A mesa ao canto no Bar do Bosco era
praticamente usucapião da dona Lizete. Tanto é que, quando a velha não estava
por ali, dificilmente alguém se atrevia a ocupar o local. Nem João Pinto
notório gerente do jogo do bicho da região tomava tamanha liberdade. Melhor se
escorar no balcão enquanto bebia uma gelada. Entretanto, de vez em quando, o
sujeito era convidado a se sentar ao lado da mulher.
— Dona Lizete, posso fazer uso da
franqueza que disponho neste momento?
— Diga lá, seu João.
— Não vai se ofender?
— E quem é que se ofende na minha idade,
homem? Diga logo, que, pras bandas de cá, o tempo é um corisco.
— Pois vou dizer! Se a senhora fosse um
tanto mais jovem, eu me atrevia.
— Não seja por isso, seu João Pinto, que
aos acanhados só resta cama vazia.
Se a diferença de idades foi empecilho,
ninguém se atreveu a dizer ou desdizer, mas a aliança foi firmada, a ponto da
dona Lizete se tornar conselheira do contraventor. Devido a esse particular, os
encontros dos dois passaram a ser mais frequentes.
— Lizete, tu acredita que o Lucas tá me
roubando?
— O teu sobrinho?
— O próprio.
— Tá certo disso, João?
— Ninguém me engana, Lizete. Mas tô num
impasse.
— Esse é o problema de trazer a família pros
negócios.
— É verdade.
— Tu tem dois caminhos, João. Fingir
inocência e assumir o prejuízo ou...
— Mandar matar o desgraçado?
— Não, João, a não ser que tu esteja
disposto a entrar em conflito com tua irmã e, pior, com tua mãe.
— Fora de cogitação! Isso não posso!
— Mande o moleque me procurar.
— O que tu vai fazer, Lizete?
— Confie, meu querido.
No dia seguinte, enquanto dona Lizete pitava
mais um dos seus cigarros mentolados, Lucas entrou no Bar do Bosco e
caminhou até a mesa da coroa.
— Num sabia que podia fumar aqui.
— Você não pode.
O rapaz percebeu que havia pisado em campo minado.
— A senhora pediu pra falar comigo?
— Sente-se.
Lucas nem titubeou.
— Sabe por que posso fumar aqui?
— Não, senhora. Por quê?
— Não importa, isso não é da sua conta.
O sobrinho do João Pinto demonstrou desconforto com a rispidez da
mulher.
— Tu tem orelha?
— O quê?
— Tu é surdo?
— Não, senhora.
— Tu é burro?
— Não, senhora.
— Que bom. Então, só vou falar uma vez.
Os que presenciaram aquele encontro poderiam dizer que Lucas parecia
estar prestes a enfartar. Não enfartou, é verdade.
— O mal do malandro é achar que só a mãe dele faz filho esperto.
Suou frio. Nunca mais. Endireitou-se de vez.
- Nota de esclarecimento: O conto "Aos acanhados, cama vazia" foi publicado no Notibras no dia 8/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/aos-acanhados-cama-vazia/

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