quinta-feira, 11 de junho de 2026

Os donos da linha

    

    Seu Gaspar batia ponto no Bar do Bosco, onde se juntava aos da velha-guarda para fazer aquela social, contar os que ainda resistiam às intempéries da vida, jogar dominó, carteado e um bocado de conversa fora enquanto degustavam geladas com torresmo, calabresa e fritas ao som de um bom e nostálgico samba. Entre a rapaziada já passada dos 70 anos, os mais assíduos eram o Juarez, a Sônia, o Arnaldo e o Silva, este já beirando os 90, cada um com suas histórias.

      Juarez, aposentado do Banco do Brasil, era ex-integrante de um conjunto de pagode. Há tempos não sapecava no pandeiro, o que não impedia o sujeito de sempre carregar o instrumento aposentado. Vá que surgisse um parceiro com cavaquinho ou reco-reco? Qualquer caixinha de fósforo já seria providencial.

        Dona Sônia para a maioria, ali na mesa bastava Soninha, havia trabalhado como professora universitária por mais de três décadas. Uma curiosidade sobre a mulher é que jurava ter desfrutado dos carinhos de três do quarteto fantástico da MPB.

            — Chico, Caetano e Gil. Ah, meu Deus, o Gil... Só me faltou o Milton. Mas rolou um selinho. 

            — E no samba?

            — Ah, Juarez, prefiro nem comentar. O Martinho é casado.

           Arnaldo, mestre do dominó, de vez em quando fingia-se distraído para provocar euforia nos companheiros. "Ganhar sempre provoca engulhos", confessava o gajo para o reflexo do espelho do banheiro quase limpo do boteco.

            Silva, o mais vivido da trupe, praticamente só ouvidos, guardava a autoridade entre um gole e outro. É verdade que, não raro, perdia a linha e precisava ser amparado até o seu apartamento. Por sorte, morava a poucos passos dali. 

            Bosco, o dono do local, fazia questão de atender o grupo da melhor forma. Não porque consumisse tanto, mas por causa da assiduidade e, principalmente, porque ali estava a nata da vizinhança. Cada um com sua autoridade.

                De vez em quando, o botequim lotava, os garçons precisavam correr para atender tantos pedidos. E foi justamente numa dessas ocasiões que aconteceu algo que poderia passar despercebido, caso não fosse ainda lembrado com certa dose de humor. 

            Lucas, neto do Silva, começou a frequentar aquele ambiente carregado de boa música. Todavia, seus ouvidos não estavam acostumados àquele som e, por isso, se sentia um alienígena. E foi tomado de coragem que estacionou o seu Celta em frente ao bar e ligou o som em volume pouco acima do bom senso. Pior, era sertanejo. 

                Os companheiros do Silva, apesar do flagrante constrangimento, preferiram evitar imbróglios. Todavia, foi o veterano quem resolveu colocar o fim naquela situação.

            — Ei, Lucas, já deu! Nós podemos ouvir outra coisa antes de morrer?

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