sexta-feira, 5 de junho de 2026

Preço de prateleira

   

        Mirna, parada diante do espelho, buscava coragem para tentar entender como é que havia se deixado chegar àquela situação. Logo ela, que sempre se achara dona do próprio destino, longe de influências terceirizadas. Ledo engano, como se a ingenuidade fosse escamoteada por tamanha confiança.

            Viveu na marginalidade, no submundo, conhecia a escória e o esgoto tão de perto que chegava a cegá-la. Mirna se achava imune às surpresas da vida, o que não a impediu por ironia ou sina, a se relacionar de maneira incisiva com Rômulo, um tipo da alta, cuja maldade desavergonhada lhe causou certo espanto e, já no momento seguinte repulsa. E, quando pensou em se desvencilhar, estava tão emaranhada que preferiu guardar forças para se manter viva.

            — Tu é linda demais!

            Não tinha por que duvidar das palavras do sujeito. 

            — Tem namorado?

            —  Ainda tô procurando na prateleira, mas tá difícil.

            — Ué, por quê?

            — Só produto vencido.

            Acostumado com tudo na mão, Rômulo teve que esperar. Não muito, o suficiente para que Mirna sentisse que o havia fisgado. E foi quando ela se achou dona da situação.

            — Você é a melhor!

            — Gostou?

            — Se gostei? Nossa! 

            Luxo. Até o luxo pode ser desconfortável no início, ainda mais para alguém como Mirna. Acostumada às privações, controlava até a quantidade de xampu e fazia questão de não deixar sobras no prato, mesmo que o estômago já não suportasse nem sequer um grão.  

            — Tu é mesmo engraçada, Mirna,

            — Engraçada? Por quê?

            — Se não quer, não coma.

            — Pra você é fácil, Rômulo, nunca passou fome.

            Entre caviar, lagosta e filé mignon, até quem está de dieta faz uma boquinha. E foi assim que Mirna se sentiu parte daquilo e não percebeu as atrocidades cometidas por Rômulo. Quando se deu conta, já era tarde demais.

            — Quem é esse homem?

            — Assunto de trabalho, meu amor. Não precisa se preocupar, está tudo sob controle.

            — Controle? Esse homem tá sangrando!

            — Tudo vai ficar bem, Mirna. Agora, por favor, eu preciso trabalhar. Depois a gente conversa. Te amo.

          Mirna, sem forças para aprofundar aquela discussão, optou por deixar o marido trabalhar. Rômulo a amava, pelo menos havia sido isso que ele disse. 

            Quando a madrugada roubou o tempo da noite, Rômulo entrou no quarto. De pé, aguardou as vistas se acostumarem com a escuridão. Era possível observar a silhueta da esposa. Linda, linda demais. Mirna não desejou confrontar o marido novamente, preferiu fingir sonhos que não vieram.

Nenhum comentário:

Postar um comentário