quinta-feira, 4 de junho de 2026

Batismo da culpa

            

            Ia sem culpa, entremeado na multidão, como se alheio à própria malignidade. Não que tivesse cometido grandes crimes, ainda. Mas a conjectura o visitava desde que Elaine o trocara por outro, cuja sonoridade do nome ele começou a apreciar enquanto caminhava: Aurélio, Aurélio, Aurélio, Au-ré-lio.

            Miguel, a princípio, tentou afastar as imagens que chegavam sem cerimônia em sua mente. Beijos, afagos, corpos enlaçados... Não! Não queria pensar nas coisas que Elaine e Aurélio certamente praticavam com o ânimo de amantes que acabaram de se conhecer. Teria a mulher a mesma volúpia de antes? Não! Precisava esquecer os momentos vividos antes da ruptura, só assim conseguiria deixar de imaginá-los, agora, ressuscitados entre a ex-namorada e aquele tipo.

        Entre delírios e lucidez, Miguel não procurou apaziguar o coração, que cismava em bater freneticamente na busca por desforra. Que a hora daqueles dois chegaria, ele não tinha dúvida. Era questão de tempo, nada mais do que alguns dias, meses ou anos. E pensar que aquilo tudo havia acontecido por mera traição. Quanto exagero!

            — Tu não tem vergonha, não, Miguel?

            — Vergonha do quê, mulher?

            — Disso aí que tu aprontou comigo.

            — Hum! Instintos, Elaine. Instintos! Não tenho culpa se nasci homem. Queria o quê? Que eu dispensasse a Lorena só porque ela é a sua melhor amiga?

            — Canalha! Tu é mesmo um canalha, Miguel!

            Lorena, encolhida na cama, a tudo ouvia e nada escutava. Em transe, queria apenas sair daquele quarto. Como é que havia sido tão tola? Ficaria falada; Miguel, afamado. 

            Por impulso que não imaginava ter, Lorena saltou da cama, vestiu o que dava para vestir e, calcinha na mão, foi embora arrastando o mínimo de orgulho que acreditava ainda ter. Falada, não tinha dúvida, era sina.

            Será que ela e o Aurélio já estavam... Hum! Não! Foi depois, tenho certeza. Ou não? Aquela adúltera nunca me enganou. Ah, não! Será? E depois me veio com aquela encenação, como se a culpa fosse minha. Que a Lorena é uma gostosa, não tenho culpa. Quem mandou a Elaine me apresentar a amiga? Tenho culpa? Sou homem, caramba! Tenho cá meus instintos! Elaine e Aurélio... Será? Pouca vergonha! Ah, isso não vai ficar assim ou eu não me chamo Miguel Soares Gimenes Novaes.

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