um banho de loja para que a Genoveva fosse mote de disputas ferrenhas. E lá estavam a Mirtes, a Honorata e a Lourdes dando os lances.

             — Trinta reais, seu Valdir.

             — Pois eu dou cinquenta agora mesmo. Não peço fiado, isso é coisa da Lourdes.

             — Coisa minha? Eu pago é com Pix, minha filha!

             — Pois quero ver! Tu deve o Zé da feira há mais de mês que eu tô sabendo.

             Enquanto as três mulheres não entravam em acordo, apareceu a dona Anísia, que há pouco mais de mês havia jogado aquela panela de pressão no lixo. Ela chegou de mansinho e depositou uma nota de cem no bolso da camisa do Valdir. O sujeito sorriu e devolveu a Genoveva à senhora. 

             Não se sabe exatamente o motivo que fez a dona Anísia se arrepender de ter jogado fora a sua antiga panela de pressão. Há boatos, e talvez nenhum seja totalmente verdadeiro. Dizem que a panela elétrica queimou e, também, há a versão de que a comida ficou sem gosto. O certo mesmo é que o Valdir tem sido visto na casa da mulher nos finais de tarde, quando o cheiro inconfundível de milho cozido toma todo o bairro. Milho cozido e amor.

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