— O
que é isso? Não pedi.
—
Aquele senhor mandou trazer.
—
Aquele senhor?
—
Sim.
— O
de terno?
—
Sim.
— E o
que você acha disso?
—
Como assim?
—
Você aceitaria?
—
Bem, é de graça. Então, acho que sim.
—
Hum... Qual é o seu nome?
—
Jorge.
—
Pois bem, Jorge, diga àquele senhor que prefiro algo mais quente. O que você
acha de uma caipirinha, Jorge?
— Precisa ter disposição.
— E tu acha que eu tenho, Jorge?
O garçom olhou a mulher e, sem dizer palavras, foi até o homem
bem-vestido. Não tardou, retornou com uma caipirinha e a depositou sobre a
mesa.
— Hum... O que você acha disso, Jorge?
— Acho nada não, senhora.
— Você acha que aquele homem está querendo algo comigo?
— Bem... Talvez.
— Talvez?
— Acho que sim.
— Hum... E você acha que eu devo fazer o quê?
— Não sei, não, senhora.
— Não sabe ou não quer dizer?
— Acho que os dois.
— Hum... Pois diga àquele cara pra lhe dar uma boa gorjeta.
— O quê?
— Gorjeta, Jorge. Ou tu não gosta de dinheiro?
— Gosto sim, senhora.
— Então vá lá e faça o que eu te falei.
— Mas...
— Jorge, por favor, faça o que te pedi, que quero ver se essa caipirinha
está boa mesmo.
Jorge, mesmo sem jeito, foi até a mesa do cliente de terno e disse o que
a mulher havia lhe pedido. Para sua surpresa, o homem abriu a carteira e
retirou uma nota de cem e a depositou no bolso da camisa do garçom.
Trocas de olhares e breves sorrisos acenderam a coragem do homem de
terno. Ele se levantou e, quase confiante, caminhou até ficar ao lado da
mulher. Ele tocou a cadeira desocupada e perguntou:
— Posso?
— O Jorge deve ter adorado.
— Jorge?
— O garçom.
O sujeito sorriu. Insistiu:
— Posso?
— Se estiver disposto a me pagar mais uma caipirinha.
— Todas que você quiser.
O loiro se sentou.
— Bem, eu me chamo...
— Não!
— Não?
— Não quero saber o seu nome. Não gosto de saber o nome dos
homens com quem me deito.
— E são muitos?
— Hum... Papai ficaria decepcionado com a sua filha
favorita.
O homem sorriu, apesar do olhar um tanto surpreso. Estaria
ele entrando em um campo minado?
A conversa prosseguiu até que a mulher decidiu ir
embora.
— Mas já?
— Não quer?
— E posso?
— Se eu tomar mais um gole, não aguento terminar a noite do
jeito que quero.
O homem, sem alternativa, pagou a conta e o casal de última
hora saiu de mãos dadas. Os dois entraram no automóvel e rumaram para o motel
mais próximo.
Na manhã seguinte, despidos de papéis,
acordaram. A mulher, com forte enxaqueca, olhou para o homem ao seu lado e
tentou sorrir. Ele envolveu o rosto da amante com as mãos e os lábios se
tocaram mais uma vez.
— Gostou, meu amor?
— Adorei, mas já estou ficando velha pra essas coisas. Será que as crianças já acordaram? Sua mãe disse que ia à missa bem cedo.
- Nota de esclarecimento: O conto "O terceiro elemento" foi publicado no Notibras no dia 12/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-terceiro-elemento/

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