segunda-feira, 8 de junho de 2026

Aos acanhados, cama vazia

             Dona Lizete é tão cheia de autoridade que poderia facilmente se passar por chefe de gangue. E há quem pense que a senhora de olhos amendoados e sorriso calculado esconda algo do seu passado, um assalto a banco, um homicídio ou, então, um furto de aspirina em alguma farmácia qualquer. Não por acaso, é respeitada por quase todos, que preferem não arriscar provocar imbróglios desnecessários. 

            A mesa ao canto no Bar do Bosco era praticamente usucapião da dona Lizete. Tanto é que, quando a velha não estava por ali, dificilmente alguém se atrevia a ocupar o local. Nem João Pinto notório gerente do jogo do bicho da região tomava tamanha liberdade. Melhor se escorar no balcão enquanto bebia uma gelada. Entretanto, de vez em quando, o sujeito era convidado a se sentar ao lado da mulher.

            — Dona Lizete, posso fazer uso da franqueza que disponho neste momento?

            — Diga lá, seu João.

            — Não vai se ofender?

            — E quem é que se ofende na minha idade, homem? Diga logo, que, pras bandas de cá, o tempo é um corisco. 

            — Pois vou dizer! Se a senhora fosse um tanto mais jovem, eu me atrevia.

            — Não seja por isso, seu João Pinto, que aos acanhados só resta cama vazia. 

            Se a diferença de idades foi empecilho, ninguém se atreveu a dizer ou desdizer, mas a aliança foi firmada, a ponto da dona Lizete se tornar conselheira do contraventor. Devido a esse particular, os encontros dos dois passaram a ser mais frequentes. 

            — Lizete, tu acredita que o Lucas tá me roubando?

            — O teu sobrinho?

            — O próprio. 

            — Tá certo disso, João?

            — Ninguém me engana, Lizete. Mas tô num impasse. 

            — Esse é o problema de trazer a família pros negócios.

            — É verdade. 

            — Tu tem dois caminhos, João. Fingir inocência e assumir o prejuízo ou...

            — Mandar matar o desgraçado?

            — Não, João, a não ser que tu esteja disposto a entrar em conflito com tua irmã e, pior, com tua mãe.

            — Fora de cogitação! Isso não posso! 

            — Mande o moleque me procurar.

            — O que tu vai fazer, Lizete?

            — Confie, meu querido.

            No dia seguinte, enquanto dona Lizete pitava mais um dos seus cigarros mentolados, Lucas entrou no Bar do Bosco e caminhou até a mesa da coroa. 

            — Num sabia que podia fumar aqui.

            — Você não pode.

            O rapaz percebeu que havia pisado em campo minado.

            — A senhora pediu pra falar comigo?

            — Sente-se. 

            Lucas nem titubeou.

            — Sabe por que posso fumar aqui?

            — Não, senhora. Por quê?

            — Não importa, isso não é da sua conta.

            O sobrinho do João Pinto demonstrou desconforto com a rispidez da mulher.

            — Tu tem orelha?

            — O quê?

            — Tu é surdo?

            — Não, senhora.

            — Tu é burro?

            — Não, senhora.

             — Que bom. Então, só vou falar uma vez.

            Os que presenciaram aquele encontro poderiam dizer que Lucas parecia estar prestes a enfartar. Não enfartou, é verdade. 

            — O mal do malandro é achar que só a mãe dele faz filho esperto.

            Suou frio. Nunca mais. Endireitou-se de vez.

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