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Luís, tem um carro estranho na garagem.
— Carro estranho, dona Salete?
— É um que nunca vi.
— Hum... Deve ser o carro do Fausto.
— Fausto? Quem é Fausto?
— O novo inquilino do 304.
— E por que não fui informada sobre isso?
— Sobre o quê, dona Salete?
— Tudo, Luís! Tu-do!
— Ué, dona Salete, o apartamento não é da senhora.
— E daí?
— Bem, daí que o dono é o seu Geraldo.
— Por acaso tu tá me afrontando?
Pobre Luís, porteiro há década e meia do nosso prédio. Quer
dizer, da dona Salete, que se considera dona não apenas da unidade 901, mas de
tudo por aqui.
— De jeito maneira, dona Salete. Por favor, me perdoe.
— Hum... Tá perdoado, mas vou precisar de um favorzinho seu. Pode
ser?
— Claro, dona Salete! Mas que favorzinho é esse?
— Tu pode trocar a resistência do chuveiro?
Para garantir o emprego, lá foi o Luís trocar a tal resistência,
o que não o livrou de mais alguns desaforos.
— Olha aqui, Luís, é bom que tenha ficado bom. Odeio tomar banho
frio.
— Sei sim, dona Salete. Pode confiar.
— Hum! O último que confiei me trocou por uma novinha.
— Ué, dona Salete, pensei que a senhora fosse viúva.
— E sou. Ou você acha que eu deixaria o cretino impune?
O porteiro preferiu economizar curiosidades antes que se tornasse
cúmplice de algum delito. Vá que acabe enrolado com a lei.
Pois estava eu no elevador quando a porta se abriu. Esforcei meu
melhor sorriso, o que pareceu irritar a dona Salete.
— Tá rindo do quê, Júlio? Por acaso tô
cagada?
A surpresa e o espanto devem ter se apossado
do meu rosto. Senti vontade de ganir que nem vira-lata e me enfiar num beco
qualquer. Mas eis que o seu Plínio entrou no elevador no andar logo abaixo.
— Bom dia, dona Salete! Bom dia, Júlio! Que cara é essa, meu
rapaz?
Antes que eu pudesse responder, a nossa vizinha o fez por mim.
— Bom dia o caramba, Plínio! Você acredita que esse moleque disse
que um pombo cagou na minha cara?
— Isso é sinal de sorte, dona Salete.
— Só se for na cara da mãe dele. Onde já se
viu uma coisa dessas? Logo eu, uma velhinha que dá passagem até para barata.
— Liga
não, dona Salete. O Júlio é um bom rapaz.
— Um
sonso, Plínio! Aliás, cínico que nem você.
— Que nem eu?
—
Totalmente, seu pilantra!
— Que
isso, dona Salete!
— Hum!
Aliás, meu querido, você vai ou não no carteado hoje na Lídia?
—
Depende.
— Do
quê, seu canalha?
— Dona
Salete, por favor, a senhora precisa decidir. É amor ou ódio?
Por sorte ou
azar, a porta se abriu, cada um foi para o seu lado e a dúvida permaneceu
comigo. O que foi aquilo? Por um instante, imaginei que os dois estivessem
mancomunados. Será? Não! Talvez o Plínio estivesse apenas buscando inspiração
para mais um dos seus contos. Legal. Legal que nada, pois o palhaço da vez sou
eu. Que seja! Também, quem mandou eu lançar aquele sorriso amigável para a dona
Salete? Vivendo e aprendendo, meu amigo.
- Nota de esclarecimento: O conto "Elevador ou purgatório" foi publicado no Notibras no dia 6/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/elevador-ou-purgatorio/
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