Osmar Augusto Bastos, jornalista há década e meia, defendia com unhas e dentes o apaziguamento. Os adversários e até os amigos costumavam provocá-lo. Talvez, assim, o sujeito tomasse uma atitude, certamente com os brios feridos. Que nada!
— Tu é mesmo um frouxo, Osmar!
— Do que você está falando, meu caro Antônio?
— Quando é que tu vai responder àquela afronta?
— Afronta?
— Pois não viu o Mauro afirmar que tu não passa de um zero à esquerda quando o assunto é escrever uma matéria decente pro jornal?
— Ele disse isso mesmo?
— Pois não estou te dizendo, homem?
— O Mauro?
— Sim! E quem mais?
— Hum...
— E o que tu vai fazer? Coisa pequena não há de ser.
— Nada.
— Nada?
— Pessoas têm opiniões, meu caro Antônio.
— Pois tu é mesmo um cagalhão!
Osmar poderia levar aquelas palavras para o coração, mas preferiu abster-se de contendas desnecessárias. Melhor seria escrever um poema. Inspiração não lhe faltava, até a simplicidade de vestimenta de um solitário joão-de-barro ganharia cores a cada verso.
Antônio, há poucos meses na redação, talvez entendesse aquela atitude como de alguém pusilânime, e isso o incomodava, como se fosse preciso encarar a ofensa como algo grave. Pensou em ir tirar satisfação com Mauro, porém, desprovido de sustança corporal, preferiu fazer nova investida no colega.
— Osmar, você sabe que isso não pode ficar assim, né?
— Hum... Creio que você tem razão.
— Ah, até que fim! Tu vai tomar uma atitude. Que bom!
— Você acha que poesia com rima está fora de moda?
— O quê?
— Poesia. Com ou sem rima?
O homem se aproximou e percebeu que Osmar estava escrevendo umas estrofes. Puxou o ar com força e o expeliu logo em seguida. Sem perspectivas de resolver algo que o incomodava, apesar de não lhe dizer respeito, Antônio foi ter uma conversa com Armando, o editor-chefe.
— Armando, tu tá sabendo o que anda acontecendo por aqui?
— Não.
— O Mauro.
— O que tem ele?
— Anda dizendo que o Osmar é um péssimo jornalista.
— Hum... E daí?
— E daí? Ah, se fosse comigo!
— E foi contigo?
— Não.
— Então, tá resolvido.
— Mas...
— Olha aqui, Antônio, enquanto a língua do Mauro é um escorregador, o Osmar parece que nasceu com uma batata em cada ouvido.
- Nota de esclarecimento: O conto "O ruído dos outros" foi publicado no Notibras no dia 22/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-ruido-dos-outros/

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