Santana, cuja
fama era a de agente mais sem-noção da delegacia, andava mais deslocado do que
cebola em salada de frutas. Ninguém o queria por perto, ainda mais durante as
confraternizações, mas eis que apareceu uma alma bondosa, o escrivão
Gilmarildo, que ficou consternado com o afastamento compulsório do colega.
Santa ingenuidade!
Ricky Ricardo, Pedrito, Gabryella e
Humberto, que de bobos não tinham nada, tentaram alertar o Gilmarildo, que
agradeceu, porém declinou dos argumentos apresentados pelos policiais.
— Eu entendo, meus amigos, mas todos nós
precisamos de apoio. Creio que o Santana, no fundo, é um sujeito legal. Ele só
precisa de um ombro amigo.
— Mas, Gilmar...
— Por favor, Ricky, eu entendo a sua
preocupação, mas já está decidido. Deus está comigo nessa missão, que tenho
certeza será vitoriosa.
Mal o escrivão deu as costas, o delegado
Ruperata apareceu acompanhado dos agentes Will e Macélio. Os três, com
tirocínio policial aguçado, perceberam as caras de espanto dos companheiros de
labuta.
— O que foi,
galera?
— Doutor, se eu te
contar, é capaz do senhor me chamar de mentiroso.
— Pois diga lá,
Ricky!
— O Gilmarildo está
com pena do Santana e resolveu ser amigo daquele nó-cego. O senhor acredita
nisso?
— Eita! Que tolinho é
esse Gilmarildo!
Dois dias depois, o
Gilmarildo resolveu convidar o mais novo amigo para almoçar em sua residência.
O Santana, que não perdia uma boca-livre, nem fez questão de fingir educação.
— Tô dentro!
Era para o Santana
chegar por volta das 13h, mas lá estava o gorducho em frente ao portão da
residência do Gilmarildo antes das 11h. O anfitrião, apesar da surpresa,
recebeu o convidado de braços abertos e sorriso estampado no rosto.
Assim que o Santana
pisou na sala, o Gilmarildo lhe disse para se sentir à vontade, que ele iria
preparar o almoço. E, antes de completar a frase, lá foi o folgado se
esparramar no sofá e perguntar onde estava o controle remoto da televisão.
— Tá aqui, meu
amigo.
Quase uma hora se passou, quando Gilmarildo retornou para a
sala a fim de chamar o Santana para almoçar. Mas cadê o gajo? O dono da casa
arregalou os olhos, coçou a cabeça e, então, foi até o jardim, talvez brincando
com a Tina e o Caetano, os cachorros da residência. Não estava. Olhou em volta,
o carro do amigo estava ali em frente, estacionado exatamente no mesmo
lugar.
Gilmarildo imaginou
que provavelmente o colega teria ido ao banheiro. Foi até lá, mas nada do
sujeito. Desconfiado, o escrivão se dirigiu até o quarto do filho, que só
retornaria no final da tarde. Nada. Teve a ideia de telefonar para o Santana,
quando lembrou que havia deixado o aparelho celular sobre a cabeceira da cama.
Mal entrou no seu quarto, quase caiu para trás. Lá estava o Santana roncando
sobre a cama king-size. Além do mais, o folgado havia babado sobre o
travesseiro da Cris, a esposa do escrivão.
— Ei, Santana! O que
tu está fazendo na minha cama?
Ainda sonolento, o
convidado olhou desconfiado para o Gilmarildo, fez cara de aborrecido e mandou
essa:
— Ué! Foi tu que
disse pra eu ficar à vontade, meu amigo.
- Nota de esclarecimento: O conto "Cebola em salada de frutas" foi publicado no Notibras no dia 1º/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/cebola-em-salada-de-frutas/

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