terça-feira, 16 de junho de 2026

O fiscal da vida alheia

 

            Dia desses, bem ali na Banca do Guima, na agradabilíssima cidade de Sobradinho, no Distrito Federal, aconteceu um embate dos mais hilários entre dois clientes. E a situação quase saiu do controle, porém foi contida pela costumeira enxurrada de humor presente no local.

        Entre uma venda e outra de revistas, jornais, salgadinhos e refrigerantes, tudo entremeado de muita conversa fiada, um sujeito barbudo, cabeludo e de boina do Che Guevara se aproximou. Ele pareceu interessado em alguns volumes de Karl Marx, Friedrich Engels, Theodor Adorno e Michel Foucault. Isso, aliás, chamou a atenção do Gouveia, alcunhado de Coronel, apesar de nunca ter passado do posto de sargento. As demais patentes foram conquistadas, segundo fofoca que corre solta, por conta da chatice acumulada pelo sujeito.

            O Coronel coçou a cabeça, ficou em dúvida se puxava conversa com aquele tipo, mas a coragem, que era praticamente nenhuma, pareceu querer dar um passeio lá pela Torre Digital. Todavia, o homem, certamente um guerrilheiro, tomou uma atitude que deixou o covarde sem opção de refugo. Pois você acredita que ele começou a folhear um livro do Paulo Freire? Pior, pois demonstrou um interesse incomum.

            — Tu é comunista, é?

            — Oi?

            — Tu é comunista?

            — E qual é o interesse do senhor por saber o que sou e o que não sou?

            — Hum! Comunista e atrevido.

            — O quê?

            — Além de comunista, tu também é surdo?

            — O senhor por acaso é fiscal da vida alheia?

            — Comunista, atrevido e respondão. Era só o que me faltava. Guima, você deveria selecionar melhor a sua clientela.

            — Ih, Coronel, deixa o homem em paz. Ele está de boa na dele.

            — Ah, então, o senhor é milico?

            — Melhor do que ser comunista.

            — O senhor gosta de ler?

            — Leio o suficiente pra não me tornar um comunista.

            — Ah, já imagino. 

            — O que tu imagina, seu comunista?

            O protótipo do Che Guevara preferiu encerrar aquela história e voltou-se para o Guima.

            — Pois, seu Guima... Suponho que o senhor seja o dono da banca. Vou levar esse do Paulo Freire.

            O novo freguês pagou pelo livro e, já de saída, foi interpelado novamente pelo Coronel.

            — Ei, tu é comunista, né?

            — Hum... Posso fazer uma proposta pro senhor?

            — Proposta?

            — Sim. Eu te respondo se sou ou não comunista, mas desde que o senhor me permita lhe indicar algo pra ler.

            O Coronel ficou intrigado por alguns instantes, até que respondeu:

            — Tá. Mas me responda primeiro.

            — Sou.

            — Ah! Eu sabia! Conheço um comunista de longe.

            — Agora é a minha vez. Posso?

            — Pois diga, seu comunista!

            — Que tal ler aquele gibi ali do Homem-Aranha? Pensando melhor, talvez seja melhor o senhor começar pela Turma da Mônica. Vá que seja muito pesado?

                Quando o Coronel notou que o apreciador do Paulo Freire já havia dobrado a esquina, percebeu que o Guima e os outros fregueses estavam gargalhando daquela anedota. Isso não o impediu de soltar um arremedo de consternação:

            — Ah, comunistazinho filho da mãe!

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