segunda-feira, 15 de junho de 2026

Santana e a operação na Chapada dos Veadeiros

    

    Santana, o agente mais sem-noção da delegacia de Sobradinho, tirou férias. Que alívio! Afinal, os seus colegas merecem um pouco de paz. Entretanto, para focar no que interessa, eis que o nó-cego resolveu passar uns dias na Chapada dos Veadeiros, onde se hospedou em uma das agradabilíssimas pousadas da Vila de São Jorge, localizada no município de Alto Paraíso de Goiás.

    Apesar de pairar um caminhão de dúvida quanto à existência do ET de Varginha, isto não pode ser dito em relação aos alienígenas que costumam visitar Alto Paraíso de Goiás. Também, com tanta beleza natural, é fácil entender o porquê de os extraterrestres se encantarem pelo local. E haja evidências dos seus aparecimentos, um mais incrível do que o outro.

    O policial, mesmo desfrutando de completa falta de coragem, não acreditava nessas histórias. Segundo seu parco pensamento, era tudo coisa de degustadores da erva proibida. Desse modo, lá foi o sujeito ostentar a pança e calva enquanto cofiava o vasto bigode no afamado ponto turístico não tão distante da capital do país. 

     Mal pisou na pousada, Santana constatou que o local estava praticamente lotado. A maioria por ali era de jovens entre 18 e 30 anos, todos sorridentes, sorridentes até demais para o gosto do policial, tão acostumado à própria caturrice. Tentou fingir indiferença, porém, mal ator que era, não passou despercebido. Aproximou-se da recepção e, cara mais amarrada do que quem chupou limão mofado, disparou:

        — Fiz reserva.

        — Boa tarde, senhor.

        — Fiz reserva.

        — Qual o nome do senhor?

        — Santana.

      Indiferente à simpatia da atendente, o policial pegou as chaves e foi direto para o quarto. Observou o local como se estivesse procurando algo para reclamar. Nem uma mísera teia de aranha. Ligou o chuveiro, certo de que a água não estaria a contento. Ledo engano, estava morna de um jeito que fez com que o sujeito resolvesse tomar um banho antes de procurar o que fazer. 

        Perto de meio-dia, a fome bateu, e lá foi o Santana tratar de forrar a barriga, cada vez maior por causa da única ginástica que praticava: levantamento de garfo. Caminhou pela cidade e foi atraído pelo aroma que vinha de um restaurante. Aquilo era elixir para o glutão, ainda mais quando a fome batia forte. 

        Santana comeu todos os tipos de massa, desde espaguete até lasanha. Bebeu duas cervejas e, quando chegou a vez da sobremesa, nada além do que duas generosas fatias de bolo recheado. Para arrematar, pediu um café. 

            — Aqui está, senhor, o seu café. 

            — Você tem adoçante?

          Diante da cara de surpresa do garçom, o gorducho se sentiu obrigado a dar uma breve explicação:

            — Recomendação médica.

            Para fazer a digestão, o Santana resolveu dar uma volta pela região e acabou dando de cara com a entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A ideia inicial era conhecê-lo apenas no dia seguinte, mas, já que estava ali, resolveu entrar, ainda mais porque o sol não estava castigando tanto, o que não impedia que o suor escorresse sem cerimônia pelas bochechas graúdas do sujeito. 

            Mal deu os primeiros passos, pensou em desistir, mas foi tomado por uma euforia, talvez por conta do leve estado de embriaguez e, assim, continuou. Sentiu-se o próprio desbravador do Cerrado. Seguiu por uma trilha, depois entrou por outra, mais algumas outras adiante até que não teve ideia de onde estava. Pior é que começou a escurecer e o breu tomou conta de tudo ao redor.

            Santana tentou fingir tranquilidade, observou ao redor, mas só conseguia enxergar dúvidas. Pensou em se sentar, porém o medo lhe tomou por completo e, desesperado, começou a correr até que o cansaço o fez parar, quando percebeu pontos luminosos no céu. O que seria aquilo? Não eram estrelas. Pontos brancos e vermelhos, que se moviam freneticamente e, de repente, freavam para, logo em seguida, voltarem a rodopiar, rodopiar, rodopiar.

           O policial não teve dúvida. Só poderia ser um disco voador. E, temendo ser abduzido, correu, correu, correu. Nada de plunct plact zum, o Santana não se deixaria levar para lugar nenhum. Correu tanto que tropeçou no próprio medo. 

            A tremedeira se instalou no corpanzil do homem até que não teve escolha. Ele se levantou e começou a caminhar sem rumo. Parou em uma árvore e se escorou. Por azar, uma cobra adormecia em um galho mais baixo. A bicha, incomodada pela presença do Santana, acabou dando uma mordida em sua mão, que gritou:

            — Fui picado! Fui picado! Vou morrer! Vou morrer!

           Por sorte, não era jararaca nem cascavel, mas uma caninana. Mesmo assim, o Santana começou a se sentir tão mal, que desmaiou. Acordou com os primeiros raios batendo na sua face. A princípio, ainda confuso, imaginou que estivesse em casa. Não estava. Talvez na pousada. Também não. No Céu? Definitivamente não seria para lá que iria um dia. 

         Ele se levantou e, então, percebeu que estava a poucos metros da entrada da reserva. Que alívio! Voltou logo para a pousada, de onde não saiu para nada até que o dia de ir embora chegou. E até hoje acredita que é imune a veneno de cobras.

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