— Tu tem
certeza que o problema é no diferencial?
—
Leopoldo, tu tá aqui pra me ajudar ou pra me atazanar?
—
Desculpa, Boquinha! Num sabia que você tava tão sensível assim.
— Hum!
Com a quantidade de serviço que você pega, quem se estrepa sou eu. Os clientes
ficam tudo aí me torrando a paciência.
— Sabe duma coisa, Boquinha?
— Hum! O quê?
— Tu tem razão! A partir de hoje, não pego mais serviço até
entregar tudo o que tá aqui.
— Hum! Duvido! E, mesmo se fosse verdade, só acabaríamos de
trabalhar dia e noite no Natal.
— Ah, Boquinha, o Natal até que não está tão longe assim.
— Natal do ano que vem.
Enquanto os dois proseavam ironias, eis que entrou no recinto
o Gilmarildo, cliente dos mais tradicionais. Por um instante, o homem pensou
que não havia ninguém na oficina, até que ouviu vozes.
— Leopoldo, você está aí?
— Minuto, Gilmarildo! Já tô indo.
Boquinha, já prevendo o pior, cochichou:
— Ô,
Leopoldo, vê se não vai arrumar mais trabalho, hein!
— Calma, Boquinha! Deixa comigo! Ou tu acha que sou homem
que não cumpre palavra?
— Hum!
Assim que saiu debaixo do veículo, o dono da Magnu
cumprimentou o Gilmarildo, que estava com cara de desalento.
— O que foi, Gilmarildo?
— Leopoldo, tu não vai acreditar.
— Num vou acreditar no que, homem?
— A Carlota. Você conhece a Carlota, né?
— A tua esposa?
— Não, Leopoldo! A minha mulher é a
Cris. Carlota é a minha Caravan.
— Ah, tá! Tô brincando com você.
— Pois é, Leopoldo, ela fundiu o motor.
— Eita!
— Pior!
— O quê?
— Prometi pra Cris que iríamos viajar
pra Caldas Novas com ela.
— Cris?
— A minha mulher, Leopoldo!
— Eu sei! É que estou aqui pensando em
como posso te ajudar.
— Sexta-feira.
— O que tem sexta?
— A Cris e eu faremos 30 anos de
casados. Você acredita?
— Meus parabéns, Gilmarildo.
— Parabéns como, Leopoldo? Como é que
vou cumprir a promessa pra minha mulher?
— Vai no seu outro carro.
— Não posso, Leopoldo. É promessa. E
promessa é coisa que precisa ser cumprida.
Enquanto o Leopoldo pensava, o Boquinha
colocou a cabeça para fora e lhe lançou raios de esconjuros. Coração mole e
desejando que o Gilmarildo e a Cris fizessem a tão esperada viagem, o dono da
Magnu prometeu entregar a Caravan na quinta-feira à tarde.
— Leopoldo, nem sei como posso
agradecê-lo. Muitíssimo obrigado, meu amigo!
— É um prazer servir os meus clientes,
Gilmarildo, ainda mais um tão fiel que nem você.
Gilmarildo, olhos lacrimejando, se
despediu. E foi aí que a coisa pegou.
— Hum! Homem de palavra! Tu é mesmo um
cretino mentiroso, Leopoldo.
— Mas, Boquinha, você viu o homem. O que
eu poderia fazer?
— Que dissesse não, que não podia e
pronto!
— Boquinha, meu amigo, você me conhece.
Sou homem de coração mole.
— Pois esse seu coração mole vai te
matar. E o serviço vai ficar aí. Talvez os seus genros assumam os abacaxis que
tu arruma pra mim. Melhor seria que ficasse pro pé de pano que vai casar com a
viúva que tu vai deixar.
— Ah, isso não vai acontecer.
— E por que tu tem tanta certeza disso?
— É simples, Boquinha: não tenho
pretensão de morrer por esses dias.
Não morreu mesmo. Tanto é que o Gilmarildo e a Cris pegaram a estrada na sexta-feira bem cedinho na Carlota. Os detalhes da nova lua de mel não irei revelar. Seja como for, de vez em quando, acontecem milagres na Magnu.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre o diferencial e o Natal" foi publicado no Notibras no dia 18/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-o-diferencial-e-o-natal/

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