Viveu
na marginalidade, no submundo, conhecia a escória e o esgoto tão de perto que
chegava a cegá-la. Mirna se achava imune às surpresas da vida, o que não a
impediu por ironia ou sina, a se relacionar de maneira incisiva com Rômulo, um
tipo da alta, cuja maldade desavergonhada lhe causou certo espanto e, já no
momento seguinte repulsa. E, quando pensou em se desvencilhar, estava tão
emaranhada que preferiu guardar forças para se manter viva.
—
Tu é linda demais!
Não
tinha por que duvidar das palavras do sujeito.
— Tem namorado?
— Ainda tô procurando na prateleira, mas tá difícil.
— Ué, por quê?
— Só produto vencido.
Acostumado com tudo na mão, Rômulo teve que esperar. Não muito, o
suficiente para que Mirna sentisse que o havia fisgado. E foi quando ela se
achou dona da situação.
— Você é a melhor!
—
Gostou?
— Se gostei? Nossa!
Luxo. Até o luxo pode ser desconfortável no início, ainda mais
para alguém como Mirna. Acostumada às privações, controlava até a quantidade de
xampu e fazia questão de não deixar sobras no prato, mesmo que o estômago já
não suportasse nem sequer um grão.
— Tu é mesmo engraçada, Mirna,
— Engraçada? Por quê?
— Se não quer, não coma.
— Pra você é fácil, Rômulo, nunca passou fome.
Entre caviar, lagosta e filé mignon, até quem está de dieta faz
uma boquinha. E foi assim que Mirna se sentiu parte daquilo e não percebeu as
atrocidades cometidas por Rômulo. Quando se deu conta, já era tarde demais.
— Quem é esse homem?
— Assunto de trabalho, meu amor. Não precisa se preocupar, está
tudo sob controle.
— Controle? Esse homem tá sangrando!
— Tudo vai ficar bem, Mirna. Agora, por
favor, eu preciso trabalhar. Depois a gente conversa. Te amo.
Mirna, sem forças para aprofundar aquela discussão, optou por
deixar o marido trabalhar. Rômulo a amava, pelo menos havia sido isso que ele
disse.
Quando a madrugada roubou o tempo da noite, Rômulo entrou no quarto. De pé, aguardou as vistas se acostumarem com a escuridão. Era possível observar a silhueta da esposa. Linda, linda demais. Mirna não desejou confrontar o marido novamente, preferiu fingir sonhos que não vieram.
- O conto "Preço de prateleira" foi publicado no Notibras no dia 5/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/preco-de-prateleira/

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