quinta-feira, 18 de junho de 2026

Entre o diferencial e o Natal

    

        Segunda-feira. Lá estava o Leopoldo, proprietário da Magnu, a oficina mais afamada e malfalada de Sobradinho, a quase bucólica cidade do Distrito Federal. O sujeito estava debaixo de um Opala ajudando o Boquinha, o mecânico mais talentoso do local. 

        — Tu tem certeza que o problema é no diferencial?

        — Leopoldo, tu tá aqui pra me ajudar ou pra me atazanar?

        — Desculpa, Boquinha! Num sabia que você tava tão sensível assim.

        — Hum! Com a quantidade de serviço que você pega, quem se estrepa sou eu. Os clientes ficam tudo aí me torrando a paciência.

         — Sabe duma coisa, Boquinha?

          — Hum! O quê?

          — Tu tem razão! A partir de hoje, não pego mais serviço até entregar tudo o que tá aqui.

          — Hum! Duvido! E, mesmo se fosse verdade, só acabaríamos de trabalhar dia e noite no Natal.

            — Ah, Boquinha, o Natal até que não está tão longe assim.

            — Natal do ano que vem.

            Enquanto os dois proseavam ironias, eis que entrou no recinto o Gilmarildo, cliente dos mais tradicionais. Por um instante, o homem pensou que não havia ninguém na oficina, até que ouviu vozes.

            — Leopoldo, você está aí?

            — Minuto, Gilmarildo! Já tô indo.

            Boquinha, já prevendo o pior, cochichou:

            — Ô, Leopoldo, vê se não vai arrumar mais trabalho, hein!

            — Calma, Boquinha! Deixa comigo! Ou tu acha que sou homem que não cumpre palavra?

            — Hum!

            Assim que saiu debaixo do veículo, o dono da Magnu cumprimentou o Gilmarildo, que estava com cara de desalento.

             — O que foi, Gilmarildo?

              — Leopoldo, tu não vai acreditar.

              — Num vou acreditar no que, homem?

              — A Carlota. Você conhece a Carlota, né?

               — A tua esposa?

                — Não, Leopoldo! A minha mulher é a Cris. Carlota é a minha Caravan.

                — Ah, tá! Tô brincando com você.

                — Pois é, Leopoldo, ela fundiu o motor. 

                — Eita!

                — Pior!

                — O quê?

                — Prometi pra Cris que iríamos viajar pra Caldas Novas com ela.

                — Cris?

                — A minha mulher, Leopoldo!

                — Eu sei! É que estou aqui pensando em como posso te ajudar.

                — Sexta-feira.

                — O que tem sexta?

                — A Cris e eu faremos 30 anos de casados. Você acredita?

                — Meus parabéns, Gilmarildo.

                — Parabéns como, Leopoldo? Como é que vou cumprir a promessa pra minha mulher?

                — Vai no seu outro carro.

               — Não posso, Leopoldo. É promessa. E promessa é coisa que precisa ser cumprida.

                Enquanto o Leopoldo pensava, o Boquinha colocou a cabeça para fora e lhe lançou raios de esconjuros. Coração mole e desejando que o Gilmarildo e a Cris fizessem a tão esperada viagem, o dono da Magnu prometeu entregar a Caravan na quinta-feira à tarde. 

                — Leopoldo, nem sei como posso agradecê-lo. Muitíssimo obrigado, meu amigo!

                — É um prazer servir os meus clientes, Gilmarildo, ainda mais um tão fiel que nem você. 

                Gilmarildo, olhos lacrimejando, se despediu. E foi aí que a coisa pegou.

                — Hum! Homem de palavra! Tu é mesmo um cretino mentiroso, Leopoldo.

                — Mas, Boquinha, você viu o homem. O que eu poderia fazer?

                — Que dissesse não, que não podia e pronto!

                — Boquinha, meu amigo, você me conhece. Sou homem de coração mole. 

                — Pois esse seu coração mole vai te matar. E o serviço vai ficar aí. Talvez os seus genros assumam os abacaxis que tu arruma pra mim. Melhor seria que ficasse pro pé de pano que vai casar com a viúva que tu vai deixar.

                — Ah, isso não vai acontecer.

                — E por que tu tem tanta certeza disso?

                — É simples, Boquinha: não tenho pretensão de morrer por esses dias.

                Não morreu mesmo. Tanto é que o Gilmarildo e a Cris pegaram a estrada na sexta-feira bem cedinho na Carlota. Os detalhes da nova lua de mel não irei revelar. Seja como for, de vez em quando, acontecem milagres na Magnu. 

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