sexta-feira, 19 de junho de 2026

Entre Lavoisier e Drummond

    

    Não posso dizer que já fui um ferrenho defensor da finitude da vida ou, como minha falecida esposa gostava de dizer, da reciclagem dos átomos através da história. Bem, não estou necessariamente interessado nas implicações físicas ou químicas, tampouco nas filosóficas e, talvez sim, nas poéticas desse reaproveitamento da matéria. 

     — Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, José, como já dizia Lavoisier.

      — Por isso que sempre vou preferir Drummond, Lígia. 

     Minha Lígia certamente está espalhada por aí, quem sabe até na samambaia pendurada na varanda de alguém ou no poodle da vizinha. Seria engraçado, pois a minha esposa sempre foi alérgica a pelo de cachorro. Não que detestasse os bichos, era mais questão de saúde. 

        — Já espirrei pro ano inteiro, José. Até parece que o Padura entrou aqui hoje. Por acaso você não deixou a porta aberta de novo, né, José?

          — Não, meu amor. O Padura não entrou aqui. 

            Que saudade da minha Lígia, da sua voz, do seu sorriso, ah, aquele sorriso. Do cheiro, até dos espirros, o primeiro tímido, o segundo um tanto mais à vontade, os demais desavergonhados. 

          Minha filha veio aqui na semana passada. Deixou as crianças por algumas horas. Queria que ficassem mais tempo, mas a Sônia se preocupa demais.

            — Pai, melhor assim. A Alessandra e o Pedro dão muito trabalho.

            — Trabalho que nada, Sônia. Já estou calejado. Ou você se esqueceu de como vocês eram? 

            Aproveitei o que deu com os meus netos. O Pedro, deve ser por causa da idade, ficou praticamente a tarde inteira entretido com jogos eletrônicos. A Alessandra, que acabou de completar três anos, não desgrudou da barra das minhas calças. Parece interessada em tudo, e tudo parece desinteressante no minuto seguinte. Quanta vivacidade. E como sorriu aquele sorriso franco e sem amarras da pequena infância.

            Posso parecer um tolo, talvez seja a idade, não sei. A presença dos meus netos é um conforto e, não descarto, um elixir de coragem. Não tenho medo da morte nem mesmo resquício da falta dos batimentos cardíacos, cada vez mais falhos. Medo nenhum dessa finitude tão certa. No entanto, quando tudo isso acabar, vou sentir falta. 

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