sábado, 6 de junho de 2026

Elevador ou purgatório

            Dona Salete, a rabugenta do nono andar, vive às turras com todos. Alguns, como o seu José, a Mariana e o Augusto, costumam levar a sério as provocações. Comigo a coisa funciona de maneira distinta, pois há tempos aprendi com o seu Plínio, um dos mais antigos moradores do prédio, que prefere levar os desaforos para casa e transformá-los em crônicas publicadas na internet. 

            — Luís, tem um carro estranho na garagem.

            — Carro estranho, dona Salete?

            — É um que nunca vi.

            — Hum... Deve ser o carro do Fausto.

            — Fausto? Quem é Fausto?

            — O novo inquilino do 304.

            — E por que não fui informada sobre isso?

            —  Sobre o quê, dona Salete?

            — Tudo, Luís! Tu-do!

            — Ué, dona Salete, o apartamento não é da senhora.

            — E daí?

            — Bem, daí que o dono é o seu Geraldo.

            — Por acaso tu tá me afrontando?

            Pobre Luís, porteiro há década e meia do nosso prédio. Quer dizer, da dona Salete, que se considera dona não apenas da unidade 901, mas de tudo por aqui. 

            — De jeito maneira, dona Salete. Por favor, me perdoe.

            — Hum... Tá perdoado, mas vou precisar de um favorzinho seu. Pode ser?

            — Claro, dona Salete! Mas que favorzinho é esse?

            — Tu pode trocar a resistência do chuveiro?

            Para garantir o emprego, lá foi o Luís trocar a tal resistência, o que não o livrou de mais alguns desaforos.

            — Olha aqui, Luís, é bom que tenha ficado bom. Odeio tomar banho frio.

            — Sei sim, dona Salete. Pode confiar.

            — Hum! O último que confiei me trocou por uma novinha.

            — Ué, dona Salete, pensei que a senhora fosse viúva.

            — E sou. Ou você acha que eu deixaria o cretino impune?

            O porteiro preferiu economizar curiosidades antes que se tornasse cúmplice de algum delito. Vá que acabe enrolado com a lei.

            Pois estava eu no elevador quando a porta se abriu. Esforcei meu melhor sorriso, o que pareceu irritar a dona Salete.

            — Tá rindo do quê, Júlio? Por acaso tô cagada?

            A surpresa e o espanto devem ter se apossado do meu rosto. Senti vontade de ganir que nem vira-lata e me enfiar num beco qualquer. Mas eis que o seu Plínio entrou no elevador no andar logo abaixo.

            — Bom dia, dona Salete! Bom dia, Júlio! Que cara é essa, meu rapaz?

            Antes que eu pudesse responder, a nossa vizinha o fez por mim.

            — Bom dia o caramba, Plínio! Você acredita que esse moleque disse que um pombo cagou na minha cara?

            — Isso é sinal de sorte, dona Salete.

            — Só se for na cara da mãe dele. Onde já se viu uma coisa dessas? Logo eu, uma velhinha que dá passagem até para barata.

            — Liga não, dona Salete. O Júlio é um bom rapaz.

            — Um sonso, Plínio! Aliás, cínico que nem você.

            — Que nem eu?

            — Totalmente, seu pilantra!

            — Que isso, dona Salete!

            — Hum! Aliás, meu querido, você vai ou não no carteado hoje na Lídia?

            — Depende.

            — Do quê, seu canalha?

            — Dona Salete, por favor, a senhora precisa decidir. É amor ou ódio?

          Por sorte ou azar, a porta se abriu, cada um foi para o seu lado e a dúvida permaneceu comigo. O que foi aquilo? Por um instante, imaginei que os dois estivessem mancomunados. Será? Não! Talvez o Plínio estivesse apenas buscando inspiração para mais um dos seus contos. Legal. Legal que nada, pois o palhaço da vez sou eu. Que seja! Também, quem mandou eu lançar aquele sorriso amigável para a dona Salete? Vivendo e aprendendo, meu amigo.

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