domingo, 7 de junho de 2026

Sabor de vó

   

          Festa é festa, tudo igual, alguém poderia dizer. Não, meu amigo, as festas possuem particularidades, cada uma com seu cada um: as nas casas dos amigos, as do trabalho, as daquele conhecido que somos forçados a ir só para fazer uma social, as de eventos religiosos, acadêmicos, esportivos e as temáticas. Estas, então, viraram febre, e haja paciência e disposição para os mais diversos assuntos: anos 70, 80 ou 90, Havaí, sereias, cinema, até unicórnios. Sim, já imaginou um bando de marmanjos fantasiados de unicórnios?

          Entre tantas confraternizações, a única que me enche os olhos é o Natal, e não porque eu seja religiosa.  A questão é outra: amo ser espectadora dos constrangimentos de se unirem parentes e afins, cujos imbróglios são inevitáveis, já que as alfinetadas costumam acontecer bem antes da ceia, e não tem Jesus que acuda.

          Noite de 24 de dezembro, a parentada toda se acotovelando na casa da minha avó, dona Lígia. Mulher de paciência praticamente infinita, porém com rompantes de fazer inveja a Caravaggio. Não chegou a matar algum desafeto, ao menos nunca nos chegou aos ouvidos, o que não impede de aventar dúvidas em todos nós, ainda mais quando ela emoldura o rosto com o olhar e o sorriso catárticos. 

            — Vovó, só mesmo a senhora pra conseguir juntar a tia Cleide com a minha mãe. Como a senhora consegue?

            — O pernil, a maionese e a farofa, Laura. 

            — Sério?

            — Aquelas duas não perdem um boca-livre.

            — Tá, mas e o tio Ernesto com o Carlos?

            — Hum! Mesma coisa, ou você acha que o seu irmão vai abrir mão de se esbaldar depois de passar o ano inteiro comendo macarrão com salsicha?

            Não tiro a razão da minha avó, que sempre soube fisgar os desafetos pela boca. Sabor de vó tem dessas coisas, e não perco o seu suflê de aipim por nada deste mundo, ainda mais quando sei que o ingresso é a oportunidade para assistir ao maior show da Terra. Tratei de encher meu prato e fui me sentar em local estratégico para não perder nada do espetáculo, cujas cenas logo começaram a se desenrolar.

          — Quando a gente imagina que o Natal é tempo de paz e celebração, eis que me aparece a serpente no paraíso.

          É difícil defender a própria mãe quando foi dela a provocação acima. Tia Cleide, que costuma não levar desaforo para casa, tentou manter a classe, algo raríssimo entre os nossos. Arregalou os olhos como se pega de surpresa, virou-se e caminhou em minha direção. Devo ter feito cara de espanto, o que provocou quase um grunhido da minha tia.

          — Tu viu o que a tua fez?

          Se eu havia visto aquilo? É óbvio que sim! Afinal, eu estava ali justamente para ver a jiripoca piar.

          — O quê, tia?

          — Tua mãe.

          — Mamãe?

          — Você não viu mesmo, Laura?

          — Desculpe, tia, estou cheia de problemas.

          — Já sei! Brigou com o namorado.

          — É. A gente brigou.

          Menti. Julgue-me, melhor concordar do que pensar em outra mentira mais elaborada. Fingi olhos tristonhos, enquanto a noite maravilhosa que tive com o Pedro pululavam na minha mente. Como beija bem!

          — Ah, liga não, Laura. Logo, logo vocês se acertam.

          — É, tia. 

          A voz rascante do tio Ernesto interrompeu aquele interlúdio carregado de embustes.

          — Tu é um moleque!

          Esse elogio foi direcionado ao meu querido irmão. Um traste sem-noção, cuja única preocupação é se dar bem à custa do primeiro descuidado. Digo isso sobre o primogênito da minha mãe quase sem remorso. Não que ele seja tão ruim, às vezes até tem alguma serventia, como me dar carona para a faculdade. 

          — Cai dentro se tu é homem!

          Pensando melhor, o Carlos está praticamente com os dois pés no inferno. Como é que ele teve coragem de desafiar o tio Ernesto para uma briga? Isso não é coisa que se faça, ainda mais porque o meu irmão não é, digamos, a mais intimidadora das criaturas. Se bobear, até eu consigo lhe dar umas boas palmadas.

          — Cheeeeega!

          Dona Lígia resolveu impedir que a sua sala se tornasse o Coliseu de Roma.  

          — Olha aqui! Vocês todos! A partir de hoje, pra me fazer raiva, vai ter que agendar. Aqui não é bagunça, não! Tem que ter organização.

          Tio Ernesto e meu irmão ensaiaram um aperto de mão, o que seria demais. Cada um para o seu canto, problema resolvido. Foi aí que percebi a aproximação da minha mãe, que se postou bem ao lado da tia Cleide.

          — Tu viu aquilo, Cleide? 

          — Pois é, Marisa. Que coisa!

          — Parece que a dona Lígia não está bem hoje.

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