segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cebola em salada de frutas

    

Santana, cuja fama era a de agente mais sem-noção da delegacia, andava mais deslocado do que cebola em salada de frutas. Ninguém o queria por perto, ainda mais durante as confraternizações, mas eis que apareceu uma alma bondosa, o escrivão Gilmarildo, que ficou consternado com o afastamento compulsório do colega. Santa ingenuidade! 

            Ricky Ricardo, Pedrito, Gabryella e Humberto, que de bobos não tinham nada, tentaram alertar o Gilmarildo, que agradeceu, porém declinou dos argumentos apresentados pelos policiais. 

            — Eu entendo, meus amigos, mas todos nós precisamos de apoio. Creio que o Santana, no fundo, é um sujeito legal. Ele só precisa de um ombro amigo.

             — Mas, Gilmar...

             — Por favor, Ricky, eu entendo a sua preocupação, mas já está decidido. Deus está comigo nessa missão, que tenho certeza será vitoriosa.

             Mal o escrivão deu as costas, o delegado Ruperata apareceu acompanhado dos agentes Will e Macélio. Os três, com tirocínio policial aguçado, perceberam as caras de espanto dos companheiros de labuta.

            — O que foi, galera? 

            — Doutor, se eu te contar, é capaz do senhor me chamar de mentiroso.

            — Pois diga lá, Ricky!

            — O Gilmarildo está com pena do Santana e resolveu ser amigo daquele nó-cego. O senhor acredita nisso?

            — Eita! Que tolinho é esse Gilmarildo!

            Dois dias depois, o Gilmarildo resolveu convidar o mais novo amigo para almoçar em sua residência. O Santana, que não perdia uma boca-livre, nem fez questão de fingir educação.

            — Tô dentro!

            Era para o Santana chegar por volta das 13h, mas lá estava o gorducho em frente ao portão da residência do Gilmarildo antes das 11h. O anfitrião, apesar da surpresa, recebeu o convidado de braços abertos e sorriso estampado no rosto. 

            Assim que o Santana pisou na sala, o Gilmarildo lhe disse para se sentir à vontade, que ele iria preparar o almoço. E, antes de completar a frase, lá foi o folgado se esparramar no sofá e perguntar onde estava o controle remoto da televisão.

            — Tá aqui, meu amigo. 

           Quase uma hora se passou, quando Gilmarildo retornou para a sala a fim de chamar o Santana para almoçar. Mas cadê o gajo? O dono da casa arregalou os olhos, coçou a cabeça e, então, foi até o jardim, talvez brincando com a Tina e o Caetano, os cachorros da residência. Não estava. Olhou em volta, o carro do amigo estava ali em frente, estacionado exatamente no mesmo lugar. 

            Gilmarildo imaginou que provavelmente o colega teria ido ao banheiro. Foi até lá, mas nada do sujeito. Desconfiado, o escrivão se dirigiu até o quarto do filho, que só retornaria no final da tarde. Nada. Teve a ideia de telefonar para o Santana, quando lembrou que havia deixado o aparelho celular sobre a cabeceira da cama. Mal entrou no seu quarto, quase caiu para trás. Lá estava o Santana roncando sobre a cama king-size. Além do mais, o folgado havia babado sobre o travesseiro da Cris, a esposa do escrivão.

            — Ei, Santana! O que tu está fazendo na minha cama?

             Ainda sonolento, o convidado olhou desconfiado para o Gilmarildo, fez cara de aborrecido e mandou essa:

            — Ué! Foi tu que disse pra eu ficar à vontade, meu amigo.

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