terça-feira, 9 de junho de 2026

Semana que vem

    

Amo minha família, especialmente meus pais, apesar de visitá-los menos do que eu deveria. Vida de adulto é assim, tempo para quase nada além de preocupações com as desimportâncias que surgem a todo instante. Semana que vem. É, semana que vem apareço por lá, beijos e abraços protocolares, aquele café feito na hora, talvez um ou dois bolinhos de chuva. 

          Marcela me cobra a todo instante, diz que não dou a devida atenção aos nossos pais. Nem discuto, sou todo ouvidos, e isso parece irritá-la.

          — Não vai dizer nada?

          — Estou te ouvindo.

          — Hum! Igualzinho à mamãe!

          — Mas, Marcela, o que você quer que eu diga?

          — Alguma coisa, qualquer coisa. Que xingue!

          Não descarto a razão da minha irmã. Nunca fui de reclamar, prefiro guardar comigo as explosões, fingir indiferença, igual à dona Letícia. Marcela tem razão, sou igualzinho à nossa mãe. 

          Aconteceu há quase dois meses... Creio que há mais tempo, não sei ao certo; a cabeça anda a mil. Não importa, pois aconteceu e é isso que importa. Dona Letícia, seu Mauro, a Marcela e eu reunidos em volta da mesa da cozinha. O café da minha mãe é uma delícia ou, talvez, seja resquício de memória da minha infância. 

          Nessas ocasiões, os donos da palavra são papai e minha irmã. Como falam! Não descarto que seja esse o motivo de minha mãe e eu ficarmos calados praticamente o tempo todo. E aqueles bolinhos de chuva estavam ótimos como sempre. Existe coisa mais fofa?

          Meu pai reclamou dos joelhos, das costas, da conta de luz, da gerente do banco, da aposentadoria corroída pelos preços exorbitantes dos remédios. Isso é dele, sempre foi, como se estivesse gravado no DNA. Eu ficaria surpreso se ele começasse a olhar um mundo cor-de-rosa, mas a Marcela não consegue perceber a essência do nosso pai. E, quando ele foi ao banheiro, a minha irmã aproveitou para se queixar com a dona Letícia.

          — Mamãe, o que deu no pai? Ele não para de reclamar.

          — Liga não, minha filha. Ele precisa reclamar, faz parte.

          Semana que vem. É, preciso me programar direitinho. 

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