sexta-feira, 12 de junho de 2026

O terceiro elemento

   

     Entretida com a leitura de um possível clássico da poesia do futuro, a mulher fingia desinteresse por um sujeito loiro de terno que acabara de entrar no boteco, quase pé-sujo. Deu um gole na cerveja, virou a página. Voltou a ler, mas logo foi interrompida pelo garçom, que depositou outra cerveja sobre a mesa.

      — O que é isso? Não pedi.

      — Aquele senhor mandou trazer.

      — Aquele senhor?

      — Sim.

      — O de terno?

      — Sim.

      — E o que você acha disso?

      — Como assim?

      — Você aceitaria?

      — Bem, é de graça. Então, acho que sim.

      — Hum... Qual é o seu nome?

      — Jorge.

      — Pois bem, Jorge, diga àquele senhor que prefiro algo mais quente. O que você acha de uma caipirinha, Jorge?

       — Precisa ter disposição.

        — E tu acha que eu tenho, Jorge?

        O garçom olhou a mulher e, sem dizer palavras, foi até o homem bem-vestido. Não tardou, retornou com uma caipirinha e a depositou sobre a mesa.

        — Hum... O que você acha disso, Jorge?

        — Acho nada não, senhora.

        — Você acha que aquele homem está querendo algo comigo?

        — Bem... Talvez.

        — Talvez?

        — Acho que sim. 

        — Hum... E você acha que eu devo fazer o quê?

        — Não sei, não, senhora.

        — Não sabe ou não quer dizer?

        — Acho que os dois.

        — Hum... Pois diga àquele cara pra lhe dar uma boa gorjeta.

        — O quê?

        — Gorjeta, Jorge. Ou tu não gosta de dinheiro?

        — Gosto sim, senhora.

        — Então vá lá e faça o que eu te falei. 

        — Mas...

        — Jorge, por favor, faça o que te pedi, que quero ver se essa caipirinha está boa mesmo.

        Jorge, mesmo sem jeito, foi até a mesa do cliente de terno e disse o que a mulher havia lhe pedido. Para sua surpresa, o homem abriu a carteira e retirou uma nota de cem e a depositou no bolso da camisa do garçom.

        Trocas de olhares e breves sorrisos acenderam a coragem do homem de terno. Ele se levantou e, quase confiante, caminhou até ficar ao lado da mulher. Ele tocou a cadeira desocupada e perguntou:

            — Posso?

            — O Jorge deve ter adorado.

            — Jorge?

            — O garçom.

            O sujeito sorriu. Insistiu:

            — Posso?

            — Se estiver disposto a me pagar mais uma caipirinha.

            — Todas que você quiser.

            O loiro se sentou.

            — Bem, eu me chamo...

            — Não!

            — Não?

            — Não quero saber o seu nome. Não gosto de saber o nome dos homens com quem me deito.

            — E são muitos?

            — Hum... Papai ficaria decepcionado com a sua filha favorita.

            O homem sorriu, apesar do olhar um tanto surpreso. Estaria ele entrando em um campo minado?

            A conversa prosseguiu até que a mulher decidiu ir embora. 

            — Mas já?

            — Não quer?

            — E posso?

            — Se eu tomar mais um gole, não aguento terminar a noite do jeito que quero.

            O homem, sem alternativa, pagou a conta e o casal de última hora saiu de mãos dadas. Os dois entraram no automóvel e rumaram para o motel mais próximo. 

             Na manhã seguinte, despidos de papéis, acordaram. A mulher, com forte enxaqueca, olhou para o homem ao seu lado e tentou sorrir. Ele envolveu o rosto da amante com as mãos e os lábios se tocaram mais uma vez.

            — Gostou, meu amor?

       — Adorei, mas já estou ficando velha pra essas coisas. Será que as crianças já acordaram? Sua mãe disse que ia à missa bem cedo. 

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