segunda-feira, 22 de junho de 2026

O ruído dos outros

     

    Não era um tipo resmungão, preferia o silêncio a embates infrutíferos, jamais vencidos, apesar dos mais prolixos imaginarem tal inverdade. Que seja, ao maior dos tolos, as batatas. Para que discutir, deixe-o vangloriar-se por qualquer ilusão, por menor que seja.

        Osmar Augusto Bastos, jornalista há década e meia, defendia com unhas e dentes o apaziguamento. Os adversários e até os amigos costumavam provocá-lo. Talvez, assim, o sujeito tomasse uma atitude, certamente com os brios feridos. Que nada!

        — Tu é mesmo um frouxo, Osmar!

        — Do que você está falando, meu caro Antônio?

        — Quando é que tu vai responder àquela afronta?

        — Afronta?

        — Pois não viu o Mauro afirmar que tu não passa de um zero à esquerda quando o assunto é escrever uma matéria decente pro jornal?

        — Ele disse isso mesmo?

        — Pois não estou te dizendo, homem?

        — O Mauro?

        — Sim! E quem mais?

        — Hum...

         — E o que tu vai fazer? Coisa pequena não há de ser.

        — Nada.

        — Nada?

        — Pessoas têm opiniões, meu caro Antônio.

        — Pois tu é mesmo um cagalhão!

     Osmar poderia levar aquelas palavras para o coração, mas preferiu abster-se de contendas desnecessárias. Melhor seria escrever um poema. Inspiração não lhe faltava, até a simplicidade de vestimenta de um solitário joão-de-barro ganharia cores a cada verso.

        Antônio, há poucos meses na redação, talvez entendesse aquela atitude como de alguém pusilânime, e isso o incomodava, como se fosse preciso encarar a ofensa como algo grave. Pensou em ir tirar satisfação com Mauro, porém, desprovido de sustança corporal, preferiu fazer nova investida no colega.

          — Osmar, você sabe que isso não pode ficar assim, né?

            — Hum... Creio que você tem razão.

            — Ah, até que fim! Tu vai tomar uma atitude. Que bom!

            — Você acha que poesia com rima está fora de moda?

            — O quê?

            — Poesia. Com ou sem rima?

            O homem se aproximou e percebeu que Osmar estava escrevendo umas estrofes. Puxou o ar com força e o expeliu logo em seguida. Sem perspectivas de resolver algo que o incomodava, apesar de não lhe dizer respeito, Antônio foi ter uma conversa com Armando, o editor-chefe.

            — Armando, tu tá sabendo o que anda acontecendo por aqui?

             — Não.

            — O Mauro.

            — O que tem ele?

            — Anda dizendo que o Osmar é um péssimo jornalista.

            — Hum... E daí?

            — E daí? Ah, se fosse comigo!

            — E foi contigo?

            — Não.

            — Então, tá resolvido.

            — Mas...

            — Olha aqui, Antônio, enquanto a língua do Mauro é um escorregador, o Osmar parece que nasceu com uma batata em cada ouvido. 

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